BREVE ELÓQUIO
O nosso Exército e a nossa Armada, ufanos de um passado glorioso em guerras e navegações, podem, também, orgulhar-se de haverem dado à Poesia Portuguesa o génio e o talento de múltiplos cantores.
Desde logo, o maior de todos, o soldado Luís Vaz de Camões, «numa mão sempre a espada e noutra a pena», «braço às armas feito», «lança em África» viril e arrojada, embora infeliz.
E um dos maiores, o guarda-marinha Manuel Maria Barbosa du Bocage, vagueando, insatisfeito, por mares e terras orientais, sofredor de um fado semelhante ao do poeta d'0s Lusíadas, como, doído, reconhece.
Pertenceram ao Exército, o pré-romântico José Anastácio da Cunha, o decadentista Júlio Dantas, o nefelibata João da Rocha, o saudosista Augusto Casimiro.
Outros, empunharam as armas, se não em defesa da terra que lhes foi berço, ao menos na defesa dos seus ideais políticos, como o romântico Almeida Garrett, o soldado liberal n.º 72, cujo dandismo exacerbado o fez repudiar as «malfadadas calças vermelhas» da farda, por não querer «servir a Pátria em trajo de palhaço.»
Também os ultra-românticos Augusto Lima e Xavier Rodrigues Cordeiro combateram às ordens de Sá da Bandeira, integrados no brioso Batalhão Académico coimbrão.
Alberto de Monsaraz foi gravemente ferido na malograda revolta de Monsanto, à sombra da bandeira azul e branca. Fora um dos fundadores do Integralismo Lusitano e o Nacionalismo Literário ditava-lhe bons versos.
E não esqueceram mais o seu passado militar os modernistas Afonso Duarte e Vitorino Nemésio, «1. ° Cabo de Infantaria R. Atirador de 1.a classe em kropatchek, mod. 1888. Especializado em esgrima de baioneta Mauser-Vergueiro e granadas de mão n.º 23 (Escola de Instrutores de Infantaria, Tancos 1919, do Comando do capitão Bento Roma)» como lembra em 1976.
Muito mais próximos de nós, intervieram, sem deserção, na Guerra do Ultramar, os oficiais milicianos António Salvado, Rodrigo Emílio e Ricardo de Saavedra, todos eles memorando, em livro, as suas e alheias experiências, no campo de batalha.
E, ainda há pouco, no posto de coronel, José Caniné dá à estampa as suas perfeitas quadras de escárnio e maldizer.
É, agora, a vez de outro coronel, Roberto Durão, dos Comandos, herói de África, se estrear em volume de versos, ainda que havendo já divulgado, através dos anos, muita da sua poesia, por jornais e revistas.
É variada a sua produção, que vai do soneto à quadra, incluindo poemas de forma livre, sem nunca renunciar à rima e ao ritmo.
São, também, variados os temas que sente e pensa, desde o lirismo inspirado pelo amor, até à filosofia e ao sarcasmo.
Alma rica e nobre de poeta, educada pelas lições camonianas e bocagianas, sensível e reflexiva à poderosa presença pessoana, não revela, todavia, influências, mas uma voz própria e singular, neste livro multifacetado, harmonioso e belo.
Gostaria de apresentar provas do que afirmo, arrancadas das páginas destas Trovas do meu Pensar e do meu Sentir.
Por exemplo:
Da trilogia de sonetos dedicados à celebração da Mulher, onde, à maneira anteriana, se ergue um comovido hino à Virgem--Mãe; se canta, em contraste, as "Messalinas" cesarianas, a par da santidade de quantas outras, como a Rainha-Santa, a vidente Lúcia ou a Madre Tereza de Calcutá, reunidas as duas faces antagónicas, numa só: Maria de Magdala, que, descida aos infernos do prazer carnal, subiu ao êxtase dos céus espirituais, escolhi a primeira composição, oferecendo-nos um retrato apaixonado da Mulher, dando bem a medida da inspiração de Roberto Durão, no domínio da modalidade, difícil de praticar, e na sabedoria com que nos descreve a alma feminina:
«Quem atrai tanto, quanto mais distante?
Quem é humilde e tanto se envaidece?
Quem é tão forte e tão frágil parece?
Quem é tão exigente e tolerante?
Quem tem no peito um coração amante?
Quem se esconde da luz e se enobrece
E outras vezes se enerva e se aborrece
Querendo tudo viver num só instante?
Mulher feita de dor e de paixão,
Nasceste para dar todo o teu ser,
Para sofrer e amar a tua dor!
Para mudares os ódios em perdão,
Sabendo distinguir sempre o prazer
Do segredo e mistério que é o amor.»
O virtuosismo formal do autor fá-lo dominar, também, a quadra, outra modalidade poética difícil de praticar, fora da espontaneidade popular, aliás admirável.
Nela, o poeta concentra ditames do seu espírito, interrogações e certezas, conceitos filosóficos, mais do que a ligeireza de um impulso fácil do coração, tão para cantiga de desafio ou bandeira de cravo de papel.
Algumas:
«No que tenho me detenho,
Sonhando com coisas tais
Que querendo mais do que tenho
Nem sei o que queira mais.»
«Um homem só é feliz,
É esse o seu maior bem:
Se não tendo tudo o que ama
Sabe amar tudo o que tem.»
«Dizem-me que o sábio é o rei
Deste mundo em que mal cabe:
Só eu de Deus nada sei,
Mas Deus de mim tudo sabe.»
«No que temos descobri
Mais de nós nos afastamos.
Só estamos no que sentimos,
Só somos o que sonhamos.»
E outras, mais líricas, mas de igual beleza:
«Pura, a pétala desfaz-se,
Nas asas do vento corre.
Morre na vida que nasce,
Nasce na vida que morre.»
«Da rosa que me picou,
Por minhas mãos esmagada,
A dor depressa passou
E a mão ficou perfumada.»
Em quadras de escárnio e maldizer, não poupa o poeta a baixa política e a quem a pratica, sem tibiezas, com justa indignação.
E previne:
«Eu previno desde já
Que alguns não irei poupar.
Se se ofenderem, já está...
É o coração a falar.»
Mas não é apenas o coração que fala, mas sim a inteligência crítica; mas sim o vigor do patriotismo.
Divirta-se o leitor com estas farpas certeiras («Meus confrades, se hoje em dia / Ramalhos e Eças voltassem / Não teriam ironia / E nem Farpas que chegassem»), mais penetrantes e dolorosas, porque espetadas com estilo, elegância e arte.
E medite e dê apreço à poesia séria de Roberto Durão, fluente e solta do espartilho da métrica, onde o poeta melhor interpreta a sua alma, para melhor a entender, para melhor a entendermos:
«Que pensamentos tenho eu que não tenha uma árvore?
Em ambos corre sangue ou seiva,
Ambos sentimos;
Ambos nascemos, crescemos, morremos
Na mesma terra, no mesmo céu.
Ambos damos frutos.
Aos dois, da mesma forma, a chuva e o sol
Nos molha ou seca.
Bebemos a mesma água e comemos os mesmos minerais.
Do que ela, afinal, serei eu mais?
O nosso pensamento circula
No cerne do meu corpo ou do seu caule bruto.
Ambos seguimos para o mesmo Nada ou Absoluto!»
Trovas do meu Pensar e do meu Sentir é uma estreia tardia, mas bem-vinda ao mundo das nossas Letras.
Pode Roberto Durão, autor da seguinte composição:
«Por sobre o pó de um valado
Minhas pegadas achei:
Posso morrer descansado,
Já algo de mim deixei»,
orgulhar-se de deixar estas suas pegadas, não no efémero pó do valado, mas nas páginas da História da Poesia Portuguesa, onde ficarão para sempre.
Casa do Artista, 27 de Setembro de 2000
António Manuel Couto Viana
(in “TROVAS do meu PENSAR e do meu SENTIR”, Roberto Durão, Editorial Minerva, Lisboa, 2000)