Eugénio de Sá

Nasci em 1945, no típico bairro da Ajuda, em Lisboa.
Lá do alto, pode ver-se parte do belíssimo estuário do Tejo e ainda se vislumbra o espaço vizinho da Torre de Belém, que assinala o local de partida das naus portuguesas a caminho da epopeia dos descobrimentos.
Lisboa está-me nas veias, tal como a literatura e a poesia, que sempre me cativaram o espírito.
Todavia, e por circunstâncias da vida familiar, cedo conheci Sintra, onde vivi e estudei durante toda a fase do ensino secundário. Uma vila encantada, que ainda hoje visito regularmente.
A frequência do Instituto Comercial levou-me de novo ao quotidiano da capital, até que chegou o tempo de cumprir o serviço militar. Corria então o ano de 1965.
Cinco anos volvidos, e depois de uma breve passagem por uma multinacional norte americana, tomei rumo na redacção de um jornal que então havia iniciado a sua publicação. Começava aí a tomar forma a minha natural vocação pelo mundo da comunicação, onde evoluí durante mais de trinta anos, divididos entre a escrita e a publicidade. Sempre na cidade de Lisboa.
Conheço parte da Europa e alguns países do norte de África, onde a minha natural apetência pela história dos povos me foi levando.
Hábitos de leitura, a que uma avó querida não é alheia, dotaram-me de vontade e gosto pelo conhecimento. Entre os momentos que lembro em que o espírito mais se deliciou, avultam os consagrados à leitura dos grandes mestres portugueses; de Luís de Camões a Eça de Queiroz, de Alexandre Herculano a Camilo Castelo Branco. Todos contribuíram muito para o meu enriquecimento espiritual.
O deslumbramento pela poesia chegou em 1968, trazida num livrinho que recebi das mãos de José Saramago, então colaborador do Jornal A Capital, onde iniciei a minha actividade de comunicador. Ainda guardo esse exemplar autografado pelo nosso prémio Nobel. Chama-se; “Provavelmente Alegria”.
E é com essa mesma alegria que me apresento perante vós, queridos leitores, com o entusiasmo de quem vem contar os sentimentos que lhe vão na alma e que me marcam hoje os traços do rosto. Bem vindos sejam, pois, à minha poesia.
Eugénio de Sá é acadêmico AVPB e ocupa a cadeira n.81.

 

 

Sem ti não viverei

Eugénio de Sá

 

 

Se mais vidas houvera p’ra viver

Noutras vidas ainda eu te amaria

Não há em mim outro maior querer

Porque sem esse querer pereceria.

 

Mais que uma condição da existência

Que neste mundo ainda me mantém

Sem ti não vivo, ainda que a ciência

Em mim pratique as soluções que tem.

 

Mas não te sintas refém desta vontade

Que faz de ti mais que a minha metade;

Quase a totalidade do que sou.

 

Esquece este peso que te quero impor

Dá-te só por amor e com amor

E aceita inteira a vida que te dou.

 
 
Lisboa,
31.Março.2012
 
 
 

 

 
 
 

 

Enviados em Abr/2012

 

 

Forças da natureza

 

Eugénio de Sá

 

 

Algures na brava costa portuguesa

Que a invernia torna mais agreste

O mar batido a ventos de nordeste

Uma caverna fez nessa rudeza

 

P’la fraga desventrada Eolo brama

Sibilando de fúria incontrolada

Misturando-se aos sons da passarada

Que o abrigo da fraga mais reclama

 

Pobres gaivotas que perdem o norte

Quando do mar lhes chega a tempestade

E na caverna se salvam da morte

 

Quanta razão maior nesta verdade;

A natureza é feita de tal sorte

Que é comovente a sua divindade!

 

Formatação e som:

www.susanacustodio.blogspot.com

 

 

 

 

 

 

 

Enviados em Mar/2012

 



Que presunção a nossa!

Eugénio de Sá 

 

 

Do sonho ao pesadelo vai um salto

E na surpresa de cada sobressalto

Que nos aperta o peito, e amalgama

O coração, que nesse desatino

Sentimos decrescer, e pequenino

Quer apagar-se qual minguada chama

 

 

 

E quem de nós, Poetas, que clamamos

Por sentir mais amores dos que vivemos

Não se ficou aquém da felicidade?

 Qu’ isso de ser feliz é cousa imaginada

É casta seca de vinha castigada

Pla sombra de uma falsa divindade

 

 

 

E ponderada a vida que tivemos

No evocar do tanto que sofremos

Plos despautérios da maioridade

Mais a poesia se nega a mitigar

As frutações que de um tal verbo amar

Em nós ficaram, por tanta ambiguidade!

 

 

 

Sonorização: Claude Barzoti - Poete

 

 

 

 

Enviados em Fev/2012

 

 

 

O Altar de Deus

Eugénio de Sá

 

 

A poesia é o altar das nossas almas

Não um monte de versos sem sentido

Ou algo que nos soe bem ao ouvido

Para mostrar e esperar plas palmas

 

E nesse altar que Deus nos ofereceu

Só há lugar pro que é mais elevado;

Para louvar o bem, um ser amado

Ou perdoar a quem nos ofendeu

 

Não é mercado onde se troquem vícios

Ou maldades, ódios e frustrações

Nem é lugar pra outros malefícios

 

Que a poesia, senhores, são orações

E esse altar não é para artifícios

Porque Deus o ungiu de bendições

 

 

 

 
 

 

 

Enviados em Jan/2012



 

 

 

 

 

Saudade, uma palavra bem portuguesa

que só um português a sabe verdadeiramente sentir!

 

 

 

Essa palavra saudade

Aquele que a inventou

A primeira vez que disse

Com certeza que chorou

 

 

 

Afonso Lopes Vieira

 

 

*

 

 

A saudade é portuguesa

Eugénio de Sá

 

 

 

A saudade é portuguesa

E o seu sentir tão profundo

Que é cantada na tristeza

Que o fado leva plo mundo

 

 

 

(Sextilhas)

 

 

 

Essa palavra: Saudade

Eugénio de Sá

 

 

 

Quando no peito o coração se aperta

E a nossa alma parece deserta

Como tomada por causa doentia,

Quando estranha saudade nos invade

E um sentido de perda e de ansiedade

Nos confrange cá dentro e angustia;

 

 

Quando imagens, momentos, evocamos

E até os cheiros no ar que respiramos

Parecem tão presentes e reais,

Que imensa frustração de nós se apossa

Face à certeza que então nos acossa;

De não os revivermos nunca mais

 

 

Porque a bela palavra “nostalgia”

Com que enfeitamos prosas e poesia,

Que viaja conosco a outras eras

Ou que nos traz saudade verdadeira,

É trucidante, bárbara, açoiteira

Pois não se ressuscitam as quimeras

 

 

Mas, não se é poeta sem melancolia!

- Sem dor, o nosso ser não se extasia

Pra nos configurar os sentimentos

Sem alma, os nossos versos perderiam

A fantasia, a chama, e deixariam

De nos mostrar os seus encantamentos

 

 

 

 

Fado A Lágrima – Canta Amália Rodrigues

 

 

 

 

 

 


 

Enviados em Dez/2011

 

 

 

Partiram, e com eles foi-se um pedaço

Daquilo que nós fomos neste mundo

Partiram, e assim  mesmo, num segundo

Deles só ficou algum marcante traço

 

 

 

Eugénio de Sá

 

 

Sintra - Portugal - 1 de Novembro de 2011

Fundo musical: Mozart - Requiem in D Minor - VII. Agnus Dei

@rte: Susana Custódio

 

 

 

 

 

 

Longamente, um olhar
Eugénio de Sá

 

Longo o olhar que o mau fado perdura
Amargo o acre gosto da desdita
Que todo um povo sofre e jamais grita
Calada a voz à dor da desventura

É jugo carregado de passado
Vendido com promessas e enganos
Travestido de logros desumanos
Quando a verdade é gado tresmalhado

Por mais que hoje se agite a liberdade
Dela não colhe a fé a lusa gente
Que por certo só tem a eternidade

Mas há prisão pior que uma corrente;
Se a liberdade é alígera ave
Sem esperança não há voo coerente !

 

A Portugal
25 de Outubro de 2011

 

 

 


 

Enviados em Nov/2011

 

 



 

Perjúrio

 

 

Eugénio de Sá

 

Amor, que desta ausência a desventura

Eu sei que molda no teu peito a cruz

E que te esbate  o excesso de ternura

Por que o porvir assim não te seduz;

 

É  meu temor que se apouque a certeza

Na indulgência que o escrever transmite

Na carta onde percebo que a firmeza

Mente ao tremor que o perjúrio admite

 

Falta-me o chão e falta-me a coragem

E  a minha solidez já não me ampara

Pra enfrentar o fim desta viagem

 

Crueis os fados que o amor separa

Ímpias as sortes que as vidas desfazem

Maldito o inferno que o demo prepara!

 

 

 

Portugal - Sintra - Outubro 2011

 

 

 


 

 

Enviados em Out/2011

 

 4 de Setembro de 2011

 

Gesto largo de braço

A voz potente

No olhar, no dizer, desembaraço

Eloquente

Aí está o poeta entusiasmado

Com inflexões de voz,

Endiabrado

Este é o nosso Evónio

Bem-amado!

 

 

Parabéns amigo

Que estejas conosco muitos anos,

e bons…

Para nosso gáudio, ao serviço da poesia.   

 

 

 

Eugénio de Sá 

 

 

 

PARABÉNS EVÓNIO

 

 

 

 

  Neste momento é com empenho

Que tento escrever letras a florir

O meu entusiasmo é tamanho

E a minha caneta parece sorrir

Com a emoção que dentro de mim tenho

O dia do nosso amigo Evónio tento colorir

Através deste singelo poema intervenho

Gostava de estar a seu lado e vê-lo sorrir

 

Parabéns, Evónio! Amigo de verdade

Hoje e sempre te desejo muita felicidade

Realçando sempre a minha amizade,

Festeja-se o teu aniversário em grande folia

Todos contigo em Lisboa e Funchal a tua Cidade

Os amigos do Evónio cantam em alegre sinfonia

 

 

Susana Custódio 

 

 
 
 
 
 
Fundo musical: Parabéns
 

 
 
       
 


 

Enviados em Set/2011

 

 

(...)

Bárbaro tempo, abominosa idade,

Às outras eras pelos fados presa

Para labéu, e horror da humanidade!

 

Flagelos da virtude, e da grandeza,

Réus do infame e sacrílego atentado

De que treme a razão e a natureza!

(...)

 

(M. M. Barbosa du Bocage in: “Elegias”)

 

 

 

Bárbaro tempo

 

(Eugénio de Sá)

 

 

Espanta-se a sociedade segregada

Perante o fausto elogio contra-natura

Falsa doutrina, podre, malfadada

Parto maldito de uma causa impura

 

Abrem-se as salas dos notariados

E em breve as naves dos templos de Deus

Incensarão iguais apaixonados

Escárnicos pares que o fado inverteu

 

Que pais darão estas aberrações

Que a lei uniu e as bênçãos dotaram

Que poderá esperar-se dessas adopções?

 

Que será das crianças que privaram

No dia-a-dia c’o as contradições

Que lhes fará aquilo com que lidaram?

 

 


 

 

Enviados em Ago/2011

 

 
 
 
#  #  #


 APORTO-ME

Eugénio de Sá


De aportar ao teu porto não me importo
antes o aconchego me estonteia
no vislumbre do amor que me incendeia
o desejo do acerco desse porto
 
Se sonhas com o momento de atracar
do meu barco ao cais da tua vida
Também sinto essa pressa ensandecida
Mas a maré impõe-nos esperar
 
E as bocas que esperaram tanto tempo
para em presença saberem se expressar
irão por fim unidas se beijar
pondo um ponto final neste tormento
 
Antes que surja breve a rósea alva 
da bruma esmaecida do passado
chamar-te-ei querida e serei teu amado
nos lençóis de uma duna feitos d’ algas


#  #  #
 
 

Enviados em Jul/2011

 

 

Não mais, amor, não mais!

 

( Eugénio de Sá )

 

 

Não mais cruzamos almas num olhar

Não mais nobres momentos partilhamos

Se um tempo aconteceu que nos amámos

Não mais nos damos tempo para amar

 

Mais te daria amor, s' inda coubesse

Mais tempo desse tempo que foi teu

Mas a vida passou, tempo venceu

Não mais amor, não mais, inda quisesse

 

Não mais luares, não mais arrebóis

A adornar de beleza o coração

Não mais os tantos erros, sem perdão

 

Não mais flores, não mais doces beijos

A sagrar - em esplendores - dias amantes

Não mais nos amaremos com d’antes! 

 

 

 

Portugal,

Agosto/2005

 

 

 

 

 

 

 

 

Enviados em Jun/2011

 

 

 

A rejeição do imperfeito

Eugénio de Sá


O teu saber e o meu, ambos restritos
- Que do saber nos ecos não me fio -
Se d'iruditos está cheio o vazio
Quero que me encha a sede d'infinito!

E assim, postulo a causa da poesia
- que ao douto não deve explicação -
Como valor maior d'exaltação
Que o espírito liberta, em empatia

Essa empatia que canta o amor
que solidária ampara cada dor
Esse encanto que vem do coração

Que os iruditos escrevem a eito
Aluciados em tornar perfeito
O que imperfeito é, pla rejeição!

 

 

 

Enviados em Maio/2011

 



Sossega, coração


Sossega coração;

não intuas os pecados deste mundo como teus,

deles não te avoques, nem deixes que esse imenso e injusto peso

esmague a tua virtuosidade.

Senão, como vais viver e transmitir aos outros

as emoções que te são vitais e à poesia que tanto amas?

Pede que te embarquem - ainda que temporariamente - num navio branco,

sem fantasmas, sem dores,

onde a morte não saiba fazer nós de marinheiro,

onde as tuas amarras soltas balancem livres com o vento,

sobre a espuma das mansas ondas.

Deixa que a tua tristeza se vá nesse mar-chão

com o escurecer do horizonte do teu fim de dia

e que os sons que te atormentam se esbatam nos silêncios do oceano,

só quebrados pelo gemido protetor das enxárcias,

que o vento acaricía.

Depois, noite dentro, debruça-te à proa

e ouve o doce marulhar da água afagando o casco

que a sulca, alvo e ligeiro.

E assim, temperado de bonanças e de sonhos,

suaviza de brandura as tuas mágoas, abandona-te aos esquecimentos...

Verás que o novo dia traz consigo as gaivotas e a esperança

e que à tardinha o céu te brinda com arrebóis de púrpuras e de ouro,

mostrando o encantamento dos anjos pelo renovado impulso da tua poesia.

Sossega, coração; ainda tens o dom que Deus te deu.

 

Eugénio de Sá

 


 

 

 

Enviados em Abr/2011

 

 

 

Sem sonho, a vida é morrer!

Eugénio de Sá

 

Sem sonho a alma levita no limbo da indiferença
Sem sonho, a gente definha, perdidos, sem atinar
Como esta vida levar, levados pela descrença
Já que, sem a fantasia, só andamos a penar...

E depois cala e desiste, que a desistência de amar
É da vida o desgostar, e a razão não subsiste;
Torna o que amamos tão triste, tão dificil de gostar,
Que em nós a falta de amar é morte que já existe!

Sem sonhos e sem amor, pouco da vida nos resta
E a valia de viver que fique plo padecer
Já que pouco nos importa que se finde a nossa gesta

Mas se a luz volta a brilhar e que volte a acontecer
Que o sonho venha a assomar a uma pequena fresta,
Volta-nos a côr ao rosto, a côr que lhe queremos ver!

 

 

 

 

Enviados em Mar/2011

 

 

 

Terceiro milénio

A METAMORFOSE

Eugénio de Sá

 

Quando o novo milénio despontou

Esperei ver algo que o mundo esperou

Uma metamorfose esplendorosa

Mas o larvar percurso se frustou

E vi o que ao meu ser desesperou

O nascimento de um ser perturbado

 

Esperava que emergisse um outro, alado

Mas o processo mostrou-se inquinado

E a larva deu lugar a uma distorção

Quiçá a algo estranho vindo do passado

Um velho que em jovem foi tornado

Mas com uma pedra em vez de coração

 

Sem asas, sem voar, não progrediu

E assim deixou de ver e nem sentiu

Fez-se dura a cegueira no seu interior

Tenho a certeza que esse novo homem

Ignora as lágrimas que a outros consomem

E é pois imune aos surtos do amor

 

Ora é connosco, irmãos, dar-lhe uma mão

E mostrar-lhe que ter um coração

Não é ser portador de um frio seixo

Que é nele que se contém toda a bondade

Que é nele que o nosso amor fica à vontade

Que é nele que a vida tem o seu desfecho

 

 

 

 

Enviados em Fev/2011

 

 

 

Injustiçados
Eugénio de Sá


Aqueles a quem a morte mais reclama
Porque muitos invernos já viveram,
Os que da vida a chama já perderam
E têm por incertos pão e cama;

Essas árvores que os ventos não vergaram
Pra confortar a prole da sua rama,
Que hoje (ao abrigo) lhes ignora o drama
E que despreza o bem que eles fizeram;

São os credores maiores da sociedade
Desta que os omite e os maltrata
Votando-os à aviltante indignidade

E enquanto que a miséria os desbarata
E os esmaga tanta iniqüidade
O abandono plos seus é que mais mata!

 

 

 

 

Enviados em Jan/2011

 

 

 

Além da nascente

Eugénio de Sá


Consideremos a vida como um rio
Onde vogamos leves na corrente
Há seixos e entraves pela frente
E trememos de medos e de frio

Mas é próprio do homem enfrentar
C’o a bravura que o pavor lhe dá
As pedras, e os segredos de Yemanjá
Mesmo nadando de costas pro mar

E então o desafio é descobrir
Até onde o seu esforço o levará
Para lograr alcançar a nascente

Ir mais além do que previu subir
E ver c’o coração o que mais há
Pra lá da intuíção do consciente

 

 

 

 

Enviados em Dez/2010

 

 

 

Morrer de amor
Eugénio de Sá

Aqui, onde a quimera se apascenta
Vai morrendo no tojo a minha esperança
E neste exílio pintado de bonança
A todos meu tumulto afugenta

Acre por a não ver, louco por vê-la
Desabrido me mostro a este mundo
E dorido d’amor mais me confundo
No pranto em que me tenho, por querê-la

Mas mais que eu manda outra vontade
Que me nega a ventura deste amor
E que a suma razão outra não sabe

Da morte essa visão não me é temor
Pois se d’amor se morre de verdade
A morte assim será o bem maior!

Nota do autor:
Poema de amor segundo a tradição romântica portuguesa
no período barroco (séculos XVII e XVIII).

 

 

 

 

Enviados em Nov/2010

 

 

 

Alma universal

Eugénio de Sá

 

Não sou daqui nem de parte nenhuma
Minh’ alma de poeta, porque universal
Não pertence a ninguém, nem a Portugal
Tem a deriva que o vento dá à escuna

Por isso me maltratam as afrontas
Que sofrem outros povos, outras gentes
E dos meus males, os que me são freqüentes
São da desdita d’outros, os de monta

Pois ser poeta é ser comprometido
C’o resguardo dos fracos, dos incautos.
Mesmo que isso me traga mais sofrido,

Assumo, consciente, o tom mais alto
Na defesa de todo o oprimido
Pla denuncia de quem lhe mova assalto!

 

________ 

 

"Que imperador tem o direito de partir a boneca
à filha do operário?
Que César, com suas legiões, tem justiça
para partir a máquina de costura à velha?
Se eu for pela rua e arrancar a fita suja da mão da garota
e a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
Se eu tirar com uma pancada
o bolo barato da boca da criança pobre,
onde encontrarei justiça no mundo,
onde me esconderei dos olhos do Vulto Invisível
que espreita pelas estrelas
quando o coração vê pelos olhos o mistério de olhar o universo?"

 

Fernando Pessoa
(in: Poesia completa, de Álvaro de Campos )

 

 

 

 

Enviados em Out/2010

 

 

 

Denúncia

Eugénio de Sá

  

Que mundo errado este, em que vivemos

de tormentosas formas decorado?

Em que afiados gumes nos cortamos,

onde se afunda o homem, naufragado?

 

Não pode um só poeta corrigir

Pla via do seu verso impreparado

Tudo o que é dolo iníquo, e inflingir

Justo castigo a cada mal formado.

 

Mas deve, isso sim, denunciar

o que merece um grito de revolta

que obriga a sua pena a voltear

num frenesi, em que a raiva se solta;

 

E escreve a sua gesta em cada verso

com a nobreza do toque transcendente

que recebeu pra criar c’o seu estro

a poesia que o torna (assim) coerente.

 

Não lhe consinta a pena o devaneio

Enquanto a mente se encontrar imersa

No afã de condenar o alardeio

Dessa vileza, que o mal alicerça.

 

 

Bogotá, Colombia

Setembro de 2010

 

 

 

 

Enviados em Set/2010

 

 



De mim, tudo levaste!

Eugénio de Sá

 

De mim tudo levaste, até que a alma

Se revoltou, dorida, flagelada

Plo desprezo da tua, que gelada

Lhe roubou os remansos e a calma

 

De mim tudo levaste, até que a esperança

Se sentiu defraudada e foi embora

Compreendi então, naquela hora

Que em mim morrera o traço da criança

 

O traço que marcara de ternura

O franco, o são sorriso que tivera

Quando a teu lado eu era tão feliz

 

E assim se foi de mim toda a candura

Hoje não há sorrisos nem quimera

Foi  um amor que o destino não quis!

 

 

 

 

Enviados em Ago/2010

 

 


Homem comum

Eugénio de Sá

 

Homem comum; assim me classifico
Sou só peça de um jogo de magia
Dou vontade a um voto, um papelito
Eleito o símbolo da democracia

E assim eu contribuo de bom grado
Pra pôr no pedestal qualquer pateta
Que sempre mais tristeza traz ao fado
Dos que a tristeza assumem por dileta
 

Somos milhões e cremos por igual
Que um dia quem nos manda, afinal
Conclua que merecemos mais respeito
 

Mas ser homem comum e impoluto
Que a paciência tem por atributo
É um acordo que pode ser desfeito!

 

 

 

 

Enviados em Julho/2010

 

 


GRITO D’ALMA

( Aos poetas meu pares e meus amigos )

Eugénio de Sá

 

Somos irmãos em Cristo, indomáveis
Quanto aos Seus nobilitas fundamentos
Em nós não colhem outros argumentos
Que aqueles que o amor torna adoráveis

Amor sem latitude ou horizonte
Sem limite no espaço ou na vontade
Nunca de nós se espere outra verdade
Que a que formos beber na Sua fonte

Somos irmãos ao condenar a dor
Dos que soçobram perante a injustiça
E aqueles espoliados pla cobiça
Sofremos neles do tanto desamor

Damos de nós da pena o desabafo
Que este grito da alma não se cala
Nem hesita a razão se a dor estala
Quando a poesia abranda o desacato

 

 

 

 

Enviados em Junho/2010

 

 


Sublimo-te o silêncio, meu amor

(Eugénio de Sá)

 

Sublimo-te o silêncio, meu amor
a vida às vezes cala-nos a voz
ou dela deixa apenas o estertor
se o coração se parte, em dor atroz. 

Sublimo-te o silêncio, meu amor
nada que se acrescente pode ver
redimido o mal feito, pecador
Sem contrição que o possa remover.


Sublimo-te o perdão, se ainda houver
um resíduo que seja da ternura
que outrora te inspirou meu bem-querer

E sublimar-te-ei toda a censura
que os teus olhos me mostram querer dizer
parados, sem esconder tanta amargura!



Bogotá, Colombia

Maio.2010

 

 

 

 

Enviados em Maio/2010

 

 

 

Num olhar apenas...

Eugénio de Sá

 

Escreveste aquele tempo, num olhar apenas

Enquanto, amena, c’o as mãos me acenaste

Eu lia-te a esperança, na expressão serena

E tu lias-me o pranto quando me deixaste.

Foram dias, meses, anos... sem te ver!

E enquanto os silêncios nos distanciavam

Eu sonhava-te a vida, ditosa, a correr

Mas já teus olhos, outros procuravam.

E serena, te vi, com as mãos me acenaste

Procurei-te no olhar a esperança, mas serena

Vagamente os teus olhos nos meus repousaste;

Tu fitavas, sem ver, os restos destas penas

E eu lia, nos silêncios, a esperança que mataste

Escreveras outro tempo, num olhar apenas!

 

 

 

 

Enviados em Abril/2010

 





Municiando-me das palavras de Pablo Neruda

em "Confesso que vivi", direi também:

“Talvez não tenha vivido em mim mesmo, talvez tenha vivido a vida dos outros...”  

- E acrescentarei, eu próprio: Talvez eu procure nas  faltas alheias, o perdão para as minhas próprias faltas.

E. Sá

 

***

 

CONFESSO QUE PEQUEI !

 

Do mar, ficou-me o cheiro da maresia

E as memórias de peixe e das estrelas

Ficou-me os fins de tarde, a nostalgia

Saudades das gaivotas, de revê-las.

 

Ficou-me, ah, se ficou; a solidão

Das noites que passei, tristes e frias

Ouvindo no silêncio o coração

Sofrendo, louco, as minhas afasias.

 

Ficou-me o despontar de uma paixão

Que sucedia a outra que partira

E me deixara tonto d’aflição.

Ficou-me o sonho, como o antevira.

 

Ficou-me no olhar aquele perdão

Na rendição d’alguém que eu ignorara

E me estendera, casta, a sua mão

Ainda crente no que em mim deixara.

 

Ficou-me, enfim, o tacto da agonia

O frémito, o horror, a percepção

Daquela que me amara e que partia

Serenamente, sem uma acusação.

 

( Àquela que me criou e tanto me amou; a minha tia e madrinha,

 Maria do Carmo Quinhones de Sá Pereira da Costa )

 

Eugénio de Sá

 

Bogotá, Colombia

Dezembro de 2009

 


 

 

Enviados em Fev/2010

 

 

Num olhar apenas...

Eugénio de Sá

Escreveste aquele tempo, num olhar apenas

Enquanto, serena, c’o as mãos me acenaste

Eu lia-te a esperança, na expressão serena

E tu lias-me o pranto quando me deixaste.

Foram dias, e meses, e anos... sem te ver!

E enquanto os silêncios nos distanciavam

Eu sonhava-te a vida, ditosa a correr

Mas já teus olhos, outros procuravam.

E serena, te vi, com as mãos me acenaste

Procurei-te no olhar a esperança, mas serena

Vagamente os teus olhos nos meus repousaste;

Tu fitavas, sem ver, os restos destas penas

E eu lia, nos silêncios, a esperança que mataste

Escreveras outro tempo, num olhar apenas!

 

 

 

Enviados em Jan/2010

 

Saudade ****Eugénio de Sá música: o sucesso mundial "SODADE" cantado em creolo pelas caboverdianas Cesária Évora e Maria



(Sextilhas) 

Essa palavra: Saudade

Eugénio de Sá

 

 

 

Quando no peito o coração se aperta

E a nossa alma parece deserta

Como tomada por causa doentia,

Quando estranha saudade nos invade

E um sentido de perda e de ansiedade

Nos confrange cá dentro e angustía;

 

 

Quando imagens, momentos, evocamos

E até os cheiros no ar que respiramos

Parecem tão presentes e reais,

Que imensa frustração de nós se apossa

Face à certeza que então nos acossa;

De não os revivermos nunca mais

 

 

Porque a bela palavra “nostalgia”

Com que enfeitamos prosas e poesia,

Que viaja conosco a outras eras

Ou que nos traz saudade verdadeira,

É trucidante, bárbara, açoiteira

Pois não se ressuscitam as quimeras

 

 

Mas, não se é poeta sem melancolia!

 - Sem dor, o nosso ser não se extasia

P’ra nos configurar os sentimentos

Sem alma, os nossos versos perderiam

A fantasia, a chama, e deixariam

De nos mostrar os seus encantamentos

 

 

 

 

 

Bogotá, Colombia

Outubro de 2009

 

 

Enviados em Nov/2009

 

 

DE PROFUNDIS

Eugénio de Sá

 

Em nós há muito mais do que parecemos;

Mais saber, mais moral e mais verdade

E  mais amor, doçura e até bondade

Que se escondem na alma que acolhemos

 

Em nós há mananciais d’entendimento

Disponiveis e prontos a brotar

Somos um rio correndo para o mar

Buscando as profundezas pra sustento

 

Somos um corpo e alma em movimento

Animados plo sopro do divino

Que nos perpassa e nos induz alento

 

Somos, enfim, um passo pro destino

De um mundo que se mostra desatento

Aos ímpios arrepios do que é mesquinho

 

 

Enviados em Out/2009


 

Manda-me o senso

Eugénio de Sá

Manda-me o senso que a vós somente o diga

Já que outros fins os quero ver vedados

Que a graça, o bem ou mal dos nossos fados

Só depende do zelo que os persiga

E mais vos digo, por prova pessoal

Que a nada leva o ódio, o agastamento

Não é por dar ao dano provimento

Que se elimina a causa germinal

Mas se, ao contrário; dermos agasalho

A pios pensamentos redentores

Mais da virtude escolhemos o atalho

Das intenções, escolhamos as melhores

Limitemos o impulso ao justo valho

Sejamos de nós mesmos os censores

 


 

Um bem maior

Eugénio de Sá

 

Não tem forma, limite, nem recantos

Este poder da nossa inspiração

Que nos abre ao prazer da fruíção

Todos os sonhos, todos os espantos

 

É dela que se nutrem os impulsos

Que nos movem a mente e a vontade

Mesmo se a mão não sabe como há de

Dar suprimento ou encontrar recursos

 

Da criação, um dos seus bens maiores

Das maravilhas que da vida impendem

A imaginação é uma das que tendem

A fazer-nos de Deus adoradores

 

E nós poetas, escritores, amantes

Desta estesia que nos vem da escrita

Temos de agradecer-Lhe toda a dita

Que os nossos dias torna inebriantes

 

 


 

Quadras Precisas

Eugénio de Sá


Quem se assoma a alturas de juiz

Pra escritura lavrar sobre outro ser

Terá consigo outro maior dever

O de saber que não sabe o que diz

 

Ninguém é dono d’ outro coração

Só porque decidiu que assim seria

Toda a razão é escassa d’empatia

Se o despeito lhe manda a intenção

 

Amigo não se diz, não se anuncía

Limita-se a mostrar em cada acção

Que sabe merecer essa menção

Não lhe negando o gesto a hipocrisía

 

Quem d’outrem quer calar a poesia

Mesmo que d’algum dom seja provido

Ninguém lhe encontrará algum sentido

Na vil atoarda, na torpe aleivosia

 


 

Um bem maior

Eugénio de Sá

Não tem forma, limite, nem recantos

Este poder da nossa inspiração

Que nos abre ao prazer da fruíção

Todos os sonhos, todos os espantos

É dela que se nutrem os impulsos

Que nos movem a mente e a vontade

Mesmo se a mão não sabe como há de

Dar suprimento ou encontrar recursos

Da criação, um dos seus bens maiores

Das maravilhas que da vida impendem

A imaginação é uma das que tendem

A fazer-nos de Deus adoradores

E nós poetas, escritores, amantes

Desta estesia que nos vem da escrita

Temos de agradecer-Lhe toda a dita

Que os nossos dias torna inebriantes



 

Serenamente, Amor
Eugénio de Sá


Assim te quero, Amor, serenamente

sem sobressaltos, sem perplexidades

Só há certezas neste beijo ardente

que te trago em rumor de eternidades


Como não há-de Amor, como não há-de

conseguir-te um sorriso confiante

este meu beijo, e nele toda a verdade?


Sei que te amo, Amor, perdidamente

com esta alma que me enche o ser

que em nós, amor, tudo é consequente

e amar assim, amor, é tudo querer!


 

A SÍNTESE IMPOSSIVEL

Eugénio de Sá

Dizer-te o que senti após o amor

é pedires que eu seja o narrador

das tantas emoções do coração

é síntese impossível de fazer

é um querer depois de tanto querer

É um fulgor passível de perdão

Só posso, Amor, falar-te de ternura

contar-te o que em mim se configura

Ao retomar das pulsações normais;

Na minha boca ficou teu doce gosto

No meu olhar ficou teu olhar posto

Nas minhas mãos, memórias sensuais

Depois de amar-te tão intensamente

nesse envolver de corpos, eloquente

dizer-te, meu Amor, o que senti

e do prazer que em mim permaneceu

é querer viver depois que se morreu

e eu te direi, Amor; quase morri!

Julho/09


 

Respondendo a Florbela

(Tortura)

Não se esvazia assim esse teu pranto

Com um sopro de vento, ou temporal

Mas tenta um verso puro, talvez santo

Que o que é santo é do bem, renega o mal

Esquece a altura a que possa subir

Um pensamento nobre em verso posto

Que o importante é não deixar cair

Um sorriso fugaz nesse teu rosto

E vê; nada há de rude nos teus versos

Que a tristeza é demais e a solidão

Conta de ti efígies e anversos

E não percas na rima a solidão

Que sem ela o poeta perde o amplexo

De que se serve a sua emoção.

Eugénio de Sá - Junho/09

 


 

Ensaio sobre a poesia de Florbela Espanca

Tortura

 

 

Tirar dentro do peito a emoção,

A lúcida verdade, o sentimento,

- E ser, depois de vir do coração,

Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso d’alto pensamento,

E puro como um ritmo de oração!

- E ser, depois de vir do coração,

O pó, o nada, o sonho dum momento!…

São assim ocos, rudes, os meus versos:

Rimas perdidas, vendavais dispersos,

Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,

O verso altivo e forte, estranho e duro,

Que dissesse, a chorar, isto que sinto!

Florbela Espanca - In Livro de Mágoas


 

Serenamente, Amor
 
Assim te quero, Amor, serenamente
sem sobressaltos, sem perplexidades
Só há certezas neste beijo ardente
que te trago em rumor de eternidades
 
Como não há-de Amor, como não há-de
conseguir-te um sorriso confiante
 este meu beijo, e nele toda a verdade?
 
Sei que te amo, Amor, perdidamente
com esta alma que me enche o ser
que em nós, Amor, tudo é consequente
e amar-te assim, Amor, é tudo querer!
 
Eugénio de Sá
Julho de 2009

 



 

Gesto primordial

Eugénio de Sá

 

 

 

Esses teus olhos com brilhos de amor

Que cílios castos tentam esconder

São bem a prova de quanto langor

Te perpassa na alma de mulher

 

E os teus lábios que o carmim decora

Quais bagos de romã amadurecidos

Fazem que eu acordado espere a aurora

P’ra que outro dia os mostre aos meus sentidos

 

Todos os pormenores que o gesto encerra

Porque o teu gesto me é primordial

Levam-me ao céu mas dele me torno à terra

P’ra te esperar o gesto crucial

 

Aquele que me trará o que mais prezo;

O coração de volta ao seu lugar

Mitigado de fomes e desejo

De correr para o teu a se aninhar

 

 



 

No dia internacional da poesia....

 

Tudo é poesia

de Deus

(Eugénio de Sá)

 

 

Há poesia num carinho,

num gesto, numa intenção,

há poesia numa pomba

que vem comer-nos à mão,

há  poesia num abraço

de um irmão a outro irmão,

há poesia numa flôr

que se deixa debicar

p’lo pequeno colibri,

há poesia no amor

que brilha no olhar doce

do mais remoto Tupi,

há poesia numa mãe

que beija o filho ao nascer,

há poesia quando o amante

vê a amada padecer,

há poesia no gingar

do andar das quitandeiras,

há poesia no orar

da mais devota das freiras,

há poesia na palmeira

que verga à força do vento,

há poesia numa vela

quando alumia um lamento...

 

 

E tudo o que nos rodeia,

nos envolve em emoções,

nos maravilha e enleia,

nos aquece os corações,

é a poesia de Deus,

desse Deus que nos criou

para que fossemos Seus

como Ele nos imaginou.

 






A VERDADE DA MENTIRA
Eugênio de Sá
 
 
O reverso de mentira
Deveria ser verdade
Mas aquilo que mais ira
E que do sério nos tira
É sabermos que quem mente
Nos quer impor o que sente
Como uma realidade
 
A verdade já não sente
Quem faz da mentira norma
Contraria toda a agente
E perde freqüentemente
Porque não querer assumir
Que já só sabe mentir
Nem sabe agir de outra forma
 
Gosta de ludibriar
Sempre num jeito inocente
E acaba dando-se um ar
De quem se quer afirmar
A quem não o contradiz
Por saber que o infeliz
É mentiroso e não mente

 
# # #
 

 
Arte: Lêda Yara

Arte final e adaptação: Lenya Terra

 





 


Reflexões sobre o Ego
Eugénio de Sá
 

A memória quer sorrir,

mas só consigo forrar de folhas mortas este peito cansado.

Nem as cores da primavera me exaltam mais.
Afivelo aos lábios um esgar comprometido, enquanto procuro
outras folhas com viço.
 
Debalde, já que caíram todas perante os ventos debutantes.

 
E nos silêncios da tarde que se fecha, ainda ouço restolhos
das folhas arrastadas pelas militâncias de Eolo,
indiferentes ao meu desagrado.
Preciso desta paz para mitigar a ânsia de interiores
e insubmissos agravos.
Engano o meu; pois não há paz no inconformismo,
mas sim (e só) revoltas.
 
Esqueço então o peso do certo e do errado, e aceito os meus pecados.
 E esboço um sorriso.
Verdadeiro?
- Engano o meu !

 




Confissão
Eugénio de Sá


Estive ausente de mim, e reconheço
Que pouco sou aquilo que pareço;
Dono das mil certezas que defendo.
E ao mundo que só quer sábios e doutos
Direi que sou aquilo que só sabem poucos;
Um homem triste, sempre só, sofrendo!

Lisboa, Abril, 2009



Sortilégio
Eugénio de Sá


Sente na boca a força deste beijo
Oh meu amor tão novo mas tão forte
Que outro esplendor igual ao do teu porte
Não me embargue a visão que ora festejo

Faz deste servo teu tão venturoso
O ser que imaginaste em devaneios
Deixa que enfim repouse nos teus seios
Todo este amor liberto e fervoroso

E que o ígneo desejo assim brotado
Que pulcro rege o nosso amanhecer
Nos mostre sem vergonhas de pecado

Que amar assim nos faça bendizer
Todas as vidas de um outro passado
E remir todo o mal doutro viver!


Lisboa
Abril de 2009

 




Deusa Themis
Assim chamada pelos gregos antigos -  e de Justiça pelos romanos
 

Parcialidade

Eugénio de Sá

 

 

Rogamos ao direito por direito

Que seja imparcial nas decisões

Mas responde o direito em negações

Às ânsias da justiça, de seu jeito.

 

Baixa a credibilidade de quem julga

À condição menor do parcial

E em torvelinhos movidos plo mal

Roda no vento o arbítrio, que perturba;

 

Que ao rico vem trazer o beneplácito

Por consentido ardil que a lei permite

E prescreve o injusto como tácito.

 

Pobre de quem de seu pouco admite

Que a pobreza é um dano que por clássico

Classifica a desgraça que se omite!

 

***

 

 

Lisboa, Abril/03/09




IN MEMORIAM
Eugénio de Sá

Estive onde está Camões e lá repousa
O poeta maior que ao mundo deu
Um país que já sonhar não ousa
Porque aos poucos a gesta já esqueceu

E na pedra fria e tumular deixei
Promessa de render todo o meu preito
À lusa gente que eu sempre amei;
Os mártires, os heróis, de cruz ao peito

Ganhava luz a nascente manhã
Na nave principal daquele Mosteiro
De secular reverência d’ anciã

Mil vitrais reflectiam qual luzeiro
No mármore ancestral da laje chã
Um doirado caudal alvissareiro


***

Lisboa, Abril /01/09




FÉNIX

Eugénio de Sá

 

Um verdadeiro poeta pode ser controverso, mas nunca negação
do que o seu coração lhe dita à pena;

a sua assumida missão do revelado dom que intuíu como mandato,

e que se traduz na intransigente defesa e proclamação
da solidariedade, da paz e do amor. 

Ninguém se iluda;
onde há forças do bem, sempre outras, de sinal inverso, se lhe irão contrapor.

E o poeta poderá ser erroneamente entendido, só porque foi culpado, sim;
mas por omissão de si próprio, por se ter esquecido das suas obrigações

de auto defesa da dignidade e da sanidade mental e até física.
 

Um verdadeiro poeta pode ser vítima da tentativa de o silenciarem, mas,
tal como uma Fénix, renascerá sempre,

pela força da poesia que lhe está no sangue e na alma.

 

***

Eugénio de Sá 

Lisboa, Março/31/2009

 

 



 

Renascer
Eugénio de Sá
  
Quero dizer verdades, que não há
Outra intenção velada neste querer
Dizer o bem, negando o mal-dizer
Que mais mal faz a quem o mal mais dá.
 
Venho de muito longe, da mentira
Que só maldice o bem de um coração
E me deixou prostrado d’aflição
Vergado por mentiras feitas ira.
 
É hora de me dar alguma calma
Pôr um final às mágoas desta alma
Escravizada ao pesar da fé perdida.
 
É tempo de esquecer a escuridão;
Que a luz da vida me inunde a visão
E toda a dor de mim seja banida.
 
***

21 de Março de 2009
Lisboa, Portugal

 



O poema impossível
Eugénio de Sá

 
Sem mais apoio, sinto-me pairar
Num espaço bem acima daquele leito
Não me reconheço no corpo desfeito
Nem outro sentimento por ele me faz vibrar
 
Lá em baixo há gente em movimento
Em torno do inerte e frio destroço
E eu alheado de todo este alvoroço
Aligeirado de todo o sofrimento
 
Prouvera eu intuísse a nova condição
Que o meu entendimento não assume
Ausentes são de mim dor e queixume
Nem já estranho o silêncio do meu coração
 
Presumo que perdi da vida o seu alento
E uma mágoa tenho que irá permanecer;
A poesia de Deus que não vou descrever
Pois a pena que levo perdeu o vencimento
 
Num túnel sombrio vogo, entristecido
Mas de súbito incandesce-se a luz
E ao ver estendidas as mãos do Bom Jesus
A poesia volta a fazer sentido!

 



Hoje, ligeira corre a minha pena
À flor da vida que me resta ainda
Hoje, a alma repousa leve e terna
Na foto que te mostra doce e linda.

Por trás de ti vejo aquele regato
Cujo murmúrio parecia cantar
A glória do rubor que o teu recato
Ao receberes meu beijo fez brotar.

Quisera amor que o dia fosse leve
Que a pena prometia aligeirar
Sempre se quer o que se não deve
Pois as memórias vêm pra ficar.

É por isso que o verso é indomável
Não se verga à vontade que o conduz
É o que a poesia tem de mais notável;
Trazer o nosso cerne até à luz!

 

 ( O verso é indomável - Eugénio de Sá)

 

 

Fevereiro/2009

arte e edição: Olga Kapatti/AVPB

 




Soneto frustrado
Eugénio de Sá
 
 
Ah, quem me dera amar sem sofrimento
Amar a vida inteira, o tempo todo
Recebendo o que dou, em pagamento
Ao tudo o que consagro em meu arroubo.
 
Mas se a cada suspiro corresponde
Um exalar de pranto num lamento
Cansei de procurar o que se esconde
Nas dobras do meu triste desalento.
 
Quisera serenar-me na poesia
Aceitar de bom grado a condição
Da frustração que marca cada dia.
 
Mas versos que são traços de união
Não podem reunir numa ironia
O que é disperso p’la contradição!

 
fevereiro/2009

 



 
 

«Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
querer um mundo novo a sério.»

 

António Aleixo

 

Legado de um poeta
Eugénio de Sá

 

Que triunfe o amor no mundo novo
Que jaza o velho em paz, fique esquecido
Que nunca mais ninguém seja exaurido
Dos bens maiores do direito de um povo;

E que as globais razões instituídas
Que o bem comum exige respeitadas
O sejam realmente e que implantadas
Façam que as vidas valham ser vividas;

Que mais não se suspire p’la liberdade
Como cousa difícil de alcançar
Se agrilhoada da adversidade;

Que haja paz sobre a terra e sobre o mar
E que o aço mais sirva a quem mais sabe
Dar-lhe outro fim mais nobre que o de armar!

 

 



 

Trovadores Medievais
 

 

Quadras soltas à vida

Eugénio de Sá

 

 

Põe uma cara serena

Esquece revoltas e iras

Que a vida só vale a pena

Com piedosas mentiras

 

Vê no verde da paisagem

A bela cor de uma esperança

Que a vida é breve passagem

Pinta-a nos tons da bonança

 

Dá um rumo aos teus amores

Não te confundas demais

Que na vida os dissabores

São amarguras reais

 

Deixa que à porta te batam

A calúnia e a inveja

Que a vida é pros que se fartam

Da estupidez da peleja

 

Menospreza quem te ofende

Não lhe prestes atenção

Que a vida é de quem se prende

Ao bem que há no coração

 

***

S.José do Rio Preto/Brasil

Janº/2009

 

 

Quadras soltas à vida

Carmo Vasconcelos

 

 

Nobre e gentil trovador

Tuas trovas são teu mosto

Jamais teriam pendor

Se gravadas noutro rosto

 

Dá-lhes um traje merecido

E um trinado bem ao jeito

Que ficarão no ouvido

Do mais amargo sujeito

 

Quem as ler com atenção

E na mente as conservar

Resguarda o seu coração

Só para o acto de amar

 

São pura filosofia

Pra quem quiser ter saúde

Sem amor e harmonia

Não há remédio que ajude

 

Só esse desprendimento

Por quanto possam dizer

Nos dá esse entendimento

Dum sadio bem viver

 

Semeia aos cantos do mundo

A fértil sabedoria

Que encerra o verso fecundo

Que lavras em poesia!

 

***

Lisboa/Portugal

Janº/2009

 



 

Ary dos Santos
 
 
SIMPLES PREITO
©Joaquim Marques
 
 
Eras tratado, por sobrenome de Ary
Santos! Apelido que te assentava bem.
Pra nós, deixaste a saudade... Aqui!
Levaste o talento prós Santos do Além!
 
 
Um bom português sente a saudade
Que deixaste na rua onde viveste.
Fadistas, em tom de voz triste e suave
Pranteiam os poemas que escreveste!
 
 
Num mesclado poético, lindos versos...
São repercutidos por vozes de divas
E portentosos talentos da canção...
 
 
Da poesia, és alimento fecundo...
A procriaste na vida, com emoção.
A legaste a Portugal e ao Mundo!
 
***
Porto
Portugal
18-01-09
 
 
********************

À MEMÓRIA DE ARY DOS SANTOS 
Eugénio de Sá

 

Foi o poeta dos cravos
Das canções que o povo amou
Deu o peito como os bravos
Nos poetas que cantou

Um português de verdade
De que Portugal se orgulha
Que morreu na mocidade
Como se apaga a faúlha;

E c'o sopro dessa aragem
Foi-se a fogueira também
Que incendiou a imagem
Da força que um cravo tem

Nela se apagou a vida
Do poeta da emoção
Foi tudo o que dele disseram
Poeta castrado, não!

 

*** 

18/Janeiro/2009

 
********************
 

POETA, PÁSSARO, MENINO
Carmo Vasconcelos

 A memória não se lava
Do  poeta da ousadia
Que a tristeza mascarava
Em versos de rebeldia

Era um cavalo à solta
A palavra que brotava
Duma latente revolta
Pelas mágoas que guardava

Chamas no sangue lhe ardiam
Fogo rubro amargurado
E suas trovas gemiam
Lamentos de dor e fado

Pesada genialidade
Numas  asas de voar
Levou-o a eternidade
Para as dores lhe sepultar

Misto de mel e amargura
Poeta, pássaro, menino
É sua pena-bravura
Saudade em nosso destino

 

***

Lisboa/Portugal

18/Janº/2009




 


[ilustrações] / Ramos Ribeiro. - [ca. 1920?].

  

 

 

Mosqueteiros portugueses

Eugénio de Sá

 

 

Três mosqueteiros seremos

Mas só esgrimimos com penas

Nas pelejas que escolhemos

Nossas guerras são serenas...

 

Serenas mas eficazes

Contra os males deste mundo

Aos maus e aos seus sequazes

Enterramo-los bem fundo;

 

C'o a denúncia dos seus atos

E aos seus mais vis impropérios

Respondemos com ditérios;

 

E que as penas não desistam

E em acusar sempre insistam

Dos maus, os seus desacatos.

 

 

 

 

Mosqueteiros Lusos

©Joaquim Marques

 

 

Unidos seremos uma força!

De armas não precisaremos.

E mesmo que o ferro torça...

Com penas, o combateremos!

 

 

Firmes, serenos, mas audazes;

formaremos a sigla três em um...

 Combateremos a perversidade,

em prol da paz e do bem comum!

 

 

Esgrimiremos a murmuração;

os vis traidores que usam a arma

do embuste, pra difamação!...

 

 

Unos, fortes, gentis mas garbosos,

lutaremos contra os maldosos...

Cujo atributo é destruição!...

 

 

 

 

Avante, Cavaleiros!

Carmo Vasconcelos

 

 

Armada no vosso templo

Mosqueteira me farei

Seguindo o mui nobre exemplo

“Pela Lei e pela Grei”

 

Vós de penas, eu de cravos

Seremos força irmanada

A lutar pelos escravos

Da prepotência instalada

 

“Paz e Bem” nossa bandeira

Pena em riste, altaneira

Avante, meus cavaleiros!

 

Juntos seremos inteiros

Cavalgando o destemor

Vós a força, eu o Amor !

 

 

 

 

15/Janº/2009

  

 

 


Edições anteriores