Hilderaldo Montenegro

Hideraldo Montenegro é Pernambucano, desenhista (ilustrador). Publicou contos, poesias e artigos em várias revistas e jornais. Atualmente está hospedado em vários sites de literatura.

Para saber mais acesse:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/hideraldo_montenegro.html

 

 

 

EM TEUS OLHOS FLORESTAS


Em teus olhos florestas
acendem palavras
demarcadas pelo espanto do invasor

O riso é flor em marcha
d’alma envolvida em dor

Em tua boca o território
se recolhe à taba
e escondes tua nudez
como fosse praga

A cicatriz já foi posta
em tua alma mata
e tua garganta vomita canções
de saudades vindas
e um passado que não deságua

Vontade de ser mãe
terra saudade da ausência
de quem ficou
nos limites extremos
entre a civilização e a farsa
e a falta de pudor
do explorador

A tua tribo se levanta
e o arco alcança
a flecha que não foi
arremessada atinge
o sangue do arremessador
-a submissão do braço
não confessa a fervura
da idéia

E teu canto graúna
assume a bravura
de uma graça que não era
para a guerra


Hideraldo Montenegro

 

 

 

 

Enviados em Jul/2011

 

 


PERSPECTIVA

Mas, não pensem vocês que vou me entregar fácil.
Meus pés ainda coçam percursos
e estradas se insinuam e desenham os seus traçados
Volto como se estivesse indo. Vou como estivesse voltando.
E refaço o trajeto em meus pés
mapeando histórias de idas e vindas

Tudo requer seu passaporte
e pago minha passagem
por esta vida
e durmo sobre travesseiros duros
de viajar minh’alma

Olho para o horizonte
que sempre está aos meus pés
e não consigo enxergar além
de mim mesmo
-este cemitério de paixões
loucas, atrevidas -
covas fundas
que vou cavando na vida


 

 

 



Um canto demasiadamente humano



Arrecadei um tempo para maturar os sons e os sentidos do Humano canto, de Hideraldo Montenegro: um pernambucano, natural de Moreno, que se reconhece aprendiz no universo da poesia - seus mistérios e mistificações. Confesso que me surpreendi com a força da palavra do seu livro e não poderia ser diferente; considerando que o poeta sabe, desde sempre, que é preciso estar atento aos movimentos da vida; atento aos sinais da escrita inventiva e sua função social. Um bom exemplo reside no poema Lembranças:

Coleciono palavras antigas
e um gosto estranho pelo bordado da caminhada
dos pés estradas pontes rios

Graça Graúna
Escritora, Professora universitária
na área de Literaturas de Língua Portuguesa
e Direitos Humanos.
Nordeste do Brasil, 29 de abril de 2009

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Enviados em Abril/2010

 


ESPELHO 

Escrever com água
é permitir a fluidez das idéias
que se somam e modificam
o curso das palavras 

Escrever com água
é matar a sede
dos que procuram contemplar-se
a si mesmos 

Escrever com água
é se adaptar a todos os recipientes
e refletir o que todos sentem 

Que mais poderia  dizer, poeta, que ainda não saibas? Termino de ler
teu livro, Alquimia das Águas. Termino? Um livro não termina nunca.
Volto então ao primeiro poema. Retorno para beber na fonte, completar
um ciclo e não esquecer: “escrever com água é se adaptar a todos os
recipientes e refletir o que todos sentem”.

Parabéns Hideraldo, poeta! Sei de tua Palavra-Estrela. É luz que não
apaga.

Maria Pereira de Albuquerque
Poeta pernambucana

PARA ADQUIRIR O LIVRO ACESSE:
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Enviados em Jan/2010



 

CANTATA - HUMANO CANTO

 

 

 

O dia convida ao açoite

das palavras que se fazem vento

 

Tantos fantasmas invadem o dia

que a noite só resta o silêncio

 

Penso nas horas

que passam como vento

e voam pela janela

 

Penso nas crianças que virão

e nas crianças que ficaram

presas na memória

 

O pó ocupa todos

os espaços

e não pára de correr

pelas frestas

da mente

 

Na quietude

o tempo corre  veloz

e torna-se absoluto poente

 

Contemplo as flores que nascem

com as horas contadas

e eternizam

no tempo

 

Os relógios não determinam o tempo

apenas demarcam os espaços

que o ponteiro percorre

entre um ponto a outro

 

Já é Outono e as flores

se despedem

e os seus abraços já não são os mesmos

desde janeiro

 

Espero a chuva cair

e o que passa são os olhos

-vitrines que se renovam

em cada estação

 

As manhãs acordam mornas

e esperam aquecer

a vida

Lá fora um trem passa

como se fosse apenas cumprir uma obrigação

 

Mas, sabemos dos olhares que observam

a paisagem que somos

-estática?

 

E o gado fixa-se no solo

e cerca o território com olhares

imóveis

no espaço

 

E não sabe do tempo

 

que o corrói

 

Mas é absoluto em sua certeza

 

Só o homem dobra os passos

e esquece das estrelas no céu

 

As rugas fixam-se em meu rosto

e contam histórias esquecidas

 

A tv desvia o olhar

do espelho

e vamos surdos para encontros

programados

com máscaras e sorrisos

avisos prévios

editais

e cenas de postais

 

Visto minhas horas

sem disfarces

e alcanço tuas mãos

entre espelhos diversos

e nenhum beijo te acorda

 

Meus pés são uma farsa

sobre a estrada

e sinto calafrios

em teus beijos

-inevitável despedida futura

 

Você olha para mim

sem compreender a si mesma

e escuta o canto dos pássaros

na manhã

 

E os pássaros cantam na manhã

 

e os pássaros cantam na manhã

 

Mas, principalmente, os galos cantam

e desafiam as incertezas

 

As manhãs nascem do canto

e até mesmo o galo se espanta

da manhã que se levanta

no seu canto

 

E, como o galo, também me espanto

mas não consigo deter este canto

 

E o canto perdurará mesmo quando não houver

mais pássaros nas manhãs

 

Os homens oferecem pontes

aos pés que não levam

a  outro ponto

do universo

 

As pontes ligam

apenas o reverso da perspectiva

-ir e vir é a mesma coisa

e quem vai cruza com seu futuro

na volta de quem foi

 

Os rios foram feitos

para nos atravessar

-batismo purificador

das águas da fala

 

Configuro emoções

para este momento underline

e formato lembranças ideais

 

Formato meus prazeres

para você

e te ofereço flores

como oferecesse pão

 

Visto as palavras para criar universos

-Esta é minha forma de me abrir

como canteiros que se preparam

para as abelhas

que fecundarão o mel

 

E ofereço para ti

estas asas

abertas para o céu

 

 

Hideraldo Montenegro

 

 



 

 

CICATRIZ

para Graça Graúna

 

Solano sol

de cada manhã

a cor

do sol

doura a pele

de liberdade

a cada passo

a África

colada

à sola

da caminhada

é asa

 

 

Solano sol

poesia e rouxinol

canto da manhã

na cor

desterro e dor

de uma pátria

colada à sola

da caminhada

a cadência

marca

a fala

e fertiliza o chão

por onde a África

passa

 

 

Solano sol

da fala

a cor é flor

na marca

a pele

aberta

desabrocha o sorriso

na dor

como uma flor

nasce

no asfalto

como um assalto

um sobressalto

dos pés

na caminhada

que a pele

livre

carregada de sol

fez da cultura

humana

beija-flor

 



 

VIAGEM

 

Esse sangue

esse poço

essa vontade

de me erguer

verticalmente

até o topo

de minha cabeça

definem o meu tamanho

dentro de mim



 

CANTO

 

Uma palavra com gosto de passa

que vem e encaixa no céu

a asa é fala

instiga e não cala

 



 

EFETIVO

 

E a pedra

quieta

se desloca

no tempo

disfarçadamente

como o vôo

se move

no pouso

e a despudorada amante

na aguardente

 

E a pedra

petrifica

o riso e a dor

sem prazer

ou sofrimento

impassível

dentro

do infinito

movimento

dos pés

de Deus

 



 

LIBERDADE

 

E o luar

atravessa a rua

sem respeitar

o sinal

 





LEMBRANÇAS

 
Coleciono palavras antigas
e um gosto estranho pelo bordado da caminhada
dos pés estradas pontes rios
 
Estruturo gestos largos e deixo fluir
o riso e a lágrima com a mesma intensidade
dos navios que cruzam mares rostos olhares
 
Fixo os olhos das meninas em minha cara
e guardo sempre abertas lembranças
 
Não disfarço minhas fantasias
Sigo aberto
sempre com o coração à frente
desta procissão de mim mesmo

 



 

CRIAÇÃO
 
A palavra constrói a boca o som a fala
 
Constrói este homem que não se cala
e voa aberta doce salgada seca molhada
 
Às vezes, como canto lamento silêncio cela
sala santo fera
 
Constrói o canto o pranto
o pensamento o manto o acalanto o espanto

 



 

INSPIRAÇÃO
 
No apertado das horas
escrevo poemas largos
com palavras e fitas
 
Poemas emendados
Poemas-chitas
 
Colo todas as palavras
que sobrevoam
rápidas
sobre o papel
como se fossem listas

sem discriminar nem a que me agita

 



 

STAND-BY
 
Você me deixou assim
ligado
sem fim
desejo poço
sem fundo
mundo
incompleto
deserto
com tantos horizontes
abertos
quando um toque
poderia me acender
inteiro

 



 

SILÊNCIO
 
Ali onde não há palavras
a alma é completa-
mente sólida
como Deus
é existência eterna-
mente homem
na pausa da fala

 



ANJO

Nasce na pele
o vôo
a mente se estende
para os braços
os pés saltos
os olhos sempre
para o alto
do lado
o irmão pede a mão
e a soma
de um mais um
é um
e as asas se alargam
só uma direção
todas as pessoas são
passagens
para os outros
mesmos eus

 



 

Luar

Mas, o olhar se faz atento
e a lua acende idéias
de tomar todos abraços
para o corpo
e a luz define a nossa silhueta
e tudo escorre para dentro
embevecidos, embriagados dizemos sim

 



 

Moral da história
 
A carne dura
a vida dura
o sangue veloz
a mente escura
as noites intermináveis
o dia esperado
a tesão sem ato
o ato sem tesão
os olhos turvos
um nome sem peso
querendo se vingar
de tudo isto
 
quando um simples lexotan
ou uma missa
poderia resolver a questão

 



 

Indecifrável
 
O poema que não escrevi
é feito de carne
tem nome largo
e palavras de forma
 
O poema que não escrevi
dorme comigo todos os dias
revira meus sonhos
torna-se insônia
 
O poema que não escrevi
come, bebe, faz sexo
e, às vezes, sai pelo nariz
 
O poema que não escrevi
vive na lama, no lixo
no luxo, na cama
 
O que poema que não escrevi
é macho, puta, bicha louca
-desenho que não sai da boca
 
O poema que não escrevi
é leve, é pluma
pesado tiro
é chumbo, é morte
é casulo, é seda
é sorte que não chega
 
O poema que não escrevi
se inscreve em mim
como cicatriz
como uma dor, um parto
um sapato apertado
 
O poema que não escrevi
Jamais escreverei

 



 

Asas
 
A chave do silêncio
encoberta
a alma posta
o sol nascente
na cabeça
as mãos abertas
livres
os pés soltos
sem chão
sem peso
o sangue correndo
por todo o corpo
turva a mente
a palavra fracionando
o silêncio
o mapa
a asa pronta
a ponta da língua
no ponto
a lua do outro
lado
a noite
morcegos e medos
vivência diária
dos olhos
o pouso do solo
a fertilização da fala
o homem dividido
Babel
o ser invisível
a poesia livre
presa num poema
num papel
a face
a mesma
sempre
olhos acessos
sem ver
à frente
a consciência
embriagada
pela forma
norma e norma
marcha soldado
cabeça de papel
se não marchar
direito
esquerda
volver
a criança
pronta
embalada
para viver
regras
dadas
mostram os dentes
fala lenta
de aprendizado
toda cultura é imposta
um homem
forjado
até os dentes
pente no cabelo
disfarces e disfarces
faces ocultas
cultos
curtos pensamentos
viver é alongar
a hora
da morte
certa
suiçamente
o riso
preso
não mostra
os dentes
sexo e sexo
fecundação do ego
o vôo permanece
pronto
potencialmente
inerte
impedimento dos pés
presos nos mapas
nas fronteiras
nos quartéis
o anjo não aparece
para quem não acredita
não
existe vida
além desta praia
sempre assim
para quem tem os pés
no chão:
o céu
apenas estar na cabeça
o céu está na cabeça
na cabeça o céu
é sempre estar
o céu aberto
a toda crença
o céu rompendo
limites
o inferno é o limite
do homem
os ossos
fincam a mente
no chão.
 
Liberdade
é uma desconstrução

 



 

Caça e caçador
 
 
e o pulo
se estica
quieto
nas patas
do gato
um ser
em concentração
-tensão de elástico
esperando a presa:
o salto
 
-somos todos
gatos e ratos

 



 

Espelho
 


Quando floresce a pétala
do desejo arde em mim
o membro
encontrá-la no centro
mudo e efetivo
cravo o selo
entre coxas e pelos
sugo meu próprio beijo
o riso que se abre
em mim a flor
que se revela quando vejo
o gozo
do seu prazer
me deixa duro

 
Hideraldo Montenegro

 



 

CRUZEIRO
 
O que está além deste mar?
 
Outro mar? Minha mente?
A verdade? As minhas imagens?
 
O que está além de mim mesmo?
Deus? A morte? A vida?
 
O que está além do meu corpo?
Um morto? Um porto?
 
O que está além deste oceano?
Um outro homem, numa praia,
fazendo as mesmas perguntas?

 

 

 

PIRATARIA
 
Meus olhos são aquáticos
Os pensamentos navegam
leves, soltos
Flutuam à deriva
-Tento ancorá-los-
Procuro um porto
onde possa abordá-lo

 



Perto
 
Tão longe eu moro
Que não existem portas abertas
Tão longe eu moro que nem portas existem
De tão longe a paisagem só existe
e divide o espaço
da minha distância
 
De tão longe
vivo tão perto
de mim mesmo
sem Fronteiras
 
De tão longe
não sou alcançado
pelo dano que causaria
a mim mesmo
 
De tão longe
vivo de janelas abertas
sem temor
nem mesmo do diabo
 
De tão longe
vivo encontrado
em diversos horizontes
abertos
 
De tão longe
vivo
debruçado sobre a paz
FAROL
 
Aquietar a mente
para que os olhos vejam
o que está à sua frente
e dá sinais de vida
e luz
em meio a palavras inúteis,
gestos estancados
e sorrisos presos pelos dentes
 
Guiar a mim mesmo
dentro deste corpo
para ver além dos acontecimentos
diários
e navegar livre
iluminado
para este porto
de águas tranqüilas
que eu sou
permanentemente
 

ILHA 

Naufrago em teus olhos
e não me afogo
-Todas as pessoas são paisagens
 
Penetro teu mundo
como uma gaivota
voando nos céus
-leve prisioneiro
dos infinitos limites teu

 

VIAGEM

 
Esse sangue
esse poço
essa vontade
de me erguer
verticalmente
até o topo
de minha cabeça
definem o meu tamanho
dentro de mim

 

 

MIRANTE

 
O azul horizontal
dos teus olhos
pede embarcações
que nos levem distantes
deste cerco de fatos
 
Este céu derramado a teus pés
na luz repartida nas águas
acende estrelas em teu olhar
e despertam asas
 
Esta horizontalidade
nos verticaliza
o olhar
aquém e além
deste mar
 
Esta viagem dos teus pés
fixos
conduz a mares
nunca dantes navegados
simplesmente porque mergulhamos
fundo em nós mesmos