Sonia Regina

http://soniareginabrasil.sites.uol.com.br/umpoema.htm

Simplesmente soreg: é como a poeta carioca Sonia Regina assina seus trabalhos de arte digital. Fundou em 2001 o periódico digital Laboratório da Palavra,do qual é a editora responsável. Colabora em grupos de criação e discussão literária na web e integra o grupo 10 Rostos da Poesia Lusófona.




































































 


Pico do Caledônia: Nova Friburgo, Rio de Janeiro - Imagem: www.gazetadascidades.com.br

Descobria como nascia o suspiro

 
Gostava de ver como os que trabalhavam a terra enxugavam com o dorso da mão a testa, olhando fixamente além. Um horizonte por vir, que não seria o mesmo para todos. Pensou se era nesses momentos que sonhavam.

A tarde era oblíqua; constatara quando vira que, ao longe, no fundo do vale, já anoitecera e ali ainda havia sol. Bom sentir-se sua amiga.

Ainda desconhecia a indiferença. Quase tudo que a atingia, recebia com afeto e com espanto: desgostos e gostos em partes quase iguais. Quase, porque nem sabia quantos desgostos lhe tirariam o poder maravilhar-se por nunca ter visto um pôr-do-sol igual a outro: um gosto e tanto, imenso, beirando a eternidade!

Sabia desde muito cedo que em cada pessoa forte havia alguma inocência, um desconhecimento do que fosse mal, ou bem. Não que fossem puros, os homens das montanhas. Ou ingênuos. Mas o contato com a terra, o respeito pela ventania, chuvas e raios, o desejo do sol do amanhecer nas noites extremamente frias lhes ensinara a viver sem auto-indulgência. Expulsos dos reflexos do ego, podiam viver os dias realmente próprios sem o sentimento de propriedade. Sem arrependimentos ou culpas seguiam com suavidade as mutações da natureza e integravam-se ao curso do mundo.

Ela mesma... Quantas vezes seu coração se apertara, quantas vezes voara dentro do peito. Por vezes seus deslumbramentos lhe traziam alguma desordem, por vezes uma quietude como esta, agora, em que descobria como nascia o suspiro.

 
sonia regina
28.2.08


























 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escuta, detrás da página

Acharam-no atrás da página

e o convocaram, a tua voz e teus

olhos claros, neste inverno

de tantas estações

 

um chamado muito firme, doce,

ouviu meu coração pequeno.

 

Julho 2007

No movimento da sede

“há poços nos espelhos
onde a nudez
se precipita,
a luz mordendo a água” 

Miguel Nava

Viste-me na penumbra,
no fundo do espelho;

onde a nudez se esconde

me mordeste.

como me asseguraste
ontem eu me vi

[ainda esmirrada],

água de inverno

já no movimento da sede.

 

Julho 2007

Águas de inverno

Um elo salgado prende as águas
de inverno que se desmancham,
força retornando com audácia.

Na circunstância da cor oculta,
a elegância do movimento,

Na praia eu, ao sabor da maré.

Julho 2007

Um verso ab ovo*

Queria um verso sem verbo

sem imagem – ou com muitas,
tantas, que a nenhuma se pudesse
reduzir, amoldar, nela caber –

assim como uma oração sem ação
ou um sujeito sem traços
nem tudo nem nada, um paradoxo,
um contraditório sem oposições,
um significante sem significado
lavrado em nenhuma escritura

talvez um signo não desbravado,
uma natureza primordial que não
se desnuda porque não traz vestimenta;
que não se veste porque não tem matéria,
ou pele, nem nada por baixo, ou por cima,
sem dentro, sem fora, sem reflexos
com uma leitura possível sem remetimentos
: nem a observações sábias nem a suaves
recordações

talvez assim como sílabas claras que se
contivessem em si, desde os primórdios;
um verso sem verbo, de só uma palavra

um verso ab ovo
: poeta.

 

julho 2007
* lat Desde o ovo; desde o começo

 

 


Imagem: Michel Ducruet

Um chamado estrito III 


ao reflexo, narciso responde com a voz que assina o eco.
na volubilidade percorre aclives e declives, identifica
a si mesmo em todas as fases da colheita

só na alma com corpo conhece a guarda de um chamado
estrito.


28.6.07

 

 

No travesseiro

 

Deus me acalma, no meu travesseiro

abre o meu sono sob a força das penas

e apascenta a noite que devora as gotas,

mesmo as do orvalho

 

nesse inverno chuvoso a felicidade

não é uma esmola e sonho que o ar

da nova estação não espanará

a poeira do segredo, elo da minha

intimidade nessa distinção divina.

 

26.6.07

 

De um coração ouvidor

 

se te olhasses com teus dois olhos:

o que vê a sombra na superfície

e o que vê a claridade mais profunda

 

se colhesses a dor e não rejeitasses

o teu queixume, se teus espinhos

tocasses, e as feridas

 

se fosses, contigo, água cristalina

 

talvez se fosse o amargor antigo

que em ti se refaz, em tudo se recria

 

talvez te fizesses livre para edificar,

das ruínas

 

serias a flauta e o sopro, a mão

e a carícia, a boca e o beijo;

a navalha que se defende

e a que constrói, na madeira,

a imagem viva;

da visão, o grito que alerta;

do tato, o gesto que ensina;

 

a palavra que não se divide,

viria do coração;

o ódio, ao amor se integraria;

a densidade se transmutaria

em luz

 

vibrariam todos como a noite

e o dia, juntos, na unidade

da vida.

 

30.6.07

 

 

 

 

SE

se de tanto querer o mar, tem crescido,

sem mobília, o fruto marinho,

e se tem transformado de amálgama

em vaga, em alga fecundada

noutros sentidos;

 se a metamorfose pudesse ter  ouvido

[a horas de véspera]

plenas de palavras, as ondas

se de presas nos lábios, na escrita caíssem

das águas agitadas;

se a sombra, numa linguagem simples,

espuma desenhasse, na areia, festas

de colégios, igrejas;

se a ciência dos pescadores, ao sabor do mar,

o dia adivinhasse e, a manhã, de segredo

profundo, se transmutasse, nas costas de algum

litoral suave, enseada secreta, de um horizonte

que saltasse, de onde, talvez, o coração oculto

do oceano, enfim se mostrasse.

 

26.6.07

 

 

Um chamado estrito

 

não foi com ele ao baile:

além da falta da química,

a alma toda lhe fazia mal.

 

soube que se  olhava

e no espelho, narciso,

admirava a contradança

consigo - corpo e alma -

 

muito oculto, guardava

um chamado

 

estrito.

 

27.6.07

 

 


Imagem:
Pintura de John William Waterhouse

Traquinas

 

Subir pelo lado íngreme é uma prática secreta.

uma arte do equilíbrio, uma afronta menina

doce, doce.

 

28.6.07

 

 

 

Tolices adocicadas


o sol não é o único que não pára 
num universo que se move 
num negror sem afetos, sentido 
ou atração
 
desdém, rancor e reclamações 
giram no mundo que envolve a arte 
do mel que se oferece. estimulantes.
 
23.6.07

 

 


sou o lugar

Prazer não se finge e enganadora não me esqueci 
do sabor que não tem o insípido. sou o lugar 
que se queimou no pacto e culpei os deuses 
por consumir-me nas chamas: roubei-lhes o fogo, 
minha poesia criou a língua, leio a realidade 
e não sei se mereço o reino dos céus que assim 
me parece “a morte confundida fora e dentro”[1]
 
23.6.07

 

[1]Herberto Helder in Última Ciência (p. 39). Assírio & Alvim. Peninsulares/Literatura 30. Lisboa.

 

Uma flor no outono

 

Venta, as folhas do ipê dançam o outono.

a seiva borbulha a cada acorde brotam

da umidade sépalas unidas, cálice aberto

ao mundo, florescem sem tempo marcado

 

num fluir secreto de sílabas, para além

das estações, a flor de uma voz ausente

no lugar da alegria me ensina o bailado

das pétalas à volta de seu centro

 

ganha vida o ritual vedado às palavras.

 

rio, 9.5.07

 

 

Para além das finitudes

 

Passeei só, fui o espelho do cosmos

entrei no labirinto, vi jardins ocultos

 

para além das finitudes,

meu coração moveu-se

 

levou-me para o outro lado do mar.              

 

12.5.07

 

A justa emoção permanece e lavra

num dia ruim, a humanidade na palavra

é uma obra larga, grande

comove, arde

queima as larvas

 

o simples que inquieta não é fácil

nem facilita

mas dá a justa emoção

que permanece

e lavra.

 

25.5.07

 

 

Verdes vales sem montanhas

Sob a língua a escrita curativa é uma baia

sob um céu imaginado de subsolo farto

 

éguas antes soltas no pasto, unicórnios

viajantes cavalos mágicos

num chão de raízes raras, simples alfafas

dos campos, verdes vales sem montanhas

 

como um quadrado redondo

todo um discurso de sonho

com lastro.                               

 

25.5.07

 


Prague-Vasilis Fotopoulos

Entre logo por todas as frestas

 

mas é imperioso que se fale do obscuro;

que se escreva dos horrores e pesadelos,

para que a claridade entre logo por todas

as frestas das ruas da cidade

 

e mergulhe na alma dos que, sentados nas

calçadas, adiam o principiar da posteridade.

 

22.4.07

 

 


Trent Parke

 

Num deslizamento profundo

 

convidei os fantasmas à cerimônia do chá

encenamos as palavras que nos designam

(não mais nossas), como os gestos das mãos

alongadas ao limite da realidade cotidiana

 

atravessamos o cortinado de vapor

e, com artes nas palavras, brincamos.

sentados no palco, saímos do labirinto

 

num deslizamento profundo das fibras

liberamos a febre, ao toque dos dedos

 

28.4.07

 

 

Desaprender um lugar
(com os seis sentidos)

três para chegar

e ir, além do olhar;

três para se inteirar

do cheiro, do gosto

 

pra que ele comece

a contar de si,

mais alguns dias

 

os não ditos, na pele

o mistério, percebido

 

a única lição, secreta

e vívida: desaprender

 

28.4.07

 

 

A minha poesia está na pele

 

a minha poesia está na pele

de cada sílaba polinizada

 

fruta sumarenta,

coração que escorre

 

quebra distâncias

desbrava limites

atravessa fronteiras

 

o mundo invade

 

erva terna

verso

prosa

 

recolhe-se, entrega-se, corpo

da minha palavra desperta

 

dança, samba, requebra

[no silencio ou no batuque]

em mistério líquido goza.

 

rio, 07.5.07 

 

 

VIAGEM

 

Encontra-me na existência que se anima

recuperando a harmonia e ensina-me

o movimento que mora na quietude,

lá onde se reúnem a alma e o corpo.

leva-me a esse lugar onde eu possa

procurar-me no girar da vida e,

como as pétalas à volta do centro,

dançar o despertar da essência e do sentido.

quando o dia molhar a noite de claridade

quero tocar o passado, descobrir porque

está sempre começando o tempo,

viajar pelo riso da terra e saber das águas

em que fluem secretas a beleza e a cura.

 

 

19.4.07

 

 

Inexiste, apesar da crença

  

inexiste o que à noite bata às portas inseguras,

outrora abertas quando as janelas perdidas

no morno da aragem despediam-se da memória.

a suavidade da brisa não anuncia o furacão

que vem de longe e acorda o turbilhão da casa

que, na madrugada, desmorona, agarrando-se

à crença na manhã de algum poema incompleto.

à tarde são simples palavras estendidas nos varais

vazios, versos inúteis para a vida, instintos atiçados,

acossados no deserto florido.

 

19.4.07


 

Que esse vento te leve o meu desejo

 à Ciça e ao Renato

 

Anseio o encontro com o ronco do rio,

a trilha estreita de barro, o íngreme

da descida, o solo em estado de pureza

 

sei que não perderão o fascínio sobre mim

 

oh, vila da mata, que esse vento te leve

o meu desejo, porque ele é tão ardente

 

logo retorno, embora passo a passo, ao murmúrio

dessa cascata e ao sol da tarde tocando de leve

as folhas das árvores à beira-rio

 

e nos abraçaremos, eu e tuas águas doces

 

sempre encantada, não pelo cheiro de descoberta

ou o gosto das constatações gastas, a mim também

me assombrarão meus sentidos

 

[então criadores]

 

e eu, líquida criatura, só no deslumbre existirei.

 

21.4.07

 

 

Afagam as costas do litoral, as lufadas de silencio

 

Como unhas compridas que nada mais quisessem fazer

além do carinho pedido, afagam as costas do litoral

as lufadas de silencio de um outono que não se esconde

atrás das árvores

 

nem o vôo da garça rasga o céu refletido na lagoa,

se a gentileza que movimenta os azuis sente o frescor

da mata e, embebida de ternura, devora o obscuro

 

indo-se a escuridão, a luz será sempre um início.

 

22.4.07

 

 

trazia um pouco de mar até minha boca:
eu bebia diariamente
[1]

 

 

 

  

brilha comigo e sê meu mar, pois me amedronta esta escuridão marinha

há formas nas névoas, as ondas rugem e não mais me afagam

tenho medo dos pesadelos e da verdade dessa linguagem que não conheço

acordo assustada se já não sinto, do oceano, o cheiro e o gosto

a brisa se enfurece, as árvores balançam, troveja

agarra-me pra que eu não caia, da fraqueza do tornozelo

não sei dizer das lacunas que abortam os poemas, andam imperfeitas

minhas palavras

 

: já não sabem dizer de minha boca sedenta

e constrange-me  chorar.


 [1] (Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984: 250-1)

 

 

‘o cheiro do mar me invadia e me embriagava’[1]

  

 

acordo nesse quarto para o qual me mudei

(porque achei melhor, e que gostarias)

 

do rádio, Carly Simon me traz um tempo antigo

em que ‘o cheiro do mar me invadia e me embriagava’

pela janela sempre aberta

 

a minha árvore cresce igual às outras

mas, distraída, floresce no outono

carregada de pendões amarelos

 

ainda me apaixona seu bailado com o vento

 

é também doce a luz que me penetra

vinda da noite virada do avesso, tornada dia

 

um novo, que não fala de enganos

porque nada entende, simplesmente é

 

 

10.4.07

[1] (Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984: 250-1)


 

Até que se levante o dia

 

 

se pensar o real é uma ficção,
se é incompleta a construção do poema,
se é provisório e solto, o discurso;

 

se a vírgula se redesenha num parênteses

entregue à fala, assim como o tempo

alongado da espuma se abre ao sol liberto;

 

se "falar é o modo mais simples

de nos tornarmos desconhecidos”[1];

 

 que traços fazer com os sinais que estão

à nossa volta?

 

nenhum deles nos remete senão ao rio,

quando abraça a noite em fogo intenso

 

prolongando a aurora

até que, no momento da foz, se levante o dia.

 

 

 

14.4.07

[1] Fernando Pessoa. Para a coluna "Balança de Minerva", em "Teatro - Jornal D. Arte", in: Páginas sobre Literatura e Estética, organização, introdução, notas e biobibliografia básica atualizada de Antonio Quadros, Portugal: Publicações Europa-América Ltda., pp. 140.

 

 

Doce, livre de prisão ou exílio

 

De manhã procuro o poema numa imagem

suspensa entre a luz e a sombra.

Encontro-o cansado da palavra e dos gestos,

num canto. Digno, clean e sem nostalgia,

tem um hálito além do lamento.

 

Com ternura pousa uma letra em minha boca,

calmamente me beija, sem a anestesia

que fere os lábios pela ausência de paixão.

 

Revê nos versos a fuga total de simetria,

consertos, reformas, solitárias tentativas,

ensaios que nunca trariam grandeza aos acenos.

 

Sabe que as fragilidades não levam ao fracasso,

como o medo o faz. Sabe das marcas involuntárias,

mas não casuais.

 

Chega ao papel, parte; chega no virtual.

Tangencia o real e fica.

 

Por vezes dança comigo entre o céu e a terra,

a pisar os sonhos, a torná-los chão,

até que fazemos deles um caminho doce,

livre de prisão ou exílio.

 

 

18.4.07

[1] (Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984: 250-1)

 



 

 

Caleidoscópio 

 

mudam-se tempos, vontades, trocam-se

ventos e marés; cavalgam-se as águas,

cobiça-se a brisa; elevam-te, põem-te de pé

 

nomeia a efígie que aparece, suave

personagem, recorte no ar

 

tesouro inimaginado de baú antigo;

aberto, somente, por aproveitar.

 

04.3.07

 

 

Traços que, enfim, pousam

 

vem de outro ponto de vista

o que não é, do olhar,

nem uma outra maneira.

 

braços abertos, um fitar

leve e solto dos traços

 

que, enfim, pousam

 

no que não tem margem

ou cor, signos desabados

 

de nenhuma natureza,

vício, sombra ou pensar.

 

04.3.07

 

 

Um regresso sensível, muito pele

 

é um regresso sensível, muito pele

 

molda o corpo longínquo que desponta

na linha do horizonte e desmancha

o aniquilamento

 

o pé que não toca o chão,

já ponte ao alcance do sol

 

rio, 03.3.07

 

 

 

 
Entre o gesto e o pouso 
 
tocaste-me a terra, metamorfoseada,
que se desenrolava e desamarrava
enquanto rompias as ervas 
                                                                                                                                
estremeces, riscando-me e marcando-me
 
definitivamente
 
transformaste-me em qualquer coisa que sabe
do intermédio entre o gesto e o