Mensagem de Victor Jerónimo (Ecos da Poesia)

 

          Ex.ma Comissão Organizadora 
          do Encontro Zero da Lusofonia, 
          caros amigos e confrades.

Como fundador do Grupo Ecos da Poesia, venho desejar a todos vós que este evento seja pleno de amizade e companheirismo  para o bem das letras e das artes, em manifestação plena ao reencontro das letras dos nossos dois povos, Portugal e Brasil.

É na humildade que nascem os grandes nomes das letras e assim o foi com Miguel Torga, filho de gente humilde, nascido numa terra bem longe da capital e que teve que partir em demanda do Brasil e lutar por um sonho, mas que no seu regresso, com o seu querer e força de vontade, nos trouxe todas as belas obras que todos vós de certeza aqui comentásteis e estudásteis.

Quero deixar-vos apenas um pequeno comentário e dois poemas para vossa meditação.

Os Gregos ouviam de aedos e rapsodos cantos épicos e líricos, na sua linda voz melodiosa, e isto muito antes de haver escrita. As feras eram amansadas por Orfeu, com acordes da voz e da lira.

São tantos os géneros da literatura sem escrita vindos na maior parte de gente primitiva, mas com um celestial e harmonioso dom, que esta nos cativa e enobrece as nossas almas.

Sentir a génese e o mistério da criação artística do poeta que o é por dom é sentir o mistério da dor ou alegria, é sentir a ordem da natureza em belo ritmo, é sermos parte dele com o que sentimos dentro de nós.

 

          Tal qual me sucede a mim
          em ter vulto sem ter voz,
          Vive qualquer coisa em nós
          que manda fazer assim.
           
          A arte é força imanente,
          Não se ensina, não se aprende,
          Não se compra, não se vende,
          Nasce e morre com a gente.
           
          Um poeta de verdade,
          Se souber compreender,
          Não deve ter vaidade
          De o ser, porque é sem querer.
           
          (António Aleixo)

 

 

          Somos nós 
          As humanas cigarras! 
          Nós, 
          Desde os tempos de Esopo conhecidos. 
          Nós, 
          Preguiçosos insectos perseguidos. 
          Somos nós os ridículos comparsas 
          Da fábula burguesa da formiga. 
          Nós, a tribo faminta de ciganos 
          Que se abriga 
          Ao luar. 
          Nós, que nunca passamos 
          A passar!... 
           
          Somos nós, e só nós podemos ter 
          Asas sonoras, 
          Asas que em certas horas 
          Palpitam, 
          Asas que morrem, mas que ressuscitam 
          Da sepultura! 
          E que da planura 
          Da seara 
          Erguem a um campo de maior altura 
          A mão que só altura semeara. 
           
          Por isso a vós, Poetas, eu levanto 
          A taça fraternal deste meu canto, 
          E bebo em vossa honra o doce vinho 
          Da amizade e da paz! 
          Vinho que não é meu, 
          mas sim do mosto que a beleza traz! 
           
          E vos digo e conjuro que canteis! 
          Que sejais menestreis 
          De uma gesta de amor universal! 
          Duma epopeia que não tenha reis, 
          Mas homens de tamanho natural! 
          Homens de toda a terra sem fronteiras! 
          De todos os feitios e maneiras, 
          Da cor que o sol lhes deu à flor da pele! 
          Crias de Adão e Eva verdadeiras! 
          Homens da torre de Babel! 
           
          Homens do dia a dia 
          Que levantem paredes de ilusão! 
          Homens de pés no chão, 
          Que se calcem de sonho e de poesia 
          Pela graça infantil da vossa mão!
           
          (Miguel Torga)

 

Bem-hajam por me haverdes dado este momento

           

          Victor Jeronimo
          Um Português no Recife/Brasil