Lenda
Ridamar BAtistaa
Alem do horizonte azul
onde o arco-iris brilha
em cores e matizes de luz
um pássaro sem asas
numa manhã doirada de sol
me prometeu amor.
Acetei.
Amar é um ventura
feita de sol, céu e luz
e num abraço protetor
meu corpo se fundiu
e minhas asas doei
e meu pássaro encantado
voo...voo... e se perdeu
de mim, de nós.
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Primavera
Ridamar BAtista
Nestas manhãs primaveris
enquanto as flores caem
num bailado delicado
a passarada plena de alegria
de cada himineu
vão fortalecendo laços
em cada encontro
flores e terra
vôos e abraços
cantigas auspiciosas
todo meu cerrado em festa.
São manhãs primaveris
bordando de tons e sons
tudo que exala da vida
e explode de cada um
nos respingos de chuva branda
nos doirados do orvalho matinal
nas folhas verdes que dançam
em cada galho balanço
brinquedo de aves e flores
e meninos cheios de amores
em risos alegres e sãos
fazendo e tecendo momentos
que jamais esquecerão
gravados na alma sedenta
a imagem feliz desta vida
repetida nas primaveras
que bailam num ritmo só
trazendo flores ao vento
no som de pássaros e gente
que sabem entender o passo
dos dias que vem e vão...
"Ser livre é querer o que se pode - Jean Paul Sartre -
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Dois mundos
Ridamar BAtista
Entre dois mundos, um sutil encontro
tênue linha de divisão
num etéreo encontro arrepios
sentimentos de sonhos ou não
uma vontade louca de ser e não poder
um leve tocar de mãos sem se entender
uma luz clareando a solidão
de movimentos soltos desatados
na hora derradeira do perdão.
Dois mundos tão distantes
uma incompreensão
uma vontade enorme, uma ilusão
duas almas juntas... união.
Onde estamos nós, desamarrados
voando nesta eterna amplidão
buscando um ao outro, oh! sortilégio
oh! desventura imensa, esta escravidão.
Correntes atando nossas vidas
nos laços soltos, oh! perdida!
a luz de seu olhar no meu refletida
uma saudade imensa
uma partida
esta busca insessante de nós dois.
"Ser livre é querer o que se pode - Jean Paul Sartre -
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Final da novela Caminho das Indias... um show de beleza, imagens, encantos e o canto mavioso de nossa eterna "Maria Betania"...
O Que É, O Que É?
Composição: Gonzaguinha
Eu fico
Com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...
Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz...
Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita...
E a vida!
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida
De um coração
Ela é uma doce ilusão
Hê! Hô!...
E a vida
Ela é maravilha
Ou é sofrimento?
Ela é alegria
Ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão...
Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo...
Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor...
Você diz que é luxo e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer...
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte...
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...
"Ser livre é querer o que se pode -Jean Paul Sartre -
"Ser livre é querer o que se pode -Jean Paul Sartre -
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O silencio se expande em ondas que gritam dentro de minha cabeça.
Fico quieta, meus movimentos se tornam letárgicos, estou como se numa câmera lenta...
Sentada nesta cadeira olho o céu azul se misturando ao grande lago e o verde que me envolve nunca foi tão verde como hoje.
Um contraste de tristeza e alegria forma uma onda gigante que vem quebrar aos meus pés.
A espuma branca parece bolha de sabão e me leva de volta a tempos de menina.
Entre o lá e cá nem sei dizer se foram tempos perdidos, mas a sensação é de solidão e angústia.
Por mais que se renove a vida, fica uma estrada para trás e não se pode ignorá-la. É a minha vida. Foram os meus dias passados a limpo ou não que fizeram de mim esta caminhante rumo ao amanhã..
Ele virá?
O ontem se foi?
E agora? que faço aqui, olhando o nada e tentando não pensar no amanhã e sequer lembrar o ontem.
Agora me resta esperar que alguém me tire desta pasmaceira e me chame para almoçar.
É sempre assim, quando estamos muito introspectiva ninguém tem coragem de nos tirar da cena dos pensamentos a não ser por algum motivo bem sério... como por exemplo: almoçar.
Enquanto isso, leio alguma coisa de um livro qualquer somente para que pensem que estou me distraindo, na verdade me escondo por detrás das páginas do livro para evitar qualquer conversa importuna.
O ontem se foi?
E então porque ele insiste em me rodear nesta manhã de sol e de céu azul?
O passarinho canta e eu respondo com um assobio. Ele volta a cantar. Ficamos assim, um a imitar o outro, como se pudéssemos entender esta linguagem.
As lembranças teimam em rondar meu coração.
Procuro afastá-las para não sofrer. São saudades! e saudade é sentimento matreiro, vai chegando disfarçada em lembranças e depois apunhala o peito... Não a quero sentir mais.
Não, o ontem nunca vai embora. Fica ali, nos espreitando, sempre pronto para voltar, na lembrança, na saudade e em tudo que nos cerca.
Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.
(Pablo Neruda)
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O amor ( desconhecido)
Ridamar Batista
Uma busca de palavras vãs
Um ai, um sentimento, um quase nada
Uma esperança, um amanhã
Quem sabe, uma alegria
Uma felicidade, uma mentira
Nós dois andando mãos dadas
Numa calçada qualquer
Uma caminhada
Uma esperança inútil
Talvez uma jornada
Uma busca de alguém
Quem sabe uma ansiedade
Você meu sonho, uma fantasia
Aquele alguém que quis
Alguém que construí
Alguém que foi e nunca conheci
Você um sonho nunca concluído
Sonhado e jamais reconhecido
Você o amor mais que buscado
O sonho mais que sonhado
Alguém que não pude encontrar
O amor por mais que quis
Nesta vida encontrá-lo
E que nunca, nunca
Jamais pude vive-lo.
"Deus move o céu inteiro naquilo que o ser humano é incapaz de fazer. Mas não move uma palha naquilo que a capacidade humana pode resolver" (Ditado Oriental)
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Feiticeira
Ridamar Batista
E sou astrológica
Simbólica
Astral
E gosto das crenças
Dos saberes
Das ancestralidades
Sou mágica
Sou bruxa
Sou feiticeira
Gosto da lua
Principalmente cheia
Gosto do sol
Em solstícios e
Em equinócios
E sou mágica
Sou um pouco de tudo
um pouco de nada
E gosto das fogueiras
Dos dias ensolarados
Gosto das coisas naturais
E sou assim meio que fada
um quase nada
Sou uma mulher esquisita
Creio em tudo
E não creio em nada
Cada dia para mim
É apenas um dia
Cada hora, uma hora
E quando você diz que me quer,
Eu sou apenas a sua amada.
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Ida
Ridamar Batista
Amanha, quando uma nuvem passageira
Levar-me pra bem longe
Uma lembrança suave hei de deixar
Meus versos simples, minha singeleza
Minha maneira adocicada de falar.
Hão de lembrar-me os caminhos todos
Floridos ou não, meu fantasiar
O mar revolto, os cabelos seus
a cor do mato, esse seu olhar
as folhas secas colorindo estradas
o azul do céu, meu enfeitiçar
a lua branca, o Cruzeiro do Sul
levarei tudo quando eu voar
vou buscar meus sonhos
todas as quimeras
Viajar, viajar e viajar
Correr montanhas, cavalgar o vento
Em risadas soltas, assim me alegrar
Serei tão leve como o grão de areia
Imperceptível como o sonhar
Deixarei lembranças, algo de saudades
Quando amanhã a nuvem me levar.
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A louca...
Ridamar Batista
Louca, louca não sou
mas jogo pedra na lua
e se a lua reflete na água
mergulho de cabeça
perco o senso, fico nua.
Rasgo dinheiro e queimo
na fogueira de mim mesma
as chamas lambem o céu
e o sol fica vermelho
pura vergonha de mim.
Louca de pedra não sou
só agrido se preciso
pura defesa que faço.
Talvez eu seja insensata
mas louca, louca não sou.
Sou apenas um pedaço...
Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo. Oscar Wilde
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Deixado para depois...
Ridamar Batista
A próxima vez que voce me ver
terei tranças grandes como Rapunzel
meu sorriso será um parêntese
aberto nas bordas da boca
como querendo explicar
o que nunca foi falado
a felicidade tão frágil como a gota
de orvalho numa pétala de rosa
a esperança apenas asas verdes
voando em torno do pensamento
e a vida, um caminho longo
coberto de folhas amarelecidas
o olhar esbranquiçado
coberto pela nuvem
do silêncio e da saudade.
TEMPO DA TRAVESSIA
"Há
um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma
do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos
mesmos lugares. É o tempo da travessia…... e se não ousarmos fazê-lo
teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
Fernando Pessoa
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..." E o coração de quem ama
fica faltando um pedaço
que nem a lua minguando
que nem o meu nos seus braços..."
Djavan
Eu
Ridamar Batista
Eu sou assim
uma canoa velha
cansada de navegar
um velho Jatobá
feito veleiro
feito navegante
em águas revoltas
levando a alma
de pobre sonhadora
sou um casco velho
em busca de uma praia
um porto seguro
ou não...
uma viagem sem rumo
uma aportagem qualquer
um lugar onde ficar.
Meu campo magnético
meio descompesado
minha rota tão desfeita
meu ponto de partida perdido
no horizonte colorido
de meu arcoiris
desfacelado
em cores sem matizes
sou um ser perdido
no mar revolto de mim mesma
por conta de amores desfeitos
no caminho de mim.
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Em estado de eclipse
Ridamar BAtista
Esta é a história dos que amam
e não são prometidos
O encontro é fruto do acaso
da imaginação e do sonho
Mas e porque não sonhar? esperar? iludir?
Assim é o eclipse.
Às vezes acontece.`
Nós acontecemos...
No fogo do cio
às escuras da vida
no esconderijo quente de nós.
Voce se funde em mim
embora seja tão depressa
acontecemos porque acreditamos.
E nos respingos liberados
da essencia de seu gozo
alimento minha inspiração
Faço voce feliz e pronto.
Desapareço...
"Gosto dos venenos os mais lentos!
As bebidas as mais fortes!
Dos cafés mais amargos!
E os delirios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
E daí
eu adoro voar!!!
C. Lispector
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Dar um tempo
Ridamar Batista
Dar um tempo, retroceder
ou buscar novo rumo
são atos ou fatos
que distanciam, separam
desatam os nós.
O compromisso fica folgado
o exercício do amor dissolve
em brumas espessas e cegas
os braços se afrouxam
os abraços se perdem
se calam os lábios
o beijo vira uma lenda,
porque dar um tempo
é desamar, desenrolar ou derreter
apagar o fogo que impulsiona
o coração que bate forte.
Buscar novo rumo
quem sabe novo horizonte
onde as franjas imaginárias
serão icógnitas ou falsas?
Dar um tempo no amor
é quase desistir
da chama que resta ao peito
do direito de ser feliz.
Entrar dentro da ausência
num sentimento de perda
recolher à insignificância
perder toda esperança
e voltar a ser tão só.
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Luar
Ridamar BAtista
Somos como um raio de luar
em noites de lua nova clareamos
um poente se desfazendo
em nuances deslumbrantes
num rajar de cores fortes
se nos deixam clarear.
Somos um raio de luz
numa noite de luar.
se a lua aparece tristonha
por entre brumas espessas
somos como gotejar
de orvalhos entrestecidos
numa noite de luar.
e quando a lua cresce
brilhando por entre janelas
somos olhares furtivos
de enamorados perdidos
nas noites de luar.
nas noites de lua cheia
nos morros escurecidos
somos como os amantes
tentando se esquivar.
Cada lua nos fascina
esta será nossa sina
vagar em cada esquina
num grito desesperado
buscando o nosso encontro
sabendo que nos custa tanto
voltar a nos encontrar.
igual que lua minguante
fico cada vez mais distante
de seu meigo olhar.
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Dois rios ( Dois amantes)
Ridamar Batista
Dois
rios com alegria resvalam por entre as pedras, cantando uma sinfonia
ouvida por todo quêniun e cantam assim felizes por estarem certos
que vão se encontrar no caminho.
De
cima daquele morro, sentados na laje da encosta os dois ciganos
descansam, enquanto felizes contemplam a imagem tão bela
daquelas paragens sem fim. O sol bate nas pedras ao entardecer e o
colorido das flores revela todos os tons.
São namorados da vida, de mãos dadas trocam olhares na certeza do amor.
Ela
vestida de seda, um lenço vermelho na cabeça e outro
cingindo o ventre, nos pés a sandália bordada, nos
braços pulseiras doiradas no olhar a ternura profunda de quem
sabe ser amada.
Olham
o verde esperança, enlaçados pelo abraço de toda
entrega sincera, doação dos sentimentos.
Como
os dois rios, se fundem e perdem a identidade para correr no infinito
em busca de um mesmo momento, vislumbram do alto do queniun a entrega
das águas que se encontram numa cantiga eterna, mostrando a
grandiosidade da vida.
A
companheira silente, bebe com entusiasmo a sabedoria do amante, que vai
lhe ensinando aos poucos o que há de mais sagrado.
Fecham
os olhos e sonham diante da imensidão. É tão belo
o momento que o silencio é preciso. Apenas o som das
águas faz o sentido de tudo.
Nascidas
em cima do morro, correm cantando felizes e vão em busca do mar.
Conhecem os desafios, sabem que é longo o caminho e o quanto
é mister resvalar. Porem a força da vida empurra as
águas pra frente sem que temam o caminhar.
Assim também os amantes, dois ciganos errantes, vão em busca do destino.
Param
de vez em quando. Ele sabe cada canto onde a natureza foi
pródiga para enfeitar o caminho. De camisa vermelha,
lenço amarrado ao pescoço, botas até os joelhos,
atento a cada sinal, leva a moça pelas mãos e num gesto
de carinho, descem o queniun devagar. Lá em baixo as
águas rolam, cantando sem parar.
Sabem viver cada dia, sem ansiedade ou agonia, certos de que vão chegar ao ponto de suas buscas.
Estando
longe ou perto o coração bate certo, cumprindo o mesmo
tom, como as águas dos riachos, cantam para alegrar o vale, uma
canção de amor.
Levam
ternura nas almas por onde tem que passar. Seguem de mãos dadas,
serenos pelas estradas, como os rios para o mar. Alimentam seu caminho,
ladeando de carinho e dando vida a quem passar. Ao correrem por este
leito, carregam o alimento no peito e semeiam
compreensão.São caminheiros do mundo e aprendizes da
vida. Sem destino e sem norte, vagam pelos caminhos, levando em seu
cadinho uma pitada sorte.
Confiam
em sua estrela, o sol durante o dia e a lua brilhando a noite. Dormem
sobre a relva, bebem na mesma concha e fazem a vida bela.
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Horas que passam
Ridamar Batista
Das sutilezas da vida
impera cada momento
num frágil agilizar
de cada pensamento.
E vamos compondo as horas
em leves sonhos pensados
como quem refaz trabalhos
como quem compõe a arte
em cada palavra dita.
O momento acontece
fulgaz como asas ao vento
e num plainar delicado
se pode escolher o pouso
sabendo entender que somos
aquilo que mais queremos
na transmutação eterna
do passo de cada momento...
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Para fazer feliz alguém
Ridamar Batista
Eu
preciso te amar de manhã cedo, de mãos dadas caminhando
feliz por sobre a relva molhada dos pingos de nosso amor consumido
durante a noite.
De passos lentos e corações em disparada, sentir o doce
de seus lábios enquanto o sol desponta no horizonte colorido de
meus sonhos.
Pisar tranquilamente o chão sabendo que nada mais pode acontecer
que não seja o abrir generoso do escrínio cósmico,
derramando sobre nós o tesouro de nossas certezas.
Amar cada momento num abraço musicado pelo compasso de seu caminhar.
Ouvir silenciosamente o ritmo de seu sussurro enquanto o riacho corre e leva todas as dúvidas para bem distante.
Dar a volta em cada pedra do caminho e abençoar a terra que nos acolhe.
Quero te amar intensamente como se fosse a única vez e deixar-te
saciado de um bem querer incomensurável e duradouro.
E sentir de ti a seiva que alimenta a ternura que propaga como o vento alegre de cada manhã de abril.
Voar no pensamento simbiótico de nós e construir a paz que nunca tive.
Descansar da lida acolhida em seus braços e meditar com Deus a ventura imensa de ser tua mulher.
Assim quero amanhecer te amando a cada instante, no correr das horas caminhantes.
Forjar as franjas doiradas do tempo num delírio de cores e de
sons tão lúdicos quanto verdadeiros e navegar a vida como
quem tira férias.
Vou perfumar as mãos para colher estrelas e pratear seu mais sonhado anseio.
Ungir teu corpo de poderes mágicos e deixar-te em sonhos
divinais. Fazer de ti um rei de tronos majestosos, dar-te
exército fiel aos teus comandos.
Fazer-te dono total de meus domínios, entregar a ti todo tesouro que meu ser reserva.
Serás um rei de noites musicadas, em que violinos gemem notas
das esferas e acalenta o sono que te espera.
Serás o dono das cavernas, onde Ali Babá conserva todo ouro.
Tu e somente tu saberás o segredo de meu “Abre-te
Sésamo”! e te farei colher o mel de todas as
delícias, numa manhã em que contigo, andarei por relvas
orvalhadas.
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Ciume
Ridamar Batista
A tortura lenta do ciume
vai minando a alma
os sentimentos bons
vão acabando comigo
sempre tão autentica
vou me consumindo
na dor profunda dos ciumes.
Ai! que tortura cruel
que delírio torpe
que insensatez.
Busco confusa
nas mais arraigadas crenças
vou fazendo da vida
uma volupia louca
vou mentindo para mim mesma
na perturbadora e insana crença
de que posso viver assim.
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Nascedouro de amor
Ridamar Batista
*" ...água de regaço que nunca foi cascata..."
Geraldo Soares de Farias.
Como a nuvem que forma sem chover
Como o vento que passa e não se vê
Como o canto sufocado na garganta
Como o estertor vivo que não quer morrer
Como “água de regato que nunca foi cascata”
Como sombra que teima em não ser
Como o riso que morre sem nascer
Como o tempo que passa sem se ver
Como tudo que se quer sem nunca ter
Começo querer amar voce…
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Um ser andrógino
Ridamar Batista
Cantam que por aqui passou ha muito tempo, um ser andrógino
capaz de encantar a homens e mulheres, crianças, animais e
pedras.
De beleza tão rara e de um cantar tão triste que fazia chorar as águas do rio.
Quando
ele se punha a solfejar seu canto de angústia e de saudade,
ás águas em tumulto faziam redemoinhos
indescritíveis e balançavam formando ondas que se
quebravam nas margens soltando um cheiro de peixe que todos podiam
sentir, como se cardumes em alvoroço também estivessem
ouvindo a vós daquele homem.
Cada
nota de seu canto evadia em ondas coloridas e formavam arco-íris
com as partículas de gotas da água do rio que evaporavam
em descompasso, dançando entre as pedras e transformando em
figuras desconhecidas.
Depressa o povo alvoroçou.
O
comentário a boca pequena começou a correr. No mesmo grau
de encanto e deslumbramento também surgia o medo e a inveja.
O ser andrógino sabia falar muitas línguas e conhecia a teoria de muitas crenças.
Não
demorou nada para ser chamado de feiticeiro, aplicava seus
conhecimentos em curas estranhas e tinha o poder de tirar a dor apenas
com a aposição das mãos. Conhecia o poder das
ervas, das cores e dos sons para usar na cura das doenças.
Dentro de uma comunidade simples de gente pobre, logo foi chamado de Bruxo.
Nunca
se incomodou com os comentários. Estava acima de qualquer
opinião. Era um ermitão em total silencio, apenas abrindo
a boca para falar o imprescindível e para cantar seu canto de
tristeza profunda.
A voz mais parecia um veludo, que adentrava os ouvidos numa espécie de hipnotismo.
Enfeitiçou.
Veio
o turbilhão. Maledicências, acusações,
insultos, denúncias falsas e expulsão da vila.
Saiu
como havia chegado. Nada trouxe a não ser a maviosa
canção que entoava sempre e nada levou senão a si
mesmo e seu canto.
Vagou
por aqueles ermos sem fim. Vagou cantando e seu canto de tão
triste ia se repetindo por entre as pedras do vão dos morros e
cada nota sonora ia se transformando em pedras e mais pedras.
Conta-se que foi assim que o ermo sem esperança de progresso se transformou numa verdadeira mina de pedras preciosas.
Ainda
hoje, quem vive por lá tenta repetir seu canto. As
crianças já nascem querendo tocar algum instrumento
musical e aqui e acolá nasce um poeta cheio de dor e de saudades.
Os
boêmios se multiplicam e a música ecoa por entre os morros
no som das cachoeiras que abundam por aquelas terras.
Uma
verdadeira magia. Dizem que quem dorme no alto de algum dos morros que
rodeiam a cidade ainda pode ouvir seu canto e até mesmo ver seu
vulto a caminhar sozinho e a encantar os pássaros.
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Medo
Ridamar Batista
Oh! poça d'agua refletida
no poço profundo da visão difusa
espelhada na busca inutil
da verdade incontida
no espasmo do vento
que rodopia insano
numa corrente de angústias e dor.
Oh! pingo dágua umidecido
nas bordas do seio
que alimenta e que desfruta
que é descanso e cansaço.
Molha-me e sustenta minha sede
que a vida escorre de mim
com tanta pressa
que um furacão se forma
na corrente morna de meu sangue
e não responde perguntas
e vai devastando estradas
e removendo a lama
dos conceitos maditos
que fizeram de mim
uma mulher com medo.
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Anseios
Ridamar Batista
Como véus reluzentes leves
Dançam ao vento borboletas
E lambe o tempo cada chama
A iluminar o rosto de quem passa.
Febril cintila o fogo dentro dalma
Igual a luz que brilha nesta lâmpada
Aquece em volta, queima o cetim
E não se queima e nem se apaga.
Vai dando luz à escuridão tamanha
Vai aquecendo outras almas estranhas
Mas não conhece seu próprio ardor.
Oh! Fogo, este que me arde
Dentro do peito, este solitário
Em busca de outro sol que venha
Juntar a mim, trazer mais lenha
Formar em nós este braseiro
E abrigar em sua alma o sonho
E transmutar em mim
Os meus anseios.
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Passeio matinal
Ridamar Batista
Uma conchinha cor de rosa rolou faceira sobre meus pés, puxada pelo refluxo da onda.
Olhei pensando em apanhá-la para guardar com as outras tantas
que carrego de todos os mares por onde andei.
Naquele momento pensei que seria mais bonito se a outra metade da concha viesse junto.
Assim eu não levaria uma concha mutilada.
Mais parecia a asa quebrada de um anjo.
Tão rosada era que pensei, deve ser uma anja.
Só podia ser. São as anjas que costumam quebrar suas asas.
Ou quem sabe alguma fada brincasse de barquinho com aquela concha? Sei lá.
O brilho de madripérola sempre me encantou.
Olhei ao longe o mar revolto me dava medo. Não tive coragem de
entrar, as ondas estavam altas e não me eram convidativas.
O mar aberto assusta e a maré estava muito alta. Segurei a minha onda.
Com um olhar meio tristonho deixei que onda tragasse de novo a minha concha cor de rosa.
Não a levaria para casa.
Apressei o passo, a manhã já se fazia quente e eu estava
sem protetor solar. Nestas alturas da vida, melhor tomar cuidado.
Eu me sentia bem entre a brancura da areia e o verde que me cercava por todos os lados.
Era a primeira vez que estava numa praia onde a cidade fica escondida
por uma orla totalmente verde. Os prédios estão longe do
mar, a avenida respeitada por largos calçadões e logo
depois a plantação beirinha.
Muito bonito mesmo.
Do calçadão imagina-se uma praia deserta e quando se vai
aproximando, está tomada pelos banhistas de férias. Na
maioria estrangeiros ou melhor, argentinos.
A pousada onde estou, é um castelinho de quatro andares. O
telhado lembra as casas européias, são triangulares,
porque assim se a neve for muito forte no inverno, não pesa
tanto, escorrem e não danificam o teto. Muito bonito. Com o
afunilado do teto, vão criando novos quartos até que o
último seja apenas um, aí a decoração fica
mais aconchegante, mais romântica e mais convidativa, só
para dois.
Uma janelinha enfeitada de flores naturais, aqui se planta muito os
gerânios, porque são fortes e aguentam bem tanto o inverno
como o verão sempre floridos.
Uma cortina de renda branca com dois cisnes nadando lado a lado e
formando um coração com os bicos encostados um ao outro.
Lindo!
Os descendentes europeus são delicados. As mulheres costumam ser
boas artesãs. Bordam as toalhas de banho, fazem crochê que
são verdadeiras rendas e gostam de flores por toda casa.
As pousadas são bem familiares, misturando seus donos com os
hóspedes. À tarde sentam na calçada de suas casas
e proseiam com todos que passam.
As crianças loiras e de olhos azuis parecem anjos com seus cabelos cacheados e compridos.
Uma terra aprazível de estar.
Enquanto eu ia pensando nestas coisas de novo senti o roçar de
algo nos meus pés. Outra conchinha rosa me chamou a
atenção. Esta agora não me escapa. Abaixei e
peguei a concha. Olhei em volta e já estava bem distante de meu
ponto de partida, dei a volta e segui minha caminhada até
encontrar um local onde as ondas não estavam tão fortes.
Mergulhei no mar e abençoei-me por ser tão feliz.
Do Livro "Sete véus caídos" de Ridamar Batista em breve na NET
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Fogo de palha
Ridamar Batista
Eu
precisava abandonar aquele porto seguro, mas precisava para tanto um
motivo visceral. Briguei com o mundo, inventei desordens dentro de mim,
eu mesma deveria me expulsar.
Foi o que fiz.
Mas
como aportar em outro ninho?Num novo ninho tão velho quanto as
minhas reminiscências porem tão estranho como meu
próprio eu?
Teria que criar motivos. Criei.
Teria que encontrar prazer naquilo que me esperava. Encontrei.
O
prazer tem nome, endereço e CPF. Move-se, fala e pensa e mais,
faz-me um bem danado. Somente um defeito, é homem, e lembrando
um pedaço da história da Branca de Neve, que eu ouvia
quando menina pude fazer uma paródia.
Havia
no meio da história uma fala que vinha do anãozinho
Zangado. Quando os anões entram na casinha minúscula e
encontram Branca de Neve deitada na cama do Zangado, um dos
anõezinhos, o Feliz, exclama:
___Que linda!
O que imediatamente Zangado responde:
___Mas é mulher e as mulheres são falsas…
Tal e qual… penso eu dos homens. Talvez nem seria falso o adjetivo usado por mim, manipuladores quem sabe cairia melhor?
Manipular mentes humanas chega ser até chic, uma arte. Eu o chamaria artista.
Mesmo correndo riscos, mergulhei fundo, perdi a cabeça. Experimentei.
Era-me no momento substancial.
Minha única maneira de sobreviver num ambiente que tanto se mostrava inóspito.
Seria
o que eu posso chamar de melzinho na chupeta. Um premio de
consolação que estava dando a mim mesma. Um
empurrãozinho para frente quando por acaso eu quisesse
retroceder. Um brinquedo inocente.
Na verdade eu nunca soube quem esteve usando quem…
As
luas foram se sucedendo, uma por uma, as via subindo no céu.
Contei-as todas. Ora feliz, ora descontente. Ora certa daquele
amor, ora descrente até de mim mesma.
Fui
deixando meu campo minar. Fui baixando a guarda. Desarmada de mim, de
nós. Fui imprudente. Brincar com fogo tem seus perigos e muito
mais, fogo de palha. Afinal ele deveria ser o brinquedo e
não eu.
Assim, como diz o conselho do dia…
“Um
amor imposto é um fardo para o amado e para o amante. O segredo
está em despertar o amor dentro de voce, pois este contagia e
seu perfume embriaga quem estiver por perto.”
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Enfeitiçada
Ridamar Batista
Que as noites sejam tão claras
Que as horas sejam tão minhas
Que eu possa fitar andorinhas
Voando pelo céu
Que os sentimentos eclodam
Sem pressa de se fazer
Que eu possa sentir a ternura
De todo o meu querer
Deixado em semeadura
Pelos caminhos doirados
Por onde teus passos pisaram
Segurando em minha mão
Que a lua clareie a estrada
Que a terra seja pintada
Com as cores que Orestes criou
Para enfeitar a doçura
da embriagues tão pura
Deste amor que me enfeitiçou.
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Metáfora
Ridamar Batista
Perder a cabeça por amor
se posso usar esta metáfora
de ser e fazer loucuras
sem medo da guilhotina
já que nem sou rainha
e nem tenho tronos de meu,
sou apenas a fêmea faminta
que saceia a fome de amor
nos braços de quem me queira.
Perco a cabeça e o rumo
perco meu chão e meu céu
rasgo minha capa de véu
e me desnudo toda.
Mostro sentimentos ocultos
em frases desvirginadas
sussurros sentidos e soltos
entrego o gemido tolo
quando me roças a pele
e vibro com a alma leve
no compasso de teu abraço
invasivo e sem pudores.
Sinto tua alma leve
na ternura de meu beijo
invado segredos profundos
e te faço perder a cabeça.
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Primavera
Ridamar Batista
Debruçou o olhar no horizonte azul
Um vento quente balançou-lhe
Os galhos ressequidos
Fantasiou uma nuvem que chovesse
E no profundo de suas raízes
Sentiu medo da sede.
Titubeou um pouco sonolenta
Ao balanço de seus galhos
E então para ser diferente
Inventou a flor.
Toda vestida de pétalas
Envaidecida e bela
Voltou a olhar o horizonte azul
E chamou o tempo Primavera...
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Simbiose telepática
Ridamar Batista
Este vento que sopra sorrateiro
murmura e chora em desespero
a falta que tu me faz
Tuas mãos afagando-me ligeiras
teus carinhos sempre meus
e úmida, e quente e lasciva
entrego-me a ti sem medos
a carne pronta para o prazer
ouço tua voz a sussurrar no vento
teus dedos a desalinhar meus pelos
e tua carne dentro de mim.
Somos apenas uma simbiose
telepática, mental e etérea
que se faz presente quando o vento sopra
e arrepia-me o desejo de voltar a tê-lo.
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Amante
Ridamar Batista
Sou como colibri
a espera de mel
no ninho, sedenta.
Sou a flor que se abre
em úmida seiva
e se entrega e se deixa
açucarar de amor.
Sou o mel de tua boca
deixado na minha boca
para alimentar meu desejo.
E quando cai a chuva
e molha meu caminho
sou como a fonte limpa
que nasce de carinho
e corre para o mar.
Sou toda uma dádiva
mulher de corpo e alma
sempre pronta para amar.
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Te quero...
Ridamar Batista
Teus lábios em meus seios
derretendo todo mel
formaria um riacho
desembocado no céu,
o umbral de meus amores
onde sofro sem pudores
as delícias de teu beijo
e molhado desta água
entrarias sem demora
nos escombros de mim mesma
e demente entre espasmos
gritaria de prazer
e teria meus orgasmos.
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Desejo
Ridamar Batista
Lambuza de mim
derrete meu gelo
tira a máscara
da minha cara
meu caro poeta
se esfrega em meu corpo
deitado na cama
de folhas secas
eu, camaleoa
no cio constante
na busca incessante
de um amor.
(Poemas publicados no Livro "Mulheres no Banquete de Eros"
lançado pela aBrace, Movimento de integração cultural na América Latina
Em 25 JUn 08, em Brasília, foi apresentado o Livro pela primeira vez no Brasil.
Ridamar Batista é uma das poetisas que participa desta obra sutil e delicada.)
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O som do choro
Ridamar Batista
Oh! canto que me sufoca o peito
este som que ouço en cada canto
na viola do cigano
no sapateado da mulher
que solta seu cabelo
e faz sonoridade com a saia
e balança o corpo na dança
e a música esvai em cada nota
do vento que sopra
do mar que revolta
do silencio que faz na noite
e da estrela que cai...
ah! esta música que me sufoca
e me tira o ar
na guitarra que chora
no violino que sofre
a mesma dor que eu
ouvindo cada tom perdido
sem sabe onde buscar
o consolo para a alma.
Esta música que chega
na quietude da areia
na folha que farfalha
na queda de si mesma.
E o pingo da chuva
que ainda não caiu
já traz consigo o som
que busco na esfera
quando fito o infinito
e ouço a plumagem da ave
solta em rodopio
zumbindo em meu ouvido
sua dor...
ah! todos esses sons
que não me dão sossego
vão compondo o enredo
do meu viver tão só.
Dó...Dó...Dó...
Ressoa em mim
Mi...Mi...Mi...
Reflete a dor
Ré... Ré...Ré.
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Semeando versos
Ridamar Batista
Eu não sei se escrevo versos
mas sinto que a poesia
dança dentro de mim,
transcrevendo uma órbita
ao meu redor.
Tudo que vejo, sinto ou pressinto
transpira rima e faz poemas
e um simples pensamento
o olhar furtivo, um sorriso apenas
vão se tornando frases
multiplicando anseios
Versos saem fáceis de mim.
Se o sol
está brilhando ou não
isso já nada importa
sou poeta e cumpro a minha sina
de andar rimando qual menina
minhas singelas trovas.
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Pirenópolis
(Ode)
Pirenópolis não existe...
Tem um lugar no planeta
Entre os sonhos confusos
Destes que às vezes vivemos
Entre brumas e clarões
Inexplicáveis
De visões paradisíacas
Entre morros sombreados
Serpenteando caminhos
rumo a alma das águas.
Você sabe onde é?
Um sonho?
Sentir a água nascer gelada
dentro do côncavo de pedras milenares
Com cheiro de mato virgem
Cheiro xamântico
Das flores que brotam
do seco e das alturas
e se mistura ao odor
impregnado nas rochas
testemunhas de vidas, de sonhos
de sabedorias e de encantos.
Pirenópolis existe?
Minuto de êxtase,
Plenitude, magia e regeneração
De vida,alma e sentidos
Que se aguçam,
Bailam,
Entontecem.
Os olhos dançam
A visão não cansa,
Sobre os telhados
Bichos se multiplicam
Em orgia de criação constante,
As escadarias
De paus e pedras
Incrustadas nas orlas de seus morros
Fazem cascatas sonoras
No rodopio da alma de suas águas
Pirenópolis existe?
O perfume que emana de suas águas fáceis
Mistura ao vento dançarino que corre
De serra em serra,
Levando notícias a uns e outros
E suas águas cheirosas ensinam
Como é fácil nascer, crescer e viver.
Os Buritis que acalentam a visão
Ninho dos pássaros
Insólitos e paradisíacos
Os olhos das gentes não alcançam.
Uma carícia na alma
A certeza do toque aveludado
Daquilo que é e não se vê...
A vida.
Minha cidade...
Desconhecida dos poetas
Filósofos
Políticos e estudiosos
Navega às soltas neste planeta.
Não é a Rua do Laser
Nem a Ponte de Pedra
Rua do Sapo
Do Bonfim
A Ramalhuda
As cavalhadas, Pastorinhas
Histórias copiadas,
Suas pousadas, luxo.
Eu falo do clima,
Das águas que brotam fáceis
E escorrem para o norte
E enchem rios para o sul,
A energia mágica e natural
De sua posição em privilégio.
Incrustada no meio de um país
De sonhos e sonhadores
Pirenópolis existe?
E sua gente te desconhece...
(Com a participação de Ondimar, Esdras, Karine e Aymée...)
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A carga não pesa ao dono
Ridamar Batista
Diante
de certos fatos sinto-me mais entrevada que qualquer
tetraplégico. Os olhos paralisados, fixos no horizonte, tentando
ver aquilo que jamais fora mostrado, nem mesmo aos deuses do
Olimpo e tentando desvendar mistérios ocultos até mesmo
do meu próprio Deus, fico perdida pela minha profunda
curiosidade, querendo revelar de mim e para mim mesma tudo que nunca
foi dito ou sequer pensado ao longo da vida.
E exatamente nestes momentos de insensata curiosidade, às vezes
perdida de tanta busca, descubro quão inútil este
tão grande destemor.
Hoje cedo, numa de minhas longas conversas com desconhecidos, pessoas
que me procuram para falar de si enquanto pacientemente ouço e
dou ás vezes um conselho, ouvi esta história.
Sentada ao meu lado, enquanto tomávamos meu costumeiro
chá, por volta das nove horas da manhã, ofereci a ela
também um pedaço de pão, mal saído do
forno, quente, cheiroso, nutritivo, integral. Talvez o único
bocado comido naquele dia, seria longo e triste como muito outros.
Notei que levava uma barriga grande, uma gravidez bem adiantada. Ela me
disse que estava grávida de gêmeos. Não tinha
marido. Com sutileza perguntei se não seria o caso de
entregá-los para adoção, a moça me parecia
tão jovem ainda e tão desamparada. Tantos sonham com uma
criança a sorrir feliz em lares de abastança financeira
sem a alegria do riso de um filho.
Desviou-me o olhar e me pareceu um pouco enfadada.
Mudei de assunto e ela quis contar-me sua história.
“Quando
eu tinha doze anos, minha irmã mais velha me vendeu para um
amigo seu, em troca de uma televisão em cores velha.
“Levaram-me para um quarto de motel, daqueles bem simples e mal
cheirosos, isso hoje eu sei, porque já fui a muitos melhores que
aquele. Sem que eu pudesse me defender, o tal homem me possuiu,
enquanto minha irmã esperava na porta do quarto. Eu relutei
muito e chamei por ela, mas ela não veio em meu socorro, e
somente agora eu sei o por quê.
Naquele momento me senti sozinha, infeliz e violada, sem entender o que
tudo isso ia significar para minha vida futura. Naquela época
sequer havia menstruado pela primeira vez. Isso veio logo acontecer,
porque a partir daquele dia, o tal homem sempre me queria mais uma vez.
Como ele havia me possuído, eu pensei que devia mesmo
aceitá-lo.
No começo foi difícil, não gostei. Porém,
com o passar dos meses fui me acostumando, fui sentir prazer em
recebê-lo, era carinhoso, cuidava bem de mim, me dava comida,
casa, presentes, coisas insignificantes, mas como nunca tinha recebido
nada disso de ninguém, acabei gostando.
Era casado, lógico! Alugou um barraco onde eu morava. Muitas
vezes vi minha irmã ir lá pedir dinheiro para ele.
Não entendia bem porquê, só tempos depois as coisas
foram se esclarecendo em minha cabeça de menina.
Por lá eu fui ficando, meios seios nasceram e com eles uma gravidez. Minha filha mais velha, hoje com três anos.
Assim que ela nasceu ele alugou uma casa boa para nós. Comprou
de tudo, cama, geladeira, televisão, fogão a gás e
panela de pressão. Eu me sentia uma rainha, que muitas vezes ele
me chamava assim. Parecia um sonho. Vim de uma vida pobre e na
roça, porque minha irmã resolveu me vender para o amigo
dela antes que meu pai me tirasse, como fez com ela.
Quando eu menos esperava, morrem na mesma época, meu pai e meu
marido. Fiquei sozinha, minha irmã tinha sumido há algum
tempo e eu nem sabia por onde andava.
A mulher de meu marido me tomou tudo que ele havia dado. No
velório havia mais três mulheres querendo chorar pelo
defunto. Mas foi a verdadeira quem me tomou o que eu tinha.
Fui morar numa invasão, debaixo de uma lona, arrumada por um
amigo meu. A minha sogra, que antes ia me visitar algumas vezes,
tomou-me a filha, mesmo dizendo que não sabia se era neta
dela. Eu tinha quinze anos, os quais vivi na fazenda e depois com
o dito cujo.”
Perguntei então:
____Quantos anos você tem agora? Quinze
____E esta gravidez? De quem é?
E ela me respondeu como se eu fosse uma tonta:
____Dele é claro. Quando morreu me deixou assim, mas a velha
não acredita que os gêmeos são dele, mesmo assim
disse que vai me tomar esses também, porque eu não presto
e não posso criar meus filhos, isso não é verdade,
vou criá-los sim.
Arrisquei de novo.
____Não acha melhor levá-los para a adoção?
Sua vida está tão complicada, sua situação
tão difícil e você ainda tão jovem para
carregar tamanho fardo sozinha?
Ela me fitou bem fundo nos olhos e com uma certeza grande do que dizia, respondeu:
_____” A carga não pesa ao dono”. Sou muito mulher para criar as minhas crias.
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Alma do fogo
A alma do fogo crepita
Em mim silenciosamente
Qual chama acendida
Num altar sagrado
E cada chama flamejante
Baila colorida e forte
Na retina merejante de seus olhos
Enquanto a alma quente
Vibra nesta dança única
Como véus reluzentes leves
Dançam ao vento borboletas
E lambe o tempo cada chama
A iluminar o rosto de quem passa.
Febril cintila o fogo dentro d’alma
Igual a luz que brilha nesta lâmpada
Aquece em volta, queima o cetim
E não se queima e nem se apaga.
Vai dando luz à escuridão tamanha
Vai aquecendo outras almas estranhas
Mas não conhece seu próprio ardor.
Oh! Fogo, este que me arde
Dentro do peito, este solitário
Em busca de outro sol que venha
Juntar a mim, trazer mais lenha
Formar em nós este braseiro
E abrigar em sua alma o sonho
E transmutar em mim
Os meus anseios.
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Ida
Amanha, quando uma nuvem passageira
Levar-me pra bem longe
Uma lembrança suave hei de deixar
Meus versos simples, minha singeleza
Minha maneira adocicada de falar.
Hão de lembrar-me os caminhos todos
Floridos ou não meu fantasiar
O mar revolto, os cabelos seus
a cor do mato, esse seu olhar
as folhas secas colorindo estradas
o azul do céu, meu enfeitiçar
a lua branca, o Cruzeiro do Sul
levarei tudo quando eu voar
vou buscar meus sonhos
todas as quimeras
Viajar, viajar e viajar
Correr montanhas, cavalgar o vento
Em risadas soltas, assim me alegrar
Serei tão leve como o grão de areia
Imperceptível como o sonhar
Deixarei lembranças, algo de saudades
Quando amanha a nuvem me levar.
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Tempo
Há um tempo para tudo
Um tempo de espera
Um tempo de ação
Instantes bem vividos
Ao acorde da ilusão
Tempo de fazer de tudo
Tijolo por tijolo, grão a grão
Momentos de não esquecer
Um aceno breve, um olhar
Um afeto tardio, aperto de mão
Há tempo para a vida
Mesmo quando ela se vai
Um adeus derradeiro
Um soluço e um ai
Há tempo de colheitas
A fartura a opulência
Os risos fáceis com freqüência
A certeza de saber estar
Há tempo de pensar
E tempo de repensar
Uma cadeira de balanço
Um olhar perdido, o descanso
A recompensa de tudo mais
O tempo firme caminhante
Em andrajos rotos ambulante
Indiferente de qualquer um
Segue seu curso alheio
Do hoje, amanhã ou do jamais.
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Amando sempre
Hoje amanheci te amando
De um amor tão forte e puro e simples
Que chegou como chega a tempestade
E invade a alma e faz barulho.
Hoje desde cedo estou te amando
E te querendo tanto e tão sinceramente
Que chego a pensar que quero
Mais a ti do que a mim, um destempero
Uma insanidade que somente o amor
Companheiro da loucura
Em quase tudo tão iguais
Pode fazer alguém amar assim
Tão loucamente.
O sol brilhou na minha janela
E sem saber por que gritou seu nome
E meu coração, este tresloucado
Entrou em redemoinho
E eu perdida em reminiscências
Amanheci assim te amando.
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Águas estranhas
Quis eu navegar seus mares
Seu rio imenso em enseada azul
Um delta ensolarado
Um brilho de luar
Um navegar constante
Uma falsa idéia de mar.
Velas ao vento
Ventos intrusos
Fora de hora
Fora de rota
Trazendo sentimentos
Indecifráveis.
Velas ao vento
A navegar caminhos
Escusos e incertos
Cheios de medo
Cheios de mistérios.
Ah! Seu mar, seu rio...
A maresia corrói a alma
E os sentimentos vindos
De terras alheias e distantes
São puros e inteiros
Singelos, verdadeiros
São diferentes nos prazeres,
E quando se querem
Existe a busca,
Porem...
Não se misturam
Nunca se entendem.
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Metáfora
Ridamar
Batista
Perder
a cabeça por amor
se
posso usar esta metáfora
de
ser e fazer loucuras
sem
medo da guilhotina
já
que nem sou rainha
e
nem tenho tronos de meu,
sou
apenas a fêmea faminta
que
saceia a fome de amor
nos
braços de quem me queira.
Perco
a cabeça e o rumo
perco
meu chão e meu céu
rasgo
minha capa de véu
e
me desnudo toda.
Mostro
sentimentos ocultos
em
frases desvirginadas
sussurros
sentidos e soltos
entrego
o gemido tolo
quando
me roças a pele
e
vibro com a alma leve
no
compasso de teu abraço
invasivo
e sem pudores.
Sinto
tua alma leve
na
ternura de meu beijo
invado
segredos profundos
e
te faço perder a cabeça.
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