Sonia Regina

http://soniareginabrasil.sites.uol.com.br/umpoema.htm

Simplesmente soreg: é como a poeta carioca Sonia Regina assina seus trabalhos de arte digital. Fundou em 2001 o periódico digital Laboratório da Palavra,do qual é a editora responsável. Colabora em grupos de criação e discussão literária na web e integra o grupo 10 Rostos da Poesia Lusófona.
































































































 


Pico do Caledônia: Nova Friburgo, Rio de Janeiro - Imagem: www.gazetadascidades.com.br

Descobria como nascia o suspiro

 
Gostava de ver como os que trabalhavam a terra enxugavam com o dorso da mão a testa, olhando fixamente além. Um horizonte por vir, que não seria o mesmo para todos. Pensou se era nesses momentos que sonhavam.

A tarde era oblíqua; constatara quando vira que, ao longe, no fundo do vale, já anoitecera e ali ainda havia sol. Bom sentir-se sua amiga.

Ainda desconhecia a indiferença. Quase tudo que a atingia, recebia com afeto e com espanto: desgostos e gostos em partes quase iguais. Quase, porque nem sabia quantos desgostos lhe tirariam o poder maravilhar-se por nunca ter visto um pôr-do-sol igual a outro: um gosto e tanto, imenso, beirando a eternidade!

Sabia desde muito cedo que em cada pessoa forte havia alguma inocência, um desconhecimento do que fosse mal, ou bem. Não que fossem puros, os homens das montanhas. Ou ingênuos. Mas o contato com a terra, o respeito pela ventania, chuvas e raios, o desejo do sol do amanhecer nas noites extremamente frias lhes ensinara a viver sem auto-indulgência. Expulsos dos reflexos do ego, podiam viver os dias realmente próprios sem o sentimento de propriedade. Sem arrependimentos ou culpas seguiam com suavidade as mutações da natureza e integravam-se ao curso do mundo.

Ela mesma... Quantas vezes seu coração se apertara, quantas vezes voara dentro do peito. Por vezes seus deslumbramentos lhe traziam alguma desordem, por vezes uma quietude como esta, agora, em que descobria como nascia o suspiro.

 
sonia regina
28.2.08


























 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escuta, detrás da página

Acharam-no atrás da página

e o convocaram, a tua voz e teus

olhos claros, neste inverno

de tantas estações

 

um chamado muito firme, doce,

ouviu meu coração pequeno.

 

Julho 2007

No movimento da sede

“há poços nos espelhos
onde a nudez
se precipita,
a luz mordendo a água” 

Miguel Nava

Viste-me na penumbra,
no fundo do espelho;

onde a nudez se esconde

me mordeste.

como me asseguraste
ontem eu me vi

[ainda esmirrada],

água de inverno

já no movimento da sede.

 

Julho 2007

Águas de inverno

Um elo salgado prende as águas
de inverno que se desmancham,
força retornando com audácia.

Na circunstância da cor oculta,
a elegância do movimento,

Na praia eu, ao sabor da maré.

Julho 2007

Um verso ab ovo*

Queria um verso sem verbo

sem imagem – ou com muitas,
tantas, que a nenhuma se pudesse
reduzir, amoldar, nela caber –

assim como uma oração sem ação
ou um sujeito sem traços
nem tudo nem nada, um paradoxo,
um contraditório sem oposições,
um significante sem significado
lavrado em nenhuma escritura

talvez um signo não desbravado,
uma natureza primordial que não
se desnuda porque não traz vestimenta;
que não se veste porque não tem matéria,
ou pele, nem nada por baixo, ou por cima,
sem dentro, sem fora, sem reflexos
com uma leitura possível sem remetimentos
: nem a observações sábias nem a suaves
recordações

talvez assim como sílabas claras que se
contivessem em si, desde os primórdios;
um verso sem verbo, de só uma palavra

um verso ab ovo
: poeta.

 

julho 2007
* lat Desde o ovo; desde o começo

 

 


Imagem: Michel Ducruet

Um chamado estrito III 


ao reflexo, narciso responde com a voz que assina o eco.
na volubilidade percorre aclives e declives, identifica
a si mesmo em todas as fases da colheita

só na alma com corpo conhece a guarda de um chamado
estrito.


28.6.07

 

 

No travesseiro

 

Deus me acalma, no meu travesseiro

abre o meu sono sob a força das penas

e apascenta a noite que devora as gotas,

mesmo as do orvalho

 

nesse inverno chuvoso a felicidade

não é uma esmola e sonho que o ar

da nova estação não espanará

a poeira do segredo, elo da minha

intimidade nessa distinção divina.

 

26.6.07

 

De um coração ouvidor

 

se te olhasses com teus dois olhos:

o que vê a sombra na superfície

e o que vê a claridade mais profunda

 

se colhesses a dor e não rejeitasses

o teu queixume, se teus espinhos

tocasses, e as feridas

 

se fosses, contigo, água cristalina

 

talvez se fosse o amargor antigo

que em ti se refaz, em tudo se recria

 

talvez te fizesses livre para edificar,

das ruínas

 

serias a flauta e o sopro, a mão

e a carícia, a boca e o beijo;

a navalha que se defende

e a que constrói, na madeira,

a imagem viva;

da visão, o grito que alerta;

do tato, o gesto que ensina;

 

a palavra que não se divide,

viria do coração;

o ódio, ao amor se integraria;

a densidade se transmutaria

em luz

 

vibrariam todos como a noite

e o dia, juntos, na unidade

da vida.

 

30.6.07

 

 

 

 

SE

se de tanto querer o mar, tem crescido,

sem mobília, o fruto marinho,

e se tem transformado de amálgama

em vaga, em alga fecundada

noutros sentidos;

 se a metamorfose pudesse ter  ouvido

[a horas de véspera]

plenas de palavras, as ondas

se de presas nos lábios, na escrita caíssem

das águas agitadas;

se a sombra, numa linguagem simples,

espuma desenhasse, na areia, festas

de colégios, igrejas;

se a ciência dos pescadores, ao sabor do mar,

o dia adivinhasse e, a manhã, de segredo

profundo, se transmutasse, nas costas de algum

litoral suave, enseada secreta, de um horizonte

que saltasse, de onde, talvez, o coração oculto

do oceano, enfim se mostrasse.

 

26.6.07

 

 

Um chamado estrito

 

não foi com ele ao baile:

além da falta da química,

a alma toda lhe fazia mal.

 

soube que se  olhava

e no espelho, narciso,

admirava a contradança

consigo - corpo e alma -

 

muito oculto, guardava

um chamado

 

estrito.

 

27.6.07

 

 


Imagem:
Pintura de John William Waterhouse

Traquinas

 

Subir pelo lado íngreme é uma prática secreta.

uma arte do equilíbrio, uma afronta menina

doce, doce.

 

28.6.07

 

 

 

Tolices adocicadas


o sol não é o único que não pára 
num universo que se move 
num negror sem afetos, sentido 
ou atração
 
desdém, rancor e reclamações 
giram no mundo que envolve a arte 
do mel que se oferece. estimulantes.
 
23.6.07

 

 


sou o lugar

Prazer não se finge e enganadora não me esqueci 
do sabor que não tem o insípido. sou o lugar 
que se queimou no pacto e culpei os deuses 
por consumir-me nas chamas: roubei-lhes o fogo, 
minha poesia criou a língua, leio a realidade 
e não sei se mereço o reino dos céus que assim 
me parece “a morte confundida fora e dentro”[1]
 
23.6.07

 

[1]Herberto Helder in Última Ciência (p. 39). Assírio & Alvim. Peninsulares/Literatura 30. Lisboa.

 

Uma flor no outono

 

Venta, as folhas do ipê dançam o outono.

a seiva borbulha a cada acorde brotam

da umidade sépalas unidas, cálice aberto

ao mundo, florescem sem tempo marcado

 

num fluir secreto de sílabas, para além

das estações, a flor de uma voz ausente

no lugar da alegria me ensina o bailado

das pétalas à volta de seu centro

 

ganha vida o ritual vedado às palavras.

 

rio, 9.5.07

 

 

Para além das finitudes

 

Passeei só, fui o espelho do cosmos

entrei no labirinto, vi jardins ocultos

 

para além das finitudes,

meu coração moveu-se

 

levou-me para o outro lado do mar.              

 

12.5.07

 

A justa emoção permanece e lavra

num dia ruim, a humanidade na palavra

é uma obra larga, grande

comove, arde

queima as larvas

 

o simples que inquieta não é fácil

nem facilita

mas dá a justa emoção

que permanece

e lavra.

 

25.5.07

 

 

Verdes vales sem montanhas

Sob a língua a escrita curativa é uma baia

sob um céu imaginado de subsolo farto

 

éguas antes soltas no pasto, unicórnios

viajantes cavalos mágicos

num chão de raízes raras, simples alfafas

dos campos, verdes vales sem montanhas

 

como um quadrado redondo

todo um discurso de sonho

com lastro.                               

 

25.5.07

 


Prague-Vasilis Fotopoulos

Entre logo por todas as frestas

 

mas é imperioso que se fale do obscuro;

que se escreva dos horrores e pesadelos,

para que a claridade entre logo por todas

as frestas das ruas da cidade

 

e mergulhe na alma dos que, sentados nas

calçadas, adiam o principiar da posteridade.

 

22.4.07

 

 


Trent Parke

 

Num deslizamento profundo

 

convidei os fantasmas à cerimônia do chá

encenamos as palavras que nos designam

(não mais nossas), como os gestos das mãos

alongadas ao limite da realidade cotidiana

 

atravessamos o cortinado de vapor

e, com artes nas palavras, brincamos.

sentados no palco, saímos do labirinto

 

num deslizamento profundo das fibras

liberamos a febre, ao toque dos dedos

 

28.4.07

 

 

Desaprender um lugar
(com os seis sentidos)

três para chegar

e ir, além do olhar;

três para se inteirar

do cheiro, do gosto

 

pra que ele comece

a contar de si,

mais alguns dias

 

os não ditos, na pele

o mistério, percebido

 

a única lição, secreta

e vívida: desaprender

 

28.4.07

 

 

A minha poesia está na pele

 

a minha poesia está na pele

de cada sílaba polinizada

 

fruta sumarenta,

coração que escorre

 

quebra distâncias

desbrava limites

atravessa fronteiras

 

o mundo invade

 

erva terna

verso

prosa

 

recolhe-se, entrega-se, corpo

da minha palavra desperta

 

dança, samba, requebra

[no silencio ou no batuque]

em mistério líquido goza.

 

rio, 07.5.07 

 

 

VIAGEM

 

Encontra-me na existência que se anima

recuperando a harmonia e ensina-me

o movimento que mora na quietude,

lá onde se reúnem a alma e o corpo.

leva-me a esse lugar onde eu possa

procurar-me no girar da vida e,

como as pétalas à volta do centro,

dançar o despertar da essência e do sentido.

quando o dia molhar a noite de claridade

quero tocar o passado, descobrir porque

está sempre começando o tempo,

viajar pelo riso da terra e saber das águas

em que fluem secretas a beleza e a cura.

 

 

19.4.07

 

 

Inexiste, apesar da crença

  

inexiste o que à noite bata às portas inseguras,

outrora abertas quando as janelas perdidas

no morno da aragem despediam-se da memória.

a suavidade da brisa não anuncia o furacão

que vem de longe e acorda o turbilhão da casa

que, na madrugada, desmorona, agarrando-se

à crença na manhã de algum poema incompleto.

à tarde são simples palavras estendidas nos varais

vazios, versos inúteis para a vida, instintos atiçados,

acossados no deserto florido.

 

19.4.07


 

Que esse vento te leve o meu desejo

 à Ciça e ao Renato

 

Anseio o encontro com o ronco do rio,

a trilha estreita de barro, o íngreme

da descida, o solo em estado de pureza

 

sei que não perderão o fascínio sobre mim

 

oh, vila da mata, que esse vento te leve

o meu desejo, porque ele é tão ardente

 

logo retorno, embora passo a passo, ao murmúrio

dessa cascata e ao sol da tarde tocando de leve

as folhas das árvores à beira-rio

 

e nos abraçaremos, eu e tuas águas doces

 

sempre encantada, não pelo cheiro de descoberta

ou o gosto das constatações gastas, a mim também

me assombrarão meus sentidos

 

[então criadores]

 

e eu, líquida criatura, só no deslumbre existirei.

 

21.4.07

 

 

Afagam as costas do litoral, as lufadas de silencio

 

Como unhas compridas que nada mais quisessem fazer

além do carinho pedido, afagam as costas do litoral

as lufadas de silencio de um outono que não se esconde

atrás das árvores

 

nem o vôo da garça rasga o céu refletido na lagoa,

se a gentileza que movimenta os azuis sente o frescor

da mata e, embebida de ternura, devora o obscuro

 

indo-se a escuridão, a luz será sempre um início.

 

22.4.07

 

 

trazia um pouco de mar até minha boca:
eu bebia diariamente
[1]

 

 

 

  

brilha comigo e sê meu mar, pois me amedronta esta escuridão marinha

há formas nas névoas, as ondas rugem e não mais me afagam

tenho medo dos pesadelos e da verdade dessa linguagem que não conheço

acordo assustada se já não sinto, do oceano, o cheiro e o gosto

a brisa se enfurece, as árvores balançam, troveja

agarra-me pra que eu não caia, da fraqueza do tornozelo

não sei dizer das lacunas que abortam os poemas, andam imperfeitas

minhas palavras

 

: já não sabem dizer de minha boca sedenta

e constrange-me  chorar.


 [1] (Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984: 250-1)

 

 

‘o cheiro do mar me invadia e me embriagava’[1]

  

 

acordo nesse quarto para o qual me mudei

(porque achei melhor, e que gostarias)

 

do rádio, Carly Simon me traz um tempo antigo

em que ‘o cheiro do mar me invadia e me embriagava’

pela janela sempre aberta

 

a minha árvore cresce igual às outras

mas, distraída, floresce no outono

carregada de pendões amarelos

 

ainda me apaixona seu bailado com o vento

 

é também doce a luz que me penetra

vinda da noite virada do avesso, tornada dia

 

um novo, que não fala de enganos

porque nada entende, simplesmente é

 

 

10.4.07

[1] (Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984: 250-1)


 

Até que se levante o dia

 

 

se pensar o real é uma ficção,
se é incompleta a construção do poema,
se é provisório e solto, o discurso;

 

se a vírgula se redesenha num parênteses

entregue à fala, assim como o tempo

alongado da espuma se abre ao sol liberto;

 

se "falar é o modo mais simples

de nos tornarmos desconhecidos”[1];

 

 que traços fazer com os sinais que estão

à nossa volta?

 

nenhum deles nos remete senão ao rio,

quando abraça a noite em fogo intenso

 

prolongando a aurora

até que, no momento da foz, se levante o dia.

 

 

 

14.4.07

[1] Fernando Pessoa. Para a coluna "Balança de Minerva", em "Teatro - Jornal D. Arte", in: Páginas sobre Literatura e Estética, organização, introdução, notas e biobibliografia básica atualizada de Antonio Quadros, Portugal: Publicações Europa-América Ltda., pp. 140.

 

 

Doce, livre de prisão ou exílio

 

De manhã procuro o poema numa imagem

suspensa entre a luz e a sombra.

Encontro-o cansado da palavra e dos gestos,

num canto. Digno, clean e sem nostalgia,

tem um hálito além do lamento.

 

Com ternura pousa uma letra em minha boca,

calmamente me beija, sem a anestesia

que fere os lábios pela ausência de paixão.

 

Revê nos versos a fuga total de simetria,

consertos, reformas, solitárias tentativas,

ensaios que nunca trariam grandeza aos acenos.

 

Sabe que as fragilidades não levam ao fracasso,

como o medo o faz. Sabe das marcas involuntárias,

mas não casuais.

 

Chega ao papel, parte; chega no virtual.

Tangencia o real e fica.

 

Por vezes dança comigo entre o céu e a terra,

a pisar os sonhos, a torná-los chão,

até que fazemos deles um caminho doce,

livre de prisão ou exílio.

 

 

18.4.07

[1] (Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984: 250-1)

 



 

 

Caleidoscópio 

 

mudam-se tempos, vontades, trocam-se

ventos e marés; cavalgam-se as águas,

cobiça-se a brisa; elevam-te, põem-te de pé

 

nomeia a efígie que aparece, suave

personagem, recorte no ar

 

tesouro inimaginado de baú antigo;

aberto, somente, por aproveitar.

 

04.3.07

 

 

Traços que, enfim, pousam

 

vem de outro ponto de vista

o que não é, do olhar,

nem uma outra maneira.

 

braços abertos, um fitar

leve e solto dos traços

 

que, enfim, pousam

 

no que não tem margem

ou cor, signos desabados

 

de nenhuma natureza,

vício, sombra ou pensar.

 

04.3.07

 

 

Um regresso sensível, muito pele

 

é um regresso sensível, muito pele

 

molda o corpo longínquo que desponta

na linha do horizonte e desmancha

o aniquilamento

 

o pé que não toca o chão,

já ponte ao alcance do sol

 

rio, 03.3.07

 

 

 

 
Entre o gesto e o pouso 
 
tocaste-me a terra, metamorfoseada,
que se desenrolava e desamarrava
enquanto rompias as ervas 
                                                                                                                                
estremeces, riscando-me e marcando-me
 
definitivamente
 
transformaste-me em qualquer coisa que sabe
do intermédio entre o gesto e o pouso.  
 
rio, 04.3.07

 

Detenho-me na ponta dessa claridade

“as palavras pairam no ar ou equilibram-se numa linha invisível” - José Felix

 

detenho-me na ponta dessa claridade

e dentre as tarefas diárias só ouso amar,

talvez a única habilidade possível

nestes tempos em que “as palavras pairam

no ar ou equilibram-se numa linha invisível”[1],

produzindo efeitos na manhã desse rio

de cor forte, cachoeira que se aventura

nos cabelos ao ritmo das batidas do coração.

rio, 03.3.07

Um toque, sem tato 

 
o que cala, sente, e faz sentir
onde o sol não bate, ou pensa
o coração
 
basta ser e estar, nesse quase feliz
 
como um olhar das pálpebras nuas
vê de perfil e de frente ao mesmo tempo
 
como um rodear profundo que toca
sem tato, intriga o arrepio, não escolhe
objeto nem parte.
 
 
02.3.07

Em cristalino espasmo

 
no colo, o marinho cavalo
- antigo personagem
em cristalino espasmo
do mar - não mais navega
ou voa: respira,  sopra
- magia crua -, transforma,
nutre de impurezas
necessárias a aura,
no ar.
 
 
02.3.07
 

 

Outro idioma
ou
tuas asas não foram cortadas

 

"há palavras que nos beijam
(...) de esperança louca."

Alexandre O'neill

 

vês? tuas asas não foram cortadas

sem fome ou sede, com o cheiro

inebriada - "de esperança louca",

aroma que exala – tua boca fala

 

novo sentido pros lábios;

pra língua, outro idioma.

 

Rio, 12.2.07

 

 

A medida do espaço necessário

 

Os eus que eu guardo calam-se

quando digo à alma que contemple,

para que eu olhe o mundo e sinta

- sem palavras-, deixando a pele

(o céu do corpo) adormecida

 

a ducha espanta a contemplação;

a água quando cai acorda a ausência,

num falatório de pensamentos

 

os choros são sugados pela música

: um basta eficaz, no discurso sem

vírgulas ou pausas

 

e o bolero e Ravel, enfim, dão

a medida do espaço necessário.

 

Paraty, 17.2.07

 

 

Libertos, planam no céu do corpo

 

"o corpo doeu-me onde antes os teus dedos foram aves de verão"

Maria do Rosário Pedreira

 

ser ilha e deixar-se levar pela maré

: incongruência de quem é, em Paraty

 

o mar pode ser quente, junto às pedras;

estar é despertar com as correntes frias

do inesperado movimento

 

lufadas - próprias da estação - neutralizam

a dor e curam; os que caminham no tempo

voam, libertos

 

planam no céu do corpo, aves

: migram, no verão.

 

Paraty, 17.2.07

 

 

Dão-se as mãos e caminham, no mar

 

deixando a alma livre de sentir

o que não lhe é próprio, a eros

tudo é possível quando afrodite,

cronus, yemanjá e netuno dão-se

as mãos e caminham, no mar.

 

Paraty, 17.2.07

 

 


De um tempo e uma distância não lineares

 

Não me escondo na trama da minha fábula,

o que narro não é um ato de caridade:

tampouco sou proprietária das minhas representações.

simplesmente cobiço que se fixem - e não tardem -

o fervor e o júbilo, a ternura, o colorido

de um tempo e uma distância não lineares.

Rio, 02.11.06

 

 


a imagem é choro

 

Mergulhar na lágrima

 

Mergulhar na lágrima

é deixar-se inundar

sem preencher o vazio

Rio, 02.11.06

 

 


Nenhuma decepção é inesgotável

 

Sou guerreira, mas não quero combater fantasmas,

basta-me atravessá-los:

Nenhuma decepção é inesgotável.

 

Rio, 02.11.06

 


imagem - john_brill

 

"Ninguém se perde na volta" - Antonio Adriano de Medeiros"

 

À volta, na qual ninguém se perde!

 

Em meio ao tudo e ao nada, a prosa.

num não à nostalgia, os vivas:

à volta, na qual ninguém se perde

e à poesia... que fica.

Rio, 14.9.06

 

 

imagem: Pilar Ilara

 

O vão da palavra


I ( cicatriz)


envolve-me
o temor
do vão da palavra
e quando chegar
a hora
faz-me feliz
toca-me
a anestesia
para que eu acorde

da cicatriz.



II (susto)


sim, mas com vagar
no vão da palavra
cauteloso me afaga
assim
acalenta-me
seca-me a lágrima

e do susto me diz.



III (feliz)


acolhe-me na tua boca
lambe a ferida, a fome
a sede aplaca-me
que seja leve o toque
que me percorre
[desde as entranhas]
o vão da palavra

feliz.

Rio, 18.10.06



imagem: Gloria Lamson

 

Uma literatura simples, que arda

quero uma oração sem a compostura
do texto criado em estufa, cujo sentido
escapa e a ternura esquece

quero-a escrita sem esquadro, sinuoso
dito de língua eloqüente, um brado

que me capture a alma, na página

quero a carne desenhada, a cores
lasciva paisagem incontida, farta

natureza, imagens comuns
uma literatura simples

que arda.

Rio, 28.10.06

 

imagem: E . Brown


Por favor, não morras na praia

 

talvez não na pausa, esteja a voz que te falta;

talvez no molhado da terra, no azul das asas,
na mão que te afaga o enigma que traças;

talvez na leitura de ruídos que não decifras,
no obscuro dos seixos que rolam nas águas;

talvez na nervura da vaga, na espuma,
na fala da maré quando enche e vaza;

talvez venha hoje a manhã que aguardas

foi tanto que nadaste, não te debatas:
espera, flutua e, se for preciso, bóia;
mas, por favor, não morras na praia.

Rio, 30.10.06

 

Tatuagem

marca minha pele, o teu olhar.

como tatuagem veste-me o corpo

de um brilho que só a ti responde,

se tocado no sensível

nem há vergonha, nas entranhas.

ao toque dos teus dedos vibram

como um piano, signo colorido

a fazer-se água

e há o preto, e o branco da alma

[que te aguarda]

para ser aquarela

vermelha, azul,

amarela.

Para florir um poema

que dizer do verde tom que, entre dois umbigos,

é um rito de pássaros - sem tempo e espaço?

troco o bonito simplesmente apreciado

por esse momento, que esconde o infinito

na carne a duração dos instantes sabe

da mão que constrói a floração do poema

e no encontro das silabas a palavra diz.

O toque

ama o amor. seja qual for o diabo

(ou o deus), olha-o nos olhos

conhece o prazer que lhe dá prazer

aprende do lume que ensina ao corpo

a difícil arte do abandono das palavras

atravessa com ela os resíduos

o desejo que começa na mente, deixa

que escape pelos dedos, como penas.

 

Caminheira

Piso o solo, caminheira das histórias que empilhei.
Conservo o hábito de arrancar o contentamento
bem do fundo das ausências.
Pratico o espaço, no balanço me desloco do eu pro mim,
desfaço o legível e construo o júbilo, sacudida
por uma força que desafia os cálculos’*


Rio, 14.4.06


* kandinsky

 

Caminho d’água


Desafio a criatividade e deixo que a palavra fale,
como último ato de saúde. Tua voz me puxa
do ar, nesses momentos em que a única vontade
é pedir licença e descer do mundo, só, exilada
deste país em que todas as ruas vão dar no mar,
emigrante de ritos não cumpridos.
À procura de solo úmido, a lava sangrou,
ainda desordenada, pelos poros da terra.
Rompeu a mata, cobriu a estrada de névoa,
o que mal me impede a visão, se tuas mãos
tocam meus pés e me chamam pra paisagem.
Adiante os campos dos goytacazes, no litoral
e eu, daqui, me preparo para a volta.
Se levo saudades, não temo a chegada
navego no canal de lágrimas
sem barco, a escuna ao largo
eu, minha canoa e a vontade de remar.
Sigo o caminho d’água
que não sei onde vai dar
se deságua em outro rio,
se vai ao encontro do mar.


Barra do Corumbê-Paraty, 24.4.06 - Campos dos Goyacazes, 03.05.0
6

 

 

Convite, preciso.


Não há serenidade ou sensatez na minha paciência.
Não leio o que me reparte em lágrimas,
não saboreio o vácuo na serra
nem embalo a tarde que desmorona.
Espero pacientemente que se vá a noite
e deixo-a cair no rio, tornada manhã,
para que com ele corte o vale
e no leito, lave os instantes
de pura aceitação, seixos rolados
ao encontro do mar.
Salto do silêncio que não se comunica
e ergue pinguelas, no ar. mergulho
no tempo, palavra líquida, fundo momentos.
Ruídos vivos que serão som, ao convite
[preciso]
que a intenção de travessia não pode imaginar.


Rio, 1º.05.06

 

Leveza *

Cavalgo o dorso do mundo no tempo
que passa, deito no sussurro da relva
e lhe percebo os sentidos que correm
em cada fruto.
Dos lábios, a arte penetra a manhã
e dela se apoderam as mãos, levemente.
Num movimento fabuloso a palavra pousa e é poesia,
magia que dá vida à pedra,
sonho das águas que não dormem.
Basta um toque que as instigue
ao ponto de vôo e lá se vão elas,
desenhando os passos do caminho,
nas ondas que tremulam, entregues
ao espanto da língua, ao arrepio do beijo,
candeias de uma escuridão tornada sol.


Rio, 16.7.06

 

MULHER , SIMPLESMENTE MULHER :  HUMANA 

 

”Trizas”, em espanhol. Em português estilhaços, des-pedaços. Talvez como saudade. Saudade da saudade. Saudade de tudo o que foi e já não é; do que poderia ser, e não se tem garantia de que efetivamente será. Partes, um todo em cada, pedaços reunidos de - e com - amor. Mulher, simplesmente mulher - humana. 

Dar conta do que é uma mulher “parece, naturalmente, uma tarefa de Sísifo: tão interminável quanto inacabada, ou inacabável”.

Mulher - não somente expectante, e também. Não somente corajosa, e também. Não somente alegre, e também. Não somente segura, e também. Não somente sã, e também. Não somente lúcida, e também. Dividida e inteira, tudo e nada, vibração-amor. É o que lhe resta inteiro, é a chama que lhe alimenta a vida. O amor, em qualquer de suas manifestações.

Ser amada lhe é fundamental, e é quando mais precisa: quando menos parece merecer ou demonstra querer, ou admite necessitar. De natureza simples, é complexa, e não carece ser decifrada. Toda mulher é um enigma, que não precisa ser resolvido. A sua solução não ajuda, não há catarses possíveis, o enigma sempre persiste. Mítica, à mulher-enigma há que apreciar,  valorizar, querer, amar - aceitar. Como uma oferenda que faz de si.

O eu-mulher ressurge a cada dia, com o crepúsculo. O sol brilha em si; seu movimento é água; ela é vento. Mas se tem a cabeça nas nuvens, os pés estão no chão. Árvore frondosa e acolhedora, que preza suas raízes. Gosta de se deixar levar ao sabor do vento, e sabe voar. Enfrenta ventanias e sabe criar abrigos seguros para poder saboreá-las. E se não tem medo das intempéries e o fustigar do vento a fascina, recolhe-se assustada ante uma brisa que vacile emprestar-lhe seu sopro. Seu vôo não é aleatório, ou alheio. Tem direção e rumo certo. E se lhe custa desviá-lo, ainda assim pode fazê-lo. Gosta de ver as folhas das palmeiras que dançam ao vento. Gosta de ver as rosas que se abrem ao beijo sôfrego - intenso, longo e amoroso carinho -, porém fugaz, do beija-flor. A música a sensibiliza. Mas isso não lhe basta, pois não só contempla, busca a ação. Ousa mais. Ousa, e não gosta de necessitar.

Às vezes teimosa, prefere dizer-se obstinada. Gosta de plantar e é jardineira por excelência. Abraça filhos e desafios, algumas se fascinam por causas dadas como perdidas. Seus abraços são abraços-jibóia: abraços apertados, envolventes. Envolve-se, também, é assim que aprende, como diz o provérbio. É aprendiz eterna e convicta.

É adaptável e recebe de bom grado o que é dado espontaneamente e, feliz, retribui. Independente e esperta cultiva certa argúcia, talvez por instinto de defesa. Essa característica lhe dá um tom altivo, elegante e imperial, que encanta mesmo os poderosos (vide Cleópatra). Uma auto-estima elevada, que suporta certas privações e abomina outras.

Adaptável, sobrevive e se mantém em circunstâncias as mais adversas. Há bravura suficiente para resistir mesmo em situações nas quais outros desistiriam. É de pasmar - e um tanto difícil conceber - a extrema tolerância, fidelidade e lealdade. Entretanto, não suporta indiferença. Talvez seja o único momento em que se esgueira suavemente e, como as jibóias, foge. Busca uma brecha e se retira – simplesmente -, mantendo sua altivez. É quando a perdem, pois não tolera isolamento, e fenece.

Ser des-pedaçado e inteiro, que significa e re-significa: é o que é uma mulher. Simplesmente. Complexamente. Vive e crê que é o amor o que existe em nós, humanos, a arder e manter o fogo da vida. Assim lhe foi revelado e é o que ensina aos filhos: a vida não é um presente que se oferece, há que merecê-la, sempre construindo e trocando, por vezes tomando, arrebatando; por vezes recebendo, esperando. Unindo, deitando fora, aceitando, recusando. Deixando para trás o medo de fantasmas que aprisionam; fluindo.

"Sê inteiro, porque assim poderás estar uno com a unidade das coisas", diz o poeta zen. No leste ou oeste, norte ou sul brilha o mesmo sol: há que pôr mãos-à-obra, pois o crepúsculo anuncia sua última paixão.

 Pelo Dia Internacional da Mulher, 2003

 

Além de si

 

Tateia, à procura do que acende o telhado e dá luz à pedra entre as árvores. Com a família aprendera a ser uma carruagem de fogo que, entre abraços, dissolve sombras e cria similitudes entre o discurso e o sonho. Sabia que o efêmero, tornado natural na imaginação da vontade, é como água que verticaliza a sede.

O contentamento não atordoa a alegria e a festa do dia treze paira, estacionada no ar de impedimentos, imorredoura na cotação das crenças que resolvem mistérios com a mão que penteia e despenteia. Um afago que encontra o deslumbramento dos sentidos e ilumina os louros cabelos, candeia ansiada pela escuridão.

"A mítica está no sol que faz andar fora do jogo da lua fria, azul nos raios que incomodam a noite", pensa. "Caminhar indica a falta de lugar, o sair pela maresia de letras e números numa jornada carente de idioma que soletre abrigo".

Relembra o beija-flor - o sábio entre as aves – que vive de sorver a vida com sofreguidão e aproveita todo o néctar que lhe ofertam as flores. O tempo é curto, a vida é pequena para tanto abafamento: trata de estar menos com a boca aberta, qual passarinho no ninho.

Figuração onírica numa caligrafia amarelo-verde, o arco-íris atravessa as águas errantes, no ar rendeiras do desejo. Transforma a cena e meras ilustrações tornam-se imagens em trânsito para uma paisagem que dança, na semântica.

"Talvez devesse flutuar na magia das palavras que entra pela janela animando bosques de gestos detidos no quadro, talvez seja este um processo ainda indefinido do estar ausente das paredes em busca da passagem para o leito", cogita. E percebe que da Natureza Morta a maçã retorna, esvaziada de significados. Verde, brilhante, descolada da tela. Mais que uma idéia, é sabor: ácido.

Rio, 13.6.06

Sotaque

 

 
tua voz, como uma fala mítica,
invade minha rua, atravessa 
minha janela e comigo se deita. 
sotaque que percorre meu corpo,
num traçado de língua que acaricia.

Rio, 8.4.06

ao sabor do vento VI

 



 

 

há um atrás das portas da tua cidade,
um acolá pleno de pastagens poéticas.


à noite escuto, no teu sussurro circular,
um convite que me chega em ondas


e, imensas vagas, bailamos
[pagãos]
pelos campos.

Rio, 8.4.06

sem fôlego para uma mudez cantada

 
é preciso magnetizar o corpo da poesia, farta 
de ser canção sem canto que lhe aproveite 
musicalmente a voz, cansada de ser só fôlego,
mudez cantada  num ou noutro gemido
suspiro, grito


é preciso ouvir o poema que diz assim, num repente, 
que não escreverá amém a letras espelhadas, sílabas 
entrecortadas por tons ausentes de música e dança


é preciso, urgentemente, atentar à fome de ardor 
e ameaça da palavra crua.  não importam os ardis, 
quer ser rodeada -  em seu orgulho -, com coragem 
eriçada,  até o reconhecimento da alegria [séria]
de viver, nos versos, uma dança nua de amor e raiva.
 
Rio, 30.5.06

asteriscos 5



 

mergulhar na memória é banhar-se de alguma meninice
à procura de leveza  passear pelo faz-de-conta


nas festas de família reaprender a simetria dos afetos.

14.6.06

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