Clevane Pessoa de Araújo Lopes

 

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clevaneplopes@gmail.com 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes é psicóloga, ilustradora, oficineira de Psicologia e Poesia, palestrista, escritora desde criança. Mora em Belo Horizonte, é potiguar e morou pelos brasis. Padece de brasileirismo, o que a faz colocar-se sempre na dor do Outro...

Link(s) transitado(s) em Notícias para esta Página:

BH na PAZ e ARTE pela PAZ homenageiam POETAS

 

Erotíssima’mente

A palavra quando visceralmente é bordada, lapidada, cultivada... Faz-se
resplandecedora celebração, de amante na avidez da paixão. Paixão regida pela sincronicidade intrínseca e fértil de uma relação singular.
O que seria da poeta sem a palavra, da palavra sem a poeta? Neste caso essencialmente, é inimaginável CLEVANEPESSOADEPALAVRAS/PALAVRASPESSOASDECLEVANE, terna/eterna comunhão que transcende os limites do gozo e do gosto, insaciáveis em uma afinidade latente, onde é explicita a afabilidade magnética que em desejosos instantes múltiplos d’versos se afloram
erotíssima’mente.

 

 



Depois

Amo a filigrana de tua paciência, em que encaracolas os fios desse ouro.
A espera tem mais mais pétalas que todas as flores da primavera,
mas tudo que cai ao chão, não há de se perder:quando chegarem as chuvas,
o húmus fertilizará a terra de nós dois.

Clevane Pessoa

 

Projeto Borboleta (:)

 

Registro da formação estática,

casulo ou ninfa,

registro das asas em movimento,

cores muitas, formas várias,

símbolo de fidelidade no Oriente

de efêmero, no Ocidente.

A paciência da espera num halo de encantamento.

A pupa. Silêncio de meditação.

A forma alada;

secar as asas, fortalecê-las,

para voar, voar, quais balerinos

incansáveis.

o frêmito da vida.

Os ovos. A fragilidade e a fortaleza.

Falena, mariposa, borboleta,

cada qual no seu tempo de ser:

crisantempo: uma papilionácea

pousada no crisântemo, à distância,

merece um desenho, um poema,

um suspiro de admiração...

 

 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes

 

 



 

+ Mário bendito, bem dito...Benedetti

 

 

Nossa dor, a dor uruguaia

e a de todos que amam a extrema beleza absoluta,

reflete as estrelas de teus versos,

e eles se derramam na taça da noite,

a noite de tua ausência, e a iluminam.

Mas sabes que os Poetas não morrerão,

não enquanto lermos seus versos

e os lembramos.Então, sempre será vivo

e luminoso, Mário!

 

 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes, in memoriam

 

 

*********

 

 

+Mário Benedetti

 

Nuestro dolor,la dolor uruguaya

y de todosnostros , cuyos corazóns gustan l' extrema belleza absoluta,

refleja las estrellas de tus viersos,

y ellos ellos si invierten en el cubilete de la noche,

 la noche de tuya ausencia, y l' iluminan.

Pero sabes que los Poetas no se morirán,

no mientras leeremos suyo viesos y los recordaremos.

 ¡Entonces, siempre serás vivo y luminoso, Mário!

 

 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes

 

 

*********

 

+Mário Benedetti

 

Notre douleur,est la même   douleur uruguayenne

et ce ils dont aiment l'extrême beauté absolue,

reflète les étoiles de tes vers,

 et ils ils si renversent dans le gobelet de la nuit,

 la nuit de la mort, et l'illuminent.

Mais tu sais que les Poètes ne mourront pas,

 non tant que nous lirons leurs vers et nous les rappelons.

Alors, toujours tu  seras vivant et lumineux, Mário !

 

 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes, in memoriam

Brasil, Belo Horizonte, MG

                            PAX et LUX

_______________+17/05

 



 

Simbiose

 

Revoltada pelas agruras, quero seguir, liberta,

sem peias ou lembranças que me prendam...

Passa alguém correndo, quase diáfana,

translúcida e enfraquecida...

 

Agarro pelos cabelos verdes, a Esperança que foge.

Não quero ferí-la, pois está muito machucada,

e procuro ter movimentos firmes, mas delicados.

E por isso, seguro-a pelos ombros e a abraço.

Ela, a fujona, para de se debater.

Levanta a cabeça e olha-me insensata.

Vejo que é ainda quase criança

e que esses olhos abertos e únidos que olho,

  são os meus próprios olhos de outrora,

quase esquecidas na esteira do tempo

e das ilusões perdidas.

 

Solto-a, quero-a livre, que se vá embora.

Mas ela se agarra a mim

e vejo que nossa simbiose está fadada a ser eterna,

se assim não fosse,eu não viveria mais

nem um dia ,ao desalento de tudo que fui obrigada

a estilhaças, ou  a amassar e a jogar fora,

ou perder obrigada por pseudo-protetores,

de minha integridade feminina,

 e ainda por  fracos, ciumentos cruéis e/ou  canalhas...

 

Mas, abraçada à fragilidade dessa Esperança

antiga e hodierna,

sigo, novamente, fortalecida, ainda uma vez mais...

 

E tudo recomeça a partir do meu imaginário fértil...

 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes
Minas Gerais, Brasil-Belo Horizonte,

11/05/2009

Para o amigo Joaquim Evónio e leitores da Varanda das Estrelícias...

 



 


Virgem das Rochas - Luis Carlos Rufo

 

Virgem das Rochas

Quando as formas da virgem das rochas
recebem as lâminas de luz do sol, gemem as escarpas
porque também um dia, na infância do mundo, foram lisas e meninas.
As mãos do tempo, que as acariciaram,
transformaram-se em garras e as rasgaram,
Mas o sempre jovem artista tocou-lhe
os fragmentos, as farpas, os blocos
com paciência e criatividade, renovando e rejuvenescendo
a ação das águas e dos ventos
-e os transformou em jovem arte...

Dessa forma, nasceu essa virgem das rochas
do lento movimento,
das espumas brancas e das róseas auroras,
e do pôr-de-sol,
do canto das aves marinhas ,
firme e corajosa, por atavismo,
mas feita algo novo, pelas mãos do artista
que usou cores e deixou que o azul do céu
dominasse o seu talhe esbelto e sensual.

 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes, para Luiz Carlos Rufo

 




OUTRA VEZ!

A garra agarra a chance.
Desespero de não cair
-e se cair, morrer.
Força a força para a ponta da mão,
onde os dedos são pétalas
distorcidas e roxas.
A queda começara quando o amor
descobriu que era apenas um disfarce.
Que sob seu nome exigências e cobranças
faziam desmaiar as esperanças de paz a dois.
Quando o prazer das delícias
diluiu-se
nas mesmices.

Quando o tempo de descobrir,
cedeu a técnicas ridículas.
Quando a obrigação sufocou o prazer
dos primeiros tempos a dois.
A mentira cresceu e derramou-se qual uma gosma
sobre o corpo de suas almas, antes translúcidas e resilientes.
A lucides se foi.
O ciúme a encobrir o desafeto,
provocou contendas
e até o tálamo
tornou-se campo de batalha.

A criatura, desesperada, tenta salvar...O que ? A quem?
Já nem sabe!Mas as forças rapidamente
a abandonam.
Os dedos se abrem a desenhar no ar a última flor daquela história.

E a queda é fenomenal, apenas seu grito ,de perplexidade , embora,
resta nos ares a correr anos luz de desespero.
Percebe agora que não cultivara -e o amor
necessita de semeadura, rega, sol e adubo.
Que sem confiança, os grãos não medram
para a seara futura.
Esqueceram , percebe, que não reservaram alguns
para sercirem de sementes
na terra do desejo...
Que a Paz é necessidade absoluta
e os que se amam necessitam de mãos dadas
e coração aberto, generoso.
Que é preciso generosidade para construir a dois.
Que o Perdão existe e nada disso antes soubera...

Então, porque é humana, a criatura
ferida, enfraquecida, arrasta-se pelas escarpas
e lança-se ao mar.O sal é curativo,
embora ardam-lhe as feridas.

Então, a esperança de ser feliz de per si e pelo Outro,
imediatamente, reinstala-se...

E qual o formidável mar em seu movimento eternal,
tudo recomeça ,as forças retornam, mesmo sem saber
quem será a nova pessoa escolhida para o exercício da amorosidade
ou se aprendeu a lição dos tempos vividos há pouco.
Tudo recomeça...


© Clevane Pessoa de Araújo Lopes
Belo Horizonte, MG, Brasil

 





Foto:Karina Campos
(poeta e contista, flores, no Balneário Rio de Pedras, Acuruí-MG-Azaléia)


Dos Poetas e sua Poesia
(Aos Poetas amigos)


Um escrínio de ouro,
caixa de Pandora em que restou esperança,
tonel das Danaiades, inesgotável,
Mamas maternas de farto leite,
manancial a escorrer do alto, pelas rochas
a refletir o sol e a lua,
mar de plancton e peixes das palavras móveis,
vulcão que guarda no imo
todo o calor das rochas ígneas,
toda a promessa de explosão
que um dia fecundará o entorno...
Pana-paná com incontáveis metáforas ou rimas
-ou pote vazio delas, das borboletas apenas imaginadas...
Plêiade de estrelas a bordar a noite,
Bando de aves a espalhar as penas
e a trinar em notas de cristal...
Colméia onde o trabalho das abelhas incansáveis,
há de gerar um mel salutar e curativo,
terra ao redor da árvore que guarda o sono das cigarras
-as que morrem de tanto cantar
e ainda deixam para trás as asas translúcidas...

Assim , a Poesia, fonte de inesgotáveis
pensamentos originais que banham de ouro
todas as frases que parecem plenas de loucura,
mas são mais que lúcidas,
a tornar único cada poema que se escreva,
por mais recorrente e conhecido
o tema explorado.

Se alguém é poeta, jamais escreverá um poema
igual a nenhum outro já escrito ou dito.

Esse mistério, somente o self explica,
na sua tarefa de ter o próprio estilo
e ser singularmente belo...

14 de março, dia da Poesia
Clevane Pessoa

 



 

MINIPOEMAS

 

Nuvens (I)

barbas brancas
em rosto azul...

 

Nuvens (II)

capulhos alvos
para o olhar olhar...

 

Nuvens (III)

Dedos fofos
Cócegas no céu...

 

Nuvens (IV)

crianças brincam
em camas elásticas
acima de redes invisíveis...

 

Nuvens (V)

carneiros mutantes
encantos constantes...

 

Nuvens (VI)

cabelos: cãs, cachos
da velha avó Terra
soprados para cima...

 

Nuvens (VII)

Por um tubo de bambu gigante
Deus as sopra...

 

Nuvens (VIII)

fiapos a fugir
do Senhor vento...

 

Nuvens (IX)

algodão branco
mandado em segredo
por anjos negros
nas antigas plantações....

 

Nuvens (X)

formam formas
informes...

 

(Duplix da série "Nuvens" publicados na I Antologia do CEN-Portugal/Brasil)

 



 

ARMADILHAS DO TEMPO

Gestos condicionados por repetição
frutos do Amor cotidiano que em nós vivia
e que fora por sua vez, filho da Paixão
antiga, incandescente que nos consumia...
 
- Antes, um era do outro, objeto de desejo-
saciado, no entanto, na volúpia e no estilo
queimou-se, como a Fênix, no seu próprio ensejo
renascendo de si, num jeito mais tranqüilo...
 
Não cuidamos porém de reinventar os gestos,
usar palavras novas, surpresas, carícias,
esquecendo-nos de plantar outras sementes
 
para usufruir de reflorações, não dos restos
das espécies há tempos semeadas, primícias
necessárias antes, mas hoje tão dormentes...

 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes
01032000

 



 

Amigos,

Meu poema "Minha casa Sobre a Rocha", muito mero, acaba de alcançar 300 leituras depois de postado na seção "Textos", do Recanto das Letras.
Foi republicado em março de 2008. Apenas um derrame de versos e de fé, vindos de meu coração.
Curiosa, fui conferir. Chego á conclusão de que a Humanidade anda sequiosa de paz, de espiritualidade e hamonia que retroalimenta a alma....
Compartilho com vocês. Se puderem , repassem ou hospedem , para que atinjamos mais pessoas que desejem P*A*Z!
Abrs.
 
Clevane Pessoa de Araújo Lopes.



Clique no link abaixo para ler o texto:
http://www.clevanepessoa.net/visualizar.php?idt=894293

 



 

Dançar é escrever com o corpo
no espaço estendido à frente,
alongar-se,encolher-se,
rodopiar,
inclinar-se.
jogar-se em absoluta confiança
no Outro que a(m)para,
depois de centenas de ensaios…
Dançar é tocar música
com gestos,com os pés,
absolutamente sem voz,
na arrasadora maioria das vezes.
Dançar é interpretar com meneios
e oscilações impressionantes
ao nosso olhar supreso,
pois temos os pés no chão,
as nuances da mensagem,do enredo,
da palavra em das formas desenhadas
no espaço…
O corpo é o instrumento dos dançarinos:
suas mãos-libélulas,
suas mãos- borboletas,
suas mãos-colibris
escrevem versos no ar…

 

Clevane Pessoa

 



 

Milagrama
Clevane Pessoa de Araújo Lopes

Um cogumelo de fumaça imensurável
resulta da bomba
insulta a pomba da Paz,
que enegrecidas penas,
revoa a fremir de dor,
gorgulhante...
e as penas se desprendem.
Quais as peles das pessoas.
Os olhos se enevoam,
mil tipos de cãncer
desorganizam as células
ou as célula,desorganizadas
provocam mil tipos de Câncer?
Fogo na garganta,voz trancada,
vozes em sussurros,
vozes aos gritos...
E o Cosmos, perplexo,
porque o resto da humanidade perplexa
vira o rosto,
não faz o gesto,
a sentir-se impotente...

Mas o povo japonês se refaz de si,se reconstrói
e "da solidão de Hiroshima",
que tanto impactuou o jornalista atento,
o trovador solidário e observador,brotaram as flores do potencial humano,
testadas à exaustão.
E nasceram novas Horoshimas e Nagasakis,
mesmo que os criminosos
que pensam serem donos do Poder
(NÃO o são,"Não o são")
continuem impunes,
o que importa,nesses sessenta anos,
é que as duas Phoenix se ergueram das próprias cinzas!

 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes (da série Paz em Qualquer Campo)
Belo Horizonte,escrito em 05/08/06,pois em 06/08,lembramos os sessenta anos desse horror, pois para que haja PAZ, infelizmente é preciso lembrar os horrores das guerras...

 





 

Um mistério Anual

Compositores se inspiram, concorrem , criam enredos
que encherão o olhar e os espíritos de todos,
ao longo da Avenida.
Artistas pacientes e humildes,
criam as belas alegorias.
A velha guarda se renova, rememora os tempos de outrora
e não deixam que os anos já passados
roubem sua animação!
A comissão de frente aprende e apresenta
belas coreografias...
A velha guarda se emociona porque criançada,
os púberes, os adolescentes,aprendem passos,
desfilam, dão de si o melhor :
a beleza da tenra idade a serviço de sua escola.
Cores, animais, flores, luzes, plumas, brilhos, fantasias.
A ala das baianas traça círculos em movimento,
quando giram suas amplas saias...
Mestres-sala e porta-bandeiras mostram a harmonia
e a afinação que todos os pares conjugais,
deviam experimentar um dia.
A madrinha da bateria,
um monumento vivo, traduz a beleza física.
Cada ala conta um pouco da história pretendida.
O cantor puxa o samba e este é desenhado no asfalto
por muitos pés ensaiados.
A pompa, o luxo,a criatividade,
vestem muitas vezes , pessoas bem pobres,
mas de infinita riqueza cultural.
Isso, amigos, é o brasileiro carnaval,
uma festa popular,
com um imenso mistério a decifrar:
Pergunto-me, de onde vem, todos os anos,
essa máxima energia?
De que forma se consegue esquecer, nessa festa,
violências, miséria, balas perdidas, tristezas, desemprego?
Mas um Anjo vestido de glitter
desceu e veio ao meu ouvido soprar:
é justamente, para o povo esquecer as agruras, afinal,
que existe o Carnaval!
É o milagre da alegria!

Clevane pessoa de Araújo Lopes



 

Pessoas "a céu aberto"


Pessoas "a céu aberto"
não têm para onde voltar
no fim do dia:
apenas estendem papelões
e se deitam a tiritar, a suar, chorar
ou para dormir com fome.
Suprema humilhação, essa
a de não ter um lar...
Mas em vez de comoverem os demais
que possuem meios de ter higiene,
conforto, alimento, abrigo, lazer,
costumam provocar ações criminosas, covardes,
que ferem os mais simples direitos humanos...
A barbárie coexiste
com a hipocrisia da civilidade
imposta, que não nasce do coração...
Com a crueldade insensata
dos que se sentem incomodados
porque sua cidade
está infestada
de homens-baratas,
vivendo em bueiros, sarjetas,
calçadas imundas...
Com os homens-pardais,
adaptados a sobreviver de lixo
e de restos...
Com os homens-ratos
a transmitir doenças e vícios...
Mas não fazem nada para minimizar
a miséria dessa nova espécie de pessoas...
Pessoas? Bichos que os outros homens caçam
para exterminar a vergonha
de serem absolutamente fracos
-fracos demais para tecerem
a menor das relações de ajuda,
até para sorrir ou olhar
para mãos trêmulas, olhos-olheiras,
sujas orelhas e bocas desdentadas,
rotos trapos...
Bem sob o deslumbramento do céu
magnificamente azul,
os míseros são massacrados
para responder à sanha
dos assassinos
e ao non-sense dos alucinados,
dos racistas,
dos inconseqüentes,
dos insensatos e dos cruéis...
E ninguém parece
querer fazer nadanadanada...

(Para  todos aqueles que também sentem...)

 

Belo Horizonte, MG, Brasil

 

 


Feliz Natal, desde já...


Haikais natalinos
Haruko (*)
 

 

Natal; festa em gala:
brincos brilhantes, colares
árvores perplexas.

 

Além mar,  frio intenso,
nos trópicos falsa neve,
frutas diferentes
 
sorrisos abraços
aljôfar no coração
dias de alegria e paz...
 

(*)Haruko:Primavera em japonês, como assino meus haikais.

 

Poesia de Natal



...Quando chega o Natal
Também vestimos a alma
De cores especiais
E a nossa voz se eleva
Para acima de qualquer treva
E desejamos a todos
Votos de tantas coisas
Boas de acontecer...

Aos que necessitam de esperança
E querem levar alegrias
Pelo menos uma vez ao Ano
Para que os homens não desistam
De renovar seus sonhos
E de aproximar os que sonham.

 


 

Minhas Trovas Natalinas em 2006

Algumas trovas natalinas


Cristo nasce-e a data incerta,
traz lucros comerciais
Passa a festa e a plebe esperta
já espera os outros natais...


Sempre espero um bom natal
quando todos, solidários,
se abraçam, mas afinal
depois seguem seus fadários...


Jamais terei um presente
qual o que desejo mesmo:
a presença que está ausente
porque no céu caminha a esmo...

Coisa gostosa na vida
é ver abrir seus presentes
a meninada envolvida
por papéis e por parentes...


Em vão espera um brinquedo
um menininho de rua...
Risca no chão, com um dedo,
um foguete e vai prá lua...




De HUMOR:

Ao ver as meias, coitado
o vovô pensa:-"Já sei!
Essas, dei no ano passado
no retrasado ,as ganhei..."


-Para a sogra muito amada,
um ovo de cerzir roupas...
-Nem no Natal?Que massada!
Meu genro, tu não me poupas?

O peru tomou cachaça
para ficar bem macio...
Borracho, quebrou a vidraça
e fugiu,quente no frio...


Belo Horizonte, MG


E meu recado para o além:



No natal verde-vermelho
todos querem um presente...
Eu, no entanto,olho no espelho
e só desejo um ausente
...




 

Faz natal !!!


Faz Natal em ti
Faz Natal em mim,
Faz Natal em nós...

Impossível fugir ao momento:
Alegrias no pensamento
nas atitudes sociais...

No entanto
há quem não possa cantar
nunca mais

Porque o filho está na calçada
vítima de bala perdida...
Porque o amor de sua vida
virou a esquina
e abandonou o ringue
da cotidiana luta doméstica...

Porque foi roubado
pelo ente mais amado...
Por ter sido traído
e sacaneado por quem
mais parecia amigo...

Natal virou ironia
mas mesmo assim
há as pessoas de boa vontade
que dividem o que comem

Que estendem as mãos aos demais,
Que apertam as mãos com alegria,
Sempre a desejar, de verdade
Feliz,Felicíssimo Natal!!!

Natal...tiros ecoam
nos países em guerra...
Ladrões e assassinos
não entendem de Papai Noel
porque um mau velhote
estuprou, subtraiu, espancou
com cinismo, raiva, ódio
por não ter tido ele próprio
um único Natal...

(poesia publicada na Gazeta Comercial de Juiz de Fora, MG, Brasil.Nos anos 60)


 

De/flor/ação


Flores de fora,
flores de dentro,
deflora
o macho,acho,
sem demora, com demora.
O hímen:
flor de flora secreta
que úmida.
lava-se em vinho
quando se deflora...


Primavera o ano inteiro
você verá, onde houver
um amigo verdadeiro
para o que der e vier.

 

DO MEDO


O olho que vê é o olho que teme.
O que não vê,
dilata-se pelo imaginário
condicionado ao sabido.
Uma voz que pergunta as horas,
causa sobressalto.
Passadas na calçada
aceleram o coração cansado
de sustosdesustosdesustos
sustosustosustosustosustos...
Assustadas,as pessoas, timoratas,
parecem potros que trotam
em direção a cousa alguma.
Pressa de fuga,para nenhum lugar.
Necessidade de abrigo,
não importa a idade que se tenha,
o que importa é o perigo oculto
e o perigo desvendado
no útero inchado da cidade.
Os homens de Deus,temem
os homens do Mal;
escondem-se atrás
de grades e muros,
prisioneiros em seus lares. ..

Belo Horizonte, 04/04/2007

 

Esses dois textos, foram publicados, em forma de versos, em antologia (Antologia de Outono), organizada por Arnaldo Ziraldo.

 

 

Formas se formam no espaço da mente.
Semente a semente,
túmidas, descem do imaginário.
Brotam surpresas e reinvenções
do mundo,tão antigo
desde que aqui chegaram.

De vez em quando, abrem invisíveis asas,
para proteger a idéia
do sol ofuscante
de sua criatividade.

De vez em quando, sussurram
e comandam essas mesmas asas
os levem para longe, para o alto,
em busca de silêncio absoluto.

Recolhidos hibernam,
em suas próprias casas mentais,
passam por muitos partos
e renovação.

Depois, sacodem as penas de plumas
e retornam, grávidos
de intenções.

E então, criam ,
nova/mente.

Belo Horizonte, MG, Brasil.

DOS PROCESSOS CRIATIVOS
(AOS ARTISTAS PLÁSTICOS em 08/05/2007)

 

 

Outono: variações em torno de um tema



1) Apelo Veemente

Na pele, no cheiro, num fio estendido no ar, entre seres, entre serras, o re/conhecimento da ternura antiga, do toque, do suor, do perfume, do banho, do enlevo amoroso... Quem terá iniciado o crochet finíssimo, o bordado latente, a trama entretecida no tear do Tempo? Quando tudo começou, em que Terra, em que espaços da eternidade o labirinto de estrelas se enroscou? Onde terá sido escrito o enredo do nosso Amor, que enredado em sua própria teia, acabou mal começou e começara tão intenso, parecendo uma continuidade de sonhos já vividos e acontecências já vividas? Castigo de carma? Por que não voltas e vens reescrever comigo, protagonistas enredados pelos pés, pelas mãos , pelas almas, essa historieta que podemos retransformar?... Vê: é outono e embora a Primavera tenha adormecido para voltar, ciclicamente, é na promessa do fruto que a flor freme, olorosa, a pressentir o milagre da Criação...

2) LEMBRANÇAS e RENDAS-DE-BILRO

Hoje , sob a luz dourada do outono, dobro peças de enxoval... Tenho então a sensação de que vejo cenas adoráveis, bilros numa almofada levemente se entrechocam, sons pequenos de madeira: borlas... Bordadeiras a bordar rápidas, sem poder parar. pois urge a entrega da encomenda feita... Doem os olhos, as costas, os dedos, mas a paciência é infinda, herdada, mas também treinada... O desenho segue a cuidadosa trama... Depois, a renda de bilros, orgulhosa, enfeitará a camisola-do dia, a toalha do altar, a blusa da moça-velha, a gola da doce-avó... Exibida a todos os olhares, elogiada, a memória da renda terá saudades da artesã que pacientemente se desgastou para que fosse apresentada ao mundo... Em breve, o inverno, por isso guardo estas leves peças para uso no ano que vem... Eu própria, no outono da Vida, devo guardar relembrares das primeiras vezes em que minhas mãos pequenas, leves e lisas desdobraram cada uma e houve um momento em que a mancha olorosa da fruta, do fruto, marcou para sempre o fresco lençol de linho...

Agora, minhas mãos outonais trazem pequenos sinais da idade mas ainda tremem, num "frisson" de alegria pela descoberta do prazer...

 

 

Poemeto

Volto a Belém , 
onde morei em pequena
e tenho foto, de fato, a comer ,
nas coités decoradas, com minha mana,
 tacacá nom tucupi.
Mingau branco, temperado, 
servido com maniçoba
e camarão a enfeitar.

Depois, residi já adulta, dois filhos, 
a acompanhar marido engenheiro
que a ALUMAR estava a duplicar,
 além do rio, para onde ia de barco-a-motor
tátá-ta-tátá-ta....
Margens ladeadas de árvores
casinhas espaçadas de caboclos, 
canoas a passar,
até com crianças a remar...

Morei no nono andar
de um prédio na esquina
da travessa S.Pedro, 
de inde via o por-do-sol
no Rio Guamá
incendiar o céu, todos os dias...

De retorno, em outubro, 
mais um prazer redescubro:
comer Pato no Tucupi,
um p(R)ato singular, 
para a delícia do simples e do goumet,
 tomar banhos -de- cheiro
e andar pelas ruas perfumadas,
onde caem mangas 
por todos disputadas...

 

 

Canto para Maninha Xucuru
Canto para Maninha Xucuru

Etelvina,
anos pássaros passando
e você, com a ousadia de menina,
voava a proteger espécies
e ninhadas de etnias.
Guerreira,
agora você voa invisível
em bolsas de ar quente,
sem bater asas, sem tatalares
que denunciem sua presença…

Mas seus manos, maninha,
seus manos indígenas,
pressentem e percebem sua presença
sempiterna,sempre terna,
ternamente
corajosa …

Viva nos lembrares,
airosa nos ares,
sentinela a plainar,
continue a velar por seus pares,
para que a raça brasileira genuína
não possa nunca se acabar…

Foto enviada por Brenda Marques, do Imersão latina, no Dia do Índio

 

 

Publicado no Recanto das Letras em 03/06/2007
Código do texto: T512167

 

 

Para Zenilda Vilácio e Eliane Potiguara

Mulher grita mulher,
guerreira grita guerreira,
araras estridulam,
ariranhas tecem arabescos
nas águas dos igarapés,
brisas e ventoinhas
são feitas nos movimentos
das ventarolas,
abana o fogo, mulher,
irmãs das plumárias dos ventos
e das salamandras do fogo
das águas do corpo
do Avô rio
e de todas águas da Terra Mãe.

O Uirapuru entoou ima última canção
de amor para teus traços guerreira,
e em bolsas de ar quente, te embalas,
despedaçada e inteira,
e do alto velas pelos povos das florestas.
Não serás esquecida.
Segue em paz, pois aqui,
continuar a querelar em paz,pelas etnias,
pela mulher, pelas crianças e pela tradição,
uma potiguara...

(Clevane Pessoa de Araújo Lopes, Belo Horizonte, 30/07/2007)

 

 

Imagem:estela antiquíssima, com caracteres preservados, apesar do tempo...
Imagem:estela antiquíssima, com caracteres preservados, apesar do tempo...

"Direito "à Liberdade de expressão"

 

A liberdade e de expressão é, supostamente, uma conquista brasileira e de seus intelectuais. poetas, artistas, pós-ditadura ainda há quem não a leve em conta.

Que seria dos livres pensadores e criadores, sem ela?De que forma os argutos chargistas poderiam manifestar as tendências, expressar as queixas , sem poder fazer a apologia do ridículo, não criado por eles, seus meros intérpretes, mas protagonizado por figurões e situ/ações nacionais?

 

A Censura vista a posteriori, sempre tem essa conotação ridícula, na perplexidade da interpretação de seus atos.

Nos anos 60, trabalhei em jornal, na cidade de Juiz de Fora e sofri toda espécie de pressões sem ser confrontada de frente,diretamente, ou presa, torturada...Tentava manter um padrão de conduta e sanidade, senão o jornal onde trabalhava, poderia ser fechado aconteciam coisas estranhas;receber reclamação do Barão Elias Domit, avisando que eu seria susbstituída por fulana de tal, pois cada país representava um outro, já que, enquanto Delegada Ad Honoren dio ICA pela filial do Uruguai, “se continuasse a mandar correspondência aberta, razurada, recortes inutilizados, rasgados.Nos meus guardados, tenho ainda algumas dessas curiosas queixas”.

 

Sem Internet, nos Anos 60/70, eu enviava tudo via correios coisa se perdia, mas jamais deixei de cumprir meu papel de divugadora (Lázaro Barreto, meu amigo querido, de Divinópolis, lembra-me que sempre fiz o que agora faço, pela Internet).Entrevistava, divulgava, mas houve situações que beiravam a tragicomicidade:

 

fui entrevistar Poerner e Cony , que haviam chegado para lançar livros (penso que o de Carlos Heitor era seu “Tijolo de Segurança\’.À porta, dezenas de soldados, com metralhadoras, nos impediram de entrar sabíamos o hotel e onde estavam e para lá nos dirigimos. No outro dia, as entrevistas eram estampadas penso que não me expunha por” “coragem”, porém pela necessidade de cumprimento do dever, e algumas “molecagens” típicas da mocinha que eu era:escrevia a matéria á mão, pois detestava catiolografia´- e ia entregá-la diretamente na gráfica, a Gazeta Comercial ainda era feita com linotipos avisava que estava com a matéria atrasada e obtinha licença do diretor, Theo Sobrinho, para levar o que escrevera;assim eu escapava de sua leitura prévia. O jornalista Paulo Lenz,diretor de redação, somente me incentivava e se divertia com minhas estratégias tarde, Gilson Guilhon Loures).

 

Quando Juscelino Kubitscheck retornou do exílio, o DA da UFJF ,de Engenharia convidou-o para falar.À porta, tomaram a máquina do fotógrafo Albert Bauer, grande amigo de minha família e que me acompanhava nas reportagens,pois assim eu garantia que poderia ter fotos no dia seguintes máquina era sua fonte de renda , devolveram-na, mas o DOPS então, liberou uma foto de JK, dos anos 50 (51).Por que?A histíria teria de ser atemporal?

 

Peças de teatro eram invadidas, em especial no Rio e atores levados para serem interrogados palavra suspeita, muitas vezes por plena ignorância dos censores, era ou sucintamente cortada, ou passível de ser explicada ideologicamente, muitas vezes de forma cansativa e inexplicável que a editora Civilização brasileira publicava seus cadernos, ousando mostrar as fotos das manifestações da classe artística, no Rio.Muita gente corajosa gente espontânea gente inocente caçados, mas enquanto isso, a caça a bruxas e bruxas encheu de chumbo o cenário nacional plúmbeos jamais se criou tanto, muita poesia , muita mudança, entre os autores e atores, muita cor/agem:agem em nome da LIBERDADE DE SER.

 

Por isso, irrita-me, surpreende-me, que depois de nossas conquistas à liberdade de pensamento e ação, ainda haja, neste País onde ainda se podem escutar choros de mães, pais, esposos e filhos, amigos e alunos, professores ,onde alguns ossos ainda não foram encontrados e sequer levados pelas Walkírias ao Valhalha, em sua cavalgada , que existam uns espíritos tão pequenos que proíbam aos livres pensadores e criadores a expressão do verbo , da forma, do humor, da vivencia os cacem para proibir impliquem , a troco de nada, pelo prazer sádico de colocar mordaças morais e algemar braços para os devidos abraços a isto ou aquilo ou a afiliações,amarrar passos, aparar asas aos poetas e aos artistas.

 

Retrógrados, esses caçadores, predadores,querem negar às pessoas, o verdadeiro prazer, o verdadeiro gozo: A LIBERDADE DE SER< FAZER< DIZER< IR E VIR ...

 

 

Clevane Pessoa de Araújo Lopes

 

Belo Horizonte, 08/08/07

 

 

O SONO DAS FADAS

Minha amiga Melissa Belo , de Formiga , MG,uma encantadora sobrinha emprestada pela Vida (que ainda não conheço pessoalmente), manda me contar que no dia dezesseis de julho ,há a tradição irlandesa do "SONO DAS FADAS": é a noite em que as daminhas aladas-representantes do elemento ar-escolheram para um sono reparador .

Assim, as pessoas podem fazer pequenos travesseirinhos recheados de ervas perfumadas e colocá-los pelo jardim, em especial, certamente, perto das roseiras, onde elas gostam de estar. No dia seguinte é só recolher as almofadinhas, que além do orvalho, terão recebido os bons eflúvios das fadinhas. Transformam-se em amuletos de sonho... Esse interessante costume antigo agradou-me porque nasci exatamente nesse dia .Dizem que entre luzes e orações, pois minha mãe, adolescente, na época, sofria tanto, que mandaram acender as luzes de S. José de Mipibu, no RN e todo mundo ajudou orando. Inclusive meu pai, que sendo mais velho que a esposinha dez anos, penalizado de tanto sofrimento, prometia, rezando no quintal, que ela não teria mais filhos se escapasse... Teve mais cinco. Todos programados porque adoravam crianças e quando o último dos filhos ia ficando maiorzinho, resolviam "encomendar" outro. Pararam apenas quando o último, nosso querido Juninho, veio, louro e especial, com Síndrome de Down e ela precisou de mais tempo para cuidá-lo. Acho que nunca alguém teve mãe tão incrível. Gostava mesmo era de brincar conosco, nadar, cantar, sapatear, declamar... Mais tarde, tornou-se parteira, professora de Yoga. Quando partiu para a outra dimensão, estava tão cheia de vida que deve ter-se ido a rir do susto que lhe pregaram levando-a sem nenhum aviso. Era uma fada, acredito. Por isso trouxe-me nessa data. Aliás, Dia de Nossa Senhora do Carmo. Eu que seria hoje Carminha, por certo, escapei do nome comum porque, não havendo ultassonagrafia, então seria o "Cleber". Nascida, papai, apaixonado, fez uma lista de nomes com Cle. Cresci sem ver ninguém com outro igual. Noutro dia, pela Internet, vi uma, em João Pessoa. Era a feliz dona de um cãozinho. Mas muitas das crianças que mamãe trouxe ao mundo,ou ganharam seu nome, Terezinha, ou o meu e o de minha mana Cleone, em agradecimento à parteira delicada e competente que era. Então, fiquei pensando... Será que porque nasci no Dia Do Sono Das Fadas aprecio tanto dormir?... Sonhar?... Tenho o imaginário tão povoado do fantástico ? Estarei fazendo 56 anos, tenho alma de vinte e sou bem feliz com minha imagem. Sem nenhum cabelo branco-herança de uma bisavó fazendeira, D.Constança, que era muito brava e montava num cavalo ajaezado de prata, indo de chicote na mão tomar conta da plantação de fumo. Por prazer, contava meu avô Luiz Máximo, paraibano sonetista, trovador e jornalista que colocava-me ao colo para ensinar-me o fascinante mundo da Poesia, as rimas, a metrificação... O outro avô, era maestro... Donde o ritmo natural que procuro imprimir a tudo que faço. Como criar filhos, por exemplo, além de escrever com espontaneidade... O verde, a Terra que tanto amo, são símbolos desse atavismo que me inspira inconscientemente, por certo, mas tão buscados pela consciência em perene expansão....

Por isso, ao receber essa carta da Melissa falando do sono das fadas, vêm-me tão deliciosas pessoas à mente... Ancestrais têm um lugar importante na fábrica de nosso modo de ser. Por eles, deles, SOU.

 

 

Numa Data Especial

O tempo se enovela e nos arrasta, poetamos, mas nem todos nos decifram.Somos anjos arautos, somos esfinges,espéculos, tonel das Danaiades, caixa de Pandoras, relicários, sudários, graais, livros-das-sombras.
       Todas as marcas do Mundo se redesenham nas faces de nossa alma e escoam pelos poros de nossa imaginação... Escrevemos como quem sorri, escrevemos como quem chora. Oferecemos nossos rebentos e muitas vezes, seguem nus, noutras,vestidos de orvalho ,numas, de cambraias bordadas...Em muitas ocasiões, malfeitores do verbo, roubam-nos a autoria. Ainda não há delegacias especializadas em crimes contra a Poesia. Quantos a deturpam ou trucidam, declamando-a mal ou analisando-a a dissecar nossos versos de forma grosseira?
         Afinal, quem compreenderá nosso tanto de angústia existencial mesclado à nossa força de cantar?

 

 

 


 

 

Síndrome do Botão Partido



Ao longo de minha vida — e repito Neruda, o grande poeta chileno, "CONFESSO QUE VIVI" — ENCONTREI INFELIZMENTE INÚMEROS CASOS QUE FORAM UM SOCO- DE-MÃO-FÉRREA NA BOCA DO ESTÔMAGO-DE-MINHA-ALMA. Acostumada, em minha casa, estimulada por pais amorosos a amar, apreciar e proteger crianças,
Sabia, perplexa de que nem sempre essa proteção acontece. Como professora, jornalista, psicóloga, já recebi inúmeros socos simbólicos ,mas dolorosos e fortes,ao deparar-me com histórias tristes ou hediondas. E como dói!

Entre as que mais me marcaram, relato a seguir, várias:

Quando cheguei a Juiz de Fora, menina da Ilha de Fernando de Noronha, onde morei por mais de um ano e fiz minha primeira comunhão,aos cinco anos deidade(!), fomos morar em uma casinha simpática, sempre cheia de plantas, porque mamãe as amava. Meu pai um dia,anunciou ia receber um colega enquanto este procurava casa. Minha família sempre foi muito hospitaleira, abrigamos muitas famílias ou desgarrados.

Quando a pequena família nuclear chegou — vinha do Amazonas, marido, mulher e bebê-trazia consigo uma dessas caboclinhas entregues pelos pais a famílias que deverão lhes "dar tudo", sem salário: roupas de morim barato, o calor por lá justificando o pouco gasto com roupas, escola — o sonho maior dos pais que não a freqüentaram — comida, realmente o que interessa: que os filhos não morram de fome. Nenhum direito. Já vi algumas famílias mandarem o pagamento mínimo para a família dessas pequenas domésticas. Quando morei no Maranhão, conheci inúmeras crianças e adolescentes agregados nas casas "dos brancos", receber tarefas domésticas, serem tratados com cordialidade e chegarem à faculdade. Não era o caso. Nesse, a pré-adolescente era uma escravazinha.

Mamãe se revoltava. Ajudava a menina no que podia. Púbere, de rosto gracioso e triste olhar, brotos mamários iniciando seu desabrochar, era bem mais bonita que a patroa. talvez isso despertasse ciúmes — o certo é que era muito maltratada.

O filho deles era o que um médico meu conhecido chama "bebê de quarteirão": aquele para ser mostrado, gordíssimo, sinal de bons tratos naquela época.Hoje se sabe que criança obesa tem de emagrecer. Pesava muitíssimo. A garota era mignon, aquele tipo de indiazinha, cabelos negros, ossatura delicada. Também era completamente submissa e dedicada ao casal e à criança sob seus cuidados. Trocava e lavava fraldas, banhava, entalcava, como é comum no Norte. Calçava os sapatos do nenê, agora com oito meses e da madame.

O casal começou a nos incomodar. Mamãe abominava aquele estranho a entrar em sua cozinha para beber café, com as botas e os olhos brilhando, estes cobiçando minha mãe ou olhando com ares de dono para a mocinha. Minha linda mãe queixou-se a papai, que intensificou as buscas por uma casa para o colega. Parece que não queriam mudar.

Um dia, a pequena saiu com a criança menor, cheirosa do banho tomado, mal podendo ser carregado, qual um pequeno Buda de carne. Uma vizinha pediu para pegá-la ao colo, o que ela consentiu, certamente aliviada porque os braços finos doíam. A mulher resolveu mostrar aos familiares o gorduchinho. A babá ficou a esperar, na calçada, que voltasse com ele. Nisso, chega o senhor feudal e pergunta pelo filho. Quando ela iniciou a relatar que uma vizinha o levara por instantes para dentro da casa e que o aguardava na calçada, começou a apanhar. A ser chutada com os coturnos de militar. Arrastada para casa. A mulher que pedira a criança por instantes, trouxe-o, atraída pelo barulho,horrorizada e constrangida. Entregou o menino ao pai, que com uma das mãos, apertava o braço da garota. Arrastou-a lá para minha casa. Gritos, xingamentos, a sessão de espancamento reiniciada, sangue. Mamãe lanhada, por tentar tirar a pobrezinha das mãos cruéis. A patroa acalentava o filho ,que urrava, assustado. Em nenhum momento pediu para o marido parar. Seria medo e submissão ou prazer porque ela andava mole e desleixada após o parto, enquanto a outra florescia com os hormônios da beleza adolescente?

Minha mãe nos tirou de casa e foi telefonar, algo difícil, pois nos Anos 50 nem todos tinham telefone. Eu jamais presenciara nenhuma violência e fiquei horrorizada. Talvez aí tenha surgido minha necessidade absoluta de defender injustiçados. Meus irmãos, Cleone e Máximo choravam e tremiam. Mamãe chamou meu pai e o exército, que demorou um pouco. Quando vieram, a menina havia tomado um banho e vestido uma blusa de mamãe, com elástico nos ombros, para poder abaixar o decote e mostrar. Estava cheia de hematomas. Os lábios sangravam. Enquanto o arrogante sargento dizia que a infeliz entregara seu filho a estranhos, os soldados olhavam o pequeno corpo com roxos, o rosto ferido e abanavam a cabeça. A "justiça "foi feita: o homem perdeu a promoção, teve de mudar-se imediatamente — num instante arranjou casa (olhava mamãe espumando de ódio) e um soldado foi colocado por muito tempo na frente de sua casa. A mocinha porém, permaneceu com eles. Talvez porque os Correios não entreguem por carteiros ou a domicílio meninas espancadas. Ela talvez nem cogitasse em deixar os patrões: afinal, ali, comia-se muito... Nunca mais eu soube deles. Nós tivemos que mudar: meus pais decerto, temeram represálias.


Foi a primeira vez que eu tive taquicardia.


 

Dos Ciclos
para Marici Bross


Sim, Sim,sim,
cicicicicicicicicici
quais as cigarras repetiriam
prenunciando chuva.
Essa, tem aspecto ruim e bom,
na dualidade de Shiva.
Destruir para re/construir.
Concluir para re/começar...
Shivachuvashivachuvashivachuva...
shshshshshshshshshsshshs
lama de uva
aroma de pétala amassada
semente que incha/eclode
ventos polinizadores,
águas que apodrecem troncos
que viram limo/humus...
A vida a brotar e rebentar
em flor depois...


Belo Horizonte,19/10/06

amigos são rapadura,
dizem coisas cor de mel
transmitem sua ternura
por vírus bons de papel..

Muito embora virtualmente,
sentimos o seu carinho:
batem teclas para a gente
com bico de passarinho...