Trasnformação
Lembras-te, meu bom Deus
Quando me criaste?
Meu corpo verdejante, ondeando ao vento,
Rios de água corriam pelas vertentes,
Outeiros, oásis e desertos
Espelho de uma vida tão bela e pura.
E aquele mar, com era belo,
O meu orgulho. Aquelas praias ,
A minha delícia. Aquelas areias,
Aquele matagal. Um paraíso.
Um paraíso que só os visionários
Hoje podem imaginar.
Mais tarde vieram os animais.
Das minhas entranhas saiu a vida:
Os peixes, as aves, os mamíferos;
Os peixes nadavam, as aves cantavam
Ar árvores repletas de carnudos frutos
A todos a fome saciavam.
E veio o Homem.
Também ele, saiu puro, belo
Nobre e altivo das minhas entranhas.
E surgiu o Homem .E a pouco
E pouco, este meu corpo ondeante,
Pejado de vegetação se transformou.
...finalmente veio o Homem.
Aqui morou, ali transformou .
Minhas árvores destruiu para construir
Suas casas . Caminhos abriu
Outeiros demoliu, meu ser desventrou.
...finalmente veio o Homem.
Ai de mim perdida, esventrada,
Poluída, estragada pela técnica
Que o homem astucioso inventou.
Era de pedra a sua casa e a sua espada
Era uma lenda, uma visão.
Da beleza infinita que em mim existia
Pouco fica na minha memória,
Que essa fantasia olvidada
E perdida em milénios de história..
...finalmente o Homem chegou.
Águas claras, límpidas de cristal
Que eram a minha alegria,
Em lodoso e negro caudal,
Se vão tornando dia após dia.
E as árvores, as florestas, os matagais,
Os campos inteiros, os montes, as serranias,
E até os próprios animais...
Tudo, tudo se transformou.
Nada, já nada resta dessa grandeza,
Do fértil esplendor que me envolvia.
Já nada existe desses bens da natureza.
Pior que os ventos e as tempestades ,
Mais forte que o vulcões que emanam
Do meu solo fremente, pior são as loucuras
Criadas pelo homem em suas vaidades.
Pobre, jazo neste canto do espaço,
Lamentando em pesarosa agonia
Esta morte, esta destruição, esta guerra
O vandalismo que me cerca
Em cada hora, em cada dia.
E até as cidades que o Homem
Construiu, cobrindo-as de jardins
E floridos canteiros, onde ainda havia
Um pouco desse sonho e poesia...
Até a obra que ele edificou,
Como um pesadelo - ele derrocou.
Rosélia Martins