Ivone Zuppo

Tenho pouco a dizer de mim.

Mas tudo que sei é que me considero uma mulher brasileira, sensível, mística, terapeuta  holística, que acredita, acima de tudo, no SER humano e nos sentimentos.

Não posso dizer que escrevo poesias, pois que não sei fazê-lo.

Mas posso garantir que, muitas vezes, a poesia se auto-escreve através de mim. Não como obra literária, mas como sentimento expresso em palavras.


foto R. Zerrenner

Mescla de Esperança

No meu olhar transparente,
completo  confuso
que nada vê
e tudo percebe
com a lucidez da beleza
que mescla tons...

Funde origens
numa farinha humana
que pretende a mistura
da amálgama que modela
estrutura e reconstrói...

Numa bandeira única de raças
que precipitadas
correm num abraço comum
utopia ou não...

Sonho ou fantasia
tudo poderá ser amanhã

se os seres caminharem assim...
    11 Jun 06


Mel Antunes - Entardecer em Belém

O Tejo a beijou

Aqueles braços molhados
Estendidos como amparo
Num aconchego perene
De quem vela o ser  amado
Me pareceu tão belo e eterno
Quanto a noite e o dia
Numa carícia tão macia
Que inveja os amorosos...
Ai que emoção pude sentir!!!!!!!!!!
Quantas vezes lá quis ir
Apreciar este encontro!
Águas profundas de emoção...
Fugidias e sempre presentes...
Que percorrem a pele dela
Tão erguida e sumptuosa
Como amada sempre à espera
Do abraço que o amado dá,
Assim....lânguido e permanente...
Que está sempre a seus pés...
Sua Torre-Altar do amor,
Que um dia foi sacrifício
Mas que hoje é apenas cio
Prolongado e sublimado,
Num tântrico gozo de amor!
Vale a pena lá estar...
E olhar...admirar...sentir...
O que os dois enamorados sentem...
O Tejo a abraçar a sua Torre
Num silencioso grito de ternura!


foto R. Zerrenner

Poeira da alma

Viajante de mística ventura
Descubro luzes na escuridão
Deparo-me com a encosta da montanha
que me esperava vazia e incompleta
Num longo e sereno bocejo
De um quase adormecer sozinho
 
Velejei mares sombrios
Desertos tórridos
Praias intermináveis
Até chegar neste vale
Ao sopé da  montanha
 
Aqui estou....
Pés cansados
Braços caídos
Coração ansioso
Peito aberto pro recomeçar
 
Guardo na alma
A saudade do que não fui
E na mente , imagens
 não  desenhadas
Apenas sonhadas
 
Quero fazer dormir 
a tristeza da espera
E despertar a vontade
 do agora que renasce
Pra me receber inteira
 
 Me encontro  fora do tempo
Na chegada da última quimera
Na verdade de uma longa espera
Que fez morada em todas as canções
Que fez  canção em todas as esperas
 
Canto em mim mesma
A sonata do outono
E percebo tons que nunca ouvi
Linguagens que jamais traduzi
Porque estava ausente do entardecer
 
E agora te vejo,
Montanha azul
Cercada de luzes sutis
Braços abertos amorosos
Num gesto forte de bem-querer
 
Quero abraçar-te 
Com os lábios
E beijar-te com os braços
Como fazem lua e sol
Praia e mar
 
Mas meu corpo é pequeno
Não sabe se agigantar
Senão pelo impulso da minha alma
Que se reveste da poesia total
E te enlaça na ternura imortal
 
Cheguei,minha montanha!!!!!!
Trouxe braçadas de flores do deserto
conchas dos mares descobertos
E muita harmonia guardada em versos
Só pra me deitar aos teus pés
 
E quando a noite enfim chegar
Quero morar nos seus  recônditos
Cantarolar os meus desencantos
 Pra me sentir embalada no teu colo
Ouvindo tua cantiga de ninar
 


foto R. Zerrenner

Canto pra viver

Quando um pássaro preto
pousou esta manhã
era frio também em mim...
e o seu singelo canto
a convidar amigos
fazia coro comigo
que  queria cantar em mim...
 
Era manhã e era frio
um endurecer de emoções
que pelos poros sentia
a invadir-me inteira...
e a ave canora e amiga
fazia calor  na cantiga
 me aquecendo o coração
 a me embalar quentinha...
 
Era tão solene  a atitude
que numa soberba postura
começou o seu trinar
feito uma terna sintonia 
de almas que tão amigas
sabiam juntas sentir
e eu cantei com ele
feita ave sozinha....
 
Percebi que  o meu canto
muito mais que lamento
era entrega terna e total
de quem se faz companhia
pra não se sentir só...
braços e peito abertos
num encontro tão completo
que só poderia cantar...
 
Cantámos então abraçados
com asas entrelaçadas
e bicos abertos... harmonizados
porque cantar pra viver
só o sabe mesmo fazer
quem por força ou circunstância
conhece bem a distância
entre o ter vida e o VIVER!


HOJE 



Aqui do alto deste encontro
onde céu e mar se beijam
permaneço quieta a navegar sozinha
sem pressa de ir nem de chegar...
porque nesta viagem a sós
não tenho tempo pra esperar
nem companhia a meu lado
nem alguém pra acompanhar...
 
sou sobra de mim mesma...
travessia dos meus mares
recomposta por pedaços
que por aí deixei...
estilhaços que sobraram
das guerras que venci
e medalhas que dispensei
das lutas que empreendi...
 
viajei por vezes acompanhada
de  figuras que  se diluíram...
pernoitei em luares desamparados
onde o amanhecer descerrava véus...
e sempre acabava por despertar sozinha
num sabor de vazio e  fel...
e ao me procurar entre escombros
me via sempre no espelho, incompleta!
 
hoje quero os meus olhos voltados pra mim,
avesso do que sempre fiz...
quero as estrelas me enfeitando
num céu só meu a cada noite...
pois tenho saudades de mim mesma
dos tempos em que nada esperava
 nas vigílias do meu encantamento.
 

onde ficaram restos de amores
decorei com arte reciclada...
onde quadros lembravam desamores
pendurei as minhas fotos de agora
porque me quero solta a me ver só
mas sem pensar no nada que perdi
apenas na poesia que deixei
nos versos que por aí reparti!....

08 Abril 2006



Foto de Henrique Tigo

A viagem

Passos lentos...
cadenciados na espera....
Caminhei....
olhos atentos....
perscrutando o impossível....
busquei....
mãos generosas...
estendidas no vazio....
doei...
coração terno...
inventando melodias...
cantei...
alma plena...
procurando a poesia...
compartilhei...
ombros fortes...
levantando a ironia...
carreguei...
mente sedenta...
reiventando a beleza...
me entreguei...
lucidez aguçada...

lucidez aguçada...
buscando entender....
repensei...
VIAGEM DESPERDIÇADA...parei...


Foto de Henrique Tigo

 
Fundo do mar

deslizava dentro do mar
concha entreaberta...
reencontrava as águas
de uma maré vazante
e preenchia o vazio
do mar não descoberto....
 
cada reentrância encontrada
lembrava um fato vivido
cada onda que passava
sabia do amor presenciado
que foi longo , intenso
como o tempo perdido
 
nadava entre espumas
macias e cansadas
de uma viagem longa
quase naufragada
que poderia ser verso e reverso
de uma mesma história
 
procurava entre escombros
tesouros esquecidos
guardados, quem sabe,
no fundo de uma esperança
que renascida talvez
pudesse ser  recuperada
 
bastava conhecer o fundo deste mar
reconhecer o encontro destas águas
temperadas de sol e sal
iluminadas de luar
num corpo feito nostalgia
num abraço reencantado
 
mergulhava fundo e esperava
quem sabe um raio de sol
ou talvez um cavalo marinho
que me apontasse o mapa
do tesouro naufragado
escondido do próprio mar
 
se as velas do meu barco
pudessem ser reerguidas
eu me levaria de volta
pras margens do encantamento
me daria de presente
a imunidade à desesperança
 
velejaria nas fragas dos sonhos
me deixaria queimar ao sol
como crisálida disponível
à transformação em asas
 saboreando a liberdade
de voar sem destino

Luzes 

 

Pequenas luzes
Pontas de estrelas
Portais de eternidade
São estes pontos
De sonhos 
De encontros
Que perfazem caminhos
Percorrem as veias
Saltam em versos
Descobrem miragens
Correndo entre flores
Fazendo peraltices
Enquanto ainda dormem
Realidades diversas
Quanta poeira ficou esquecida
Quanta tristeza foi dissolvida
Nos matizes tão surtis
Da vontade de voar
Luzes, grandes luzes
Me levam a estes céus!!!!!!
Quedo silente entre as palavras
Deixo aqui o verbo não dito.

Foto de Henrique Tigo

Chuva e Orvalho
 
Desponta uma luz fulgurante 
Nascida de asas abertas
Que se abriram num par de taças
Afloradas 
Orvalhadas
Descobertas
Pelo dedilhar dos deuses
Tocando a música alquímica
Que desfaz os apêgos
Que rompe os grilhões
Do cárcere do corpo
E eleva a vontade 
À condição do ouro
E sobem num sôpro
Que a pele ajuda a sentir
E só quer compartir
Como esteio
Ponte de arrimo
Combustão necessária
Pro voo acontecer
E lá se vão em éter
lantejoulas cintilantes
Luzes faiscantes
Que sabem  subir...
Ir além...ao Éden perdido
Ao princípio antes do fim
Pra refazer o sentido
Restituir a soberania
Da glória do sentir!
Voem solenes, asas do amor!!!
Chova e orvalhe todo o chão da terra!!!

Foto de Ricardo Zerrenner  

 

 

 

Passageira dos Sonhos

Passageira dos sonhos...
Viaja por entre os versos
dos poetas mais sutis
E pega carona nas melodias...
Até nas fantasias 
de quem sonha,
de quem vive
de quem ama....
É a antítese do homem,
na anatomia somente....
Porque espiritualmente...
É complemento
é moradia
Portal de entrada
janela de paisagem.
Traz realidade....
Ainda que em miragem....
Mulher... Sendo...

 

 

 

 

Foto de Ricardo Zerrenner

 


Tua Taça  

 
Guarda em ti o segredo do irrefletido...
O insaciado do indefinido....
O indescritível do que é infinito!..
Guarda bem!...
Me guarda também.

Sou teu vinho...
Serve-te dele,
Desde que eu saiba
que mataste a tua sêde!...
Pois sou tua fonte...
Não apenas tua taça que transborda !...

Semente

 

Finda a tarde,
O sonho começa...

Anoitece a poesia
O jardim floresce...

Enquanto a chuva não cai,
Me guardo em semente!

 

Fundo: Foto je - 03 SET 05

LILÁS  
 
trago comigo
sobras de silêncio
emoções guardadas
de quem não se guarda
apenas se reveste
sem se esconder
 
pulsam em mim
vibrações desfeitas
compassos desmarcados
traduções mal feitas
de quem não se mostra
nem se deixa descobrir
 
guardo em mim
vontades contidas
percepções cinzas
paisagens mortas
de quem não pôde se dar
apenas se emprestar
 
Visto então
o agasalho estelar
me perfumo com sons
me debruço na música
pra poder me sentir
Embrulhada de lilás

Chão de sonhos 

Vencido o cansaço
Me espraio no chão
Perdida entre sombras
Recolhida em reflexão
Estendo o tapete
Pros sonhos "passarem"
E retorno à visão
Do espaço sem asas
Da paisagem sem cor
Da poesia sem música.

Em companhia?
Somente os grãos
Da areia em que me espraio
A sós
neste chão de sonhos.

 

 

 

11 de agosto de 2005

Mulher-Poesia 

  

 

Quem sabe toque uma música,
A dança comece....
Quem sabe o vento 
desnude a manhã....
As nuvens dêem passagem
E a busca fique em silencio????!!!!
Quem sabe?!.....
As luzes da ribalta se apaguem
E vc, Mulher que sonha....
Vc, Mulher que ri,
dança e canta....
Pare de fingir
que acredita
E se encante,
Com seu proprio canto,
De quem foi sereia,
Medéia...
Que foi até Santa....
Que foi....
E ainda não é
MULHER!....
Poesia....

 

 

Autor do fundo - Cariua

Estrelícia!

 
Também conhecida, no Brasil, como Ave do Paraíso!

Seu bico apontando para o céu lembra seu desejo em alcançá-lo!

Suas asas majestosas são como a saudade alada do Éden.

E a poesia, parceira única deste site, vista em arte plástica ou
sentida em palavras, soa como música que nos desprende do chão.

 
Nesta VARANDA de Estrelícias... sonhar é possível... e com as mãos dos corações entrelaçadas.

Plena de MIM!
 
Fazia manhã em mim!...
Brisa suave....
Coração cantante...
Sol de aconchego!!!!!!!
Doce sabor de  vida!!!!!!
Sabor de despertar,
Redescobrir....
Repartir ternura....
De mesclar doce e amargo....
Sorver a alegria,
O contentamento,
Num só trago....
Num mesmo momento,
Sutil...completo...
Num auto-afago...
Plena de mim!...
Acompanhada.....?????? 
De mim mesma!

20-10-2004

Perfume de Sêda

Vesti meu perfume de sêda....
Vaguei por todos os jardins....
Debrucei-me sobre sonhos antigos
Passeando em todos os lilazes....
Quando a brisa da manhã me surpreendeu
Eu estada ainda sonhando....
Recolhia essencias do passado
Completava com novas cores do agora
E deixava o sol do ontem se por....
Silenciosa e calmamente.....
Como fazem os dias felizes.

Como os Deuses!... Tantricamente...

O dedilhar suave busca o contato
Como o mar busca a praia....
O olhar que penetra, desnuda,
Mas como o Sol desnuda a manhã...
Forte e silente.....quente e macio......
Sem força, sem pressa ou pressão...
Só avança porque convence as nuvens
A se abrirem, se permitirem sentir....
A suavidade desta força...
A persuasão da ternura...e...
Dão passagem ao calor...
E a música começa....
Suave...lenta...vadia...
Pois não tem rumo,
Os rumos que o amor toma....
È caminho e caminhante....
É amor e é amante....
E continua a buscar...
Dedilhar...
Musicar...
Amar....
Como  Deuses....
Como??????????
Sem pressa....
Sem fim......
A pele é o leito,
Mas a alma é a alcova!!!!!!!!
O corpo é o caminho,
Mas o coração, o caminhante....
Um buscando no outro
A face de si mesmo,
A resposta da sua emoção...
O som da sua música!!!!!
A sinfonia que só é inacabada,
Porque não termina a melodia,
Do que pulsa...atrai...implode...
Em êxtase pereno... PLENO!!!!!!!!
 
Os Deuses amam assim!...
Os Homens sonham amar!!!!!!