Olhos doces
Olhos doces encovados
de rugas já rodeados
sinais do tempo passado
com cabelos branqueados
macios encaracolados
assim vejo o meu amado
Seu corpo cola-se ao meu
com seu ritmo sincopado
com carinho e decidido
meu prazer ele faz seu
muito firme e apaixonado
assim sinto o meu querido
Mas estou dele separada
e esta saudade dolorida
aperta fundo no meu peito
será que sou dele lembrada?
continuarei sua querida?
ah como adoro seu jeito!
Arlete Piedade
|
Olhos Negros
Teus olhos, são como a noite negra.
Opacos de carinho, desejo e paixão!
Minha vida por ti só tem uma regra:
-Amar-te!-Ainda que seja só ilusão!
Tudo que te desejo, podes acreditar,
é que vivas com alegria e plenitude!
Estar contigo e no brilho desse olhar
Ver que sou eu a causa dessa atitude!
Como dizia o poeta e para não falhar
não irei pedir nada de transcendente
e nem vou esperar de ti, fidelidade...
somente que seja eterno enquanto durar
viver contigo esta paixão loucamente
e nos intervalos, suportar a saudade...
Arlete Piedade
|
Ecos
O eco dos teus passos ainda ecoa
No saibro dos caminhos lá no jardim
Onde o teu coração se apoderou de mim
E minha alma ficou para sempre á toa...
A tua voz ressoa ainda no relvado
O teu riso, ficou marcado na minh’ alma
Esta saudade me tortura e não se acalma
A ânsia de te rever, oh meu doce amado!
Recordo a tua cabeça alva, reclinada
Procurando em meu peito, doce aconchego
Implorando de minhas mãos, a carícia...
Acreditei ser para sempre tua amada
Nos teus olhos, era tanto esse chamego
Mas afinal deste para outra, tal delícia...
Arlete Piedade
|
Nossa Valsa
Contigo quero dançar,
pelo salão rodopiar,
ainda que vacilante...
a idade vai importar?
Se ainda queremos amar
e dar passos adiante...
na valsa já enlaçados,
queremos ser namorados,
e o coração, acelerar...
pois somos apaixonados,
cabelos esbranquiçados,
mas quem vai-nos olhar?
Somos apenas um casal,
em tudo o mais normal,
que dança pelo salão...
será que tem algum mal,
na nossa idade, afinal
ainda sentirmos paixão?
E depois do baile findar,
para o ninho vamos voltar,
carinhosamente abraçados...
a sós, vamos-nos beijar,
do nosso amor, desfrutar,
esquecer erros passados!
Arlete Piedade
|
Amo-te Pai!
Queria fazer-te um soneto, pai
Um poema maravilhoso e lindo
E lá coubesse tudo que sinto
Mas ai, meu pai, estou triste
De te ver nessa cama de hospital
A lutar com todas as tuas forças
Para vencer a doença e o mal
Ninguém tem um nome para ela
Para a doença que te atacou pai
Falam mas não dizem a verdade
Escondem de nós a complexidade
De todos os problemas em ti, pai
Mas seja como for és um lutador
Mesmo na alucinação da febre
Lutas com toda essa galhardia
E vais melhorando dia para dia
Em breve estarás de volta a casa
Para tratares da tua horta e jardim
Para viveres os teus dias um a um
Com serenidade no teu cantinho
Sentado debaixo do pessegueiro
Com calma lá no teu banquinho
Enquanto as pessoas passam na rua
E te saúdam sempre com carinho
E eu estarei contigo para te cuidar
Dar-te o meu braço para te apoiar
Conversar contigo para te distrair
Falar dos tempos que não voltam
Da chuva, dos coelhos, da horta
Dos tomates que estão maduros
Das couves que estão a crescer
Das estrelas no céu, na via láctea
Que me mostravas em criança
Quando me ensinaste a sonhar
Quando me cantavas as canções
Do barqueiro, recordas-te pai?
Agora que estás cansado meu pai,
Quero ficar contigo na nossa casa
Esquecer as mágoas e tristezas
Ouvir as tuas antigas recordações
De quando andavas longe, a serrar
De tudo que lá tinhas que passar
E depois quando andavas a namorar
Uma rapariga de lá mas era tão longe
Que ficaste com a mãe para casar...
Pai agora apenas te quero dizer
Ccontinuo a ter muito orgulho em ti
Dos teus ensinamentos sobre a vida
De sempre seres um homem lutador
Integro, amigo, honrado e respeitador
E poder dizer sempre que fui digna
Dos teus ensinamentos e do teu amor!
(Este poema é dedicado ao meu pai, que está internado no Hospital a lutar pela vida, com muito amor e admiração)
Arlete Piedade
|
Fera Ferida
Paizinho hoje pediste para escrever
Dei-te um bloco de papel e uma caneta
Segurei-o para o fixar junto ao teu olhar
E a caneta coloquei na tua mão liberta!
Soltei as tuas mãos das humilhantes amarras
Que te mantêm preso nessa cama hospitalar
Eu sei que é para te proteger meu paizinho
Mas lutaste e esbravejaste tanto contra elas!
Era para não tirares os equipamentos médicos
Que te davam sustento á vida e te curavam, pai
Mas só sentias as dores e as humilhações, eu sei
Sei sim pai, porque também as sentia em mim!
És daquela tèmpera dos velhos lusos, meu pai
Do antes quebrar que torcer, querias morrer
Mas isso era só a revolta e o desespero pai!
Agora já não te sinto mais, como a fera ferida
Amarrada e humilhada numa cama de doente
Travaste as tuas lutas, até perdeste a razão
Mas era a doença e a febre, essa alucinação!
Hoje renasceste como um homem de verdade
A tua humanidade renasceu nuns garatujos
Quase ilegíveis que traçaste a custo para mim
Mas eu fiquei contente meu pai, de ver-te assim!
Tentei decifrar os teus pedidos nessas letras trémulas
Que a tua mão desenhou para mim, e consegui pai!
A tua humanidade renasceu nesses pedidos singelos
Querias o teu telemóvel pai, para te comunicar
Pedias um banho e querias também te lavar,
E até rubricaste o teu pedido, quase sem vacilar!
Obrigada meu Deus! O paizinho está a melhorar!
Arlete Piedade
(Dedicado a meu pai, que está a melhorar lentamente na sua cama hospitalar)
|
Nas Tuas Mãos Senhor
Ontem perdi a esperança e chorei
Ao vê-lo assim tão indefeso e só
O corpo que era forte, agora magro
Peles flácidas, com edemas negros
Arfante e cansado, era só esforço
Para viver, sem falar, só respiração
Apelei para ti Senhor, com minha Fé
Nas Tuas Mãos benditas, o coloquei
Se for chegada a hora dele, aceitarei
Se tiver que sofrer Senhor, chorarei
Mas custa muito vê-lo assim a lutar
Agora já sereno, calmo e resignado
Como se estivesse pronto Senhor,
Para partir daqui, para o Teu lado.
Mas Senhor eu resignada estou
Seja como a Tua Vontade, ditar
Se ele tiver que partir, ajudarei
Se ele ainda puder permanecer
Mais algum tempo aqui connosco
Que seja feita a Tua Vontade Senhor
Alivia o seu sofrimento se possível
Apenas por isso Te estou a suplicar
Em Tuas Mãos, deixa-o descansar!
Arlete Piedade
(Para meu Pai, na sua terceira hospitalização)
Canção do Barqueiro
“Um dia um velho sábio passeava,
No seu belo barco, um fino bote
Mas quem com esforço o manobrava
Era um pobre barqueiro, já velhote!”
Recordas pai, a canção que me cantavas?
Quando ao serão na rua ao luar me mimavas
Contavas histórias de planetas e estrelas
E o caminho da via láctea, me descrevias
Vinha lá do norte, do Caminho de Santiago
E ia por ali, ao encontro do Cruzeiro do Sul
Sobrevoando terras distantes e ardentes!
E recordas-te do cheiro do mato e alecrim?
Que a mãe apanhava para colocar no chão
E fazer um tapete fresco para ti e para mim
Onde se deitaríamos a olhar o céu negro
E a contar as estrelas e as constelações
E a ver passar lá bem no alto os aviões...
E recordas, quando os pirilampos surgiam
Nas primeiras noites de calor do verão
Eu corria atrás deles e os guardava na mão
Eram macios e a sua luz fria era intermitente
Abria a mão e eles voavam de lá, contentes
Para a escuridão de novo iluminar, e voar...
Como eramos felizes e não sabiamos então!
Agora estás aí nessa cama de novo , pai
A tua luta continua mesmo sem saberes
Estás tranquilo, mas queres ir embora
Para o teu parreiral, para a tua casa
A tua casa portuguesa, com parreiras
A tua horta, que cultivaste com carinho
Queres descansar aconchegado no ninho
Que tantos anos foi o refúgio da tua vida
Onde viveste com a familia, querida!
Rezo por ti pai, para poderes voltar!
Arlete Piedade
(Recordando a minha vida com meu pai)
|
Primavera
Em cada primavera a natureza inteira renasce
Os caules tenros emergem na manhã reluzente
Névoas se dissipam aos raios do sol que nasce
E fios de água fresca brotam de cada nascente
Pelos ares, avezinhas se entrecruzam, chilreando
Em alegres revoadas que enchem de alegria o céu
Pelos caminhos, pares de namorados se beijando
Lembram ao universo, que o amor nunca morreu
Mesmo que a terra inteira agredida trema e aqueça
E nos mares as águas subam e as margens inundem
A nossa mãe natureza pede que ninguém a esqueça
Para que nossos filhos tenham firme a sua fortaleza
É preciso que todos juntos lutem e as coisas mudem
Para que cada nova primavera a purifique e fortaleça!
Arlete Piedade
|
Santo António de Lisboa

Começaram as festas dos santos populares, iniciando-se as festividades com Santo António, o santo casamenteiro, padroeiro dos namorados e dos pobres, doutor da Igreja, pregador, militar de dois exércitos já depois da sua morte, venerado em Portugal, em Itália e no Brasil, santo da Igreja Católica.
Santo António nasceu em Lisboa cerca do ano de 1191-1195, e foi baptizado com o nome de Fernando. Era filho de Martim de Bulhões e Maria Teresa Taveira Azevedo. Pensa-se que terá nascido numa casa próxima á Sé de Lisboa, onde anos mais tarde ergueram uma igreja em sua invocação.
Fez os seus estudos na Igreja de Santa Maria Maior hoje Sé de Lisboa, ingressando como noviço, por volta de 1210 ou 1211, na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de Fora, onde permaneceu por três anos. Aos 18 ou 19 anos continuou os estudos no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, que nesse tempo era um importante centro da cultura medieval na Europa. Aí o jovem Fernando, estudou Direito Canónico, Teologia e Filosofia.
Em 1220 aconteceu um facto marcante que determinou a sua vida futura. Cinco franciscanos foram martirizados e decapitados em Marrocos e os seus corpos vieram para Coimbra. Profundamente tocado e sensibilizado, Fernando muda o seu nome para António e ingressa na ordem de S. Francisco de Assis, para se dedicar á evangelização.
Parte para Marrocos, mas depois de lá estar algum tempo, fica gravemente doente. Os seus superiores decidem reenviá-lo para Lisboa, para se tratar. Mas o navio onde vinha de regresso á pátria, enfrenta uma grandiosa tempestade e é desviado do seu curso pela acção do mar e do vento, indo á deriva até aportar na Sicília a sul de Itália, onde passa a viver.
Em Itália, António ganha fama como grande pregador e evangelizador. Em Março de 1222, em Forlì, dissertou para religiosos Franciscanos e Dominicanos de forma tão fluente e admirável que o Provincial da Ordem o destinou de imediato à evangelização e difusão da doutrina.
Pregava em especial contra as doutrinas dos hereges que nessa altura floresciam em Itália e França. Ficaram célebres as suas pregações contra os Cátaros, Patarinos e Valdenses. Seguiu depois para França onde pregou contra os Albigenses e onde obteve importantes nomeações na hierarquia católica.
Em 1226 morre S. Francisco de Assis e António assiste a sua canonização em 1228. Em seguida nesse ano deslocou-se a Ferrara, Bolonha e Florença. No ano seguinte as suas pregações levam-no a Bréscia, Varese, Milão, Verona e Mântua. Em 1231, após contactos com o papa Gregório IX regressou a Pádua, sendo a quaresma desse ano celebrada com uma série de sermões de sua autoria.
Mas António estava já gravemente doente e em 13 de Junho de 1232, morre aos 36 anos de idade. Os seus restos mortais repousam na Basílica de Pádua, construída em sua memória. Em 30 de Maio desse mesmo ano, foi canonizado pelo papa Gregório IX. Foi proclamado doutor da Igreja pelo papa Pio XII em 1946.
Santo António deixou-nos de sua autoria Os Sermões Dominicais e Festivos. Cada sermão é dedicado a um domingo, e neles António aborda os assuntos focados, sob varias perspectivas.
O culto a Santo António é prestado em Portugal, em Itália, no Brasil e em várias outras cidades de países de origem portuguesa e latina. Os portugueses chamam-lhe Santo António de Lisboa, os italianos chamam-lhe Santo António de Pádua. Várias outras cidades o elegeram como seu padroeiro e o dia 13 de Junho é feriado municipal em muitas dessas cidades.
Temos assim Lisboa, cidade onde nasceu, e da qual é padroeiro, que tem o seu feriado municipal a 13 de Junho. Na noite de 12 para 13 de Junho, começam os festejos, com arraiais populares nos bairros da cidade, onde se come sardinha e febras assadas e caldo verde, tudo acompanhado com um bom vinho tinto.
Na Avenida da Liberdade, principal artéria lisboeta, tem lugar o desfile das marchas de Santo António, onde cada bairro compete entre si, quase como se fossem escolas de samba. No final, um bairro será o vencedor.
Também uma tradição célebre é a iniciativa dos Casamentos de Santo António, onde 12 casais pobres, escolhidos pela organização e promotores, casam em conjunto na Sé de Lisboa.
Esta tradição dos casamentos sob a égide de Santo António, repete-se também em Campo Grande – Mato Grosso do Sul (Brasil), cidade que tem também o santo como seu padroeiro, assim como Barbalha (Ceará) Três Lagoas (Mato Grosso do Sul) e Borba (Amazonas) cidade que tem uma grandiosa basílica dedicada ao santo, com restos mortais do santo. Também a cidade de Santo António do Príncipe no Arquipélago de S. Tomé e Príncipe, no Atlântico, é dedicado ao santo.
Mas Santo António tem também uma carreira militar nos exércitos de Portugal e Brasil O santo assentou praça nos dois exércitos que combaterem sob a sua protecção celestial.
Primeiro em Portugal em 1665, no 2ª Regimento de Infantaria de Lagos, por iniciativa de D. Afonso VI que achou que era uma acção capaz de conseguir a vitória contra as forças espanholas Efectivamente o exército português comandado pelo Marquês de Marialva conseguiu uma vitória contra o exército espanhol comandado pelo Marquês de Caracena.
No reinado de D. Pedro II, o Santo foi promovido a Capitão e no reinado de D. Maria I, a tenente-coronel, como recompensa pela vitória portuguesa na Batalha do Buçaco, contra as tropas francesas de Napoleão.
Também no Brasil, o santo assentou praça em 1685, sendo promovido a capitão em 1711 e a Tenente-Coronel em 1814, pelo Príncipe – Regente D. João com o soldo de 80$000 reis. Apenas com a proclamação da República, se deixou de pagar o soldo ao Santo.
Mas hoje em dia o Santo é sobretudo o padroeiro dos namorados, sendo o seu dia também o Dia dos Namorados no Brasil. Em Portugal celebra-se a noite de Santo António com arraiais populares em várias cidades e aldeias, com as fogueiras, a sardinha assada, e também os vasinhos de manjerico (uma planta aromática), onde se coloca uma quadra popular de carácter brejeiro ou jocoso, alusivo aos namorados e ao santo.
Portanto resta desejar a todos um Feliz Dia dos Namorados, muitas felicidades aos noivos, que ganhe a melhor marcha e que por esse mundo fora se adore ao nosso Santo António com fé e coração puro, para que a felicidade reine nos corações e almas!
Arlete Piedade
|
Lenda do Alfageme de Santarém

Gravura de D. Nuno Álvares Pereira com a sua espada
Esta lenda é referida inicialmente pelo grande cronista do reino de Portugal, Fernão Lopes, que escreveu as crónicas sobre os reinados dos primeiros reis de Portugal, na sua crónica do Condestável.
Diz ele que Fernão Vaz, era o mais reputado alfageme da região se Santarém, naqueles tempos da crise dinástica que ocorreu entre 1383-1385, quando esteve iminente a nomeação de um rei espanhol para suceder a D. Fernando I, o que era contra a vontade do povo, que preferia ver um príncipe português ocupar o trono, para Portugal manter a sua independência.
Esse príncipe era D. João, filho natural de D. Pedro I, cujo companheiro de brincadeiras e estudos era D. Nuno, também ele filho natural de D. Álvaro Gonçalves Pereira (Prior da Ordem de S. João do Hospital) que com a idade de 13 anos tinha entrado no Paço Real, onde foi armado cavaleiro e escolhido para escudeiro da rainha D. Leonor Teles.
D. Nuno Álvares Pereira, tornou-se no braço direito, conselheiro e companheiro de D. João I, que o nomeou Condestável do Reino, o que hoje podia equivaler a Chefe do Estado Maior e juntos travaram diversas batalhas, a mais célebre das quais e decisiva para a causa portuguesa, foi a Batalha de Aljubarrota, que foi vencida graças á estratégia do Condestável.
Numa das suas passagens por Santarém, vindo das batalhas, e porque necessitava de corrigir a sua espada gasta nos combates, D. Nuno procurou o celebre Alfageme de Santarém, Fernão Vaz, para lhe reparar a espada. Mas este estava já a fechar o seu estabelecimento e ficou um pouco aborrecido por mais aquele trabalho.
No entanto algo unia aqueles dois homens, pois que o alfageme era casado com uma bela mulher que tinha sido apaixonada por D. Nuno, chamada Alda Gonçalves, e que as más-línguas diziam que o alfageme tinha conquistado devido á sua pequena fortuna amealhada com muito trabalho.
Assim o alfageme deu-se a conhecer a D. Nuno, com o marido de Alda, e viu que este tinha ficado comovido, mas nada disse, deixando-lhe a espada para reparar e prometendo vir buscá-la no dia seguinte.
Quando chegou a casa, Fernão Vaz contou o sucedido á sua mulher, que ficou um pouco receosa das reacções do guerreiro, mas o marido sossegou-a dizendo que D. Nuno viera por bem.
No dia seguinte o condestável veio buscar a sua espada lindamente corrigida, e quis pagar pelo trabalho. Mas o alfageme recusou receber o pagamento dizendo-lhe que ele lhe pagaria quando fosse Conde de Ourém.
Era apenas uma predição do Alfageme, mas que se veio a revelar acertada, pois com a conquista do trono por D. João I, o Condestável, recebeu muitas terras, títulos e bens, entre os quais o de Conde de Ourém, como recompensa pelos serviços prestados.
Acontece que a vida de Fernão Vaz, levou uma grande volta, sendo vítima de intrigas e infâmias e sendo acusado e condenado á morte, entretanto. Desesperada D. Alda, decidiu pedir ajuda a D. Nuno Álvares Pereira, nessa altura já o mais rico nobre de Portugal, mas com algum receio ainda pelos tempos passados.
No entanto D. Nuno, fazendo prova mais uma vez da sua nobreza de carácter, intercedeu junto do rei, e conseguiu o perdão para o Alfageme que ilibado das acusações, voltou para Santarém, vivendo o resto dos seus dias em paz e vendo assim cumpridas as suas predições que o Condestável lhe haveria de pagar quando fosse Conde de Ourém.
D. Nuno, era admirador das novelas de cavalaria, e tinha como modelo de vida, o Cavaleiro Galaaz, sendo adepto de uma vida de castidade, pelo que apenas casou uma vez com uma senhora já viúva a pedido de seu pai. Deste casamento teve três filhos, dos quais apenas sobreviveu uma filha até á idade adulta, D. Beatriz, tendo a sua esposa falecido ao fim de poucos anos de casamento.
Depois da morte de sua esposa D. Nuno começou a distribuir os seus bens, pelos antigos companheiros de armas. E iniciou a construção de uma igreja e convento em Lisboa que doou á Ordem dos Carmelitas, onde passou a viver, praticando uma vida de pobreza, oração e ajuda aos mais necessitados, passando a pedir esmola pelas ruas de Lisboa para prover ao seu sustento, já que tinha doado todos os seus bens.
Sabedor disso, o Rei atribui-lhe uma pensão que no entanto era também gasta em esmolas aos mais pobres. O povo há muito que lhe chamava Santo Condestável, mas ele recusava todos os títulos e queria que apenas o chamassem de Nuno. Foi este português, herói, guerreiro e verdadeiramente nobre, que foi canonizado em Abril passado na Santa Sé em Roma, pelo papa Bento XVI, com o título de Frei Nuno de Santa Maria, sendo o mais recente santo de origem portuguesa a ter lugar nos altares da Igreja Católica.
Arlete Piedade
|
Lágrimas preciosas

As nossas lágrimas são preciosas
como diamantes forjados na alma!
Só se usam mesmo para expressar,
as mágoas e emoções bem dolorosas!
As palpitações do coração acalma,
e os rios de lava fazem congelar!
Poucas coisas merecem que choremos,
no mundo em mudança em que vivemos,
nesta era que dizem anunciar o fim!
Talvez a dor das crianças que vemos,
ou o abandono dos velhos que serenos
esperam na morte, a libertação enfim!
Também a lenta agonia, a que assistimos
da terra mãe de todos nós, seres vivos
que por vis ambições, a vão conspurcando,
quando por nossa culpa, tudo destruímos!
As selvas, os mares e homens nas tribos
e elegemos os governos que vão deixando!
Então esqueçamos as lágrimas e sozinhos,
erguemos o olhar determinado para a meta
e em nosso coração tracemos os planos...
Sejamos solidários com os nossos vizinhos,
um a um, um movimento alagando o planeta,
como um oceano composto de seres humanos!
Arlete Piedade
In “Antologia do Amor”
|
Herança

Água límpida, pura e cristalina,
risos em regatos rumorejantes!
Desses meus tempos de menina,
recordo claros dias já distantes!
No Inverno o gelo brilhante e frio,
os campos já lavrados, recobrindo!
Bebendo da água da fonte no estio
e no fundo poço os peixes sorrindo!
A rega na horta e no florido jardim...
brincando na fresca água, já molhada,
sentindo a alegria de menina amada!
E os filhos de agora, recordarão assim?
Se a água d'hoje poluída, engarrafada,
é o lhe damos da herança a nós deixada!
Arlete Piedade
|
A Caminho da Escola
Eu queria compor um terno e simples poema,
Que a todos vós, fizesse sorrir ao recordar...
Pois que tivesse nossa infância como tema,
E nos desse alegria para de novo brincar...
Queria relembrar os caminhos para a escola,
No inverno pelos trilhos das geladas florestas,
Os cadernos, e o lanche guardados na sacola,
Os tropeços nas pedras duras de vivas arestas.
Mas no tempo distante, travessas lembranças
Fazem parte de um passado de vãs esperanças,
Pois ainda guardo comigo tais sonhos infantis...
Viajar pelo mundo, conhecer lugares distantes,
Das antigas civilizações as ruínas fascinantes,
Ser escritora, poeta, arqueóloga, desejos pueris.
Arlete Piedade
|
POR QUE SOMOS SCALABITANOS

Hoje vou contar-vos a origem do nome de Scalabis, que deu origem ao nome escalabitanos ou scalabitanos, com que os naturais de Santarém, são também conhecidos a par do nome de santarenos.
Conta-se que muito antes dos romanos chegaram á Península Ibérica, havia um lindo reino nesta região banhada pelo rio Tejo, de campos floridos e florestas frondosas, cujo rei se chamava Gorgoris.
Os seus habitantes dedicavam-se á caça e á agricultura e o seu rei que também era conhecido por Melícola, dedicava-se á produção de mel, cujo segredo lhe tinha sido ensinado pelos deuses, pelo que de todas as terras mesmo distantes vinham pessoas atraídas pela fama de Melícola e das suas abelhas.
Um dia uma grande armada comandada pelo herói grego Ulisses subiu o Tejo, em busca de mel, e ancorou em frente ás belas praias onde a princesa Calipso, filha de Melícola, passeava com as suas amigas.
Atraído pela beleza da bela princesa Ulisses esqueceu-se da sua missão e ficou por ali passeando e namorando com a bela princesa pelas florestas e campos daquele reino encantado.
Mas uns caçadores viram-nos e foram dizer ao rei o que se passava, que zangado por saber que Calipso tinha um estrangeiro como namorado, mandou os seus soldados expulsaram os gregos.
Só que Calipso estava grávida e ficou muito triste e desgostosa com a atitude de seu pai. Quando o seu filho nasceu, deu-lhe o nome de Abidis e verificou que ele tinha um sinal de nascença num braço com o desenho de uma rosa vermelha.
Mas o rei mandou que colocassem o bebé numa cesta de vime e fosse atirada ao Tejo. Como a maré estava a subir do lado do mar, a cesta subiu o rio e encalhou numa praia junto a um prado onde uma manada de veados pastava. Uma corça aproximou-se e começou a amamentar o bebé, que assim foi criado pelos animais do bosque e foi crescendo e vivendo na floresta, até ser um jovem bonito e forte.
Vinte anos se tinham entretanto passado e o velho rei estava doente e á beira da morte sem ter um herdeiro para o trono, pois Calipso nunca tinha casado e não tinha mais filhos.
Gorgoris andava desesperado e Calipso que nunca tinha recuperado do desgosto, andava muito doente, quando vieram dizer-lhe que um belo jovem vivia na floresta com os animais selvagens.
O rei mandou que o fossem buscar, e Calipso reconheceu nele o seu filho Abidis, pela marca da rosa no seu braço e muito feliz abraçou-o chorando. Então o velho Melícola arrependido, pediu perdão á sua filha e neto e nomeou-o herdeiro do trono.
Reconhecido aos animais que o tinham criado, Abidis fundou uma cidade naquele lugar a que chamou Esca Abidis, que significa Manjar de Abidis, que foi depois chamada Scalabis e Scalabicastrum no tempo dos romanos.
Camões imortalizou esse nome nos Lusíadas, conforme podem ver na fotografia inclusa, onde em azulejo está transcrita a estrofe referente a Santarém, a velha Scalabis de Abidis, a minha cidade.
Espero que tenham gostado de mais esta lenda de Santarém.
Arlete Piedade
|
Enfermeiras
Essas meninas, umas guerreiras decididas
Que fazem de suas vidas, elevada missão
Suas horas são generosamente concedidas
Para serviço de outros, exemplar dedicação
Talvez os seus filhos esperem por carinhos
E o marido, apaixonado, reclame por amor
Escolhendo o mais espinhoso dos caminhos
Incansáveis ajudam, acorrem, debelam a dor
Nobre vocação ajudando doentes debilitados
Com paciência, tolerância e sorrisos delicados
Seus gestos, carinhos, expressões afectuosas
São assim as modernas seguidoras admiradas
De sofridas almas, que nas batalhas veneradas
Sempre ficarão na galeria das mais valorosas...
Arlete Piedade
|
Recordações de 25 de Abril de 1974

Estátua de Salgueiro Maia
Estava uma manhã linda de primavera, com aquele leve manto de neblina que dava um ar suave ás árvores e ruas da minha cidade, enquanto me encaminhava a pé para o trabalho, como habitualmente.
No entanto havia algo estranho no ar...uma expectativa, um silêncio, como se tudo esperasse uma mudança inevitável e anunciada desde há muito.
De repente na minha caminhada, algo chamou-me a atenção, um troar longínquo e bem alto de motores de aviões em formação que se deslocavam velozmente.
Á chegada ao trabalho, os colegas sentiam a mesma atmosfera de expectativa e estavam inquietos, indo á varanda envidraçada do primeiro andar do prédio antigo onde estava situado o escritório, e procurando na rua estreita, alguém ou algo que fornecesse respostas.
Em frente havia uma pastelaria, onde habitualmente íamos beber o café da manhã e alguém disse que parece que tinha havido uma revolução, e que as tropas tinham ido para Lisboa.
Na excitação de tal notícia, já pouco trabalhámos durante a manhã, procurando ouvir a rádio para saber notícias ou descendo á rua para falarmos com as pessoas que passavam.
Até que chegou o chefe, e confirmou que era verdade, que estava uma revolução em marcha e que podíamos ir para casa até se saber o que ia acontecer.
Então alegres e entusiasmados, saímos como se fossemos de férias, cada um para as suas residências e ficámos colados aos rádios e aparelhos de TV, vendo os nossos valorosos soldados comandados pelo nosso querido capitão Salgueiro Maia, ir tomando rua após rua, quartéis e ministérios, até á rendição final do chefe do governo.
Das armas enfeitadas com cravos vermelhos, nenhum tiro foi disparado, graças á estratégia desse célebre capitão que saiu durante a madrugada á frente das colunas, da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, minha cidade, em direcção a Lisboa para restituir a liberdade a um povo amordaçado.
Do resto fala a história, apenas quis recordar como vi esse primeiro dia 25 de Abril, aos meus 17 anos de idade.
Arlete Piedade
|
FLORES E BEIJINHOS
Entraste na minha vida
fascinante e inesperado
chamas-me amor e querida
confias que és desejado...
com palavras de carinhos
que envias a esta fada
entre flores e beijinhos
queres-me para namorada?
Ou queres minha amizade
que será tua de verdade
dispensando a sedução...
és belo, tens suavidade
confias nessa intimidade
mas receio nova paixão...
Arlete Piedade
|
FESTA DO CORAÇÃO
Depois da tempestade da descrença
eis chega radiante nova esperança
afinal foi adiada a cruel sentença
essas almas unidas em nova aliança
canta o coração feliz na presença
só por o ver ele bate tão contente
no peito da mulher que como criança
é arrastada por paixão adolescente
mas que nele não se manda,já sabemos
nem vale a pena entender suas razões
só a verdade é que ele está em festa
nem na razão, confiar, afinal podemos
pois nascem no coração, essas paixões
fascinados, aproveitamos o que resta!
Arlete Piedade
|
VIVER POR AMOR
Ela é velha, uma senhora de idade
Afoita viajou para países distantes
Vive há muitos anos aqui na cidade
Suas fotos, recordam belos instantes!
Ela é magra, já não lhe apetece comer
Quer deixar o coração cansado, parar
Porque sente-se tão fatigada de viver
Mas não se permite ainda descansar!
Ela queria finalmente partir para o além
Mas não pode ainda, esta vida abandonar
Porque tem uma nobre missão para findar!
Ela sabe que o seu amor não tem ninguém
Ele é velhinho e chama-lhe “minha mãe”
Não pode partir, tem o seu amor a cuidar!
*Este poema foi escrito em homenagem a um casal
de idosos de Santarém a quem presto apoio domiciliário
no âmbito do meu trabalho actual.
Arlete Piedade
|
Dia Internacional da Mulher
Acróstico
D ás de ti, sem usar medidas
I ndiferente és ao maldizer
A mas sem pensar nas feridas
I njusta é a vida que levas
N ações unem-se neste teu dia
T ormentos venceste sem parar
E ncontraste forças no altar
R aios de sol são tua energia
N unca desistirás desses sonhos
A rdente e delicada nos carinhos
C iosa de dias futuros risonhos
I nclinas-te humilde na oração
O h! Jesus mostra meus caminhos
N ão quero ser esquecida da vida
A mo os meus filhos com paixão
L aços fortes de afecto e união!
D á-me forças para seguir Senhor
A limenta sempre esta alma de amor!
M ulheres de todas as raças uni-vos
U m clamor se ouvirá em todos os lados
L amentos em altas vozes, pelos filhos
H umilhados, mutilados, assassinados,
E rgue tua voz em todos os continentes
R ainha dos corações, ora pelos doentes!
Arlete Piedade
|
Oh Mar!
Oh mar azul que serves de união,
entre duas margens tão distantes,
áqueles que saturados de paixão,
vivem com promessas de amantes...
acima, o firmamento e as estrelas
e os espíritos dos que, saudosos,
nas noites longas, como caravelas
navegam no céu, buscando amorosos!
Oh! Insondáveis mistérios humanos,
que no vale de lágrimas,vagueiam,
unidos na incerteza desse porvir...
por sobre o mar, ao longo de anos,
buscam esse contacto, que anseiam
num tempo do futuro,ainda por vir!
Arlete Piedade
|
Acesa
Vou fazer um poema que será teu
sem mostrar ao mundo meu sentir
para que brilhe na noite de breu
e te mostre ao longe meu sorrir
para que na madrugada sonolenta
te acompanhe ao saires de casa
e saibas que o coração acalenta
a paixão rubra e acesa em brasa
no entanto a vida passa e foge
e o que era ardente, esfria hoje
sem o sabor dos beijos fumegantes
não me deixes só, á espera perdida
assim envelhecendo sem ter guarida
sem beijos, e carinhos de amantes!
Arlete Piedade
|
Amo-te Pai!
Queria fazer-te um soneto, pai
Um poema maravilhoso e lindo
E lá coubesse tudo que sinto
Mas ai, meu pai, estou triste
De te ver nessa cama de hospital
A lutar com todas as tuas forças
Para vencer a doença e o mal
Ninguém tem um nome para ela
Para a doença que te atacou pai
Falam mas não dizem a verdade
Escondem de nós a complexidade
De todos os problemas em ti, pai
Mas seja como for és um lutador
Mesmo na alucinação da febre
Lutas com toda essa galhardia
E vais melhorando dia para dia
Em breve estarás de volta a casa
Para tratares da tua horta e jardim
Para viveres os teus dias um a um
Com serenidade no teu cantinho
Sentado debaixo do pessegueiro
Com calma lá no teu banquinho
Enquanto as pessoas passam na rua
E te saúdam sempre com carinho
E eu estarei contigo para te cuidar
Dar-te o meu braço para te apoiar
Conversar contigo para te distrair
Falar dos tempos que não voltam
Da chuva, dos coelhos, da horta
Dos tomates que estão maduros
Das couves que estão a crescer
Das estrelas no céu, na via láctea
Que me mostravas em criança
Quando me ensinaste a sonhar
Quando me cantavas as canções
Do barqueiro, recordas-te pai?
Agora que estás cansado meu pai,
Quero ficar contigo na nossa casa
Esquecer as mágoas e tristezas
Ouvir as tuas antigas recordações
De quando andavas longe, a serrar
De tudo que lá tinhas que passar
E depois quando andavas a namorar
Uma rapariga de lá mas era tão longe
Que ficaste com a mãe para casar...
Pai agora apenas te quero dizer
Ccontinuo a ter muito orgulho em ti
Dos teus ensinamentos sobre a vida
De sempre seres um homem lutador
Integro, amigo, honrado e respeitador
E poder dizer sempre que fui digna
Dos teus ensinamentos e do teu amor!
(Este poema é dedicado ao meu pai, que está internado no Hospital a lutar pela vida, com muito amor e admiração)
Arlete Piedade
|
|
Soneto para Maria Petronilho
Ah Maria, mana querida!
Nesta vida, mal amada!
tua alma tens em ferida,
tua carne, mal curada!
És a Tágide da poesia!
És sereia ao entardecer!
Teu olhar, doçura irradia,
nenhum mortal te pode ter!
Pois nasceste misteriosa,
tal como botão de rosa,
que já não consegue abrir…
na tua origem, dolorosa,
essa mãe triste, formosa
que lá no céu, está a sorrir!
Arlete Piedade
|
|