Doce, livre de prisão ou exílio

De manhã procuro o poema numa imagem
suspensa entre a luz e a sombra.
Encontro-o cansado da palavra e dos gestos,
num canto. Digno, clean e sem nostalgia,
tem um hálito além do lamento.
Com ternura pousa uma letra em minha boca,
calmamente me beija, sem a anestesia
que fere os lábios pela ausência de paixão.
Revê nos versos a fuga total de simetria,
consertos, reformas, solitárias tentativas,
ensaios que nunca trariam grandeza aos acenos.
Sabe que as fragilidades não levam ao fracasso,
como o medo o faz. Sabe das marcas involuntárias,
mas não casuais.
Chega ao papel, parte; chega no virtual.
Tangencia o real e fica.
Por vezes dança comigo entre o céu e a terra,
a pisar os sonhos, a torná-los chão,
até que fazemos deles um caminho doce,
livre de prisão ou exílio.
18.4.07
[1] (Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984: 250-1)