o
verso delira no corpo aguarda
a fagulha que o incendeie |
Como
um relâmpago intacto no sangue * " Aí onde começa a respiração, onde o alef penetra oblíquo como um relâmpago intacto no sangue: Adão, Adão: Oh Jerusalém." - Valente, José Ángel . fragmento de Primeira Lição . tradução de Jorge Henrique Bastos. |
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despertas uma mansão
de cenário, uma poesia deserta. |
Cassis - Ralph Sirianni amadurece a
dança do aroma prova a boca
"a boca que sabe a beleza |
galope não
é um simples cromo [ou retrato]. |
suspiro
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nada a ver |
poetando 1 vampiriza
beijos, suga oceanos |
poetando
2 |
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suspiro de ébano
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sonho |
nem poeta nem sujeito
por cenário
a habitação imagem do meu desejo infinito movimento |
O best seller de James Gleick Caos: a criação de uma nova ciência (1987) apresenta como um dos principais capítulos o intitulado O efeito borboleta. De uma forma tão coincidentemente incrível, como talvez somente o destino consegue fazer, a forma do atrator de Lorenz e o ponto principal do seu artigo Previsibilidade: o bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas? [Lorenz: 1972] são os mesmos: a borboleta. Por isto costuma-se associar à teoria do caos o chamado efeito borboleta. |
a
rosa dos ventos
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La Morna* é
pequeno o passo da minha letra, * Na antiguidade, sábios discutiam sobre o peso da alma. Em Cabo Verde existe uma medida precisa: la sodade (saudade). A saudade é a matéria prima de la morna, um canto nascido da emigração, uma arte do adeus, que se fez melancolia universal. |
a palavra casa |
essa escrita principio tocando
de leve e azul |
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O poema emudece
O sol não tem cor quando se estica em dia nublado e não me colore nenhum ponto de vista. Simplesmente fura o bloqueio das nuvens e caminha na claridade, ignorando a ausência de chuva. É quando padecem de indigência os líquidos - esvaziados até de um simples pingo - e a saudade é o único rumor que se ouve nas conchas. As ilhas Cagarras - rochas leais ao estado de pedra - coroam um mar impassível que, na praia, é íntimo de palmeiras que ondeiam, aquecendo memórias e desejos. Não há plantações na beira do morro Dois Irmãos, entretanto a relva que recobre a areia exubera intensa fertilidade, numa linguagem varrida de palavras. Talvez um ar assim, por demais corrompido de lugares comuns, termine por deflorar círculos viciosos; talvez eu venha a colher da brisa um tempo que corra mais célere; talvez eu precise exercer o dizer profano num verbo qualquer, ainda que abreviado da poesia que me silencia os sentidos. É uma época hábil em parênteses chuvosos, cinza digital a ocupar - em umidades ligeiras - a lentidão das horas ressecadas. E enquanto o oceano se esvazia de distâncias, o poema emudece. |
em órbita real imaginário, a
conjunção em órbita |
lume |
abraço crio veludos em um canto, |
resgate um resgate de elos que na verdade
nunca estiveram perdidos. da viagem, colhi a geada assim
que partiu a lua
é outra maneira de morder
os sentidos: acolhê-los. |
big-bang explora cada palmo desse território com ternura toca-os, acarinha-os apossa-te dele, marca-o de ais entrelaça-te, desata os suspiros borda beijos de línguas enlouquecidas que explode entre gemidos |
chegas chegas chegas, e para mim basta "negar-se é uma indulgência" não nego, e te espero liberta o teu sorriso enlaça-te deixa para trás as pegadas no tudo e nasça luz |
escutar e ver andam emparedados de pensar Sempre inventávamos brincadeiras, a vida ficava divertida e nos coloria de surpresas. Por que 'ir para o' Jardim Botânico se podíamos 'estar lá após' perseguirmos pedrinhas que chutávamos? Não abdicávamos, mas preteríamos os dardos coloridos por pedras colhidas na estrada. Como alvos, duas árvores do bosque. Regra simples laureava quem acertasse mais vezes a "sua" árvore. Havia as brincadeiras estritamente urbanas, com as quais subvertíamos a ordem da cidade: nenhum mau humor em hora de rush na Lagoa. Ríamos e sorríamos compassivos aos carrancudos que interrogavam nossas pequenas felicidades. Não me lembro bem quando dei para falar com os objetos fora do carro. Talvez um dia de sol, desses que convidam ao enlouquecimento. Sei que disse " Oi, árvore", e ele detrás respondeu "árvore não fala...". Experimentei um "Oi, nuvem" e a vozinha respondeu "nuvem não fala...". E fomos cumprimentando tudo, as montanhas, o céu, o sol, a água, o verde, a lagoa, as garças. Trocávamos, já que a graça era perceber o que não falava. E assim fizemos, anos. Depois minhas percepções se enfermaram e andei preocupada em escutar a dor, o que até me enriqueceu de mim. Mas hoje quero verbar diferente, já que escutar e ver andam emparedados de pensar. Quero abrir o azul, vestir-me de água, nadar nas palavras - com ou sem volúpia. Quero ajudá-las a subverter as funções gramaticais. Os verbos do fazer são ligeiramente desobedientes, com a dose certa de insolência, para que feliz seja efetivamente uma palavra vivível. Nada comigo nas palavras, meu amor. E se algum dia eu tiver uma recaída em mim, me puxa de novo.
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do leito estendido no ar
I
Mulher: um eixo feminino
Eternas curvas em movimento, uma mulher. Um erro de perspectiva identificá-las unicamente com belos corpos sinuosos, ágeis comunicadores, doadores em potencial. Em circulares movimentos, elípticas atitudes denotam um ser que se curva sem perder a majestade e escolhe os caminhos - com precisão - enquanto transita por carícias e realizações. Brejeiros os sorrisos que iluminam o manancial que sugere - e mesmo convida - para mergulhos profundos, sem entretanto assegurarem lugar no banquete que prepara, como um rito. Há que ser cortejada, além de seduzida. Há que ser conquistada, após descoberta. Há que ser cultivada, ainda que se tenha aberto em flor. Longos e densos carinhos a provocam e causam, e com eles voa, entre afetos e emoções. Mas aterriza, e é com propriedade que dirige seu eixo. Feminino. Feminino movimento sem ensaios, táticas ou estratégias. Eixo que se organiza, simplesmente. Em curvas. Parábolas. Elipses sucessivas que percorre, em eterna espiral. Ainda que com jornadas similares é, contudo, sem retornar ao mesmo ponto, que o faz.
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