SERCIAL & MALVASIA


Havia muito que a cor púrpura pintara o pôr-do-sol de sedução.
Sentado à mesa do canto do meu bar preferido, de costas para a parede, vislumbrava de relance a vidraça turva e quadriculada da janela de persianas verdes. Quase defronte, através duma nuvem de fumo, a porta tipo saloon.
Perante mim, a habitual garrafa de Sercial, companheira de infortúnio e confidente que sempre me ajudara a digerir os extractos de solidão. O terceiro cálice, seco e cristalino, libertara um aprazível calor estimulante da eloquência do pensamento. Sobre a mesa de madeira fora reunindo mil fragmentos de verdade na tentativa vã de que o seu conjunto viesse a fazer algum sentido.
A porta oscilava de vez em quando, a clientela já era muita mas o jazz
respeitava a intimidade e não motivava a gritaria anormal doutros lugares semelhantes. Assim se podiam passar algumas horas, pensando, escrevendo ou apenas bebendo e fumando.
A garrafa já estava meio vazia e o optimismo crescia na mesma proporção. Nas folhas da tua suavidade, escrevi um verso... Não. Nada de poemas baratos. No dia seguinte, após a ressaca, nem eu próprio seria capaz de decifrar os gatafunhos que o néctar amigo me ditara.
De forma cíclica e persistente, orbitava-me a ideia de que um dia, por
aquela mesma porta, entraria uma mulher com fogo nos olhos, trazendo
no espírito a ansiedade de ficar.
Mais um copo, talvez dois. Eis que entra. Lança um rápido olhar pelo
ambiente, fixa-me, sinto um fluxo de comunicação e, talvez porque a minha mesa é a que dispõe de mais lugares vagos, aproxima-se e pergunta se pode sentar-se. Levanto-me enquanto se senta. Comenta que certas praxes já estão fora de moda. Não quer partilhar o meu Sercial, tem de ser doce, um cálice não, pode vir a garrafa. Traz uma mágoa para afogar definitivamente. Brindamos à tristeza e à solidão.
Lembro-me dos tempos da catequese, qualquer coisa do género de estar triste com os que estão tristes e alegre com os que estão alegres.
A bela e o monstro, o doce e o seco, o seu ritmo não fica nada atrás do meu e o Malvasia, num ápice, aproxima-se da maré vazia do meu Sercial.
Situação ideal para trocar segredos, dois desconhecidos semi‑etilizados e com a noite toda à sua frente, a moldura de jazz cada vez mais cool.
Quanto tempo teria passado desde a sua chegada? O diálogo é perfeição e a empatia cresce a cada momento. O seco e o doce, quem me dera, quem me dera juntar Inverno à Primavera num casamento feliz... Não, outra vez não. Descobrimos cada vez mais afinidades e continuamos a divagar. Que bela noite de glória para um dia tão triste!
Sinto que me batem no ombro. O empregado pede desculpa mas são
horas de fechar. Sou o único cliente na sala. Levanto a cabeça pesada de
cima dos braços cruzados. Como é que a deixei fugir? Vou pagar a conta.
Olho a mesa onde se encontram um copo tombado e duas garrafas de Sercial vazias.
E ela, de quem nem sabia o nome? Se te perdi, vou à tua procura, hei-de encontrar-te no fundo de cada copo vazio, no humor vítreo de garrafas cheias de sonho!