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MULHER , SIMPLESMENTE MULHER : HUMANA
Trizas, em espanhol. Em português estilhaços, des-pedaços. Talvez como saudade. Saudade da saudade. Saudade de tudo o que foi e já não é; do que poderia ser, e não se tem garantia de que efetivamente será. Partes, um todo em cada, pedaços reunidos de - e com - amor. Mulher, simplesmente mulher - humana. Dar conta do que é uma mulher parece, naturalmente, uma tarefa de Sísifo: tão interminável quanto inacabada, ou inacabável. Mulher - não somente expectante, e também. Não somente corajosa, e também. Não somente alegre, e também. Não somente segura, e também. Não somente sã, e também. Não somente lúcida, e também. Dividida e inteira, tudo e nada, vibração-amor. É o que lhe resta inteiro, é a chama que lhe alimenta a vida. O amor, em qualquer de suas manifestações. Ser amada lhe é fundamental, e é quando mais precisa: quando menos parece merecer ou demonstra querer, ou admite necessitar. De natureza simples, é complexa, e não carece ser decifrada. Toda mulher é um enigma, que não precisa ser resolvido. A sua solução não ajuda, não há catarses possíveis, o enigma sempre persiste. Mítica, à mulher-enigma há que apreciar, valorizar, querer, amar - aceitar. Como uma oferenda que faz de si. O eu-mulher ressurge a cada dia, com o crepúsculo. O sol brilha em si; seu movimento é água; ela é vento. Mas se tem a cabeça nas nuvens, os pés estão no chão. Árvore frondosa e acolhedora, que preza suas raízes. Gosta de se deixar levar ao sabor do vento, e sabe voar. Enfrenta ventanias e sabe criar abrigos seguros para poder saboreá-las. E se não tem medo das intempéries e o fustigar do vento a fascina, recolhe-se assustada ante uma brisa que vacile emprestar-lhe seu sopro. Seu vôo não é aleatório, ou alheio. Tem direção e rumo certo. E se lhe custa desviá-lo, ainda assim pode fazê-lo. Gosta de ver as folhas das palmeiras que dançam ao vento. Gosta de ver as rosas que se abrem ao beijo sôfrego - intenso, longo e amoroso carinho -, porém fugaz, do beija-flor. A música a sensibiliza. Mas isso não lhe basta, pois não só contempla, busca a ação. Ousa mais. Ousa, e não gosta de necessitar. Às vezes teimosa, prefere dizer-se obstinada. Gosta de plantar e é jardineira por excelência. Abraça filhos e desafios, algumas se fascinam por causas dadas como perdidas. Seus abraços são abraços-jibóia: abraços apertados, envolventes. Envolve-se, também, é assim que aprende, como diz o provérbio. É aprendiz eterna e convicta. É adaptável e recebe de bom grado o que é dado espontaneamente e, feliz, retribui. Independente e esperta cultiva certa argúcia, talvez por instinto de defesa. Essa característica lhe dá um tom altivo, elegante e imperial, que encanta mesmo os poderosos (vide Cleópatra). Uma auto-estima elevada, que suporta certas privações e abomina outras. Adaptável, sobrevive e se mantém em circunstâncias as mais adversas. Há bravura suficiente para resistir mesmo em situações nas quais outros desistiriam. É de pasmar - e um tanto difícil conceber - a extrema tolerância, fidelidade e lealdade. Entretanto, não suporta indiferença. Talvez seja o único momento em que se esgueira suavemente e, como as jibóias, foge. Busca uma brecha e se retira simplesmente -, mantendo sua altivez. É quando a perdem, pois não tolera isolamento, e fenece. Ser des-pedaçado e inteiro, que significa e re-significa: é o que é uma mulher. Simplesmente. Complexamente. Vive e crê que é o amor o que existe em nós, humanos, a arder e manter o fogo da vida. Assim lhe foi revelado e é o que ensina aos filhos: a vida não é um presente que se oferece, há que merecê-la, sempre construindo e trocando, por vezes tomando, arrebatando; por vezes recebendo, esperando. Unindo, deitando fora, aceitando, recusando. Deixando para trás o medo de fantasmas que aprisionam; fluindo. "Sê inteiro, porque assim poderás estar uno com a unidade das coisas", diz o poeta zen. No leste ou oeste, norte ou sul brilha o mesmo sol: há que pôr mãos-à-obra, pois o crepúsculo anuncia sua última paixão. Pelo Dia Internacional da Mulher, 2003 |
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Além de si
Tateia, à procura do que acende o telhado e dá luz à pedra entre as árvores. Com a família aprendera a ser uma carruagem de fogo que, entre abraços, dissolve sombras e cria similitudes entre o discurso e o sonho. Sabia que o efêmero, tornado natural na imaginação da vontade, é como água que verticaliza a sede. O contentamento não atordoa a alegria e a festa do dia treze paira, estacionada no ar de impedimentos, imorredoura na cotação das crenças que resolvem mistérios com a mão que penteia e despenteia. Um afago que encontra o deslumbramento dos sentidos e ilumina os louros cabelos, candeia ansiada pela escuridão. "A mítica está no sol que faz andar fora do jogo da lua fria, azul nos raios que incomodam a noite", pensa. "Caminhar indica a falta de lugar, o sair pela maresia de letras e números numa jornada carente de idioma que soletre abrigo". Relembra o beija-flor - o sábio entre as aves que vive de sorver a vida com sofreguidão e aproveita todo o néctar que lhe ofertam as flores. O tempo é curto, a vida é pequena para tanto abafamento: trata de estar menos com a boca aberta, qual passarinho no ninho. Figuração onírica numa caligrafia amarelo-verde, o arco-íris atravessa as águas errantes, no ar rendeiras do desejo. Transforma a cena e meras ilustrações tornam-se imagens em trânsito para uma paisagem que dança, na semântica. "Talvez devesse flutuar na magia das palavras que entra pela janela animando bosques de gestos detidos no quadro, talvez seja este um processo ainda indefinido do estar ausente das paredes em busca da passagem para o leito", cogita. E percebe que da Natureza Morta a maçã retorna, esvaziada de significados. Verde, brilhante, descolada da tela. Mais que uma idéia, é sabor: ácido. Rio, 13.6.06 |
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Sotaque
Rio, 8.4.06 |
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ao sabor do
vento VI |
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sem
fôlego para uma mudez cantada |
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asteriscos 5
14.6.06 |
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o
verso delira no corpo
aguarda
a fagulha que o incendeie |
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Como
um relâmpago intacto no sangue * " Aí onde começa a respiração, onde o alef penetra oblíquo como um relâmpago intacto no sangue: Adão, Adão: Oh Jerusalém." - Valente, José Ángel . fragmento de Primeira Lição . tradução de Jorge Henrique Bastos. |
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despertas
uma mansão
de cenário, uma poesia deserta. |
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Cassis - Ralph Sirianni
amadurece a
dança do aroma
prova a boca
"a boca que sabe a beleza |
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galope
não
é um simples cromo [ou retrato]. |
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suspiro
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nada a ver
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poetando 1
vampiriza
beijos, suga oceanos |
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poetando
2 |
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suspiro de ébano
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sonho |
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nem poeta nem sujeito
por cenário
a habitação
imagem do meu desejo
infinito movimento |
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das borboletas ao tornado: o caos
1.
esboço um
sorriso, e choro
sem ti
O best seller de James Gleick Caos: a criação de uma nova ciência (1987) apresenta como um dos principais capítulos o intitulado O efeito borboleta. De uma forma tão coincidentemente incrível, como talvez somente o destino consegue fazer, a forma do atrator de Lorenz e o ponto principal do seu artigo Previsibilidade: o bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas? [Lorenz: 1972] são os mesmos: a borboleta. Por isto costuma-se associar à teoria do caos o chamado efeito borboleta. |
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a
rosa dos ventos
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La Morna*
é
pequeno o passo da minha letra, * Na antiguidade, sábios discutiam sobre o peso da alma. Em Cabo Verde existe uma medida precisa: la sodade (saudade). A saudade é a matéria prima de la morna, um canto nascido da emigração, uma arte do adeus, que se fez melancolia universal. |
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a palavra casa
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essa escrita
principio tocando
de leve e azul |
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O poema emudece
O sol não tem cor quando se estica em dia nublado e não me colore nenhum ponto de vista. Simplesmente fura o bloqueio das nuvens e caminha na claridade, ignorando a ausência de chuva. É quando padecem de indigência os líquidos - esvaziados até de um simples pingo - e a saudade é o único rumor que se ouve nas conchas. As ilhas Cagarras - rochas leais ao estado de pedra - coroam um mar impassível que, na praia, é íntimo de palmeiras que ondeiam, aquecendo memórias e desejos. Não há plantações na beira do morro Dois Irmãos, entretanto a relva que recobre a areia exubera intensa fertilidade, numa linguagem varrida de palavras. Talvez um ar assim, por demais corrompido de lugares comuns, termine por deflorar círculos viciosos; talvez eu venha a colher da brisa um tempo que corra mais célere; talvez eu precise exercer o dizer profano num verbo qualquer, ainda que abreviado da poesia que me silencia os sentidos. É uma época hábil em parênteses chuvosos, cinza digital a ocupar - em umidades ligeiras - a lentidão das horas ressecadas. E enquanto o oceano se esvazia de distâncias, o poema emudece. |
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em órbita
real imaginário, a
conjunção em órbita poema inédito, a ser publicado em breve no livro Abrazos |
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aeroporto
III
adormecido tempo, hiato breve |
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lume
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abraço
crio veludos em um canto, |
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resgate
um resgate de elos que na verdade
nunca estiveram perdidos.
da viagem, colhi a geada assim
que partiu a lua
é outra maneira de morder
os sentidos: acolhê-los. poema inédito a ser publicado em breve no livro Abraços y Abrazos, escrito com José Gil |
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big-bang
explora cada palmo desse território
com ternura toca-os, acarinha-os
apossa-te dele, marca-o de ais
entrelaça-te, desata os suspiros
borda beijos de línguas enlouquecidas que explode entre gemidos poema inédito a ser publicado em breve no livro Abraços y Abrazos, escrito com José Gil |
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chegas
chegas
chegas, e para mim basta
"negar-se é uma indulgência"
não nego, e te espero
liberta o teu sorriso enlaça-te
deixa para trás as pegadas no tudo e nasça luz poema inédito a ser publicado em breve no livro Abraços y Abrazos, escrito com José Gil |
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escutar e ver andam emparedados de pensar
Sempre inventávamos brincadeiras, a vida ficava divertida e nos coloria de surpresas. Por que 'ir para o' Jardim Botânico se podíamos 'estar lá após' perseguirmos pedrinhas que chutávamos? Não abdicávamos, mas preteríamos os dardos coloridos por pedras colhidas na estrada. Como alvos, duas árvores do bosque. Regra simples laureava quem acertasse mais vezes a "sua" árvore. Havia as brincadeiras estritamente urbanas, com as quais subvertíamos a ordem da cidade: nenhum mau humor em hora de rush na Lagoa. Ríamos e sorríamos compassivos aos carrancudos que interrogavam nossas pequenas felicidades. Não me lembro bem quando dei para falar com os objetos fora do carro. Talvez um dia de sol, desses que convidam ao enlouquecimento. Sei que disse " Oi, árvore", e ele detrás respondeu "árvore não fala...". Experimentei um "Oi, nuvem" e a vozinha respondeu "nuvem não fala...". E fomos cumprimentando tudo, as montanhas, o céu, o sol, a água, o verde, a lagoa, as garças. Trocávamos, já que a graça era perceber o que não falava. E assim fizemos, anos. Depois minhas percepções se enfermaram e andei preocupada em escutar a dor, o que até me enriqueceu de mim. Mas hoje quero verbar diferente, já que escutar e ver andam emparedados de pensar. Quero abrir o azul, vestir-me de água, nadar nas palavras - com ou sem volúpia. Quero ajudá-las a subverter as funções gramaticais. Os verbos do fazer são ligeiramente desobedientes, com a dose certa de insolência, para que feliz seja efetivamente uma palavra vivível. Nada comigo nas palavras, meu amor. E se algum dia eu tiver uma recaída em mim, me puxa de novo.
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do leito estendido no ar
I Mulher: um eixo feminino
Eternas curvas em movimento, uma mulher. Um erro de perspectiva identificá-las unicamente com belos corpos sinuosos, ágeis comunicadores, doadores em potencial. Em circulares movimentos, elípticas atitudes denotam um ser que se curva sem perder a majestade e escolhe os caminhos - com precisão - enquanto transita por carícias e realizações. Brejeiros os sorrisos que iluminam o manancial que sugere - e mesmo convida - para mergulhos profundos, sem entretanto assegurarem lugar no banquete que prepara, como um rito. Há que ser cortejada, além de seduzida. Há que ser conquistada, após descoberta. Há que ser cultivada, ainda que se tenha aberto em flor. Longos e densos carinhos a provocam e causam, e com eles voa, entre afetos e emoções. Mas aterriza, e é com propriedade que dirige seu eixo. Feminino.
Feminino movimento sem ensaios,
táticas ou estratégias. Eixo que se organiza,
simplesmente. Em curvas. Parábolas. Elipses sucessivas que
percorre, em eterna espiral. Ainda que com jornadas similares
é, contudo, sem retornar ao mesmo ponto, que o faz. |