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Intervenções sobre Vinícius de Morais Breve abordagem sobre a Vida e Obra de Vinícius de Moraes J. Verdasca Gentis Senhoras, nobres cavalheiros, Boa tarde. De acordo com o programa, cumpre-me fazer "Breve abordagem sobre a vida e obra de Vinícius de Moraes". Com o pouco tempo disponível oscilei entre: 1 - falar do HOMEM e abordar o Poeta e sua magistral criação; 2 - Dissertar acerca do desajustado Diplomata e/ou discorrer sobre o genial autor de Orfeu; 3 - Abordar o talentoso letrista e compositor da mundialmente famosa "Garota de Ipanema" ou o sonetista apaixonado deste soneto escrito em Oxford, berço de alguns dos seus mais belos sonetos:
Quando me ergui
ela dormia nua
Mas como esquecer o artista - o show-man - o cantor - o marido de 9 esposas oficiais e mais de outras tantas - digamos - oficiosas! E as incontáveis personagens por si vividas. Há quase quatro décadas no Brasil, o primeiro show a que assisti em S. Paulo foi de Vinícius, Toquinho e Maria Medáglia, num velho barracão do centro, repleto de jovens contestatários - vivia-se a fase mais violenta da ditadura - e Vinícius tinha trocado as apresentações nas boîtes de luxo por shows populares, depois de o Presidente da República ordenar ao Ministro dos Negócios Estrangeiros: - demita-me esse vagabundo! No centro do palco estava uma mesa e uma cadeira e atrás Toquinho (Parceiro) e os músicos. De repente, ouve-se um barulho infernal e aproxima-se um senhor atarracado - rosto vermelho, poucos, brancos e compridos cabelos, aparentando mais que os seus pouco mais de 50 anos, - trazendo um violão. Foi um delírio - todas aquelas jovens soltando altos gritos, suspiros, ais! Após as saudações habituais, sem pressa, Vinícius, acompanhado, canta a canção da moda: "A tonga da mironga do cabuletê". Só mais tarde vim a saber que em dialecto Nagô esse título significava algo impublicável: "O pêlo do cu da mãe"!!! Na biografia "O Poeta da Paixão", o autor José Castello diz textualmente: "Vinícius foi um Homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir". Discordo totalmente!. Afinal "o Homem é um ser espiritual vivendo uma experiência humana" e é essa experiência que o define, caracteriza e tipifica. Ninguém ultrapassa o que não atingiu nem desmente o que não afirmou.. Vinícius apenas seguiu em frente. Vinícius passou a juventude entre jesuítas e metafísicos, licenciou-se em Direito e entrou na Carreira Diplomática com pouco mais de 20 anos. Em 1932, aos 19 anos, tinha publicado o seu primeiro poema - "A transfiguração da montanha", de 132 versos - retrato do ambiente místico em que viveu sua juventude. Aos 25 anos e já apaixonado pela paulista Táti - rica, independente, educada na Europa e já noiva - Vinícius ganha a primeira bolsa dada a um brasileiro para estudar Língua e Literatura inglesas em Oxford. Parte sem a bela Táti, passa o Natal de 1938 sozinho em Paris, mas logo casa por procuração - 1.º de seus nove casamentos em vários ritos, religiões e leis!. Em Oxford criou alguns dos seus mais belos sonetos (Livro de Sonetos - Livros de Portugal, 1957) "Quatro sonetos de meditação", "soneto do maior amor", "soneto da véspera", etc.. Vinícius e Táti estão em Paris quando rebenta a 2.ª Grande Guerra. Não podendo regressar a Londres, fogem para Lisboa. De Lisboa seguem no Paquete Angola para o Brasil, em sua viagem inaugural. Em 1940 (27 anos) Vinícius concorre ao Itamarati (as "Necessidades" do Brasil), mas só em fins de 43 é nomeado 3.º Secretário, quando já é amigo de intelectuais como António Cândido, António Houaiss, Carlos Lacerda, Osvaldo de Andrade, Portinari, Niemeyer. Designado Vice-cônsul em Los Angeles em 1946, Vinícius já tinha publicado "As cinco elegias" pela Pougetti, em 43, quando completou 30anos. E em 45, antes portanto de ir ocupar o posto de Los Angeles, o Poeta se liga a Regina - arquivista do Ministério - e abandona a mulher, Táti, para ser abandonado por Regina menos de um ano depois. Segue para Los Angeles e reconcilia-se com a primeira mulher, Táti, que se junta a ele com os dois filhos do casal. Em Beverley Hills conviveu com Cármen Miranda (nascida aqui ao lado).No início de 1951 (37 anos), o "Garoto de Ipanema" regressa a S. Paulo com a família (2 filhos e Táti, que logo trocará por Lila, para quem escreveu "As quatro estações"):
Ouve, Lila, como trila
Em "Novos poemas" encontramos "a Hora íntima", também escrito para Lila, como muitos outros, abordando a morte: "Quem pagará o enterro e as flores / Se eu morrer de amores". Em 1953, não ganhando para pagar pensão à ex-mulher com 2 filhos, e sustentar Lila e 2 filhas, Vinícius aceita ser consultor sentimental no jornal "Última Hora", até que, no fim do ano - nomeado Secretário da Embaixada em Paris - segue para França. Ali permanece entre 54 e 57, tendo passado férias no Brasil em 56, aquando da montagem da peça "Orfeu da Conceição" no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em Paris, o já popular Vinícius convive com Françoise Sagan, Marlene Dietrich, Miguel Angel Astúrias, Pablo Neruda e é visitado pelos mais ilustres dos brasileiros que lá vão. O último ano em Paris foi muito conturbado para Vinícius, toldado pela depressão, quando chegou mesmo a tentar o suicídio. Mas a sua produção poética parisiense foi sublime, e incorporada na "Antologia Poética" de novos poemas de 1959. Foi também em Paris (1955?) que Vinícius iniciou o roteiro do filme "Orfeu Negro", adaptação da peça "Orfeu da Conceição", cujo primeiro ato fora escrito no Carnaval do Rio de Janeiro, em 42. O 2.º e 3.º Actos só seriam escritos em Los Angeles 5 anos depois. Foi quando Orfeu foi montada com trilha musical de Vinícius (letra) e Carlos Jobim (música), que com ela ficou célebre. Aquando do início da parceria com Vinícius Tom Jobim era pianista animador de bar. Depois da trilha de Orfeu - "Se todos fossem iguais a você", "Lamento do Morro", "Um nome de mulher", o Poeta tornou-se cantador, show-man e músico popular - tem 43 anos e acaba de virar uma página do seu frenético, rico e atribulado viver. Foi o sucesso de "Orfeu da Conceição" que ofereceu a Vinícius o pedestal de grande poeta da música brasileira. Depois veio a consagração com os sucessos da parceria Tom-Vinícius "Eu sei que vou te amar"e "Mulher, sempre mulher", e, especialmente após a conquista da Palma de Ouro em Cannes pelo "Orfeu de Carnaval" de Marcel Camus (59), logo seguido pelo Óscar de melhor filme estrangeiro em Hollywood!!! E todo este sucesso ia sendo acompanhado por um frenético casa-descasa, ao ritmo da sua agitada vida, característica da permanente instabilidade emocional, profissional, social e artística. Vinícius chega aos 50 (1963) afirmando que sofre de vagotonia, que identifica com um vago sentimento de melancolia. E cada vez mais o Whisky é o seu fiel companheiro, a que chama "cachorro engarrafado"!!! E aqui acaba mais um casamento: com Lucinha Proença. A esta seguir-se-á uma menina de 20 anos - Nelita - com quem foge para Paris. Pouco tempo depois Nelita dirá a uma amiga: "É como se fosse casada com duas pessoas: um Homem que não bebe, que é amável, cozinha para mim e me enche de carinho; outro que bebe, me leva a discussões absurdas e me irrita". Com a Revolução de 64 Vinícius regressa de Paris, já completamente incompatibilizado com a Carreira Diplomática. No Rio termina a peça "Chacina", premiada pelo Instituto Nacional de Teatro. Em 1967 o Itamarati (M. N. E.) coloca Vinícius à disposição do Governo de Minas. E Minas Gerais é o celeiro da arte e da literatura do Brasil. Com o regime militar, a vida do diplomata Vinícius ficou mais complicada, até que surge a ordem curta e grossa do Presidente Costa e Silva ao Chanceler (M. N. E.) Magalhães Pinto: "Demita-me esse vagabundo". E, depois de muitas peripécias, por fim, em Maio de 69 (56 anos) Vinícius foi aposentado compulsoriamente. Livre do Itamarati, logo no 2.º semestre de 69 (56 anos) é caçado pela baiana Gesse Geddy, apesar de estar casado há cerca de um ano com Cristina Gurjão (que está grávida). Larga tudo e muda-se para a Baía, onde fica vizinho de Jorge Amado. Ali leva vida agitada - frequenta o Cadomblé levado por Gesse. É dessa época o início da sua parceria com o jovem Toquinho (Maria Medaglia cantando) e da virada definitiva para a música popular e comercial. Com Gesse Gessy, na Baía, o Poeta viveu a sua deslumbrada fase do "é proibido proibir". Mas Vinícius é sempre igual a si mesmo e, em 1975, conhece (aos 62 anos) uma menina argentina que podia ser sua neta - Marta Rodriguez, que um ano depois é sua mulher. Foi a época das temporadas em Punta del Este e Buenos Aires. Mas, como todos os outros, esse amor foi sol de pouca dura. A partir de 77 o álcool apressa o fim do mito Vinícius, que chega em 1980 (67 anos). O cineasta Luís Fernando Goulart, ao saber da morte do Poeta, comenta de Lisboa: "Também com aquele vício em overdose não podia viver muito!". A morte chega depois de dois acidentes vasculares cerebrais. E aquele corpo, formado por muitos trilhões de partículas elementares espirituais, desmantelou-se, libertando-as para que regressassem à origem, de onde podem de novo encorporar novo Ser Humano. É a Vida! Obrigado.
O POETA
A poesia e o poeta Vasco dos Santos
O crítico literário brasileiro Tristão de Ataíde - pseudónimo que escondia o nome de Austragésilo de Ataíde - disse, certa feita, que o poeta "é pois o Adão que não pecou". Ao dizer isto, condensou, nesta expressão tão simples quanto concisa e emblemática, toda a sublimidade que a poesia comporta. Com efeito, nada melhor definirá a poesia que a pureza da sua essência, enquanto brota ou dimana do mais profundo sentimento humano, enraizada nas profundezas da alma. Tem, pois, o poeta, nas alamedas do Paraíso por que circula e caminha e pelas quais deambula nas horas da inspiração e do encontro consigo mesmo, a razão de ser da sua poesia. Se ele, de fato, não pecou, como quer o grande crítico, é porque a pureza envolvente resplende como a verdade e a luz cristalina do sol que lhe afaga a alma, é translúcida e purifica o sentimento e, na sublimação do êxtase, extravasa toda a força criadora que se aloja na sua alma sedenta. É esta a essência da alma do poeta. Esta componente da alma humana faz-nos acreditar que, em cada homem, se inruste um poeta porque, em cada homem, como quer o crítico que vimos citando, "respira um anjo adormecido". E que fará um anjo adormecido que vem ninar os sonhos do poeta? Certamente, com a suavidade do ruflar das suas asas invisíveis, afagar-lhe-á o rosto, acariciar-lhe-á a alma e, ao menor bocejo, colocar-lhe-á nos lábios a voz da palavra., a força do verbo no sopro do vento em transbordos eivados do belo e, até, do sublime, capazes de varrer a face da terra. Porque no princípio era o verbo, como está escrito, e o verbo era Deus e Deus era o verbo, e o poeta é essa encarnação divina que rompe um círculo da humanidade. Fascinado pela beleza que lhe inunda a alma, o poeta anseia pelo belo, no sentido platónico do termo - splendor veri - o esplendor da verdade. E se aprofunda na indagação e, mais uma vez, se questiona e inquire: O que é a verdade? Nesta encruzilhada do questionamento, apresenta-se ante Pilatos e clareia a resposta com o esplendor que envolve todas as coisas do mundo que rodeiam o seu jardim eternal, onde a natureza reflete a presença divina, onde cada partícula do universo assinala pegadas de Deus, num sentido Boaventuriano, abarcando o cosmos infinito. E já que o belo é o ápice do ser, o cerne da alma do poeta, o sublime nele se alcandora numa escala de sublimação e êxtase que o conduzirá a vida inteira. O poeta, então, é capaz de sentir-se quase um Deus, tendendo ao infinito, como quer Kant ao definir o sublime como "a expressão sensível do infinito". Neste alumbramento, o poeta nos empolga e nos assombra e nos desvanece com os eflúvios da sua poesia que é capaz de transmitir à palavra com a força do verbo, desencadeadora da verdade, na perspectiva do belo e do sublime. Com o belo, nasce a arte, eivada de beleza que, no dizer de Hegel, nada mais é que a ideia que ela carrega. A poesia se aninha, portanto, na alma de cada homem, ainda que, muitas vezes, de modo imperceptível e oculto. Concluindo: Todos somos poetas.
Vasco dos Santos |