UMA RESTEA DE SOL
Ontem já foi Natal !!!!!!!
Enfeitei a mesa com copos brancos e brilhantes
como a estrela que,
olhando para mim me dizia, há gente que tem frio, há gente que não come
e bebe amarguras na noite.
Ofereci-lhe os talheres, um guardanapo vermelho, dizem que no Natal a cor é o vermelho, eu acho o Natal com cara de frio e fome, existem mesas perfumadas e abastadas, mas, para ele não.
Encontrei-o, no frio da noite, na solidão duma ponte que lhe servia de companhia e um olhar de saudade percorria cada canto do seu olhar. Um olhar de frio, os olhos azulados, mas sempre com aquela restea de sol que como eu, ele sabia, iria encontrar.
Eu sonhei que havia liláses enfeitando
Os jantares dos pirilanpos...
As estrelas beijavam os seus olhos, olhos de gente, que quer ser gente.
Os mesmos olhos que se encheram de carinho e as minhas mãos foram pequenas para os receber, amei-o tanto naquela noite!!
Havia gente apressada, passando entre duas pontes, a sua, e a deles, a fome e a fartura, pediu-me pasteis, eu dei-lhe ternura, e o meu sorriso.
Conversámos tanto, encostados na sombra das estrelas, eu segurava-lhe as mãos numa vontade de o abraçar, mas a lua espreitava e segurava os seus lindos olhos azulados, são azuis os teus olhos, da côr do céu. Sabes, dizias tu, ontem, foi Natal, que Natal ? o Natal das sopas, a sopa dum dia, duma moite fria, e as outras noites que eu vivi, não sei, senti tanto frio, e bebi tanta fome, nem sabia que era Natal. Chorei, uma lágrima teimou em olhar para dentro de mim e contou-me, ele, já chorou como tu, ele, já amou na solidão, ele quer algo que lhe é negado.
Uma lágrima contou-me tanto sofrimento, fiz um lago onde me deitei, e chorei, chorei...
Queres a lua? Não, quero um olhar
Queres um poema? eu escrevo-te um poema, não
O poema não tem o cheiro dos
teus pasteis.
Anda, vamos plantar um cravo no cimo da ponte, não,
quero a tua mão.
Sabes, eu nasci no colinho de alguem que eu amava tanto e que esta noite eu queria encontrar. Eu sei, subimos de mãos dadas, ele tremia, e eu ofereci-lhe o meu casaco, tens frio ? Queres que seja tua amiga? Queres que te conte uma história para adormeceres? Não, eu só quero olhar para dentro das estrelas. Eu sei que vou encontrar lá uma pétala que chamei de Mãe, ela é a minha Mãe, leva-me lá, e, vamos encontrar a pétala perfumada de Mãe, As Mães são tão lindas, eu sei, disse-lhe com o lago das lágrimas que me percorriam a face. Eu sei!!
São pétalas que a abelha bebe de mansinho
Nos olhos do fim da noite.
Vamos vestirmo-nos de luar? Disse-lhe eu, vamos dançar com as vestes do faz de conta.
Olhou-me com a ternura dum pirilampo , não posso, o meu tempo anda
perdido nem sei onde, eu tenho que espalhar cravos brancos nas janelas da vida.
Eu sei que a côr muda quando queremos, mas gosto mais do
branco, é como eu, que não apanho sol, na ponte onde choro as minhas lágrimas de abandono, não há sol, fica cinzento o dia todo.
Queria tanto sentir o sol na minha pele esbranquiçada.
Anda, sou tua amiga, levo-te ao calor do sol, levo-te nas águas brilhantes
que são tuas e minhas, ninguem nos pode tirar, chega tambem para nós.
Vamos, eu sou tua amiga.
Na amizade há sempre sol e luar
E nas estrelas está escrito a minha poesia
A poesia que reparto com ele.
Repartir a beleza dum manto de rosas, num deserto de solidão e vestir a pele com a seda das pétalas da desordem, dum coração faminto, num abandono ao luar.
Tu já olhaste o luar? perguntei-lhe de mansinho, para não o ferir com o brilho do amanhecer. Dormia, no explendor duma companhia especial. A amizade.
O luar é um deserto de sonho
Cobre de chuva miudinha os olhos de quem ama.
Contei-lhe da minha poesia, contei-lhe da chuva que nessa noite ele não sentiu, e a minha amizade ele bebeu no deserto da sua pele, ressequida de solidão.
Acordou com os olhos mais azuis e radiantes, os olhos dum filho, dum ser humano, de gente. Finalmente ele teve uma noite, um dia, um amigo, uma cama, um luar.
Repartiu comigo um olhar, um sorriso, um gesto cheio de ternura, a ternura que lhe era negada, o sol que jamais será cinzento, a chuva que não lhe trará mais frio, o abandono que jamais dormirá com ele.
Ele cantou e chamou as estrelas para o seu colinho, e encontrou o brilho dum ser humano com direitos, com palavras nas pontas dos dedos, com as palavras escritas nos seus olhos da côr do céu. ELE, vive, ele brilha na beiradinha duma lua que para sempre será a sua restea de sol...
As camélias desfolhadas são uma brisa ao sol-pôr
e dançam até ao começo dum novo dia.
As nuvens dum vermelho rubro
Oferecem o azul e branco
Da pele
Dele.
E amanhecem todas as noites, num começo de vida
Entre dois passos
E
Entre o coração e a alma de quem sabe a revolta
Da fome
Das lágrimas
Do abandono
E no olhar duma estrela perdida.
Mas há sempre outro sol
E uma vida
Para quem lhe é negado
O tempo de ventura
E
Na madrugada onde toquei com os meus dedos
o corpo nu dos sonhos...
O chão é um caminho onde tropeço e me levanto, onde a noite se torna viva e recomeço a luta, dentro dum abismo solto onde habita a maldade e
Onde a verdade é vedada e maltratada para quem quer viver e amar.
O amor é água viva, é um tempo visivel, é a solidão na voz do coração.
O amor, sou eu, és tu, e ele que renasceu para, e, do amor.
O amor é um véu enfeitado de mil cores, dentro duma rosa fechada, e quando as pétalas cairem vamos apanhar uma a uma e fazer uma coroa duma felicidade renascida...
Amália LOPES