Roberto Durão

Roberto Ferreira Durão nasceu em Évora a 28 de Fevereiro de 1932.
Frequentou o Colégio Militar, de 1942 a 1949. Entrou na Academia Militar em 1949, sendo admitido, em 1950, na Arma de Cavalaria.
Fez três comissões no Ultramar: em 1961, no Estado Português da índia. Em 1963, nos "Dragões" de Silva Porto (Reg. Rec. de Angola), tendo perdido a mão direita e, a seguir, também em Angola, nos Comandos (1969/71).
No final da sua carreira militar desempenhou, no Colégio Militar (71/73),  as funções de Comandante do Corpo de Alunos e, ultimamente, foi professor no mesmo Colégio (1976/98).
É Coronel de Cav/Comando (na sit. de ref. Extr.a)

No campo das Artes e das Letras:

- Publicou, como jornalista, diversos artigos de opinião e crítica, em jornais e revistas, no período pós-25 de Abril, em  especial  no   conturbado  período   do PREC e, mais  recentemente,   no  Expresso, Independente, Correio da Manhã, Público, Diário de Notícias e em revistas de âmbito militar como os Jornais do Exército e dos Combatentes, Boletim do Asmir, etc..
- É autor das letras dos hinos dos Pára-quedistas e da Polícia de Intervenção.
- Frequentou o curso de Ciências Sociais e Políticas.
- Escreveu para o Museu Militar o poema que figura na sala do Ultramar, "Homenagem ao Soldado Português" e do seu poema "Funeral de um Comando" foram gravadas diversas cassetes e, na pedra-base da Estátua dos Comandos (Regimento da Amadora) esculpida por Mestre Soares Branco, foi gravado um extracto desse poema: "Quem faz do perigo o seu pão, do sofrimento o seu irmão e da morte a sua companheira... "
- Escreveu vários poemas e contos publicados em Jornais e Revistas literárias e em alguns jogos florais em que participou, tendo sido por diversas vezes premiado. Recebeu o Prémio do Jornal “O Combatente”, em 1997.

- Traduziu poemas do francês (V. Hugo. Paul Verlaine, Baudelaire, Edmond Rostant, Prévert, etc.), e do espanhol (Cervantes, Ramon de Campoamor, Unamuno e Garcia Lorca). É autor da tradução integral (em yerso alexandrino, como o original) da obra de Edmond Rostand “Cyrano de Bergerac".
- Faz parte do Cenco (Centro Cultural de Oeiras), onde actuou em peças tais como: "Homenagem a Cesário Verde", "Sebastião José  e  os  seus  fantasmas" (peça e poema teatralizado, por altura  do tricentenário do Marquês de Pombal, em 1999), e "Parque dos Poetas (antevisão e sonho de uma noite no parque)".  Foi co-autor das duas últimas.
- Fez também parte da tertúlia "Ao encontro de Bocage" que se reunia no Teatro Nacional, tendo já actuado em vários recitais e numa peça que fez, de homenagem a Bocage ("O julgamento de Bocage"). Tem participado também em vários “vernissages”,Teatro de Animação e Poesia, em escolas, associações culturais, lares, etc..
- É sócio da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), onde tem vários trabalhos. Publicou poemas em algumas Antologias.

Escreveu o "scriptum" para um filme sobre o Historial do Colégio Militar de que foram feitas muitas cassetes.

Tem actualmente em perspectiva a publicação de dois livros, um deles só de Poesia e também dois trabalhos que lhe pediram para a televisão.

 

 

 



CÂNTICO AO MEDO

Canto o medo, o medo é a coragem
De enfrentá-lo e falar-lhe sem temor
Vendo nele espelhar-se a minha imagem
Sem por ele sentir qualquer rancor.

Desço aos infernos como Dante, e a Vida
Domina os meus receios. Quando a cismo
Ela me faz voar nessa descida,
Só me salva depois de entrar no abismo.

Sentir-me na fraqueza, então, mais forte,
Um cântico de amor ao medo erguer,
Os riscos desprezar, rir-me da sorte.

Toda a tragédia enfim, saber vencer
Porque em mim descobri: Ter medo
à morte Afinal é ter medo de Viver!

 

 

 

 



A MORTE

Sabes o que é a morte, minha amiga?
Como te hei-de explicar...? Sinto-a tão bem
No meu ser mais profundo, no meu medo
Mas nesse medo a amo, às vezes, mais.

Ando a fugir, cobarde, do seu beijo
E nem sei se essa fuga é um desejo.
Ela é a Dama Negra dos meus sonhos.
O fim em que não creio, nem prevejo.

O nosso casamento quase almejo
Anda ao meu lado, sem causar-me horror.
Ela é, talvez, o único remédio...

... Porque no seu subtil, lascivo assédio
Nem sei se isto é volúpia ou se é pavor,
Só ela mata em mim, este meu tédio.

 

 

 

 



NEGAÇÃO DA VIDA

Penso: " Pensar a vida para quê?
Tentar com a razão interpretá-la?..."
Pode não ser somente a que se vê
Mas isso não me interessa nem me rala.

Que luz sombria nos inspira ou cala?
Pressentimentos em que ninguém crê.
Para quê tê-los? Para quê pensá-la?
Se ela flutua sem saber porquê.

Nascer, morrer, vivendo a realidade
Sem passado ou futuro, só agora.
Não querer saber de sonhos ou saudade.

Fazer viagens dentro dela (ou fora?...)
Sem sequer perguntar com ansiedade:
"Quem fui? Que fiz?", quando chegar a hora

Roberto Durão

(in “Raiva e Luz, Sonetos, Roberto Durão, Ed. Est. Maior do Exército, 2003)



 

 

Enviados em Abril/2010

 

 

NATURAL

           A Cesário Verde

Com humildade vou sulcando o meu caminho,
Umas vezes depressa, outras devagarinho.
Depressa, poucas vezes atingi o que queria,
Devagar chegarei, se é que se chega, um dia.

Fui hoje acompanhar um amigo à sepultura:
Havia pombas no ar, pás com terra, verdura...
...Tanta verdura havia, emoldurando a cova
Quando o morto desceu à sua casa nova!

E lá no alto as pombas voando, mas que dança!
Compreendi então: Viver é voo, mudança,
A vida cede à morte o que a morte devolve
E sempre num adeus a esperança se dissolve...

... Para voltar depois mais radiosa e florida.
A morte é afinal recomeço de vida,
Seja no céu azul, seja na terra escura,
Na poeira do chão, nas pedras, na verdura,
Numa flor que se abriu e murchou em seguida
E que há-de renascer em novo adeus à vida.

E neste ciclo, nós somos centro e objecto,
Átomo de ouro ou lama, em mutação: projecto
De um Deus em que acredito e está aqui na terra,
Deus vivo em nós, nas coisas, Deus da paz, da guerra...

... Neste bem-estar sem fim, nesta tranquilidade
Que nem sei se é tristeza ou se é felicidade:
Que é esta estranha união entre a vida e a morte,
Senti-me jovem. velho, breve, eterno, forte,
Preso à terra, ao caixão, ao céu límpido e etéreo.
Encontrei Deus ali, naquele cemitério.

Lá mais em baixo, as casas de madeira, toscas,
Crianças rotas, velhos, cães, o lixo, as moscas.
A miséria em pureza dentro em mim floria
Num abraço envolvente, uma carícia fria
E ao mesmo tempo quente, uma branda poesia
Feita de luz e lodo, de impotência e dor
E de sublimação de redenção, de amor.

Depois, fugi dali, apático e neurótico
E fui parar, sem querer, ao teu jardim exótico.

Roberto Durão
(Inédito)

 

 

 

LUZ

Uma luz está acesa no meu quarto.
Apago-a... Só assim
O quarto escuro, todo é luz dentro de mim.
Poeta, homem liberto
De alma agrilhoada:
Para a Luzsempre aberto
E a janela fechada.

Ando sentido com Deus,  
Como se uma nuvem de ópio
Me convencesse a ficar
Contente comigo próprio.

E é a isso que me agarro
Na falsa consolação
Desse amável sentimento
De dor e de expiação.

Roberto Durão

 

 

 

ENCONTRO

E eu que só vivo e só busco o prazer
E ando embaciando a luz dos astros, querendo fazê-lo enorme, Maior do que ele nunca foi. Eu sou apenas sensual, terreno, Julgando que sou grande quando sou tão pequeno.
Agora que sou carne e serei talvez luz
Eleva-se de mim um cântico sereno,

Uma plena certeza de estar disposto a tudo, ser maior do que eu,
De ir enfim encontrar o que só o prazer nunca me deu.
Porque é amor tudo o que tenho,
É por ele que vivo e, enfim, a ele venho.
O resto não me importa,
Tudo o mais, para mim, é letra morta.

E tu virás,
Sim, eu creio que tu virás
E creio tanto nisto
Como creio nas chagas que tem Cristo,
Como creio que a Deus
Pertencerão, um dia,
Os meus dias e os teus.

Roberto Durão


 

 

PENSAMENTOS

Não encontro, procuro.
Não desvendo, entendo.

Não curo, partilho.
Não me magoam, magoo-me.

Não me alheio, distraio-me.
Não conheço... Sei!

Não vivo, sou.
Não me revolto, aceito.

Vivo morrendo.
Morro nascendo.

Quanto mais na carne apodreço
Mais em espírito me ofereço.

Feliz sinto pranto
Se estou triste, canto.

Não entro em pânico, me quedo.
Não me apaixono, me enredo.

Não quero conhecer mas conhecer-me
Nem vencer, mas vencer-me.

Nada de grandioso almejo
Subo e voo, quanto mais rastejo.

Dar-me é amar-me
Repelir   é odiar-me.

Algo em mim se entristece
Quanto mais alegre me sinto.

Calado me perscruto
Nas palavras me disperso.

Mais na Alma cresço
Quanto mais baixo desço.

Dá-me Senhor a Tua Paz,
Dou-Te a minha inquietação.

Sei onde estou sem saber quem sou.

Roberto Durão
(Inéditos)

 

 

Enviados em Out/2009

 

 

CANTO "BLASFEMO" (ou não?)

Sê Deus, Ele és tu, o Amor num só vos une
difere apenas na dimensão e qualidade (Fileo ou Ágape?)
O teu é a migalha, o mísero reflexo,
o finito do Infinito d' Ele.
Só esta condição: aceitar a Sua Vontade em tudo
sem te lamentares ou revoltares... Aceitar tudo
e saber partilhar o que tens ou és
num Amor total, Absoluto!
Nada mais. Tu crês?
Como? Se não O sentes, não O vês.
Se O visses onde estaria,
Por que razão existiria a tua crença?
Está no teu sangue e na tua pele,
derramado e gravado a fogo o Seu Nome
que nem eu nem tu sabemos qual é.
Não penses tanto em Deus, como num deus em si mesmo,
mas em ti mesmo
e faz da tua vida toda um Hino!
O Divino, o Sagrado pode não ser humano
mas o Humano será sempre Sagrado e Divino!
(é processo, projecto, regresso para Ele).
Não penses em Deus, não o queiras ver
com os teus olhos, não o queiras conhecer
porque Ele está em ti:
É o silêncio da Paz que fala contigo a sós,
é a Unidade, a Verdade,
esta Alegria sem voz
porque Ele és tu, em todos, em toda a Realidade.

Amigo, "Deus somos Nós!"

 

 

 

CESARIANAS
(Na praia "de tarde"...)

Cesário, eu vejo, eu toco em teus alexandrinos
Astros, flores, corpos nus, pilastras, vegetais.
Em teus versos perfeitos, tão reais, divinos
Descubro a forma, a luz dos teus anjos carnais.

Vejo, sem descrever, só as imagens
Desta vida ilusória, falsa, virtual...
Sinto-me natural e puro, sem miragens,
Liberto, por detrás das cores de um vitral.

Passam ministros, pastas nas axilas,
Só palavras, papéis anunciando mudanças,
Pululam os cartazes, "marketing", e em filas
As pessoas esperam tristes, nas "Finanças"...

O comércio, a indústria, envenenam a 'Veia",
 Ah! Meu pobre Cesário já nem há varinas,
A multidão circula, carros, uma teia
E nos pubs imperam prostitutas finas.

E eu, de férias aqui, durmo e desperto,
Sem ver os dois irmãos, a loira criadita,
Seu sorriso me lembra o mar calmo e liberto
Ao dizer-me a sorrir: - Não quer batata frita?

Nada quero, mas peço um “picapau”.
Os meus dentes já gastos trincam "serradura"
E em vez de ouvir Mozart, no mar, em sua nau
Ouço música "pimba”… Cruel amargura

Na mesa ao lado um preto lá de Angola
Fala c'oa namorada branca, que me importa,
Sua alma ficou na sua terra morta…
Lutei por essa terra: "Foi-se tudo à viola".

E aqui, hoje, execráveis são meus versos,
Não vejo em meu País perfumes nem sabores,..
Estádios de futebol são tristes "universos"...
E eu cá fico, a rosnar, curtindo dissabores.

 

 

 

TRILOGIA DA VIDA

  1. VERTIGEM

 

NO CHÃO CRUCIFICADO,
FIQUEI CRAVADO
COMO UMA PLANTA: DO CHÃO NASCI, NO CHÃO HEI-DE VIVER,
NO CHÃO HEI-DE MORRER.
SEMPRE A SONHAR-ME LÁ NUM PONTO ALTO,
TÃO ALTO QUE ATÉ DEIXO DE ME VER
MAS JULGANDO VER TUDO, COMO SÕ TU VÊS.
QUE VERTIGEM, SENHOR, QUE MEDO!...
SE CAIO E ME ESBORRACHO?
JÁ NEM SEI DISTINGUIR SE A VERTIGEM QUE SINTO, DO ESPAÇO,
ME VEM LÁ DO ALTO OU SE Ê DE ESTAR TÃO BAIXO.

 

  1. VER O ANJO

PROCURA APENAS VER O ANJO
E SE O VIRES TENTA FALAR-LHE.
MAS NUNCA QUEIRAS SER O ANJO
PORQUE E-LE FALA PELA TUA NATUREZA
E USA A TUA LINGUAGEM SEM QUE O SAIBAS...
ENTENDE-TE MELHOR DO QUE TU A TI PRÓPRIO.
ELE É O QUE TU ÉS SEM O QUERERES
OU O QUE TU QUERES SEM O SERES.
ELE BRINCA COM OS TEUS ERROS E RI DAS TUAS FALTAS.
ÀS VEZES TOMA UM AR SÉRIO, MAS NUNCA SÉRIO DEMAIS,
COMO TU, NATURALMENTE, JULGARIAS
POSTO QUE ELE É DIVINO.
ELE NÃO LEVA TÃO A SÉRIO A SUA DIVINDADE
COMO TU, A TUA FRÁGIL E HUMANA REALIDADE,
NO FUNDO, ELE Ê BEM MAIS HUMANO DO QUE TU:
ELE APENAS É, ENQUANTO TU SONHAS.
NO SEU SER E NO TEU SONHO
TALVEZ UM DIA SE POSSAM ENCONTRAR E COMPREENDER
POIS NO SONHO TUDO PODE ACONTECER.

 

3. LIBERTAÇÃO

COMO UM CEDRO AO MORRER,
QUE ENVELHECEU FELIZ,
SENTE FRACOS SEUS RAMOS
MAS MAIS FORTE A RAIZ...

       TAMBÉM TEM DE ASSIM SER
           QUANDO O FIM ANTEVEJO:
                 SENTIR FRACO O PRAZER        
                        MAS MAIS FORTE O DESEJO.    
     
                                  SENTIR LIBERTAÇÃO
                                         NO DERRADEIRO SEGUNDO:
                                               NO MORRER DA RAZÃO
                                                     SER A RAZÃO DO MUNDO!

Roberto Durão
(Inéditos)

 

 

Enviados em Out/2009



 

Ao António Manuel Couto Viana

 

Homenagem como Sócio de Mérito e Honorário da S. H. I. P.,

 em 22 Jun 09

 

Poesia: Guerra ou Paz?...

Poetas, só nós sabemos:

A Poesia é que nos faz,

Não somos nós que a fazemos!

 

Tu foste tudo, Amigo António

Dramaturgo, encenador-actor,

Poeta como o Cesário,

Quase foste pintor e escultor!

 

Tudo isso é afinal a Poesia:

Abrange tudo e todos

e nunca nos deixa sós,

Seja de noite ou de dia.

 

Português, patriota. Até algo Profeta,

Emissário, mensageiro (o dom mais alto do Poeta)

Assim te vejo e sinto

E acreditem que não minto…

 

“Muitas coisas mais ele foi e é!”,

Outros dirão decerto e com razão,

Mas eu quero realçar o Amor e a Fé

Que ele punha em tudo o que fez e faz…

 

Isto o mais importante

No seu carácter: Ombridade e Generosidade,

Sempre alegre, simples, franco

Dando-se aos outros, à Humanidade.

 

Por isso te digo:

Tens contigo os 3 Bês de Turenne,

Podes crer, meu Amigo:

 

Bom

         Belo

                   e  Bravo…

 

Por isso além de eclético

E excelso artista,

A palavra que em ti melhor assenta

É esta: HUMANISTA!

 

E só a acabar, mais duas quadras de um primeiro livro (ou filho…) do qual tu fizeste o Prefácio, o que muito me honrou:

 

Viana, lá do Castelo…

Eucaristia isto encerra:

A terra te deu o nome

Ou tu deste o nome à terra!?

 

Ler teus livros de louvor

À nossa Gastronomia,

É ter da Pátria o sabor

E saber “comer Poesia”! *

 

* Esta segunda quadra está no seu último livro sobre Gastronomia.

 

Roberto Durão

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

FILOSOFICES...

 

Einstein, o sábio, um dia,

Disse: «Deus não joga aos dados!»

Pudera... Porque eles são

Por nós próprios viciados.

 

Outro, respondeu-lhe então:

«Ó Mestre, ele joga sim...

Pois, viciados ou não,

Ele é quem ganha, no fim!»

 

Morrer!... Ser a natureza!

(Mas quando é que isso há-de ser?).

Hei-de morrer-me beleza,

Passar além do prazer!

 

Fundir-me na própria luz,

Ser astro, sonho, desejo!

Não sei que outro ser me invade:

— Quero sentir esse beijo,

Quero nascer-me verdade!

 

Eu creio em Deus, mas não sei

O que há depois da partida.

Que haverá que eu não sonhei?...

Que terei mais do que a vida?!

 

(in “TROVAS do meu PENSAR e do meu SENTIR”, Roberto Durão, Editorial Minerva, Lisboa, 2000)

 



 

Poeta                                             

Manchester, Outubro de 2008

 

O poeta nunca está só:

Tem a estranha arte

De viver com a Poesia…

Como esta, ele está em toda a parte.

Sente-se alegre na Tristeza

E triste na Alegria.

Tem o Mistério na palma da mão.

Por isso com requinte, humildade e Magia

Mistura a inquietação

Com a própria paz,

Tecendo com fios de aranha ou de seda,

A beleza e a melancolia

Que ele próprio

Ou a Humanidade lhe traz.

 



 

Solidão                                          

Nottingham, Novembro de 2008

 

Que diferença abissal

Entre solidão e estar só!

Solidão, no pior sentido, para mim, não existe.

Só para quem quer ou se deixa vencer por ela,

Permitindo que ela penetre em si próprio.

“Estar só” sim, existe

Mas pode acontecer

Que esse “saber estar só” se torne

O verdadeiro, único caminho

                                     para a felicidade…

Então a solidão é a tua melhor companhia,

O encontro contigo próprio!...

                                     O resto… é fantasia.


 

Felicidade, Fé e Ciência               

Liverpool, Novembro de 2008

 

“Se a Cultura é o que fica

quando esquecemos

tudo o que aprendemos”,

Talvez a Felicidade seja,

sem termos que nela pensar,

o que fica

quando perdemos tudo

o que julgávamos amar.

 

A é, sobretudo,

Encantamento e Alegria

Na própria dúvida que a desafia.

È a hiper-consciência (ou inconsciência?...)

Mais profunda e rica

De nós próprios, o que permanece e fica

Quando “conscientemente”

Pensamos que tudo perdemos.

Nela intervêm, participam e se unem

Numa mesma Realidade absoluta e plena,

Sem o menor conflito, saudade ou pena

O nosso corpo e a nossa Alma.

 

A Ciência, (ah!) a Ciência,

Essa é a infinita ignorância do homem

Que o incita a tentar desvendar, sem jamais a achar,

A Infinita Sabedoria de Deus(?):

A Verdade!

Esta em nós se reflecte e quase se revela

Hora a hora, dia a dia…

Só no AMOR, na BELEZA e no BEM,

Em todas as Artes que a poesia
Abrange ou contém!

 



 

Santo-Graal                                                   

Faro, 10 de Dezembro de 2008

 

Nós, homens, somos vasos,

Uns maiores, outros menores.

Todos de barro.

Se nos voltarmos para baixo,

Com a base para cima, fechada,

E a abertura assente, enterrada no chão

Não deixaremos de ser homens,

Mas em vão

Esgaravatando a terra, em busca da Verdade.

Com toda a nossa inteligência,

Conhecimento e Ciência

Encerrada em nós,

Lançamos cabos, amarras, tentáculos:

Descobrimos de novo,

Sementes e raízes fundas

Que não cresceram,

Não se transformaram.

As paredes do vaso não deixaram que elas se abrissem

Com toda a sua força para o espaço.

Cada semente será devorada

Pelos vermes que encherão o vaso

Não chegamos a nada.

Estamos virados para baixo,

Só para a terra que perfuramos e sondamos,

Mas sempre longe da Verdade.

Não as deixámos expandir-se

Em Liberdade.

Se inclinarmos o vaso para o lado,

A abertura vai deixando entrar

Já alguma luz e a brisa quente ou fria

Do espaço e as Aves…

As gotas de orvalho nas folhas das árvores

Também ajudarão,

E assim, desse meio-aberto vaso

As flores se abrirão

E os frutos alimentarão

A sede e a fome do homem.

Toda a luz, a jorros virá do alto

Quando o vaso que realmente somos

Se voltar, todo aberto, para o céu.

Então, sem deixar de sentir,

Pelo pequeno furo da base do vaso,

O húmus quente da terra,

Chuva vinda do chão,

Deixaremos, finalmente,

Entrar a luz, em cheio, livremente.

Saibamos abrir-nos sem deixar de sonhar e procurar.

Notaremos então que esse vaso

Se irá enchendo desse Universo invisível,

Mais e mais,

Ganhando um novo brilho e beleza

Que se transmitirá a outros vasos imortais
E até a toda a Natureza.

 

 



 

Só? Não                                                 

Mafra, 01 de Janeiro de 2009

 

Soam-me, quais ladainhas,

As ondas que o mar percorre.

Ninguém põe redes nem linhas

A algo que nunca morre.

Sinto, em mim, a estranha harmonia…

Mar: Paz, Turbilhão, Poesia.

É a vida que em nós corre.

E assim, como o mar, avanço

Para onde? Não sei bem.

Como ele nunca me canso

Num rumo que é de ninguém.

O mar pára, não se agita,

Escuto sua voz que grita:

- Não vais só, vais com alguém!

Para quê ânsias ou penas?

És outro, não tu apenas.

 



 

Libertação

 

Como um cedro, ao morrer,

Que envelheceu feliz.

Sente fracos seus ramos

Mas mais forte a raiz…

 

… também tem de assim ser

Quando o fim antevejo:

Sentir fraco o prazer

Mas mais forte o desejo.

 

Sentir LIBERTAÇÃO

No derradeiro segundo:

No morrer da razão

Ser a RAZÃO do mundo!

 



 

Dizes tu, Fernando, em três quadras lapidares:
                                
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
E eu digo, à minha moda, parafraseando as tuas belas quadras:

 

O poeta ao fingir VIVE
Vive tão intensamente
Que chega a julgar-se LIVRE
Quando mais preso se sente

E quem lê o que ele escreve
Nem sempre sabe entender
Que a sua dor é mais leve
Quando os outros a vão ler

E assim, sem calhas nem roda,
Segue o comboio da EMOÇÃO
Que não precisa de corda
P’ra vencer o da RAZÃO

Teu, Rob. D

 

(in “TROVAS do meu PENSAR e do meu SENTIR”, Roberto Durão, Editorial Minerva, Lisboa, 2000)

 

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BOCAGE E RÉGIO (Diálogo)

 

Que nos une? Miséria ou glória nos inflama?
Este laço, este abraço que nos fere e esmaga,
Que nos prende e liberta nesta sombra e lama
E que, como uma mãe, nos beija, ampara e afaga.

Que luz ou treva é esta? Eterna e aberta chaga!
Ah, diz-me Elmano amigo, a minha voz te clama!
-Só te posso dizer, querido Régio: Ela apaga
Todo o mal, toda a dor do mundo, é água, é chama!

Dois mil e um! Cem anos tens mas, imortal
A meu lado tu estás, perto de Deus. Que vãos
Os que vivem a vida sem nenhum ideal!

Há sempre sol em nós, renasce em nossas mãos,
Brilhando mais e mais pois grita triunfal:
“Poetas! Todos vós em mim sereis irmãos!"
Roberto Durão
(in “Raiva e Luz”, Sonetos, Roberto Durão, Ed. Est. Maior do Exército, 2003)

 

 

 

BREVE ELÓQUIO

O nosso Exército e a nossa Armada, ufanos de um passado glorioso em guerras e navegações, podem, também, orgulhar-se de haverem dado à Poesia Portuguesa o génio e o talento de múltiplos cantores.
Desde logo, o maior de todos, o soldado Luís Vaz de Camões, «numa mão sempre a espada e noutra a pena», «braço às armas feito», «lança em África» viril e arrojada, embora infeliz.
E um dos maiores, o guarda-marinha Manuel Maria Barbosa du Bocage, vagueando, insatisfeito, por mares e terras orientais, sofredor de um fado semelhante ao do poeta d'0s Lusíadas, como, doído, reconhece.
Pertenceram ao Exército, o pré-romântico José Anastácio da Cunha, o decadentista Júlio Dantas, o nefelibata João da Rocha, o saudosista Augusto Casimiro.
Outros, empunharam as armas, se não em defesa da terra que lhes foi berço, ao menos na defesa dos seus ideais políticos, como o romântico Almeida Garrett, o soldado liberal n.º 72, cujo dandismo exacerbado o fez repudiar as «malfadadas calças ver­melhas» da farda, por não querer «servir a Pátria em trajo de palhaço.»
Também os ultra-românticos Augusto Lima e Xavier Rodrigues Cordeiro combateram às ordens de Sá da Bandeira, integrados no brioso Batalhão Académico coimbrão.
Alberto de Monsaraz foi gravemente ferido na malograda revolta de Monsanto, à sombra da bandeira azul e branca. Fora um dos fundadores do Integralismo Lusitano e o Nacionalismo Literário ditava-lhe bons versos.

E não esqueceram mais o seu passado militar os modernistas Afonso Duarte e Vitorino Nemésio, «1. ° Cabo de Infantaria R. Atirador de 1.a classe em kropatchek, mod. 1888. Especializado em esgrima de baioneta Mauser-Vergueiro e granadas de mão n.º 23 (Escola de Instrutores de Infantaria, Tancos 1919, do Coman­do do capitão Bento Roma)» como lembra em 1976.
Muito mais próximos de nós, intervieram, sem deserção, na Guerra do Ultramar, os oficiais milicianos António Salvado, Rodrigo Emílio e Ricardo de Saavedra, todos eles memorando, em livro, as suas e alheias experiências, no campo de batalha.
E, ainda há pouco, no posto de coronel, José Caniné dá à estampa as suas perfeitas quadras de escárnio e maldizer.
É, agora, a vez de outro coronel, Roberto Durão, dos Comandos, herói de África, se estrear em volume de versos, ainda que havendo já divulgado, através dos anos, muita da sua poesia, por jornais e revistas.
É variada a sua produção, que vai do soneto à quadra, incluindo poemas de forma livre, sem nunca renunciar à rima e ao ritmo.
São, também, variados os temas que sente e pensa, desde o lirismo inspirado pelo amor, até à filosofia e ao sarcasmo.
Alma rica e nobre de poeta, educada pelas lições camonianas e bocagianas, sensível e reflexiva à poderosa presença pessoana, não revela, todavia, influências, mas uma voz própria e singular, neste livro multifacetado, harmonioso e belo.
Gostaria de apresentar provas do que afirmo, arrancadas das páginas destas Trovas do meu Pensar e do meu Sentir.
Por exemplo:
Da trilogia de sonetos dedicados à celebração da Mulher, onde, à maneira anteriana, se ergue um comovido hino à Virgem--Mãe; se canta, em contraste, as "Messalinas" cesarianas, a par da santidade de quantas outras, como a Rainha-Santa, a vidente Lúcia ou a Madre Tereza de Calcutá, reunidas as duas faces antagónicas, numa só: Maria de Magdala, que, descida aos infer­nos do prazer carnal, subiu ao êxtase dos céus espirituais, escolhi a primeira composição, oferecendo-nos um retrato apaixonado da Mulher, dando bem a medida da inspiração de Roberto Durão, no domínio da modalidade, difícil de praticar, e na sabedoria com que nos descreve a alma feminina:

«Quem atrai tanto, quanto mais distante?
Quem é humilde e tanto se envaidece?
Quem é tão forte e tão frágil parece?
Quem é tão exigente e tolerante?

Quem tem no peito um coração amante?
Quem se esconde da luz e se enobrece
E outras vezes se enerva e se aborrece
Querendo tudo viver num só instante?

Mulher feita de dor e de paixão,
Nasceste para dar todo o teu ser,
Para sofrer e amar a tua dor!
Para mudares os ódios em perdão,

Sabendo distinguir sempre o prazer
Do segredo e mistério que é o amor.»

O virtuosismo formal do autor fá-lo dominar, também, a quadra, outra modalidade poética difícil de praticar, fora da espontaneidade popular, aliás admirável.
Nela, o poeta concentra ditames do seu espírito, interroga­ções e certezas, conceitos filosóficos, mais do que a ligeireza de um impulso fácil do coração, tão para cantiga de desafio ou bandeira de cravo de papel.
Algumas:

«No que tenho me detenho,
Sonhando com coisas tais
Que querendo mais do que tenho
Nem sei o que queira mais.»

«Um homem só é feliz,
É esse o seu maior bem:
Se não tendo tudo o que ama
Sabe amar tudo o que tem.»

«Dizem-me que o sábio é o rei
Deste mundo em que mal cabe:
Só eu de Deus nada sei,
Mas Deus de mim tudo sabe.»

«No que temos descobri
Mais de nós nos afastamos.
Só estamos no que sentimos,
 Só somos o que sonhamos.»

E outras, mais líricas, mas de igual beleza:

«Pura, a pétala desfaz-se,
Nas asas do vento corre.
Morre na vida que nasce,
Nasce na vida que morre.»

«Da rosa que me picou,
Por minhas mãos esmagada,
A dor depressa passou
E a mão ficou perfumada.»

Em quadras de escárnio e maldizer, não poupa o poeta a baixa política e a quem a pratica, sem tibiezas, com justa indig­nação.
E previne:

«Eu previno desde já
Que alguns não irei poupar.
Se se ofenderem, já está...
É o coração a falar.»

Mas não é apenas o coração que fala, mas sim a inteligência crítica; mas sim o vigor do patriotismo.
Divirta-se o leitor com estas farpas certeiras («Meus confrades, se hoje em dia / Ramalhos e Eças voltassem / Não teriam ironia / E nem Farpas que chegassem»), mais penetrantes e dolorosas, porque espetadas com estilo, elegância e arte.
E medite e dê apreço à poesia séria de Roberto Durão, fluente e solta do espartilho da métrica, onde o poeta melhor interpreta a sua alma, para melhor a entender, para melhor a entendermos:

«Que pensamentos tenho eu que não tenha uma árvore?
Em ambos corre sangue ou seiva,
Ambos sentimos;
Ambos nascemos, crescemos, morremos
Na mesma terra, no mesmo céu.
Ambos damos frutos.
Aos dois, da mesma forma, a chuva e o sol
Nos molha ou seca.

Bebemos a mesma água e comemos os mesmos minerais.
Do que ela, afinal, serei eu mais?
O nosso pensamento circula
No cerne do meu corpo ou do seu caule bruto.
Ambos seguimos para o mesmo Nada ou Absoluto!»

Trovas do meu Pensar e do meu Sentir é uma estreia tardia, mas bem-vinda ao mundo das nossas Letras.
Pode Roberto Durão, autor da seguinte composição:

«Por sobre o pó de um valado
Minhas pegadas achei:
Posso morrer descansado,
Já algo de mim deixei»,

orgulhar-se de deixar estas suas pegadas, não no efémero pó do valado, mas nas páginas da História da Poesia Portuguesa, onde ficarão para sempre.

Casa do Artista, 27 de Setembro de 2000
António Manuel Couto Viana

(in “TROVAS do meu PENSAR e do meu SENTIR”, Roberto Durão, Editorial Minerva, Lisboa, 2000)

 



 

 

E, agora, aqui vão as minhas trovas (que não serão só quadras), algo soltas e revoltas como eu. Muitas não terão qualquer título, porém outras sim, porque não são soltas mas ligadas e subordinadas a certos temas.
Aceito assim, com o maior prazer, o convite que o José Caniné nos faz no final do seu livro:

«Fiz o que soube fazer,
Dei um ar da minha graça.
Quem mais e melhor souber
Pois que mais e melhor faça!»

 

E aceito-o, desta forma:

Vou aceitar o convite
Mas, de antemão, eu já sei:
Farei tudo o que souber,
Melhor que tu não farei!

Livre, agreste, oculto e vário
Um poema em nós desponta.
O soneto é um rosário,
A quadra uma simples conta.

... Poderá rimar ou não:
Planta que em nós floresceu
Vinda do céu ou do chão,
Tal e qual como nasceu.

Antes ser um bom «quadrista»,
Meu amigo Caniné,
Do que fraco «poetista»
Como este que tens ao pé.

Se poesia quis fazer,
Das quadras me fui esquecendo;
P'la tua mão, podes crer,
Agora estou aprendendo.

Quem poeta se julgou,
Nunca foi poeta, não.
Conheço um que diz: — Não sou!
Mas esse é mesmo, o «ladrão»!

Andamos vestidos, sim,
Mas as almas andam nuas...
Tuas quadras já são minhas
Pois as minhas vão ser tuas.

Fomos cativos nas índias...
Que mentira! Deixa-os lá.
Quem sente a alma liberta,
Mesmo preso, livre está!

Dizem-me que o sábio é o rei
Deste mundo em que mal cabe;
Só eu de Deus nada sei,
Mas Deus, de mim, tudo sabe.

Casou a lua com o mar,
Um menino lhes nasceu,
Cor de lodo e de luar:
Esse menino era eu!

Na palma da mão do mundo
Estou, meio santo e profano:
Obra sem eco nem fundo,
Só divino em ser humano.

Da sorte como da morte
Não fujo, nem as persigo,
Quando quiserem que venham,
Uma ou outra ter comigo.

O «não parecer o que sou»
É coisa que nem mereço,
Pois parecer o que não sou
E ser o que não pareço.

Do trabalho que hoje fiz,
Cansado, vou-me deitar:
Vou-me deitar infeliz
Pois devia era acordar!

«Poeta...» e sorris. Talvez,
Não me ofendo, podes crer.     ,
De o não seres te orgulhas, vês?...
Tens razão p'ra te ofender.

 

(in “TROVAS do meu PENSAR e do meu SENTIR”, Roberto Durão, Editorial Minerva, Lisboa, 2000)

 



 

ESGRIMA

O poeta é um esgrimista da palavra...
Em si mesmo, na luta então travada,
Ele vai receber, rindo, a estocada.
Quando se lança a fundo, nada a trava.

Se a palavra é rebelde mas sagrada,
E em farrapos o faz, ele não grita,
Nem se queixa, nem chora pois, na espada
Que esgrime contra ele, mais se incita.


Ninguém o vê sangrar, pois continua
A renascer de cada nova ferida...
A espada na bainha nunca! Nua!

Quebra-se a espada. Num gesto perfeito
Lança um punhal à suja cor da vida,
E este crava-se, limpo, no seu peito.

Roberto Durão
(in “Raiva e Luz”, Sonetos, Roberto Durão, Ed. Est. Maior do Exército, 2003)

 



 

QUEM SOU

Sou um corpo sem forma, início ou fim,
Sou um ser que de si se vai cansando.
Na alma as minhas mãos vão dedilhando
Este negro piano que há em mim.

Dedos em garra em mim se vão cravando
Sem qualquer compaixão, levam-me assim,
Qual ave predadora me encerrando
Numa prisão sem luz ou num jardim.

Sou tudo, tudo, viajo em naves, céus!...
A metade de mim que se escondeu
Interroga-se sempre: - A mim ou Deus?

Podeis dizer: "Que louco sonho o teu!"
Não é sonho o que vivo, mas só Deus
Sabe o que desconheço: "Quem sou eu?!"

 





 

FIAT LUX

Ao COLÉGIO MILITAR, onde aprendi a SERVIR e a todos aqueles, Meninos da Luz ou não, que conhecem o sentido da palavra SOLIDARI­EDADE.

Mil oitocentos-três: Nasceu! Inda eu nem tinha
Nascido. No insondável e oculto voava.
Estava ainda na Luz, porque da Luz eu vinha
E para outra luz, humana, me lançava.

Mil-nove-cinco-três: Cento e cinquenta fez!
Tinha eu vinte e três, era então Cavaleiro
Não de elmo e arnês. Na alma, apenas Português!
Só a espada brilhava, em mim, como um luzeiro.

Posso morrer tranquilo, a vida abençoando.
Em três Ordens andei e em todas a alma pus:
Fui Menino da Luz, Cavaleiro e Comando.

Dois mil e três: Duzentos anos só! Voltei
Para te agradecer e abençoar a Luz
Que quiseste oferecer-me e a Deus devolverei.

Roberto Durão

(in “Raiva e Luz, Sonetos, Roberto Durão, Ed. Est. Maior do Exército, 2003)

 



RAIVA

As florestas da raiva
Em chamas se consomem.
Deus é a Luz nas cinzas
Do inferno que há no homem

Sinto raiva! Não sei dizer-te o que queria.
Raiva pois tanto o quis mas tu não entendeste
O que queria dizer-te e eu próprio nem sabia.
Raiva por te ofender quando não me ofendeste.

Raiva por ver somente a imagem que me deste,
Raiva por tentar ser o que não ousas ser
Raiva porque só vês este ser que nos veste,
Raiva por não viver como tu queres viver.

Raiva desta "humildade ou grandeza" que visto
Pela vida que sonho e os outros não são.
Raiva da própria raiva que eu sinto por mim.

Raiva por ser feliz, nesta raiva em que insisto
E queria transmitir a todos, mas em vão:
Raiva?! ... Talvez amor sem condições nem fim.

Roberto Durão

(in “Raiva e Luz, Sonetos, Roberto Durão, Ed. Est. Maior do Exército, 2003)



 

Para ti, meu e nosso Irmão Gilberto

Como é possível que a vida
Em cada dia não recomece,
Se ela, depois da morte permanece?

Tanta agua passou sob as pontes
Tantos ventos sopraram
Em mar diferente...
Já morreu, já nasceu tanta gente, .
Mas osiroco, para nós, gilberto
Estará sempre presente!
Tu me disseste um dia,
Bem me lembro: "- irmão!
A alma de um comando é coerente
E nela tudo cabe menos a traição! "
E eu hoje, aqui te juro:
"- uma nação que não honra ou esquece
O seu passado
Não merece
O futuro!"

R. Durão



 

O SIROCO

Deu-me Deus sua força por que eu faça
Com alma inteira a guerra!
Soprou depois um vento de desgraça…
Mas eu não me esqueci, sinto a Alma baça,
Ao beijar minha Terra!
Pôs-me as mãos sobre os ombros e sagrou-me,
Deixou-me o seu Olhar;
E o Sonho de outro sonho despertou-me
Porque o ouvi chamar pelo meu nome
Na hora de lutar!...
E eu vou, a "raiva e a Luz" renascerá
Em nossa face calma.
Não sei ao certo ainda o que virá,
Mas tudo "o que vier nunca será
Maior que a nossa ALMA!”

 



 

DOIS POEMAS PARA PABLO NERUDA

DESTINO
(Oração à Terra)

Alguém (mas quem?...) me disse; “Larga tudo,
Tua mulher, família, riquezas... as que tens.
Não tragas nada e vem.
Segue-me, só terás este Amor que te dou. "
E eu vou.

"Vem, sem olhares para trás,
Saudoso do que deixas, porque Eu sou
Tua Libertação e Paz! "
E eu vou.

Pergunto: "Para onde me levas? Que lugar
Me destinas? Onde Te encontrar?
Aqui sei onde estou,

Com dor e alegria me dou
Ao sítio a que pertenço,
Aqui me existo e penso,
A esta terra agreste me dedico.
Que irei eu lá fazer para onde vou?
Silêncio...
E eu fico.

Mas, afinal, que vim eu cá fazer? Anjo escravo ou liberto
Das asas que não quis ou não mereço.
Nem na terra ou no espaço permaneço,
O próprio voo me condenou...
E agora, já nem sei bem se fíco
ou se vou?!

 ***

COM A MINHA MÃO ESQUERDA

Com a minha mão esquerda abranjo todas as coisas do Universo.
Anuncio e acaricio as folhas secas ou verdes da árvore da vida.
Com a única mão que tenho mergulho os dedos até ao fundo do mar.
Depois, deixo-os subir suavemente até roçar
A superfície das águas. Num movimento lento que me enche de prazer
Elevo-as então acima dos meus olhos.
Deitado, estirado ao longo do horizonte vejo todo o azul do céu
Entre eles. Depois quando o sol vem, fecho os olhos, bruscamente,
E vejo, muito nitidamente,
O Cristo-Rei de madeira, na minha secretária.
Ele não tem a mão esquerda... Há quem diga que os poetas são
A mão esquerda de Deus; e eu tanto queria apertá-la
Como a de um amigo. A direita não posso, Ele não ma estenderia
Porque a sua mão direita (também dizem... é só para os santos.
Assim, eu, poeta, fico à sua esquerda e à direita dele um santo.
Ambos sentimos uma alegria-triste e entre nós trocamos então
Um olhar cúmplice de compreensão.
Tentamos aproximarmo-nos mais um do outro
E apertamos o corpo místico de Cristo entre nós.
Estamos agora debaixo dos seus braços,
Da sua túnica branca, aberta que nos acolhe
E tanto, tanto o apertamos que acabamos por nos fundir num só.
De um lado o bom e do outro o mau ladrão; à direita o santo
E à esquerda, eu, o poeta, o que não presta.
Somos então um só em Cristo,
Como a minha mão esquerda, a que me resta.

Roberto Durão
Dezembro 2OO4