Apresentação de José Félix
4 de Dezembro de 2009
Um livro é um amigo.
Quando apresentamos um amigo a alguém, a um indivíduo, a um pequeno grupo de pessoas, a uma comunidade, restrita ou não, começamos por nomeá-lo. Damos-lhe o nome, passa a existir naquele grupo ou comunidade, e, muitas vezes, adicionamos outra informação, como a profissão, o que ele faz, os seus passatempos. A partir daí, ele vai interagindo com os outros, e estes, vão criando um molde característico do indivíduo.
Um livro é um amigo e o amigo que vos apresento hoje foi nomeado de “Sombra em Clave de Sol” pelo autor, que passa a existir, também, na comunidade aqui presente.
Sabendo, pois, o nome deste livro, deste amigo, é necessário, para que a comunidade conheça um pouco mais dele, dizer de alguns traços que lhe conferem o carácter único para ser manuseado, lido, interpretado segundo a cultura de cada um.
Eu não digo que este livro é um livro de contos. Digo, antes, que é um livro com «pequenas histórias”, e escrevo histórias com “h” e não com “es” como reitera o escritor angolano, também ele, contador de pequenas histórias, Uanhenga Xitu.
Estas pequenas histórias, no conceito norte-americano de short stories, são concretas, curtas e concisas. Têm densidade, precisão, unidade de efeito como os textos de Poe e Tchekov.
A matemática e a música andaram sempre ligadas e, não é por acaso, que chamamos a Bach o matemático da música, tão eficaz é na construção rítmica, exacta, precisa. A primeira história dá o nome ao livro, e bem, tão bem construído no conjunto das histórias, que umas não vivem sem as outras.
Em “Amplexo”, um abraço entre a vida e a morte, a narrativa poética cria imagens fortes de pensamento reflexivo, subsistindo “a solidão é um deserto habitado”, e “até a companhia da morte é melhor do que estar só”, visões sublimes do um separado de qualquer outro algarismo.
O humor, com laivos de ironia, perpassa em algumas histórias como, por exemplo, no “Roubador de Sonhos”, “2203” onde retrata o pseudo diálogo com um processador de texto no ordenador.
É difícil contar uma pequena história e manter a fluidez e a intensidade variáveis para que o ouvinte ou o leitor não desvie a atenção e mantenha a tensão adequada ao longo da leitura. O autor faz isso muito bem, tem as ferramentas apropriadas para uma escrita fluida e concisa: saber, conhecimento e a arte de encantar, mesmo se subverte a normalidade.
É esta arte, a de dar vida às palavras “que estabeleça comunicação com o seu público e consigo próprio”[pág.18, 2003] levando a criatividade ao limite em “O Berço Voador”.
Em “Suicídio” o sarcasmo mórbido tem um certo tempero com a imagética reconstrutiva no zoom informático explicitando muito bem a ideia.
Em particular, gostei da dicotomia das duas paróquias Alvedrio de Cima e Bastões de Baixo, até no que a sugestão semântica confere a estes dois significantes e pelos signos linguísticos a eles estabelecidos.
Argúcia, determinismo na história do taxista em “Prudente e Distraído”, o autor conhece bem a condição humana, pela vivência rica que o conduziu, pela reflexão e perspicácia na condução das personagens tão reais, que a ficção e a realidade são uma só.
Estas narrativas curtas contêm o ponto essencial neste tipo de textos que é o clímax, o ponto onde o leitor está com a atenção máxima na direcção da história e, de repente, o autor apresenta-nos um caminho, o mais fora do comum para, aí sim, dar por findo o discurso.
O imaginário pode confundir-se com o maravilhoso e se me lembra Neruda na condução das metáforas, atenho-me em Borges quando leio “Pérolas verdadeiras caem da ostra da sua alma”, reforçando a ideia de que são verdadeiras as pérolas.
“Saxofone” podia ser “Palhaço”, mas era uma evidência que dava um corte definitivo à narrativa. O instrumento musical é o leitmotiv para dizer de uma vida de (ir)realidades num texto muito bem construído.
A poesia anda nestes textos, de mãos dadas com a reflexão narrativa, a par com uma sensibilidade extrema com a qualidade da escrita, uma unidade que é rara ver-se neste tipo de livros, conferindo ao amigo, ao livro, à Sombra em Clave de Sol, um carácter forte, onde a descoberta chega ao leitor, com a calma de uma conversa iniciada num termo de apresentação oficial: a leitura.
E, como numa conversa entre amigos, numa apresentação informal, a confidência vai-se avolumando, congregando interesses, gostos, com o “Cavaleiro do Vento”, e a brisa humana “que consagra de primaveras floridas e promessas de futuro para todos os seres humanos” [pag.44]
Desde a reflexão acerca do processo de escrita, à memória da infância (Luís Sepúlveda diz que escrevemos porque temos memória) à preocupação social e sociológica, cujo exemplo crítico é o texto “A Azenha da saudade”, este, sim, pode considerar-se um conto, onde a voz impessoal em itálico vai tecendo algumas considerações sem sugerir, como é conveniente, para transportar o leitor, o legente a afirmar-se perante a leitura, viajando segundo as suas concepções sócio políticas, eles, sim, podendo dar sugestões acerca do/s problema/s levantado/s pelo autor ou colocados por este na boca dos personagens em destaque.
Uma história bem contada onde a finalidade é a preservação cultural do património com a gente integrada nesse património que se quer vivo e actuante na comunidade em que se insere.
Um aspecto importante deste livro é a ligação, ténue, por vezes, mais forte algumas vezes entre os textos que o compõem, dando-lhe unidade quanto baste para que este amigo, com carácter forte, incisivo, se intrometa, no bom sentido, no grupo leitor, ou nos grupos de leitores que vierem a ser constituídos, dando viagem à obra que ele constitui, reflectindo e fazendo reflectir acerca de alguns problemas que afectam a sociedade moderna, com as suas divagações e incapacidades para os resolverem mesmo com os métodos mais modernos das várias ciências que compõem o saber.
Para a apresentação deste amigo, Sombra em Clave de Sol”, perceberam, certamente, a minha fuga do cânone, e resolvi de uma vez por todas o problema que há muito se me impunha.
Não fiz a Crítica Literária de “Sombra em Clave de Sol”, por uma razão simples: uma apresentação de um livro não é uma Crítica Literária de um livro. Poderia tê-lo feito porque li os livros, se não todos, quase todos do autor, o que me dá a capacidade para englobar toda a produção escrita em obra literária, logo, com qualidade literária e, portanto, sujeita à análise crítica.
Também, uma apresentação é uma reunião mais ou menos informal, com amigos e amigos livros, para se falar de escrita numa forma aberta, sem a academia a interpor-se no relacionamento entre eles.
Bem-haja Joaquim Evónio, por mais esta peça literária que vai andar por muitas e boas mãos.
Termino com uma espécie de aforismo ou apotegma da história “ A Pardinha”: “Quanto mais se ganha em perspectiva, mais notória é a pequenez do homem e da sua obra”
José Félix