Carlos Martins

Carlos Martins (António Carlos Amaral Martins), embora nascido em Lisboa, viveu sempre em Angola até que esta ex-colónia portuguesa se tornou independente, regressando então à sua cidade natal.
Músico (instrumentista e cantor), actor (teatro, cinema, televisão), realizador e apresentador de rádio, tradutor e intérprete (ex.: “Rasente Gli Occhi” de José António Gonçalves, Liguori Editore), entre outras actividades, tomou desde cedo o gosto pela escrita, embora só o tenha vindo a cultivar mais intensamente nos últimos anos, em consequência do estímulo acrescido que lhe possibilitou o desenvolvimento de um projecto musical em três línguas com o argentino Alejandro Fasanini em Itália.
Para além de ter frequentado o curso Superior de Medicina Veterinária, é possuidor do Curso de Língua e Cultura Italiana de Nível superior do “Istituto Italiano di Cultura di Lisbona” e frequentou, também no mesmo Instituto, os cursos de Tradução Técnica, Tradução Literária e o Laboratório Linguístico. Os seus conhecimentos linguísticos estendem-se ainda ao inglês, ao francês e ao castelhano.
Obras: "CEM NEXOS"; "ENQUANTO ESPERO"; "+ 100 NEXOS"; "TRAGO ROSAS" (Colectânea a ser lançada pela FNAC na próxima Feira do Livro - Maio). Em preparação estão: "VIVO"; "DECASSILABICAMENTE".

 

 

 

SONETOS


Com duas quadras faço, e dois tercetos,
Catorze versos com que, em puro engenho,
No papel branco verso as dores que tenho
E são p’ra tantos só caracteres pretos.

Eu, co’a imaginação dos arquitectos,
Concebo a estrada donde me despenho
Na vida em que, em sombrio desempenho,
Prossigo sem saber se chego a netos.

Nas quadras exponho donde e porque venho
E todos os temores, por mais discretos,
Mais as razões se não ou me contenho...

Por fim tais caracteres, estranhos esqueletos,
Rematam, fogos fátuos em rebanho,
Destinos feitos corpos de sonetos.

 

25-11-2008 (23.45)

 

 

 

 

Enviados em Dez/2011

 

 

 

Poeta Breve
(Ao Zé António Gonçalves)

 

Aqueles deuses que esperavas não vieram,
Tão breve a espera que é, do pássaro, o voar...
E, em tal voo, não te podem alcançar
Nem mesmo aqueles que, a teu voo, desesperam...

Gotas de chuva escura nestes céus imperam
E caem tristes, a meu pranto secundar...
E o tempo engana, e faz do tempo outro lugar
De breves pássaros que, em voo, te veneram...

Tantas palavras me deixaste na memória
E no papel, que sem palavras me deixaste
P’ra te contar dessas pessoas que, sozinhas,

Sofrem por ti essas saudades que explicaste
E que, uma a uma, sem tamanho em tua história,
São, todas juntas, mais pequenas do que as minhas!


30-03-2005 (12.48) - 31-03-2005 (2.00) London

 

 

 

 

Enviados em Dez/2010

 

 



Vida


O ar é fonte da vida
Sem o ar não há quem corra
P’ra lutar por outra sorte

Oh! Gente desconhecida
Não há-de haver quem socorra
Quem no ar encontra a morte

O ar na roda do carro
Tem matado muita gente
O ar vida nesta roda

Roda-viva que eu agarro
Sem ar não vive nem sente
Morrer, viver, está na moda

Vê na moda a vida ao ar
E o futuro a sorrir
Vê gente a viver feliz

Vida e morte é o ar que eu fiz
Não adianta mentir
Tudo se pode acabar

Cada vida que o ar poda
Isso prova que há um doente
Vigas de aço em chão de barro

É o ar que vai na roda
Roda, ar, vida mata gente
Nem só faz mal o cigarro

Use um fato de bom corte
Tome ar puro antes que morra
Não deixe o bom pela lida

Pela vida vem a morte
Ar na roda, ela que corra
O ar é fonte da vida.


Nota: Este texto é uma “corrente”; pode ser lido em
ambos os sentidos, que também rimam entre si.

30-05-1979 (18.00)

 

 

 

Enviados em Jun/2010

 

 

Consigo
05/06-01-2006

Consigo compreender como consigo
Compreender conceitos: condenado!...
Consigo compreender como contigo
Consigo conviver: conciliado!...

Consigo conceber como castigo
Cumprir caminhos como conluiado,
Como consigo conviver comigo
Calmo condor, canário conturbado!...

Conseguirei contudo conviver
Com copiosidade, carecer,
Conflituosamente conjugados?...

Cabeça, coração, conseguirei
Consonantes conter como cantei,
Contrariando creres contrariados?...


 

 

Enviados em Fev/2010

 

 

 

Sangue
11-07-2006 (18.25)

Chuva copiosa, a palavra que veloz
Se escoa ardente, insana, arfante, impetuosa...
Cintilante fulgor!... Desejo de enfim, sós!...
Visão carmim total, vertida em sangue a rosa,

Vago jardim sem cor, odor, ou dor de nós...
Sons do silêncio, ocaso em que o verão se goza,
E a Lua Cheia faz ouvir a sua voz,
Ao derramares-te assim por mim louca, ansiosa,

Em ondas de desejo, e da paixão algoz,
Fremente a descompasso, assaz libidinosa,
Voraz caudal arfando um querer que dói atroz,

Até se consumar já cega, furiosa,
Atlântica explosão, expirando e logo após
Retornando ao carmim da estrada sinuosa!...

 

 

Enviados em Nov/2009



 

Uma Tarde Em Lisboa
10-07-2008 (01.10)

Vaguear-se a Lisboa luminosa
Num querer-se-lhe a alma fugidia,
E é sorrir-se não mais do que a agonia
De abraçar-se o perfume duma rosa.

Soletrá-la na tarde majestosa
Devassando-lhe as cores e a magia,
E é saber-se afinal melancolia
A alegria que a verte misteriosa.

Tactear-se-lhe o corpo rumo a casa,
Transbordante no peito um Tejo em nó
Que se agita inquieto pela foz,

E é sentir-se que é bom não se estar só
E poder a emoção, que arde qual brasa,
Serenar-se à lembrança duma voz.

 



 

Trago Rosas
08-08-2006 (20.07)

No regaço da minha história
Trago rosas que não colhi...
São dos espinhos em que me feri
Quando me eras na trajectória
Do caminho onde me perdi...

No cansaço desta memória
Trago livros que nunca li...
São da vida onde então me vi
Mero efeito de venatória
Fantasia que não escrevi...

Cada passo, eliminatória
Que num trago amargo venci...
Trago rosas que não previ!...
Fiz de espinhos cada vitória
No caminho que percorri!...

E no espaço sem divisória
Em que trago o meu estar aqui,
Olhas o corpo onde vivi
Cada rosa revogatória
Do caminho que leva a ti!...

 




Poema Que Não Sei Escrever

Colhendo a poesia que se entorna
De ti a cada passo, arrebatado
Pela delicadeza de teu ser, morna
Comoção que atordoa, enfeitiçado

A flutuar-te o trilho a que se adorna
Submisso este meu ser maravilhado
Pela leveza do teu, sinto a madorna
Abandonar-me!... Corro entusiasmado,

A alma a transbordar de ti, poema
Em mim traçado a cada passo teu,
Que releio, na gigantesca empresa

De chegar ao mais exacto fonema
Que te traduza!... Esforço vão, o meu!...
Não há como dizer tanta beleza!...

 

Carlos Martins
10-08-2006 (19.55)

 



 

Dor
(ao Zé António)
24-11-2005 (18.53)

Sem ti de mim perdeu-se a poesia,
E os livros teus que encontro pela casa,
De os ler, a alma sinto mais sombria,
Como às marés na ilha de ti vaza.
 
O Sol que o teu sorrir sempre trazia
E o meu iluminava, é o que me arrasa
E faz sem ti, da ilha, uma agonia,
Que a ti, pássaro breve, fez sem asa.
 
Em mim sem ti só dor, dor e tristeza
Que, imensa, mal me deixa respirar,
E que não sou capaz de descrever:
 
Embarga-se-me a voz de te evocar.
Eterno, o teu lugar na minha mesa
E, por vazio, eterno o meu sofrer.

 



 

Sem Ti
(ao Zé António)
21-10-2005 (15.52)

Há muito não me atrevo a descrever-te
A dor que tu bem sabes ter deixado
Cá dentro, que me tinha habituado
À vida cujo sentido era ter-te!
 
Há muito não me atrevo a percorrer-te
Os versos, que me faz amargurado
Saber p’ra sempre o teu livro fechado,
Que tão precoce foi este perder-te!
 
Há muito pouco que possa dizer-te
Que te possa dizer quão desolado
Está o peito, que me sangra por sofrer-te
 
A falta, que te foste, extraviado
Do sentido da vida, que é o querer-te
Aqui, eternamente, do meu lado!...

 



 

"PERCORRE-ME A SAUDADE"
 
Percorre-me a saudade que reclama
Sentir de novo a noite que preferiu,
Aos astros que há no céu, a tua cama
E a ti tornar-te o mar deste meu rio...
 
A noite é-me o arder naquela chama
Em que ostentaste a força do teu cio...
E o dia é onde mais e mais se inflama
O querer tornar a ti e ao desvario...
 
Desejo que me impregna e se proclama
num corpo que é vulcão bem mais que estio...
Vontade que se acende e se derrama
 
E me enche de prazer este vazio
A que retorno, escravo duma trama
Que faz de ti destino e o seu extravio...
 
(00.03)  -  02-02-2008

 




 

Inevitável
08-07-2007 (11.12)

Frágil embarcação que ruma ainda,
Que um difuso horizonte de promessa
Em que o nauta não crê mas que não cessa
De incitá-lo, do credo desavinda,

Lhe sorri e lhe mostra como é linda
Essa estrada infindável que é uma pressa
E lhe esconde que a vida já tropeça
Num instante em que dela ele se cinda...

Em tão frágeis palavras, linhas, dor,
Triste olhar embaçado, consciência,
Desalento, vai lento em seu torpor,

Que a favor corre o tempo da ausência,
E há um mundo de sonhos e ardor,
E uma sede de mundo e sequência...

 



 

Nada Além
05/06/11-06-2007 (01.04)

Eu nada sou
De nada valho
Um falso atalho
Por onde vou

Sou o vazio
Um espaço branco
O verso manco
Do meu transvio

Sou o não ser-se
Se o ser-se é
Questão de fé
Sou o perder-se

Eu sou o nada
Tempo sem espaço
Onde repasso
Sem ver a estrada

Sombra banida
Que o Sol corrói
Dor sem herói
Carta esquecida

Falso brilhante
Um filme mudo
Sem conteúdo
Nada adiante

Sou sem sentido
Falsa existência
Falha experiência
Ser indeferido

Nada sou eu
Alma vendida
Sopro de vida
Que se perdeu

Estrada infinita
Nenhum lugar
Mundo sem ar
Morte predita

Um’outra terra
Som sem tamanho
Branco desenho
Mundo sem guerra

Um nada além
Do conteúdo
De sendo tudo
Ser-se ninguém.

 



 

Sem Rumo
(ao Zé António)

26-03-2007 (19.52)

Dois anos quase e um rio já se fez
Das lágrimas brotadas na tristeza
Daquele lugar vago que há na mesa
Que teu tornaste eterno aquela vez

Que me mostraste toda a palidez
Do Sol ao meio-dia quando acesa
Da amizade a chama, fortaleza
Que qualquer laço excede em solidez.

Na foz do rio nasce um oceano
Tempestuoso e feito da saudade
Onde sem fim navego, mas sem rumo,

Pois que em nenhum pressinto utilidade,
Se o mundo me é sem ti lugar profano
Aonde se dissipa a vida em fumo.

 



 

Palavras Pobres
(ao Pedro)

07-03-2007 (01.17)

Descreio o dicionário que ultrapasso
Por do que sinto ser pouco o que sabe;
Se nas palavras que contém não cabe,
Seriam p’ra o dizer um erro crasso.

Transporto, de cada lugar que passo,
Odores e cores, sabores, louco arrecabe,
E pasmo a que tal mundo imenso acabe
Num dicionário imenso algo tão escasso.

Pobres palavras ricas de beleza,
Tão parcas de sentido e conteúdo
Se expor vos quero a alma e a lhaneza...

Entendimento é só o que é preciso,
Saber olhar e ver... E até um mudo
Declama o mundo inteiro num sorriso!...

 



 

Dói-me
11/12-06-2007 (00.38)

Dói-me o teu olhar tão triste
Perdido no mar sem fim...
Sinto que de ti partiste
E em meu ver-te só existe
O teu estares longe de mim...

Dói-me o teu tão triste olhar
Que se perde sem me ver...
Percorre o sem fim do mar
Onde anseio o naufragar
Do que ele me faz sofrer...

Dói-me o tão triste olhar teu
Que ora no mar é perdido...
De teus olhares é museu
O mar que era o olhar meu
Sem o teu entristecido...

Tão triste olhar o teu dói
Do meu perdido que à sorte
Foi deixado e se destrói
Numa dor que me corrói
O ser que votaste à morte...

 



 

Eu Não Sabia
(à Marisa)

09-04-2007 (20.45)

 

Eu não sabia que era tanta a dor

Duma resposta em branco, um lugar vago

À mesa, a tal canção sem coro, a flor

Que não tenho no quarto, ânsia que trago

 

E que me exaure assim como um ardor

Que aos poucos me consome, ou como um lago

Tranquilo onde me afogo em estertor,

Na ilusão daquele antigo afago...

 

Como areia entre os dedos, o meu mundo

Se dissipa e do mar que me era estrada

Faz perdido e perdida a mim me traz...

 

Para além desta dor, imenso, o nada

Que de tudo se fez, e tão profundo,
Que no fundo de si a vida jaz!...

 

 

Aberração
(ao Pedro)

10-02-2007 (19.23)

 

Ser criatura vil humanidade

Pecado torpe alguém como se é,

Como se sabe ser sociedade

Por vício a apatia e um café,

                                                           

Inerte ao corrupio da cidade

Que passa ou por quem passa a falha fé,

Ermo lugar angústia da verdade

A aberração do lar num cabaré.

 

Mórbido incônscio agoniado estulto

De si tão só por ser verdugo, algoz

Se faz também do que o mantém, porém,

 

Tal qual um rio que perverte a foz

Desagua no mundo e dele um vulto

Se faz que o não liberta nem sustém.


A Pena do Poeta

12-02-2007 (19.53)

 

O dia hoje nasceu tarde e sem cor

Na intermitência eterna dum sinal...

Fluiu silencioso e irreal

Na suspensão do traço dum pintor!...

 

A vida, um argentado sem valor,

Mais breve do que o voo dum pardal,

Findou algures nas folhas dum jornal

Esquecido num canteiro, murcha flor!...

 

A noite hoje nasceu cedo, inquieta...

Fluiu silenciosa e arredia!...

A vida, um breu perdido de seu tom,

 

Mais breve do que a cor do breve dia

Que não saíu da pena do poeta

Que, em pena, se mantém de falho dom!...

 

 

Anseio

 

Pedras no chão em que tropeço,

Errando as cores da natureza...

São, desta dor em que padeço,

A minha única certeza...

 

Há um vazio intenso em mim,

E um silêncio que me envolve...

São esta dor que não tem fim

Que só ao ver-te se dissolve...

 

Pedras, as cores em que me esqueço

Da natureza, errando a dor...

E um silêncio em que não meço,

O som da alma em estertor!...

 

Toda a beleza que me cerca

De nada vale, não te vejo...

Que a dor de mim veloz se perca,

E tu em mim à beira-Tejo!...

 

 

10-05-2007 (20.30) 

 

Reformatado por Lenya Terra


Ode

 

Peito em alvoroço

Sorriso de Lua

Colar no pescoço

Feitiço na rua

 

Andar sensual

Olhar que arrepia

Odor imoral

Fogo em que eu ardia

 

Dorso de gazela

De vespa a cintura

Suave aguarela

Sonho que perdura

 

Longo é o cabelo

A pele de cetim

E forte o apelo

Que há dentro de mim

 

A voz uma chama

Os braços de hera

Alma que reclama

Mais que uma quimera

 

No peito um ardor

Que quase enlouquece

Malhas do amor

Que o Cupido tece.

 

21-03-2007 (21.50)

Reformatado por Lenya Terra

 

Rima a Rima

Corrompe-se a minh’alma, a minha casa,
À loucura de toda a poesia
Que em meu peito por vezes tanto ardia
E o meu corpo queimava como brasa...

E assim, como desnuda a maré vaza
Os segredos que o mar tanto escondia,
Revelou-se o amor de que fugia,
Dos amores fazendo tábua rasa...

De teu ser se ocupou meu pensamento
Quando em verso escrevia sem pensar
Dum sentir que era meu mas que fingia

Ser apenas um modo de acertar
Rima a rima, do peito, o sofrimento
Que bem finge quem escreve poesia!...

25-08-2005 (23.24)


 

Algoz

Angustiada a alma, arvora arfante
Animada aparência amotinada
Ansiando apoplética, acerante,
Amalgamar a alma à alma amada!...

Amor aflito assim, alucinante,
Asfixia a alma angustiada,
Aniquilando afectos, arrogante:
Acaba a amizade arruinada!...

A alma ausente, amargurada, anseia
Aprisionada à alma!... Aquela, alheia
Ao anelo, ao amor, ardendo apenas

Ao animal apelo, à anatomia,
Amanhecendo, afasta-se arredia,
Álgida, assinalando as açucenas!...

18/19-10-2005 (03.09)

 

 

A Poesia

Gélida a noite que cai
E dorme no meu cansaço
Da alegria que se esvai
Em cada lugar que passo...

Dorme entorpecida e esconde
A Lua, que adormeceu
O amor ninguém sabe onde,
Mais cansado do que eu...

Quase não dou pelo dia
Por fugaz, e permaneço
À espera da poesia
Em que da noite me aqueço,

Enquanto o cansaço dorme
E a noite, bem acordada,
Descobre uma Lua enorme
Redonda e alaranjada...

E o amor adormecido
Em que lugar, ninguém sabe,
Regressa e, desprevenido,
Encontra um verso onde cabe...

Nele se instala infinito
E a poesia encantada
Do amor nos deixa dito
Que sem ele a vida é nada!...

15-12-2005 (22.34)


 

Um Quadro

... fim duma tarde morna de Setembro,
Onde o canto dos pássaros ecoa...
Na parede, um olhar dela destoa,
Co’a mais triste expressão de que me lembro...

Pressinto que o ocaso a não perturba,
Que lhe é vã dele toda a quietude...
É -lhe o semblante parco de saúde
E farto dum passado que o enturba!...

Bruxuleando, dançam-lhe diante
Do baço olhar imagens de trizteza
De antigos tempos em que, sobre a mesa,
Havia apenas fome lancinante!...

E de seus filhos, três, por já perdidos,
Vejo em seu rosto sulcos onde rios,
Quase oceanos, loucos desvarios,
Assinalaram os dias mais sofridos!...

Cansado, o seu olhar... já pouco vê...
Setembro, fim de tarde, aurora, Abril,
É tudo um tempo vão, fugaz, febril,
Tristeza e um sofrer que é sem porquê...

... dos pássaros o canto morre e fria
A tarde se tornou, que anoiteceu...
Outubro, lentamente, aconteceu,
Manteve-se-lhe a vida vã, vazia...

E ante essa tristeza no olhar
Que é fruto de tão longo sofrimento,
Ondula num vogar fruto do vento
Seu pranto que, de tanto, se fez mar...

Aos pés do triste olhar, um barco morto
Velho, restos de quem já se finou,
Encarcerado no que não pescou...
E foi, de todos, este o melhor porto!...

... fim duma vida triste... e já Novembro
Promete uma vidraça que ressoa
À chuva a que reluz, bela, Lisboa...
Na mente o olhar dela que relembro

Eternamente triste na parede,
Deixado ali esquecido, ou por engano,
E onde se divisa um oceano
Ser parco p’ra matar-lhe a longa sede!...

10-09/25-10-2006 (23.40) Neumunster/Lisboa


 

Quem Passa

Refulge, sobranceira, a cimitarra,
Que a brande, em ameaça, o tempo austero,
Com sádico prazer!... E eu desespero
Que, em seu estatismo atroz, se não agarra!...

E encanta, qual o som duma guitarra...
Fascina, como a loucura de Nero...
Neste sentir, mental, eu prolifero,
Que a desvalido porto serve a barra!...

Por vãos os descaminhos que traçados,
No logro da excepção em seu destino,
Por quem se acha feito doutra massa,

Me furto a neles ir em desatino,
Qual tempo que a sorrir, de olhos fechados,
Eterno e complacente, vê quem passa!...

22-03-2005 (11.30)

 

Noites

Insone, este meu corpo o teu almeja
Na solidão da noite que o rodeia
E faz, de seu repouso, vã peleja
Travada no arder de cada veia,

Que o fogo em seu pulsar por ti sobeja,
E enquanto a Lua Nova torna em Cheia,
Da noite faz que o frio se preveja,
À luz de tal sentir, pequena aldeia.

Tão longe está do meu o teu calor
Que de longa me faz penosa a noite.
E nem o meu cansaço em mim te vence,

Que no teu habitar-me, quem se afoite
A tentar destronar-te, o vence o amor
Que há muito em teu ser a mim pertence.

12-04-2005 (14.30) Fano

 

 

Um

Arrepio-me às tuas costas nuas,
Encrespadas à leve sugestão
Do mais leve roçar da minha mão!...
E eis que, de repente, ela são duas,

Calcorreando em ti todas as ruas,
E dissecando cada sensação
Que, todas juntas, são esta paixão!...
As minhas ruas fazes então tuas,

E, a quatro mãos, os dois corpos tornamos
Um corpo só, que tanto nos amamos!...
E o fogo que nos arde em cada veia,

No corpo em convulsão o derramamos!...
Em dois, então, sem mãos, nos desmanchamos
E adormecemos sob a Lua Cheia!...

08-08-2005 (20.35)

 

 

Um Sonho... Ou Nada!...

... e volto à ingenuidade
De querer que o sonho
Se torne realidade...

E vejo-te apostada
Naquilo que proponho...
Não sobra quase nada!...

Mas quase, pode ser caminho
Para um destino medonho,
Assustador e daninho,

Que te afasta de mim,
Que te tira do sonho...
A loucura do fim!...

O tempo não me tráz nada de novo,
Nem me ajuda a sabedoria do povo!...
Que a vida, para mim, sem ti, é nada!...
E eu, árida terra pela saudade devastada!...

Sinto o vazio da verdade,
Vejo o destino medonho
Tornar-se realidade...

Mas nela crio o caminho
Para regressar ao sonho!...
Fortaleço-me sozinho,

Antecipo-te tentada
Para aquilo que proponho...
Sobra pouco mais que nada!...

E nesse pouco me instalo,
Horizonte no teu sonho,
Teu sorriso, meu regalo!...

O tempo, o povo, a minha ingenuidade,
Esse sorriso, lugar de sonho, minha cidade...
Em ti habito, que um sonho é tudo!...
A minha vida é um caminho de veludo!...

Afasto-me de ti
Só p’ra te ver
E, ao ver-te ali,
Adormecer...

03-04-2004 (15.00)

 

 

A Rua Amarela

Luz!...
Abriu-se a janela!...
A rua amarela...

Jesus!...
Como vai triste a manhã...
Tanta gente...

Sobe pelo dia,
Descontente,
A barriga vazia...
Marcha vã,
Não se vê o final,
Onde acaba afinal
A viela,
A rua amarela...

Que ,
Da avenida,
A vida
Pintou assim,
Pequena e estreita,
Mas sem fim!...

Não se vê o final,
Onde acaba afinal,
A viela,
A rua amarela!...

23-11-2003

 

Por Ti
25-02-2005 (18.30)


Por ti deixei a casa onde morava,
E se mudei de vida, foi por ti.
Por ti nunca mais fui onde encontrava
As ruas onde sempre me perdi.

Por ti achei que até nem precisava
Daquilo que p’ra mim sempre assumi
Como o melhor que a vida me emprestava
P’rá vida que vivia em frenesi.

Por ti pensei que tudo era um engano;
Que a vida só por ti tinha sentido,
Por ti, que eras o meu lugar de abrigo...

Mas tanto eu por ti me achei ferido!...
Senti que nem por ti eu me profano,
E que não posso mais ficar contigo.


 

Interpretações
22-06-2005 (16.05)

Eu nunca estou aonde me procuras,
Que aquilo que em mim vês me não pertence,
E ao cesto encaminho as censuras
Do teu olhar, que ao meu nunca convence

Julgares-me tu culpado das loucuras
Com que o bom-senso, a tua mente vence,
A minha confundindo às mais escuras
E tortuosas mentes que se pense!...

Soubesses tu de mim o que não sei
De ti, do que em mim há, que sinto ou penso,
E porque faço aquilo que não sabes,

E logo me encontravas outro senso,
E vias que p’ra ti até tentei
Lugar maior em mim que este em que cabes!...

 

Rio Nocturno
1-02-2005 (23.56)

Alinham-se à minha frente, no céu, Vénus e a Lua,
O Tejo que os reflecte,
E o chilrear dos pássaros com quem divido a paz da minha rua!...

Alinham-se na minha mente (e talvez também na tua),
Memórias e desejos,
E o gotejar da chuva que imagino a escorrer-te p’la pele nua...

Acende-se o desejo que me queima como brasa...
Que o Tejo não inflecte,
E logo após, mais além, acende-se uma luz naquela casa!...

No escuro quarto onde habita a eterna solidão do meu sentir,
Apago imagens e correntes,
Eliminando do meu mundo qualquer possível caminho p’ra fugir!...

E sinto, no silêncio que a interminável noite me consente,
Por entre histórias e beijos,
O insondável alvoroço que sempre induz em mim teu corpo quente!...

Desenham-se então à minha frente (ou desenhar-se-ão na minha mente?)
Paisagens incoerentes
Que se entrechocam e caem no suave curso do Tejo ao sol nascente...

Invade a minha casa uma luz a escorrer-te p’la pele nua...
No escuro dos teus beijos,
Apago o chilrear com que divido a paz da minha Lua!...

E acendo, na eterna solidão do meu sentir, imagens incoerentes
Que o Tejo não inflecte,
Dando à união dos nossos corpos a intensidade e a força das correntes!...

 


 

Não sei
4/6-02-2005 (19.20/22.40)


Surpreendo-me tomado p’la inebriante luz do teu olhar,
Que me chegou co’a nota duma canção que não escutei!...
Na inquietação do inesperado cerco, peço ao instinto p’ra me guiar...
Mas nele, apenas leio: não sei...

Com que palavras o exacerbas, c’o tempero aveludado dessa voz!...
Sacudo-me impregnado, tentando aliciar-te c’uma história que inventei...
Atrás de ti o som dum filme mudo e a absurda noção de estarmos sós!...
Será que é devaneio?... Não sei...

Solto um novelo de letras com que tento a coerência dum discurso
Que t’hipnotize e transporte neste oceano infinito onde nunca naveguei,
Com a força inexorável da paixão que tudo submete a este curso...
Creio ou receio?... Não sei...

Surpreendo-me c’o tempero aveludado da coerência dum discurso,
Que me chegou co’a nota duma história infinita onde nunca naveguei,
Na inesperada inquietação dum filme mudo que tudo submete a este curso...
E nele me recreio... Não sei...

De que novelo me sacudo impregnado da absurda noção de estarmos sós?...
Atrás de ti este hipnótico oceano co’a força inexorável da paixão que inventei,
Tomado p’la inebriante canção que não escutei, no aliciar-me infinito dessa voz...
Já me descreio!... Não sei...

Não escutei a inebriante inquietação do inesperado cerco!...
E contudo, impregnado do oceânico som dum filme mudo que criei,
Solto um novelo que te hipnotize co’a força inexorável do receio em que me perco,
E onde sempre leio: não sei...



 

Príncipe do Nada

17-06-2006 (18.43)

 

Triste príncipe do nada,

Desmantela-se em farrapos

E com nada se confunde...

 

Ser humano em derrocada,

Esburacado como trapos,

Transparente... Que se afunde!...

 

Não tem lágrimas nem face,

Nem sorriso nem olhar,

Nem tristeza ou alegria...

 

Espera que a vida lhe passe,

Letal vício a enfrentar

Por todos com apatia!...

 

De si perdido e do mundo,

E por tal mundo esquecido,

História de si mal contada,

 

É num discurso profundo,

Por sarado, enaltecido,

Triste príncipe do nada!...

 

 

Do Que Não Sinto
21-06-2006 (00.42)

Já não sei que dizer do que não sinto,
E nem sei se o que sinto é o que digo...
E nem sei se sentir me não consinto,
Ou se tento induzir-mo e não consigo...

E ao dizer o que digo eu pressinto
Que o que sinto eu o sinto por castigo,
Que ao que não sinto eu digo estar extinto
E, ao dizê-lo, nem sei ser meu amigo...

Encho-me o não sentir de vinho tinto,
Confiando senti-lo como abrigo...
Mas dizê-lo é, porém, um labirinto

Onde em cada sentir me sinto em perigo...
... um sentir que, afinal, é só instinto,
Que fatal digo e sinto inimigo!...


 

Mistérios
30-05-2006 (01.23)

Não sei em que maré se esconde a Lua,
Que os mistérios do mar são como os teus...
Porém, sei que é ciúme dessa tua
Magia que devassa os sonhos meus...

Não sei que luz estonteia a minha rua,
E que íntimos mistérios são os seus...
Revela-te, porém, verdade nua
Perfeita, desejada até por Deus...

Não sei por que me escondo do que sinto
Quando te vejo e finjo que me vês,
E o meu sorriso é o modo com que minto...

Porém, sei tenebroso este mistério
Que em meu olhar habita e onde lês
Ser meu sorriso falso um caso sério!...


Branco
21-04-2006 (22.09)

Trilhamos lado a lado a branca areia...
Os mistérios do mar fundem-se ao teu...
Rendido a vosso odor, que torno meu,
Vejo uma Lua branca surgir Cheia...

E essa branca pele que me incendeia,
Estremece adivinhando em apogeu
O meu desejo... e logo te é o céu
O horizonte... O mar é melopeia,

Em seu a nossos pés, branco, frustrar-se...
Atlântica explosão carmim!... Brancura
Que tudo veste, assim como um disfarce...

No céu, imensa, branca, vê a Lua
Em mim, do mar, melodia que perdura,
Estendida tu na areia branca e nua...




 

Arde
11-04-2006 (19.07)

O pássaro morreu!...
Arde imensa a saudade
Como antes ardeu
Mudo sobre a verdade

O Sol desinteressado!...
O silêncio foi triste
Ao cair sobre o prado,
Como o azul que desiste

Da vastidão do céu!...
Viu num rasgo uma Lua,
Qual breve fogaréu,
E confundiu-se à rua...

Nunca ninguém o soube
Mas nesse céu sem cor
De repente não coube
O pássaro em estertor...

Arde a saudade imensa
Em mais um fim de tarde
Por sob a indiferença
Dum Sol que apenas arde!...




 

O Corpo, a Mente...
13-07-2005 (20.05)

No corpo ganha corpo o cansaço;
Na mente está o teu corpo presente;
E ausente está o corpo do abraço
Que o cansaço transforma em fogo ardente!...

Presente está na mente, de teu passo
Leve, o som que me enleva e torna quente
O corpo que o teu corpo a descompasso
Almeja como se fora doente!...

E voam finalmente pelo espaço
Cansaço, roupas, corpos e na mente,
O corpo ganha corpo de devasso

E não cabe entre os corpos, de repente,
A espessura do mais pequeno traço,
Assim tu foras rio e eu afluente!...





Bloqueio
25-04-2006 (12.20)

Queria escrever-te uns versos mas não veio
Inspiração maior que esta saudade,
Surgindo antes dos versos o receio
De não saber dizê-la de verdade,

Pois tendo as palavras de permeio
Que delimitam a capacidade
De te dizer que sinto, aquém de meio
É como fica (mas que iniquidade!)

Dela o conceito ao qual eu titubeio,
Ao lê-lo assim, não em conformidade
Com a dimensão que me é já desnorteio

Dum tal sentir maior do que a vontade;
Queria escrever-ta em versos mas não creio
Saber-lhe traduzir a imensidade...







 

O Tempo
20-03-2005 (22.20)

Saltita, inalterável ao dinheiro
Que abunda em seu redor ou que escasseia,
A foice nunca ousando em seara alheia
Meter, como moeda em mealheiro!...

Saltita, e tanto faz se há nevoeiro,
E dele algum monarca se anseia...
Que importa se é cidade ou se é aldeia,
Se o dono é camponês ou marinheiro?...

Saltita, faça sol ou lua cheia!...
Seu passo, inalterável e certeiro,
Escraviza subtil em sua teia

A vida!... E, do relógio traiçoeiro,
Alheio ao belo canto da sereia,
Saltita, inalterável, o ponteiro!...


 

A Poesia De Hoje
06-05-2005 (02.22)

Hoje só há poesia
Em toda a escuridão
Que a Lua me irradia,

Na garrafa vazia
Em que o silêncio ecoa,
Naquela luz tão fria

Que cai sobre Lisboa,
Fazendo azul o dia
Da noite que se escoa

Da garrafa vazia
Em que o silêncio ecoa
Naquela voz sombria

Que a Lua me irradia
Em toda a escuridão
Que há hoje na poesia.

 

 

Desalento
07-09-2005 (17.57)


Verde escura, sombria,
A mente obscurece
A garrafa vazia,
Que o desatino tece
E a alma fenece
Com potente mestria.

Noite escura, arrepia,
O que a mente padece
E, sobre a pedra fria,
O destino anoitece
A esperança da prece
A que o corpo tremia.

Vida escura que ardia,
De que a mente se esquece,
Que a garrafa inebria
E ao corpo enfraquece,
E o que permanece
É a dor doutro dia.

 

 

Quero Fechar os Olhos e Não Ver
29-01-2006 (04.37)

Quero fechar os olhos e não ver
Todos esses lugares aonde estive...
Deixar-me calmamente adormecer
À sombra dum passado que não tive...

Abrir depois os olhos e saber,
Dessa vida passada, que não vive...
Deixar que seja intenso o meu viver
Como intenso da vida me contive...

 Quero fechar os olhos e não ter
Nunca mais as visões que anos retive...
Abrir os olhos e compreender

Que é plano o que era imenso declive...
Deixar a longa noite amanhecer,
E que um pouco de paz se perspective... 

 

Não Sei de Mim
11-02-2006 (14.08)

Não sei de mim em ti, não sei de ti,
Nem de mim sei se em ti não sei de mim...
Torturo-me enleado no jasmim,
Intenso odor profuso teu aqui...

Não sei de mim em ti, onde vivi
Protagonista actor que vê o fim
Da peça no terror do camarim,
Nem de mim sei se sei que te perdi...

Torturo-me, enredado no que li
Em ti, intenso odor profuso assim,
Inebriante, eterno, a que sorri

E a que sorrindo sucumbi, enfim...
Não sei de ti mas sei que te pedi,
Se em ti de mim soubesses, o teu sim!...

 

 

Carência

14-04-2006 (03.08)

Tacteio o pesaroso breu que ora me abarca
No frívolo recurso de teu ilusório
Afago... A tua ausência, imenso promontório,
Resiste-lhe soberba!... Em meu peito, monarca

Indestronável, a solidão é uma barca
Onde recluso sigo, não por meritório
Fado, que de mim sou eterno purgatório,
Mas por de mim ser-te a vontade nula ou parca!...

Rareia-me o sorrir, que a cada evolução
Que infunde a vida a meu discordante vagar,
A minha inspiração, silenciosa, abjuras

Pungentemente!... Tacteio-me a alma e não
Descubro em mim senão o teu amplo lugar
Vago, lúgubre templo de minhas torturas!...

 
A Mão

30-04-2005 (01.34)

É esguia, suave e bela, imensa, gorda, magra,
Pequena, fina, larga e curta, feia, longa,
Que às vezes te destrói e outras te consagra,
Adula e te devassa, e em toques se delonga,

Desenha a tua casa, e colhe-te a onagra,
E limpa, e suja, e faz, desfaz, corta e prolonga,
Alivia o sofrer e sofre atroz quiragra,
E pinta e arredonda, altera, encurta, alonga,

Iguala e faz diferente a caixa, a massa, o pão,
Remete-te ao silêncio e soa-te o cristal,
Dispara, joga, guia, ou toca uma canção...

À vida, ao cemitério, à escola, ao hospital,
Te leva e co'amizade aperta a tua mão,
Num gesto só dizendo o que é fundamental!...

 

Paisagem Inútil

25-01-2005 (11.10)

Debruçado na janela dos meus olhos,
Tento ver as cores da minha rua.
Nela ondula o Tejo, sensual,
Numa dança sedutora, irreal:
Corteja a Lua!...

Alongo o meu olhar à sua margem,
Que me apraz seguir-lhe o rumo,
A tal viagem!...

Desfile eterno de incontáveis vidas,
Transporta no caudal das suas águas
Tantas memórias,
Tantas histórias,
E a dor de tantas mágoas!...

É sem cor, a minha rua...
Nada vejo,
Que tão perto estou do Tejo,
Que o confundo,
Que o faço errar o mundo!...

Corre da janela dos meus olhos,
Perdido do seu mar,
Esquecido do luar
Por me sentir,
Tentando, desesperado, colorir,
À luz da Lua,
Todos os recantos sem cor da minha rua!...

 

O Amor do Poeta

29-11-2005 (20.00)

Depauperado por descrito inenarrável
Ao dissecado pela caneta do poeta,
Pobre do amor feito da dor inigualável
De o inconter, sendo a noção dele inconcreta.

Caracterizado assim de modo admirável
Pecaminoso, inatingível, letal meta,
Pobre do amor que é frustração irrevogável,
De inincontrável no peito do falso asceta.

Em mim, porém, apenas incomensurável,
É perfeição, é uma beleza que inquieta,
E que contém, num equilíbrio inexplicável,

Em simultâneo à sua fórmula secreta,
Eterna contenção, explosão inadiável,
E o direito à explicação que ele me veta.

 
Sonho-te

27/28-02-2006  (01.35)

Sonho-te, que um dia vi-te
A passar, sem que me visses,
Neste sonho onde o limite
Transcende os feitos de Ulisses.

Sonho-te o sonho que tive
Uma vez de ser feliz,
E que ainda sobrevive,
Apesar do que não fiz.

Sonho-te silenciosa
A penetrares-me o olhar
E, aceitando a minha rosa,
Afastares-te devagar.

Sonho-te o andar, felina,
Com que me atrais ao covil
Da mais forte e cristalina
Paixão, que vale por mil.

Sonho-te a luz do sorriso
Com que em teu quarto se espalha
A morte do meu juízo...
E peço a Deus que me valha.

Sonho-te o odor, perdido
O Norte, que um oceano
De emoções torna sabido
Que o que sabia era engano.

Sonho-te o abraço louco
De paixão, onde prevejo
Enlouquecer pouco a pouco
No louco ansiar-te o beijo.

Sonho-te o beijo, agonia
Em que naufrago, poema
Que Deus terá escrito um dia
Por crê-lo divino tema.

Sonho-te o olhar, feitiço
Que do meu sonho me faz
Perder-me, e sonho por isso
Que sonhar-te a mim te traz.

Sonho-te o corpo perfeito
Quando adormeço cansado
De sonhar-te, insatisfeito
De te não ter a meu lado.

Sonho-te a alma cativa
Do meu amor, e festejo
Seres, enfim, minha tu, diva,
Que me afogas em desejo.

Sonho-te o prazer que escorre
De teus olhos, que sacio
Teu querer que nunca morre,
E que me é louco arrepio.

Sonho-te amor meu, paixão,
Encanto, vício, ternura,
Carinho, fascinação,
Meu sonho, minha loucura.

Sonho-te a sonhares-me, enfim,
Num sonho em que me prevês
Sonhar-te a pedires-me o sim
A que nos tornemos três.

Sonho-te por fim no rosto
A intensidade do brilho
Que o meu teve aquele Agosto
Em que nasceu o meu filho...

... foi tanto que te sonhei
Que, nos braços de Morfeu,
Caiu o sonho, acordei,
E este poema nasceu...