Mestre Ulisses Duarte - Poeta de Eleição

O Mestre Ulisses Duarte pertence à ínclita geração de 1923, onde está acompanhado, entre outros, por Natália Correia e António Manuel Couto Viana.

É um dos grandes vultos da Poesia Contemporânea, ultrapassando largamente, pela sua dimensão intemporal, muitos a quem o vulgo chama Poetas...

Nunca tendo acontecido escrever pessoalmente sobre a sua vida e obra, embora me considere beneficiário de muitos dos seus ensinamentos na "Tertúlia Rio de Prata", socorro-me do texto que para ele escreveu outro grande poeta e filósofo, J. O. Travanca-Rêgo, arrancado prematuramente ao nosso convívio (1940-2003), e que introduz a grande Obra que é "O Cajado do Peregrino" - Prémio Aquilino Ribeiro 1992, um entre cerca de três dezenas com que foi agraciado.

 

                                      joaquim evónio


Mestre Ulisses Duarte 
(Visto por Pedro Massano)


J.O. Travanca-Rêgo
(C/ vénia à Ed. Diferença)

"O CAJADO DO PEREGRINO"  DE ULISSES DUARTE

J.O. Travanca-Rêgo


Capa de Pedro Massano

"Paráfrase sobre parábolas", eis como - num enunciado lapidarmente sucinto - poderíamos resumir a leitura estrutural deste livro de Ulisses Duarte. Trata-se, aquilo que o autor aí desenvolve, dum processo de paráfrase indirecta (ou criativa) - e que se realizará, talvez, predominantemente sob o modo da alegoria. Com isto, pretendemos afirmar que os poemas de "O Cajado do Peregrino" não são (de maneira nenhuma!) um simples comentário, derivado e repetitivo, do sentido das parábolas citadas em epígrafe aos mesmos poemas. Efectivamente, os poemas operam toda uma série de desvios semânticos à matriz presente nas citações epigráficas, sendo através dessas inflexões de sentido que a estrutura semântica do conjunto articulado de poemas vai sendo progressivamente construída.

A dupla metáfora do título é, desde logo, bastante evidente quanto ao sentido global sob o qual pretende assumir-se este conjunto de poemas: a solidão humana, em si, a si própria se revela tão insuficiente e tão desamparada, que não resiste, agora ou logo, ao vocativo dum apoio no exterior de si própria - independentemente da natureza do "objecto de apoio" convocado. Assim acontece na solidão do corpo quando a fraqueza deste mais se revela, e assim acontece igualmente em todas as circunstâncias espirituais sempre que a solidão ontológica torna menos evidente o sentido existencial. E o transcurso do tempo revela inevitavelmente o Homem, de si a si, como um "peregrino", que, na progressiva penosidade, ou cegueira, ou mudez, do trajecto, sempre acabará por clamar o seu auxílio viático...

Entretanto - apesar de toda a explícita estrutura deste conjunto e sequência de poemas, apoiada como vimos em citações de parábolas ou outros simples passos do Evangelho cristão - Ulisses Duarte não vem aqui, a estes poemas, fazer, propriamente, qualquer espécie de institucional confissão de fé religiosa. Antes, convém destacar, serve-se das citações em causa como de um recurso literário, possível entre outros. A opção pelo concreto recurso em presença não será, é evidente, um processo aleatório absoluto entre os restantes possíveis: enfim, a opção por este processo terá sido decidida com espontaneidade, com naturalidade. Ao fim e ao cabo, a Tradição Cristã é uma secularíssima sabedoria, presente e viva no espaço cultural do Ocidente (e não só). Nada impede, pois - antes muito pode recomendar - que a intenção de comunicação metafórica do poema se prenda ou desprenda do recurso a essa tradicional presença cultural.

O Autor constrói, assim, as suas próprias e pessoais "parábolas" (os poemas) num intercâmbio de similitudes e diferenças com as citações a que recorre epigraficamente. E, da síntese final deste confronto entre tradições e originalidade autoral, o que nos fica é a certeza de que a poética de Ulisses Duarte é, também, uma ética - sendo que esta só poderá ser, para o Autor, obviamente histórica, isto ao contrário do que acontecerá com o sentido para onde aponta o texto evangélico glosado. Enfim, cremos, da poética de U.D. fica arredada a noção de transcendência, situando-se o seu cume na imanência do imaginário criativo humano. E assim ressalta como mais ou manos evidente que o socorro viático procurado pelo "peregrino" destes poemas não decorre propriamente duma órbita religiosa, antes se consubstancia, em última estância, no e pelo exercício da própria prática poética...

Tudo o que acontece, ao longo destes poemas (o tema geral do livro, queremos dizer) é, então, o enunciado mesmo, e progressivo, duma poética cujo postulado iniciático e radical não é senão, este: Próprio do Homem é falar. Falar é o apoio viático humano, por excelência. - Poética essa onde, acrescentada ou deduzida do postulado inicial, vem depois inserir-se outra peça propulsora, através da ambivalência metafórica que, ainda, a metáfora do título permite: apoio viático já não será, então, somente a fala do poeta, mas também o Invocado dessa e por essa mesma fala. E, neste processo, tal invocado poderá inclusivamente vir a (re)adquirir alguma vertente religiosa, mas duma religiosidade através da qual a própria História das Religiões (duma Religião) é rasurada ( transformada, descrucificada) pela livre voz do poeta que "conta sonhos/sem o receio de poder contá-los."

Não despiciendo de considerar será o facto de o poema (pg.29), donde extraímos a breve citação, se intitular, precisamente, GÉNESIS.