A felicidade é simples
por Tania Montandon
Pela primeira vez resolvi escolher o título do que estou a escrever antes de o fazer. Por quê? Vários fatores me vêm à mente, entre eles o velho clichê que escrever pra ajudar com dicas e conselhos é coisa de quem quer chamar a atenção, ensinar a tal "auto-ajuda", a classificação do único tipo de livro que nunca me foi de auto-ajuda de fato, ao contrário de tantos outros considerados pessimistas, depressivos, desaconselhados aos temperamentos mais sensíveis, os polêmicos, os censurados, os marginalizados, os imorais, os ousados, inovadores, "perigosos"… Outro fator seria o dos conceitos e valores para temas e palavras abstratas que, por mais que se destrinche, nunca se chega a consenso pela inerente condiçã o humana de ser impossível que todos valorizem por igual tudo, pensem o mesmo, vivam uma mesma história e conheçam as mesmas culturas.
Felicidade, você saberia definí-la? Provavelmente poderia pensar uma concepção desta palavra que satisfizesse a sua subjetividade e talvez outras ou muitas, dependendo de suas habilidades linguísticas, familiaridade com a inter-comunicação, empatia, capacidade de percepção e expressão, etc. Mas certamente não conseguiria cria um conceito aceitável para todos. Isso é complicado? Alguém com quem conversava a respeito me disse que sim. Para mim é tão simples! Assim como o que é complicado para um é simples para outro, o que é felicidade para um não pode ser infelicidade para outro?
Ser presidente de uma grande naçao do Primeiro Mundo(se é que alguém ainda entende essa obsoleta expressão), ter poder de decisão sobre a vida e a morte de milhões de pessoas, ter o poder de manter o conforto de "seu" país à custa da destruição veloz , assustadora e global do meio ambiente, clima e natureza, suponho que isso seja a "felicidade"de uma pessoa. Sim, precisa ser uma pessoa aquém dos valores humanos mais nobres, talvez alguém que precisasse de mais vidas para conseguir aprender mais sobre as coisas triviais e ordinárias do cotidiano em detrimento de uma paixão descontrolada pelo extraordinário, pela tentativa de descobertas sublimes que lhe dessem aprovaçao social, sem saber que esse instinto de um pouco de insatisfação e busca constante por algo faz parte de todos os seres humanos e a aprovação alheia de muitos não garante a auto-satisfaçao e realização, provavelmente mais a afasta e esconde onde menos se procura: dentro de si.
Sabe? Na verdade, alguém realmente me provou que a felicidade pode sim ser simples e atingida com muito poucos recursos. Um grande amigo ensinou-me que viver feliz é viver por inteiro no presente, sentir tudo que sem esquiva, aceitar a dor com humildade e resignação de quem sabe que não controla muita coisa mesmo. Viver feliz é alegrar-se como as crianças pequenos quando a sensação aparece e acolhê-la no momento, sem preocupações, ressentimentos, sem apego a passado e futuro. Um grande amigo ensinou-me que ser feliz é precisar de pouco, vibrar com cada oportunidade de contato com a natureza, os sorrisos, a ternura, o conforto, tolerar os momentos em que nada disso está disponível e , mais forte que tudo isso, ser feliz este grande amigo ensinou-me que está mesmo na difícil e simples habilidade de conseguir amar, compartilhar, estar presente em momentos significativos, sejam de prazer ou dor, entregar-se com ingênua confiança à devoçao de um outro ser desejando-lhe o melhor, aproveitando e valorizando sua companhia, completamente sem outro interesse que não o simples desejo do compartilhar e buscar momentos de alegria.
Também sei que, assim como o que este meu grande amigo tanto me ensinou e provou tocou-me de uma maneira que não há como ter sido igual com a mais ninguém que o conheceu, o que escrevo aqui também não tocará as pessoas por igual. E, com certeza, se eu começasse dizendo que este meu grande e melhor amigo é meu cãozinho Billy, com quem convivi em média quinze horas por dia por mais de sete anos e que morreu atropelado na última quinta-feira, a leitura teria sido diferente, com "velhas opiniões formadas sobre tudo", ou que todos que perdem um cachorro passa pelo mesmo e demais clichês.
No entanto, não escrevi pra ser aprovada por muitos, escrevi pra aliviar meu coraçao e mente, pra colocar pra for a pra quem quiser ler, comentar ou criticar. Escrevi por mim, para vocë, numa confissão que gostaria de alguma compreensão e na esperança de que, alguém que leia, possa dizer algo do que pensa pra compartilhar comigo, assim como, vulneravelmente, compartilho aqui minha mais profunda intimidade, na imprudência das almas sensíveis de fazer isso nos momentos de maior fragilidade, quando menos o deveriam.
Mas digo que sim. A felicidade é simples, pros poucos que a sabem distinguir e captá-la, e transbordo em gratidão por tão sublime ensinamento vindo de um ser com tão poucos recursos e , misteriosamente, tanta humanidade que parece faltar em "humanos" de espécie! Obrigada, Billy!
|
Devaneiando-se às quimeras mais reais, tomando distância das sensações materiais e regozijando-se então da tersa posição de derrisão, escarninho das tragédias fatais. Com o espírito desvinculado do corpo carnal, assiste aos próprios desesperos e se espanta com o alvoroço por tão mundanas perecíveis futilezas.
Enleiando-se no processo com intrepidez e certa dose daquele gozo sofredor inato do qual ainda não conseguiu desemarnhar-se, engolindo raivas, mágoas, hostilidades, digerindo-as e, ao final dejetando-os; sente o peso e a aspereza daquelas ripas perpendiculares que lhe marcarão o corpo, a morte, a existência, a imortalidade da meta última.
Desgosto inquietante estiolando o mínimo orgulho que motiva tal criatura a inspirar cada molécula de ar. Irrevogável energia despendida no auto trucidamento desanimador, auto-compaixão comparável à estupidez maior.
Inapreensível certeza mórbida de energia desenlaçada, entrecortada por jatos populares proporcionando fincadas dolentes de pressão desmedida em pontos hipersensíveis.
Desesperança pesando desproporcionalmente sobre as costas de uma vida que se viu enjeitada, sufocada, desambientalizada no espaço menor, viés do acaso malquisto, tempo doído do curso vivido.
Descaso cabal do mínimo esteio que ainda enxergava. Fantasia explode do quero a morte, minha sorte! Células imperfeitas, espírito excêntrico repugnante afugenta belas expectativas divinas. Deus errou, humano existe que não concorda, dispensa tudo pois não tem mais como dar corda. Conta pesada a do lutar, cada vez mais está menos a compensar. Projetos de auto-extermínio entram em ação – falta de opção.
--
Tania Montandon
|
Meu pai, meu Orgulho
por Tania Montandon
Como poderia homenagear a referência exemplar de minha vida se esta é a própria homenagem à minha vida?
Pai, tu te lembras quando me apertou com força contra seu peito quando saí morrendo de frio da piscininha e disseste que eu poderia contar contigo até debaixo d’`água? Naquela época em que eu parecia um ratinho e ficava tão quentinho no teu colo enquanto meu queixo batia e a boca roxeava? Eu lembro. Hoje não diria que posso contar contigo debaixo da água, mas fora dela, tenho provas incontáveis de que sim, eu posso. Já debaixo da água, aproveito pra dizer que tu podes contar comigo, fica mais coerente, né ?
hehe, brincadeiras à parte, o que é um pai, qual sua função, o que significa um pai para uma filha? A escola tentou me dar essas respostas, a religião tentou, a vida tentou... Mas as respostas que encontrei e que adotei somente as pude perceber dentro de mim, do meu coração, das minhas memórias, de todas as vezes que perdi o fôlego de emoção compartilhada contigo, todas elas, das melhores às piores. Importante mesmo foram todos nossos momentos juntos, rindo, chorando, jogando, trocando idéias, aprendendo e, por vezes, até ensinando.
Pai, tu sabes que foste meu primeiro professor? Sabes que continuas a ser meu herói, meu ídolo, cuja vida e história tanto me orgulham e fazem-me sentir que sou privilegiada? Quem tem um pai baiano que é sempre pontual, que cresceu na miséria descalço, estudou, trabalhou responsavelmente e administrou tão perfeitamente o ambiente em que viveu que conseguiu dar aos filhos o que nunca teve chance de ter, vivenciar, experimentar, deu todas as oportunidades a seu alcance para que os filhos tivessem educação digna, aprendessem o que quisessem, brincassem até não poder mais na verdadeira infância feliz e inesquecível? Quem tem um pai que se dispôs a levar seus filhos pequenos todos os anos em aventuras longínquas e de cultura diferente para que sua prole pudesse conhecer, conviver e visitar, muitas vezes, os avós, tios, primos, ainda que economizasse todo o ano pra proporcionar esses encontros e outros divertimentos que, para si, não era tão agradável, mas o que não fez este homem pra ver os filhos pularem de alegria, viajarem, conhecerem praias e tantos lugares? Bom, é verdade que nem todas as noites atendeu aos pedidos de contar histórias, estas tão melhores que quaisquer outras, pois eram improvisadas na hora e mostravam o mundo em que foi criado, com fazendas, onças, macacos, passarinhos...
Pai, tu te lembras quando esteve presente nas festas da escolinha do primário, nos meus aniversários, nas ocasiões mais importantes de minha vida, no dia em que ganhei meu primeiro troféu de tênis, no exame de faixa do tae kwon do, no lançamento do livro que muito sonhei e você o fez tornar-se de sonho à realidade e também quando mais precisei, lá debaixo do oceano, do outro lado do globo? Eu lembro! Por tudo isso e muito mais, agradeço com todo o amor que transborda de meu coração querendo tanto mais agradecer sem saber como.
Pai, nunca poderei retribuir como mereces tudo que fizeste por mim, porém ao menos preciso que saiba que reconheço tua dedicação, as superações de tuas limitações e tanta ternura , segurança, conforto, cultura me propiciaste.
Obrigada , papai, por ser o melhor do mundo! Desculpe por não ser tão boa filha como mereces!
“Quase todas as histórias de sucesso e de fracasso já foram vividas por alguém. O que muda são os nomes das pessoas, o lugar e a época.”
(Carlos Prates, colaborador do Jornal O Rebate)
Meu pai, numa única vida, viveu inúmeras vitórias, fracassos, experiências indescritíveis em várias, épocas, lugares e com todas as emoções possíveis.
Por isso digo com convicção: - pai, sinto muito, não posso te homenagear, tu és a própria encarnação do que conheço como homenagem à minha vida.
Com amor,
Tania
|
Gestalt
– Terapia
Por
Tania Montandon
O Modelo Gestáltico
surgiu a partir do trabalho do casal Perls, de início com uma finalidade terapêutica prática focada
na cultura dos EUA. Depois perceberam que precisavam apoiar essa prática sobre
uma base filosófica e observaram que as reflexões e modo de pensar que moviam
tal prática sintonizavam bem com o modelo fenomenológico. O termo Gestalt é de
origem alemã e relaciona-se com forma, configuração do todo. Refere-se à idéia
de que nada é fixo em absoluto e nada é movimento em absoluto. A idéia
preconiza que o todo é sempre maior que a soma das partes, pois possui o
espírito do todo. O ser humano, para não cair na tentação de se iludir, precisa
estar sempre atento para considerar os dois lados de sua percepção e não a
idealizar ou desqualificar demais. É preciso articular e organizar as partes
sem perder a referência do todo.
O paradoxo existencial
corresponde à angústia inerente ao ser humano provocada por seu alvedrio. O
homem possui a atraente capacidade de escolher o que fazer ou não, mas para
toda escolha que faz necessita responsabilizar-se pela repercussão de suas conseqüências,
pois toda liberdade carrega uma carga de responsabilidade e, por isso,
angústia. Por exemplo, quando um bebê nasce ele é completamente dependente dos
cuidados maternos. À medida em que se desenvolve, conquista autonomia e
liberdades, mas também adquire cada vez mais responsabilidades. Um jovem,
quando arruma o primeiro emprego, fica extasiado por sua independência
financeira e pela importância de uma ocupação útil à sociedade; no entanto,
também fica assustado com o peso dessa responsabilidade e pressão para
administrar bem seu salário e sua vida. Uma pessoa doente perde um pouco de
liberdade devido à limitação imposta pelo distúrbio, porém pode sentir-se
aliviada de certa forma por não precisar preocupar-se com tantos problemas e
pressões sociais.
A
função social do
excesso é a de iludir a pessoa com a sedução da
facilidade de se sentir
protegida e garantida, confortada e acomodada com alguma certeza que
não ameaça
qualquer risco de perda justamente por ser excesso, não acaba.
Também pode ser
visto pela ponta da falta, excesso de falta. O excesso gera
ilusão e
vice-versa. A pessoa está iludida quando toma a parte do
conjunto como todo e
considera apenas um lado da relação. Onde há
excesso há falta. Se numa relação
há excesso de opressão de um lado, por outro lado
há falta de respeito e
consideração. Onde há muita
dominação e coação, falta
cooperação, co-construção
e colaboração. Na relação em que predomina
disputa de poder, há excesso de
competição e busca de auto-afirmação;
provavelmente também falta
auto-referência e auto-estima, pois o primeiro Outro da pessoa
é ela mesma. Se
não se consegue se estimar, como vai querer estimar outra
pessoa? A ‘política
da certeza’ e do excesso na sociedade é favorável a
um pequeno grupo de
pessoas, detentora dos meios de comunicação, da maior
parte da riqueza e poder
produzidos pela população. Assim, essa
minoria consegue manter a maioria alienada da realidade social e iludida pelas
receitas prontas e fáceis oferecidas na esquina para resolver os seus
problemas.
*Escrito
em Março de 2001
|
ARQUÉTIPOS – TEORIA ANALÍTICA- JUNG
Algumas
palavras de origem científica ou filosófica, talvez pela
importância ou apelo popular que carregam, acabam ganhando grande
popularidade e, como consequência, muitas vezes seu significado
torna-se confuso ou diferente daquele que lhe foi inicialmente
conferido. A palavra arquétipo (de origem grega -
archétupon , "original, modelo, tipo primitivo") é uma
delas. Todavia, dada a extensa história dessa palavra no campo
da filosofia, nosso intuito é precisar o significado central que
o pai da Psicologia Analítica , o suiço Carl Gustav Jung
(1875-1961), lhe dedica. Segundo Jung, os arquétipos "são
as partes herdadas da psiquê, são padrões de
estruturação" e organização do
imaginário psíquico, "são entidades
hipotéticas irrepresentáveis em si mesmas e evidentes
somente através de suas manifestações". Jung
compara o arquétipo ao sistema axial dos cristais que determina
a estrutura cristalina na solução saturada sem possuir,
contudo, existência própria. No entanto, embora
arquétipos sejam confundidos com imagens ou temas
mitológicos definidos, é através de uma ou mais
imagens que ele é reconhecido e revelado. Ou seja, imagens ou
motivos mitológicos são apenas
representações conscientes de um arquétipo.
Qual
seria a origem dos arquétipos ? De um lado, argumenta-se que
resultariam do depósito das impressões superpostas
deixadas por certas vivências fundamentais, comuns a todos os
humanos, repetidas incontavelmente através de milênios.
Vivências típicas como as emoções e
fantasias suscitadas por fenômenos da natureza, pelas
experiências com a mãe, pelos encontros do homem com a
mulher e da mulher com o homem, vivências de
situações difíceis como a travessia de mares e de
grandes rios, a transposição de montanhas, etc. Por outro
lado, eles seriam disposições inerentes à
estrutura do sistema nervoso que conduziriam à
produção de representações sempre
análogas ou similares. Do mesmo modo que existem pulsões
herdadas a agir de modo sempre idêntico (instintos), existiriam
tendências herdadas a construir representações
análogas ou semelhantes. Esta segunda hipótese ganha
terreno nas obras mais recentes de Jung. Seja qual for sua origem, o
arquétipo funciona como um nódulo de
concentração de energia psíquica. Quando esta
energia, em estado potencial, atualiza-se e toma forma, então
temos a imagem arquetípica. Entretanto, não se pode
denominar esta imagem de arquétipo, pois o arquétipo
é unicamente uma virtualidade.
A
noção de arquétipo, postulando a existência
de uma base psíquica comum a todos os humanos, permite
compreender por que em lugares e épocas distantes e distintas
aparecem temas idênticos nos contos de fadas, nos mitos e ritos
religiosos, nas artes, na filosofia, nas produções do
inconsciente de um modo geral - seja nos sonhos de pessoas normais,
seja em delírios de loucos.
Uma
extensa variedade de símbolos pode ser associada a um
arquétipo. Por exemplo, o arquétipo materno compreende
não somente a mãe real de cada indivíduo, mas
também todas as figuras de mãe. Isto inclui mulheres em
geral, imagens míticas de mulheres (tais como Afrodite , Virgem
Maria ou Yemanjá ) e símbolos de apoio e
nutrição, tais como Gaia , a Igreja e o Paraíso. O
arquétipo materno inclui aspectos positivos e negativos, como a
mãe boa, a fada madrinha ou a mãe má,
ameaçadora e dominadora. Na Idade Média, por exemplo,
este aspecto negativo do arquétipo estava cristalizado na imagem
da velha bruxa. A figura da madrasta ou da sogra também
são representações mais recentes desse
arquétipo.
Os
arquétipos são as estruturas do que Jung denominou de
inconsciente coletivo . Assim como temos uma herança
biológica, Jung propõe que nascemos com uma
herança psíquica. Ambas são determinantes
essenciais do comportamento e da experiência do ser humano. Ele
diz que "…exatamente como o corpo humano representa um
verdadeiro museu de órgãos, cada qual com sua longa
evolução histórica, da mesma forma
deveríamos esperar encontrar também, na mente, uma
organização análoga. Nossa mente jamais poderia
ser um produto sem história, em situação oposta ao
corpo, no qual a história existe. Jung postula que a mente da
criança já possui uma estrutura que molda e canaliza todo
posterior desenvolvimento e interação com o ambiente. Ele
é constituído não por aquisições
individuais - e nisso se difere radicalmente do inconsciente pessoal -
mas por um patrimônio coletivo da espécie humana. Assim
como o ar, o inconsciente coletivo é o mesmo em todo lugar,
respirado por todos e não pertencendo a ninguém em
particular.
abraços,
Tania Montandon
|
Da loucura, uma parte

Nossa cultura é paranoizante. Ensina que se deve desconfiar até da própria sombra.
"Todo conhecimento é paranóico." (Lacan)
Se, quando chegamos a uma conclusão por nosso raciocínio,
não teimássemos que temos razão ainda que
pareça estranho e diferente para as outras pessoas nenhuma
ciência se desenvolveria. Se Freud não fosse teimoso e um
pouco paranóico a Psicanálise não teria sido
criada ou descoberta por ele. É apenas o excesso que caracteriza
a insanidade, algo mais pra quantitativo que qualitativo. No entanto,
um mínimo de desconfiança, paranóia serve como
proteção no mundo atual, pois não se pode confiar
em tudo e em todos. A diferença está na intensidade da
convicção, não na qualidade do pensamento. Ou
seja: não me é possível concordar com a teoria das
estruturas imutáveis de perverso, psicótico e
neurótico. Contudo percebe-se nitidamente funcionamentos de
modos diversos entre os classificados como neuróticos,
psicóticos etc. São nuances subjetivas e peculiares do
psiquismo funcionar, até hoje extremamente misterioso e
desconhecido amplamente. Eu, como ser, o que sou? Um monte de
matéria agregada lutando contra certa entropia através de
minha "escrevidão"? Vivo por um ideal de sociedade transcendente
a minha existência, o que também poderia ser nominado
lunatismo, e este projeto ideal rejeita a desigualdade, a
discriminação, a injustiça desavergonhada, a
imbecilidade dos corruptos governantes e poderosos. Mas eis que sonhos
e ideiais são incompatíveis com a concretude da
realidade, que absurdo!
"É preciso ser Werther ou nada" (Camus)
Bleuler pensava que o delírio era secundário a perdas de
significações e símbolos em termos mentais. Penso:
como essas perdas começam a se manifestar antes do
delírio? O pensamento desorganiza, foge toda hora, os fatos
perdem a ligação entre si, a associação
entre signos e significados torna-se fraca..., ocorre um ensimesmamento
progressivo, isolamento social até que se desliga da realidade
social.
"Gosto daquele que sonha o impossível" (Goethe)

A história de Clarissa Dalloway, personagem de Virgínia
Woolf, parece uma novela. Pura descrição de pensamentos e
algumas falas. Especulações de pontos de vista
diferentes. V.Woolf encarna com seriedade seus personagens e é
muito boa nisso. Dá a impressão de que viveu mais na
ficção literária que na realidade. Ela se suicidou
com quase sessenta anos de idade, mas tinha cabeça de jovem
imatura no cotidiano concreto, embora conseguisse criar sábios e
uma deversidade de personalidades em suas histórias.
Possuía muito conhecimento, embora sentisse estranheza e
perplexidade com sua vida.

"Tel est la vie des hommes: quelques joies très vite
effacées par inoubliables chagrins... Il n'est pas
nécessaire de le dire aux enfants." (Marcel Pagnol in
"Château de Ma Mère)
Sou um tempo desregrado
A prescrutar os vãos do dia
Costurando sons e lembranças
Sonhos estranhos, elaborados
Fazendo brilhar a tênue magia
Das miúdas esperanças
Resto do universo acabado
Matéria reduzida a energia
Voltando a ser criança
Brincando de fantasia
"É
monstruoso dizer-se que o artista não serve pra humanidade. Ele
sempre é o transcendentalista que passa a raio X os nossos
verdadeiros estados de alma." (Anais Nin)
De fato,da chuva de ilusões desta máquina capitalista a
nos moer não há como esvair-se com integridade
autêntica, sejam comunistas, professores, benfeitores,
falsários, publicitários, artistas. A
redenção mostra-se inatingível, mas a batalha
é necessária, dura e ingrata. Não há
realidade paralela a não ser a da solidão desesperada e
exaustiva do surto psicótico, e assim o é na vida, na
arte, na morte.
por: Tania Montandon
|
|
Psicanálise e Fracasso Escolar
A
criança, antes de possuir uma mínima aptidão para
a leitura e escrita, já possui uma escritura em seu
inconsciente. Esta referindo-se à inscrição de uma
marca do impossível de se saber, quando ocorre o recalque
primário e é formado o Aparelho Psíquico. Essa
perda primordial, da possibilidade de se saber sobre tudo
mostrará à criança o real da falta, a
castração, o Outro é castrado. O que importa na
formação de sua personalidade é o modo como ela
vai encarar esse saber a menos, que, segundo Freud, gira em torno do
mistério da morte e do sexo.
O
caráter da criança constitui-se como o efeito de como
esse sujeito experimenta a curiosidade sexual. Quanto mais
indagações, melhor o prognóstico. Mesmo que nunca
se vá obter respostas completas, é interessante e
saudável o perguntar. Freud descobriu que a curiosidade sexual
antecede a intelectual. Mas não pode ser satisfeita toda,
gerando o fracasso das investigações infantis. A maneira
da criança lidar com esse fracasso, aceitando-o ou recusando-o,
influenciará em seu desejo subsequente de saber mais, de
conhecer. Há, portanto, estreita relação entre
saber, desejo e conhecimento. “As perguntas intermináveis
das crianças são verdadeiros circunlóquios que
vêm em substituição a uma pergunta que a
criança nunca faz.”(Freud)
Inibição,
sintoma e sublimação correspondem às vicissitudes
que a pulsão toma frente ao fracasso nas
investigações sexuais infantis.
Na
inibição, o sujeito evita a angústia
conscientemente não exercendo a função(no caso, a
função intelectual). Há uma
restrição da função. Evita-se novas formas
de recalcamento. A criança mostra-se indiferente ao aprender,
parece que não há desejo, não aprender não
é problema para ela. O acesso ao desejo não ocorre sem
angústia. Na inibição o sujeito evita
angústia a todo custo, então parece não haver
desejo. É uma defesa psíquica.
Já
no sintoma, a função é exercida. A atividade
intelectual existe, embora seja distorcida e não livre.
Há o retorno do recalcado, que é incosciente. A
função é erogeneizada inconscientemente. A
representação emerge de forma distorcida através
dos mecanismos de deslocamento e condensação pelo
processo primário. O sintoma corresponde a um enigma, uma
referência clara ao inconsciente. O conteúdo recalcado
é associado à atividade intelectual emergindo como um
sintoma - por exemplo a compulsão por pesquisa. Profissionais
percebem, na clínica, que um sujeito com inibição
quando começa a suportar certa angústia produz sintoma.
Este é o mais fácil de ser trabalhado, pois já
há certa aceitação de angústia, a qual
é inevitável em qualquer aprendizagem.
A
sublimação é a vicissitude mais saudável
por não possuir qualidade neurótica. O sujeito apenas
desvia a curiosidade sexual para outra curiosidade (intelectual,
artística, atlética…). É a melhor
saída para a pulsão.
Grande abraço,
Tania
|
|
canção paradisíaca
aspiro com delicadeza
a suave brisa que passa
e instiga agudeza
do espírito que relaxa
sentindo intensamente
a morna temperatura
dádiva do ambiente
onde tudo se cura
correnteza de esperança
atravessando a pele
como pureza de criança
que esta a zele!
|
|
só não posso evitar…
vivo e morro todo dia
pouco a pouco, é garantia
na vigília, no sono e na fantasia
às vezes penso nessa parceria
arte, sonhos, produções
enigmas, calafrios, emoções
como me atrai a abstração
e sinto pertinho o coração
que levada sou
brincando de pensar
no que ninguém ensinou
essa ousadia é diversão
sei que só posso ignorar
e perigar no caos da desrazão
….só não consigo evitar…
|
|
QURESSENNTE!…
quero gente!
quero Natureza!
um "eu" contente!
e todo franqueza!
gente boa, crescente!
Natureza pura, in natura!
sem mágoa, decente!
madureza nua, "eu" na dura!
eu madura, c’a gente boa
c’a dureza que sua
e frutifica de pura
eu, gente, nós, que doa
não há nósque a gente
não desate, contente!
|
|
sensação
lampejos de volúpia
incendeiam a alma
como um átomo escandido
como um mundo na palma
como um célebre ruído
prenunciando um cataclismo
frocos de energia esparsa
colorindo o meio vital
movimentando o canal
produzindo estradas
imaginando potenciais
para um paraíso caudal
hipóstase experiencial
|
|
Reflexão sobre o filme BARAKA
trailer do filme (2 minutos)
O
filme transmite idéias sobre o que acontece em todo o mundo, a
diversidade de raças, crenças, comportamentos, culturas
em geral. Mostra aspectos existentess no islamismo, no budismo, no
cristianismo e no judaísmo. Há a presença dos
quatro elementos básicos da Terra: fogo, ar, terra e
água.
Percebe-se a evolução do ser humano, a
criação da cidade grande, acarretando uma sociedade cada
vez mais competitiva. Há várias
contradições relativas ao desenvolvimento da
inteligência humana, vista que o homem torna-se capaz de produzir
obras fantásticas, contudo ignora graves problemas
ecológicos, a fome, a luta pela sobrevivência...
Como exemplo, uma árvore que leva cerca de cem anos para se
desenvolver é destruída em um minuto pela serra
elétrica. O ser humano abusa de seu poder natural destruindo
inconsequentemente a Natureza.
É no mínimo curioso como uma espécie tão
dotada de inteligência divide restos de alimentos de um
lixão com vira-latas e ratos.
No Japão, a mentalidade obsessiva por trabalho e progressos tecnológicos mecanizam as pessoas e reprimem suas emoções, justificando talvez seu maior índice mundial de suicídios.
O progresso é importante e fundamental para o desenvolvimento e
satisfação dos indivíduos, pois estes estão
sempre em busca de algo mais para melhorar sua qualidade de vida, para
ter um sentido pra prosseguir, criar, procriar. No entanto, além
de criar é mister preservar as riquezas naturais e ficar alerta
para que não acabem ou o processo de evolução
sucumbirá.
Tania Montandon
|
|
A linguagem inserida na cultura humana
No
decorrer da história da humanidade, o homem desenvolveu suas
faculdades psíquicas. Esses progressos no desenvolvimento
psíquico se fixaram e são passados de
geração para geração sob uma forma material
exterior e não de forma morfológica ou biológica.
Essa forma de acumulação e de transmissão de
experiências deve o seu aparecimento à atividade humana
fundamental: o trabalho.
Quando nasce, o indivíduo já encontra pronto
vários trabalhos, realidades transformadas pela atividade de
gerações. Porém, o processo de desenvolvimento da
prática sócio-histórica não é
imediatamente percebido pelo sujeito. Para que o aspecto humano dos
objetos seja percebido pelo indivíduo, ele tem que exercer uma
atividade efetiva, adequada em relação a eles.
Isso aplica-se igualmente aos fenômenos objetivos ideais criados
pelo homem, tais como a língua, aos conceitos e às
idéias, às criações da música e das
artes plásticas.
A criança não é apenas colocada diante do mundo
dos objetos humanos. Para viver deve agir adequadamente neste mundo;
condição deste processo de assimilação, de
apropriação ou de aquisição. A
comunicação constitui a segunda condição
inevitável
do processo de assimilação pelos indivíduos dos
progressos do desenvolvimento sócio-histórico da
humanidade.
O
que nos animais resulta da herança biológica, no homem
resulta de uma assimilação, isto é, um processo de
hominização do psiquismo da criança.
Os
animais não tem linguagem sonora articulada e não
conhecem a música, criação da humanidade. Apenas o
ouvido humano discerne os sons verbais e musicais.
O desenvolvimento mental da criança é bem diferente do
desenvolvimento ontogênico do comportamento nos animais. Desde o
nascimento, ela é rodeada por um mundo objetivo criado pelos
homens, até mesmo os próprios fenômenos naturais
são encontrados pela criança nas condições
criadas pelos homens. Ela não se adapta ao mundo dos objetos e
fenômenos humanos que a rodeam, apropria-se dele.
A diferença no processo de adaptação, no sentido
em que esse é empregado para os animais, e o processo de
apropriação é que a adaptação
biológica é um processo de modificação das
faculdades e caracteres específicos do sujeito e do seu
comportamento inato, modificados pelo meio; e a
apropriação é um processo que tem por resultado a
reprodução pelo indivíduo de caracteres,
faculdades e modos de comportamentos humanos formados historicamente.
O processo de apropriação é feito através
da comunicação prática e verbal com as pessoas que
rodeiam a criança. Esta aprende o que o adulto ensina.
Os animais não dispõem de um modo de expressão com
as características e funções da linguagem humana.
As abelhas apresentam um modo de se comunicar, transmitindo mensagens
para as companheiras, através de danças e rituais
gesticulados. Apesar de haver uma comunicação de
mensagens, a transmissão é um código de sinais que
não chega a ser considerado linguagem. Esta é
fundamentada por um sistema simbólico, sendo o símbolo um
signo arbitrário, que só se justifica por
convenção. Não tem ligação direta
com a coisa a que representa. O que age nos sistema simbólico,
na linguagem, é a compreensão, e não a
ação efetiva.
Já na utilização de sinais ou índices, que
ocorre entre os animais, não há uma compreensão ou
transcendência da experiência, apenas a ação
efetiva. O animal é condicionado a agir de determinada forma
todas as vezes que receber um determinado sinal.
Até mesmo as abelhas, que possuem uma forma avançada de
transmissão dos sinais, não conseguem simbolizar, devido
à imutabilidade do conteúdo de suas mensagens, à
incapacidade de retransmitir uma mensagem já efetuada,
além de suas mensagens não poderem ser decompostas em
partes que possam ser estudadas e reorganizadas de diferentes maneiras,
como acontece com os fonemas e morfemas da linguagem humana.
A psicolinguística é uma ciência criada para
estudar a língua como um objeto de estudo próprio,
integral e concreto, pois não se pode repartir o objeto de
estudo. De outra forma, poderia-se ter física da linguagem,
química da linguagem, etc.
A linguagem é essencial à sociedade humana. Ela é
individual e social. Individual porque cada um constrói a sua
fala. Social porque a fala é contruída segundo um
conjunto de convenções da sociedade. O que há de
social na linguagem é a língua, que representa a
transmissão de experiências subjetivas a outros sujeitos
através da fala.
A linguagem intermedia a realidade do homem com a realidade do mundo.
Através dela, podemos sair do plano individual e nos inserir no
plano social. Isso ocorre da seguinte maneira: como a experiência
em si não é comunicável, precisamos
transcendê-la e abstrair o necessário para a representar e
a transmitir utilizando o sistema simbólico. Essa capacidade
é específica do ser humano. Assim, torna-se
possível falar de situações da ordem do não
ser, como o passado e o futuro. O passado que são
experiências que não existem mais na realidade, e o futuro
é aquilo para o que ainda não existe realidade.
Assim como a linguagem, o tabu do incesto é exclusivo do ser
humano. Muitas são as explicações dadas ao
problema do incesto, no entanto, elas são
insatisfatórias, pois não conseguem explicar a
ambigüidade da proibição.
Uma dessas explicações é a biológica, cuja
finalidade é evitar que os filhos nasçam ou se tornem
degenerados. As prescrições mais positivas que mais
freqüentemente encontramos nas sociedades primitivas ligadas
à proibição do incesto são as que tendem a
multiplicar as uniões entre primos cruzados e, por conseguinte,
a união entre primos paralelos.
A humanidade não conhece os perigos ,desde sempre, das
uniões consangüíneas. A biologia é de
desenvolvimento recente, de forma que o conhecimento científico
não pode ser projetado no passado da humanidade para se explicar
a proibição do incesto, cuja a obediência é
universal no tempo e no espaço.
Uma outra explicação é a psicológica. Essa
baseia-se na repulsa instintiva do incesto. Aliás a
psicanálise chama a atenção para o
contrário do que afirmam os defensores dessa
explicação, já que ela mostra a universalidade
não na repulsa frente às relações
incestuosas, porém em sua procura. Na realidade, toda a
explicação psicológica acaba por conduzir-nos
à fenômenos de psicologia individual.
Uma outra explicação para a proibição do
incesto é a sociológica. Tal
explicação tem algo em comum com a psicológica, ou
seja: ambas procuram reduzir um dos termos da antinomia.
Uma explicação social da interdição
baseia-se na civilização totêmica Australiana.
Nesta última o grupo se considera descendente do animal
totêmico, havendo em conseqüência uma
obrigação de respeitar o sangue de tal animal, que
não pode ser caçado, pois em caso contrário o
sangue do grupo seria derramado.
Lévi-Strauss mostrou a fraqueza e as contradições
das três maneiras segundo as quais a proibição do
incesto foi considerado. Para sua explicação
satisfatória, consiste em deixar a análise
estática para empreender uma síntese dinâmica, uma
vez que sua origem não se encontra nem na cultura sozinha nem
unicamente com a natureza, e muito menos numa soma confusa de ambas.
Com efeito, a proibição do incesto acaba por
constituir-se em condição da cultura, mas conservando da
primeira sua universalidade, ao mesmo tempo em que tem da segunda, seu
caráter de regra.
A interdição forma então aquele ponto crucial do
limite entre natureza e cultura, não sendo portanto uma
união estática.
Os pontos de vista de Lévi-Strauss, Monod e Marx, que falam
sobre a origem da cultura complementam-se de alguma maneira.
Lévi-Strauss exigiu um estudo das transformações
do cérebro para se entender a gênese da cultura (a
sociedade constituindo-se através das relações de
parentesco); ele estava traçando um programa que foi cumprido
pelo estudo de Monod, que deduziu a qualidade humana e a linguagem dos
Australantropos do fato de que usavam instrumentos (a linguagem,
estabelecendo a comunicação das consciências e a
acumulação dos saberes); deixando assim uma abertura para
as teses de Marx (a produção, possibilitando a
satisfação das necessidades e a circulação
e a apropriação dos bens).
Sendo assim, pode-se dizer que a cultura é simultaneamente
criatividade e comunicação: criação
coletiva e socialmente realizada; criação de elementos
materiais e espirituais para serem comunicados, de forma que pela
comunicação uma maior criatividade possa surgir. Os
circuitos se ampliam e as mensagens se enriquecem através da
história. A cultura não podia ter começado sem ter
uma natureza humana, com a comunicação de
consciências, de bem e de vidas que a caracteriza.
por: Tania Montandon
|
|
Contraste
Membro fantasma percebido realmente
Pois tua mete disfarça no presente
Tal inexorável perda passada
Supondo tua existência fantasmada
Aberração outra é aquela do fulano
Possui o membro e o carrega adjacente
Porém constrói para si um engano
Só percebe como braço uma fria longa serpente
Esquema corporal, uma realidade subjetiva
Abstração representante que se tenta compatível
Ao acesso objetivo ao concreto adquirido
Percepções difusas de um mundo falado
Intercessão da linguagem no funcionamento
Oportunando falhas no entendimento
|
|
Teoria do caos- não é só um elemento, é a estrutura cultural.
Por: Tania Montandon
O caos do trabalho na sociedade do espetáculo
No
inicio, o individuo preocupa-se com o salário (necessidade
física), depois passa a ficar focado para os cargos, status. Em
qualquer organização há jogo de poder, o que
determina quem ganha o quê. É muito desagradável a
situação de um empregado que sabe que ganha mais e o
outro que sabe que ganha menos. Afinal, como funciona a questão
do salário na instituição, como ele é
inserido na empresa? Por que um indivíduo ganha X ou Y?
O
que se diz ser atualmente a pós-modernidade, expressão
até engraçada, como se a velocidade tivesse chegado ao
ponto de nos colocarmos numa sociedade do futuro (pós), pois a
modernidade se modernizou tanto que pediu um apelido pra se
diferenciar. Pois é, vivemos no futuro, sempre atrasados,
milhões de informações a adquirir,
“updates” de “gadjets”, mulheres, carros,
linguagem, bares, viagens e por aí continua…
O
que significa modernidade? Bom, estar atrasado por se viver o presente
em detrimento da moda de se viver no “futuro” e estar
sempre “updatado”? Talvez o apelido alta modernidade seja
um pouco mais coerente, não?!
Toda
mercadoria sustenta-se por dois valores: o de uso e o de troca. O
capital sustenta-se pelo valor de troca, status, fetiche da sociedade.
Por isso gera tanto mal-estar, insegurança. O valor de uso
é praticamente inexistente no mundo do capital.
A
força de trabalho é vendida por um salário, que
deve ser sustentado por um valor de mercado. O cálculo ocorre
pelo valor de troca, o dominante. Como isso tudo funciona?
Primeiro
não se deve descartar todas essas mudanças profundas que
vêm ocorrendo ou correndo no trabalho, nas
relações, sexualidade, família, subjetividade e
demais instituições vigentes.
Lembremos os principais processos de mudanças, tendências, realidades…
-
Globalização da economia; a Era da Biologia; o triunfo do
Indivíduo (este passa a ser o valor supremo, acima de qualquer
coisa); o Renascimento das Artes; a Liderança das Mulheres; a
Nova Sociedade de Serviços; a Nova Era do Lazer; o
Envelhecimento da População Ativa; a Década do
Cérebro; o Nacionalismo…
Subversão de valores:
. 1 - Auto-realização, imediatismo
↑2 - Status, aparências, fetiches
↑3 - Função, resposta à Demanda Social
↑4 - Segurança- financeira, espacial
↑5 - Necessidades fisiológicas
-
O novo comportamento no ambiente; o fim da profissão; novas
qualificações; exigência de ampliação
do conhecimento e informação; a necessidade de
atualização permanente; baixa da qualidade de vida com
vistas à quantidade; busca incessante e exageradamente ansiosa
de aperfeiçoamento pessoal e conseqüente aumento do
julgamento crítico e cobranças por vezes de fazer tombar
de tanto rir ou chorar…
Resultado?
A produção do ser humano revolucionário, perdido
no meio de tantas instituições reacionárias. Isso
tudo mexeu com o fundamento da economia, implicando uma mudança
radical na vida. Tudo se encontra pronto, porém caro, o consumo
cresce assim como a demanda social de novas
qualificações, ampliação do conhecimento e
informação. O padrão de vida esperado é
muito elevado, o povo não consegue pagar por essa qualidade de
vida. Assim, a economia torna-se volátil, movimenta demais,
criando toda a insegurança da perda da profissão, o
imperativo de nunca poder cessar a aprendizagem. Surge,
consequentemente, o “famoso” stress, depressão,
transtornos de ansiedade, crises existenciais sobre qual o sentido da
vida. As pessoas perdem qualidade de vida e passa a buscar apoio na
espiritualidade, no aperfeiçoamento pessoal ou se refugiam no
álcool, drogas, antigos hábitos nada construtivos…
A
violência aumenta, assim também a população
carcerária, a insegurança, a fragilidade e
desconfiança dos indivíduos em todas as
relações humanas. Se o capital não tiver
ética, o resultado provável beira o fim do mundo. O que
fazer com isso agora?
Muitas
vezes o sujeito disciplina suas pulsões, energia, através
da arte para se contemplar o mundo naquilo que não há
valor de capital, não se troca, porém o deixa
próxima à Natureza, a sua natureza humana de não
ser perfeito, robô, da percepção de que por mais
que conquiste nunca atingirá o ideal imposto e introjetado pelas
informações em torrentes e falta de tempo pra parar,
pensar, refletir, curtir a própria companhia,
conhecê-la… Pimp! Uau! Eu também sou gente,
não trocaria este momento de paz e completude por dinheiro ou
emprego algum. O que fiz com minha vida? Deixei que pensassem por mim,
decidissem o que é o melhor porque a maioria o faz? Logo eu, que
tanto critico a sociedade, estou subsumido por ela e ensinando,
cobrando assim dos meus filhos. Não, não preciso de
tanto, meus filhos nunca pediram brinquedos nas datas de festa e nem
assim… -Pai, o presente que eu escolhi foi ter você
torcendo por mim no campeonato de futebol da escolinha quinta depois da
aula. Pode? Puxa, eu achava um pouco estranho porque ele poderia pedir
video-games ou o que quisesse, apenas disse claro, é
“só” isso? …
Hoje
não se tem tempo para sentir de verdade a vida, a
família, colocar de fato os sentidos pra funcionar. Tudo gera em
torno da mercadoria, insegurança, mal-estar. A mídia
põe medo nas pessoas o tempo todo. Não é mais
sociedade industrial, agora é a sociedade de serviços.
Necessita-se trabalhar muito e ter boas férias. À medida
em que parte da sociedade enriquece, perde-se a habilidade social. A
solidão domina. As faces estão mais frágeis,
desconfiadas até da própria sombra.
A
criatividade, a imaginação, a vontade de mudar, inovar
requer coragem, mas compensa com a grande abertura que ficou para os
poucos que aproveitam a pouca concorrência nesse setor. “O
perigo que o homem moderno sofre é pensar sobre a
modernidade.” (Giddens)
Entendendo
um pouco sobre o funcionamento da economia social que não se
explica na TV, porém se impõe sutilmente, podemos notar a
importância e objetivo do que se chama, atualmente,
Desenvolvimento Organizacional(D.O.). No próximo!
→
sugestão de leitura:
http://www.touteleurope.fr/fr/observatoire-europe/europe-en-idees/ouvrages/le-nouveau-modele-europeen.html?xtor=EPR-10
(artigo)
• livro: Le nouveau modèle européen (Anthony Giddens)
-outros:
http://www.amazon.fr/exec/obidos/search-handle-url/403-9374811-7326815?%5Fencoding=UTF8&search-type=ss&index=books-fr&field-author=Anthony%20Giddens
|
|
Profissionalização do escritor brasileiro
Um bom tema para um livro: o que é ser escritor num país
cujo desempenho contra o analfabetismo é pior que 72% na
América Latina e pior que 55% no mundo? Vista que a
posição relativa do Brasil em termos da taxa de
analfabetismo é bem pior do que a sua posição
relativa em termos de renda per capita. De fato, as mesmas
estatísticas das Nações Unidas revelam que apenas
34% dos países do mundo têm uma renda per capita maior que
a brasileira. O mesmo fenômeno ocorre na América Latina,
onde apenas 28% dos países têm renda per capita maior que
a brasileira. O Brasil é um caso diferente, cujas causas remetem
à colonização e acomodação à
subserviência. Até alguns anos atrás ainda se
manifestava a indignação de forma argumentativa, muitos
eram presos, injustiçados porém lutavam pelo seu direito
de dignidade e educação adequada.
O
império da mídia e a facilitação da
sensação de prazer imediato oferecida pelo avanço
geométrico da tecnologia contribuíram para a conveniente
alienação e banalização do que precisa de
esforço homérico sem qualquer reconhecimento ou retorno
proporcional. O século XXI é de um povo perdido de si,
vazio, sem conteúdo, sem base, que evita qualquer aprofundamento
e reflexão pra não sofrer a angústia de tomar
consciência do enorme caos atual. A futilidade reina como nunca!
Ainda fica a imposição: goze, seja feliz, está
reclamando do quê, você passa fome?
Eu
canso de falar pra minha família parar de rezar pra dar
pão a quem tem fome e sede de justiça a quem tem
pão, pois estou ''desidratando''...
"O importante do ponto de vista de uma
educação libertadora, e não "bancária",
é que, em qualquer dos casos, os homens
se sintam sujeitos de seu pensar, discutindo
o seu pensar, sua própria visão do
mundo, manifestada, implícita ou explicitamente,
nas suas sugestões e nas de
seus companheiros" (Freire, 1987).
|
|
Rondel:
Papai Noel,
Esperei por todo um ano
Pra ter direito a meu pedido
Não quero muito não
Apenas um beijo cândido
Que inspire dois corações
Ao ar livre saltitando
Esperei por todo um ano
Pra ter direito a meu pedido
Duas almas em sintonia
Cantando, sorrindo, vibrando
Uma nova chama de alegria
Esperei por todo um ano
|
|
Milagre – Só Pra Quem Crê
Como não crer na recuperação de alcoólatras?
Pois se tão facilmente
E por motivos tão mais brandos
Jesus não transformou água em vinho?!
Então é só convidá-lo à reunião
De pessoas crentes na recuperação
E pedir-lhe, humildemente, no cerne da fé
Que transforme, por favor,
O vinho deturpado
Abusado por nós, insensatos
Em água simples, sem sabor
Como há de negar o Salvador?
Mil'águas só pra quem quer!
Salve a Grande dor
Oh Grande Salvador!
Esteja conosco em nossos atos
|
|
Opinião, Não Abro Mão
As dores da alma são ferozes
Grandes energias tornam-se algozes
Se a corrente humana não for forte
E, de mãos dadas, gentes construírem fortes
Há quem diz intangível o Bem universal
Creio-os enganados
O Bem é tangível, tocável, muito afável
Pois ele está nos humanizados
Todos eles, diferentes, semelhantes
Concorrentes, compartilhantes
José, Maria, Joaquim, Bonfim
Seres tangíveis, sentimentais, lidando com seus fins
Assim creio meu Deus
Tão concreto em carnes e ossos
Deus é dos "eus"
Abstrato no amor e nos esforços
|
|
Dores...
Há tempos fui ferida no cerne de meu ser
Os anos passam, mas não apagam
As marcas de estragos
As dores em trapos
Quero morrer agora
Chega de sofrer
Não suporto a demora
Dum infinito envelhecer
Pior que viver
É ser desprezada, ignorada
Pior que odiar
É não poder amar
Pior que se ferir
É sentir culpa por existir
|
|
O Gigante Dos Meus Temores
O Sol zombeteiro entra pela grade da janela
Esquentando as mágoas impertinentes
Ah! Se eu tivesse a Palavra, só Ela
Curaria meus anseios intransigentes
Diacho! Estou aqui e respiro
Este ar poluído e macabro
Só dissabores inspiro
O coração nunca mais, nunca mais abro
Plangente aura nociva de desafeto
Invade um mundo num troar indiscreto
Deixa o espírito sem defesa à obsessão
Dos mais nefastos demônios em junção
|
|
A goiaba de papai
Estávamos
papai e eu ao léu, no quintal de casa, quando aquela perfeita
vistosa madura grande goiaba do pé do vizinho invadiu
atrevidamente o desejo alimentício frugal de papai. Seus olhos
vibravam... produzindo faíscas de brilho, sombrancelhas
arqueadas, a saliva transbordando.
A
lembrança de sua meninice campesina, as inúmeras vezes em
que se esbaldou e empanturrou-se, trepado em frutuosos galhos de
variados vizinhos, resgatou-lhe a nostalgia, a sensação
da perda de tais joviais prazeres abandonados pelo destino.
Fitou-me,
viajante e desejoso. Eu, então garotinha urbana e ingênua,
extasiada em ver no rosto de papai tamanha alegria infantil causada
pela preciosa frutinha, não pude evitar oferecer-lhe uma
compreensiva emulação:
- Realmente, papai! É uma goiaba linda e apetitosa!
Não precisou de mais. Papai, afobado:
- Está no ponto para se arrancar. Se esperar mais apodrecerá.
Olhou
para a churrasqueira encostada ao muro que dá para o vizinho e a
goiabeira, olhou para mim, olhou para a amadurecida goiabinha e soltou
uma doce proposta:
-
Quem sabe se a gente puser a cadeira sobre a churrasqueira e
você, filhinha esperta do papai, sobe e apanha a danada. Que tal?
Na
inocência de minha primeira década de vida e na
confiança de que papai sabia de tudo, coloquei a bamba cadeira
sobre a churrasqueira de tijolos e a galguei em busca da bichinha.
Tchibum!!!
A
cadeira escorregou da churrasqueira, eu escorreguei da cadeira e
caí dentro da impiedosa assadora de carne. Um de seus ferros
pontudos rasgou-me a carne da perna num só golpe
surpreendente.Uma só questão saiu-me boca a fora:
- Papai, vai ficar marca? Vai ficar marca?
Quando
vi o sangue saindo pela nova fresta, produzi aquele berreiro!
Está doendo! Ai! Papai doía-se em nervosismo, desespero e
condolência. Correu carregando-me para o hospital, aquele vento
era tão doloroso...; e após uma hora de escândalos
e suores, o curativo estava feito.
Enfaixou-me
quase toda a perna. Foram uns quatorze pontos. Quando mamãe
chegou do trabalho, eu estava com uma perna toda enfaixada brincando de
bambolê.
O mais interessante foi que, na semana seguinte, fui ao quintal e vi a goiaba toda podre caída da árvore.
-Mesquinha ela, não?
Tania Montandon
|
|

Canção Paradisíaca
aspiro com delicadeza
a suave brisa que passa
e instiga agudeza
do espírito que relaxa
sentindo intensamente
a morna temperatura
dádiva do ambiente
onde tudo se cura
correnteza de esperança
atravessando a pele
como pureza de criança
que esta a zele!
|
|

Do sentido
Do sentido da conduta
De viva astúcia e brilho
Que a ciência não escuta
Não se põe lúcida no trilho
Do sentido da história
Que perfaz cada trajetória
Da arte finita do mover-se
O que liga os interesses?
Do sentido da mente
Ínclito poço de habilidades
Poder saber que se sente
Que se liga potencialidades
Do sentido da vida
Do mistério e da energia
Que fascina e arrepia
Que se conhece só a ida
Do sentido da alma
Da coerente comunhão
Intuição que acalma
O desvario da razão
tania
|
|

O poeta
É sina de poeta,
costume de época
ou mal de quem sente o mundo
no fundo e profundo âmago
de ser do meio um frágil asceta?
Aquele que observa
nas selvas de pedra
mil faces encobertas
De dores e amores
que de fato os introjeta
e os expõem na frase singela
Na qual o homem vê aberta
Sua caixa preta e secreta
E tenta fingir não a conhecer
E tenta rir por perceber
Quantos vãos há em seu ser
E seu intelecto nem pôde esconder
Aquele que não vê sentido no capital
Não vê juízo no cabedal
E lhe custa tanto comer um animal
Aquele que se doa às letras
Desapega-se do íntimo anseio
Tentando inventar estrelas
Que brilhem de humanidade no seio
É todo aberto e vulnerável
Às dores e às feridas
Que o Real tem de implacável
Ao fechar as saídas
Para o delicado corpo irrecuperável
Que doença é essa
Que afeta tantos poetas?!
que lhes deixa sem esperas
De todas aquelas promessas
Que só muitos anos podem dar festas?
by: Tania Montandon
|
Imagens e Arte desta página por Lenya Terra
|

Crianças...
por: Tania Montandon
Sentada
na calçada, descalça e esfregando os olhos com as
mãos sujas de terra, chorava, chorava, chorava por horas a fio a
garotinha que parecia ter por volta de cinco anos de idade. Não,
não era uma criança abandonada, espancada ou perdida.
Estava bem em frente a sua casa e deixando os irmãos, pai,
mãe, tios, primos, desorientados sem saber o que tinha
acontecido e já tinha passado um bom tempo e nada da menina se
cansar do choro sentido. É verdade também que a pequena
já era famosa nessa área de manhas e choros. Então
uma tia, a mais impaciente, andando de um lado para o outro da casa,
decidiu que resolveria a situação. Sua testa não
parava de suar de tanto caminhar pra lá e pra cá. Nessa
época os refrigerantes e chocolates eram um luxo muito raro e
somente oferecido em ocasiões especiais. Porém, essa tia
impaciente trabalhava na fábrica de guaranás e sempre
tinha prestígio com a garotada porque ela que distribuía
os doces e refrigerantes nos aniversários e demais festas. Nesse
dia, por impulso e contrariando as regras, pegou um guaraná
pequeno, furou a tampa lavada, enfiou um canudinho e levou pra
menininha chorando. A garota na mesma hora parou de chorar,
soluçou, pegou a geladinha guaraná agradeceu e
começou a beber. Ufa!!! Todos, antes contrariados, deram os
parabéns para a sabida tia e até as outras
crianças nem ficaram com ciúmes pedindo pra elas
também, tamanho era o estresse geral na casa. Todos voltaram a
rir, conversar e esperavam que ao terminar o refrigerante ela estaria
de volta dentro de casa. Para a surpresa geral, a molequinha terminou
calmamente seu guaraná, colocou-o ao lado com cuidado para
deixar a garrafa em pé, lambeu os beiços e disparou a
chorar mais alto que antes. Pronto! A confusão dentro da casa
recomeçou, uns queriam ir lá gritar e mandar calar a
boca, mas a maioria não deixou, afinal era uma criancinha
pequena e claro que tinha suas razões pra tanta choradeira. Como
o tempo não passava, os ponteiros do relógio pareciam
congelados e os berros não diminuíram, o jeito foi usar a
arma infalível, a carta que sempre se tem por baixo das mangas
para emergências como essa. Foi a vez da tia mais adorada da
criançada, porque ela era muito compreensiva, paciente e tinha
muito carisma. Sentou-se ao lado da menina, tentou um cafuné e
quase caiu pra trás com a altura que o berro chegou. Tudo bem,
resolveu conversar. Puxa, você deve estar sentindo muita dor,
coitadinha da sobrinha mais linda da titia. Quem ou o que foi que fez
essa barbaridade com a minha princesa? Por que você está
chorando? A menininha fez uma cara meio assustada, engoliu o choro,
soluçando e com a face lambuzada de lágrimas, suor, terra
e guaraná e foi se acalmando. Então, ainda
soluçando alto, olhou para a tia e disse:
nã...glup...o...n~.glupão..glup...não...glup..s..glup...seglup...sei..glup
|
|

Queixume
Sofro da voz que não me dita:
- Deves fazer isto e não aquilo...
Sofro da liberdade bendita
Que não deixa meu erro tranquilo
Sofro da dor que não escolhi
Aquela que me impuseram com força
Sofro dessa dor pela qual agradeci
E agradeço ainda pela moça dor
Sofro do desalento de usufruir
Desse presente doído
O qual agarro pra não escapulir
Sofro desse esforço de viver comigo e contigo
Sofro pelo malogro soberbo de querer retribuir
O dom de ter consciência e ter nascido
Tania Montandon
|
|

FIM
Para tudo há sempre um fim
O que começa há de acabar
Como o toco d’um cigarro
Ou a tinta da caneta
Mas que fim há para tudo
Quando tudo é tanta coisa
Tanta coisa numa só
Numa só frágil consciência?
Abriram a janela d’uma vida
Muitos ares entraram, poucos saíram
Viveu-se folguedos subvertidos
Até o varar da última brisa
Dispersas luzes fizeram a festa
Dançaram e zombaram como bonecas
De todos mistérios da janela
Que findaram na morte dela
Tania Montandon
Publicado no Recanto das Letras em 06/10/2008
Código do texto: T1214599
|
|

Pesada Barra
Que desespero é viver!
Sem controle do dia, da noite
Da fome, da raiva
Da euforia, do sofrer
Nasci errada
Errada, erro por aí
Cresci surrada
Pela agonia de existir
Pudera sentir paz um dia
Uma pacífica segurança benévola
Não sei o que é isso, todavia
Nem aposto na possibilidade – incrédula
Não quero mais ser eu
Já não tenho vida que valha
Nada que usufruto é meu
Nem gosto deste cabelo de palha
Tania Montandon
Publicado no Recanto das Letras em 09/08/2007
Código do texto: T599726
|
|

Sentimento sublime
Verde esperança do teu sorriso
Abrindo as portas do meu espírito
Singelo olhar da tua meiguice
Abrandando o que é difícil
Marcas geladas de depressão
Provocam gélido encolhimento
Mas o fogo do teu ser ao vento
Já aquece meu coração
A vida desaponta
Mas dá muitas voltas
Quando penso não dar conta
Lembro-me de tuas respostas
Se hoje fosse pedir um presente
De imediato já diria:
- Ter-te ainda presente
já é maior que a alegria
| |