PREFÁCIO

 


Joaquim Evónio constrói, através desta colectânea de contos, uma obra insinuante no panorama das letras portuguesas. O escritor, nos seus momentos de evasão à vida quotidiana, inventa um universo pontuado de luminosidades, de fantasias e  de sonhos. Às vezes, como em «Vazio», o próprio acto da escrita é um devaneio. Começa com o papel em branco. Espreita o tempo: «A noite era tempestuosa e a natureza vibrava, libertando raivas acumuladas (...). Era o cenário perfeito para criar, inspiração para arrancar do pensamento o húmus da terra espiritual que lavrei ao longo de decénios de experiência e emoções.» E eis o diálogo intimista com a memória: «recordações, histórias suaves ou assustadoras que me tinham alimentado o imaginário até perceber, com grande desilusão, que havia ficção e realidade.» Nos limites da utopia, deixa cair lágrimas sobre o papel - é ele que o diz -, alinha os pesadelos, saúda com calor as fugazes alegrias e aviva a inspiração com a música de Mozart.
Na procura exaltada da palavra, o tempo passa num ritmo comovente. «Tenho os óculos embaciados e a tempestade amainou um pouco, a imortalidade da sinfonia já se sobrepõe ao prosaico bater da chuva nas janelas do meu quarto». Por fim, o cansaço: «o lápis tombou para o chão e a música calou a sua melodia envolvente. Mas ali está o melhor da minha vida.». E ficamos com a ideia de uma escrita dilacerada, próxima do encantamento, da perfeição. Ficamos com essa ideia, num instante, antes da última frase: «Limpo os óculos: ainda estava todo branco o papel à minha frente.».
Este texto é paradigmático, e ajuda‑nos a compreender o processo criativo de Joaquim Evónio. Os relâmpagos ficcionistas iluminam paisagens distantes, redescobrem a vida, a inocência perdida e o amor total na «mulher com fogo nos olhos» (Sercial & Malvasia), de «lábios quentes e sensuais», (Amplexo) «bela como um coral» (O Roubador de Sonhos). O seu vocabulário gira sempre em círculo, num movimento vertiginoso, na partida do tempo presente (renúncia à rotina, à melancolia) e na chegada esplendorosa do tempo mágico que dissipa a solidão e restabelece a harmonia. Ao acender esses territórios, como em «Cavaleiro do Vento», atravessa o perfume das palavras, caminha em direcção da luz. A festa das palavras é breve, inaugura um novo cosmos. «Assim continuarei a percorrer os caminhos do Mundo, especialmente ao fim da tarde e ao nascer do sol, com calma e ternura, não vão apagar‑se, com a brisa que ora sou, as flamas de amor, nascente e bruxuleante, que brotam de tantas almas em consagração de primaveras floridas e promessa de futuro para todos os seres humanos
Esta estética começa a mudar nos contos «À Deriva» e «Náufrago». A vocação do narrador é outra. Transpõe para a ficção cenários vividos, climas existenciais. São histórias do homem no tempo concreto, do mar - do «mar largo e grosso», de golfinhos. E através desta experiência desbrava páginas de uma temperatura humana impressionante. Num estilo original, de maior fecundidade, de observação minuciosa, com poder de linguagem, trabalha  temáticas do domínio da antropologia, que é a sua especialidade, em «A Azenha da Saudade», «O Moleiro» e «A Pardinha» - temáticas que são fontes de fascínio a fechar esta obra: «Sombra em Clave de Sol».

Luís Dantas