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MIGUEL TORGA: BICHO E POETA Martinho Gonçalves
Biografia 12-08-1907 - Nasce Adolfo Correia da Rocha, na casa paterna, em S. Martinho de Anta. Filho de pai jornaleiro, mãe doméstica e neto de almocreves e cavadores. Sua mãe arrasta-se da Eira, contígua à habitação, já crucificada de dores para o parir debaixo de telhas.
ROMANCE
Miguel Torga. O Outro Livro de Job (1936). 1913-1917 - Primária de S. Martinho de Anta com Distinção - Criado numa casa de senhores que viviam no Porto. 1918 - Matricula-se no seminário de Lamego. 1920 - Emigra para o Brasil. Fazenda Santa Cruz, de um tio paterno (Minas Gerais). Escreve os primeiros versos. 1924 - Frequenta o Ginásio Leopoldina. 1925 - Regressa a Portugal para completar os estudos. O tio envia-lhe as mesadas. Faz os sete anos do liceu em apenas três. 1928 -Inicia o curso de Medicina na Universidade de Coimbra e publica a sua 1ª obra: Ansiedade. 1929 - Inicia a sua colaboração na revista Presença. Passado um ano, rompe a ligação com a revista, por questões de ordem artísticas e literárias. A 3 de Janeiro de 1932, escreve o poema "Santo e Senha", que iria figurar na primeira página dos seus dezasseis volumes do Diário.
Santo
e Senha Diário I 1933 - Conclui o curso de Medicina e inicia actividade em S. Martinho de Anta. Decidiu abandonar a sua terra porque os ricos hostilizavam-no, subvertia a ordem social reinante, os pobres não tinham dinheiro para pagar e muitos ainda não aceitavam a ciência da medicina como cura dos seus males. Uma das experiências mais dolorosas deu-se no início da sua actividade profissional, anotando no Diário a 7 de Novembro de 1934 "Um médico nem sequer pode chorar. Só pode pegar no bracito magro e morno, apertar a artéria inerte e ficar uns segundos a trincar os dentes. Depois sair sem dizer nada. Quem saberá por aí uma palavra para estes momentos? Uma palavra para um médico dizer a esta mãe, que entregou á vida um filho vivo e recebeu da vida um filho morto". Como médico dá amor e amparo mas como escritor reaje contra os "tartufos sãos e gordos que fazem da arte um meio para atingirem inconfessados e sujos fins." (Diário II, 22 de Junho de 1942). Como Médico e poeta, as suas acções foram sempre no sentido de inscrever e gravar no espírito alheio uma mensagem de esperança e perseverança quando tudo desespera e se subjuga. Relativamente à sua profissão, anota o seguinte no Diário, em 19 de Fevereiro de 1989: " na minha já longa vida de médico, só tive uma preocupação: entender o sofrimento alheio mesmo quando ele objectivamente me parecia injustificado. Não o julgar em caso algum uma fraqueza a reprovar, mas uma desgraça a remediar. E confessei mais do que observei, vali-me mais do coração do que da sabedoria. Enxuguei mais lágrimas do que receitei. Fiz da esperança a grande arma do meu arsenal terapêutico." Contudo, ao ser humano, em todos os empreendimentos humanos e imateriais, ele deixa a mensagem de esperança em alguns dos seus belíssimos poemas: Coimbra, 27 de Dezembro de 1977
Sísifo Miguel Torga
Confiança
O que é
bonito neste mundo e anima Miguel Torga No mesmo ano de 1933 dá-se a morte de Fernando Pessoa, que o poeta vai chorar pelos pinhais. De Fernando Pessoa afirma em Traço de União que é "um caso à parte pela sua complexidade intelectual, originalidade e cultura. A inteligência vibra nos seus versos com a intensidade da emoção. E as duas forças controlam-se e revigoram-se mutuamente. (...) Duma simplicidade que tão genial parece infantil. (...) Não é um poeta a mais que aparece: é uma presença que balisa uma época." (pg.95). Até 1934 publica Rampa, Tributo, Pão Ázimo e Abismo (obras poéticas). Em 1934 publica A Terceira Voz, passando a assinar o seu alterónimo: Miguel Torga. É na Obra "A Terceira Voz" (1934) que, à imagem de Cristo, se dá a transfiguração do Adolfo para Miguel Torga. Sai de cena o cidadão Adolfo Rocha e é entregue à sanha farisaica o Cristo que ele próprio pensara existir nele, Miguel Torga. "Com um ósculo vo-lo entrego. Chama-se Miguel Torga. Somos irmãos e temos a mesma riqueza. Mas há dias reparámos nesta coisa simples: para que aos vossos olhos um de nós surgisse Cristo, necessariamente o outro tinha de fazer de Judas. (...) digo que a minha voz mudou - porque o horizonte é maior. Por isso fica o Outro. Ficas tu, Miguel Torga." Miguel Torga - Alterónimo de Adolfo Rocha. Alteridade, porque se eleva mais do que o cidadão Adolfo, é um outro eu que viverá conjuntamente, relacionando-se intrinsecamente que não deixa de escutar e entender o homem mortal, o ser terreno, pecador e complexo como qualquer outro mortal, em que essa tensa dualidade acabaria só a 17 de Janeiro de 1995. Miguel = homenagem a Miguel Ângelo, Miguel de Unamuno e Miguel de Cervantes. Torga= urze que cresce nas zonas montanhosas, nas fragas, que resiste ao calor, à intempérie e à geada, que serve de material combustível às gentes pobres da montanha, que não necessita de cuidados, rústica, de cor sóbria. Poderia fazer-se a alusão à dualidade entre Miguel=arcanjo e Torga=planta térrea. Para se compreender toda a sua caminhada torna-se imprescindível conhecermos o meio físico-temporal que o formou (a fraga de onde ficou a olhar e compreender o mundo), mas também o Cristo e o Cirenéu que convivem em si. 1936 - Publica O Outro Livro de Job. Funda com Albano Nogueira a revista Manifesto. Vislumbrando a grandeza da obra e traçando as características iniciais e profundas de Torga, Nemésio, em 1938, escreve o seguinte: "Já se começa a saber que Miguel Torga é um dos maiores poetas portugueses modernos, e já é tempo de se explicar que essa modernidade alcança, pelo menos, a geração simbolista. (...) Miguel Torga (...) apareceu com as seguintes características: uma espécie de ferida original de um combate com Deus, as unhas cheias de terra a que se agarrou ao cair, e, nesta atitude, uma voz monocórdica, vibrante de orgulho, que lança no coro português um solo desabrido e doloroso. Ele bem dizia: Ainda que eu cantasse como os outros, / Uma nota saía discordante... Essa nota é o timbre da teimosia em se sentir Único, - Adão, Moisés, Cristo, Quixote, Miguel Torga..." (Vitorino Nemésio, in Revista de Portugal, nº 2, Coimbra, 1938). Torga, nunca esquecendo Deus, teve sempre a coragem de o negar. O Outro livro de Job será uma das obras mais emblemáticas da sua escrita e libertação inicial. É a recusa de um Deus que não humano, fraterno, justo. Basta ler os três poemas das Lamentações, De Profundis ou Livro de Horas para nos consciencializarmos que estamos perante um ser humano autêntico, leal, singular e combativo, para dizer que era ele, Anjo e Monstro, Corda e Arco, Charco e Luar de Charco, que vai ao leme da sua própria nau e se afirma pecador perante a sua própria consciência, afirmando o seu antropocentrismo ecológico. 1937 - Publica os dois primeiros volumes do romance Autobiográfico Criação do Mundo. Viajem pela Europa. 1940 - Preso pela PIDE. Aljube (poema Ariane). Casa em Julho com Andrée Crabbé. Publica Bichos. Lisboa, cadeia do Aljube, 1 de Janeiro de 1940
Ariane De Ariane, o veleiro. 1941 - Abre Consultório no Largo da Portagem - Coimbra. Publica o primeiro dos seus dezasseis volumes do Diário. Em Torga, a poesia é religião: meio de comunicar com o ser humano e com o transcendente. Perguntaram-lhe um dia "porque não deixava de escrever durante uma temporada? Porque era a mesma coisa que um crente deixar de rezar um mês ou dois por higiene." (Diário, 24 de Agosto de 1942).
À
Poesia
1947 - Andrée Crabbé é expulsa da docência na Universidade de Letras. 1955 - Publica Traço de União e nasce a sua filha. Diário VIII - S. Martinho de Anta, 29 de Outubro de 1955 - O solar da família, térreo, de telha vã, encimado pelo seu brasão de armas esquartelado, com enxadões em todos os cantos... Foi desta realidade que parti, e é a esta realidade que regresso sempre, por mais voltas que dê nos caminhos da vida. É uma certeza de marcos com testemunhas, que nunca me deixa desorientado quando quero avivar as estremas da alma. (...) (...) Nasci povo, povo continuo, e povo quero morrer. A burguesia compra-me algum suor e alguns livros, mas é confiado na subversão do seu poder que vivo. Aliás, quer profissionalmente, quer literariamente, ainda é quando ponho as mãos e molho a pena nas chagas e no sangue dos meus que dou o melhor de mim. Foi na clínica rural que me senti médico a sério, e cuido que as coisas mais válidas que escrevi sabem à terra nativa que trago agarrada aos pés.(...) TRAÇO DE UNIÃO - título alusivo à ligação de duas realidades que têm o mesmo significado, em diálogo e que representam algo mais do que cada uma isoladamente bem como a sua soma. O Brasil é a grande aventura da Juventude de Torga. É aí que possui o corpo da primeira mulher, que chora convulsivamente os seus medos e saudades, que muda as suas escalas visuais, gustativas, olfactivas, escreve os primeiros versos, que sofre na pele a discriminação de seus irmãos e a que se vê forçado a repensar a importância dos valores humanos, de forma a compreender um novo mundo que lhe entrava pelos sentidos às catadupas. Na obra Traço de União (1955), em que compila várias intervenções proferidas por si no País irmão, lança-se à tentação de traçar o perfil psicológico do português e do brasileiro. É o próprio traço que une as duas pátrias. Dá a verdadeira imagem do português simples e comedido. Do Transmontano, sísifo teimoso, condenado a carregar fragas toda a vida, em que a sua verdade íntima é poder ser "um caibro no tecto de Portugal. Dum "povo estóico, despretensioso (...) que é dos mais pobres da terra, e a quem a terra deve parte do seu tamanho e muito da sua significação." Quanto ao Brasil, previa um papel primordial perante a humanidade. "País Jovem, confiante e socialmente impetuoso. (...) Polarizador, que tudo digere no seu corpo imenso de gibóia, e tudo assimila e tudo revela depois a uma luz táctil, gostosa e macia". Falou de um Portugal que "serve o mundo em vez de o dominar, que regressa antes de ser expulso, que numa hora de aflição arranca um dente para lhe servir de bala, mas capaz de dar o seu nome, sem se sentir diminuído, ao filho da escrava que amou." 1958 - Homenagem pelos seus colegas de curso. Colocação de uma placa na Republica onde viveu com estudante. 1959 - A censura apreende o Diário VIII. 1960 - Proposto para Prémio Nobel da Literatura. Diário X - S. Martinho de Anta, 28 de Dezembro de 1964 - "É aqui, na solidão e no silêncio das noites à lareira, agarrado ao verbo, que avalio com precisão o peso da minha cruz. Realmente, ninguém me podia ajudar, nem a arrastá-la, nem a torná-la mais leve. Isto é só comigo." 1967 - Discursa em Coimbra no centenário da abolição da pena de morte. 1973 - Viajem a África. Quem lê de uma assentada o início do Diário XII e todas as anotações do Continente solar, certamente não fica indiferente à alerta dos sentidos perante toda a pujança, calor e pulsar de África. Contudo, o poeta regressa desanimado por constatar que Portugal, no encontro com essa cultura, não celebrou a vida. Há um distanciamento cultural intransponível, contrariamente ao que se deu no Brasil.
Breve Adeus
É um adeus
que te digo num poema, Diário XII 1975 - Participa em vários Comícios políticos, numa atitude cívica e lúcida. 1977 - Recebe o Prémio Internacional de Poesia, em Bruxelas. 1978 - É novamente proposto a prémio Nobel. Homenagem na Fundação Gulbenkian pelos seus 50 anos de actividade literária. 1980 - Prémio Morgado de Mateus, conjuntamente com Carlos Drummond de Andrade. 1981 - Prémio Montaigne. 1988 - O jornal "Le Monde" escreve a 12 de fevereiro "... o júri do Nobel não procederia mal se olhasse para esse extremo do continente premiando a obra de Torga". 1989 - Prémio Camões. Primeiro galardoado. 1991 - Publicação de número integral da revista de Bordéus "Le Cheval de Troie", dedicado a Torga. A Associação Portuguesa de Escritores propõe, novamente, Miguel Torga ao prémio Nobel. 1992 . Prémio "Personalidade do Ano 1991". Colóquio Internacional sobre Miguel Torga na Universidade de Massachusetts. 1993 - Publica a sua última obra: Diário XVI. No último parágrafo do seu Romance Autobiográfico A Criação do Mundo escreve: "Sim, a vida ia continuar. Outros dias viriam cheios de sol, de flores e de frutos. Mas não seriam meus." 17-01-1995 - Falece no Hospital Oncológico de Coimbra um escritor completo e Universal com cerca de 55 obras publicadas (poesia, conto, romance, teatro, intervenção, diário). Foi a Sepultar em S. Martinho de Anta, em campa rasa da família, apenas com uma pedra de granito das suas montanhas a cobrir a terra. O cortejo fúnebre foi directo de Coimbra para S. Martinho de Anta, sem cerimónias religiosas, passando pelo trajecto habitual em vida, num último adeus a um dos seus cenários de eleição perante o qual afirma ter pena de não poder deixar os olhos, em testamento, a sua filha. De toda a mitologia Grega, Torga tem particular interesse e curiosidade científica por Anteu, filho da Deusa Terra. Coloca ele próprio à prova a verdade de tal encontro. É ele próprio o Anteu que quando se sente em desânimo perante tantos obstáculos da vida (basta lembrar o seu espírito rebelde, independente, insubmisso, lúcido, de valores sólidos, a sobriedade da sua postura e acções e a sua autenticidade sem interrupção englobando o homem e o poeta que habitam nele) regressa a S. Martinho de Anta para recuperar as energias e retemperar o espírito. Afirma-o por várias vezes como é exemplo no Diário "S. Martinho é um lugar de onde e não para onde...", ou "Aqui estou a tonificar a esperança. Aqui, onde tudo a legitima, porque os próprios mortos continuam vivos em cada palavra e em cada gesto dos sobreviventes. Planto dálias, podo e estrumo o jardim. Sonho o futuro florido, em vez de me ensimesmar no presente lúgubre, tetanizado num desespero estéril. Sei que só ele parece curial em certas ocasiões, mas quero chegar ao fim conciliado comigo e com a natureza, poeta, de cara levantada, sem me render, como sempre vivi. Alma até Almeida, diz o povo. E o povo é um livro aberto, ele que conhece a vida como ninguém e nunca desanima, mesmo nos piores momentos. Por isso, quando me sinto debilitado, meto-me a caminho, a repeti-lo mentalmente no meu tom: alma até S. Martinho de Anta! E o resto se verá..." (Diário XV - S. Martinho de Anta, 26 de Março de 1988) O Mito de Anteu leva-nos necessariamente ao conceito de Telurismo - Termo caro a Miguel Torga em toda a sua obra. O poeta é, sem dúvida, o arquétipo do transmontano, mas ao mesmo tempo, como afirma numa conferência aquando da sua visita ao Brasil, onde afirma que "O local é o Universal sem paredes", também ele se torna autêntico, verdadeiro, um caleidoscópio que pode ser visto de vários prismas e em vários tempos e sempre verdadeiro e original. É o segredo que o canto do melro lhe transmite todas as manhãs: sempre igual e sempre diferente, original pela sua naturalidade. Já sem analisarmos a obra "Portugal" em que Torga divide o País em regiões ou locais psicofisiogeográficos. Analisou e descreveu o homem português integrado no seu meio, sendo o espelho do meio físico e social circundante. Ruben A. considera a obra de grande alcance, uma pedrada nas mentalidades rasteiras da época, chegando a afirmar que, em Portugal, se não existissem homens como Torga era o desterro. O próprio acto venatório, é em Torga a busca do instintivo, permitindo-lhe o conhecimento da região, servindo de inspiração para alguns contos, poesias como é o caso do Poema "S. Leonardo de Galafura" que vem á tona após vários anos de maceração, durante uma jornada de caça perto de Ordonho, em que se vislumbra o tal navio que vai sulcando as ondas da eternidade. Há como que uma simbiose entre o poeta e a terra que pisa e trás agarrada aos pés, apresentando-se como uma extensão natural da grande mãe Terra, mas não esquecendo o todo cósmico em que se insere. Trata-se, pois, de uma lucidez da mente e simplicidade de acções, características da gente do seu povo mais original, que põe num rifão toda uma verdade incontestável, fruto da sua experiência, sentido de medida e perspicácia. Quando o cidadão Adolfo Rocha entrega Miguel Torga à posteridade, também ele sabe que a sua mãe será de outra dimensão: mais possessiva, ciumenta, sem deixar de ser uma dádiva permanente, aconchego das agressões, confidente, possuidora da verdade das leis da vida, e é no poema Identificação, escrito já na parte final da sua vida que recorda e reaviva mentalmente a sua condição. Coimbra, 28 de Outubro de 1984
Identificação Diário XIV A obra Bichos, Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha espelham bem o conhecimento que ele detém do ser humano, na sua condição de Ser com toda a carga trágico-dramática que implica o combate da vida fremente, pulsiva, impiedosa, amarga. Torna-se, pois, impossível afirmar-se como filho de Trás-os-Montes, Portugês, Ibérico e Universal sem um conhecimento profundo dos tropismos humanos, do torrão e das fragas que traz na retina desde menino, do ser humano nas várias escalas sociais em que está integrado. Para isto certamente contribuiu bastante a sua formação e actividade profissional de Médico. Para além da anatomia, reacções, sintomas e todo um fisiológico harmonioso, homeostático, que reage ao meio, é também a anamnese (que ele tanto apreciava) a empatia, a compreensão do todo humano que se apresenta à sua frente com uma história de vida particular, que procura mais vezes a palavra, o ombro e a compreensão do que todos os fármacos existentes. É esse humanismo que Torga nos dá conta ao longo do seu Diário. Quantos corpos debilitados, almas agredidas ou sofridas, amigos, colegas, cidadãos, mães, pais, filhos, estudantes procuraram no seu consultório a compreensão física, psicológica e social, perante uma sobrevivência ameaçada? Trata-se de um dos homens do século XX que mais suou, lutou e compreendeu o ser humano, sem nunca abandonar os seus, num afã estóico, na esperança de um mundo mais fraterno, solidário e sobretudo livre. No que se refere à liberdade, conquistou-a a pulso, não embandeirou em modas, grupos partidários ou revoluções. Não deixando de se afirmar um socialista humanista, nunca aceitou qualquer cargo político, nunca foi militante partidário, não emigrou quando se viu perseguido, vigiado e ofendido, não deixando de publicar em papel o que pensava de Portugal e do Mundo. Para isto atesta o facto da sua obra ser publicada em Edições de Autor, responsabilizando-se ele próprio perante a possibilidade de censura (o papel era simples, com capas de cartão branco, de forma a ser mais acessível ao leitor). Congratula-se pela instalação da democracia, não tem fé nos militares, afirmando que a revolução "já é um passo... oxalá não seja eternamente de parada" e condena alguns excessos e presunção por parte de muitos que nada sofreram e que se alardeiam agora pelas ruas fora. A Liberdade é algo muito mais pessoal, com raízes mais profundas do que um simples sistema socio-político, está em cada um de nós, cabendo-nos a tarefa de quebrar a cada dia um grilhão dessa corrente que nos tolhe o espírito e dilacera o corpo. A liberdade é uma conquista permanente e uma penosa conquista solitária, apesar da plena consciência de ser gregário e amor pelo ser humano: ...
Livre não
sou, que nem a própria vida Miguel Torga O poema "Liberdade" remete-nos para essa conquista solitária que empreendeu ao longo da sua vida:
LIBERDADE Miguel Torga
É um Orfeu Rebelde, que lamenta a perda original iniciada com o seu nascimento "quis o destino que eu fosse Poeta, e começaram as dificuldades", e que incita, com a sua poesia, a rebeldia, a obstinação, o conhecimento, o amor, a vida, ar livre. À entrada da sua obra Poética, "Orfeu Rebelde" avisa o leitor que não engana porque não sabe mentir, que nasceu subversivo e sai antes de entrar de cada paraíso. "Orfeu Rebelde, canto como sou: / Canto como um possesso / Que na casca do tempo, a canivete / gravasse a fúria de cada momento; / ... Outros, felizes, sejam rouxinóis... / Eu ergo a voz assim, num desafio: / Bicho instintivo que adivinha a morte / No corpo de um poeta que a recusa..." É o tal solo desabrido e doloroso de que fala Nemésio prevendo um futuro grandioso para Torga. Torga espera uma sociedade mais justa e perfeita, mais humana, em harmonia com o meio. Ele é, como afirma António Arnaut, ex-Ministro da Saúde, aplaudido por Torga pela criação do serviço nacional de saúde "um Mestre da língua e da Portugalidade, consciência moral da nação, que assimilou o protoplasma da pátria (...). É exemplo de honradez e lisura de carácter." Apesar de toda a sua complexidade intelecutal, do domínio da escrita e do bisturi, o bicho teima em vencer o poeta. Ele próprio afirma que é mais instintivo que intelectual, mas consegue dar-nos essa lição de vida, alcançando a imortalidade sem deixar de ser Homem, de se lembrar que ele próprio é a fidelidade, a aventura e o instinto do Nero; o Orgulho da Madalena; o sacrifício e a resignação do Morgado; o ser reservado, guardião da ciência da vida do Bambo; a força vital do Tenório; a inocência do Jesus; a experiência e perspicácia de vida do Ladino; a solidariedade do Farrusco; a nobreza do Miura; o Poeta que sabe que cantar é acreditar na vida e vencer a morte como a Cega-Rega, isto a par da sua Rebeldia, da busca incessante da Liberdade exemplificada no corvo Vicente. Miguel Torga dá sentido à Vida porque nunca se esqueceu da sua condição, que era todo feito de lodo como Adão, que há um ser antes do saber, que o conhecimento de nada vale sem a presença de tudo o que é humano, natural e caloroso, como afirma no prefácio da obra Bichos: "Ninguém é feliz sozinho, nem mesmo na eternidade", e que seria um traidor a uma "solidariedade de berço, umbilical e cósmica" perante a angústia do seu irmão Homem. S. Martinho de Anta teve a sorte de ter visto nascer nas suas fragas um Homem deste tamanho, um poeta maior, uma personalidade ímpar na história mundial do século XX.. E quando se pensava que se esqueceria dos seus lá está o Centro de Saúde e a farmácia a funcionar com o seu empurrão, uma Instituição de Solidariedade Social implantada no terreno que doou, famílias em habitações sociais também em terreno doado, a lixeira a céu aberto longe da Serra que venerava e do seu Douro sagrado, a Serra da Sr.ª da Azinheira viu-se emoldurada por um pinhal que ele tanto apregoava e o seu mobiliário do escritório no Largo da Portagem a servir os seus concidadãos. Nas visitas fugazes à sua terra ainda tinha tempo para atender gratuitamente os doentes necessitados. Neste sentido, sinto-me duplamente honrado por estar aqui a falar, não só de um dos maiores poetas, mas também do conterrâneo mais ilustre que tive a sorte de conhecer e ler. Coimbra, 8 de Julho de 1977
Voz
Activa A Miguel Torga Um abraço daqui, deste lugar e nesta hora. |