Luís Dantas

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luisdantas1113@yahoo.com.br

Nasceu a 3 de Agosto de 1946, em Ponte de Lima. Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa. Professor no ensino oficial. Tem colaboração dispersa - poesia e prosa (incluindo trabalhos históricos) -, em jornais e revistas e é autor de duas obras de poesia ( Pedras Verdes, Edição de Autor, Ponte de Lima (1970) e Bolero, Edição de Autor, Lisboa (1974) , seis de história( Ponte de Lima na Revolução de 1383, Ceres Editora, Ponte de Lima, A Água nas Primeiras Civilizações, Edições Ceres, Lisboa, 1999, O Vinho nas Primeiras Civilizações, Edições Ceres, Lisboa, 1999, Viagens e Descobertas, Atlântida, Lisboa, 1999, A Revolta da Maria da Fonte, Edições Ceres, Lisboa, 2000, Os Garranos da Península Ibérica, Edições Ceres, Lisboa, 2002) e um ensaio (Bocage No Seu Tempo, Edições Ceres, Lisboa, 2001).

Colaborou em diversas Obras Colectivas e prefaciou livros de A. M. Couto Viana, João Marcos, José Ernesto Costa, Joaquim Evónio e Armando Taborda.

 




A GERAÇÃO COIMBRA DE 62

A ESCOLA DE COIMBRA


Na historiografia literária, a Escola de Coim­bra surgiu numa época de ruptura com o ultra-romantismo de António Feliciano de Castilho (1800-1875), de aversão à crítica bajuladora e ao velho sábio português, que «é pequenino, corcunda, usa óculos, e descreve com o nariz o arco de uma elipse.»
O impulso original ocorreu em torno dos jor­nais O Instituto (1853-1981); Académico (1860), Phosphoro (1860-1861) e o Tirateimas (1861-1862,) com os escritos de Alberto Sampaio, Alberto Teles de Utra-Machado, Alexandre Braga, Antero de Quental, An­tónio Azevedo Castelo-Branco, António Bernardino Cerqueira Lobo, António Lopes dos Santos Valente, Eduardo José Coelho, Elmano da Cunha, Eugênio Arnaldo de Barros Ribeiro, Francisco Fernandes de Guimarães Fonseca, Germano Vieira de Meireles, J. de Pina Abranches, João de Deus, José Cardoso Vieira de Castro, José Leite Monteiro, José Maria da Cunha Seixas, José Simões Dias, M. J. C. Pinheiro, Manuel António de Almeida, Manuel S. Alegre, Rai­mundo Capela, Rodrigo Veloso, Severino de Sousa Azevedo, Teófilo Braga.
Alexandre da Conceição e Manuel Duarte não tinham ainda revelado a sua produção poética, nem Eça de Queirós a sua prosa. O autor de «Os Maias» tinha outras paixões: «decidi aproveitar os meus anos moços para me relacionar com o mundo. Comecei por me fazer actor do Teatro Académico. Era pai no­bre. E, durante três anos, como pai nobre, ora gra­ve, opulento, de suíças grisalhas, ora aldeão trémulo, apoiado ao meu cajado, eu representei entre as pal­mas ardentes dos Académicos, toda a sorte de papéis de comédias, de dramas (...).
O teatro, pouco a pouco, pusera-me em con­tacto com a literatura.»
É ali, na roda das gazetas, no frémito das pa­lavras, que desponta uma nova geração de poetas, historiadores, folhetinistas, críticos literários e jorna­listas. Nesse período, publicaram-se cinco obras que tiveram repercussão na cultura portuguesa: a Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras (l 864) de Teófilo Bra­ga, Cantos na Solidão (1864), de Manuel Ferreira Porte­la, com introdução de Antero de Quental e posfácio de A.A. Castelo Branco, o Poema da Mocidade (1865), de Pinheiro Chagas (1842-1895), com posfácio de Castilho, Carta ao editor António Maria Pereira e as Odes Modernas (1865) de Antero.
Não existem cronologias puras, nem marcos iniciais fixos, mas, no preâmbulo ao Cantos na Solidão e no posfácio de Odes Modernas, Antero proclama um movimento independente de ideias filosóficas e lite­rárias, de renovação poética, da arte com um propósito social: «a Poesia Moderna é a voz da Revolução — porque a Revolução é o nome que o sacerdote da história, o tempo, deixou cair sobre a fronte fatídica do nosso século. Como do seu Deus dizia o apóstolo antigo, in eo vivimus et sumus, podemos nós com mais razão ainda afirmar do grande espírito de revolta da nossa idade - nele e por ele é que somos, por ele e nele é que vivemos. O ar que a nossa sociedade respira, a atmosfera turva e agitada, mas vivificante, em que vai penetrando dia a dia, não é já composta, não, de boas e pacíficas crenças velhas, de resigna­ção, de obediência, de fé sublime... e cega. Outro é o ar! abrem-se os olhos para ler as contradições dos santos, dos venerandos, dos excelentes livros antigos. Estendem-se as mãos para palpar, sob os vestidos de brocado dos bons ídolos de outrora, o pão de que eram feitos... e o ferro também muitas vezes.
(...)
A poesia que quiser corresponder ao sentir mais fundo do seu tempo, hoje, tem forçosamente de ser uma poesia revolucionária. Que importa que a palavra não pareça poética às vestais literárias da arte pela arte?»
Foram aquelas obras que, ao fim e ao cabo, es­timularam a ebulição intelectual da época: as polémi­cas entre as escolas literárias de Coimbra e Lisboa.
Veio Castilho, e deu a sua penada: «hoje estou como pasmado no meio do que por aí vai com este temporal desfeito de obras, de encómios, de sátiras, de plásticas, de estéticas, de filosofias e de transcendências.
(...) a poesia, anda marasmada, com fastio de morte à verdade e à simplicidade, com o olhar des­vairado e visionário, com os passos incertos, com as cores da saúde trocadas em carmins postiços; os tra­jes singelos e próprios, com roupagens pintalgadas de doida; e a voz tão frouxa por mais que forceje em na engrossar, que nem acorda ecos pelas almas, nem se levanta aos entendimentos, nem penetra nos cora­ções, nem deixa às memórias algum vestígio.»


A QUESTÃO COIMBRÃ


Numa carta a Castilho, intitulada Bom Senso e Bom Gosto, que deu origem à célebre Questão Coim­brã, Antero responde: «O que se ataca na escola de Coimbra (talvez mesmo v. ex.a o ignore, porque há malévolos inocentes e inconscientes), o que se ataca não é uma opinião literária menos provada, uma concepção poética mais atrevida, um estilo ou uma ideia. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se à independência irreverente de escritores, que enten­dem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciência.»
A controvérsia continuou através de sarcas­mos, artigos nas gazetas, folhetins, cartas, poemetos e opúsculos. Num devaneio de fúria, botaram palavra os polemistas A. do C,A.A. Teixeira de Vasconcelos, A. Ferreira de Freitas, A. M. da Cunha Belém, Al­berto Osório de Vasconcelos, Álvaro de Carvalhal, Amaro Mendes Gaveta, Antero de Quental, Arqui-Zero, Augusto Malheiro Dias, Brito Aranha, Cami­lo Castelo Branco, Carlos Borges, Diogo Bernardes, Eduardo Augusto Salgado, Eduardo Augusto Vidal, Elmano da Cunha, Eremita do Chiado, G.F..., J. E. Romeu Soares Júnior, José Feliciano de Castilho, Júlio de Castilho, Luciano Cordeiro, M..., Manuel Roussado, Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão, Rui de Porto-Carrero, S. d'A., Sacristão de uma Ermida, Sombra de Cícero, Teófilo Braga, Um Lisboeta Con­vertido, Urbano Loureiro.
Foi no meio deste ambiente buliçoso que a ge­ração coimbrã de 62 disse adeus às várzeas do Mon­dego. Antero, o seu líder cultural, Eça de Queirós, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga desceram à capital, encontraram‑se com Germano Vieira de Meireles, Santos Valente, Jaime Batalha Reis, Augusto Soromenho, José Fontana, Guilherme de Azevedo, Adolfo Coelho, Oliveira Martins, Augusto Fuschini, Salo­mão Sáraga, e estiveram ligados ao ideário da Geração de 70, que se insere num outro tempo e espaço. É a partir de 1868, em Lisboa, no Bairro Alto, que eles se reúnem.

 

 

Enviados em Nov/2009

 




Prefácio

Quando Miguel Torga escreveu no prefácio dos seus Contos da Montanha "Portugal preci­sa urgentemente de ser repovoado", não estava a referir-se a políticas de favorecimento da natalidade; o próprio autor esclarece que os novos tempos criavam homens de "almas amar­fanhadas" pelo que a urgência seria de reencontrar Homens com Alma.
Estes Homens com Alma a que Torga se refere são homens que se relacionam francamente com o seu tempo e com a sua terra. Homens que se movem na vida de acordo com saberes e vontades que vêm das profundezas do tempo. Homens que são verdadeiros guardiães de valores que lhes chegam intactos, como se dum morgadio – inalienável, indivisível e trans­missível à geração que se segue – se tratasse.
Mas hoje o ritmo civilizacional aumenta, os tempos mudam muito rapidamente e muitos dos comportamentos ancestrais depressa ficam desadaptados. E aqueles que os mantêm vão, pouco a pouco, afastando-se da normalidade e tornando-se excêntricos.
Estas personagens transformam-se em verdadeiros embaixadores, vestígios do passado, resistentes ao "amarfanhar das almas" que o nosso tempo provoca.
O que torna este livro verdadeiramente especial é a capacidade de encontrar estas pessoas, no meio da multidão anónima (cada vez mais globalizada e idêntica) e de perceber que os seus comportamentos, apontados como ridículos e considerados paródicos, representam um tempo e um modo de vida que desaparece.
O autor olha-as com atenção e respeito. É um olhar para a sua Alma.
Confesso que à medida que ia lendo estas histórias me vinha à cabeça um poema de Carlos Tê que Rui Veloso cantou:
Agita-se a solidão cá no fundo fica-se sentado à soleira A ouvir os ruídos do mundo e a entendê-los à nossa maneira.
Carregar a superstição de ser pequeno, ser ninguém e não quebrar a tradição que dos nossos avós já vem.
Luís Dantas fala-nos destas vidas e coloca-as num tempo que não se mede por datas, mas sim por acontecimentos: o tempo em que "um viva à Música Nova era um viva aos históricos-progressistas", ou "em que as raparigas iam buscar água à fonte", ou em que as sardinhas se vendiam "numa carroça puxada por uma pileca escanzelada, de alquité em alquité: aqui o tempo tem um ritmo próprio que não é necessariamente o mesmo dos calendários e dos relógios.
Para nos levar nesta viagem no tempo, Luís Dantas usa um tom coloquial temperado por umdomínio do vocabulário popular que lhe permite usar as palavras sem pretensiosismo, apenas porque seriam os termos utilizados naquelas situações: "Soltar a taramela'; "marralhar um par de frangos; "bondava achar um palmo de cara"; "bródios e fanfarras"; "a trabuzana da vida"; "resmoniar da sorte"; "virar de cangalhas" e tantos outros (escrevo estes termos no computador e sorrio ao ver que a correcção automática os denuncia a todos como erros...)
E que agradável é ler um livro como se estivessem a conversar connosco.
Recentemente o Município de Ponte de Lima editou, no âmbito do Projecto Ponte de Lima Terra Rica de Humanidade o livro Figuras Limianas.
Este livro completa essa obra, com estas figuras populares, para muitos anónimas, mas cheias de Alma e dessa humanidade que agora se celebra.


João Alpuim Botelho

 

 

Enviados em Out/2009



 

AS MULHERES AVENTUREIRAS

DE

ROSÁRIO SÁ COUTINHO

 Mulheres


As Mulheres Aventureiras de Rosário Sá Coutinho movem-se no deambular do tempo (desde o século XVI até ao século XIX) e em diferentes espaços (Lisboa, Portugal; Arzila, Agadir, Ceuta e Mazagão, em Marrocos, na África do Norte; Goa, na costa ocidental da Índia; Moçambique, na África Oriental e Aramaré, Baía, no Brasil). No contexto da conquista e da colonização portuguesa, a vida destas heroínas reaparece na história com a claridade reinventada por um processo criador em permanente alegria, tal é o modo de ler, de olhar o passado, de seguir as personagens em todos os momentos, na alegria e na tristeza, no amor e na raiva, na paz e na guerra. Lá está D. Isabel Henriques, condessa do Redondo, com outras mulheres, a defender a fortaleza: «carregava cestos cheios de pedras para o muro, para entulhar as portas por onde os mouros tentavam entrar; recolhia as setas lançadas pelo inimigo para o interior da praça, que consertava para poderem ser reutilizadas; derretia chumbo para os pelouros que os nossos arremetiam contra o infiel, cozinhava e distribuía os alimentos aos soldados que combatiam nas ameias horas a fio.» (1) Noutras ocasiões, em que tudo era feito para resgatar prisioneiros, o emissário que vai à tenda do Rei de Fez leva não só o apelo feminino, mas «duas cargas de cousas d’açuquere, e asi de conservas como de bolinhos.» (2) E, como saísse das páginas de um romance belíssimo, repleto de tensões, desfila diante dos nossos olhos, D. Mécia de Monroy, filha de capitão, cativa cristã, acorrentada diante do xerife, a inspirar uma grande paixão ao mouro… Vem depois, D. Maria de Eça, a capitanear a Praça de Ceuta, na ausência do marido, num período conturbado. De um outro mundo, não de um conto de fadas de Charles Perrault, mas da zona pobre dos pescadores da ria de Aveiro, surge uma das figuras mais fascinantes desta obra, uma mulher de grande valor e coragem esquecida pela literatura ou pintura romântica: Antónia Rodrigues. A Antónia foi enviada para «casa da irmã mais velha em Lisboa» (3), e não teve vida fácil. Como de costume, a «pequena fora arrancada da cama aos primeiros raios de sol, posta a esfregar o chão e mandada, a gritos, ir buscar água à fonte. Acarretara o pesado balde encosta acima, apenas para ouvir mais gritos quando o apresentou meio cheio. Escorregara pelo caminho, entornara um pouco e esfolara os joelhos. Mas ninguém se compadeceu. Que voltasse atrás para o encher de novo.» 4 Um dia, farta de maus tratos, «foi, pé ante pé, buscar a caixa de latão que guardava escondida debaixo de uma tábua solta do soalho» (5), fez a trouxa, cavou de casa, afastou-se para a parte baixa da cidade e «foi à rua onde vendem vestidos feitos, e desse pequeno pecúlio que tinha comprou um vestido conforme ao trajo dos moços que servem no mar em navios merchantes» - um par de calças roçadas, uma camisa e um barrete.» (6) Disfarçada de grumete, inicia a sua proeza a bordo de uma nau a caminho de Mazagão. Em lá chegando, vira soldado, cavaleiro valente.
O leitor vai descobrir ainda D. Juliana Dias da Costa a viver longos anos na Índia, na corte mongol; D. Leonor Tomásia, Marquesa de Távora, no Vice-reino em Goa; D. Francisca Chiponda, senhora abastada, poderosa, em tratos comerciais nas terras de Moçambique e a letrada D. Maria Bárbara Garcês Pinto de Madureira à frente do engenho de Aramé, na Baía, Brasil.
Rosário Sá Coutinho identificou-se com essas protagonistas e transpôs com paixão para a palavra límpida, vibrante, emotiva e apaixonada, os seus perfis, mentalidades, atitudes, falas, gemidos, vestuários, composturas do cabelo, ambientes exóticos, troadas de guerra. E As Mulheres Aventureiras, aí estão: evadiram-se dos quadros opacos de várias épocas para povoar agora as páginas da história nova com toda a força criadora de outra mulher, a Rosário, que revela aqui o seu talento como autora de uma grande obra literária ou histórica.


NOTAS
(1), Rosário Sá Coutinho, Mulheres Aventureiras, a esfera dos livros, Lisboa, 2009, pg.26
(2) Idem, idem, pg. 34
(3) Idem, idem, pg. 76
(4) Idem, idem, pg. 76
(5) Idem, idem, pg. 78
(6) Idem, idem, pg. 78




 

CAPITULO PRIMEIRO

DANÇAS E ACROBACIAS NA PRÉ-HISTÓRIA

Os primeiros registos da arte encontram-se nas pinturas e gravuras feitas ao ar livre, nos objectos móveis, nas esculturas, nas paredes e nos tectos das cavernas. Ao longo da pré-história, os nossos antepassados deixaram a marca das suas mãos e a ideia criadora na representação de animais, formas abstractas ou geométricas, figuras masculinas e femininas nas lides quotidianas e nos ritos troglodíticos.
Numa inscultura rupestre do período Paleolítico, na gruta de Addaura, Monte Pelegrino (Palermo), na Sicília, descobre-se um grupo de dançarinos e contorcionistas. Os entalhes mostram claramente a destreza corporal de mulheres e de caçadores feiticeiros num ritmo mágico-religioso. Já não se trata aqui de uma aproximação aos espíritos, mas de uma alegoria, de uma diegese de divindades que estão presentes na vida dos homens, nos mistérios da fecundidade, nos desenlaces da caça, nos rios, no vento e nas outras forças da natureza.
Estas cenas repetem-se noutras regiões do mundo: África, América e Ásia. São sempre momentos de invocação divina no louvor ou na súplica, na tristeza ou na alegria, como a dos homens da aldeia neolítica de Catai Hüyük. Mas deixam um sulco de luz sobre as primeiras artes circenses: a disposição em círculo, as máscaras, as cabriolas, a pantomima, á momice e o ritmo marcado pela palma das mãos.

CAPÍTULO SEGUNDO

RITOS, JOGOS E TEATRO NA GRÉCIA

A dança é um costume de todos os povos. Continua como cerimónia, mas também se transforma em diversão nas épocas festivas. E aí tudo muda, na busca da perfeição e da harmonia, com a introdução da lira, da cítara, da harpa, do clarinete, da flauta, dos címbalos, dos pandeiros, dos tambores, das castanholas, das inovações coreográficas e de um vestuário deslumbrante.
No mundo Egeu, a partir de 2.000 a.C., assiste-se às grandes obras de arte: escultura, cerâmica, construção de palácios e pintura mural. No fresco do toureiro, «o que vemos não é uma corrida de touros, mas um jogo ritual em que o atleta dá um «salto mortal» por ama da fera» l, do animal divino: o touro. A iconografia deixa-nos ainda as encantadoras de serpentes e as domadoras de animais selvagens. Estamos já a assistir a espectáculos de circo que se realizam «em vastos pátios rodeados de bancos em anfiteatro, onde se podia sentar um público numeroso.» 2 As comunidades das cidades gregas foram readaptando progressivamente todas estas tradições minóicas, mas criaram em pouco tempo a sua própria cultura em redor dos deuses, dos heróis, dos mitos, da sabedoria, da ciência, da literatura, das belas-artes, das procissões, das preces, dos coros, dos jogos e da comédia. E deixamos estas cidades, sem perder de vista dois quadros frequentes da praça pública – os músicos e os histriões ambulantes nas suas representações burlescas: danças, chalaças, piruetas, truanias e jogos malabares.

(in “O CIRCO EM PONTE DE LIMA”, Catarina Dantas e Luís Dantas, Ed. oo Autor, 2009)

 



 

II.2.A DESCOBERTA DOS ARQUIPÉLAGOS ATLÂNTICOS

II.2.1. A Ilha da Madeira

O arquipélago da Madeira aparece representado em cartas e planisférios anteriores aos descobrimentos. Chegou mesmo a ser reconhecido por marinheiros normandos e catalães. Mas há mais informações: um grupo de aventureiros ingleses, que tinha furtado uma nau no porto de Bristol, veio esbarrar na "terra brava": "não sabiam do mar/ achando o vento próspero correram por onde o vento os levava/ com todas as velas por não serem alcançados e poucos/ dias acharam-se em uma ponta de uma terra brava toda/ coberta de arvoredo ate ao mar que ficaram espantados/ e confusos" (8). Depois de várias peripécias (e de uma tragédia amorosa) retomaram a viagem. Na costa da Barbaria foram capturados por mouros e recambiados para Marrocos: "neste tempo havia em Marrocos muitos cativos entre os quais/ havia um castelhano bom piloto e bem entendido na arte/ do mar a que chamavam joão de amores, o qual perguntou aos/ ingleses que ventura os trouxera, ali eles lhe contaram/ meudamente tudo"(9). Para localizar a terra, João de Amores "perguntou de que porto de ingrata terra partiram e com que tempo e/ que caminho levaram e em quantos dias foram ter naquela/ terra nova e quando a nau se desamarrou que caminho trou/xera e em quantos dias fora dar à costa e segundo nos / disse depois tomou tudo na memória e poucos mais/ ou menos onde esta terra podia estar" (10). Era clara a perspicácia do piloto.
Por ocasião da morte do Mestre de Santiago (ou de Calatrava a 5 de Março de 1416), em Castela, resgataram-se muitos cativos de mouros "por sua alma" (11). João de Amores foi um deles. Mas a sua viagem de regresso começou sob maus auspícios: o navio foi capturado por uma armada portuguesa na costa da Andaluzia. O nosso homem "foi-se logo ao capitão (12) e contou-lhe tudo/ o que tinha sabido dos ingleses e da terra nova que acharam / que poderia pertencer a el-rei de Portugal" (13). Do cais do Restelo, no início de Junho, partiu para a descoberta da terra nova um navio (e uma embarcação de remos) capitaneado por João Gonçalves Zarco. Segue a rota da "ilha de porto santo que havia dois anos que era de

s/coberta por uns navios de castelhanos que iam /pelas ilhas das canárias" (14). Nesta viagem o espírito dos marinheiros é atormentado pela escuridão e barulheiras do mar: "ouvimos diante de nós arrebentar o mar muito/ espantosamente e não víamos onde porque/ a névoa chegava ao mar o que nos pôs em / muito espanto todos bradavam que voltasse/mos senão o capitão e o piloto que diziam/ de que aviamos de voltar.» (15) As mentalidades, como é admissível, sobressaltam-se. O desconhecido é aterrorizador. Mais um momento e o grito é de felicidade: «vimos/ uma terra toda coberta de arvoredo até ao mar e / daquela banda a névoa não descia do cume da terra/ por ela abaixo vendo o que era houvemos todos muito / prazer e demos uns aos outros grandes/gritas zombando do medo passado"(16).
Em 1419, o arquipélago da Madeira é descoberto. Naquele mundo inextricável de vegetação «não viram cousa viva senão muitas aves de mui/tas maneiras e tão mansas por não terem / visto homens que as tomavam à mão» (l7). E para desbravar a terra, utilizaram a técnica da queimada: «durou o fogo por a terra/ sete anos» (l8). Veio então o movimento da colonização.
«Colonizar, desde então, é ter as mesmas árvores, as mesmas plantas, as mesmas paisagens na frente dos olhos, os mesmos alimentos à mesa; é viver sob o mesmo céu, encontrar as estações familiares.» (19) Também é assim no atlântico. Os costumes, a arquitectura, as técnicas e o urbanismo integrados na paisagem reflectem a vida e a harmonia. Às solicitações do mar e das terras, os homens correspondiam conforme podiam. Os governantes, como muito bem se sabe, estimulavam. «El-Rei cada verão mandava navios, e ferro, e aço e sementes e gados que tudo frutificava muito; de cada alqueire que semeavam pelo menos colhiam sessenta, e as reses ainda mamavam, e já pasciam, e tudo se dava assim, havia grande quantidade de madeira formosa, e a levavam para partes e começavam com ela a fazer navios de gávea e castelo de vento, porque dantes não os havia no Reino nem tinham para onde navegar, não havia mais que caravelas no Algarve e barinéis em Lisboa e no Porto» (20).

 

 

 

NOTAS

(l) Tradição oral africana, in F. Braudel, Civilização Material, Economia e Capitalismo, Edição Cosmos, Lisboa, 1985
(2) Coelho, António Borges, Raízes da Expansão Portuguesa, Livros Horizonte, Lisboa, 1985, pg.20
(3) Zurara, Gomes Eanes da, Crónica de Guiné, Livraria Civilização, Porto, 1973, pg. 27
(4) Idem, idem, pg. 29
(5) Idem, idem, pg. 29
(6) Idem, idem, pg. 29
(7) Coelho, António Borges, ob. cit, pg. 26
(8) Alcoforado, Francisco, Quool foy ho azo cõ que se descobryo a ilha da Madrª escryto por my/ fc° allcoforado escudr0 do sõr Jfe/ dom amrique q fuy a tudo presemte/ e foy desta guysa. (Manuscrito existente no Museu-Biblioteca da Casa de Bragança, Vila Viçosa.) Transcrito e incluído em « A lenda e a história acerca do par amoroso Machim e Ana de Harfet/ As Viagens de João Gonçalves Zarco/ por D. Francisco Manuel de Melo, Lisboa, 1975, pg. 84
(9) Idem, idem, pg. 85
(10)Idem, idem, pg.85
(11) Idem, idem, pg. 85
(12) João Gonçalves Zarco.
(13) Alcoforado, Francisco, ob. cit., pp 85-86
(14) Idem, idem, pg. 86
(15) Idem, idem, pg. 89
(16) Idem, idem, pp. 89-90
(17) Idem, idem, pg. 90
(18) Idem, idem, pg. 94
(19) Braudel, Fernand, ob. cit., pg. 263
(20) Alcoforado, Francisco, ob. cit., pg. 94

(Texto extraído da obra de Luís Dantas «Viagens e Descobertas», Atlântidas, Lisboa, 1999)

 




António Feijó


Guerra Junqueiro

 

ANTÓNIO FEIJÓ E GUERRA JUNQUEIRO

Guerra Junqueiro vinha constantemente a Ponte de Lima. Palmilhava de cabo a rabo as aldeias do concelho, nas «suas correrias de bric‑à‑brac» 1, à procura de imagens de Santos e de Cristos, de louças velhas e tapetes, de bugigangas e quinquilharias. Dizia o Delduque Pereira, que foi seu guia em vários passeios: o poeta ia indo por esses caminhos a contemplar a paisagem e parava um instante aqui e acolá - ao toque de sino ou canto de pássaro, ao som de enxada ou chiadeira de carro, ao calor da terra ou ao murmúrio de regato, ao balido de ovelha ou ao «toque, toque» da moleirinha e do jumento – para compor a ideia ou rabiscar umas letras.

Encontrava‑se muitas vezes com António Feijó. «Tenho tido grandes cavaqueiras com o G.ª Junqueiro. Recitou‑me milhares de versos duma sublimidade olímpica. Andei com ele dois dias continuadamente». 2

Vem o mês de Agosto. Feijó vai «a Viana visitar o Junqueiro que chegou há dois dias, e ao mesmo tempo ver as festas da Agonia.» 3 Voltam a marcar encontro para novas andanças: «estou à espera do Junqueiro para irmos fazer uma digressão pelas terras vizinhas atrás de alcatifas e retábulos de capelas.

            Ele tem aparecido por aqui frequentes vezes o que me tem valido para exercitar a língua, enferrujada como espada que não sai da bainha para não assassinar alguns destes bárbaros que por aqui me rodeiam.» 4

O cantor do Lima passa o resto do tempo a estudar: os concursos para consulados estão para breve. Janta, por vezes, no solar de Bertiandos, na casa do Rego, no Paço de Calheiros, e pula até Jolda, S. Paio, «à pescaria de trutas do Queirós Ribeiro», 5 da Quinta da Boavista. Vai cavaquear com o Amândio de Vasconcelos, no Café Camões, com João Gomes de Abreu e Lima, na Assembleia Limarense ou na Casa do Outeiro, e com o João Duarte, na sua botica do Largo de S. João. E continua a escrever trovas, que envia para as Novidades,e cartas para o poeta galego Manuel Curros Enríquez (autor de Aires da miña terra) e Luís de Magalhães: «Sábado estava a escrever‑te quando me apareceu o Junqueiro e partimos imediatamente por essas terras fora em busca de Stradivarius e outras antiguidades não menos ilustres. Por lá andamos até ontem à noite e venho agora de o meter na diligência para Viana.» 6

Ponte de Lima parece que abarrotava de antigualhas, e ambos se interessavam em arrecadá‑las. Corriam ainda rumores da existência de uns azulejos e de umas pinturas valiosas no Convento de Refoios, que era propriedade do Tomás Norton. Não sei se o Camilo chegou a ir lá, mas foram outras celebridades da época. «Esteve aqui o Ramalho Ortigão com o G. Junqueiro. Fomos passar o dia a Refoios, a casa do descobridor das telas de Rafael» 7

Os dois trovadores continuaram a conviver no abraço fraternal, na aventura poética, na admiração mútua. Já se sabe que «Junqueiro na intimidade é prodigioso génio, de imprevisto, de elevação. Vê os factos mais simples, com um olhar que os engrandece. Assombra de pittoresce e de inédito. É pena que as suas conversas, os seus fragmentos, esses pedaços de sonho e de vida, atirados com febre, perdidos, pelos cantos, e decerto esquecidos, se não possam juntar porque dariam um dos aspectos mais extraordinários do seu génio.» 8 E os versos? Fazia‑os, não «por vaidade literária. Faço‑os», dizia ele, «pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira peras, e a macieira maçãs: é uma simples fatalidade orgânica.» 9 Feijó escutava‑os. Desta vez eram outros, e iam dar que falar: os novos poemas da Velhice do Padre Eterno. «Coisas estupendas», diz Feijó, «que lhe tenho ouvido nos últimos tempos.» 10 Mais tarde, embala essa obra com outras palavras. «Nunca a língua portuguesa se nos apresentou mais elástica e mais flexível, mais viva e mais leve, estreitando as ideias, enroscando‑se aos pensamentos, duma agilidade inexcedível na sua profusão flagrante. Os versos deslocam‑se desengonçados como clowns, fazendo ressaltar com uma extrema saliência a extraordinária verve do poeta, que esfuzia ironicamente por essas páginas duma soberba mordacidade.» 11

E o vate transmontano naquele vaivém, em terras de Ponte, a recitar versos, a vibrar com os quadros pitorescos, a idolatrar a paisagem: «este diabo deste Minho desgraça‑me. É bom demais. A vida desliza suavemente, cristalinamente, como um regato bucólico. Nada que fira, que morda, que contrarie. O sol ri, a verdura canta, o vinho é alegre, o celeiro está cheio... É bom demais, é bom demais decididamente.» 12 O dia está soalheiro, e o poeta lá anda, a pé ou de trem, no farisco de trastes de uso doméstico ou religioso na vida antiga de casas e confrarias. «Ontem tive Junqueiro das duas às 8 da noite. Passeámos de carro atrás de bric‑à‑brac por essas aldeias.». 13 E numa outra ocasião, diz Feijó: «fui estar dois dias com o Junqueiro. Sexta‑feira passada resolvemos ir almoçar a Âncora, jantar a Valença, e voltar no comboio da noite.» 14

Criaram ambos um longo poema inspirado na viagem: - O Passeio Bucólico. Lá vão a caminho de Valença, numa paródia, numa festa de rimas, de som, de ritmo, de riso e de furor. «Feijó foi‑me acordar, solícito e prudente, /Às horas matinais em que no azul doirado/Cantam aves. Feijó, muito bem almoçado, /Opíparo e feliz, disse-me: - «Abílio meu:/Há muitos minutos já que a alvorada se ergueu». 15 Junqueiro faz uma pausa em Âncora para uma refeição que não calhou bem. Zanga‑se. «O almoço foi nojento e o preço exagerado. /Ugolino encontrou...quem? José do Telhado! /Comi e vomitei. Paguei e pus‑me a andar. /Ao longe os vagalhões titânicos do mar, / Numa raiva feroz, num hercúleo bramido, /Diziam-me: - Comeste? Oh! Não! Foste comido/Por esse malandrim...». 16 Cruzam‑se com o Visconde d’Aurora. «Aurora em viscondado entra e diz triunfante:/- «Pois vocês por aqui? Guerra, filho do Dante, /Que fazes tu vagueando através destas plagas? / Feijó, tu que ao descer das claridades vagas/Dos astros, vais cantando em tua frauta pagã/A epopeia da treva e as canções da manhã, /Que fazes por aqui, Feijó?» 17

Aguardam depois a chegada da locomotiva. «O comboio apita. Extraordinário! / Um comboio que chega à indicação do horário, /É impossível! Enfim, um comboio feroz/Que um Justino qualquer 18 arranjou para nós. /Obrigado, Justino. Adeus, e até mais ver.» 19 E lá chegam. «A estoirar d’apetite e a rebentar de gáudio, /Caminhamos febris e de estômago em riste/Contra um velho jantar aladroado e triste. /Valeu‑nos Isidoro, o amigo e o capitão/ (Do 7) que nos deu um soberbo melão/Da Vilariça. Foi um melão redentor/Que nos fez ajoelhar aos pés do Criador.» 20 E o vinho? Em cima de melão, de vinho de tostão, a dez réis o garrafão! «Lúculo!... Esse melão, que Isidoro – ultrafranco -/Nos mandou, foi regado a um tal vinhinho branco/De Monção, que ao pé dele, ó patriarca Noé!,/Tudo aquilo que tu bebeste era – água‑pé.» 21

Caiu a noite, as duas, três, quatro horas da manhã, e veio o sono. «A nossa inspiração, já cansada e em camisa/De dormir, diz-nos: «Adeus, boas noites, meus filhos! /Deitai-vos. Eu cá os belos versos pilho‑os/De manhã». 22

 

NOTAS

(1) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pg.62
(2) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pg.18
 (3) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pg.24
(4) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pg.51
(5) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pg.105
(6) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pg.54
(7) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pg.71
(8) Brandão, Raul, Sonhos, O Independente, Lisboa, 2004, pg.116
(9) Junqueiro, Guerra, Obras, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1974, 2.ª edição, pg. 327
(10) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pg.68
(11) Feijó, António, Guerra Junqueiro, O Contemporâneo, N.º 153, 1885
(12) Novas cartas inéditas de Eça de Queiroz, Camilo, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins, Teófilo Braga, João de Deus, Castilho, Fialho, António Feijó e Cândido de Figueiredo a Ramalho Ortigão, Alba Editora, Rio de Janeiro, Brasil, 1940, pp.178-179
(13) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pg.88
(14) Feijó, António, Cartas a Luís de Magalhães, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, Vol.1, pp.113-114
(15) Junqueiro, Guerra, Obras, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1974, 2.ª edição, pg. 1060
(16) Junqueiro, Guerra, Obras, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1974, 2.ª edição, pg. 1061
(17) Junqueiro, Guerra, Obras, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1974, 2.ª edição, pp. 1061-1062
(18) Justino Teixeira, engenheiro director dos Caminhos de Ferro do Minho e Douro.
(19) Junqueiro, Guerra, Obras, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1974, 2.ª edição, pg. 1062
(20) Junqueiro, Guerra, Obras, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1974, 2.ª edição, pg. 1063
(21) Junqueiro, Guerra, Obras, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1974, 2.ª edição, pg. 1063
(22) Junqueiro, Guerra, Obras, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1974, 2.ª edição, pg. 1063

 



 

ULISSES DUARTE:
OS CAMINHOS DA POESIA

Ulisses Duarte começou cedo a improvisar versos. "A poesia", diz ele, "perde-se no tempo dos bancos da primária quando a professora me viu pela primeira vez a improvisar versos, sem pés nem cabeça, em cima duma carteira da sala de aulas. Fiquei cheio de medo à espera das reguadas do costume. Ao contrário do que esperava, Dona Cacilda, assim se chamava a professora, chamou-me para o pé de si e muito meigamente fez-me ver que para dizer versos não era preciso estragar as carteiras. Daí em diante, sempre que havia algum poema para ler era eu que o lia. Andava muito em voga, nessa época, Afonso Lopes Vieira, tanto que ainda hoje recordo a "Candeia Acesa"...
Nos primeiros anos de liceu "há uma paragem no tempo de fazer versos, substituídos pelo desenho". A poesia e o desenho continuaram a ser, afinal, as duas grandes solicitações do seu espírito. Na boémia estudantil, a expressão poética ulissiana mergulha nas raízes da literatura popular em verso. Evoca antigos cantares, inventa versos satíricos "ao cantar ao desafio em quadras de improviso premiadas a copos de tinto quando ganhava à compita com os profissionais das mesmas nas adegas de Matosinhos. Daí me ter ficado o gosto pela crítica mordaz que, passados dois anos, transportei para as gazetilhas..." De um momento para o outro, encontra-se a publicar essas crónicas em versos jocosos e a "ganhar uns tostões". É aqui que começa a entrar o Café Batalha, no Porto, onde, incógnito, escrevia as gazetilhas assinadas, como era costume, com pseudónimo". Depois, muda-se para os arredores de Lisboa. Com António de Jesus, funda o "Notícias da Amadora". É o tempo dos combates pela liberdade, dos encontros e das tertúlias nos cafés. Na Amadora "éramos um núcleo restrito: António de Jesus — poeta e jornalista; Rui Jorge — poeta e escritor teatral; Luís Duarte Lima — um belíssimo poeta esquecido não sei porquê; Alberto da Fonseca — um dos melhores prosadores portugueses de quem ninguém fala; o advogado e jornalista Luís Fonseca de Macedo, etc... Reuniamo-nos no Café Lobélia". Mas é Lisboa, com as suas luzes e os seus poetas, que mais o fascina. Por isso, "os saltos a Lisboa eram constantes, onde pela tarde ou à noite se visitava a Brasileira, o Paladium, o Lisboa, a Benard ou o Martinho, conforme aqueles com quem procurava conviver".
Ao longo dos três anos, publica os primeiros livros de poesia: "Terra e Céu" (1958), "Da Minha Paisagem" (1959) e "Poemas de Sol Estrangulado" (1960). Neste primeiro núcleo poético, descobre-se um outro "trovar", uma construção discursiva de "versos/de estrelas de rendas" amplamente manchada de azul, mar, areias, saudade, amor e lirismo trovadoresco: "Que se finva a vida mia/se meu amor, sen tardança/nom tever de vós, a sorte". Mas é, indiscutivelmente, no segundo núcleo poético, com "Eco das Palavras" (1991) e "Poalhas do Tempo" (1992), que Ulisses Duarte reaparece com uma voz que o coloca entre os maiores poetas da cidade, — "velhinha e menina na eterna beleza,/de Tejo dourado".
Vejam-no com a sua cabeleira prateada, o olhar coriscante e a alma — a sua grande alma de poeta e de pintor — deslumbrado com a totalidade da vida que palpita nas "luzes", no "sol", na "noite", na "solidão", nas "ruas", nas "avenidas", nas "esquinas", no "bairro de lata", nos "silêncios quase parados", nos jardins, nas mesas de café. O seu caminho é o da contemplação encantada e comovida, através do poema que se instala no fundo das cenas da vida quotidiana:

Na mesa amarela,
um copo manchado.
— Testemunha muda
de quem foi embora...
O cigarro dela
já quase apagado.
— pedaço de cinza
pela noite fora...
Na mesa amarela,
um vago perfume.
— página dum livro
de romance triste...

É flagrante, neste poema, o acto de criação poética. Esta linguagem de tensões
emocionais, de visualidades múltiplas e de vivências urbanas, revela-nos a aproximação e as afinidades com outros poetas da cidade. Em "Carta a Cesário", corrobora essa afirmação. E à mesa de um restaurante da sua rua, o poeta diz e interpreta aquele poema:

Chego a casa. pouso a gabardina
e sento-me a escrever-Te. — Num momento
ato um poema ao sonho.... ao pensamento...
e encharco os pulmões com nicotina.

Não podes perceber, nem imaginas
como Lisboa, agora, é tão diferente...
— Já não existe o "Rei" e mais recente
morreram, com Stuart, as varinas.

De noite, à solidão, Lisboa peca;
(tristezas da má vida... — um desaforo)...
de dia, pelos "bancos de namoro",
jogam os reformados à sueca.

Já não há hortas... o cimento armado
ergue-se em florestas empilhadas
(dizem-me que são casas)... e as estradas
têm bairros-de-lata, mesmo ao lado.

Nas varandas os "brincos" e begónias
vestem orvalho pela noite nua...
— Talvez não saibas: — Deram-Te uma rua,
ali, para o Bairro das Colónias.

Resta no meu orgulho a circunstância
de no passado termos homens sábios
que de Lisboa em naus e astrolábios
verteram Portugal pela distância!

(inSOL XXIREVISTA LITERÁRIA, número 6 de Outubro 1993)

Luís Dantas

 

 


Pandeireta - Desenho de Álamo Oliveira

 

AO ACASO NUMA PANDEIRETA

(FOGUEIRAS DE S. JOÃO)

 

        ...é cantar, bailando. Batei corações

        cantai, queimai!

                                        Afonso Lopes Vieira

 

Ah! dançai, bailai, cantai, ó raparigas!
E tu, Manel, aprende as cantigas!

Anda, rapaz! canta, vai à brincadeira!
Dá lhes tua mão, salta para a fogueira!

Mas não te queimes, Manel, tem cautela:
nos olhares delas é onde o lume péla.

 
Luís Dantas, Pedras Verdes, 
Edição de Autor, 1969

A LEI DA SAÚDE NA REVOLTA DA MARIA DA FONTE
(Texto extraído da obra "A Revolta da Maria da Fonte", Luís Dantas, Edições Ceres, Lisboa, 2001)

 


Evocação da Maria da Fonte 
 Água-forte de M. de Macedo

 

A atitude do homem perante a morte não foi sempre a mesma. Variou muito, como se sabe, no tempo e no espaço. A ideia de criar cemitérios orlados de árvores fora dos muros das vilas ou das cidades e distantes dos aglomerados rurais (como as leis oitocentistas consagravam), não é nova: remonta a épocas longínquas e aparece, por vezes, bem explícita. É de supor a intervenção dos higienistas do tempo com as suas preocupações. "Os vivos acreditam então num mundo, separado, dos mortos, o cemitério, que, na época merovíngia, está sempre longe das aldeias e dos locais de habitação. A prática romana era aliás idêntica, já que os túmulos se escalonavam individualmente ao longo das estradas, fora das muralhas." (1) No entanto, as relações espirituais e culturais palpitavam entre os dois mundos. Os romanos tinham os seus ritos funerários, mas não acreditavam na imortalidade da alma. "A opinião mais espalhada, incluindo no povo, era a da morte como negação, sono eterno; e repetia-se que a ideia de uma vaga sobrevivência das Sombras não passava de uma fábula." (2) Todos os defuntos partiam para o além, numa viagem sem limites e sem regresso. Mas era necessário acautelar esse percurso, dotá-lo de confortos, para evitar os percalços e um regresso repleto de iras e de perseguições.

Dos mais humildes, muito pouco há para contar: abalavam apenas com a mortalha e, por vezes, com uma moeda na boca para pagar a barca na passagem do rio que rodeava sete vezes os infernos. Outros, menos modestos, eram enterrados com armas, utensílios do lar ou da oficina, jóias e vários adornos. Os magnatas da cidade deixaram nos seus túmulos o sinal de uma superabundância de riquezas e uma iconografia moldada às suas convicções. A paz sepulcral, depois de uma viagem efémera, deveria ser permanente. Por isso celebravam os dias dos mortos. Durante nove dias, no mês de Fevereiro, transportavam para os túmulos a saudade e diversas oferendas relacionadas com a crença, a alimentação, a virilidade, a feminilidade, a iluminação, os prazeres mundanos, os jogos. Em data anterior à de 105 a.C., chegaram a promover combates de gladiadores junto aos túmulos. "Em resumo, o morto comia, lutava, amava, tal como um vivo. A sua vida era um duplo material da de um vivo. Tudo era feito para o manter em paz no seu domínio." (3) Por vezes, esta harmonia era estilhaçada brutalmente por gente fora-da-lei. As violações deixavam a sociedade em alvoroço. "Ora este tipo de delito tinha, no espírito dos contemporâneos, duas consequências catastróficas. Por um lado, o indivíduo despojado perdia a sua qualidade. Por outro lado, ele regressava de noite para atormentar os vivos. Era esta a origem dos fantasmas nocturnos" (4), da procissão dos defuntos, das casas assombradas. Existia ainda um outro motivo para os mortos se indignarem: as obscenidades da "baixa prostituição das "lobas" que ao cair da noite frequentavam as estradas dos arrabaldes por detrás dos túmulos." (5) Todas estas infracções contribuíram para dissolver velhos hábitos e criar outros.

A igreja cristã "procura tornar a morte pública para suprimir a angústia das manifestações infernais e fazer desse momento e desse estado uma passagem para uma outra vida, um acto de esperança." (6) E de facto as mudanças começaram logo a verificar-se ao longo do século IV. Desde essa altura, os protectores e benfeitores da religião nova são sepultados no vestíbulo da basílica. Nos séculos seguintes, as igrejas e capelas aparecem a substituir os cemitérios. "O enterro junto dos corpos santos e do altar principal criava uma proximidade e uma promessa de salvação que as velhas práticas funerárias pagãs eram totalmente incapazes de fornecer. Ao mesmo tempo, os túmulos ditos privilegiados, consagrados a uma personagem importante, príncipe ou chefe de guerra, abandonavam a sorte comum dos mortais para se agruparem sob as lajes das igrejas ou então em igrejas particulares. Deste modo, a morte tornava-se pública. Os fiéis rezavam com os pés sobre os que lhe eram próximos. O mundo dos vivos e o mundo dos mortos eram um e o mesmo, separados apenas pela fronteira simbólica das lajes, num mesmo espaço sagrado. A angústia da morte privada apagava-se diante da calma da morte pública, mesmo que, em cada enterro, as mulheres continuassem a chorar dilacerando as faces com as unhas e arrancando os cabelos" (7). Estes ritos, com as mulheres a desempenharem um papel relevante, permanecem até ao século XIX. O crescimento demográfico e o espaço exíguo das igrejas transformaram-nos em quadros impressionantes.

Mais amiúde as sepulturas tinham de ser destapadas e os restos mortais transportados para cercas ou reservatórios. Voltavam as inquietações e os tormentos. Em semelhante situação, o descanso eterno estava comprometido. Disso mesmo se aperceberam alguns paroquianos que manifestaram em vida o desejo de serem enterrados nos adros das igrejas. Mas observava-se um outro flagelo: os vapores fétidos que exalavam da terra sagrada. O ar ficava infectado e ameaçava a saúde dos fiéis. Dizia-se que era a causa "dos delíquios, das asfixias, dos movimentos histéricos tão frequentes nas Igrejas, e finalmente das moléstias, ou febres podres, que todos os anos reinam em quase todas as povoações no verão, tempo o mais apropriado para a desenvolução de semelhantes miasmas podres, que tão fatais têm sido à humanidade." (8) Numa das paróquias francesas, a população foi atingida por uma dessas pestes com o registo de várias mortes: a de um cura, de um vigário, de um coveiro, de uma mulher grávida e a de um dos meninos da primeira comunhão. Ao longo do século XVIII, na sociedade portuguesa, viveram-se também momentos de aflição debaixo de idênticas vagas epidémicas: uma "acontecida na Cidade do Porto (...), causada pela emanação podre da Igreja de Santo Ildefonso, em que, para ser destruída a emanação foi preciso ter por muito tempo as portas abertas de noite, e de dia com sentinelas ao pé, queimar vinagres, lavá-la (...). Outra (...) causada na mesma cidade em 1779 pela Igreja dos Órfãos. Há 5 anos (1795), que em quase todas as povoações da margem esquerda do Mondego, do Amial até Verride, houve uma terrível epidemia de febres podres (...), da qual não pude descobrir outra origem senão a Igreja de Alfarelos, assaz imunda, e indecente; e em cujo lugar apareceram os primeiros inficionados." (9) Nas primeiras décadas do século XIX, outros focos de epidemias grassam no reino. Torna-se indispensável instalar lazaretos nas fronteiras e nos portos marítimos. As cartas provenientes de Espanha (Cádiz e Málaga no Verão de 1819 controlam mal as febres infecciosas) são picadas e passadas por vinagre. Mas os golpes repetem-se e avivam a atenção dos governantes. "A invasão da cólera epidémica em Portugal ocasionando considerável mortandade, obrigou o Governo a designar fora das Igrejas sítios apropriados para o enterro dos mortos. Semelhante medida de higiene pública não podia deixar de concorrer para acelerar o termo deste terrível flagelo." (10) Cirurgiões e alguns membros do clero tinham já levantado essa questão dos enterramentos no interior das igrejas e capelas. Os textos da época - alguns deles anteriores à implantação do liberalismo -, já não se limitavam a inscrever as sábias providências. "O culto dos mortos", exclama um cirurgião, "reclama a solidão!" (11) As leis portuguesas, tardias em relação a outros países, reflectem essa nova atitude. É claro que o dogma católico, à luz das convicções e dos hábitos dos crentes, fica abalado. Coitadas das almas: afastadas da protecção da imagem dos santos e dos recintos sagrados, como se poderiam salvar? A missa cantada não era suficiente. Daí a angústia. O burburinho no campo, na eira, no adro, na rua, na fonte, no ribeiro, na estalagem e nos caminhos de ida-e-volta. Este som era ampliado por causa da taxa dos bilhetes de enterramento. Com efeito, o tributo variando entre 840 ( nas zonas ricas) e 100 réis (nas zonas pobres), transformava-se em mais uma inversão no diálogo do ministério cabralista com a população. É certo que nem toda a gente pagava. O levantamento obrigatório dos impressos era gratuito para os mendigos, soldados, marinheiros e para "todas as pessoas, a quem o Pároco prestar gratuitamente por motivos de pobreza as funções do seu ministério." (12) Mesmo assim, é a ruptura que se desenha. Das sombras, à socapa, começaram a aparecer os missionários a alvorotar as almas fragilizadas. O Minho não foi poupado: "principiaram a cruzar estes sítios, quais andorinhas em Maio, sobre os verdes linhares, ao avizinhar-se a trovoada." (13)

NOTAS

( 1) Rouche, Michel, Alta Idade Média Ocidental, História da Vida

Privada, Direcção de Philippe Aries e George Duby, Edições

Afrontamento, Porto, 1990, Vol. 1. Pg. 486

( 2) Veyne, Paul, O Império Romano, História da Vida Privada,

Direcção de Philippe Aries e George Duby, Edições Afrontamento, Porto,

1990, Vol. l,pg. 211

( 3) Rouche, Michel, obra citada, pp. 492-493

( 4) Rouche, Michel, obra citada, pg. 490

( 5) Carcopino, Jérôme, A Vida Quotidiana em Roma no Apogeu do

Império, Edição Livros do Brasil, Lisboa, pg. 133

( 6) Rouche, Michel, obra citada, pp. 492-493

( 7) Idem, idem

( 8) Teles, Vicente Coelho de Seabra Silva, Memória sobre os prejuízos causados pelas sepulturas nos cadáveres nos Templos, e Methodo de os

prevenir, Lisboa, M.DCCC, pp. 26-27

( 9) Teles, Vicente Coelho de Seabra Silva, obra citada, pp.12-13

(10)Vaz, Francisco d'Assis de Sousa, Memória sobre a inconveniência dos enterros nas Igrejas, e utilidades da construção de cemitérios, Imprensa de Gandra & Filhos, Porto, 1835, pg. 6

(11) Vaz, Francisco d'Assis de Sousa, obra citada, pg. 15

(12) Decreto de 26 de Novembro de 1845, publicado no Diário do Governo n.° 287, de 5 de Dezembro de 1845

(13) Branco, Camilo Castelo, Maria da Fonte, Ulmeiro, Lisboa, 1986, pg. 29

O LORETO


Arte de Henrique Tigo

O Loreto era homem de poucas falas. Movia se todos os dias entre a aldeia e a vila. Mas o seu mundo encantado era aquele palmo de terra, as galinhas, os coelhos, o furão, a cadela, a gaiola dos pássaros, a sombra de uma latada exígua. Tinha o costume de se achanar na pedra da escada, remoendo o tempo, matutando, sorrindo em silêncio escarninho ao vir lhe à ideia uma das suas outras mil peripécias. Mandriava por ali até ao cair da tarde, esvaziando um maço de cigarros da marca Três Vintes ou Kentucky. Vindo o crepúsculo, ceava. Um caldo, uma côdea de broa, vinho do tinto.

Depois botava um saco de serapilheira pelos ombros e abalava em surdina. Em surdina é modo de dizer porque a barregã - a Sra. Joaquina da Gavieira - conhecia todos os seus pecadilhos, dava por tudo e rosnava sempre um alvitre: "vê por onde andas, homem!" Mas o que ela queria mesmo dizer era outra coisa: tem cuidado não te apanhem, não dês com tudo em pantanas! E ele lá ia, alta noite, por caminhos escusos que se estiravam desde São João da Ribeira a São Martinho da Gândara, Beiral, Santa Cruz, até Bravães. Parece me que foi o Zé Povo quem me disse que o Loreto desamarrava o barco do cais do Carregadouro e atravessava o rio para o lado de Refoios. Nunca ia muitas vezes aos mesmos lugares. Dividia o mal pelas aldeias, isto é, pelas quintas. Na melhor ocasião, abria uma cancela ou pulava um muro, resvalava entre as ervas daninhas como uma raposa velha e assaltava as capoeiras num abrir e fechar de olhos. Voltava então estugando o passo, olhando sempre em volta: "nem vivalma", murmurava ele com os seus botões. Mas a noite não era o que parecia. Estava povoada de outros aventureiros, de fantasmas, de malucos assustados, de mulheres com insónias que espreitavam às janelas e de outra gente que madrugava porque tinha de trabalhar ou partir para uma viagem.

De sussurro em sussurro desvendava se aos poucos o meliante que deixava aqueles sítios em alvoroço. O Alvarinho Loreto ganhou fama de Pilha Galinhas. A verdade é que não havia outro mais astuto e mais desaforado ao redor de duas léguas. Por esses feirões arrasou com um velho provérbio: "galinha por pouco dinheiro não há no poleiro". Aforrou uns bons patacos. Comprou cabras. Agora já não podiam baldoar por aí: "Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado vem." Virou pastor. Mas faltavam-lhe os pastos para ter paz e alegria. Invadiu montados, acumulou dezenas de coimas sem as pagar, foi chamado à justiça. O juiz teve em conta os costumes do povo no tempo dos baldios. Aconselhou-o a encurralar as cabras. Deixá lo!

Dali em diante despejou mais a sua sanha sobre a propriedade murada. Quando alguém o surpreendia no meio das couves ou do milho não virava o rosto. Dava um berro danado: "é prò gaaado!"

 

 

GARRANOS E CONTRABANDISTAS

As civilizações que criaram o primeiro tributo aduaneiro desencadearam o fenómeno do contrabando e puseram em cena um novo actor: o contrabandista. Os fenícios, os cartagineses e os romanos acantonaram os seus soldados para combater a fuga aos direitos alfandegários de determinadas mercadorias que entravam ou saíam nos seus territórios por via marítima ou terrestre. Muito mais tarde, a partir da segunda metade do século XVI, o tráfico ilegal rompeu o monopólio do Império colonial da Espanha e de Portugal e transformou-se numa rotina em algumas regiões.

No Oriente, mercadores ilícitos, em barcos sem registo, arribavam com o pretexto de um rombo no casco, velas esfarrapadas, afastamento de rota ou urgência na aquisição de remédios para combater o escorbuto: água, ovos, carne e frutas frescas.

A permanência nos portos por um, dois ou três dias era suficiente para se proceder ao desembarque clandestino das mercadorias a preços mais baixos do que o comércio legal: aguardentes, licores, sal, azeite, lenços, rendas, sapatos, ferro e aço. Não se estranhe, por isso, a facilidade com que muita gente foi aliciada, subornada ou corrompida. Na volta, os safados, traziam a canela e a pimenta de el rei. Era difícil ir mais longe, a não ser em Minas Gerais. Ali foram contrabandeadas grandes quantidades de pedras preciosas e ouro em pó por um rancho de aventureiros: burocratas, militares, frades, estalajadeiros, vendedores ambulantes, escravos, senhoras da alta-roda, mulatas ou negras quitandeiras. E não faltavam rasgos de audácia ou delírios inventivos para ludibriar a fiscalização, desde os diamantes embuchados ao ouro em pó escondido nas cabeleiras das mulheres ou em imagens de santos de pau oco.

 

 

Chegamos ao século XIX, e o contrabando tem novas peripécias, de resto bem discriminadas pelo conjunto de artefactos apreendidos e coleccionados pelas autoridades policiais da península ibérica: embarcações de vela com bordas ocas, automóveis com escaninhos rebuscados, baús ou maletas com fundos duplos, algibeiras das mulheres contrabandistas e cestas que serviam para colocar nos cavalos criados e educados para fazer o transporte de mercadorias por carreiros direitos e tortos. É aqui que entram os garranos nas andanças do contrabando. Não há outro cavalo tão bem acostumado com os segredos da serra, capaz de atravessar as montanhas, acometer silvados e seguir por caminhos de bradar aos céus, sem medo às sombras de apavorar, ao relâmpago, ao trovão, ao estampido do galho, ao grito do lobo, ao piar do mocho, ao salto do lagarto, ao bicho de pêlo eriçado, ao assobio do vento ou das cobras. Muitos deles cumpriram a sua missão de carregar fardos de sedas, sabão, café, açúcar, trigo, aguardente e tabaco, à margem dos registos da história porque nunca foram apanhados, mas outros estiveram sozinhos ou ao lado do homem em rixas e lutas terríveis. "En la noche del 2 al e de Febrero de 1871, en medio de un temporal de agua y nieve, se entabló un encuentro entre carabineros y contrabandistas aragoneses (chesos y ansotanos), que duró hasta el amanecer y se libró contra 150 contrabandistas, todos con armas de fuego, por 36 individuos del Cuerpo de carabineros, viendo se precisados éstos á simular una retirada y dar una carga á la bayoneta para vencer aquéllos que perdieron 66 fardos de géneros y 18 machos que les cogieron los carabineros; cuatro hombres muertos, 32 feridos vistos, y nueve machos muertos y siete heridos." (1) Esta notícia não é única, mas é uma das mais importantes porque põe quase tudo em cena: o tempo e o clima, os homens e os cavalos, os mortos e os feridos, as armas e as tácticas de combate.

Os garranos e os contrabandistas, heróis e mártires na balbúrdia daquela vida, tinham ainda um longo caminho a percorrer juntos. Bem vistas as coisas, são escassos outros meios de subsistência para os homens das aldeias e a raia ali tão perto ilumina os sonhos de qualquer um: esquecem os apelidos, botam alcunhas, adoptam uma linguagem peculiar, colocam o revólver na cinta ou a espingarda a tiracolo, pedem amparo aos santos, fazem o sinal da cruz, afagam a crina do cavalo e vão ao seu destino. 

Na primeira metade do século XX, depois das duas guerras, esses cavaleiros errantes levaram sumiço. O último de que me lembro, o Joaquim Moinante, chega da literatura. Todos podem vê-lo, sentado num degrau da casa, a sopesar as mágoas, com uma perna repimpada e o coto da outra acomodadiço. E não querem saber o que lhe aconteceu? Um dia, "um dia o Penca agarrou o com a boca na botija, e foi só uma perna varada e as tripas do macho à mostra. Quando entraram ambos, ele e o animal, naquele estado em Fronteira, parecia que o mundo se ia acabar ali." (3) Não se acabou o mundo, mas pouco tempo depois desabaram as fronteiras.

(1)Contrabando, Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, Hijos de J. Espasa, Editores, Barcelona, tomo XV
(2)Torga, Miguel, Novos Contos da Montanha, 3.ª edição, Coimbra, 1952,pg. 26
(3)Idem, idem

 

AS LAVADEIRAS DO LIMA


Lavadeiras

Lavar no rio foi uso antigo. O nosso rei trovador deixou esse quadro a bailar numa cantiga de amigo: "Levantou-se a bela; /rompe a alvorada; /vai lavar camisas/no rio:/lava-as de alvorada. //Vai lavar camisas; /rompe a alvorada; /o vento lhas desvia/no rio:/lava-as de alvorada. //Finas peças lava..."

Mais tarde é a vez das lendas, dos textos românticos, da pintura, da fotografia, da dança, do fado e do cinema registarem o folclore que rodeava o povo a lavar na água que corre. O rio foi o ganha-pão de muitas mulheres que lavavam para fora. O pouco que arrecadavam dava para o sabão, para a sopa, sardinhas, broa e vinho. Iam a casa das freguesas buscar a roupa, contavam bisbilhotices, inventariavam tudo com discernimento: "Três corpetes, um avental/Sete fronhas e um lençol/Seis camisas do enxoval/Qu'a freguesa deu ao rol".

Essas antigas lavadeiras tinham galhardia na arte de desencardir os trapos: cobertas, toalhas de mesa, guardanapos, calças, lenços, ceroulas, coletes, fatos, linhos ou rendas ficavam sempre com um aspecto impecável. Nada de nódoas ou sujidades, nada de puídos ou rasgões. Tudo isso à custa de muito esforço! Para quê contar os pormenores malfadados dessa vida de trabalheira? Elas sempre se foram acadimando ao sol do verão e à ventania do Inverno. Pior do que esse vento que soprava de todos os lados era a água gelada e os malditos unheiros. Mas cogitassem lá o que cogitassem, era tão raro vislumbrar um ar carrancudo, um queixume, um lamento. Só de vez em quando é que resmungavam contra os dias de chuva ou doença de languescer em casa.

Vi ainda muitas dessas moças, enroupadas nas suas saias de chita meio arrepanhadas, com as trouxas de roupa à cabeça, os caixotes de lavar afincados aos quadris, numa esteira de aromas voluptuosos. Atravessavam as ruas da vila como lavandiscas. A vizinhança via uma ou outra a passar, quase sempre descalça, e perguntava só por perguntar:

- "Aonde vais, Inês?"

- "Vou aproveitar este bocanho!" 

Vejam só a sapiência contida na resposta! E consoante a cara do tempo iam bamboleando ligeiras ou vagarosas em direcção ao areal. Aí os cenários desdobravam se em sinfonias de cores, de sons, de espumas e de fragrâncias. As lavadeiras ficavam de joelhos e alinhavam se em grupos bairristas, pândegos, festivos, tagarelas e mexeriqueiros ao longo das extensas margens do Lima. Conversavam. Coscuvilhavam. Segredavam. Riam e cantavam ao despique umas com as outras ou todas em coro desaustinado: "Água leva o regadinho, água leva o regador/Enquanto rega e não rega, vou falar ao meu amor/Água leva o regadinho, água leva e vai regar/Enquanto rega e não rega, ao meu amor vou falar." A música saía da aragem, das folhas dos salgueiros, do rumor da água ou do chilrear de um pássaro e os corpos ondulavam ao ritmo daquela roda viva: molhar a roupa, jogar na barrela ou ensaboar, esfregar, chapinhar, torcer, bater, enxaguar. Depois deixavam a roupa lavada dependurada no varal para secar ao sol ou ao vento. Era então que a paisagem limiana resplandecia de cores e de assombro.

 

O haikai na poesia de Luís Dantas

1.

inútil dizer-te  que   o amor   é
a colheita abundante das mãos

2.

vamos envelhecer de amor
com  música  e  sol  e aves
como os cascos dos navios

3.

sofre-me nas mãos, o rosto
tão  próximo   das lágrimas

4.

não foi o corpo  e tu
bem sabes  rapariga:

deitei-me apenas ao
lado dos teus olhos

Bolero-Bar, Luís de Sousa Dantas, Edição de Autor, 1974

 

«... Bocage tem, se não no sangue, ao menos na cultura, a herança da serenidade clássica, misturada ao tumulto romântico que as condições da sua vida lhe agravam no temperamento...»

Hernâni Cidade

Bocage no seu tempo

Terminada a sua aventura no Oriente, (...) Bocage chega a Lisboa em 1790: "após o desembarque, precipita-se no desregramento em que se transforma a sua vida" (1). Começa a acamaradar "com súcia, ou grossa, ou fina" (2): fidalgos, janotas, rufiões, boleeiros, forcados, picadores, alvisseiros, espadachins, poetas, fadistas, pingões, catraieiros, pescadores, aguadeiros, marujos, calafates, amoladores, contrabandistas e tocadores de viola. Corre Lisboa de lés a lés, agasalha-se nas tabernas da Ribeira ou nos botequins da Baixa, e sucedem-se as noitadas de tertúlias, fumo, trabuzanas, genebra, ponche quente e pichéis de vinho. "Enche Lisboa de sua fama e as locandas de suas tunantadas." (3). Sem vintém na bolsa, com "ceia casual, jantar incerto" (4), vagueia ao acaso, vai à igreja, não à missa, aperta os dedos da mulher eleita na pia da água benta, espreita janelas e postigos, não lhe dá para namorar de estafermo. "Devoto incensador de mil deidades/ (Digo, de moças mil) n'um só momento" (5), tem sonetos prontos para deslumbrar as mais inocentes e formosas. Muitas vezes, acusado de sedutor obstinado, trancam-lhe as janelas. No vaivém das alcoviteiras, em vão suspira ou acende de fantasias as suas rimas:

"Não dês, encanto meu, não dês, Armia,
Ternas lamentações ao surdo vento;
Se amorosa impaciência é um tormento,
Com ledas esperanças se alivia:

A rigorosa mãe, que te vigia,
Em vão nos prende o lúcido momento
Em que solto, adejando o pensamento,
Sobe ao cume da glória, e da alegria:

As fadigas d'Amor não valem tanto
Como a doce, a furtiva recompensa
Que outorga, inda que tarde, aos ais, e ao pranto:

Amantes estorvar, que astúcia pensa?
Tem asas o desejo, a noite um manto,
Obstáculos não há, que Amor não vença." (6)

E quando não se abrem as portas das traseiras, vai recitar cantatas para os becos ou colinas, terreiros ou salas de café. "Ao dispor-se para improvisar, recostava-se a qualquer móvel, em completo alheamento de quanto o rodeava. Começando a recitar, ao fim de pouco, todos o julgariam interiormente habitado pelo demónio da poesia, que de todo ele se apoderava, agitando-o como energúmeno, de pé sobre o banco, os olhos em brasa, o gesto em delírio e dos lábios, ininterrupto, o facílimo fluir da melodia maravilhosa, rolando imagens brilhantes, irradiando de calor comunicativo, num crescente empolgamento de quantos o ouviam." (7). Os amigos enchem-no de aplausos e têm de lhe valer pagando por ele nas lojas de comida e nas de bebida.

(...)

"Bocage tem quarenta anos de idade e mais de vinte de genebra e de noitadas, como etapas que vão do Bairro Alto ao Rio, à Rua das Violas, e passam pela surra de Surrate e pelos pangaios de Cantão até virem arder outra vez na poncheira do Botequim das Parras. Sobre isto, uma dilatação da aorte (num frenesim permanente...fumaças consecutivas...esta Lisboa ladeirenta a subir todos os dias). Enfim, declarado um aneurisma, tem de ficar de cama. É um farrapo." (16). Os amigos vão vê-lo. Um deles, Henrique José da Silva, fez-lhe o retrato. Esse bosquejo compadecido leva ao sublime as amizades constantes e os quadros dramáticos da vida efémera. Está escanifrado, a tiritar. O olhar esvoaça por cima dos amigos, da irmã e dos amigos em vigia permanente. Sentado no leito, os cabelos compridos, a morte a rondar-lhe o quarto, o braço esquerdo desfalecido e o outro, num gesto ténue, acompanha ainda um dos belos improvisos que o Morgado de Assentis escuta e reproduz: "Já Bocage não sou!..." (17)

(...)

Em 21 de Dezembro de 1805, morre. Nas ruas de Lisboa, apregoava-se e vendia-se a cruzado novo centenas de exemplares do Improviso de Bocage (...)

"Ironia de um destino infeliz que se prolongou para além da morte, Bocage é hoje ainda para o rural analfabeto da mais remota aldeia, para o garoto precoce das ruas, para a regateira dos mercados de Lisboa, apenas um grande farsola, descarado e vadio, que dava respostas a tempo e tratava as coisas pelo nome." (18).

Texto extraído da obra "Bocage No Seu Tempo", Luís Dantas, Edições Ceres, Lisboa, 2000

 
NOTAS
(1)   Cidade, Hernâni, Bocage - A Obra e o Homem, 
(2)   Bocage, Obras Poéticas, Vol. I, Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1910
(3)   Martins, Rocha, Bocage, Episódios da Sua Vida, Lisboa, 1936
(4)   Bocage, obra citada
(5)   Idem, idem
(6)   Idem, idem
(7)   Cidade, Hernâni, Bocage, Livraria Lello & Irmão, Editores, Porto, 1936
(16) Nemésio, Vitorino, Vida de Bocage, Bocage, Sonetos, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1943
(17) Bocage, obra citada
(18)Lemos, Esther de,Bocage,"Antologia Poética", Verbo, Lisboa, 1972