José Félix

 

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Encontros de Escrita

 

José Nascimento Félix, natural de Angola, nasceu em 1946, em Luanda. Licenciado em História pela F.C.S.H. da Universidade Nova de Lisboa.

É sócio da Escola do Espectador e nesse âmbito tem promovido a leitura de poetas que se encontram na Rede e publicam antologias em papel.
Promove a frequência de listas de discussão poética na Rede, tendo criado a Lista Escritas, suportada pela página literária pessoal Encontro de Escritas.

Obra literária:
Geografia da Árvore (a reinvenção da memória), Col. Poéticas de Lav(r)a, Múchia Publicações, Lda. Funchal, Outubro de 2003.
Desde 1999, colaborou em várias Antologias de Portugal e do Brasil.
Prefaciou "www.3poetasemleiria.pt", de José Gil, Don Lackewood e Constantino Alves; "Laços & Lazos", bilingue, de José Gil e Sónia Regina; "De cada poro um poema", de Antoniel Campos; "Catavento", de Everardo Torrez Getz, México, e "Esfinge Lunar", de Goulart Gomes, Brasil.
Tem imensos trabalhos publicados na Rede, em páginas literárias Digitais portuguesas e brasileiras, como a [NON], Usina de Letras, Palavreiros, Nave da Palavra, Alternância, Jornal de Poesia e Encontro de Escritas.

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"Travessia", de José Félix, apresentada no Porto por Xavier Zarco

24 Mar - Leiria - Lançamento Antologia de Escritas n.º 4 - José Félix

 





o caminho dos ossos

tenho uma casa por conveniência
onde arrumo a infância e a mobília
que vai envelhecendo no meu rosto.
há um livro sujeito ao pó da casa
na permanência da memória feita
com aquela limpeza de doméstica
paciência, na construção de gestos
enxutos pelo tempo da miragem.
se mudo a peça ou outra de lugar
não caminham os ossos devagar.

josé félix
2009.12.3







Enviados em Dez/2009





A construção da fala

deixei a casa a meio da conversa

da construção da fala.

regressa o pólen à luz do jardim

de forma irregular

quando as mãos colhem pétalas vadias

e o rosto é cada flor

Estrategicamente colocada

─ iluminura frágil

à sombra do salgueiro iluminado ─,

para os dias rapaces

da memória sombria, com os ossos

Que sustentam a casa

dizendo a voz na possibilidade

da habitação

construída pela boca dos duendes.

 

josé félix

 



 

a semente possível

tenho a luz na algibeira

e restos de um país em construção.

na areia as estrelas morrem cegas

enquanto desenho sonhos

na infância longínqua.

há sempre uma fala de búzios

possível na linha de água

com os peixes e os segredos das escamas

em conciliábulos de sombras

onde um feixe de luz sussurra

a nítida claridade.

 

josé félix

 



Enviados em Nov/2009




 

Acto de leitura nº2
 
A saliva dos lábios molha a página.
Os dedos tocam na bainha do tempo
sob o vestido transparente
onde o olhar procura
a paciência da tarde.
 
O livro desliza na suavidade do desejo.
O sono entrega o corpo aberto
à brisa que folheia sem pudor
o texto a balbuciar palavras sem medida.
 
José Félix

 



 

ventre de abril

tens abril no teu ventre
como uma flor aberta.
vertes de ti o pólen
a substância secreta

da minha liberdade.
suave, a natureza
na alegria apolínea
e uma certa ardileza

plantou-me o belo aroma
em asas de aves raras
que levam leves livres
as madrugadas claras.

no teu ventre de abril
as flores cheiram mais
a vida, a vela, a barco
coração sem arrais.

josé félix
2008.4.25

 



 

ESCRITA SIMPLES

 

Se vieres por aqui, por onde o poema

escreve o caminho da palavra comunicável

vem com a dália vermelha nos lábios

e faz do silêncio, o gesto das mãos

um oráculo da fala perceptível

na abóbada do espaço imaginário

E se quiseres fica o tempo da manhã clara

quando os dedos tocam a humidade das plantas

Verás, é uma escrita simples, esta.

 

 

josé félix in à sombra da amendoeira

2007.11.6

 

 

 

a labareda

 

a labareda escapa-se
do núcleo

fogo íntimo da loucura

que consome a incerteza

da lucidez da morte

chamas são réstias
das vestais

que alimentam no oráculo

o sangue dos inocentes

 

"in precipício"

 

 

talvez tirésias na sua ampla sabedoria

soubesse da beleza que se esconde

na flora olímpica à guarda dos deuses,

cujo único entretenimento

é a corrupção mútua com a criação

de triângulos amorosos

na vingança terrena e efémera.

a maldição da claridade mais brilhante

que mil sóis e lhe cegou os olhos

deixou-lhe a clarividência para ver

a beleza que viaja no tempo,

a iluminação pura do êxtase admirado.

só a morte leva a luz retida no olhar

pousado num ombro alvo descoberto.

cego, tirésias, retém  o sol

enquanto os deuses congeminam novos planos.

 

2007.7.16

 



 

A casa 

 

a casa é a sagração dos ossos
a permanência estável da linguagem
que cega a claridade corrompida.

templo núbil da ramificação
da fala construída sob o tecto
e no desenho da mobília velha

nos muros de recorte fotográfico;
o casamento feito da loucura
a escrita suportável da presença
que a imaginação nos cede atávica.

é nesta ligação calcária e branca
que a casa tem a morte por cedência
independentemente de outros passos
ou de outros ossos que nela habitaram.

2007.6.18




 

 

Van Gogh talvez soubesse quanta luz
ensombra a agonia do silêncio
quando, inadvertidamente, viu
um campo extensivo de girassóis.
à tarde, no crepúsculo do absinto
uma após outra colhe o viço solar
colocando no vaso apodrecido
a luminosidade de cada flor
dando-lhes tempo para se curvarem
perante a dor que da melancolia
absorve as pinceladas de loucura;
é solidão que ali se multiplica
em cada pétala, em cada corola.
um gesto agónico conduz a sombra
aquém da mão que desenha mil sóis.
 

2007.5.19

 



 

 

 

 

O teu Oráculo

 

inclinas sobre as perguntas

a voracidade do tempo.

o teu olhar é o enredo de penélope

que sublinha sob as ondas

na guia do olhar garço de atena

o caminho de ulisses.

deixa falar tirésias e os deuses

e segue o teu oráculo

preso nos lábios.

 

 

"[...]o que resta de verde
é uma luta em que este vencerá um dia[...]"

Carlos Peres Feio

Não há cor que limite ou incite a dor
que viaja na nesga da memória;
talvez porque o desejo que se vê seja
uma falácia uma carícia que engana
o sentido arbitrário consentido
como um falsário de promessas. e tu
que arremessas a cor predestinada
noutra voz enganosa de receio
no anseio dessa cor maldita vertes
a cor de sangue nesse bangue-bangue
que desfralda em mil gritos a grinalda
do eterno aflito que vai para o averno.
verde que não me reste verde que me arda
como o dia que não conhece a alegria.


2007.01.03

 

 

Virgem

"no sabor

do caule virgem planto"

José Félix

a breve lua que nos separa, onde a folha

o corpo desfolha no fresco sabor que arde

contra o muro, a mesa onde a chama

rebola a breve lua contra o mar, na onda

minhas palavras, o que nos separa entre

a letra que roda na lingua, no mamilo

corpo erguido contra a loba ao vento,

limpa na laje, voa e sente,a palha e o

grito, geme onde breves portas pelo ar

abrem a luz na mesa de vidro como

névoa muito branca na janela da mesa

outra porta sem limites, ampla e longa

como as tuas ancas e o teu cabelo

sobre a neve, a rosa verde e brilhante

onde sorrio e vejo as pombas rés

ao sol e a manhã que nasce

traz cerejas para o leite no leito

das minhas palavras nulas

quase brancas

haibun




Sol e Turismo rural - Porto Santo - Madeira   -  Foto de Henrique Tigo
 
 
regresso a casa. o musgo das paredes
ainda tem as mãos que à sombra da árvore
colocaram pedra sobre pedra enquanto
da ramada caíam frutos doces
e enchiam a lancheira já vazia
do ágape solitário do meio-dia.
 
sob o alpendre, o gato
enrosca-se num novelo -
espera a visita

e como tu, a memória tem desenhos
de cada seixo que mudava de lugar
no azul das brincadeiras e os procurávamos
nos nossos rostos reflectidos no riacho
e, já cansados, do trabalho doloroso,
no suor da tarde, bebíamos as faces
de cada um com água e pedras nas mãos.
 
brisa de outono -
na corrente do riacho 
vão as folhas secas
 
 
envelhece a casa. rejuvenesce o sorriso
e sobre as telhas verdes nasce uma figueira
que se debruça sobre o varandim 
de tábuas carcomidas pelo tempo
e pelo peso da admiração das tardes
quando o sol, rebelde, acompanhava
o olhar sobre a montanha iluminada.
 
a casa vazia -
rastejam as lagartixas
no silêncio da noite
 
 
são os meus passos. os meus passos quando
dos pássaros as asas recolhiam,
pousavam sobre os ombros, lúdicos,
visitava a mobília em esconde-
esconde, numa ligação perfeita
com a família em observação.
 
as teias de aranha
cobrem um retrato velho -
cai água da goteira
 
tenho memória e nas coisas simples
o gesto de cada um é sobre as pedras
um sinal vivo da água do riacho
que não é o mesmo, e, ainda assim,
vejo o rosto cansado do meu pai
a olhar o meu na água limpa e breve
que corre para as plantas com a mesma sede.
 
 
2006.02.12

arte de navegar
 
a âncora é o braço que detenho,
o longe que prolonga a permanência
dos frutos e do aroma que retenho
e trago no navio dura ausência.

perfumo cada porto deste mar
com maresias de outros vendavais
refaço na lembrança a navegar,
rumando noutros rumos novos cais.

entrego os meus navios à bonança
aos ventos do porvir, a muitas cartas,
aguardo os traços de outra temperança

p'ra que o futuro traga novas datas;
arrais perdido neste mar de usança,
na gávea não diviso terras fartas

 

 

caminho nos silêncios da casa
e na perseguição da luz
o olhar acende o pó da mobília.

recebo as vozes coladas
das paredes que guardam os gestos
nas fissuras das mãos.
 
a cinza, acesa, liberta a poalha
na janela. um sopro, velho, e a água
brinca no parapeito da infância.
 
in "a casa submersa"

Auto de navegação
 
Vejo o teu rosto na sombra
das arestas matinais
e por muito que a luz cegue
permanecem os sinais
 
das viagens marinheiras,
as conquistas marginais
dos caminhos de alba clara
de uma sede que jamais
 
prendeu âncoras na aguada
das ilhas condicionais.
O velame, de pano cru,
enfunado, e sem arrais,
 
abraça o vento sulão
sobre a espuma dos corais.
Já, na sombra do teu rosto
as tempestades reais.
 
Na tua voz há o timbre
das ondas intencionais:
o leme que guia firme
nas cartas habituais.
 
O lume que queima, acende,
e fere como os metais,
abriga no tempo a cinza
dos amantes imortais.

      o ritmo do futuro

        in "o outro lado da fala"

       
      sempre que te doer o coração
      não procures o médico.
      retém o cheiro de uma rosa branca
      nos dedos de água.

      toda a moldura
      da infância vem na combustão do gesto
      que tira da palavra adolescente
      o ritmo do futuro.

Sem resposta

Purifico nas tuas mãos o rosto
e compreendo o alcance dos teus lábios
neste silêncio depois dos petardos.

Lá fora a humanidade se desmembra
cativa de ódio e vingança, e de Deus
que se reparte na trindade póstuma

como num jogo de xadrez em que
não é possível qualquer xeque-mate
no meio de peões e bispos cegos.

À sombra das paredes cresce o musgo
e no silêncio são dos intervalos
já não perguntamos nem respondemos.

ilustração de Henrique Tigo
 
 
vela latina

para o joaquim evónio

a iluminação no rosto
tem ainda o mês de agosto
e o espelho de outro mar

a fala é a geografia
o vento que pronuncia
o ofício de marear

o teu corpo é um cais
onde eu me sinto arrais
na arte de navegar.

Prenda de fim-de-semana para o Joaquim Evónio


   Furnas - S. Miguel, Açores  *  Foto Martos Ribeiro

no caminho quase
se perdia a frase.
 
o espelho da água
como dócil égua
 
conduzia ligeiro
um tal marinheiro
 
de regresso a casa
de uma vida vaza.
 
de repente a luz
ilumina a cruz
 
na sombra das árvores.
por momentos breves
 
depois da distância
regressa à infância
 
dos frutos caídos;
risos proibidos
 
espreitar de dama
desejar a fama
 
guerrear o estrangeiro
ser sempre o primeiro
 
a tirar o espólio
ter o monopólio
 
do ouro e prata,tudo
num constante entrudo.
 
uma casa branca
agradável, franca,
 
aquece o regresso
e como um possesso
 
um nome e outro nome
não têm renome
 
nem um eco vem
nem um eco tem
 
nem um rosto claro
para ter o amparo
 
de boa acolhida.
só resta a ferida
 
duma tanta ausência -
nem mesmo a ciência
 
lha pode curar.
ir, ir para o mar
 
que cura a tristeza
de tanta vagueza.
 
chorará na gávea
pra que o tempo a légua
 
leve a dor na proa.
tudo se esboroa:
 
a casa a família
a conversa, a homília
 
só resta a memória
que tem moratória
 
e, mais, ainda, a sorte
até vir a morte
 
e dê em calcário
o último cenário.

 2005.09.02

 

o grito cai na ravina
- asa perdida de pássaro -
a fala suspende o corpo
deixando cair os ossos
misturando-se na cal
porosa, branca da infância.

 

raiz. raízes

 
a casa não existe. levou-a a pólvora fratricida para o solo das conveniências.

o índio de borges retirou o canivete de cabo de chifre do sino enegrecido pelo tempo, reconhecendo a casa da infância, e talvez o pai e a mãe, regressando depois ao deserto.

há algumas casas, ainda, nas aldeias, vilas e cidades semi-destruídas. o que são as casas sem gente dentro que as povoe? a casa só existe como habitação do costume da gente que vive dentro dela com um passado, um presente e um futuro.
a casa é um espaço vazio. é a desconstrução da permanência. esta casa não tem um canivete, uma fisga, um arco e uma flecha. um sino enegrecido pelo tempo.
só a escrita constrói o sorriso da minha mãe abotoando as alças dos calções antes de ir para a escola. 
há um quintal de aduelas onde os pássaros descansam de manhã.
dói criar a memória.

perpetuum
 
 
sereno e lábil o teu corpo cede
à fragilidade do sol.
os dedos tocam leve a flor da água
brincando com a sombra
no espelho do crepúsculo.
uma brisa penteia os teus cabelos
levando o cheiro solto
para a raiz das pedras.

milhafres
 
rapaces, os milhafres roubam-me
os olhos no delírio do sonho.
levam-nos para os montes impossíveis
onde os deuses, em brincadeiras de água,
espetam estiletes de desejo
na loucura do naufrágio.
 
é simples a memória da substância
e quimera, no banho imaginário
dança na pantomina doutro tempo
com as asas presas na lava do vulcão.
 
o magma preso numa simples brisa.

A água do Ribeiro

(em homenagem ao meu amigo Aníbal Beça)
 
Um kazen Renga tradicional
 
Início: 10-06-2005
Fim   : 14-06-2005
 
Escrito por: José Félix
 
1.
Estalam as pinhas -
há foguetes, romaria
à entrada da aldeia.
 
já saltam os gafanhotos
no meio do capinzal.
 
2.
Um grande alvoroço
entre a folhagem dos plátanos -
o dia escurece.
 
os pirilampos voejam
à volta da romãzeira.
 
3.
Noite enluarada -
uma sombra de pardais
voa com as folhas secas.
 
na casca grossa da árvore
ainda resiste a cigarra.
 
4.
A flor amarela
é do chá de São Roberto -
o estômago flato.
 
sobre a mesa de pinheiro
há duas rosas vermelhas.
 
5.
Gota a gota cai
das mãos para as outras mãos
a água do ribeiro.
 
um casal de corvos de água
brinca na erva salpicada.
 
6.
Páginas rasgadas -
alguns encontros da vida
fogem para sempre.
 
vai coleccionando selos
dos mais diversos lugares.
 
7.
À luz do luar
brilham os pinheiros mansos 
no tapete branco.
 
já há fiapos de neve
que escorrem pela cabeça.
 
8.
O velho cajado
 caminhou muitos caminhos -
um pau de nogueira
 
a nuvem de folhas secas
assusta o cão rafeiro.
 
9.
Muitos girassóis
já começaram a abrir -
piam os abibes.
 
as andorinhas do sul
têm os primeiros ninhos.
 
10.
Brilham as giestas
enfeitadas com mil sóis -
fogo de artifício.
 
uma hera no jardim
seca por falta de água.
 
11.
Do buraco estreito
saem as formigas pretas -
acabou o velório.
 
à porta da velha igreja
o tilintar das moedas.
 
12.
A rã de bashô
não salta para o ribeiro 
de água marulhante
 
na margem vários meninos
põem os pés na corrente.
 
13.
Um ramo de abetos -
quando a distância é longa
e vaza a planície.
 
as cerejas na ramada
brincam nas tuas orelhas.
 
14.
Com o espanador
os lábios cor-de-cereja
ficam mais carnudos.
 
a fotografia velha
regressa à adolescência.
 
15.
A lua de prata
pousa sobre as folhas secas 
do cardo bravio.
 
meio século de vida
já são muitas estações.
 
16.
Searas vazias
com as alfaias agrícolas -
cheira a pão saloio.
 
os montes silenciosos
só albergam os pardais.
 
17.
Há uma desgarrada -
duas mulheres discutem
o peixe na lota.
 
as amendoeiras perdem
as flores de neve rosa
 
18.
A pirotecnia -
todas as ameixoeiras
já estão em flor.
 
as jovens adolescentes
descobrem os ombros alvos.

 Nota: O Renga é uma forma poética japonesa que tem centenas de anos de exercício, no Japão. Evoluiu para o tanka que é composto de um poema de 2 versos de 17 sílabas (5-7-5) e um dístico(7-7).

Normalmente é feito por duas pessoas que fazem uma ligação poética segundo as regras de Jane Reichhold .

Convém ler alguma coisa sobre este assunto para poder e saber analisar o Kazen de Verão que eu acabei de escrever. É de notar que qualquer tipo de sentimento está sublimado em algumas frases ou palavras. Em alguns haikus percebe-se que fala da Primavera, outros do Verão, outros de Inverno, e outros ainda de Outono. As estações do ano e a Lua estão lá segundo o programa de Jane Reichhold. Se fossem dois interlocutores seriam mais de 18 partes em virtude disso mesmo. Como fui eu próprio que assumi o "eu" e o "outro" optei por classificar segundo o tanka.

A soberania do nada

Apenas o sonho trespassa
na luz da madrugada interrompida.
É a flâmula, a chama, a guia da cinza redentora
sem religião, e só amar uma pedra
pela fala superior com que se comunica
no trabalho das arestas.
 
A alquimia da obra num Maio global
dá o orvalho, a nobreza do metal,
o desejo de um reflexo no espelho dos deuses,
e um raio nos olhos de um cavalo
sobre as montanhas submersas,
sob aquilo que chamamos água
ou lava ou saliva ou lágrima,
e no estrondo da noite, a dor ser um deus
imperceptível, morder o corpo como
a lâmina de uma navalha
sem a interrupção conjuntiva da gramática
que oprime a frase, o lábio, contrai as faces.
Num período de impropérios
resgatar a alma
ou uma fotografia de bruma.
 
É o carvão incandescente que mantém
a lucidez antes da morte. É o carvão
incandescente que treme nos lábios
quando se pronuncia o nome das coisas.
É o carvão incandescente que diz, morreste,
morreste-me, quando ainda volita a cinza
no primeiro vento.
 
É isto que é a separação da vida e da morte.
É tudo isto que é a união da vida com a morte,
a celebração contínua da existência
que dança na copa iluminada da fala,
na sombra e no equilíbrio das cores,
porque a morte é a mais longa morte, mais longa
que o sossego de um pássaro. é o infinito mais
infinito que a definição matemática,
o sorriso, o grito, a admiração, e mais do que isto,
a soberania do nada.
 

11.12.2004

um halo de sol

bebi um halo de sol
e o meu corpo
iluminou
o teu rosto colhido numa sombra.

a água em cantarinhas
é um tecido de renda
que sobra dos teus braços.

há tardes de turner
que libertam a escrita
exilada na luz branca das paredes.

A idade da Felicidade


"Plantas da Felicidade"
em envolvência numa árvore
Jardim da Prima Odete-Funchal-Madeira
 

talvez seja a felicidade
branca no apego dos troncos
grávida na iluminação dos jardins.
 
talvez seja a terna idade
franca no achego dos braços
na paciência que se renova assim.
 
um parto contínuo que há de
fertilizar a semente
de um olhar que se prolonga sem fim.
 
Setembro 2004

flor da paixão




beijo-te flor obscena.
no abraço dos relâmpagos
cai a chuva de pétalas
no corpo do jardim.
é com o sol nos dedos
que brinco na corola
nua de pólen frágil
e no incêndio das flores
na cegueira da luz
uma brisa solar
leva a cinza volida
no fogo brando claro.

Set 2004

 Pluméria cor-de-rosa

 

Jardim da Prima Odete
Funchal -  Madeira

por entre as árvores
o cristal do teu corpo
desenha folhas e flores
no descanso das ramadas.
 
pluméria na rosa da tarde
aroma os cílios
que fertilizam os beijos
na beira do regato.
 
e o sol branqueia os gestos.
 
Set 2004

o tempo

há ventos que rasgam a pele dos dias
e cavam e lavram as manhãs descobertas
no sabor das madrugadas.
as flores sorriem pudicas