Sonia Regina

Blog: no fluir das metonímias

Revista Digital:  Laboratório da Palavra

A escritora carioca Sonia Regina é psicanalista e professora. Supervisiona trabalhos de educação pelas artes cênica e plástica e exerce a psicologia para o Estado, tendo sido licenciada pela PUC/RJ e pós-graduada pelo Instituto de Psiquiatria/UFRJ. Coordenou a “Oficina da Palavra” no Centro Psiquiátrico RJ de 2000 a 2002 e há 5 anos edita na web o periódico “Laboratório da Palavra”, unindo o audiovisual à literatura. Obtém, por tais meios, outra linguagem do subjetivo, narrativa que investiga no projeto “Habitações Poéticas do Teatro: Cenários e Escrita Dramática”. Participa do Grupo “Encontro de Escritas”, em cujas antologias consta. Publicou “Uitzilim Poemas” e “Laços y Lazos - Manual de Escrita Criativa”, este em co-autoria com José Gil.      

E-mail: soniareginabrasil@uol.com.br

MULHER , SIMPLESMENTE MULHER :  HUMANA

 

 

”Trizas”, em espanhol. Em português estilhaços, des-pedaços. Talvez como saudade. Saudade da saudade. Saudade de tudo o que foi e já não é; do que poderia ser, e não se tem garantia de que efetivamente será. Partes, um todo em cada, pedaços reunidos de - e com - amor. Mulher, simplesmente mulher - humana. 

Dar conta do que é uma mulher “parece, naturalmente, uma tarefa de Sísifo: tão interminável quanto inacabada, ou inacabável”.

Mulher - não somente expectante, e também. Não somente corajosa, e também. Não somente alegre, e também. Não somente segura, e também. Não somente sã, e também. Não somente lúcida, e também. Dividida e inteira, tudo e nada, vibração-amor. É o que lhe resta inteiro, é a chama que lhe alimenta a vida. O amor, em qualquer de suas manifestações.

Ser amada lhe é fundamental, e é quando mais precisa: quando menos parece merecer ou demonstra querer, ou admite necessitar. De natureza simples, é complexa, e não carece ser decifrada. Toda mulher é um enigma, que não precisa ser resolvido. A sua solução não ajuda, não há catarses possíveis, o enigma sempre persiste. Mítica, à mulher-enigma há que apreciar,  valorizar, querer, amar - aceitar. Como uma oferenda que faz de si.

O eu-mulher ressurge a cada dia, com o crepúsculo. O sol brilha em si; seu movimento é água; ela é vento. Mas se tem a cabeça nas nuvens, os pés estão no chão. Árvore frondosa e acolhedora, que preza suas raízes. Gosta de se deixar levar ao sabor do vento, e sabe voar. Enfrenta ventanias e sabe criar abrigos seguros para poder saboreá-las. E se não tem medo das intempéries e o fustigar do vento a fascina, recolhe-se assustada ante uma brisa que vacile emprestar-lhe seu sopro. Seu vôo não é aleatório, ou alheio. Tem direção e rumo certo. E se lhe custa desviá-lo, ainda assim pode fazê-lo. Gosta de ver as folhas das palmeiras que dançam ao vento. Gosta de ver as rosas que se abrem ao beijo sôfrego - intenso, longo e amoroso carinho -, porém fugaz, do beija-flor. A música a sensibiliza. Mas isso não lhe basta, pois não só contempla, busca a ação. Ousa mais. Ousa, e não gosta de necessitar.

Às vezes teimosa, prefere dizer-se obstinada. Gosta de plantar e é jardineira por excelência. Abraça filhos e desafios, algumas se fascinam por causas dadas como perdidas. Seus abraços são abraços-jibóia: abraços apertados, envolventes. Envolve-se, também, é assim que aprende, como diz o provérbio. É aprendiz eterna e convicta.

É adaptável e recebe de bom grado o que é dado espontaneamente e, feliz, retribui. Independente e esperta cultiva certa argúcia, talvez por instinto de defesa. Essa característica lhe dá um tom altivo, elegante e imperial, que encanta mesmo os poderosos (vide Cleópatra). Uma auto-estima elevada, que suporta certas privações e abomina outras.

Adaptável, sobrevive e se mantém em circunstâncias as mais adversas. Há bravura suficiente para resistir mesmo em situações nas quais outros desistiriam. É de pasmar - e um tanto difícil conceber - a extrema tolerância, fidelidade e lealdade. Entretanto, não suporta indiferença. Talvez seja o único momento em que se esgueira suavemente e, como as jibóias, foge. Busca uma brecha e se retira – simplesmente -, mantendo sua altivez. É quando a perdem, pois não tolera isolamento, e fenece.

Ser des-pedaçado e inteiro, que significa e re-significa: é o que é uma mulher. Simplesmente. Complexamente. Vive e crê que é o amor o que existe em nós, humanos, a arder e manter o fogo da vida. Assim lhe foi revelado e é o que ensina aos filhos: a vida não é um presente que se oferece, há que merecê-la, sempre construindo e trocando, por vezes tomando, arrebatando; por vezes recebendo, esperando. Unindo, deitando fora, aceitando, recusando. Deixando para trás o medo de fantasmas que aprisionam; fluindo.

"Sê inteiro, porque assim poderás estar uno com a unidade das coisas", diz o poeta zen. No leste ou oeste, norte ou sul brilha o mesmo sol: há que pôr mãos-à-obra, pois o crepúsculo anuncia sua última paixão.

 Pelo Dia Internacional da Mulher, 2003

Além de si

 

 

Tateia, à procura do que acende o telhado e dá luz à pedra entre as árvores. Com a família aprendera a ser uma carruagem de fogo que, entre abraços, dissolve sombras e cria similitudes entre o discurso e o sonho. Sabia que o efêmero, tornado natural na imaginação da vontade, é como água que verticaliza a sede.

O contentamento não atordoa a alegria e a festa do dia treze paira, estacionada no ar de impedimentos, imorredoura na cotação das crenças que resolvem mistérios com a mão que penteia e despenteia. Um afago que encontra o deslumbramento dos sentidos e ilumina os louros cabelos, candeia ansiada pela escuridão.

"A mítica está no sol que faz andar fora do jogo da lua fria, azul nos raios que incomodam a noite", pensa. "Caminhar indica a falta de lugar, o sair pela maresia de letras e números numa jornada carente de idioma que soletre abrigo".

Relembra o beija-flor - o sábio entre as aves – que vive de sorver a vida com sofreguidão e aproveita todo o néctar que lhe ofertam as flores. O tempo é curto, a vida é pequena para tanto abafamento: trata de estar menos com a boca aberta, qual passarinho no ninho.

Figuração onírica numa caligrafia amarelo-verde, o arco-íris atravessa as águas errantes, no ar rendeiras do desejo. Transforma a cena e meras ilustrações tornam-se imagens em trânsito para uma paisagem que dança, na semântica.

"Talvez devesse flutuar na magia das palavras que entra pela janela animando bosques de gestos detidos no quadro, talvez seja este um processo ainda indefinido do estar ausente das paredes em busca da passagem para o leito", cogita. E percebe que da Natureza Morta a maçã retorna, esvaziada de significados. Verde, brilhante, descolada da tela. Mais que uma idéia, é sabor: ácido.

Rio, 13.6.06

Sotaque

 

 
tua voz, como uma fala mítica,
invade minha rua, atravessa 
minha janela e comigo se deita. 
sotaque que percorre meu corpo,
num traçado de língua que acaricia.

Rio, 8.4.06

ao sabor do vento VI

 



 

 

há um atrás das portas da tua cidade,
um acolá pleno de pastagens poéticas.


à noite escuto, no teu sussurro circular,
um convite que me chega em ondas


e, imensas vagas, bailamos
[pagãos]
pelos campos.

Rio, 8.4.06

sem fôlego para uma mudez cantada

 
é preciso magnetizar o corpo da poesia, farta 
de ser canção sem canto que lhe aproveite 
musicalmente a voz, cansada de ser só fôlego,
mudez cantada  num ou noutro gemido
suspiro, grito


é preciso ouvir o poema que diz assim, num repente, 
que não escreverá amém a letras espelhadas, sílabas 
entrecortadas por tons ausentes de música e dança


é preciso, urgentemente, atentar à fome de ardor 
e ameaça da palavra crua.  não importam os ardis, 
quer ser rodeada -  em seu orgulho -, com coragem 
eriçada,  até o reconhecimento da alegria [séria]
de viver, nos versos, uma dança nua de amor e raiva.
 
Rio, 30.5.06

asteriscos 5



 

mergulhar na memória é banhar-se de alguma meninice
à procura de leveza  passear pelo faz-de-conta


nas festas de família reaprender a simetria dos afetos.

14.6.06


Deus e o diabo na terra do sol  *

o verso delira no corpo

viaja nos cabelos

sobe e desce nas letras


escapole das aves que rapinam o verbo


oferece o baço ao fel

brota na página

pula carniça nas garatujas


mágico mistério do que não há

é e está

o verso aqui, aí, lá

acolá


na cola do poema

entre isto e aquilo

o lusco e o fusco

o eu e o mim


o não e o sim

vai e volta 

quando morde a sílaba

engata

deita na palavra

balança

chama a chama

do “deus e o diabo na terra do sol”


a artimanha macia da ventania? 

ele traça

tem raça

caminha na praia 

atrás do dia

do “milagre do ouro que o sol que choverá”


espairece a falta 

não pensa se vale ou não vale 

tentar


joga água fria na fervura da alma 

e fala

da imaginação, da pele fresca do “texto poético”

da “alucinação, visão, das práticas aliadas da inspiração”

aguarda a fagulha que o incendeie  

e, num clima de labareda, por fim vibre 


vire

a poesia

e desvire 

a metáfora 

em ação.



* Filme de Glauber Rocha - “Que conta Deus e o Diabo na Terra do Sol? No início, conta a estória, tão freqüente na literatura verista do século XIX, do camponês que, num momento de desespero, mata o patrão escravista. Mas, desde o momento em que Manuel se embrenha na caatinga e se junta ao bando dos fanáticos seguidores do Santo Sebastião -- um profeta negro que afirma que um dia o mar vai virar sertão e o sertão vai virar mar e que o sol choverá ouro e que, portanto, para provocar esse milagre, é preciso matar todos os que fazem o mal, isto é, principalmente os padres e as prostitutas --, desse momento em diante, o filme conta algo de muito moderno: as alucinações, as visões, as práticas e os modos de conduta aberrantes que a fome, a miséria e a ignorância podem inspirar num povo desesperado.” Alberto Moravia, trecho de artigo no semanário L’Espresso, 16/08/64, Roma.
"A origem de Deus e o diabo é uma língua metafórica, a literatura de cordel. No Nordeste, os cegos, nos circos, nas feiras, nos teatros populares, começam uma história cantando: eu vou lhes contar uma história que é de verdade e de imaginação, ou então que é imaginação verdadeira. Toda minha formação foi feita nesse clima. A idéia do filme me veio espontaneamente." Glauber Rocha

Como um relâmpago intacto no sangue



relampeja alef nos espaços abertos 

sem bordas de versos inspirados.

branqueiam as nervuras da nova geometria

em penetração oblíqua o soro da vida.

um último alento suspira a morte, exangue,

nas molhadas mãos de escritura indecifrável

numa respiração lida sem ambivalência

“como um relâmpago intacto no sangue”*.

* " Aí onde começa a respiração, onde o alef penetra oblíquo como um relâmpago intacto no sangue: Adão, Adão: Oh Jerusalém." - Valente, José Ángel . fragmento de Primeira Lição . tradução de Jorge Henrique Bastos.


61 segundos
 
a terra rodou sete elipses

 sete translações dançaram os céus 

no tempo que esticou o ponteiro das horas

as ondas dos átomos de césio não são marés 

de ressaca, espumam mágoas ou hesitam.

nelas a vida se apresenta cadente 

e precisa, constante e certa


o último minuto de 2005 teve 61 segundos - e chuva -

para acertarmos os relógios nas moléculas d'água;

pro sol desenhar o calor do beijo na manhã molhada;

pra pulsar o azul que abraça o mar

na paisagem 

[bordada]

abre-se o horizonte 

à ternura da alga

ao sabor do vento cresce o mundo

o prazer explode

e avermelha a alborada.


despertas

uma mansão de cenário, uma poesia deserta.
despertas.

silenciosas, mantêm-se  acesas no movimento 

as letras que provocam, contraem, se abandonam.

Vês com estão entregues às sílabas?

pretendem se realizar no segredo de novos idiomas.

Cassis - Ralph Sirianni

 

cassis

 


voa a ave rubi, vermelha na luz resgatada pelos relógios 

ao tempo de rotação da terra curtida ao sol de meio-dia   

amadurece a dança do aroma 

nas "ligeiras nuances 

de couro e folha verde de chá" 


celebram o sabor do chocolate na hortelã e ervas raras 

as línguas que se tocam à volta do favo da baunilha 

em lambidas que sabem a anis e madeira


"1 segundo só, mas o suficiente para dizer amo-te"

molhou a garganta como vinho musical, rodopiou 

atravessou a parede aberta no assobio das aves 


fecundando o ventre da pedra entre os lábios 

suculentas cassis ondulam atrás da canela,

cravo, folhas de tabaco,encorpando o sabor

prova a boca "a boca que sabe a beleza 

que encerra dentro de si, não se sente tímida,

revela” 

escorre num filete de exóticas sensações. 

03.01.06

galope

não é um simples cromo [ou retrato].
é vivo o espetáculo, espelho refletor 
desse cinza que ondula
 
: um mar dos sentidos, a água.
 
inesperado eco do meu galope 
nos debruns da tua alma que, 
de madrugada,  trota com a minha.

suspiro



 
concentra o sol na ponta dos teus dedos
oferece-o, a cada nervura do meu corpo
 
inquieta-as
 
até que se apague a saudade 
do meu sorriso 

nada a ver 




manteiga, queijo, pão
sei não
sei não, seu moço
se almoço ou lancho
se arrumo a bagagem
preparo passagem 
pro lado de lá do sertão

estranho a viagem
em canoagem no ar 
sem balão

mas vôo 
na castanha de caju 

refaço o encanto
e com catchup na alma
o banto empurro pro canto 
olho com o rabo de olho

o preto e o branco
suo por todos os poros
a vida

 

poetando 1

vampiriza beijos, suga oceanos
mergulha no tempo de um abraço
transborda ondulações, até os quadris
e só então atravessa o silêncio
num giro de 360 graus
na dobra das pernas o corpo se inunda de vida
decência que percorre arrepios bordados
pelo teu último olhar

um conhecimento prudente jamais passará de percepção.


rio  06.9.05

poetando 2
 

sobre a carne viva duas lágrimas de orvalho 

têm mais inocência e, embora não castas,

enxáguam máculas, rascunham possibilidades.

 

perguntam pela sensação mais íntima, ouvem 

as respostas líquidas do coração e têm gosto 

de coisa feliz, no anúncio do dia.

 

transbordam de pontes levadiças  

[suportam qualquer peso]

e fazem entrar o infinito.

 rio  10.9.05

suspiro de ébano

 

 

 

a lua ilumina minha carne selvagem
que uiva de dor e, tu, me alivias.
és minha gota de chuva e me inundas
[água sobre lágrimas]
me lavas mais que um milagre,
e eu te amo

 

: afoga-me de ti

 

a própria razão pode levar a um impasse
e, perdoa, se me demoro: anda tapado
de pensares, o meu açude.
ponto negro na encruzilhada, sou suspiro 
de ébano a dizer pedaços do teu nome, 
pela madrugada

 

mas não saber o que fazer é prosseguir
e eu quero sair da beira da brancura,
ser onda de fogo a sobrevoar o lodo,
jogar capoeira e ficar de pé.
sim, sou guerreira - ar, terra, pedra -,
mas sou mulher

 

junto destroços de palavras, arranho 
meu ser estático e impactado
[com os cacos]
até abri-lo e deixar-me entornar 
inteira
escrita de mar.

sonho

 

 corro devagar - quando de criança 
me visto - pela estrada que liga 
teus dedos ao meu coração


mastigo o som dos atabaques
[ruminando meus desejos]
e requebro, na maciez do teu toque.

 mas sempre meus olhos sacodem

                             e eu acordo. 

 rio 13.9.05

nem poeta nem sujeito

 

 

 

é assim que me escrevo
vão de redemoinho
plácido turbilhão
quando busco

por cenário a habitação
morada de espelho no rio
sereno e orvalho, juntos
chuva com tempo bom

imagem do meu desejo
irracional, meio mágico
não sei se foi por acaso
que te encontrei

infinito movimento
[um mar]
que flui dos poros em letras
não é fonema ou grafema
contigo vivo e não sou
nem poeta, nem sujeito 

...sou poema.

rio   26.2.05

das borboletas ao tornado: o caos

 

 

1.
 
busco compreender a ordem que há na desordem
e as leis que regem o acaso.
meu olhar observa a irregularidade em seu movimento
regular, atento ao andamento do hoje, aqui e agora.
entre o passado e o futuro, um hiato: a minha morte.
sem lágrimas ou risos transito entre as dualidades
e por pensamentos, palavras e obras eu peco.
cometo poemas, excessos e economias...
 
2.
 
perceber minha cabeça como um pião
pronto para o salto, reedita temor antigo

esboço um sorriso, e choro
 
3.
 
mergulhar nessa memória é banhar-se de alguma meninice
à procura de leveza passear pelo faz-de-conta e nas festas
infantis de família reaprender a arte da simetria dos afetos
 
4.
 
geometria afetiva que aquece o tempo e evapora distâncias
 
5.
 
não ser hábil na dança das cadeiras pode iniciar efeito
espiralado, gerar habilidades de defesa e conquista,
desenvolver competência para ser feliz
 
6.
 
habilidades desnecessárias na modernidade,
competência que não exerço

sem ti
 
7.
 
ontem uma borboleta bateu as asas, por aqui
 
8.
 
sucessão de efeitos interligando o tudo e o nada
passado e futuro presentes, uma memória viva
 
que lateja
 
9.
 
pensamentos alinhando falas desconexas
de emoção que quer ser afeto, chão, teto
 
10.
 
cai a parede que separa Píramo e Tisbe
 
11.
 
na ciranda de palavras à nossa volta
gira o bruxedo, estrebucha e rodopia
dissolve-se na noite, em câmera lenta
 
12.
 
plenilúnio...a lua anuncia o amanhecer
o céu deitou com a terra, nasceu o dia
 
13.
 
enquanto te aguardo o toque, ó cirandeiro,
nada mais sou além de um fractal do caos
organizado, um turbilhão, um redemoinho
 
tornado. 
rio 23.6.05


O best seller de James Gleick “Caos: a criação de uma nova ciência” (1987) apresenta como um dos principais capítulos o intitulado “O efeito borboleta”. De uma forma tão coincidentemente incrível, como talvez somente o destino consegue fazer, a forma do atrator de Lorenz e o ponto principal do seu artigo “Previsibilidade: o bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas?” [Lorenz: 1972] são os mesmos: a borboleta. Por isto costuma-se associar à teoria do caos o chamado “efeito borboleta”.

a rosa dos ventos



 

 
essa, que você nunca viu triste,
aqui está, meu amigo.
como “fingir que é dor
a que deveras existe”?



vê a rosa desorientada,
puído o magnetismo?
foram os ventos desencontrados
em um poema ferido

dá-se um hiato


silencia a letra, cala a palavra,
anoitece a vida que cria

mas 
se o tempo se faz água
e “lava a poeira da alma”,
se a navalha é de fogo
que se consome na palha

a piada vira chiste
a construção não desaba

e o verso brota, cristalino,
brilhante

na próxima fala. 


18.6.05

As letras polinizam já as palavras
De flores e frutos de um coração frio
Se abro os limites da minha língua
Abro as fronteiras do meu mundo

 José Gil, Acervo da Língua (fragmentos)

 

 

A serviço da língua

 
 ah, poesia minha que estás na pele
de cada palavra polinizada
ó fruta sumarenta,
teu coração escorre
 
ó poema sensual e forte,
quebra a distância ao norte!
desbrava os limites da língua,
esse mundo invade
e à terra prometida chega
[por fim]
sem fazer alarde
 
aberta a fronteira, eleva-te,
ó erva terna, ó verso prosa,
entrega-te
 
à alma certa
 
no corpo da palavra dança
 
desperta
 
em mistério líquido goza.
 rio    17.7.05
(1ª versão: 24.2.05)

La Morna*

é pequeno o passo da minha letra, 
baixo e lento o vôo do meu desejo
 
:minha alma pesa, por não saber 
chorar.
 

15.03.05

* Na antiguidade, sábios discutiam sobre o peso da alma. Em Cabo Verde existe uma medida precisa: la sodade (saudade). A saudade é a matéria prima de la morna, um canto nascido da emigração, uma arte do adeus, que se fez melancolia universal.

a palavra casa 


 
 
lambe os cabelos dessa palavra
que tem gula pelo teu toque
 
veste-lhe cheiros nas paredes
 
come-a com mel e ervas raras
e, outras refeições... oferece-lhe
 
com teus lábios e dedos sábios
escreve-a, em variados idiomas,
entre carinhos longos e densos
 
toma-a
apossa-te
lambuza-a de ti

e se quiser ver-te apaixonado,
sentir-te deliciado...regala-te!
 
já não há espera, saboreia com calma
cada ranhura que ela te prepara,
percorre-lhe sôfrego todo o corpo
e planta-lhe filhos na alma,
em fulgoroso coito de sílabas tônicas
 
até que em vôos ritmados, ressoando ais,
um êxtase esticado (em coloridas letras)
sorvam lânguidos, os pontos cardeais.  

29.11.04 

essa escrita

principio tocando de leve e azul
a distante tecla de um escrito
largado na borda do papel
 
não digo solidão se digo saudade,
mas minhas letras não ressoam todos os dias.
por vezes minha pele é impermeável
e nada me abre os poros de um segredo;
desenhos sem significado me rodeiam
[como tatuagens de brinquedo]
e além da cor amarela nada vejo.
 
a proximidade parece em calmaria.
 
num entusiasmo temperado de ligeiras certezas 
monto e cavalgo a realidade,
com um sonho entre os dedos
 
sei que o adiante lá está e nos habita
 
e ainda que não haja um sol muito eficaz
há um centro que  brilha
[nós]
na dor dessa escrita.

O poema emudece


Lagoa, Bairro de Ipanema e Ilhas Cagarras 


Praia do Leblon e morro dois irmãos

O sol não tem cor quando se estica em dia nublado e não me colore nenhum ponto de vista. Simplesmente fura o bloqueio das nuvens e caminha na claridade, ignorando a ausência de chuva.

É quando padecem de indigência os líquidos - esvaziados até de um simples pingo - e a saudade é o único rumor que se ouve nas conchas.

As ilhas Cagarras - rochas leais ao estado de pedra - coroam um mar impassível que, na praia, é íntimo de palmeiras que ondeiam, aquecendo memórias e desejos.

Não há plantações na beira do morro Dois Irmãos, entretanto a relva que recobre a areia exubera intensa fertilidade, numa linguagem varrida de palavras.

Talvez um ar assim, por demais corrompido de lugares comuns, termine por deflorar círculos viciosos; talvez eu venha a colher da brisa um tempo que corra mais célere; talvez eu precise exercer o dizer profano num verbo qualquer, ainda que abreviado da poesia que me silencia os sentidos.

É uma época hábil em parênteses chuvosos, cinza digital a ocupar - em umidades ligeiras - a lentidão das horas ressecadas.

E enquanto o oceano se esvazia de distâncias, o poema emudece.

em órbita

real imaginário, a conjunção em órbita
dela se alimenta a luz , em céu de inverno
assédio estelar algum a desvia
ou desaquece

: dançam em harmonia nossos corpos celestes.

poema inédito, a ser publicado em breve no livro Abrazos 

aeroporto III

adormecido tempo, hiato breve
hífen de revolta entre dentes
primitivos movimentos
o que encobrem
                      da tua essência?
 
um hiato de olhar sobre as partes
que já não necessitamos
 
nem de pó, nem de papel
sobre as pedras das partes
o real emerge
 
vigorosa raiz, forte substância
recoberta pela maciez
da alma certa
 
perfeito ludo que não
mais jogamos, já ao largo
de nosso encontro
 
nada mais
 
o movimento é das essências
e de óleos
a paz é total
 
sonia regina e josé gil
15.6.04 
poema inédito, a ser publicado em breve no livro Abrazos 

lume

 
deita a tua sede em meus lábios,
em minha boca dorme
 
mergulha no meu cheiro
e te embriaga, quero-te
fascinado
 
quero não mais que o teu querer
[labareda louca]
quero não despertar
 
eternamente adormece a dor
 
reacende a rosa
e olha-a
: desabrocha ao toque
                               teu
 
ó facho de luz aceso e cego
que me penetra a flor que exala
vinho e mel
quero tua fúria de macho
teu fogo em baixo
 
colhe-me
delira comigo
 
um sorriso te aguarda
pra me iluminar mulher
 
10.6.04
poema inédito, a ser publicado em breve no livro Abrazos

abraço 

crio veludos em um canto,
bem no ventre da minha pedra
favorita e cortesã
 
trago-a quieta e atenta
 
sempre acesa, ainda que de leve,
como que à espera de um momento
cremoso no qual se deite, me enrole
e  me embole suavemente contigo, 
até que me traduza em ti
 
e me leias inteiramente
[na minha nudez]
em tuas veias,
como ninguém o fez
 
ou fará.
 
29.5.04
poema inédito, a ser publicado em breve no livro Abrazos

resgate 

um resgate de elos que na verdade nunca estiveram perdidos.
mordidos? talvez, mas não é só em Vila Real que a bruma 
morde o horizonte.
e horizontes... a graça deles é podermos construí-los,
dia a dia.

da viagem, colhi a geada assim que partiu a lua
e a aqueci, em meu colo.
linda a noite - realmente límpida - que me deixaram entrever.

 
o cheiro do milho e do mel, saboreei-os
- apesar de que, desse teu inverno, não gostei nada, nada.
sem retirar a película do coração, choro com teus meninos
e ofereço o afeto, para forrar-lhes o coraçãozinho.

é outra maneira de morder os sentidos: acolhê-los.
e eles se vão, fluindo como um rio
para dar lugar a outros, mais suaves. 

poema inédito a ser publicado em breve no livro Abraços y Abrazos, escrito com José Gil

big-bang

 

explora cada palmo desse território
entre os botões e a rosa
inventa caminhos para os pontos cardeais

com ternura toca-os, acarinha-os
lambe-os devagarinho e te aconchega
nesse ninho que perfumas de alecrim

apossa-te dele, marca-o de ais
e da boca (que pro teu monumento
é cais) liberta o grito

entrelaça-te, desata os suspiros
ata (com arte) umbigo a umbigo
num delírio de sentidos

borda beijos de línguas enlouquecidas
no céu que já arde (em vermelhas
labaredas) e anuncia o big-bang

que explode

entre gemidos 

poema inédito a ser publicado em breve no livro Abraços y Abrazos, escrito com José Gil

chegas

chegas
e não me importa saber
do que partiste
que palavras desabrigaste
com tua mudez

chegas, e para mim basta
o que são verdades senão luzes
na realidade caídas
da imaginação?

 "negar-se é uma indulgência"
diz o brujo D.Juan

não nego, e te espero
entre causas e desafios
hipóteses e teses
vontade guerreira
assim te quiero 
e me encontro em ti,
se me perco de mim

liberta o teu sorriso
em outras danças
dos sentidos
e se teu olhar emudece
para o nada que não virá

enlaça-te

deixa para trás as pegadas
imprime no chão outras marcas
sem passado ou futuro
que aja a tua palavra

no tudo

e nasça

luz 

poema inédito a ser publicado em breve no livro Abraços y Abrazos, escrito com José Gil

escutar e ver andam emparedados de pensar

Sempre inventávamos brincadeiras, a vida ficava divertida e nos coloria de surpresas. Por que 'ir para o' Jardim Botânico se podíamos 'estar lá após' perseguirmos pedrinhas que chutávamos? Não abdicávamos, mas preteríamos os dardos coloridos por pedras colhidas na estrada. Como alvos, duas árvores do bosque. Regra simples laureava quem acertasse mais vezes a "sua" árvore.

Havia as brincadeiras estritamente urbanas, com as quais subvertíamos a ordem da cidade: nenhum mau humor em hora de rush na Lagoa. Ríamos e sorríamos compassivos aos carrancudos que interrogavam nossas pequenas felicidades. Não me lembro bem quando dei para falar com os objetos fora do carro. Talvez um dia de sol, desses que convidam ao enlouquecimento. Sei que disse " Oi, árvore", e ele detrás respondeu "árvore não fala...". Experimentei um "Oi, nuvem" e a vozinha respondeu "nuvem não fala...". E fomos cumprimentando tudo, as montanhas, o céu, o sol, a água, o verde, a lagoa, as garças. Trocávamos, já que a graça era perceber o que não falava. E assim fizemos, anos.

Depois minhas percepções se enfermaram e andei preocupada em escutar a dor, o que até me enriqueceu de mim.

Mas hoje quero verbar diferente, já que escutar e ver andam emparedados de pensar. Quero abrir o azul, vestir-me de água, nadar nas palavras - com ou sem volúpia. Quero ajudá-las a subverter as funções gramaticais. Os verbos do fazer são ligeiramente desobedientes, com a dose certa de insolência, para que feliz seja efetivamente uma palavra vivível.

Nada comigo nas palavras, meu amor. E se algum dia eu tiver uma recaída em mim, me puxa de novo. 

 

do leito estendido no ar

 

I


"Aos papéis!" E mergulhava na montanha de folhas. "Muito a organizar".


Textos que consultava, os que consultaria, consultara, consultará. Conjugaria todos os tempos verbais quem fosse imiscuir-se neles, mas nada perceberia. Seu íntimo ali estava, misturado a faturas pagas, bilhetes, correspondência nunca lida, rascunhos.


Só os rascunhos lhe tomavam grande tempo na arrumação. Lia-os, a cada vez, e não lhes dava outra sentença: borradores. Jamais seriam elevados a qualquer categoria em sua complicada catalogação caseira.


Trocava o CD a cada alteração de humor provocada pelo trabalho simples e rotineiro. Música erudita, popular, nacional e estrangeira. Lavava louça com Mozart e roupa com Ravel. A arrumação era o que requeria maior repertório, dependia de cada momento. Conviviam harmonicamente Cesária Évora, Pablo Milanez e Tom Jobim com Tarrega, Couperin e Cantos Gregorianos. Só ela compreendia, mas não lhe importava.


Gostava de cantar ao arrumar a casa. E dançava com a vassoura e com o cachorro, ao som dos Paralamas do Sucesso, Bob Marley, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mas os papéis... Esse era mais que um trabalho rotineiro. Havia algo além.


"Não há só prazeres", cogitava. "Há que trabalhar. Há outras coisa além. Além do afeto, além do amor, além da dor". E seguia se perguntando se estivera equivocada ao aliar o trabalho ao prazer: jamais gostara de fazer o que não lhe agradava. Era trabalhadeira, não havia desafio que não abraçasse com uma energia que surpreendia. E sempre encontrava alguma satisfação, fosse num simples fazer das camas. Aprendera com Thitch Nat Hanh a meditar lavando a louça... e suspeitava que pensara demasiado.



II 


Da rua vêm sons aos quais se acostumou, não mais passíveis de serem responsabilizados por qualquer distração. A rede tampouco o é. Leito estendido no ar, há muito fora abandonado. Lembra-se com alguma saudade das noites de lua cheia em junho distante, quando nela se acolhia. Maravilhosos luares observara então, quieta em seu canto. Ao lado uma garrafa com a água do coco a faz sorrir. Uma rede, água de coco, nenhum coqueiro ou som do mar. Nostalgia.


Na imensa mesa o telefone, do outro lado o computador. Desligados.


Nas paredes prateleiras de fibra natural dizem do gosto pelo rústico e guardam cestos e livros. Os clássicos, a prosa nacional, a prosa estrangeira, os técnicos, a poesia. Edições raras de países longínquos fazem-na feliz. Assim como a cestaria, que lhe agrada mirar. Cestos pequenos e coloridos contrastam com o verde da parede.


Jibóias pendem em galhos que se entrelaçam, descrevendo sinuosas curvas vivas no espaço. Das paredes gravuras de exposições e no chão um tapete cuidadosamente jogado em frente à bergère denunciam o apreço pelo requinte.


"Wabi-Sabi", ele diz para implicar com ela, e se ri quando vê que a atingiu. Chegara de repente, trazendo outra montanha de papéis. Organizados. Em livros. "Pensar não é bom. Estraga o pensamento", sentencia.


Ela sorri, feliz. Sabe a que se refere. Suspira ao ouvir o sino tibetano vibrar às carícias do vento norte. Rende-se também, e se entrega. À vida.

Mulher: um eixo feminino

Eternas curvas em movimento, uma mulher.

Um erro de perspectiva identificá-las unicamente com belos corpos sinuosos, ágeis comunicadores, doadores em potencial. Em circulares movimentos, elípticas atitudes denotam um ser que se curva sem perder a majestade e escolhe os caminhos - com precisão - enquanto transita por carícias e realizações.

Brejeiros os sorrisos que iluminam o manancial que sugere - e mesmo convida - para mergulhos profundos, sem entretanto assegurarem lugar no banquete que prepara, como um rito.

Há que ser cortejada, além de seduzida. Há que ser conquistada, após descoberta. Há que ser cultivada, ainda que se tenha aberto em flor.

Longos e densos carinhos a provocam e causam, e com eles voa, entre afetos e emoções. Mas aterriza, e é com propriedade que dirige seu eixo. Feminino.

Feminino movimento sem ensaios, táticas ou estratégias. Eixo que se organiza, simplesmente. Em curvas. Parábolas. Elipses sucessivas que percorre, em eterna espiral. Ainda que com jornadas similares é, contudo, sem retornar ao mesmo ponto, que o faz.
8.3.04, pelo dia internacional da mulher
 cedido para a peça " Os quatro quartos"