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Dentre o vasto acervo da sua obra polivalente e sinérgica, paleontólogo e como tal caminheiro que percorre tempos e espaços diversos, da pintura ao teatro, do conto e do romance à poesia e à escultura, Miguel Barbosa acaba de dar à estampa um novo livro de poemas, Um gesto no rosto da utopia , com sugestiva capa da sua autoria e em edição bilingue ( Português/Francês). Tratando-se agora de reflectir sobre esta última obra, isso não impede, todavia, que se sinta toda a força paradigmática da sua produção anterior. E não inibe, pelo contrário, que se estabeleçam correlações de sinonimia e de antinomia. O poema em epígrafe coloca o acento tónico na vertente social em que vivemos, ou vegetamos, no mundo de hoje projectado no futuro, momento actual e de intervenção, à qual Miguel Barbosa nunca se furtou ao longo da sua prolixa obra de combate. E como poderia um artista, precursor do amanhã, ignorar o que aí está ou por aí passa? Mas outro tempo, tempo longo, inscrito entre as grandes incertezas epistemológica e escatológica, se reflecte nesta obra suave e simples. Para além do tempo breve, em que uma determinada acção seria determinante de resultados sociais facilmente atingíveis, um tempo longo, uma eternidade de que a sua paleontologia apenas conhece o princípio possível, um futuro incerto e intangível se inscreve na sua eternidade, objectivo fundamental da sua obra em geral e destes poemas em particular. Como é o tempo em que vivemos, de que moléculas é feito? O Autor dá-nos uma pista: Puseste um vírus/de tempo/em tudo o que faço/acredito/e sou/fizeste-me de séculos/de dúvidas, de medos/de pólvora, de miséria/que arrasto/dentro de mim/que opção me deixaste/para que eu possa/decidir/a não ser acreditar em ti?/Porquê? Diz me porquê?/ainda estupidamente/ te procuro/Porquê? Este tempo longo, que Fernand Braudel só declinaria porque geológico e não histórico, é uma das características essenciais da obra do Autor. Neogótico por excelência, perscrutador da perfeição através de figuras, pictóricas ou literárias, que buscam de forma fusiforme e longilínea a altura, ou as alturas da perfeição, Miguel Barbosa conseguiu, neste GESTO e nesta UTOPIA, romanizar as arestas com que a sua agressividade nos feria de vez em quando e, assim, por incremento de intelegibilidade, alargar a compreensão e aceitabilidade do grande e sensível exército dos seus prosélitos... Mas a obra, pequena em tamanho mas enorme em qualidade, continua a reflectir a dicotomia entre o tudo e o nada, entre a origem e o fim, entre a essência e a existência , trazendo-nos ainda algumas referências sempre perenes na sua produção... Sem identidade/nem amanhã/ (...) escavava o corpo/com as unhas/à procura da alma/perdida no passado/em tintas acrílicas/de sangue/pele, ossos, nervos/e lágrimas/ (...)só carne /e sangue/fiz um poema/para quê/Para quem? Que quer dizer-nos este Miguel Barbosa que escreve sem obediências, que apenas segue os princípios singulares que a sua alma e a sua inspiração lhe ditaram? Decerto uma mensagem global, à conquista de um homem novo, independente e sem subserviências, catedrático senhor do seu futuro num mundo sem ilusões. Não é fácil conhecer Miguel Barbosa. Tudo leva a crer que os estrangeiros o conhecem melhor do que nós. O que precisamos, bastante mais do que ele, Autor, é de uma recensão de toda a sua obra e não apenas deste Gesto com que ora nos brindou.
Joaquim Evónio |