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Vida
e Obra de Fernando Pessoa - Resumo
joaquim evónio
Fernando Pessoa
nasceu no dia 13 de Junho de 1888, dia de Santo António, por
isso se chamava Fernando António Nogueira Pessoa.
Ainda era
criança quando o seu pai faleceu e, como sua mãe
contraiu segundas núpcias com um diplomata, haveria de
deslocar-se para a África do Sul, o que marcaria para sempre a
sua vida. Aí, aos quinze anos de idade, seria agraciado com o
prémio literário Rainha Vitória.
Depois de
regressar a Portugal veio a tomar parte no importante movimento da
"nova literatura" que se denominou "Orpheu", ao
lado de figuras como Casais Monteiro, Alfredo Guisado, José
Almada Negreiros, Mário de Sá Carneiro e outros.
O movimento
Orpheu, de tão inovador, provocou grande escândalo na
altura, e deu azo a perseguições dos seus membros,
considerados loucos e incómodos. A revista do grupo, com o
mesmo nome, era suportada financeiramente pelo pai de Mário de
Sá Carneiro, oficial do Exército, que cortou a colecta
ao terceiro número, tendo assim saído assim apenas
dois. O terceiro número existe todavia em fac-símile. O
editor era na altura um menor de dezasseis anos que dava pelo nome de
António Ferro.
Este mesmo
António Ferro viria a ser o responsável pela
prorrogação do prazo do concurso que assim viria a ser
ganho por Fernando Pessoa com a sua conhecida "Mensagem",
único texto que publicou em vida, apesar de tudo bem pouco
conhecido. A parte mais popular, digamos assim, "O
mostrengo", começou por ter um título bem
diferente: era "O vampiro".
Tendo dado os
primeiros passos literários, como vimos, na África do
Sul, Fernando Pessoa era altamente proficiente em inglês. Ali
também fez as primeiras incursões nos domínios
que lhe eram tão caros da criação de heterónimos.
As suas cartas
comerciais eram também literariamente perfeitas. Depois da sua
morte, a empresa onde trabalhava recebeu de Londres uma missiva em
que um cavalheiro inglês perguntava qualquer coisa deste
género: "Que é feito daquele senhor com cujas
cartas eu ensinava a minha filha a falar inglês?"
De vez em quando
ausentava-se do emprego para voltar pouco depois: tinha ido "ao
Abel" (ao Abel Pereira da Fonseca, tomar o seu copo),
municiar-se para continuar o trabalho. Apesar de ser comum dizer-se
que o Poeta bebia, diz quem sabe que nunca ninguém o viu
embriagado em toda a vida. Era pois muito mais comedido do que
às vezes lhe é atribuído.
Fernando Pessoa
escreveu um dos textos mais maravilhosos do mundo literário: Tabacaria.
Também sob
o semi-heterónimo de Bernardo Soares deixou-nos "O livro
do desassossego" uma obra-prima da literatura universal,
resultante da sua vivência pelas realidades de Lisboa.
É claro
que o Poeta, Escritor e Filósofo não aprovaria a
publicação duma grande parte dos textos que deixou no
baú, basta ver o grau de exigência que aplicou
selectivamente à produção do seu Amigo e sombra
Mário de Sá Carneiro.
Trago agora
à colação o livro "Esboços
Pessoanos", aqui apresentado em 3.ª edição
bilingue, neste Encontro de Lusofonia, e sirvo-me dele para continuar
a falar de Pessoa.
Este livrinho
nasceu sobre desenhos de José Jorge Soares, os poemas
são as suas legendas, embora procurando uma intertextualidade
pessoana. Viria a ser enriquecido com uma versão em
inglês que já integrou a segunda edição e
vai ser publicado ainda este ano em S. Paulo, Brasil, em mais
três línguas: castelhano, francês e italiano.
Pouco antes de
suicidar-se em Paris, Mário de Sá Carneiro escreveu a
Fernando Pessoa dizendo qualquer coisa deste género:
"Quando receberes esta carta, já terei tomado dois
punhados de estricnina&..." . Eis a resposta que Fernando
Pessoa poderia ter-lhe dado:

desenho de
José Jorge Soares
Carta
para Paris
Tenho andado pensar,
meu caro Mário,
por que
será que os poetas
sempre morreram
e ainda morrem
de cirrose,
overdose, tuberculose
e outras formas
de suicídio programado!
O inconformismo e
a luta
dão-lhes
uma vida filha da puta
(desgaste de energia
sem fim!).
Por isso
não se pergunte
aos poetas da poesia
mas aos
políticos da orgia
por que morrem assim?...
Ainda continuando
a evocar esta profunda ligação entre ambas as figuras
do Orpheu, passo a ler um excerto do "Posfácio", do
escritor e Poeta Paulo Brito e Abreu:
"E se o
caleidoscópico Fernando Pessoa, ao que sabemos, não
despiu o seu corpo perante a Ofélia, despiu entretanto a sua
Alma chagada, e chagada em carne viva, perante os companheiros do
"Orpheu" e muito especialmente perante o seu duplo, o seu
fantasma, a sua sombra: é claro que falamos, falamos e
chamamos, por Mário de Sá-Carneiro. Cremos ser nesse
sentido, e sentido metaforicamente, que José Jorge Soares faz
o esboço ou escorço do Rei-Lua ou Esfinge Gorda como
evolando-se, num traço progressivamente pleno e
enigmático, do fumo tabagista e do "cigarro
proletário" do "Virgem Negra" sob cuja
filiação este livro se imprimiu."
Esta
ligação permanente teve a sua tradução no
seguinte poema:
desenho de
José Jorge Soares
Omnipresença
O poeta,
ente solitário,
senta-se à
mesa do café.
Fica pensando,
fumando
seu cigarro proletário.
Da cinza,
cai o poema.
do fumo,
evola-se o Mário!
E Ofélia
também não poderia ter sido esquecida, dado o peso que
teve na vida do Poeta:

desenho de
José Jorge Soares
Ofélia
Eu sei!
O mundo fala de mim
sem entender
que o amor é,
ao mesmo tempo,
casto e sensual...
Um dia,
alguém
julgará o meu ardor
pois
o que a minha alma
mais deseja e quer
é o calor suave
do teu suave
corpo de mulher!
Entretanto, para
terminar, ocorre recordar algumas palavras proferidas no dia 16 de
Março de 1994, no santuário que é a Casa
Fernando Pessoa, onde o Poeta viveu e foram lançadas as
anteriores edições destes "Esboços":
"Um dos mais proeminentes
românticos da nossa literatura disse um dia que é uma
pena quando os nossos amigos não são amigos uns dos
outros. Aqui, no espaço paradigmático e
insubstituível da Casa Fernando Pessoa, estamos a colocar em
evidência, de forma simples e de coração aberto,
que, mesmo no mundo cada vez mais materializado em que vivemos, ainda
há espaços de convergência para o exercício
da evocação e da solidariedade.
Neste mesmo dia,
no último ano da sua vida, o Poeta escrevia o poema
"Liberdade" :
LIBERDADE
Ai que prazer
não
cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem
ou mal,
sem
edição original.
E a brisa, essa,
de tão naturalmente matinal
como tem tempo,
não tem pressa...
Livros são
papéis pintados com tinta.
Estudar é
uma coisa em que está indistinta
A
distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor
é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a
poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do
mundo são as crianças,
Flores,
música, o luar, e o sol que peca
Só quando,
em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não
sabia nada de finanças,
Nem consta que
tivesse biblioteca...
Nota: Ao longo da
intervenção, a propósito da heteronimia .
Alberto Caeiro - foram citados vários excertos do
notável texto de Cid Seixas "A Poesia como
Metalinguagem" - disponível também em:
http://www.revista.agulha.nom.br/cseixas05c.html
***
Carmo Vasconcelos:
Começo com
um poema meu feito expressamente para um Jantar de Homenagem ao
Poeta, organizado pela Associação Fernando Pessoa no
Café Martinho da Arcada, em Lisboa - ano 2003)
POETAS
Poetas nos
dizemos, tu e eu
mas a Divina Mestria
está para
além do que somos
Nossos versos...
Poesia...
São apenas
magros gomos
duma iguaria completa
Gotas breves
dum mar que imortalizou
o verdadeiro Poeta
Que a dor nunca
nos doa
do poeta que
não fomos
do estro que
não floriu&ldots;
E bendigamos a asa
que ao de leve
nos tocou
poeira que se espargiu
e nós
pegámos à toa
quando a
"esquina dobrou"
o grande mestre PESSOA
***
Sobre a sua Biografia:
Nada como deixar
aqui as próprias palavras do poeta:
"Se depois
de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia/Não há
nada mais simples/Tem só duas datas - a da minha
nascença e a da minha morte/Entre uma e outra todos os dias
são meus".
Notas complementares:
Segundo o poeta e
crítico brasileiro Frederico Barbosa, Fernando Pessoa foi
"o enigma em pessoa"; o poeta mexicano ganhador do Nobel de
Literatura, Octávio Paz, diz sobre F. Pessoa que "os
poetas não têm biografia - sua obra é sua
biografia" e que, no caso do poeta português, "nada
em sua vida é surpreendente - nada, excepto seus poemas"
; e o crítico literário estadounidense, Harold Bloom
considerou-o no seu livro "The Western Canon", o mais
representativo poeta do século XX, ao lado do chileno Pablo Neruda.
Pessoa escreve o
seu primeiro poema aos 7 anos de idade e escreve até mesmo no
leito de morte. Nos últimos momentos da sua vida pede os
óculos e clama pelos seus heterónimos. A sua
última frase é escrita no idioma no qual fora educado,
o inglês: "I know not what tomorrow will bring"
("Não sei o que o amanhã trará")
Pessoa e o Ocultismo:
Fernando Pessoa
possuía ligações com o ocultismo e o misticismo.
Tinha o hábito de fazer consultas astrológicas para si
mesmo (de acordo com a sua certidão de nascimento, nasceu
às 15h29, tinha ascendente Escorpião e o Sol em
Gémeos. Realizou mais de mil mapas astrais.
Lendo uma
publicação inglesa do famoso ocultista Aleister
Crowley, Pessoa encontrou erros no horóscopo e escreveu ao
inglês para corrigi-lo, já que era um conhecedor e
praticante da astrologia, conhecimentos estes que impressionaram
Crowley e o fizeram vir a Portugal para conhecer o Poeta. Junto com
ele veio a maga alemã Miss Jaeger que passou a escrever cartas
a Fernando assinando com um pseudónimo ocultista.
Mas, não
só a astrologia o fascinava. Como eu relato no meu estudo
"A Fase Mística de Fernando Pessoa", elaborado em
2003, que se reporta principalmente à fase Rosicruciana,
fase em que o poeta estudou e aprofundou toda ou quase toda a
literatura que existia acerca da história dos RosaCruzes.
Desde muito jovem, Pessoa se interessou pelo mistério e pela
metafísica, como o testemunham poemas intitulados
"Metempsicose", "O Círculo" e
"Nirvana", ou fragmentos de ensaios, numa precocidade que
ia já de encontro à sua tese "o génio
é um iniciado de nascença". Já numa carta
de 1915, dirigida ao seu malogrado amigo Mário de Sá
Carneiro, Pessoa escreve a propósito dos livros
teosóficos que fora convidado a traduzir: "O
carácter extraordinariamente vasto desta religião
filosofia; a noção de força de domínio,
de conhecimento superior extra-humano que ressumam as obras
teosóficas, perturbaram-me muito. Assim como a leitura de um
livro inglês sobre "Os Ritos e os Mistérios dos
RosaCruzes." A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a
verdade real me hante."(sic).
Os heterónimos
Através
dos heterónimos, Pessoa conduziu uma profunda reflexão
sobre a relação entre verdade, existência e
identidade. Este último factor possui grande notabilidade na
famosa misteriosidade do poeta.
Falarei apenas, e
muito brevemente, de Álvaro de Campos. Entre todos os
heterónimos, foi o único a manifestar fases
poéticas diferentes ao longo de sua obra. Era um engenheiro de
educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a
sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo.
Começa a
sua trajectória como um decadentista (influenciado pelo
Simbolismo) mas logo adere ao Futurismo. Após uma série
de desilusões com a existência, assume uma veia
niilista, expressa naquele que é considerado um dos poemas
mais conhecidos e influentes da língua portuguesa, "Tabacaria".
Termino dizendo
os Poemas "Autopsicografia"e o "O Mostrengo", que
me abstenho de colocar aqui por serem de todos conhecidos.
E porque a
exposição já vai longa, passo a palavra a
Moisés Salgado que, como ninguém, através da sua
poesia, sente e exprime a sua ligação a Álvaro
de Campos.
***
Moisés Salgado:
Pois é!
Nós deveríamos ter aqui connosco o presidente da
Associação Fernando Pessoa. Infelizmente à
última da hora não pôde estar presente.
***
Esboçando
XXI
I
Completa-se o círculo
Prolonga-se uma recta
Os afazeres de
nada fazer
As piruetas de acrobata
Neste grande
circo universal.
Aqui estou
(Que é
feito do público?)
Entre cadeiras vazias
Ao longo de uma
enorme mesa oval
Na expectativa da reunião
Meticulosamente agendada
Com uma
antecedência formal.
Ah como a pontualidade
Que tão
querida me foi antanho
A desdenho hoje
E desdenho a
pontualidade da vida.
Prefiro os
enxovalhados lençóis
Da minha
desordenada guarida.
Antes ficasse no molhe
A ver passar o
fumo dos paquetes
E a recordar-me
do Álvaro
Fazendo-lhe
até mesmo companhia
Sentados lado a lado,
Gargalhando comentários
Em cadeiras
desarticuladas de convés
De tanto nos
remexermos na mira das suecas
De tanto nos
espreguiçarmos na moleza dos horizontes
Rebuscando
interiormente os nós dos nossos nós
Ele no navio
à distância de um século
Eu alongado na
areia molhada da praia
Tão
imaginária como a manhã que se me escapa.
II
Hei-de ir contigo
ò Álvaro
O meu Suez
relatará outras visões
Não
há dúvida que andamos de trambolhão em trambolhão
Ninguém a
ti te segurou a mão
Espera para ver
E certamente
farás de mim a mesma observação.
Talvez o
ópio que imaginámos
No oriente do
nosso oriente
Seja as cinzas
das miragens que pululam as nossas mentes.
Hei-de querer ir
e hás-de querer vir comigo
Sentar-nos-emos
num banquinho que idealizei para ambos
Junto ao castelo
dos mouros
Na estrada que
leva à serra
E na noite eterna,
Na nossa noite,
absolutamente concreta e imutável de infinita,
Juntar-nos-emos
às constelações
Sem querermos ser
mais que simples estrelas a tremeluzir
Já que
sabemos quanto custa o brilho da obscuridade.
Apaguem-se os
faróis que nos encandeiam
E fiquemos
distraidamente abstraídos
No aconchego azul
do nosso mar.
Murça, 2
de Julho |