2006 – Ano de Prémios, Amizade e Simpatia
Tudo começou aquando da XIX Bienal de SAMPA, em Março de 2006. Em 11 Mar 06, realizou-se na Churrascaria Anhembi um jantar conjunto da Ordem Nacional dos Escritores (ONE) do Brasil e do PortugalClub. O amigo José Verdasca, Presidente da ONE, que acabara de lançar na véspera um dos seus livros no certame, perguntou-me se estava bem do coração, pois ia ter uma surpresa. Respondi que não se podia sofrer do que se não tem...
Afinal, foram duas as honrarias:
Fiquei Sócio Honorário da ONE e Comendador da Ordem Heráldica da Paz Universal...
Mais tarde, aquando da visita a Portugal do Rei do Rwanda, no contexto das cerimónias que tiveram lugar no Palácio de Ourém, todos os membros da “Associação Escadote Cultural”, foram agraciados com o grau de Cavaleiro da Real Ordem do Leão. Outra surpresa nas “costas do Povo” pois não sabia nem estava presente.
Outra estava todavia reservada para o fim do ano.
Por proposta da Delegação Brasileira do Parlamento para a Segurança e Paz Mundial, com sede em Palermo, Itália, fui agraciado com o belo troféu que é a Medalha de Ouro d' O Pacificador da ONU Sérgio Vieira de Melo.
Apenas alguns comentários:
Normalmente, as pessoas não são condecoradas. As instituições ou outras pessoas é que as condecoram. A materialização de méritos implica um posicionamento hierárquico de quem os dá em relação a quem os recebe. Ao objecto do prémio ou castigo cabe o direito de recusa, reclamação ou recurso. São conhecidos casos, mais ou menos pontuais, como o do grande Poeta Herberto Hélder, que nunca aceitou receber o Prémio Camões, associado a um elevado valor pecuniário.
Pois muito bem. Quando a hierarquia de fundo é a da Amizade, só cabe agradecer a gentileza de quem reconheceu em nós algumas peculiaridades mais ou menos latentes. Esses actos também vinculam e responsabilizam quem os recebe. Todavia, para alguém sem obediências e sem cultivar títulos, como me considero, não significará qualquer alteração de comportamento.
Foram carinhos que me tocaram e agradeço.
Ainda me recordo com saudade das mais de três dezenas de medalhas desportivas que fui coleccionando ao longo da juventude, ganhas no terreno de jogo em várias modalidades como a natação, a vela, o rugby ou a ginástica.
06 Fev 08 je |
Conforme navegamos pelo tempo, parece que a própria identidade se vai diluindo, quando o nosso nome deixa de ser notícia e passamos a ser apenas sexagenários, septuagenários e por aí adiante. Ao passar por certos marcos temporais, aviva-se a recordação e avoluma-se a saudade dos bons velhos tempos da juventude. Já lá vão 50 anos desde que franqueámos pela primeira vez os portões da velha “Escola do Exército”. O convívio comemorativo realizou-se nas instalações da Amadora da Academia Militar. Fado do Cacilheiro
Iniciativa da Comissão Organizadora que perdurará por muitos anos e que bem pode servir de estímulo a todos quantos se seguem nesta contagem decrescente. Um “comunicado” foi divulgado na circunstância, a difundir a realização do Encontro:
E lá estivemos para mais um grande Abraço Amigo. Carlos Gueifão, sociólogo, escritor e hoje Director Interino do Mensário “Voz da Minha Terra”, de Mação, elaborou e ali publicou esta bela peça, saída da simplicidade estilística da sua pena:
Meio século de história Texto: Garfos Gueifão Em 15 de Outubro de 2006 completaram-se 50 mós dos cursos entrados na Escola do Exército em 1956. O General António Barrento, ex-cadete 40/187 e que viria a ter a alta função de CEME (Chefe do Estado Maior do Exército), diz no prefácio do livro: " (...) Todos os cursos falam de si como de uma geração. A maior parte não passa de intervalos entre gerações. Não é o nosso caso. E, do breve historial escrito pela Comissão Organizadora, coordenada pelo coronel Alberto Ribeiro Soares (o grande responsável e dinamizador do encontro) transcrevemos: " (...) Este livro que vamos editar - com todas as contraditórias interpretações que já teve e continuará a provocar - pretende sintetizar o que fomos, o que fizemos e onde chegámos, pessoal e profissionalmente, através de breves sínteses biográficas. Mostrando à sociedade civil e a todos os nossos críticos o que foram os militares de uma geração de portugueses - mesmo os que não seguiram a carreira das Armas -, que se bateram em quatro continentes, que comandaram muitos milhares de valorosos Soldados, émulos dos nossos ancestrais (teremos talvez chegado aos 50 mil, só até ao posto de Capitão), que em plena situação de campanha souberam espalhar habitação, saúde, educação e deixaram um rasto de civilização e de lusitanidade, baseada na língua e na tolerância, que faz perdurar o nome e a recordação de Portugal no coração dos povos anteriormente colonizados." Enfim, um livro com interesse para todos que ou estudam ou são curiosos da história recente de Portugal. Estão lá histórias e historietas de outros tempos, curiosidades, estatísticas, destaques. Estão lá prisioneiros da índia, feridos ou mortos em combate, militares revolucionários, militares conservadores, capitães de Abril, homens do MFA ou do PREC, homens do 25 de Novembro, altas chefias militares ou políticas, homens que ocuparam relevantes cargos ou funções na sociedade civil... No entanto, um livro com interesse para .os estudiosos. Um retrato, um flash de uma geração que, neste meio século de história, viveu intensamente, foi e fez história. P.S. (in “Voz da Minha Terra”, Mensário, Mação, 25 Dez 06)
Outra abordagem do evento, da autoria do companheiro, camarada e amigo Comandante. Costa Correia, encontra-se patente e ilustrada na sua “Página Pessoal” em: http://www.costacorreia.com/index.php?ex=23 E com o mesmo espírito de sempre, saudemos os novos Alunos que, tal como nós há 50 anos, generosa e aventureiramente, em cada ano vêm engrossar as fileiras da “Reserva da Nação”, guardiã dos valores e princípios duma Pátria que deu “Novos mundos ao Mundo” e foi construída por Soldados e Marinheiros. Honremo-nos, pois, por pertencermos a uma Instituição que a cada momento se renova, adaptando-se culturalmente às inovações tecnológicas, mas continuando fiel ao Espírito de Sempre. joaquim evónio Galeria de fotos:
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Confraternização e amizade
Quarenta anos se passaram. Depois da missa, a coluna deslocou-se pela bela paisagem do Oeste, percorrendo a área de captação das conhecidas Águas do Vimeiro. Chegam as despedidas, avizinham-se novas saudades. Parabéns ao José António dos Santos pelo esmero que colocou na organização impecável deste evento. O próximo será da responsabilidade do amigo Matiel, de Setúbal. Viva a 727. Viva a Amizade!
Galeria fotográfica (Por razões técnicas, muitas fotos não puderam ser aproveitadas)
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Curiosidade poético-desportiva No quadro do Encontro Zero da Lusofonia, que se realizou em Murça, de 1 a 3 de Julho de 2006, várias personalidades estiveram no nosso país, entre elas as poetisas brasileiras Ivone Zuppo e Lenya Terra.
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Joaquim Evónio é entrevistado por Ligia Tomarchio... Presidente Carlos Leite Ribeiro REVISTA "NO CANTAR DAS LETRAS" SÃO PAULO - BRASIL Estação da Luz, na capital de São Paulo - Brasil POR
Meus queridos amigos e amigas que sempre prestigiam meu trabalho e de tantos poetas amigos, um mês se passou e "Cá Estamos Nós" com a 5ª Edição da nossa Revista do CEN. CANÇÃO DA VIDA
A vida as vezes canta e as vezes chora
****************************************************** Âncoras Forasteiros do mar m' arrastam sem sossego, 01/10/2006 Santos - SP - Brasil ******************************************************* MINHA MÃE... UMA SAUDADE!
Mamãe, sinto-me tão órfão e solitário, Ógui Lourenço Mauri Catanduva - SP - Brasil ***************************************************** Murmúrios
Pedes-me que sussurre aos teus ouvidos
Lisboa - Portugal ******************************************************* O DESPERTAR DO AMOR
Desperta amor, desperta… Rui Pais Lisboa - Portugal ******************************************************** MINHAS MÃOS
Recebi o merecimento de ter mãos perfeitas, 22/07/2005 *****************************************************~
ENTREVISTA Ligia: Qual é o seu nome completo? Ligia: Quando e onde nasceu? Ligia: Onde reside atualmente? Ligia: Qual é o seu estado civil? Ligia: Qual é a sua atividade profissional? Ligia: Você é uma pessoa caseira ou gosta de uma vida social mais agitada? Ligia: Quais as atividades de lazer que pratica? Ligia: Gosta de freqüentar restaurantes, bares ou bailes? Ligia: Qual é o seu prato preferido? Ligia: Qual é a sua bebida preferida? Ligia: Desde quando escreve? Ligia: Qual o livro que leu e mais gostou? Ligia: Gosta de qual estilo literário, além da poesia? Ligia: Como ingressou na Internet? je - De vasto e profundo alcance e principalmente muito mais e maior do que seria Ligia: Já conhecia o CEN "Cá Estamos Nós"? Ligia: Conte-nos sobre seu processo de criação de maneira resumida e se sofre influência de algum autor em especial. Ligia: A escrita para você é um instrumento ou uma arma? Ligia: Qual o período que prefere: dia, tarde ou noite? Ligia: Gosta de animais? Quais? Tem algum em casa? Ligia: Quais seus estilos musicais prediletos? Ligia: Se considera uma pessoa religiosa? (sem mencionar a religião) Ligia: Tem livros publicados? Quais? Ligia: Tem e-books publicados? Quais? Ligia: Possui um web site? Qual o link? Ligia: Qual é o seu e-mail para contato? Ligia: Gostaria de ingressar no CEN, e por quê? POEMAS Nós, joaquim evónio (1992) *Desenho de José Jorge Soares* Carta para Paris Tenho andado a pensar, joaquim evónio Lisboa - Portugal |
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Todos os caminhos iam dar a Caxias...
O
mandado de captura fora assinado em branco pelo Comandante do Copcon.
A
acusação era grave: Forte suspeita dos crimes de
coligação (eu, que não vou em grupos...) e insubordinação.
Local
e data: Academia Militar (que falta de hospitalidade!...), onde era
visita e treinador da equipa de rugby; 12 de Março de 1975.
Oficial
captor: Cmdt Nemésio, dos submarinos, única obra que
não foi revista pelo Pai, coadjuvado por um persuasivo
camarada de Arma, sobrevivo porque consegui evitar a
intifada dum fiel fundamentalista meu filho
que à viva força queria fazer-lhe a folha... Não
era assim, ó Harffouche, se me ouves desse lado?
E
afinal em que ficamos? Era mesmo reaccionário, ou limitava-me
a exercer, limito-me a exercer, a capacidade de incómodo do costume?
Delito
de opinião numa sociedade livre, liberta?
A
verdade é que quando toda a gente ainda batia palmas ao MFA e
buscava os parentes que no seu seio havia, lembrei-me de baixar
à realidade e fazer a interpelação que se segue,
felizmente publicada depois de a entregar ao amigo Manuel Bernardo.
Claro
que as minhas interpelações em PVT, na
Academia Militar, meu Clube conjuntural, não seriam
também do maior agrado dos interpelados.
E
há sempre quem não goste de mostrar os pés de barro.
Em
situação de crise aposto que a liberdade de
expressão é a primeira a pagar imposto.
«O Expresso» 22 de Fevereiro de 1975 PELA RECLASSIFICAÇAO ISENTA CONTRA O SANEAMENTO DISCRICIONÁRIO J. E. V. I Portugal um corpo doente CONTROVERSOS, controvertidos e manipulados pelo mais amplo leque de interesses, os «saneamentos» já fizeram verter muita tinta e contribuem para a destruição moral e social do País. Mas, afinal, não precisa um país renovado de reformular todas as suas estruturas, de vacinar-se a todos os níveis para impedir a recidiva da mais cruel das enfermidades, de que padeceu durante quase cinco decénios? Um corpo doente, cujas metástases já tinham provocado o mais insalubre conformismo sem esperança, precisa duma profunda acção clínica, enquadrada na mais clarividente propedêutica, na mais meticulosa cirurgia, na mais progressiva e enérgica recuperação. Este corpo precisava afinal duma boa equipa médica que, através dum trabalho de análise, síntese, decisão e execução, pudesse extirpar as metástases dos tecidos, donde o tumor fora miraculosamente curado pelos cravos de Abril. Dispensando maiores devaneios, esta equipa teria que primar principalmente por três qualidades: Competência técnica dos seus elementos, Espírito de Equipa e Deontologia. II Capacidade de intervir e alterar o processo em curso As intervenções das pessoas podem enquadrar-se normalmente em dois grandes tipos: as que têm possibilidades de, por acções, omissões ou qualidades de ambas, anular, desviar ou sabotar uma acção global, e as que são instrumentais em relação àquelas opções programáticas, doutrinárias ou ideológicas. Assim pode vizualizar-se uma dualidade entre centros de decisão e órgãos de execução. E é tão fácil classificar, seriar e hierarquizar completamente as funções que, decerto, a tal equipa médica não se predispunha a estar de acordo apenas mediante o resultado duma autópsia. A não ser que... factores exógenos alterassem e transfigurassem completamente o quadro clínico que se revelava tão nítido. III Direitos do Homem e coerência «à portuguesa» Em Portugal A Lei Constitucional do País, vulgo Programa do MFA, diz (além das alíneas Aj), B4, B5 e l, B7 a), todas integradoras duma vocação de respeito pela dignidade da pessoa humana), em alguns dos seus passos, o seguinte: ... O MFA... dirige a todos os Portugueses um veemente apelo à participação sincera, esclarecida e decidida na vida pública nacional..., que conduza... à harmonia, progresso e justiça social, indispensáveis ao «saneamento» da vida pública e à obtenção do lugar a que Portugal tem direito entre as Nações. Entre as Nações Convidando os leitores à leitura e meditação dos arts. 7. °, 8.° e 10. ° da DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM, transcrevemos o seu artigo 11.°: 1. Todo o acusado dum acto delituoso se presume inocente até que fique provada a sua culpabilidade no decorrer dum processo público, em que lhe sejam asseguradas as garantias necessárias à sua defesa. 2. Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento em que foram praticadas, não constituíssem acto delituoso segundo o direito interno ou internacional. E também não será infligida pena mais severa que aquela que fosse aplicável no momento da comissão do acto delituoso. Em Portugal Chefe do Estado-maior do Exército «...desde a primeira hora que tenho vindo a apelar para a necessidade de se criar legislação revolucionária que defenda a Revolução». Ministro da Coordenação Interterritorial «... legislação revolucionária no sentido de que defende uma revolução jurisdicionalizada, o que reputo excelente.» Ministro sem pasta (Magalhães Mota) «O sacrifício dos direitos e liberdades individuais nunca é solução». PS PPD CDS MDP/CDE Todos invocam a dignidade da democracia e respeito pelas liberdades fundamentais. Comentário Há ou não legalidade revolucionária? A Revolução de Abril terá ou não seccionado a legalidade antediluviana? Tudo leva a crer, observada a imagem emanada pelo Poder, que vivemos num Estado de Direito. Existe ou não a força real que fez a Revolução? Será possível ser-se coerente? IV Algumas Justificações e muitas injustiças O 25 de Abril transmitiu uma serena mensagem de esperança, união e convergência na reconstrução nacional feita por todos os portugueses. Quando o Povo tomava os seus legítimos banhos de liberdade, algumas vozes se erguiam motivadoras de ruins sentimentos na alma das multidões em festa. Dada a fundamental preocupação da irreversibilidade do MOVIMENTO, certíssima, surge a designação do Inimigo Único: O Fascismo. Mesmo os erros de estratégia retardadores da libertação e acumulados ao longo de dezenas de anos não impediram os mais variados sectores donos da política de se definirem por negações, escudando-se em indefinição, por detrás dos «antis». Assim, parece ter havido a preocupação, em muitos democratas, especialmente nos de aviário, de dar ao inimigo vencido uma estatura que talvez ele não tivesse, aliás revelada no processo de desmantelamento, tudo com a preocupação de engrandecer retroactivamente a vitória. E afinal parece que o regime deposto estava mesmo podre. Houve então que ir sucessivamente transferindo o espantalho e o opróbrio para o monopolismo capitalista, a burguesia capitalista, a pequena burguesia, o conformismo pequenoburguês e finalmente, quando mesmo assim escasseiam os alvos para o tiro instintivo dos saqueadores, há que institucionalizar um inimigo que resista às agruras do tempo e às marteladas da destruição: O Bom Senso, a Isenção e o Equilíbrio tornam-se reaccionários. Em
vez de se ter estudado e caracterizado em pormenor o inimigo,
considerou-se levianamente que ele só tinha uma face e
esqueceu-se a outra, que além de totalitarista, também
era antiportuguesa e imperialista. E é muito difícil
vencer, quando se menospreza o adversário!
A
subestimaçao permitiu que muito cedo começasse a ser
negado a muitos compatriotas o direito de colaborar na tarefa ingente
que a todos devia amalgamar. O inimigo soube assim escolher uma arma
digna do seu antecessor, e que corrói, ao bom estilo de guerra
bacteriológica, a sociedade portuguesa: o SANEAMENTO.
O
protesto de legítima defesa de quantos sofreram os
vilipêndios das perseguições, cíclicas na
nossa história, faz com que, mesmo aqueles que mais reclamam e
invocam o direito ao trabalho, sejam os que começam a rasgar
no solo nacional os sulcos profundos do divisionismo e da desconfiança.
No
momento quase ímpar na história da humanidade em que
se criavam condições ideais para Construir e
Reconstruir, começa a Demolição.
A
grande ausente foi a solidariedade por divisão do trabalho.
Acentua-se a solidariedade por semelhança, bajuladora,
triunfalista e castradora da dinâmica dos grupos funcionais. V Instrumentos para uma reclassificação isenta... Sendo certo que muitas pessoas deveriam ser julgadas por crimes de delito comum, outras poderiam apenas ser mudadas de situação. Havia que criar, tecnocraticamente, as condições para o efeito. E neste contexto, qualquer comissão de saneamento, sectorial ou intersectorial, tinha à sua disposição meios que existiam, e que além do pecado de existirem, até eram capazes de cometer o crime de resolver o problema. No âmbito civil, centros e institutos de psicologia aplicada proliferam por aí fora. No campo militar, o Centro de Estudos Psicotécnicos do Exército, e outros, já deram provas de eficácia e actualização técnica. A coordenação de ambos os sectores daria cobertura, estou certo, à honestidade social duma reclassificação ISENTA. Uma verdadeira reclassificação assente na justeza das avaliações, na interpretação de psicodramas e sociodramas, e baseada no respeito vocacional da pessoa humana, teria atingido o desiderato do Programa do MFA - «saneamento da nossa vida pública» e não a amputação de tantos membros desse corpo desejoso de viver, quantas vezes os mais realizadores e quantas vezes sem que a sociedade saiba PORQUÊ!... VI ... e o fascínio do poder Sabendo-se, ou calculando-se, devido ao esoterismo da sua sinceridade, que determinados sectores nunca sonharam com a tolerância de existirem, não admira que a paranóia os tenha assaltado e os conduza para imprevisíveis sonhos da mais eloquente grandeza e total hegemonia. O problema é portanto outro, que não o do saneamento e, em muitos casos, que coexistem com aqueles em que a justiça foi feita, trata-se duma estigmatização à maneira da que faziam os cães de guarda do deposto governo de usurpação nacional. Quero saber, esse direito e dever foi-nos prometido em 25 de Abril, O PORQUÊ dos saneamentos à porta fechada, tipologicamente nazi-soviéticos. Não podemos admitir que os nossos camaradas e colegas de trabalho sejam tratados como tumores malignos. O DIREITO INTERNACIONAL E NACIONAL (o problema estará que estes direitos são filhos do Ocidente?) CONSIDERA TODOS OS SERES HUMANOS EM SITUAÇÃO DE PLENA INOCÊNCIA ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO! A todos os senhores da informação gostaria de lembrar que ao evidenciar e sublinhar as incoerências e contradições do sistema em que vivemos é que prestamos um bom serviço ao País. Vamos acabar com louvaminhas e estafados améns, e passar ao ataque dos pontos essenciais e defesa da nossa via original para uma democracia de pessoas livres, onde cabem mesmo as ideologias que eu pareço agredir, quando ataco os «representantes oficiais» que não as representam?! ABAIXO A JUSTIÇA DE «CASTELA!» *** PS: Este artigo foi escrito, a meu pedido, por um camarada de curso, devendo também render aqui as minhas homenagens à Redacção do «Expresso», que cedeu às minhas insistências para a sua publicação, apesar de, nessa altura, o PCP manobrar «amplamente» as cúpulas do Poder e os órgãos de Informação. Dias depois, entreguei, pessoalmente, aos ajudantes de cada um dos seguintes senhores, então no «poleiro», uma fotocópia devidamente corrigida das gralhas com que foi publicado: General Costa Gomes «General» Lopes Pires «General» Carlos Fabião «Brigadeiro» Otelo Saraiva de Carvalho Acrescenta-se ainda que o seu autor viria a ser metido em Caxias, cerca de três semanas depois (12 de Março), por «forte suspeita de crimes: "insubordinação e coligação, tendo permanecido incomunicável, durante cerca de um mês, por ter exigido a presença de um advogado nos interrogatórios! Só passados alguns meses sairia em «liberdade condicional» e, mais tarde, completamente ilibado das acusações falsas, que selvaticamente lhe atribuíram no pós 11 de Março. Manuel Bernardo (in OS COMANDOS NO EIXO DA REVOLUÇÃO CRISE PERMANENTE DO PREC - PORTUGAL 1975 76, Manuel Branco, Ed. Abril, 1977) |
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O Bom-humor é uma arma... (4.ª parte)
Se
atirava ou varejava nem sei...
E assinei. |
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De capas soltas ao Vento! 50 anos depois... Balada de Despedida De capas soltas
ao Vento
Setimanistas
de 1955-56 à entrada principal do Liceu Parece que foi ontem, mas já lá vão cinquenta anos! Esta Balada, julgo que da autoria do colega e amigo Duarte Canavial, já na altura um artista, foi o fecho da Récita de despedida dos Setimanistas de 1955 - 1956 do Liceu de Jaime Moniz, que então também já se denominava Liceu Nacional do Funchal. O programa, aqui à minha frente, recorda que começámos com a Comédia em 1 acto de Pinheiro Chagas "Quem desdenha..." Dum grupo de residentes na Madeira partiu a iniciativa dum convívio para comemorar o cinquentenário da bênção das nossas Capas Negras. Era um autêntico rito de passagem, que já quase nos equiparava aos nobres e boémios estudantes de Coimbra ou doutras Universidades... Era uma época de idealismo e também de conformismo... No nosso tempo, e particularmente na Madeira, nunca me lembraria de ter escrito o poemeto que se segue e já consta do capítulo próprio desta "Varanda das Estrelícias":
Gerou-se, pois, e acentuou-se um generalizado clima de saudade, muitos de nós não nos víamos mesmo desde que deixáramos o Liceu do Funchal para arrostar com as realidades da vida. Alguns já nos deixaram para sempre, merecem evocação como se ainda aqui estivessem. A data aprazada foi o dia 29 de Dezembro, com um Jantar antecedido por uma missa a celebrar em capela particular da residência do colega Martim Diniz. O dia não terá sido o mais propício para quem se encontrava no Continente com a sua Família e compromissos já assumidos, por isso um grupo tomou em suas mãos a organização dum almoço de confraternização antecipado no dia 2 de Dezembro, onde estivemos cerca de vinte madeirenses contemporâneos e familiares. Já aí se nos deparou a questão de identificação mútua&ldots; O que não seria perante o grupo mais alargado a reunir no Funchal? Daqui saí portador duma mensagem para ler na Madeira, da parte dos que não puderam deslocar-se à nossa terra de origem. E a 29 de Dezembro, pela manhã, acompanhado do amigo Manuel Vieira de Freitas, lá ganhámos asas para aterrar em Stª. Catarina uma hora e meia depois. O encontro revestiu-se logo das mais interessantes peripécias, designadamente de identificação... Só faltava fazer apostas! Depois da missa, onde foi evocada a nossa longa caminhada, dirigimo-nos, boleia aqui, boleia ali, para o local do jantar, um restaurante em S. Martinho, a poucos quilómetros do Funchal. Ali foram entretanto chegando alguns que não tinham ido ao primeiro ponto de encontro.
Retábulo do altar da Capela onde foi celebrada a missa
Os prolegómenos, ou aperitivos, tiveram lugar junto ao bar da piscina, ao ar livre, desfrutando a agradável noite de Dezembro que a Madeira nos propiciou. Esteve presente uma equipa de reportagem do Diário de Notícias - Raquel Gonçalves (texto) e Teresa Gonçalves (fotografia) que viria a publicar um interessante artigo sob o título: Capas negras do passado Deste artigo destaco o subtítulo: "O LICEU NACIONAL DO FUNCHAL DESPEDIU-SE, NO ANO LECTIVO DE 1955/56, DE UMA TURMA DE 63 SETIMANISTAS. ERAM OUTROS TEMPOS, EM QUE AS POUCAS RAPARIGAS DA TURMA ENTRAVAM POR UM PORTÃO E OS RAPAZES POR OUTRO. TEMPOS DE NAMOROS PLATÓNICOS E DE CASAMENTOS MUITOS ANOS DEPOIS, QUANDO OS RAPAZES REGRESSAVAM À TERRA JÁ DOUTORES E A MAIORIA DAS RAPARIGAS CUMPRIA NA MADEIRA O MAGISTÉRIO PRIMÁRIO." Que mereça, ao menos, um comentário: Magistério Prirmário? Olhe que não, nem sempre! E do mesmo extraio uma foto de grupo junto ao bar da piscina. Alguns ainda não tinham chegado e os cônjuges estavam defronte a assistir.
Foto DN de Teresa Gonçalves Entretanto continua a galhofa. A minha irmã telefonou-me. Estava no Algarve e foi interessante pô-la em contacto com uma colega comum da Instrução Primária casada com um colega do meu 7.º ano. Coincidências felizes. E lá fomos ocupar as diversas mesas redondas da vasta sala de jantar. Ágape abundante e bem servido, não fosse o convívio de facto o mais importante para todos nós! Serviço esmerado, como costuma ser em todos os estabelecimentos de hotelaria da Madeira. Trocamos recordações e endereços postais e electrónicos. Preenchemos lacunas de informação de que andávamos carecidos em relação a muitos dos presentes e ausentes. Também não escaparam à lembrança os nossos velhos professores. Tivemos sorte. Era difícil efectivar-se na Madeira, talvez por razões de clima... Vistos a esta distância, eram uma grande equipa, chefiada pelo Magnífico e saudoso Reitor Ângelo Augusto da Silva. Os colegas idos de mais longe terão sido o Fernão Perestrelo, Professor universitário no Canadá, e a Sidónia, há dezenas de anos dedicada ao seu importante métier turístico em França. Não houve discursos. O celebrante da missa teve o condão de dizer quanto de secular poderia ter sido dito na circunstância. A organização deu conhecimento de algumas mensagens de ausentes e eu próprio li a que levava dos que encontravam no Continente e não puderam deslocar-se à Madeira.
A mesa onde tive o prazer de sentar-me
Lendo a mensagem do Continente para a Madeira
Fizemos projectos para a próxima reunião e já temos saudades dela. Concordámos que as Comemorações do Centenário não serão muito adequadas porque a maioria de nós já tem a agenda preenchida para essa altura. Efeitos nefastos da globalização! Ficou pois aprazada para daqui a cinco anos. Despedidas. Abraços e beijos. Esta reunião foi um sucesso. Quem esteve adorou e quem não pôde ir teve pena! Até breve, até sempre! Horas de Cinderella O amigo Reynolds e esposa acompanham-me a casa da minha prima Odete, onde fiquei. Tocou piano, fez-me petiscar as suas delícias gastronómicas e conversámos até as seis da matina. Às 16 horas, com a segurança e sabedoria dos seus 81 anos, entrega-me ao Aeroporto de St.ª Catarina onde reencontro o amigo Manel para regressar a Lisboa. Chegámos às 19 de 30 de Dezembro. No dia seguinte já estava em Santa Cruz (Torres Vedras) para a pré-combinada passagem de ano familiar.
Antúrios para todos - Arranjo floral da prima Odete - Funchal, Madeira |
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Voltando ao sério... 25 de Abril ... e 25 de Novembro! Afinal, em relativa contradição com o que dizia na última edição, houve mesmo, com a dimensão que tiveram, comemorações do 25 de Novembro. Eis o Convite da Associação de Comandos:
Ver, em "Crítica", referências ao lançamento do livro "25 de NOVEMBRO 1975 - OS 'COMANDOS' E O COMBATE PELA LIBERDADE |
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"Grades
de Papel - Caxias 75 - Condomínio fechado" (em trânsito da Oficina para a Gráfica)
Apenas
um arzinho da sua graça... A MINHA JANELA Gosto da minha janela!
a)Joaquim
Evónio de Vasconcelos |
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Voltando ao sério... 25 de Abril ... e 25 de Novembro! A memória dos homens é fraca e o tempo passa depressa. Daqui a dois meses estaríamos a comemorar o 25 de Novembro se não vivêssemos num país cheio de complexos de esquerda, onde o eco dos momentos mais significativos parece cair sempre em saco roto. Um país descomplexado não teria apagado os traços da sua história recente e assumiria bem de frente que não há futuro sem passado. Julgo ter sido dos primeiros a insurgir-me contra a "tentativa totalitária" que assolou Portugal a partir de 26 de Abril de 1974. Em 22 de Fevereiro de 1975 publicaria no Semanário "Expresso" um artigo de opinião denominado "Pela reclassificação isenta contra o saneamento discricionário" (publicado depois in "Os "Comandos" no Eixo da Revolução - Crise Permanente do PREC", Manuel Branco, Ed. ABRIL - 1977). Claro que provocou grande celeuma e haveria de ser a causa primária da minha prisão em Caxias... (12 de Março de 1975 - 12 de Maio de 1975). Ali escrevi bastante, talvez publique um dia toda essa história que repousa "Na oficina". Entretanto, alinhei um sucinto resumo que serviu para ilustrar o catálogo duma exposição de Pintura realizada na Biblioteca-Museu da República e da Resistência... Mais uma série de críticas dos habituais sectores, como se o 25 de Novembro não nos tivesse restituído um pais de livre pensamento e expressão:
Ilustração de José Jorge Soares Fábula d'Abril Aos Capitães de Abril e de Novembro
Era
uma vez uma criança.
Nascera
do breu para trazer ao reino a alegre participação de
todos e a reconciliação da Pátria com a Liberdade.
A
sua autenticidade, aclamada em uníssono, despertou
vocações de militância.
Qual
solene torneio medieval, ia jogar-se a Gesta Democrática.
Cada
um escolheu armas: o dardo político, o cravo social, a
lança económica.
O
poder arbitral seria decisivo.
Quando
a Pátria chegou, libertadores, libertados e libertinos
atolavam-se no pântano que fora esperança de Primavera.
E
a verdade projectou-se como epitáfio dum sonho que ainda
não haveria de ser.
Foi
preciso sofrer mais de uma translação para reencontrar
o caminho perdido.
joaquim evónio Claro que, como a História é sempre escrita e conduzida pelos vencedores, depois do 25 de Novembro o então renovado Conselho da Revolução mandou levantar um Inquérito conduzido por uma "Comissão de Averiguações de Violências sobre presos sujeitos às Autoridades Militares", presididida pelo reconhecidamente honorável e isento Brigadeiro Henrique Calado. Claro que também fui ouvido. Depois, foi o Serviço da Polícia Judiciária Militar (SPJM) que quis o meu depoimento. É o que a seguir tento transcrever, quase "ipsis verbis" com base em apontamentos e reconstituição de cor feita na altura, ajudada pela memória que as sucessivas anestesias não conseguiram levar-me. Como não pretendo alimentar qualquer tipo de rancores, mormente 30 anos depois, omiti os nomes dos camaradas mencionados no depoimento:
Depoimento
prestado ao Serviço da Polícia Judiciária
Militar (SPJM)
Julgo
que as ofensas aos meus direitos e liberdades, embora tendo como
instrumentos mais directos, com a responsabilização que
a Lei devia atribuir-lhes, pessoas como o Sr. Almirante "X",
o Sr. Major "Y" e o Sr. Comandante "Z", foram da
responsabilidade de órgãos existentes na altura, e que
ainda hoje existem, tais como o Estado-maior General das Forças
Amadas, nomeadamente a Quinta Divisão, o COPCON [Comando
Operacional do Continente] e o então anticonstitucional
Conselho Superior da Revolução, "criado em
contravenção ao Programa do MFA" [Movimento das
Forças Armadas].
Além
disso, o andamento dado aos diversos depoimentos que já
prestei, aparentemente nenhum, visto estarem impunes os
responsáveis pelos crimes referidos, leva-me a crer que ainda
não se encontram repostas totalmente as condições
de Dignidade Nacional conducentes à estrita
aplicação da Justiça.
Nestas
circunstâncias, sinto-me forçado a protelar para
momento mais oportuno a esperança de que futuras
acções adequadas venham a ter as consequências justas.
Isso
não impede, todavia, que desde já esclareça o
SPJM naquilo que possa contribuir para a reconstituição
de toda a verdade dos factos.
Ao
confirmar as declarações prestadas à
Comissão de Averiguações de Violências
sobre Presos sujeitos às Autoridades Militares, é com
estranheza que constato que tais declarações, tomadas
na decorrência de Resolução de 19 JAN 76 do
Conselho da Revolução, não tenham sido
plenamente actuantes, o que acaba por ter como consequência uma
extraordinária dilação no apuramento de responsabilidades.
Esclareço
que "O Regulamento do Forte de Caxias" que me foi patente
- a meu pedido - e não era não obstante
integralmente cumprido, consistia numa colecção de
folhas dactilografadas, tendo no rosto um emblema dos Fuzileiros e os
dizeres "Regulamento das Forças de Marinha ocupando o
Forte de Caxias" ou outros muito semelhantes.
Esclareço
e confirmo as permanentes violações de
correspondência, assim como a sua intercepção e
supressão abusivas.
Esclareço
e confirmo que me foi sempre negada a presença do advogado
que havia constituído e nunca recebi una nota de culpa.
Esclareço
e confirmo que, com a redacção que consta de folhas 85
do Processo, me foram negados os direitos a voto e a advogado.
Esclareço
e confirmo que, com prejuízos que reputo de notáveis,
não me foi possível ter acesso ao objecto do meu
trabalho - um livro em vias de publicação - sem que
fosse lido por um Oficial da Guarnição do Forte,
condições obviamente inaceitáveis dada a
natureza da propriedade intelectual em causa.
Esclareço
e confirmo que, quando o Sr. Almirante "X" não
permitiu que eu fosse trabalhar para o IARN [estava de
residência fixa], isso não correspondia a um parecer
desfavorável face a uma hipótese de
"colocação", mas sim a um impedimento de
ocupar um posto de trabalho que implicaria a possibilidade de
angariar meios de subsistência para mim e para a minha família.
De
tudo quanto do antecedente e agora refiro, julgo estar-se, de facto,
em presença de crimes, alguns essencialmente militares, todos
contra as liberdades individuais tal como internacionalmente
reconhecidas e todos, ao que parece, ainda impunes.
joaquim evónio |
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O
Bom-humor é uma arma...
Noventa km a sul de Nova Lamego, situava-se Madina do Boé, terra de Futa-fulas. Ali existia um Destacamento das Nossas Tropas. A dois terços do caminho de norte para sul, ficava a cambança do Rio Corubal, onde só se passava de jangada. A estrada era praticamente intransitável durante a época das chuvas, que se aproximava e durava três meses, e era ladeada por bolanhas (pântanos) na maior parte da sua extensão. O Quartel-general de Bissau alimentava com veemência a ideia de abandonar a região de Madina do Boé. Chamaram-me poeta pela primeira vez quando afirmei perante os ilustres cérebros pensantes que não poderíamos nem deveríamos diminuir a profundidade do dispositivo e "trazer a fronteira" para muito mais próximo de Nova Lamego. E assim continuámos a "discutir cordialmente e com estupidez natural" durante uns tempos. Entretanto, o Inimigo atacou em força o Destacamento de Madina do Boé. Foi uma festa. O Alferes comandante, altamente moralizado, aproveitou para comandar a defesa com toques de clarim e não houve baixas da nossa parte. Mas foi um ataque a sério, com grandes repercussões em toda a Província. Uns dias depois, sou convocado para apresentar-me em Nova Lamego, para uma reunião de Comandos com o Brigadeiro Comandante-Militar. Estava então em Canquelifá, no Nordeste, a 60 Km e em vésperas de férias. Lá nos reunimos todos na pista de aterragem à espera de Sua Excelência. Ali estavam todas as forças-vivas, civis e militares. Quando o Comandante-Militar sai do "Dornier", bate duas vezes com o "pingalim" na perna e começa logo assim: -"É evidente que depois deste ataque já não podemos abandonar Madina do Boé! Pareceria que estávamos a fugir à frente do Inimigo. É claro que também não podemos elevar o nível da estrada para garantir os abastecimentos durante a época das chuvas! O que podemos, não é verdade oh Alferes? - dizia, dirigindo-se ao oficial sapador do Batalhão - é consolidar o piso da estrada e montar uma balizagem para que as nossas Mercedes, como têm um rodado muito alto, sigam caminho sem cair na bolanha..." E eu, não podendo conter-me: - "Meu Brigadeiro, e um periscópio não seria indicado para a situação?" |
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O
Bom-humor é uma arma...
Quando regressei da minha
última "guerra", trazia duas belas
recordações: uma úlcera duodenal em franca
actividade e uma fractura traumática do calcâneo (assim
chamavam técnica e pomposamente ao facto de ter perdido o
calcanhar numa mina anti-pessoal...).
Depois de três anos de
internato no hospital - o que muitos médicos não
têm - e de uma dezena de cirurgias, deparavam-se-me duas hipóteses:
1 - Passagem à reforma,
por opção.
Este guerreiro ainda tentou
ficar... Até pensou frequentar o Curso Geral de
Estado-Maior, onde a sua experiência poderia ter algum eventual
interesse, para o que era incentivado por um grupo de Oficiais
Superiores da hierarquia militar...
Claro que havia outro grupo que
não o podia ver nem pintado... - "Para entrar no Estado-Maior é necessário dispor de plena validez física, tal como se se tratasse do ingresso nas Armas de Infantaria, Artilharia ou Cavalaria".
(Era óbvio que já
de nada valia "ter tido" 20 valores em ginástica e
desportos, continuar a treinar equipas de Rugby ou manter a
forma nas pistas de manutenção...) - "Agradeço se digne transmitir a sua Excia. o Ministro que concordo inteiramente com o Despacho. Se no Estado-Maior se pensa com os pés, estou em desigualdade de circunstâncias...".
Isto de ser incómodo tem
muito que se lhe diga... Três semanas depois estava na Reforma
Extraordinária por opção pessoal... |
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O
Bom-humor é uma arma! Não se trata de inserir aqui um Ensaio sobre o bom-humor. Apenas me interessa reforçar a ideia de que ele é uma arma defensiva e ofensiva. Entre o irónico e o cáustico. Desde criança me ensinaram que era necessário vencer com generosidade e manter o bom-humor na derrota. Ele surge, assim, como uma solução para os momentos mais graves que se nos deparam ao longo da vida. Tem tudo a ver com a situação. Quanto mais grave for, maiores serão as possibilidades de que a resolva ou atenue. A antítese da minha posição radica numa conhecida personalidade que se chama John McEnroe! Nunca parti raquetes nem ofendi o adversário, nem desportiva nem politicamente. Vou pois, neste capítulo, contar alguns episódios em que o bom-humor se soprepôs a tudo o resto. Começo por referir a cena da minha prisão, em Março de 1975, depois de haver Liberdade no nosso país. Claro que fui preso por delito de opinião... O mandado de captura apenas tinha o meu nome; os restantes elementos foram escritos na minha presença... Segundo vim a saber mais tarde, quando o Otelo, subscritor do mandado em branco, soube disso, terá deitado as mãos à cabeça. Parece que teria projectos para mim... Introduziram-nos num Mercedes, a mim e ao então Ten-Coronel Soares Carneiro, igualmente preso, com o nosso captor Comandante Nemésio, oficial dos submarinos, no banco de trás e, à frente, um soldado com a G 3 apontada para nós, ao lado do condutor. Assim seguimos para o Presídio Militar de Santarém. Durante o percurso lá fui dizendo ao marinheiro: "O senhor Comandante está na 5ª Divisão; assim, anda comprometido com o inimigo. Ela não é mais que a contrapartida militar do MDP/CD "foi"... Estou a ver que não percebeu o que se está a passar. Anda a tomar atitudes de que vai arrepender-se mais tarde. O melhor seria acabar com isso e juntar-se nós"... Soares Carneiro ria-se a "bandeiras despregadas"... Acrescentava eu: "Sabe que, na 2.a Guerra Mundial, os prisioneiros ingleses na Alemanha tomavam o chá das cinco? Era evidente que eles não o tinham, mas vestiam o smoking, que igualmente não possuíam, o lacinho, que não existia, e tomavam esotericamente o seu chá habitual. E todos os dias isto se repetia para se manterem moralizados... Porque o mais importante, para quem está preso, é manter o moral elevado... Mas, como aquilo já estava a ser muito rotineiro, fizeram constar que havia entre eles um engenheiro químico que descobrira uma arma para abater os submarinos alemães. Depois de muitos interrogatórios, o tal engenheiro disse que, dada a preponderância germânica e a sua elevada probabilidade de ganharem a guerra confessaria qual era aquela arma:
"Inventei um líquido, que se deita na água do mar e é incolor como ela. Cola-se ao periscópio dos submarinos e, quando chegam à superfície, continuam a subir, a subir, a subir... e ao atingirem os 50 metros de altitude são abatidos pela nossa artilharia anti aérea"". joaquim evónio |
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Auto-retrato - 9.ª Página A Religião - Influência e decadência 2 - Decadência Quando subintitulei esta página de "Influência e decadência", é obvio que não me refiro à decadência da Religião. Essa, ao contrário, encontrará sempre os manás de que se alimenta e que, para a fertilizar, são servidos de bandeja por um mundo cada vez mais subserviente e crédulo. Aquilo a que me refiro é à decadência da influência que a religião teve sobre mim próprio. Isto não é um jogo de palavras. Ao chegar ao Continente e ao assentar praça na então Escola do Exército, depararam-se-me duas situações de autêntico desencanto. A primeira tinha a ver com as próprias estrutura e disciplina militares. Uma decepção. Nada que correspondesse ao nível de exigência para que vinha preparado. A segunda afloraria cerca de um mês e meio mais tarde. Quando vim da Madeira estava a cumprir a devoção de comungar na primeira Sexta-feira de cada mês. Salvo erro, eram nove seguidas e só me faltavam duas para a série. Segundo me ensinaram, desse pequeno sacrifício colheria réditos para a vida eterna. Depois dum feriado coincidente com a oitava, levantava-se a questão da última. Pedi então uma dispensa para chegar mais tarde à instrução da manhã e intercedi junto do Capelão para que me fosse concedida. A sua resposta foi extremamente esclarecedora. - "Qual Sexta-feira? Quando quiser fazê-lo, pode comungar em qualquer dia. Aos olhos de Deus são todos iguais." (cito de cor). Claro que não fiquei minimamente satisfeito com a explicação. Isso não impediu, todavia, que continuasse a persignar-me, de pé, antes de todas as refeições e a fazer sistematicamente as minhas orações da noite, algumas tão específicas ou pessoais que nem eram do entendimento geral. Também não estava só: Alguns camaradas eram portadores de fé e práticas semelhantes. Assim se passa um ano e pouco de estudos intensos e grande actividade física. No segundo ano, um acontecimento vem contribuir para colocar questões ainda mais delicadas. Tive a minha primeira namorada. Claro que não estou a contar com a da Escola de Instrução Primária, nos tempos da maior inocência, nem com todas as outras que me assediavam por julgar que eu estava na moda e a quem mandava recados ou bilhetes a dizer que não me sentia inclinado para elas por gostar doutra pessoa. E gostava mesmo. De forma platónica e profunda. Ela é que me ignorava completamente. Até por razões classistas de família. Neste caso particular pode-se dizer que caí de amores. "Vê-la e amá-la foi obra dum momento". Mas o pior estava para vir. O namoro não podia limitar-se a ver os passarinhos e as solicitações começaram a surgir com a força duma juventude contida. Mais uma barreira a vencer contra a castidade apregoada pela religião. E assim foi. Depois de algumas dificuldades e inibições iniciais, namorámos intensamente. Penso que ainda hoje não se faz melhor.
Claro que a minha viagem teve início em Platão e só depois passou por Aristóteles. Chegar a Baco não foi tão difícil como pareceria. Surge a guerra. Casámos por procuração e depois religiosamente, em Luanda, na Igreja do Carmo. Quando nessa altura o Padre avançou com alguns obstáculos processuais, só lhe respondi que a minha mulher chegava às seis da tarde e já tinha o Hotel marcado. Ela queria casar na Igreja mas, se fosse assim tão difícil, a responsabilidade ficava com a hierarquia. Eu já estava civilmente casado. Tudo correu a contento, excepto a invasão da Índia, que me fez interromper as núpcias ao quarto dia, para regressar ao mato de S. Salvador do Congo. Assim acabou a minha primeira guerra, com uma filha encomendada em Luanda e que veio a nascer em Lisboa. Depois, Apocalipse. A minha Mãe, detentora duma saúde de ferro, morre de repente. Foi a gota que faltava. Na comissão de serviço seguinte, Guiné, além de revolucionário tornei-me agnóstico, ateu e anticlerical. De tal modo que, quando quis ser padrinho duma criança, o próprio capelão do Batalhão, um daqueles Padres com "H" grande, se recusou a aceitar. Continuei a militar na incredibilidade. Poderia contar mais episódios, mas todos eles iriam convergir na mesma conclusão. Ou se é, ou se não é. Há pessoas crentes, há pessoas descrentes e outras assim-assim. Estas terão sempre problemas de consciência. A minha posição actual, que mantenho há longos anos, radica na convicção de que o Homem é que inventou Deus e não o contrário. Basta ler os Ensaios que se encontram neste "site" em sede própria. Ninguém muda ninguém. Ninguém ensina nada a ninguém. Se assim for, fortaleçamos a capacidade de opção de cada um. A Liberdade de optar é um bem supremo. É obvio que não fiquei apenas pela praxis e também li os teóricos, desde Mercia Eliad, Bertrand Russel e Marvin Harris. Hoje, sou grande fã do Padre Mário de Oliveira, que publicou "Fátima nunca mais" e "Nem Adão e Eva, nem o pecado original". Subscrevo inteiramente o que lá está escrito.
Afinal, o que ficou da velha educação judaico-cristã a que a minha geração foi sujeita, para não dizer de que foi vítima? A doutrina social, o espaço de diálogo e solidariedade onde cabem todos, sem extremismos e numa convivência que pode ser feliz para o bem geral da Humanidade. Ficaram os princípios, que são sempre o mais importante. Tal como Piaff, "Je ne regrette rien!" Segue-se um pequeno conto, até agora inédito, porque até hoje ninguém o quis publicar... |
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NESSIE, MEU AMOR
Plagas longínquas e pobres, quase terras do fim do mundo. O lago, oblongo e profundo, é uma formação geológica remota. Sempre chamou a atenção de muitos curiosos e de alguns cientistas da terra. Sem consequências. Se ao menos houvesse ali uma atracção original, um monstro que fosse... A imaginação, casada com as brumas outonais, encarregou-se de resolver tão melindrosa questão. A primeira aparição suscita terror e dúvida, mas lá se vão sucedendo outras, dispersas no tempo, implantando-se cada vez mais entre o mito e a fantasia. Ultrapassados os temores, ali está, de mão beijada, reforçada por testemunhos cada vez mais insuspeitos, a tão almejada prenda para os habitantes locais. E começam a chegar as missões científicas, apetrechadas com toda a parafernália da tecnologia moderna. A dúvida já se considera razoável e a documentação produzida, relatório após relatório, aponta para a existência dum ser monstruoso, recordação viva dum passado que só deixara vestígios fossilizados. A natureza humana, sequiosa do inverosímil, não perde a oportunidade. O preço dos terrenos marginais, antes desprezável, sobe em flecha. A estrutura demográfica da região sofre mudanças nunca antes sonhadas. Rompem-se estradas, constroem se hotéis e pousadas, alimenta-se de dúvida e curiosidade uma indústria turística dia-a-dia mais florescente. Já quase não é possível visitar o país sem estar in loco, sabe-se lá se não vamos assistir a uma aparição! O arsenal de recordações, artesanais ou produzidas em série, parece não ter mais fim. Já é preciso, na distante capital, marcar com antecedência a indispensável excursão, não vá lá perder-se a oportunidade de contar aos amigos, no regresso, que se esteve ali, ali mesmo, naquele local tão impar dentre todos quanto existem ao cimo da terra... A inteligência e a iniciativa, decerto não despidas de oportunismo, transformam aquelas plagas, outrora longínquas e pobres, num lugar de peregrinação obrigatória, com lucros suficientes para erguer uma urbe dotada das mais modernas infra-estruturas. Não consta, até hoje, que o monstro seja responsável pela morte de algum ser humano. É evidente que nada disto tem a ver com Fátima.
Joaquim evónio |
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Auto-retrato
- 8.ª Página 1 - Influência O Éden romântico da Madeira nos tempos da minha infância e juventude era também um paraíso eclesiástico. Os meus pais e a Família em geral, no entanto, não eram frequentadores das missas de Domingo. Mas a religião oficial, com a sua influência, sobrepunha-se, quase constantemente, ao poder temporal. Directa ou indirectamente, era uma condição "sine qua non" para acesso a todas as áreas da sociedade. Claro que, desde os anos tenros, a minha irmã e eu tínhamos em casa, com visitas frequentes e sistemáticas, a figura mais ou menos tétrica da nossa catequista: a D. Teresinha, que colocava em evidência, para nosso espanto, as benesses do Céu e as maldições do Inferno. De tal modo que o Purgatório ou o limbo poderiam ser entendidos pela nossa mentalidade como lugares de simples passagem, quase o mesmo que a nossa precária vida terrena, em constante sobressalto devido à incerteza sobre o lado para que penderia o juízo final. Sabíamos de cor todas as orações possíveis e imaginárias, ainda que o seu significado profundo não fosse completamente apercebido. Em qualquer impresso a preencher no âmbito da Escola Primária nunca faltavam duas linhas fundamentais: a da nossa religião e a da religião dos nossos Pais. Invariavelmente, era necessário preenchê-las com as frases paradigmáticas: católico apostólico romano - Praticante. Sublinhe-se que não havia qualquer violência espiritual por parte da nossa Professora. Tratava-se apenas duma realidade rotineira do sistema. Esse conjunto de obrigações - as da catequese e as da declaração de profissão religiosa - não deixava entretanto de criar nos nossos espíritos juvenis uma dolorosa sensação de escrúpulo, particularmente em relação à verdade e ao pecado.
Dando um grande salto em frente, recordo-me de quando foi perguntado, à minha mulher e a mim, se a nossa filha deveria frequentar, no ensino secundário, a disciplina de Religião e Moral. Consultámo-la e apoiámos a sua decisão: Negativa. É bom já ter opinião própria aos 10 anos de idade. Não tive pessoalmente esse privilégio. Ao entrar para o Liceu, depois do exame de admissão, a questão não se punha para mim nem para ninguém: aquela disciplina era obrigatória para toda a gente. A Concordata de 1940 estava em pleno vigor. Cerca de dois anos mais tarde, o professor de Ciências Naturais e Geografia, natural de Gaia - Dr. Canedo de Morais - foi um grande Senhor na introdução das noções mais elementares sobre a existência de Deus. Leia-se a grandeza do Universo, a sua harmonia, a criação do Homem e a necessidade dum Autor para tal maravilha. Tudo coadjuvado por leituras de Alexis Carrel, Thiamer Toth, Orison Sweet Marden e outros filósofos cristãos. Claro que Bertrand Russel e a sua obra "Why I am not a Christian" eram completamente desconhecidos naquele contexto. Não nos era transmitido sequer nada que tivesse a ver com o Deus "ex maquina" do Iluminismo ou enciclopedistas, mas sempre com o ser uno e tripartido, Criador omnipotente e omnipresente. Os professores de Religião e Moral que tive no Liceu eram pessoas extraordinárias, particularmente os Padres Cabral (grande adepto de S. Luís Gonzaga, atleta e religioso) e Francisco Xavier Baptista da Mata, este um missionário que acabara de cumprir uma missão em Timor, profundamente preocupado connosco, militante de uma Religião centrada nos crentes e não propriamente na superior hegemonia da denominada "Santa Madre Igreja". Creio ter assumido todos os pecados da família e passei a ser um militante volitivamente interessado na fé e na sua difusão. Nada mais natural do que ter pertencido à Juventude Escolar Católica (JEC) e à Conferência de S. Vicente de Paula. Também frequentei um Retiro de uma semana no Seminário do Funchal, gerido pelo Padre José da Silva, S.J., um dos momentos de maior luminosidade e alegria da minha formação cristã. Durante um longo período fui quase um "rato de sacristia" e comungava diariamente, assumindo depois várias devoções, como a Comunhão na 1.ª Sexta-feira de cada mês, em busca de perdão para os grandes pecados "de toda a Humanidade". Também fui, por essa altura, credenciado como militante de Nossa Senhora do Monte do Carmo, tendo recebido, e obrigando-me a mim próprio a usar, os "bentinhos" que eram o seu símbolo. As minhas confissões, muitíssimo frequentes, passam entretanto a ser feitas em exclusivo ao Padre Francisco da Mata, meu director espiritual. Corria então o ano de 1956, estava no 7.º ano do Liceu, e referi-lhe que me sentia vocacionado para a carreira eclesiástica. Do alto da sua honestidade, rejeitou totalmente a hipótese. Disse-me que seria mais útil à Igreja e aos homens como chefe de família do que como Ministro de Deus. Poucas pessoas me terão conhecido tão bem. Era o meu confessor e amigo. Ainda hoje lhe estou grato por tamanha honestidade intelectual. Em finais de 1956, com dezoito anos de idade, foi-me outorgada uma Bolsa de Estudo para Medicina. Estava dispensado dos exames de admissão, com média elevada, e o valor em causa era mais do que suficiente para manter-me em Lisboa durante o curso. O meu Pai teria gostado que eu fosse para a Marinha. Um dos meus tios que eu mais respeitava insistia na Medicina. Mas imperou a minha decisão. Na véspera de realizar as provas de concurso à Escola do Exército (depois Academia Militar) desisti formalmente da Bolsa de Estudo, que não era válida para a carreira militar que elegi, contra todas as influências. Fui admitido. Ocorre inserir aqui um texto que escrevi mais tarde. Ei-lo:
Desencanto de Natal Nasceram crenças. Edificaram-se religiões, qual delas a mais verdadeira. Panaceias para a solução dos problemas e insuficiências do Homem. Do belicismo conceptual ou pragmático a que se devotaram, foram germinando a partir das sementes do medo ou da ignorância, em coexistência pacífica com laivos de idolatria e superstição. Os profetas anteciparam o surgimento de messias, presenças sagradas no seio do mais profano caos. À descontinuidade do espaço juntara-se a descontinuidade do tempo. A boa-nova propaga-se e incendeia esperanças: - Vai nascer o salvador da Humanidade. Nasceu. Nasceram. Criados à imagem e semelhança do Homem situado na sua conjuntura, reforço endogâmico propiciador de ferozes xenofobias. Em nome da verdade, sempre em nome da verdade. Aos ídolos e deuses antropomórficos sucederam seres perfeitos e inatingíveis, omnipresentes e omniscientes. Nem por isso a convivência se tornou mais pacífica Fizeram-se guerras, continua e continuará a combater-se: Caim não desiste de matar Abel. Escolhamos um pedaço roto deste planeta degradado. Além de se matarem uns aos outros, seres insensatos também querem destruir a sua aldeia, a sua morada. Como se não bastasse a fúria dos elementos naturais. Da terra destroçada erguem-se gritos de dor, espreitam despojos humanos por entre lama sangrenta. Através do calor fumegante, assistimos ao desfile dos mortos e estropiados, mãos sem mãos que apontam para nada, ossos rubros de fantasmas em lenta procissão nas sombras da madrugada. Com eles se cruzam os predadores, dentes de aço cerrados em sulfurosa excitação. Vão à caça dos irmãos que até agora conseguiram inexplicavelmente sobreviver. Deixaram, para trás ou pelo caminho, crianças amputadas de inocência sem se esquecerem de lhes encher de fome as barrigas opadas, sem lhes mitigar a sede ou afugentar os insectos repelentes que nelas se saciam. Mais além, apregoarão que tudo se fez pela paz, pela liberdade. E vitoriarão a santidade dos salvadores que os inspiraram contra a rebelião dos que apenas acreditavam noutras verdades. Coitados dos desvalidos da fortuna que bebem na poesia néctares de amor por vizinhos e inimigos. Sabem que a paz é humana e não erguem tal bandeira sobre divinos devaneios. Sofrem certamente mais que os outros. Mas salvadores de todas as crenças e religiões renascem ano após ano pela voz de acólitos inflexíveis a recordar dogmas que só a fé pode explicar e a renovar a sua voracidade ou estranhos convites ao sacrifício penitente. Onde moram afinal a Alegria e a Solidariedade? E onde pára esse tão apregoado espírito de Natal? Em anos anteriores também nada aconteceu de novo. Tantos salvadores e tão pouca Humanidade!
Dezembro de 1999 (2 - Decadência - Continua em 15 JUN 04) |
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Auto-retrato
- 7.ª Página joaquim evónio |
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Auto-retrato - 6.ª Página "Mens sana in corpore sano" O conteúdo das páginas anteriores já deu para entender que, pelo menos no que a mim respeitava, o meu Pai era forte apologista daquela máxima que Juvenal inserira nas suas Sátiras. Sempre me senti "enxertado em macaco". Subir às árvores era tão natural como andar sobre os telhados ou os "corredores", como se chamam na Madeira as "latadas". Tudo servia para exercício. O meu local favorito de estudo era o cocuruto da grande anoneira da casa dos meus avós, autêntico escritório onde me aconchegava confortavelmente e lia, escrevia, estudava e desfrutava a magnificência da paisagem que deslizava até ao mar. Para saber as horas, bastava olhar para o relógio da Sé. Trepar às árvores tornara-se mesmo uma actividade recorrente.
Além das caminhadas habituais, quase todos os fins-de-semana, se o tempo o permitia, também havia as aventuras sazonais, em que, como na Páscoa, constituíamos um grupo alargado, abordávamos, por exemplo, a Ribeira de João Gomes e subíamos até não lhe vermos quase o rasto. Íamos sempre bem guarnecidos de farnel e não faltavam os enormes e saborosos tremoços que a minha tia curtia num grande alguidar, com pedaços de carvão para ficarem bem amarelos. Trepando encostas ou saltando de laje em laje, lá seguíamos o nosso destino, durante o qual a entreajuda se manifestava da maior importância, bastava reparar nos escalões etários tão diversos que rumavam para a nascente. As plantas e os pássaros não tinham segredos para nós, conhecíamos quase todos os aromas e sons. Noutras alturas, organizavam-se animados campeonatos de futebol, primeiro com bolas de trapos, muito bem urdidas e fechando em "cu-de-galinha" para manter a sua integridade. Só mais tarde apareceriam as bolas de borracha, de diversas cores e dimensões. Para já não falar na época natalícia, em que a bexiga do porco era disputada por toda a rapaziada para fazer uma das melhores bolas ao nosso alcance. Eram perfeitamente comuns jogos como o das "escondidas" ou da "bilhardeira", também chamada bilharda. A "retoiça", isto é, o movimento e as correrias desenfreadas, era permanente. Entretanto, já que o meu Pai também jogara futebol e fora árbitro da modalidade, era perfeitamente normal que eu tivesse ido assistir a inúmeros jogos. Nunca me convenceram. Eram uma espécie de negação do espírito desportivo, com discussões acesas, donde não só nascia a luz mas, por vezes, também o calor... Recordo-me de ter ido, com a minha irmã, homenagear o grande jogador do Marítimo - o "Barrinhas" - com um ramo de flores. Foi um dos maiores desportistas daquele tempo. Merecia melhor sorte do que ter acabado como guarda do campo do Liceu... Destino semelhante teve o "Falhita", do União, neste caso como banheiro na praia da Barreirinha... Eram de facto outros tempos.
A entrada para o Liceu iria colocar um pouco de disciplina em várias actividades. Julgo que a malquerida ginástica "sueca" me fez muito bem, complementada pelos mais diversos jogos desportivos. Na sequência de todas essas actividades, viria a jogar Voleibol no Nacional, onde também fui nadador, e a jogar na primeira equipa de Juniores de hóquei em patins que se criou na Madeira - pelo União. Na Mocidade, havia uma plêiade de actividades de ar livre; fui passando por todas elas, com especial incidência na Natação, na Vela (Snipes) e no Campismo. De vez em quando, organizávamos um pequeno grupo e íamos à conquista dos pontos mais inóspitos da Ilha, sendo uma das nossas maiores façanhas a subida ao Pico Ruivo pelo lado mais difícil e agreste, a partir da Fajã da Nogueira.
A Ginástica era omnipresente e dava-me um prazer muito próprio de superação pessoal. Como corolário da tantas actividades desportivas, o corpo vai-se moldando e ganhando grande capacidade de resistência, depois da longa "endurance" que adquirira desde criança. A natação torna-se uma das práticas mais persistentes, talvez mesmo aquela a que dediquei mais tempo de treino.
A queda facial invertida, mais conhecida por "pino", tornara-se uma das minhas especialidades. Bastava haver espaço para as mãos, independentemente do local ou da altura. Não encontrei as fotos em que estou a fazê-lo no Cabo Girão, 500 metros de altitude à beira-mar, ou no monumento do Terreiro da Luta. Como também não encontro as que me foram tiradas mais tarde nas ameias do Castelo dos Mouros, em Sintra, ou no Farol da Barra, Ílhavo, a 60 metros na vertical da praia.
Mais tarde, aos dezoito/vinte, terei atingido porventura o máximo da forma física, o que me permitiu, durante cerca de nove anos, jogar Rugby na equipa do CDUL que foi campeã nacional por várias vezes, tudo isso intercalado com as Comissões de Serviço na guerra de África. Foi também a altura em que adquiri a especialidade de Instrutor de Educação Física Militar. Não estou a ser apologético. O que gostaria era de deixar a ênfase no facto de sermos capazes de dominar o corpo através duma vontade continuada e dum exercício metódico e sistemático. Naquele tempo, não havia, como hoje, pelo menos com acessibilidade geral, os chamados desportos radicais. O que fazíamos, na minha geração, era correr riscos que desafiavam a normalidade. Sempre dentro das normas do mais estrito espírito desportivo. Descer a corda de braços abertos era um bom exemplo do que acabo de dizer.
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Auto-retrato - 5.ª Página Incursão nos domínios da caça submarina. Como já vimos, este Auto-retrato vem sendo pintado em estilo Orson Welles - tipo flashback... Ia começar por dizer quanto pertenci desde sempre a uma família de verdadeiros andarilhos, que organizava longos passeios a pé. E o meu Pai nunca se esquecia de exigir-me a redacção final, como se de um diário de bordo se tratasse... Ele sempre quis, aliás, que eu fosse para a Marinha.
Mas agora a natureza convida-me a dar um salto para a frente. Depois de ter sido ferido em combate aos trinta anos, e após três de internato no hospital - o que nem todos os médicos têm, - claro que não parei. Um mês depois da "baixa", agravada ainda por uma úlcera duodenal em franca actividade, já conduzia automóvel e voltava a treinar a equipa de Rugby da Academia Militar. Para já não referir os autênticos campeonatos de "canadianas", com corridas à volta dos corredores hospitalares ou "pinos" dos mais caprichosos em cima daquelas geringonças. De qualquer modo, a secção de "pinos" também merece ser autónoma... Comecei finalmente a ter férias, com regularidade, a partir do Verão de 1969. Todos os anos íamos para Lagos, linda cidade do Barlavento algarvio. Cansado de estar sentado à sombra do chapéu-de-sol a ler um livro e a fumar inveteradamente, um dia resolvi comprar um equipamento mínimo e dedicar-me à caça submarina, actividade que sempre me fora vedada na Madeira pelo meu pai, já que houvera um acidente mortal, mal explicado, com um dos maiores caçadores da época... Em 30 dias de férias, a água estava suficientemente "lusa" ou calma para mergulhar durante 20. Desses, dez eram bons e cinco óptimos. Sempre em apneia, claro, até aos 10/12 metros de profundidade, pois a caça com "garrafas", além de proibida, não é desporto mas agricultura... a média compensadora andaria pelos cinco.. Sempre me senti bem dentro d'água, logo, essa actividade era duma simplicidade atroz... Não vem a propósito entrar em pormenores técnicos mas vale sempre a pena deixar algumas recomendações: - Não mergulhe sem exame médico prévio. (A licença de caça submarina é aqui perfeitamente burocrática...). - Mergulhe sempre em equipa. Pode precisar de apoio em qualquer momento naquele meio "hostil". - Entre na água quando sentir mesmo um forte apelo, não a vale a pena ir por ir... - Nunca mergulhe se estiver constipado. A manobra de compensação "valsalva" não funciona e pode rebentar um tímpano, o que significa desorientação completa com os riscos inerentes. Vai para o fundo quando pensa estar a subir. - A bóia de sinalização não deve estar amarrada ao cinto de chumbo. O seu terminal deve ser levado na mão, como se fosse uma âncora de que se descarta quando quiser... Com a prudência adequada, a caça submarina pode ser um passatempo quase ideal, visitando lindas paisagens , sem ruído, em completo relaxe... Nem se dá pelo passar do tempo. Gostava de mostrar algumas capturas felizes como, por exemplo, um linguado de 47,5 cm - chegam aos 60 cm - uma dourada de 3 kg ou uma santola de 1,3 kg. Esse grande linguado, caçado a 3 de Setembro de 1980, deu de jantar a seis pessoas...
Não vou descrever o que se deve ou não deve fazer para apanhar linguados ou chocos, que andam sempre aos pares, basta arpoar um e disparar a outro... - 2 em 1, como nos supermercados. Os polvos são muito suaves, dóceis, inteligentes e teimosos. Cheguei a apanhá-los com 5 e 7 kg e nunca nenhum me magoou... No que concerne às moreias, cuidado! Os inexperientes nem devem aproximar-se. Enfim, pode ser que um dia escreva mais detalhadamente sobre esta actividade e o comportamento das espécies marinhas... Sempre foi uma experiência de cerca de dez anos, entre os meus quarenta e cinquenta. Claro que nessa altura deixei de fumar e passava quatro a cinco horas por dia dentro de água, com mergulhos repetidos até dez ou doze metros de profundidade... Não esqueçamos que cada dez metros de água equivale ao aumento de pressão de uma atmosfera. Por hoje já chega. Na próxima actualização abordaremos novamente o Desporto, para não entrar de rompante na religião. je |
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Auto-retrato - 4.ª Página Preenchendo alguns intervalos, fragmentariamente e ao correr da pena... Retornando aos tempos da primeira infância, contaram-me que tive todas aquelas doenças mais ou menos comuns, como o sarampo, as "bexigas loucas" e a papeira. Desta, ainda recordo vagamente a minha figura de xaile na cabeça, ou seja, uma toalha, ou o que fosse, passando por debaixo do queixo e com um nó no "cocuruto" Também passei pela tosse convulsa. Nestas circunstâncias maléficas, a Titia - a tia Beatriz - foi a enfermeira de todos os momentos. Durante ou depois desse período e dos incidentes referidos, que não posso precisar cronologicamente, lembro-me muito bem de que, de certo modo, era bom estar doente, por múltiplas razões: - O mimo habitual ainda se tornava maior... - Tinha acesso a deliciosas canjas de galinha (sempre se criaram galináceos lá em casa) ou de "borracho", que a minha mãe ia comprar de propósito ao "Mercado dos Lavradores" onde, durante muito tempo, o meu tio paterno Jaime Mota de Vasconcelos desempenhava funções de fiscal da praça do peixe. Na altura só se comia galinha em dias de festa. - Finalmente, porque me era disponibilizado o cesto dos brinquedos, normalmente acessível só durante o Natal e que se encontrava em cima do guarda-fato, coberto por um lindíssimo pano com desenhos de pavões, que a minha irmã ainda conserva. De resto, os nossos brinquedos eram de fabrico caseiro e nem por isso deixavam de cumprir a sua missão de entretenimento. ... Quando comecei a andar e por aí fora, o meu pai também me levava a passear, principalmente ao "campo de aviação", parte do "Caminho de Terra" onde havia uma casa com uns cata-ventos em forma de avião. Cantava para mim e contava-me histórias de mistério em que acreditava e depois preenchiam os meus sonhos. Nesses tempos, o Molhe da Pontinha terminava no Ilhéu (Fig. 1) e os navios eram obrigados a ancorar ao largo, sendo o transbordo de mercadorias feito por fragatas, que também os abasteciam, e o de passageiros em lanchas que os conduziam às escadas do cais. Só muito mais tarde o Molhe foi prolongado para a frente do Ilhéu, através do qual foi aberto um "furado", podendo então passar a abrigar navios de grande calado.
Não me recordo do Ciclone de 1941 mas lembro-me muito bem de ver ainda grande parte dos seus destroços, como casas e alpendres destelhados... Mais tarde, não sei quando, mas certamente nos fins da Guerra ou no período imediatamente seguinte, eu era muitas vezes o estafeta que ia à venda do Sr. Francisco (Francisquinho) com o rol das compras... E também fazia pequenos recados. O meu avô materno, por exemplo, fumava Stª. Maria, que eu lá ia comprar com muita frequência... Um litro de petróleo custava então 2$20! ... Aquela grande atracção que sentia por cavalos, já referida em página anterior, não ficou totalmente insatisfeita pois, para além de todos os imaginários que povoavam as minhas ambições, também fiquei para a posteridade, embora em estúdio,... a "Bem cavalgar toda a sela"... (Fig. 2). Tudo isso para além das vassouras que davam excelentes montadas e serviam de rápidos corcéis para inolvidáveis corridas à volta da pista do quintal. Tudo isto vem suscitar recordações, mais ou menos enevoadas pelo tempo. Num dos manuais escolares estava a descrição completa e genuína do que o jovem que eu era pensava naquela altura... A agressividade contida tinha encontrado um aliado e reclamava: "O cavalo de pau era o terror das cadeiras"... Entre o sonho e a realidade, julgo que fica aqui muito bem inserido o inolvidável poema de Afonso Lopes Vieira, animador cultural da Juventude e grande poeta luso, que aos mais novos dedicou uma parte significativa da sua inspiração.
Sendo a Indústria de Bordados uma das mais florescentes da Madeira, raras eram as Mulheres da classe média-baixa que não se dedicavam a esse trabalho artístico. Poucos terão conhecimento da exploração que as Empresas faziam de mão-de-obra feminina. As "bordadeiras" iam lá buscar os desenhos, em papel vegetal que depois, já em casa, eram picotados e, com uma almofada do género das de carimbo, embebida em tinta azul, passava-se por cima, para fazer a impressão no tecido... Depois, seguia-se o árduo labor de aplicar engenho e arte. Muitas vezes acompanhei a minha mãe na recolha desses materiais, recordo-me da Casa Muller, e era quase um perito na picotagem das matrizes. Vivendo a maior parte da minha infância "debaixo de saias", também experimentei o bordado, mas os meus dotes nunca foram além do ponto-de-corda e do ponto-de-cruz. Alguns anos antes da minha vinda ao mundo, o meu pai utilizou a sua arma - a pena - para denunciar todo aquele tipo de exploração, com um tal emaranhado de consequências que havia de levá-lo a ser deportado para Timor, obviamente inocente, como terão ocasião de ver oportunamente no Capítulo das suas Memórias. ... O tempo passava suspirando pelas férias, pela melancia, a que chamava rica-coisa, e pela areia, conchas e Sol do Porto Santo. Já que caíam normalmente no mês de Setembro, muitas vezes fiz anos nesta Ilha Dourada. Dentre outras de que só as fotografias me trazem testemunho, lembro-me perfeitamente de posar para esta, no dia do meu 7.º aniversário, ali na ponta do que me parecia um Cais enorme, tendo por fundo o célebre e velho Gavião de tantos enjoos no terrível mar da "Travessa" (Fig. 3)...
A pintura lá irá continuando aos poucos, com a ajuda da paciência do leitor e da minha também... (continua) je |
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Auto-retrato - 3.ª Página - Mais algumas pinceladas... Pode dizer-se que fui uma criança feliz. "Não, não nasci em berço d'oiro. Nasci em casa, como acontecia por aquela época. E o meu berço era de madeira, feito pelas mãos do meu pai, de mogno escurecido e bem polido, com duas guardas amovíveis, investimento confiante em que eu haveria de crescer e o utensílio poderia ser facilmente transformado em cama, bastando para isso retirar as grades. Se fosse d'oiro, só traria problemas, desde a cobiça - e sei lá se o roubariam mesmo comigo lá dentro! - até vir a constituir uma reserva pecuniária que poderia vir a ser alienada para resolver problemas económicos mais prementes. Por todas estas razões estava satisfeito com a minha condição e mais ainda quando vim a perceber o que era isso de nascer em berço d'oiro! Não me perguntem quantos meses ou anos teria. O meu tempo não se contava da maneira normal, a minha noção de idade tinha a ver com o cosmos e, se bem me lembro, dependia de factores de pura natureza astral. Havia, no entanto, quem o suspeitasse, pois ao sonhar que crescia, vislumbrando de olhos semi-cerrados as insondáveis belezas da galáxia, não faltava de vez em quando uma observação mais inteligente do que parecia à primeira vista. "Coitado, está mesmo tomadinho da lua!..." Ai!, se soubessem a influência que já nessa altura a lua exercia em mim, bem podiam aprofundar o seu juízo para virem ao encontro desse diálogo com o universo, sem restrições nem limites, enriquecimento constante que não parava sequer durante o sono. " (in "O berço voador" - Conto - "Sombra em Clave de Sol")
Usufrui do leite materno até aos dezanove meses, altura em que nasceu a minha única irmã. Como "varão" mais novo da Família, sempre tive alguns direitos especiais, ou excepcionais. Fui educado por mulheres: Pela minha mãe e, principalmente, pela minha tia Beatriz, que me fazia todas as vontades e andou comigo ao colo até aos sete anos de idade. Era solteira e praticamente criou um sobrinho de cada geração, como se seus filhos fossem... Só mais tarde viria a casar. Disse-me uma vez um amigo que isto de ser educado por mulheres acrescenta em muito a nossa sensibilidade... Fui cúmplice consciente das "aventuras" de alguns membros da Família que me julgavam novo demais para entender o que se passava. O meu Pai andava muito por fora, nos seus múltiplos afãs de jornalista, escritor e até empresário. Nessa altura, as Gibraltinas invadiram a Madeira, como refugiadas de guerra, e tenho algumas recordações de que o meu pai não deixou de apanhar algum sotaque... Não me lembro de ter aprendido a nadar. A primeira recordação que tenho é de estar no mar, com uma das mãos sobre o ombro do "Saca", - José da Silva - que fez a travessia a nado do Canal da Mancha e era campeão da Madeira em todas as distâncias acima de 100 metros livres. Fui sempre incentivado em direcção ao desporto, especialmente pelo meu Pai. Do "físico de galinha" dos 10-12 anos até a classificação máxima em Ginástica e Desportos na Academia Militar vai uma longa caminhada que merece uma abordagem separada. Comecei a rever provas tipográficas aos 9/10 anos de idade, quase nasci numa tipografia. O meu Pai escrevia com regularidade em vários jornais e editava na altura a sua Revista Açores-Madeira, de intercâmbio insular, e tudo aquilo era um trabalho artesanal e familiar, a paginação e a revisão eram feitas no quintal da nossa casa... Entretanto, o corpo continuava a crescer-me à volta das orelhas, conforme figura junta...
Entrei para a Escola Primária - já sabemos como era a D. Bernardete - mas não sem ter tido uma experiência anterior em que era o pior dos alunos... na Escola da D. Albertina! Deve ter acontecido algo de inexplicável com a mudança de escola, pois passei a ser uma espécie de sabe-tudo... Até sabia de cor a maior parte dos textos. Sempre ouvi dizer que o burro é um animal sóbrio e de excelente memória...
Depois, fiz o exame da 4.ª classe e, logo a seguir, o de admissão ao Liceu... Por esses tempos, a minha maior ambição era ser polícia para prender os meus primos... Era o mais novo e estava em desigualdade de circunstâncias... E o que mais desejava era um cavalo e uma espingarda, símbolos do poder nos filmes de cow-boys que comecei a ver sistematicamente... Mais tarde, tive tantos, duns e doutras. Foi mesmo uma plétora... Fiquei completamente cansado de cavalos e espingardas! (Este relato continua, mas vamos dar um salto para cerca de 10 anos mais tarde... para as espingardas...) Entrevista
Uma aluna finalista do Curso de Jornalismo duma das nossas Universidades foi incumbida, como trabalho de curso, de apresentar uma entrevista com um antigo combatente... Coube-me a mim e é o que se segue... Mais algumas achas para a fogueira do Auto-retrato... Uma guerra na perspectiva pessoal... Joaquim Evónio nasceu no Funchal, Madeira, em 1938. Coronel de Infantaria, na situação de reforma extraordinária, licenciado em Ciências Sociais e Política Ultramarina é, presentemente, além de Assessor Principal do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, escritor e poeta profícuo. Joaquim Evónio relata nesta entrevista algumas das suas experiências como veterano de guerra. O seu percurso como militar começa com a desistência de uma bolsa de estudo para Medicina a favor da entrada na Academia Militar. Em 1961, com apenas 23 anos, é enviado para Angola, fazendo parte da primeira companhia de Caçadores Especiais que pisa o território depois do início do terrorismo. Começara a Guerra do Ultramar. A esta primeira comissão juntam-se outras duas na Guiné, com início nos anos de 1964 e 1968. Esta última foi interrompida prematuramente devido a ferimentos em combate. As memórias são sempre traiçoeiras, mas são a realidade recordada. Ao contrário do que o leitor possa antecipar, estas recordações são, de uma forma surpreendente, algo românticas, como o mote " Em campanha mas sempre elegante" bem ilustra. 1.Relate-me a sua experiência como combatente de guerra, a partir do momento em que decidiu ingressar na Academia Militar? Joaquim Evónio: Entrei para a Academia Militar e, depois de lá estarmos somos voluntários. Obviamente que, quando entrei, não se esperava que houvesse guerra mas ela sobreveio e a nossa missão tinha de ser cumprida. E fui para a guerra em 1961, com 23 anos (idade com que nos deixavam casar), embarcando para Angola, com um espírito que não tinha nada a ver com política porque era militar. Embarcámos a 21 MAR 61. Fomos a primeira de Caçadores Especiais a seguir depois do 15 MAR. No dia 4 de Fevereiro houvera o assalto à Casa de Reclusão de Luanda e no dia 15 de Março começou o terrorismo. 2.No fundo, como foram esses dois anos "onde fez" a guerra e contactou com o desconhecido? Joaquim Evónio: O que sentia, e julgo que era comum para aqueles que iam comigo, é que íamos para o desconhecido. Como Caçadores Especiais estávamos preparados para enfrentar todas as dificuldades mas não sabíamos como era o inimigo, o que era o inimigo e se era branco ou negro. Se, em guerra subversiva, como dizia Mao, a população está para o guerrilheiro como a água para o peixe, como distinguir? Ao chegarmos a Luanda fomos aplaudidos pela população ao longo de todo percurso dentro da cidade até ao Quartel. Pediam vingança porque tinha havido terrorismo. Tinham assassinado o Capitão Castelo da Silva, comandante da 6.ª Companhia de Caç. Especiais e tinham-lhe exposto os órgãos genitais espetados num pau, fazendo o mesmo a dois ou três homens que seguiam com ele. Nós ainda nem tínhamos armas. Nesta altura, era alferes e 2.º comandante da Companhia, portanto, quando o Capitão não estava era eu quem comandava. Tínhamos uma tropa especial e bastante difícil quando aquartelada mas a melhor em operações; andámos no mato sempre de cabeça erguida, com armas aperradas e, na nossa primeira operação - Abertura do itinerário do Negage para Maquela do Zombo - demorámos mais de 15 dias a recuperar e abrir esse troço de estrada, incluindo a construção de onze pontes destruídas pelo IN.
3.Como foi o regresso a Portugal? Joaquim Evónio: A chegada ao Continente foi uma espécie de desilusão. Ninguém se preocupava com isso e andavam todos a dizer que só havia acções de polícia quando nós andávamos em guerra. E isso deu me alguns dissabores. Ao chegar a casa parecia que nada se passava, e nós que tanto tínhamos lutado. 4.Na metrópole, como foi a sua adaptação e o seu percurso? Joaquim Evónio: Fui colocado numa unidade e fiz o curso de Instrutor de Educação Física Militar, tendo já a especialidade de Caçadores Especiais e de Minas e Armadilhas. Estava, então, em Caçadores 5, um quartel terrível. Só lá eram colocados dois tipos de pessoas, as de confiança e aquelas que se encontravam sob vigilância. Mas convivíamos perfeitamente e encontrei seres humanos extraordinários, que estavam lá para serem observados. Isto porque, nessa altura, duas Pides, a Pide propriamente dita e a Pide do Santos Costa, Ministro da Defesa. Depois de fazer o curso de educação física, fiquei colocado em Mafra, no Centro Militar de Educação Física, Equitação e Desportos, mas ao fim de alguns meses mandaram-me para Évora fazer mais uma companhia para embarcar para o Ultramar. 5.Em 1964 partiu para a Guiné. Como foi esse período, onde inclusive foi promovido de Tenente a Capitão? Joaquim Evónio: Nessa altura embarquei com 160 homens, todos muitos jovens, e fomos para a guerra. Eu já tinha alguma experiência da primeira em Angola mas a Guiné era diferente. 6.Qual a diferença entre a experiência de Angola versus a experiência da Guiné? Joaquim Evónio: A diferença era muito simples. Enquanto que em Angola nós tínhamos de combater terroristas, sabendo que se fôssemos apanhados iam aplicar-nos as maiores atrocidades do mundo, na Guiné era diferente. Combatíamos guerrilheiros e estes eram pessoas com princípios, com honra, e eu tinha a certeza absoluta de que se fosse apanhado não ia ser massacrado nem crucificado. Ia ser aproveitado como muitos foram para fins de propaganda... Assim, o nosso inimigo na Guiné tinha um comportamento elegante, e o lema da minha Companhia era "Em campanha mas sempre elegante", o que não impediu, todavia que tenha tido 16 mortos nessa Comissão, quando só tive um em Angola. 7.Após o retorno da Guiné, em 1966, o que fez? Joaquim Evónio: Viemos embora em 1966 e fomos a primeira companhia a inaugurar, "por baixo", a ponte sobre o Tejo. Estávamos sempre em instrução e fui colocado em Elvas para treinar mais uma recruta. 8.Em Janeiro de 1968, voltou para Guiné, sendo esta a 3.ª comissão de serviço. Volta a 28 de Agosto devido a um ferimento de guerra. O que passou nesse período? Joaquim Evónio: Esta última experiência foi muito boa e ao mesmo tempo terrível, dado o potencial do IN. A minha primeira comissão, em Angola, foi a "heróica, a segunda foi a da "contestação", porque me interrogava sobre todos os porquês da nossa presença ali e fui perseguido por isso. Na terceira, estava na moda e, por uma questão de experiência, foi a da "maturidade". Acabou em 28 de Agosto, quando pisei uma mina anti-pessoal que me esfacelou parte de um pé e me permitiu, primeiro, regressar à Metrópole e, segundo, ter a sensação horrível de abandonar os meus homens... O meu maior pesadelo era ter a minha gente sem o meu comando. Quando voltei, fui operado cerca de uma dúzia de vezes e, tempos depois, já cansado de estar no hospital, optei por passar à reforma extraordinária, pois a minha condição não me permitia voltar para a guerra. 9.Sei que esteve preso em Caxias no 11 de Março de 1975. O que aconteceu nessa altura? Joaquim Evónio: Em 1974, quando aconteceu o golpe de estado a 25 de Abril, andei a tentar explicar a todos que aquilo estava certo. Contudo, quando chegou o 28 de Setembro, fiquei com muitas dúvidas e, como estava desempregado sem justa causa mas com uma boa indemnização, resolvi aplicar o capital ao estudo da Revolução. E fui à 5.ª Divisão, ao Quartel-general, a todas essas instituições, tendo chegado à conclusão de que estávamos a ser enganados. O MFA tinha-se fragmentado e colou algumas das suas parcelas aos diversos partidos, exactamente quando devia ter desempenhado o papel fundamental de árbitro. No dia 12 de Março de 1975, eu e mais cerca de 180 militares fomos presos para Caxias. Estive lá dois meses, um dos quais incomunicável, sem prestar declarações, sem culpa formada e sem advogado. Depois deste período sem visitas nem recreio, resolvi prestar declarações, mas segundo os meus termos. Ainda escrevi um livrinho de poemas em Caxias - "Grades de Papel" - mas quando saí fiquei coarctado em algumas liberdades, com residência fixa, não podendo trabalhar. Claro que estava inocente e fora de qualquer intervenção nos "acontecimentos" de 11 de Março. Mas a minha capacidade de incómodo sempre foi grande, fui dos primeiros a escrever um artigo no "Expresso" contra o MFA e os saneamentos selvagens (22 Fev 75) ... Fui preso à consignação... 10.Após a sua libertação, como se processou a continuidade do seu percurso de vida? Joaquim Evónio: Depois deste período, um amigo meu perguntou-me se eu queria ir para a Protecção Civil e aceitei automaticamente. Então, no dia 21 de Janeiro de 1976, ali "assentei praça", já lá vão 28 anos. 11. Quais foram e, actualmente, quais são as suas funções no Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil? Joaquim Evónio: Neste momento sou Assessor Principal mas já fiz de tudo. Desde escrever à máquina, operador de telex, Director de serviços de Formação e Ensino durante 8 anos, Porta-Voz para a Comunicação Social durante seis anos e responsável, juntamente com outras pessoas, pela publicação da revista " Protecção Civil". 12. Considera que a sua experiência de guerra corresponde, de alguma forma, à realidade que foi transmitida para fora nesse período e posteriormente? Joaquim Evónio: Nunca correspondeu e fomos enganados. Nunca, porque as pessoas não entenderam que estávamos ali para defender uma coisa que não era o território mas sim a população, que era o mais importante. 13. Do seu ponto de vista acha que a descolonização foi uma boa descolonização? Joaquim Evónio: Acho que foi horrivelmente mal feita. O poder instituído depois do 25 de Abril fez exactamente aquilo que era esperado do ponto de vista do inimigo. Entregar as pessoas e os territórios à União Soviética, com a complacência da América Democrática, que em nada nos apoiou. A nossa descolonização foi um sinal de fraqueza, e já dizia Camões que "O fraco rei faz fraca a forte gente" ! Tivemos muito fracos reis nessa altura. 14. Se tivesse de voltar atrás no tempo, o que mudaria neste seu percurso? Joaquim Evónio: Se tivesse de voltar atrás, em termos de comportamento na guerra, teria feito tudo o que fiz, teria desobedecido objectivamente às ordens que não eram legítimas como, por exemplo, a uma que recebemos no dia 13 de Maio de 1961 do Quartel-general, onde nos disseram para matar tudo, homens, mulheres e crianças. O meu Capitão transformou essa ordem e disse que só atirávamos aos inimigos armados. Tenho a consciência tranquila, não deixei nem uma mina por desmontar, apesar de ter montado muitas e de, com elas, ter causado bastantes baixas entre os adversários que se aproximavam dos nossos quartéis. 15. Perante a realidade de uma guerra o que mudou em si? Joaquim Evónio: Quando passamos por situações destas, temos a noção da nossa pequenez e de que não sabemos bem o que andamos a fazer. Felizmente, consegui ter, em certos momentos, o discernimento de perceber que a população era o mais importante. Aprendi "fula" na Guiné e dei-me muito bem com todas as minhas populações e até estou convencido de que, se não fosse o meu relacionamento com elas, não estaria aqui. Só não me mataram porque não quiseram, já que me expus imenso. Regressei mais cidadão do mundo, mais ecuménico e, do ponto de vista antropológico, vim mais actualizado, mais apto a enfrentar todos os desafios da vida. Do ponto de vista sociológico, considero que a guerra é um fenómeno intrinsecamente sujo e fazer uma guerra limpa, como tentei fazer, "em campanha mas sempre elegante", é o mais difícil. a) Tatiana |
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Auto-retrato - 2.ª página Hoje, aliás como
prometido, deveria ter acrescentado pelo menos mais uma pincelada a
este Auto-retrato... je |
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JOAQUIM EVÓNIO
Joaquim Evónio Rodrigues
de Vasconcelos. Nasceu na Freguesia de Santa
Maria Maior, Funchal, Madeira, a 3 de Setembro de 1938.
Licenciado em Ciências
Militares - Coronel de Infantaria na situação de
Reforma Extraordinária. Associações a
que pertence: Contactos electrónicos:
Está presente em: Publicado:
Poesia: SOMBRA EM CLAVE DE SOL , Universitária Editora Lda., Lisboa, 1999. Desenhos de José Jorge Soares. Prefácios:
Ensaios: Livros colectivos:
Colaboração:
em poesia e/ou prosa nas revistas: Recensões e apresentações de obras literárias:
Diversas
Revisões tipográficas:
joaquim evónio
Nota: É a Pedagogia do Amor. |
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A PEDAGOGIA DO AMOR
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