Tania Montandon

Nasci em Uberaba, aos 5 anos de idade mudei com minha família para Ipatinga porque meu pai foi transferido no trabalho. 3 anos e meio depois, mudamos pra Uberlândia, onde vivemos até ele se aposentar. Em 1994, nos mudamos para Belo Horizonte, onde moro ainda com meus pais. Ao terminar o terceiro colegial, fiz intercâmbio na Nova Zelândia e fiquei lá por 7 meses e tive que voltar por motivo de saúde. Sempre pratiquei esportes: na juventude, dediquei-me muitos anos ao tênis competitivo, colecionava troféus. Quando voltei do intercâmbio, comecei a perder o interesse pelo tênis e fiquei fascinada com tudo sobre a mente, a linguagem e comecei a ler tudo que conseguia acessar. Fiz Psicologia na FUMEC. Adoro a psicologia teórica, a filosofia, a literatura e línguas - formei-me em inglês e em francês avançado, tenho o FCE de inglês e DELF e DALF de francês. Possuo esquizoafetividade, o que dificulta bastante - para as coisas mais banais preciso fazer muito mais esforço do que qualquer outra pessoa. Então não dei certo nos empregos em empresas. Mas a arte passou a ser minha vida, minha alegria, parte de mim, da minha alma e do meu coração. Em 2005, publiquei meu primeiro livro de poesia "Viagem ao Léu" pela editora Armazém de Idéias, com ajuda da família e produção independente.

Cansei de me deixar arrastar pelos mandos e desmandos da sociedade  e de ideologias que não me atraem. Chega! Decidi assumir meu desejo e minhas opiniões e lutar por eles. Não espero nada de extraordinário, nem dinheiro. Só gostaria de conseguir uma oportunidade de mostrar meus escritos, que me são tão íntimos e preciosos pelo fato de estar minha alma inteira neles. Preciso divulgá-los a quem interesse. Necessito retornos essenciais para meu melhoramento e conservação duma auto-estima razoável. Sei que não é fácil. Porém, não vejo mais sentido em me acomodar frente ao medo de fracassar. Importa-me agora o esforço para tentar e perseverar, apesar dos obstáculos. Minha saúde mental precisa dessa coragem. Se conseguir usar o máximo de meu potencial, creio que alcance uma certa paz de espírito dentro do possível. Anelo auto-atividade em prol do desenvolvimento humano e espiritual.

"O fruto que permanece é aquilo que semeamos nas almas humanas - o amor, o conhecimento, o gesto capaz de tocar o coração, a palavra que abre a alma à alegria do Senhor."
(Papa Bento XVI)



 

 

Paixão x Amor


Tania Montandon


Novamente, ela escreveu a noite toda. Espreguiçou, olhou para o Sol que nascia, agasalhou-se e saiu no frio da manhã, como atraída por uma força invisível. Andou pela cidade que acordava. Desejos vagos, poéticos. Esperava alguém. Sua excitação crescia, enquanto corria pelo parque até as margens do rio.
Da névoa, ouviu um som familiar dos remos dele mergulhando na água gelada. O ranger de um esquife avançando, cortando as águas do rio parado. Observou-o e se questionou: como podia um desconhecido enchê-la de tanto desejo? Sabia a resposta, pois era justamente ao que ansiava... este sentimento. Apaixonar-se de tal modo que a mera visão de um homem, mesmo distante, provocaria um estremecimento profundo, a amolecê-ça, derretê-la como mel.

Ela escrevia enquanto viajava a passeio pela primeira vez noutro continente, a viagem a que tanto almejara e, então, tanto a inspirava. Seu melhor trabalho. Entanto sua estadia tinha data marcada e seus recursos limitados a angustiava. Ficar e terminar seu livro. Não, não, não podia partir ainda. O que fazer?

Não partiria. Estalou uma idéia a salvá-la. Deveria trazer à realidade os fatos e sensações evocados em seu livro. Única saída, mas seria possível? Ah, só o porvir o sabia...
Não considerava mais a idéia de voltar. Venderia a casa, o carro, a cabana no lago, pois não atingira seu propósito, ainda que só parcialmente conhecido. A se desvelar no deixar as letras escreverem o que ela mesma precisava saber. Seu trabalho a tomara em toda a alma e guardava seu segredo e destino.

O clima inspirador da cidade, a confiança precisa em seu sonho antigo, sobretudo o mistério do desafio a fascinava até o fino limite dum delírio.

Uma voz sussurrava intermitentemente em seu ouvido: cuidado, cuidado! Pegou seu chapéu, o casaco e saíra a perder-se para se encontrar. No restaurante, enquanto tomava seu segundo drinque, ele apareceu, chamou-a e disse: eu conheço você! Hoje, ontem, anteontem, na ponte. Ela replicou-lhe: escrevo à noite. Quando amanhece, dou um passeio antes de dormir.

Eu sei, ele disse. O que mais você sabe? Sabrina Marc, americana, há quatro meses na cidade para escrever um livro. Trabalha bastante, passa o tempo só, talvez seja tímida, talvez reclusa. Bem, estou em desvantagem. Por enquanto. Belo, não? E perigoso. A verdade é que ele só fora àquele restaurante porque havia a chance de encontrá-la.

Agora você está aqui. O tempo parou. Podiam ter dançado por dez minutos ou duas horas. Ela já não sabia. Conte sobre seu livro! Eu o odeio! Sei como é! Sabe? Conversaram sobre seu trabalho e sua turnê.

Ele iria embora no fim da semana. Não queria ir. No meio daquela noite, ele começara a contar-lhe histórias, sobre seu trabalho, como o fazia com precisão, clareza. Chocante, a princípio. Depois, fascinante!

Ela podia imaginar. Todos bebendo até a embriaguez,gente da cidade, gente da sociedade, misturadas com pescadores, artistas, prostitutas. A banda excitava. Muito. Uma música especial fora anunciada. Quando começou, era hipnótica.

Apagaram as luzes. Primeiro, por cinco minutos. Quando a luz voltou, alguns saíram. O resto esperou.

Esperou as luzes se apagarem novamente. E então ficaram apagadas por dez minutos. Não se distinguia as mocinhas das prostitutas. Todas estavam em estado semelhante: excitadas. à espera de serem surpreendidas pela luz. Alguns seios à mostra, vestidos rasgados. Finalmente, por quinze minutos.

Quando as luzes voltaram, ouvia-se os gemidos de uma mulher. Crescendo em êxtase, ignorando o mundo, à beira de um penhasco. Ela recusava-se a parar, até chegar à petite mort. Libertação total. Carne, ela era carne e desejo. Tudo ao redor rodopiava como em espiral.

Realidade, sonho, devaneio, trabalho?! O vermelho e o negro! Caos. Loucura. A histeria criada pelo instinto destrutivo do humano. Tudo era festa e também política e também sonho e também trabalho e também loucura real e caótica. Comunistas, fascistas, vermelhos, cinzentos, camisas de vento. Soprava-lhe o conhecimento de ser aquele o tempo errado para se estar ali.

Como se isso importasse. Só o que queria era estar ali. Aquele livro causaria um rebuliço na liga moral. Devotos, donas de casa, todos os editores o desejariam. Adorável repugnante trabalho!

Ela o levou ao seu quanto. Havia uma escada que ruíra quando fizeram um apartamento ali. Perfeito clima romântico. Bebem uísque, dançam e começam a gargalhar sem conseguirem parar. Uísque! Ele adora uísque. E mulheres em pontes ao amanhecer.

Antes daquela noite, ela sempre procurara um milagre que não acontecia. Então ali estava ele, a dormir em sua cama. Antes daquela noite, ela ficava triste de desassossego e fome. Sentia que nada aconteceria para si. Desesperava-se com o desejo de mergulhar de cabeça na vida.

Ele pergunta: desmaiei? ... Olha ao redor e pergunta o que ela vê. Pede para contar-lhe uma história. Como se a estivesse escrevendo. Vejo... Vejo... um homem rico voltando de uma visita a sua amante. Triste. Sua artrite o tem incomodado. Também sabe que ela se cansou e possui um amante mais jovem. Lá estão, beijando-se. Como seus avós e seus pais se beijavam e do modo como nos beijamos ontem. Sua vez.

Vejo uma aventureira, uma sonhadora, uma excelente escritora. Como você poderia saber? Dei uma olhada em uma de suas histórias em cima da mesa. Roubei outra esta manhã. Algo nela criara uma extrema e perppétua ousadia quanto às possibilidades da experiência. Uma necessidade de voar. Esteve muitas vezes prestes a fazer isso e teve que fugir. Possui um espírito e potencial causadores de ciúmes. Beijam-se, pulam, correm pelas ruas como crianças exaltadas, sintonia dum sentimento exuberante.

Nada no mundo importava. Apenas aquele momento, aquela sensação, aquela brevidade que sobra. Sabia que no dia seguinte, àquela hora, ele terá partido. É apenas uma questão de tempo. antes que você seja meu. Você não vê, amor, que pertence a mim. O homem da hora. Lindo! Sublime! Apavorante, fantástico! Perigoso também! Possui a loucura suficiente para continuar interessante.

De repente, todos se surpreenderam ao vê-lo beijando uma outra moça. Perpexos! O castelo desabado, ruínas num turbilhão de sentimentos explodindo a virar pó. Ela faz a última pergunta: por que ela?

Com toda simplicidade e frieza sincera, ele responde: porque adoro a autodestruição! Porque ela não significa nada para mim.

Ela não sabia o que esperava. Então era este seu segredo, seu enigma, a resposta tão urgente que buscava. Ela também desejara a autodestruição. Tudo se encaixou e o quebra-cabeça de duas peças estava montado. Sua obra e sua jornada, terminadas.

Então ele partira... da cidade e da vida dela. A queda foi muito maior do que qualquer coisa que pudesse imaginar, pois tinha adentrado aquela emoção com toda sua vivacidade e se abandonara nela. O mais apavorante dos sentimentos era que ela não mais seria capaz de se fechar ao mundo. percebeu que ele havia não apenas lhe penetrado, mas também seu profundo ser.

Aprendeu que as pessoas necessitam enfretar o que mais temem para saberem quem são e são raras as que o fazem.

 

 

 

 

Enviados em Set/2011



 

 

Tumor psíquico

No vale das chuvas, onde reinavam corcéis alados e faziam brilhar suas crinas douradas, ela se perdia andando pelo teto com a pele sentindo as gotas de mel vindo das avessas núvens do arquipélago.

O silêncio, estrondosamente surdo, penetrava-lhe nas entranhas pelos órgãos perdidos e desviados de suas funções.

A brisa úmida, cheirando terra molhada, atingia-lhe as vistas pelo odor transmutado na movimentação pela percepção ininteligível.

As vozes pelo nariz se debatiam arrulhando o clima desse espírito inapreensível.

Ao tempo se servia, enquanto à morte não jazia, explodindo pelas veias o mel amargo a que sua sede não satisfazia, contudo o dourado expandia seu brilho pelos poros que tanto ardiam naquela transcedente vivência que a surpreendia.

No desvalor daquela existência malquista e desprezível subiam e desciam os ares compostos e decompostos em involuntárias recepções e doações à sua revelia.

No entremeio, após receber o sopro da vida um pouco antes de doá-lo, então sentia o nada, o tudo, a inutilidade de toda a algaravia imaginada de fractrais mentais dissolvidos no deslizamento sem fundamento deste decorrer do tempo paralizado nesse andament
o.

 

 

 

 

Enviados em Fev/2011

 

 

 

 

A poesia na arte moderna e suas interfaces

por Tania Montandon

 

As portas tremem vendo-a chegar mais uma vez. O céu está lindo, a cabeça vazia, o coração capotando, taquicardia...

 

Um mundo, um submundo, uma sociedade, um lugar pros excluídos. Vida! O que é isso? Um dom, uma magia, uma música sem melodia única, mas múlptipla, enquanto respira e percebe quão menos sabe e a que se destinara...

 


Tania Montandon, guache sobre Moleskine

 

Toda inovação em arte, como reconhecia Wordsworth, implica mudanças sociais. A revolução permanente assegura a posição em que se encontra até que o corpo volte à terra e nela desapareça misturada a ossos de homens e bestas, talos de plantas, folhas de trigo e esterco.

 

Curiosa análise de Piet Mondrian:

"No futuro, a realização do puramente escultórico na realidade palpável substituirá a obra de arte, pois não precisaremos quadros, já que vivemos no meio da arte realizada."

 

Quanto mais a vida se desequilibra, mais se demanda a arte.

 

A arte moderna nasce no meio da revolução oposta àquela arte que já não quer ser, da substância e do espírito da antiga e eterna arte, via sublimação, transformação artística de pensamentos, considerações e formas novas. Descoberta de outras ordens de fenômenos, aperfeiçoamento do verso, poder criador da imaginação poética, força das palavras e realidades vivas, concretas além de abstrações teóricas.

 

A liberdade angustiada diante tantas repressões da cultura leva à eclosão do rio ocluso de longas águas agitadas e posses particulares da essência transbordante, predispondo a se fazer o que mais não se desejaria fazer, boicote do desejo vital do sujeito como ataque impulsivo ao desejo repressor do Outro.

 

A palavra é a portadora da mensagem dos interesses supremos do espírito à consciência.

 

astro de nervo e ocluso vento

em diálogo diáfano do sanguíneo catavento

hipógrifo violento

que consiste parejas com el viento

os gestos e as vozes

os olhares e a vida

para dentro e para fora intransponível

la luz se comunique

es fuerza que el temor se multiplique

todos os gestos do eu e de fora

para um e outro lado abrindo espantos

em desierto monte,

quando se parte el sol outro horizonte

musicalmente estranha de vendaval em si

garra de fogo a violentar montanhas

ciega y desesperada

bajaré la aspereza enmarañada

 

Palavras são signos das representações do espírito.

 

"O extremo limite de toda a especulação sobre a natureza da poesia, sua essência, pertence ao campo da estética, e não concerne a poeta e crítico de preparação tão limitada quanto eu." (Thomas Eliot)

 

 

O poema se faz pelo discurso e imagem poética e usa ritmo, harmonia, rima, combinação de palavras... O poeta substitui as formas espirituais pelas formas sensíveis: imagens, intuição, sensação...

 

A palavra direta dá ao objeto só o caráter concreto. Para se alcançar o sentido poético necessita-se juntar ao termo algo que possibilite a visão de uma imagem figurada. A palavra se transfigura na poesia.

 

Sentimento

 

Há conforto, amor, abundância na linda casa

Tanta miséria, fome, carência na favela

Novas ondas de vida palpitam em meu coração

Um amigo secreto surge na oportuna ocasião

 

Desmerecida do conhecido, margem do avesso

Outra paisagem é benquista, atiça o desejo

Sensações carnais, anseios angelicais

Adentram a subjetividade, talvez sejam vitais

 

O espelho mostra as marcas do já feito, feio

O desejo mostra o anseio pelo novo, insatisfeito

Áspera lida de esperanças emaranhadas

Algo desperta novas notas em vendaval, estranhadas

 

"Não é a coisa em si mesma ou sua existência prática, senão a imagem e o discurso o que constitui como o núcleo central do poema."

(Hegel, fonte de todas teorias da expressão poética moderna, mesmo aquelas que se colocam em oposição a ele)

 

Que peso tem a brisa sentida

Na grade fria da janela

Montanha de dor chorando no verão

Imensa é a coroa de espinhos sobre ela

A impor, canhestra, sua simbolização.

 

A paixão mística é a exaltação e a negação da vontadde, a mortificação.

 

Para saber tudo, deves não querer saber algo em nada.

 

Solitário, o morto ascende à montanha da dor original.

E nem uma só vez seu passo ressoa no destino insonoro.

 

Mas se os infinitamente mortos despertassem em símbolo,

Em nós, olhai, mostrariam talvez os engastes pendentes

Das aveleiras vazias, ou a chuva que cai

Sobre o reino obscuro da terra em primazia

 

Na venturosa ascensão,

Sentiríamos uma ternura enorme

Perturbadora, misteriosa

Quase o cair da felicidade

 

No alto, as fumaças recém-nascidas

Estrelas seriam no país da dor

Luzidia lamentação revelando nomes:

Do que não é, não foi, não será jamais.

 

A mente convoca quaisquer mundos caprichosos e variáveis

Afeiçoa-se a ele ou o muda, onipotente

Pode o convocar ou o banir à sua mercé.

 

O organismo biológico tende sempre à preservação da vida e da espécie humana. Porém a mente é tão complexa e possui poderes desconhecidos a ponto de conseguir enganar o próprio ser em sua ambiciosa busca para satisfazer a escorregadia falta infinita até conseguir com que se deseje a própria extinção, esquecendo-se que ansiar é o próprio viver.

 

Não há por que ter que saber ao que se anseia, a ânsia basta assim como a vida. Ambas terminam juntas, como duramente descobrira Buda. Conhecer e aprender a lidar com a ansiedade talvez seja a chave para uma vida sábia.

 

 

 

 

 

 

 


percepções, Tania Montandon, guache sobre Moleskine.


Escuto: - Luz!, após longa tarde de chuva.

- Luz , o Sol da noite! Alguém mais vê? Éle, Ú, Á! Hêêêee!...

Amélia, a pacieente do hospital psiquiátrico, da qual dizem não falar "coisa com coisa". Ha,ha!!! Se prestassem um pouco mais de atenção, notariam que, na verdade, ela diz coisas geniais, entende tudo, porém não é entendida. Nem faz questão!

Diz coisas propositalmente (ou não) de modo inisteligível pela linguagem comum do cotidiano. Adoro escutá-la! Usa uma linguagem poética, troca a ordem das frases, fala sobre cosmos, energia, estrelas, brinca com trocadilhos como injeção, logo associando com encheção e dá risada, principalmente quando demonstro ter entendido e rio junto.

Está sempre sorrindo, uma lucidez velada por trejeitos seus. Fazem fofocas maldosas sobre essa paciente em sua frente, ela escuta e pensam que não está captando nada do que dizem. Apenas sorri, ciente disso tudo também. E sabe que eu sei. Rimos juntas. Afinal, quem são as tolas? Ela? Eu?

Para que ser compreendida por quem não consegue sair um palmo sequer da superfície mundana?

Das pacientes, é a que mais me entende e vice-versa. Escondo melhor minha loucura e divagações. Amélia simplesmente não se importa, age como um pássaro contente com a liberdade de ser como é. Contudo deve sentir muita solidão.

Escolheu pagar um preço alto de ser como é, sem auto-censuras e podas de frescuras fúteis. Eu já não tenho tanta coragem e ainda não cheguei à conclusão de vale ou não a pena. Acho a solidão muito dolorosa prum risco desse tamanho.

O que ninguém imagina é que Amélia é de longe muito mais interessante, inteligente, sensível e criativa que todas as outras pacientes somadas. Há algo de genial dentro dela. Triste que não posssa ser valorizado justamente nesta cultura da imbecilidade.

Nem parece desejar algo assim. Somente não abre mão da liberdade interior de ser o que é e ama seu ser, ao contrário de todas as demais, incluindo-me.

Seria um espírito mais evoluído? Ou só mais uma louca como eu num hospital pra doentes mentais?


 

 

 

Enviados em Jan/2011

 

 

Quando a voz amiga surge!

 

O nevoeiro dissipa-se além da vista
A luz volta a brilhar no espírito dormente
Quando a voz amiga surge, benquista
E canta a esperança, perdia, ternamente!

O céu volta a existir e também Deus
As pernas voltam a caminhar, bens a Deus!
Quando a voz amiga surge, de presente
E conta o que é a vida, firmemente!

Meu pensamento cala-se, em contento
Meu tempo para, atento
Quando a voz amiga surge, de fato
E apresenta o ouro do abstrato!

O tormento perde a pungência, lânguido
O coração regozija, com ânimo
Quando a voz amiga surge, aprazível
E ergue o encanto do sorrir, incrível!

O desespero não arde, apequenado
Viver não dói, anestesiado
Quando a voz amiga surge, afável
E sopra bolhas de carinho, inefável!

Quando a voz amiga surge, e bem diz
Tão cheia de vida e traços gentis
Há ternura, há beleza; cultura e singeleza
Contribuindo no constructo de minha fortaleza!

 

 

 

 

 

Ela

 

No Sol do inverno tropical
com o vento enviando arpões
aranhas tecendo suas teias
agouro da destruição no início do temporal

Cai a noite, um feixe de luz surge
acaricia a mistério, escuro, sujo
uma calma reclina sobre a cama
balançando susurros: - ele te ama!

No torpor do silêncio, ambiente vazio
o último grito estridente, frio
é Ela, vem mansa e depressa

Encobre o corpo, abala a respiração
finaliza seu golpe, para o coração
o olhar escancara a morte e sua presa

 

 

 

 

 

 

 

Quanto à violência, o que pode fazer a ciência?
Tania Montandon

A ciência no cotidiano na luta contra a violência. A influência do capitalismo no comportamento interpessoal da sociedade. A informação, sua adequada utilização e os efeitos na população. As possíveis causas da conduta anti-social. Hipóteses sugestivas para alternativas de atuação.

“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento: mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem.” (Berthold Brecht)

A questão da violência no mundo é bastante antiga e envolve uma variável de causas e conseqüências. É uma questão complexa e abrange todos os setores da sociedade, sem a exclusão de focos minoritários. Até mesmo a “Campanha da Fraternidade” chegou a abordar o tema da criminalidade, fato ilustrante das dúvidas sociais a respeito das causas da violência. Essa campanha abordou a questão das cadeias comportarem quase em sua totalidade pessoas de classe baixa e pele escura. Surgia, pois, a dúvida de que são só essas pessoas que merecem serem encarceiradas ou somente elas são encarceiráveis?

“Eu vejo nas ruas, miséria e aflição
em casa só guerra na televisão
ensinam pra gente, amar nosso irmão
mas ninguém presta muita atenção(...)
Não importa a cor, ou a religião
Todos têm essa missão.
(Arquivo Criança Esperança/1999 – Sandy & Júnior)

A incidência dos atos de violência vem crescendo assustadoramente, não somente em atitudes sangrentas, mas também através de discussões verbais mal elaboradas e ofensivas, da exclusão discriminatória das partes mais frágeis da comunidades pelos mais fortes, além de outros exemplos também sutis que passam às vezes despercebidos.

“Todos homens são distintos demais
todos sentem dor, todos são mortais
Então por que não estender a mão
A quem precisa mais de ajuda e atenção que nós(...)
Todo mundo tem direito de viver
E o milagre vem de mim e de você
Todos têm que ter direito a ser feliz(...)
Todo mundo tem direito de sonhar,
De ter paz, ter segurança e o que comer
Todo mundo tem direito de falar(...)
Todo mundo tem direito a crescer,
De brincar, de se educar e de sorrir
Só assim que vai ser grande esse país.”
(Direito de viver – música de Chitãozinho & Xororó)

Como tentativa de solucionar o problema, a sociedade acabou adotando uma falsa verdade como ideologia, acreditando que o aumento da produção de armas e o combate da violência com a repressão seria a resolução adequada. No entanto, comprova-se atualmente, no cotidiano, que essa ideologia gera doravante cada vez mais violência, uma vez que a violência combatida com a violência tem como resultado a violência ao quadrado.

“A violência é tão fascinante
e nossas vidas são tão normais(...)
Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente, estou sentindo frio
Todo mundo sabe, ninguém quer mais saber
Afinal amar ao próximo é tão démodé
Essa justiça desafinada
É tão humana e tão errada.”
(Baader Meinhof Blues – música de Legião Urbana)

A exacerbação do capitalismo selvagem e a crescente valorização do materialismo e consumismo, em detrimento da sensibilização quanto aos valores humanos e fraternais acarreta o desenvolvimento de personalidades frias, competitivas, indiferentes e extremamente individualistas. Exemplificando essa dominante idéia de “furar o olho do outro”, há a frase do fundador da rede alimentícia Mc Donald’s: “Se o concorrente estiver se afogando, o que você deve fazer? Pegar uma mangueira e jogar água na boca dele.” (Ray Kroc)

“(...) Se considerarmos uma sociedade inteiramente submetida às forças do mercado, e ao invés de criar laços entre as pessoas, difundirmos uma ideologia individualista, estaremos criando a possibilidade da violência.” (Jornal O Ponto -BH, dezembro de 1999)

O homem está sempre se superando. “O homem nunca será capaz de liberar o poder do átomo.” (Robert Millikan, prêmio Nobel de Física, em 1923, 22 anos antes da explosão da bomba atômica em Hiroshima)

Albert Einstein ficou frustrado ao ver que sua maior descoberta E = m.c. que possibilitou a divisão do átomo e liberou a energia nuclear deu origem aos cataclismas e morte de milhões de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial em Hiroshima e Nagasaki. “Não estou pedindo a ninguém que se renda. Peço a todos que declarem a vitória da paz.”(Tony Blair – Primeiro Ministro da Grã-Bretanha, em 1998, no primeiro discurso de um chefe de governo britânico no Parlamento da República da Irlanda desde que os irlandeses se tornaram independentes da Grã-Bretanha, há 78 anos)

Entre as possíveis causas da violência, pode-se destacar o desemprego, o deficiente sistema educacional e, principalmente, as grandes desigualdades sociais. Tudo isso gera insatisfação na mente das pessoas atingidas, e estas começam a se revoltar umas contra as outras. Nos países subdesenvolvidos, como o Brasil, o número de desempregados está crescendo assustadoramente. Os pais, levados pelo desespero, colocam seus filhos para trabalhar, fazendo-os abandonarem a escola. Estes ingressam-se precocemente no cruel mundo adulto, e, com pouca formação cultural, acabam deixando se envolver em meios mais fáceis de obter dinheiro, como assaltando e maltando.

“Podem me prender, podem me bater,
podem até deixar-me sem comer,
que eu não mudo de opinião
Daqui do morro eu não saio não
Se não tem água, eu furo um poço
Se não tem carne, eu compro um osso
E ponho na sopa e deixa andar
Fale de mim quem quiser falar
Aqui eu não pago aluguel
Se eu morrer amanhã, seu doutor,
Estou pertinho do céu.”
(Opinião – música do Zé Ketti)

A violência como conduta anti-social pode ser interpretada como a exteriorização de conflitos internos do indivíduo em determinados momentos de sua vida. O indivíduo no social precisa de uma interdição que é dada pela Lei. Suas respostas às exigências da sociedade refletem a maneira como internalizou as proibições e restrições por seus pais ou representantes durante sua criação. “Todos os indivíduos privados de sua liberdade, devem ser tratados com humanidade e com respeito à dignidade inerente à pessoa humana.”(Art.10 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos)

Segundo Lacan, a agressividade se manifesta numa experiência que é subjetiva por sua própria constituição e aparece em meio às restrições reais impostas pela civilização. Em seu sentido positivo, é indispensável na luta pela vida. Hegel deduziu todo o progresso subjetivo e objetivo de nossa história do conflito entre senhor e escravo, mostrando o lado de crescimento provindo da tensão conflitual. Porém, quando a agressividade é usada com a intensão de causar dano a um organismo vivo, ela toma a forma de violência. Esta é algo que burla a Lei, e gera o mal-estar típico da neurose moderna. “Freud reconheceu que uma das coisas mais misteriosas da pessoa humana é a presença de um impulso de violência, de sofrimento e de morte.”(Rubem Alves – Decadência de Valores – jornal O Ponto – BH, dezembro de 1999)

A civilização impõe sacrifícios para que a agressividade seja embotada e se dispõe de motivos idealistas para justificar suas crueldades. O homem moderno está carente não apenas economicamente, mas também de valores, respeito e formação moral, pois não se deveria ter a pretensão de controlar a criminalidade por medidas repressivas isoladas, mas pela conjugação: prevenção, tratamento e repressão. Exemplificando esse conhecido mal-estar na civilização, tem-se o caso do jovem estudante de Medicina Mateus da Costa Meira que simboliza todo o desejo vetado pelo sistema econômico de sociabilidade.

“A justiça só terá tranqüilidade e segurança para punir, quando a execução das penas que ela aplica não for mais criminosa que o crime.”(Roberto Lyra)

Na tentativa de conter a violência, policiais mal instruídos abusam do poder e espancam os infratores. Este é um ciclo onde os valores humanos e fraternais são cada vez menos valorizados, em função da impulsividade individual.”Alguns juízes são absolutamente incorruptíveis. Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça.”(Berthold Brecht, dramaturgo e poeta alemão)

“Ninguém será submetido à tortura, nem à pena ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Em particular, é proibido submeter uma pessoa a uma experiência médica ou científica sem o seu livre consentimento.”(Art.7 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos)

O meio social é regido por vários seres humanos que, segundo Freud, possuem a pulsão de vida e a pulsão de morte, sendo esta última responsável pelos comportamentos violentos e destrutivos do homem. As atitudes sociais ajudam a formar uma idéia mais estável da realidade, protegendo as pessoas de conhecimento indesejado. Mas são muito pessoais, pois um conjunto de opiniões pode servir de base para a serenidade de uma pessoa em face de um mundo em transformação, e para uma outra de estímulo para um comportamento hostil. Existe um sujeito violento e uma grupo que exerce a violência. Até que ponto um sujeito é capaz de contaminar o meio com os seus interesses? “Na medida em que não se tem canais institucionalizados para que as pessoas possam canalizar suas emoções, são criados mecanismos violentos de expansão.”(jornal O Ponto- dezembro de 1999)

Tem-se tecnologia, tem-se recursos e mão-de-obra abundante. Com toda a abundância de conhecimento, de recursos e riquezas, de mão-de-obra, têm-se também problemas em abundância. Há de tudo para todos, mas nem todos têm de tudo. As pessoas são educadas para querer e acumular o máximo de coisas e para manipular o poder, sempre em proveito próprio. Elas são incentivadas a ter, mas não são muito incentivadas a ser. O que acontece no mundo,acontece nas cidades, bairros e lares. Compete-se para tirar o outro da jogada, guerreia-se. Acumula-se, adquire-se mas não se reparte.

“Absorvemos valores e produções de baixa qualidade, exibimos comportamentos inferiores e submetemos nossas crianças à mesma porcariada. Aplaudimos os pequenos bandidos e as pequenas Carlas e Sheilas. Negligenciamos a disciplina, os rítimos, buscando o máximo de prazer, enquanto o mundo explode em chagas, sangue e lágrimas. Será por que?!!”
(Maria Cristina Rosa – Psicóloga Araxaense formada pela UFMG)

Estão todos inibindo os valores elevados, amorosos, humildes e deixando à solta o pior que existe dentro de si.

“A justiça se defende com a razão e não com as armas. Não se perde nada com a paz, e pode se perder tudo com a guerra.”(Papa João XXIII em um dos seus pronunciamentos contra a guerra.)

Outra possível hipótese levantada a respeito do aumento da violência na sociedade
moderna, defendida pelo Pe. Palácio do Centro Loyola de Cultura, é a de que as transformações sociais geram mudanças nos papéis sexuais. Com a Revolução Feminina, o homem perde o referencial do papel que antes era definido como provedor e protetor da mulher, e a violência pode ser uma expressão da angústia em não saber mais qual o seu papel na sociedade.
“O homem é um animal racional que sempre perde a calma quando é chamado a agir de acordo com os ditames da razão.”(Oscar Wilde)

Segundo o dicionário de Política de N.Bobbio, N.Matteucci & G.Pasquino, o termo violência, entendido no sentido descritivo puramente, pode considerar-se substancialmente sinônimo de força, porém distingue-se de maneira precisa da noção de poder. Este é tido como a modificação da conduta do indivíduo ou grupo dotada de um número de vontade própria; enquanto a violência é a alteração danosa do estado físico de indivíduos ou grupos. O poder muda a vontade do outro; já a violência muda o estado do corpo ou de suas possibilidades ambientais e instrumentais. “Tudo é força. Só Deus é poder.”(Karla Miranda – Psiquiatra, psicoterapeuta e coordenadora do Programa de Dependência Química da clínica Central Psíquica)

O crescente desemprego provoca miséria e promiscuidade entre os trabalhadores urbanos e rurais, afetando também suas famílias e favorecendo condutas ilícitas incentivadas pela atuação dos grupos criminosos e organizados, pois estes exploram o desespero e despreparo humano através do fornecimento de possibilidades imediatistas de sobrevivência, como o tráfico de drogas e armas, roubos, seqüestros, prostituição, entre outros.

“Não há um método de combate à criminalidade. O que pode haver é uma estratégia de prevenção. Esta jamais poderá ser construída a partir de esforços isolados da política, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Uma verdadeira estratégia pressupõe um programa orientado para a execução de seus objetivos. Esta estratégia, para ser global, deve situar-se harmonicamente dentro do modelo político e desenvolvimento político e econômico do país, envolvendo todos os programas setoriais e intersetoriais do governo, de modo que ao se implantar um novo pólo de desenvolvimento, leve-se em conta, não só o dado econômico, mas também os fatores identificados como criminógenos.”
(Anais do CNPP. Ministério da Justiça, 1980-1981, p.92)

A cada acontecimento violento que é divulgado pela mídia, produzem-se esteriótipos negativos que irremediavelmente diminuem a auto-estima de cidadão criminoso, o que favorece a cristalização de atitudes inconscientes e impulsivas, auto-justificáveis em explicações comparativas pelo sentimento social e legal do direito de igualdade. Acontecimentos estes que atuam como catalisadores de uma consciência popular rebelde e agressiva. “Consentir com a violência é atormentar-se por muito tempo. Aquele que exerce a violência perde a humanidade.”(Vanessa Campos Santoro – Psicanalista, membro do CPMG)

Alguns segmentos da sociedade, se revissem suas posturas, opiniões e práticas relacionadas à questão da violência, teriam como meta promover a recuperação e reinserção social daqueles que não cumpriram em algum momento de sua vida os princípios éticos e morais valorizados pela comunidade.

“A liberdade pode consistir somente em poder fazer aquilo que devemos querer.”(Montesquieu)

Por analogia, muitas vezes diz-se que uma pessoa livre não é aquela que age livremente ou desenvolve suas capacidades, e sim aquela que realiza o melhor ou o essencial de si mesma.

“A liberdade pode ser definida como a afirmação por um indivíduo ou por um grupo de sua própria natureza.”(Laski)

Considerando essas diversas fontes de informações dos campos da sociologia, direito, medicina, psicanálise, jornais e revistas, pode-se concatenar esses diferentes pontos de vista e produzir hipóteses de como a questão da violência acontece na sociedade e,assim, analisar sua repercussão no comportamento das pessoas, o que possibilita a formulação de condutas alternativas no combate ao problema.

A promoção do bem-estar geral requer mudança de atitudes, tornando as atitudes dos indivíduos compatíveis com a obtenção do bem-estar coletivo, pois, se não houver mudança de consciência, não pode haver mudança nas condições anteriores. O Estado e a sociedade necessitam de tomar consciência de que a questão está em combater as causas da marginalização e da criminalidade infanto-juvenil, e não seus efeitos, uma vez que estes, sem solucionar aquelas, perdurarão. Mas não se pode alimentar exageradamente a onipotência da ciência. “Toda forma de vício é ruim, não importa que seja droga, álcool ou idealismo.”(Carl Gustav Jung,)

Remeter um jovem para a prisão, sendo que ele ainda tem condição de modificar seu comportamento através de medidas pedagógicas, é retirar do mesmo qualquer possibilidade de se ressocializar, pois sabe-se que a prisão é uma escola de marginalização e criminalidade.

“Trabalhamos para o resgate da dignidade do homem, espalhando sementes de paz, amor, compreensão. Sozinhos não éramos nada, não representávamos nada. Agora. Juntos, somos um só, maior e forte, realizando o milagre de transformação pelo amor.”(Maria Cristina Rosa – psicóloga araxaense formada pela UFMG)

A violência é inserida no social como conseqüência de políticas públicas que não priorizam as ações básicas e o fortalecimento da família como uma semente geradora do caráter humano e não focaliza esforços em promover a recuperação e reinserção social dos sujeitos violentos. A sociedade não oferece oportunidades moralmente equilibradas para que o ser humano conquiste seu equilíbrio emocional, o que é refletido em seu comportamento social.

“A violência está generalizada entre nós, em diversas gradações – a abominamos, mas a praticamos, nem que seja através de um simples olhar. Onde foi parar o ideal de nobreza que faria de nós seres humanos delicados e gentis, empenhados em trocar ao amabilidades que conssstruiriam a paz?”
(Maria Cristina Rosa)

O ideal seria que os indivíduos agressores recebessem ajuda psicológica para se reconstituir, ao invés se serem jogados em precários cárceres, onde tudo o que aprendem são atos de violência.


“Estamos todos cansados de dor e sofrimentos, de maus tratos. Não é hora de começarmos a nos ocupar do resgate das virtudes adormecidas em nosso interior?”(Maria Cristina Rosa)

Reflexões

“O ambicionismo exarcebado e a pobreza de espírito presente em muitas pessoas, vedam-lhes os olhos e as impedem de enxergar o próximo como um cidadão provido de sonhos; sonhos estes inalcançáveis devido à desunião e ao comodismo da sociedade, violentando assim, o outro no que ele tem de mais puro e autêntico: seus ideais.”(Paula Renata Pessoa – 6º C – Psicologia – FUMEC)

“Qual será a carência de quem viola do outro a essência?”
(Tânia Montandon Motta – 6º C – Psicologia – FUMEC) ano 1999

 

 

 

 

Enviados em Dez/2010

 

 

 

Nada mais exigia, além de simpatia e chocolate; e alguém para ouvir a história de seus tormentos e labutas naquele instante. Ou apenas uma companhia em silêncio empático, cúmplice, solidário. Estava disposta a tirar a armadura e soltar os rios de ternura mescladas a raivas e outras emoções prontas a serem elaboradas, organizadas e finalmente nomeadas, além das renomeadas existentes desde que o primeiro humano percebeu-se como tal.

Resolveu encarar pelo mais profundo, a pele (conforme a visão de Paul Valéry). Encarou-se no espelho, devagar, timidamente, até que os lábios, cabelos, seios da face, nariz, olhos, olhos, olhos. Estes, os verdadeiros traidores que tudo contam da alma sem permissão. Mostraram que a janela estava e sempre esteve aberta. Apenas devia voltar a visão para o interior e tudo surgiria nitidamente para si. Olhos para fora e para dentro, agora. Embora a novidade continuasse adorável, ainda se fazia misteriosa e estranha devido à intensidade da solidão, o passar dos séculos, gerações de minutos, o findar das estrelas e do luar.

Acende o cigarro apagado na metade e curva-se à magnífica prontidão, pois qual o mal em prestar homenagem à beleza do mundo, cataclismas, perfeições e imperfeições do ser e da Natureza?

Compreensão era o que ela queria. Que a convencessem de suas qualidades, confirmassem repetidamente que os espectros mentiam ou exageravam quando lhe dizia que para nada prestava e não merecia viver e matar-se seria o melhor para todos e era covardia quando se machucava apenas um pouco, fraca e patética. Enfim, ansiava a voltar à vida,seu esforço não sendo em vão e sentindo-se aquecida, reconfortada para seus sentidos físicos e metafísicos serem restituídos, sua motivação estimulada, seus pequenos gestos construtivos considerados, suas características pessoais fertilizadas e todo seu ser abarrotado de vida, criatividade e estima.

Contudo,o esgotamento é inexorável e cruel, incutindo o gozo de se deliciar ao abandono no cansaço, exaustão mental, espiritual, social, por sobre a página das Contemplações poéticas de Victor Hugo, enquanto palpitava através dela - como a vibração de uma mola retesada ao máximo e que, agora, cessasse gradativamente de pulsar - o êxtase da criação, vitoriosa. Inveja! E dizem que inveja mata... Então como ainda respira?


O interromper esa aura por um terceiro desapercibidamente é um perigo!Energias condensadas podem desequilibrar o ambiente. stranhamente olhos brilham seja de desprezo,ódio do mundo ou outras obscuridades até então adormecidas.Tristeza,sofrimento,cansaço tornam,então,o recanto pouco acolhedor e de acessível comunicabilidade. os seres ali se veem sugados por uma forte fadiga. o efeito de todo o proceso reverte-se numa incorrigível ansiedade e esperança, sem consolação.

Estranhos devaneios apossam-se duma mente fragilizada. A carne fragmenta-se em átomos varidos pelo vento e espalhados pelo universo.Estrelas emfogo ardente lampejam no peito, ferindo e queimando ferozmente o coração: de rochedos,nuvens, céu, mar, galhos, assim ligados propositalmente ansiando a reunir numa forma exterior os fragmentos desorganizados no caos da visão interior d`alma.

Impossível resistir ao ímpeto de vaguaer de um lado para o outro à procura de si mesmo.Um impuldo isolado, duradouro, brilhante e pungente, distante do cotidiano entre família, amigos e gestos conhecidos. Um intermitente estímulo ao que extinguiria o paradoxo, o desespero, o medo, a carne em humana forma e conduziria à paz eterna, descanso do espírito exausto, à segurança absoluta do nirvana em tensão zero.

 

 

 

 

Enviados em Nov/2010

 

 

 

O que ocorre na subjetividade da angústia patológica?

 

Como é fácil para quem está de fora! Nada vêem além do mesmo corpo intacto, aparência viva, movimenta, há batimentos cardíacos, sangue circulando nas veias, roupas normais, cabelos inteiros.

  • Não há nada de errado com ela! É só uma ansiedadezinha típica, deve ser tédio. É só ocupar-se com alguma distração e tomar um diazepam(ou ulteriores semelhantes para a mesma função).

    Afinal, por que não estariam certos? Como disse o famoso literato Paul Valéry, "lo más profundo és la piel".

    Porém, cada ser único, ao desesperar ante inefável dor sem poder comunicar algo mais para todos que enxergam como o mais profundo a pele, a solidão e desconhecimento de causa e como atenuar seu tormento aumentam e a invisível consupção vital gritando o alerta dolente de perigo iminente por vezes explode nas águas lacrimais, excessiva secreção da mucosa nasal, glóbulos brancos, vermelhos disparam para todas as veias e artérias impulsionando a bomba cardíaca a funcionar em potência máxima, assim como as glândulas sebáceas, pancreáticas, sinapses aumentam a produção de neurotransmissores sem tempo de controle sobre seu equilíbrio, produzindo miscelâneas de sensações conhecidas como emoções ditando o imperativo descompensado de movimentos, inicialmente dos órgãos do sistema autônomo simpático e parassimpático, invadidos pelas memórias anacrônicas em meio às faculdades de cognição, imaginação, percepção e todo o sempiterno mistério minando em progressão geométrica as tênues fronteiras entre esses funcionamentos.  Tudo resulta em algum evento irracional motivado a dar voz e expressão na esperança de se tornar visível ao exterior, suplicando por qualquer atenuante, embora muitas vezes seja tarde demais…

    Sônia, insônia, sono, só no [vazio]… Culpa. Há imprevisto problemático, sabe-se a causa. A senhorita é dona dela. Da tristeza na família, seu afastamento social, familiar, mal-humor, pois todos "precisam" ficar  por conta da maluca fracassada aposentada precocemente por inadaptação social. Possuía um futuro promissor, malogro. Por que ela faz isso conosco? Parasita que a covardia sob a coberta do ser católico praticante não admita dizer que não suporta mais, só dá trabalho e nada acrescenta… ainda que seja verdade.

    Nasceu para viver. Entanto tanto fez que perdeu o merecer. Injusto ser o fardo pesado que erra até quando age com a melhor das intenções."De boas interções o inferno não está cheio? O espelho é embusteiro, nunca diz o monstro que ela é: agredindo, ferindo, espantando, enojando, irritando sem nem mesmo perceber. À revelia do desejo consciente.

    Diz-se: - Basta ser você mesma! Quem gostar de você irá gostar pelo que é. E fica a tentar ser agradável e pensa: - Puxa! Sendo essa coisa tal de "si mesma" só traz decepções a todos, desastres, até criativos, erra de maneiras inovadoras!

    Desistira de tentar imitar os padrões sociais vigentes porque só recebia escárnios, humilhações e nunca conseguira mesmo. Não colocou muito esforço nisso também, até porque para ela os palhaços ridículos e fúteis eram eles, os normóticos. Só não imaginara que a consequência chegaria a forças brutais, químicas, rotulações, discriminações, prisões tão sérias e torturantes, onde se sentia bem como os algarismos de matemática de Malba Tahan seriam neste mundo. Objeto que se amaina, não se  escuta, considera-se burro e violento, arrasta-se pelo cabelo como formas de tratar tais "coitadinhos".  Isso é século XXI. Poderosa Psiquiatria - a Neo Inquisição! Sabe? Argumente em vez de usar dos mesmos meios que favelados, ignorantes, pior, sem direito à defesa para a parte "fraca". Tratamento ou punição?

    Vítima nunca fora. Nem culpada por tudo que a acusaram e puniram. Talvez esteja devendo pecado, assim como a maioria dos pacientes psiquiátricos. Você nasce, cresce, faz o que pode, alguns se esforçam mais a favor da humanidade. Mesmo entre esses, não estão imunes ao exílio, excomunhão ou o que quiser chamar da condição de perda de cidadania, cristão ou pertencente à tribo ou mesmo à espécie humana. Homo sapiens? É piada? Então por que não Homo stupidus?

    "Não é medida de saúde adequar-se a uma sociedade profundamente doente." (Krishnamurti)

    Profissionais no pedestal pensando que fazem muito mais que Jesus Cristo. Psis geralmente. Sabe-se bem por onde passam em sua educação profissionalizante. Pois talvez devessem ter uma semana de residência vivendo como internos num hospital para doentes mentais se for a especialidade escolhida e sem que a equipe do hospital fique sabendo antes de poderem trabalhar com tais pacientes.  Seria intrigante filmar a "queda do salto alto", de fato seria cômico. Não sabem o quanto suas pequenas loucuras cotidianas parecem-se com as dos pacientes que vivem há quarenta anos dentro da" caixa".



     Tania Montandon

     

     

     

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    Enviados em Set/2010

     

     

     

    Outra Visão



    O desalento do momento atordoa em demasia
    Vozes nefandas enviando comandos
    Partes de fragmentos d'alma em poesia
    Com sinistras auras conectando

    Que fazer c'a vazia impotência do ser
    Estando a gigantes malevolentes à mercê?
    Diriam loucura, alienação, aberração
    Quem não experiencia no ato essa pressão

    Lamúrias fluentes, eloquentes, alheias
    Invadindo nervos e sistema autônomo
    Daria com graça o louvor a quaisquer idéias
    Que levassem à origem e lhe dessem sono

    Como livrar dos que já sem vida
    Atravessam a abstração impondo-se no real
    Se contar nunca seria a saída
    E sem chance obteria d'um vivo o aval?

    Distante é o mundo dos mortais
    Da abundância às misérias materiais
    Infelizes seres alienados de sua condição
    Agindo como animais no que nomeiam civilização!


    Tania Montandon

     

     

     

     

    Enviados em Ago/2010

     

     



    A questão do trabalho no mundo atual

     por: Tania Montandon

    O tema do trabalho desde suas origens até a concepção considerada na atualidade envolve uma ampla gama de possíveis reflexões e considerações. Sabe-se que, como quase todas as descobertas e invenções humanas tiveram inicialmente as melhores intenções, as quais, com o decorrer do tempo e conseqüentes distorções ideológicas, o trabalho também sofreu um processo de nascimento promissor e utilitário para o individual e o coletivo até surgirem tentações sofísticas e acomodatícias oriundas da cultura do “quanto mais esperto melhor” e sua sutil demanda “ganhe o máximo fazendo o mínimo”.

    O homem sempre se questionou sobre seu potencial, do virtual ao concreto, e suas necessidades de avançar em conhecimentos cada vez mais visando à evolução e tentando ultrapassar seus limites. Desde o início do que se sabe sobre a humanidade, há sempre uma alusão à questão do trabalho, com os primeiros conhecimentos gregos e a mitologia dizendo ser Atenas a potência da técnica (‘techné’ e ‘métis’) e Hefaísto seria o inventor do trabalho pelo fogo como complemento à potência de Atenas. O mito de Prometeu representou o intermédio e transferência do pertencimento da invenção das técnicas dos deuses para o homem, endossado por Dédalo mais tarde. Contudo a história deixa buracos, dúvidas e paradoxos, com diversas versões muitas destas contraditórias.

    Importante destacar é a inerente busca eterna do ser humano pela criação pragmática, aperfeiçoamento com vistas à utilidade para o coletivo, das primeiras comunidades às sociedades contemporâneas. Do mesmo modo que não há como saber tudo sobre a verdadeira origem e a história mais correta, outro tipo de buraco também foi criado concomitantemente a todo o processo. Na maioria das vezes, os motivos encontram-se na vaidade humana e posterior supervalorização do individualismo em detrimento do coletivo, acarretando fins cujos meios recorridos pelo homem feriram os ideais altruístas, éticos e morais.

    A ambição, outro fator indispensável a considerar, operou negativamente a partir da Revolução Industrial e a tentativa de quase “mecanizar” o trabalho humano objetivando maior rendimento, produção em massa e lucro. O filme “Tempos Modernos” com Chaplin apertando parafusos e sendo “usado” pela máquina mostra claramente um destes buracos que o processo criou junto ao desenvolvimento do conhecimento e da criação. Com os trabalhadores colocados a fazer um único serviço repetitivo e alienante, perdia-se a noção do todo daquilo para o que o homem estava laborando e, junto, a motivação, saúde e conseqüente sofrimento, sobrecarga e descontentamento da massa de trabalhadores. Livros como “Germinal” de Zola e “Os Miseráveis” são obras geniais que ilustram bem esses acontecimentos.

    Assim, talvez a questão não seja temer como alguns já fazem que a máquina chegue a substituir o homem no trabalho. Seria mesmo preciso estar sempre repensando todo o processo a fim de consertar as lacunas que o estragam e propiciar reflexões positivas na luta pelo progresso equilibrado ao limite da Natureza, do homem e da ciência. Nada é perfeito, porém tudo é passível de mudanças o tempo todo. Há de se pensar em como dirigir as transformações de maneira mais construtiva para que o caos possa originar inovações criativas com sua inerente força e refletir sempre na organização e reorganização do trabalho, seu uso, custos e benefícios.

     

     

     

     

    A caveira da rejeição

     

    "La vie est naturel

     Autant que la mort

    On cache le coté cruel

    Comme si tout n`étiait pas tort!"

     

    Trad: "A vida é natural

    Tanto quanto a morte

    Escondemos o lado cruel

    Como se tudo não estivesse errado!"

    Louvo-me sem vaidade ao louvar o raio de luz, como se eu fosse bela como essa luz. Quando s'um apega-se às coisas incomuns, seres inanimados: árvores, córregos, flores. Como se essas coisas nos expressassem e fôssemos o mesmo ser. Elas me conhecem melhor que ninguém, são "eu" de certo modo. Há uma ternura irracional por elas e é recíproco. Do fundo da mente, emerge, às vezes parecendo espiral, o lago cego do ser de minha pessoa, uma bruma, uma plebéia caminhando ao encontro do amado príncipe.

    Tudo está tão difícil. Por que todos me odeiam tanto a ponto de não conseguir ter paciência comigo, ao menos suportar meu ser como é ou pode? Por quê? Isso dói profundamente a desejar com força estar morta. Não aguento ser objeto de culturas, subculturas, contraculturas, "tratamentos" que, para mim mesma, só produzem sofrimento. Basta o que a vida já traz de pedras no caminho. Iatrogenia é um dos piores males do século e dos próximos no campo da medicina, especialmente relativos à psiquiatria e à mente humana.

     

     

     

     


    Soneto da rejeição

    Tania Montandon

     

    Apoio que embalde procuro, se algum
    piloto ainda sois, mostrai ao momento
    Quanto mais me entrego mais desalento.
    Perdida e só, já necessito rum.

    Sem um raio de luz, até fragmento:
    -  que  ocorre quando o ser não se encontra mais?
    Por que se esmaga sua capacidade
    e o  ânimo se vai como o vento?

    Forças que debalde procuro, des-existo.
    Quero encontrar-me. Puxa, já desisto!
    Perco tudo quando deixo de ser

    alguém com identidade singular.
    Por que a vida  repudia-me  o ar
    solitário  infindo de antes de nascer?

     

    Voe, voe, vá além, vá muito mais além! Finque suas raízes no solo da iluminação para adentrar a roda dos sofrimentos mundanos sem se perder em seu meio. Assim, poderá entrar e sair das trevas sem ser contaminada e mais uma a ajudar em vez de ser mais uma a ser ajudada. [Arayashiki - despertar o oitavo sentido, "ir ao mundo dos mortos e voltar vivo"]

     

    Vida e morte representam uma dinâmica de paradoxos em constantes mutações. É mister adquirir a paz em vida para que possa morrer em paz. Que nenhum cativeiroo material ou abstrato (através da sutil dominação da subjetividade) aprisione a sacra liberdade de pensar, escolher, opinar, sejam quais forem as circunstâncias.Que o desdobramento do mistério prânico perdure ad infinitum.

     

     

     

     

     

     

    Adentrando o "si"

    por: Tania Montandon


    Mergulho no ar noturno, soturno, talvez até com netúnio, gaz nobre porém artificial. Gelado, privando qualquer acalento soberbo das flores e sebes da primavera.

    Pode-se ser si mesma quando só. É isso que se precisa fazer com frequência: pensar, não exatamente, também contemplar, ficar em silêncio…

    A existência toda, as atividades, com o que possuem de expansivo, vibrante, contagiante, vozes, gestos humanos  esvanecem-se. Então, torna-se possível certa solenidade, retrair-se em si, no cerne pontiagudo das trevas, algo invisível para os outros seres.

    Deste modo sente-se o ser autístico patético socialmente, depois de se livrar dos laços, pronto para as excêntricas viagens, aventuras, sonhos, a realidade inventada, considerada pelas pessoas talvez como uma "desrealidade" ou excesso de imaginação faiscado de símbolos intangíveis pela linguagem da razão.

    Quando o ritmo da vida diminui por um instante, a amplitude do âmago das experiências torna-se infinita. Todos possuem esse sentido de possibilidades imprevisíveis e ilimitadas.

    Sente-se, então, que as aparências, os aspectos que caracterizam cada identidade são simplesmente infantis (de infanto - não fala - inefável) e fundem-se à energia cósmica do Todo. Tudo negro, amplo e incomensuravelmente profundo; contudo horizonte ilimitado, diversos lugares a que não se foi, como planícies da Índia abrem-se sob uma pesada aortina de couro de uma igreja romana. Esse cerne das trevas pode ir a qualquer lugar, pois ninguém o vê. Não se pode deter, enquanto no pensamento incutido.

    A liberdade, a paz e - o mais agradável - o poderde recuperação, descanso numa plataforma de estabilidade sobre o solo da concretude, tudo isso lá enleados estão. Mas não como indivíduo que encontra esse repouso, ensina a experiência. Somente como recantos, lampejos de sobra...

     

     

     

     

    O que é o tempo? O que é o dia? O que é uma noite, afinal? Um curto intervalo subjetivo de vida, às vezes com a escuridão desvanecendo cedo e rápido, junto ao cantar dum galo, o chirear de um pássaro ou o verde desmaiado avivando-se como uma folha na primavera.

    Mas uma noite sucede outra, um dia sucede outro, até que o inverno encerre-as em quantidade e as distribui quase equanimemente com seus dedos infatigáveis. Elas se prolongam, escurecem, assombram ou descansam. Discos e ciscos de claridade, luzes da cidade lembram estrelas, límpidos planetas, cometas, o esplendor do desejo de flagrar uma estrela cadente. 

    Os restos de folhagem do outono parecem bandeiras em frangalhos que rebrilham conforme os enfeites luzentes de uma catedral, onde as letras de ouro no mármore lembram os heróis mortos em batalhas. 

    A luz da lua abranda a fatiga do cotidiano, suaviza o restolho e guia os trabalhadores cansados de volta a sua casa.

     

     

     

     

    Enviados em Jul/2010

     

     


    Uma ilusão intelectual



    "lo más profundo, es la piel" Paul Valery



    Procurando nos símbolos
    A gênese primordial
    Urde-se até algaravia
    Explanando-se a mente cabal

    Mas se viaja em círculos
    Pois a corrente interpretativa
    Se posta em capítulos
    Revela-se repetitiva

    Único núcleo consistente
    Por nada faz atingir
    E a mais longa profundidade
    Então miúda ruga da superfície

     


     

     


    Eu?! Onde?!


    "Ofuscante e colossal, com que rapidez o Sol nascente me mataria
    Se eu não pudesse agora e sempre lançar o Sol de dentro de mim."
    (Walt Whitman)
    Confusa, assustada, flutuo
    No fluxo deste enérgico ar.
    O desalento do momento
    Enfraquece minhas vértebras.

    Sinto os vermes babarem.
    De olho gordo,
    Entrego as rédeas.
    Porém temo o amparo.

    Este que já até
    Não convence, quase renego.
    Dói, com força de touro e garra de tigre.

    Minha ferida,
    Inflamada no peito...
    Invisível, mal-amada, que jeito?

    Tania Montandon

     


     

     


    A verdade confessa



    Não sei se o que me move é algo de amor por ti
    Vim ao mundo sem reservas ou sábios conselhos
    Nem sei ao certo se amor seria toda esta estranheza
    Que me acomete sem que eu possa reconhecer

    Sensações inauditas nisto que palpita e indecifro
    Amor... seria uma mentira, uma beleza, uma surpresa?
    Do destino o golpe desmedido, gérmen da sorte ou do azar?
    Ou dependerá do ponto de vista e de se deixar levar?

    Eu não sei amar, mal sei respirar, oh destino
    Que esperas desta ingênua inapta criatura
    Incapaz de cozinhar, lavar, passar, poderia ela amar?

    Não, respostas nunca virão, eis minha danação
    Terei, então, de escolher: arrisco pular sem saber
    Ou deixo o tédio fazer-me endurecer até o envelhecer?



    Tania Montandon



     

     


    Fora da Lei


    Voando na incerteza do existir
    Além da realidade, aquém do advir
    Saía do corpo como se tivesse o direito
    Subia o morro da solidão, o sujeito

    Desdenhava perigos na alta melancolia
    Chorando cantos de dor e magia
    No céu de estranheza e torpeza
    Dizia adeus à Felicidade, com tristeza

    Assim terminava o passeio sem corpo
    Um corpo inteiro, desconhecido, alheio
    Do qual seria escravo até o suspiro derradeiro

    Outros corpos interagiam com aquele
    E o sujeito, indiferente, assistia a esse teatro
    Do lado de dentro, com seu riso sarcástico em seu átrio

     

    Tania Montandon




     

    Enviados em Jun/2010

     

     

    Angústia – uma vivência


    por: Tania Montandon


    Tristeza aguda, medo de viver, culpa do errado, sem saber o que fazer. Tantas perguntas no ar, vivências inesperadas, relatos fantásticos em ambos os sentidos. Até onde é Natureza, destino ou escolha? Até onde acreditar, confiar, doar?

    Quando o ar atingiu-me, senti um grande empuxo para fora do mundo, uma sensação ominosa de não pertencer a tal lugar. Segredos do espírito, o que o faria me contar?
    Coração ferido, vulnerável,à flor da pele. Dor crônica, pretendente a característica personal. Aguça a sensitividade, alastra o medo, sobrenatural. Expia sem se ver, participa do viver, constrói artifícios até morrer.

    Natural beleza, Natureza, nascente tristeza por grande vileza. Sólida irmã da vida, assiste a seus verdes, rios, distraída; caírem por terra, na cobiça e na serra, a Mãe destruída.

    À surdina, um toque de leve oferta-lhe traços. Formas que adereçam a esperança última do socorro. Luta contra a descrença, envolve-se de corpo. E o nariz, ponto primeiro do contato, é estraçalhado ante o escárnio, em princípio, mal ditoso. Arrivista maquiavélica bem adjetivam tal vil dita. Sobriedade atenta é fuzilada e envenenada, grande destreza a da serpente.

    Insegurança, artimanhas que faltam ao bom espírito; tão jovem e também desprovido da caliente intrepidez que lhe é típica. As duras provisões da realidade sobressaltaram precocemente qualquer impulso insensato de ato heróico ou sublimado, extinguindo-os.

    Manchada a vinha de alecrim, inexorável penha surgindo a sudeste da arrebatada vista, o ar claro e puro penetrando as narinas e acariciando a macia pele.. Bendizer sua criação até poderia, não fosse os restos de dor magoada, ressentida, orgulhosa escamoteando o divino deleito do dia.

    Perdida nas largas mangas da confortroupa, com a seca meleca vigiando o vestíbulo nasal e os extremos das arcadas superiores e inferiores pesando a gravidade sob princípios de tal lei, assim como denotando sincero desprezo à esperança. Assim encontra-se dito ser feminil entre as vagas forças intermitentes para o trabalhárduo do chomp chicle bola poft...

    Devaneleiando-se às quimeras mais reais, tomando distância das sensações materiais e regozijando-se então da tersa posição de derrisão, escarninho das tragédias fatais. Com o espírito desvinculado ao corpo carnal, assiste aos próprios desesperos e se espanta com o alvoroço por tão mundanas perecíveis futilezas.

    Enleiando-se no processo com intrepidez e certa dose daquele gozo sofredor inato do qual ainda não conseguiu desemarnhar-se, engolindo raivas, mágoas, hostilidades, digerindo-as e, ao final dejetando-os; sente o peso e a aspereza daquelas ripas perpendiculares que lhe marcarão o corpo, a morte, a existência, a imortalidade da meta última.

    Desgosto inquietante estiolando o mínimo orgulho que motiva tal criatura a inspirar cada molécula de ar. Irrevogável energia despendida no auto trucidamento desanimador, auto-compaixão comparável à estupidez maior.

    Inapreensível certeza mórbida de energia desenlaçada, entrecortada por jatos populares proporcionando fincadas dolentes de pressão desmedida em pontos hipersensíveis.

    Desesperança pesando desproporcionalmente sobre as costas de uma vida que se viu enjeitada, sufocada, desambientalizada no espaço menor, viés do acaso malquisto, tempo doído do curso vivido.

    Descaso cabal do mínimo esteio que ainda enxergava. Fantasia explode do quero a morte, minha sorte! Células imperfeitas, espírito excêntrico repugnante afugenta belas expectativas divinas. Deus errou, humano existe que não concorda, dispensa tudo pois não tem mais como dar corda. Conta pesada a do lutar, cada vez mais está menos a compensar. Projetos de auto-extermínio entram em ação – falta de opção.

    Chaves da cognição superior, para-além do si que se conhece, chama em canto ao Redentor, chamas de dizeres, prolixos sermões a bem da persuasão. Esta encrustada na alma vitimosa, incutida sob o abrigo do enganado responsável, alienado alienante, da verdade do ser, da verdade mentira, pois impossível de ser inscrita, muito menos escrita.

    Indizível do sentir, amparo ao léu, folga do céu, recreio do “Goze!” imperativo, ativo do desatino, que brilha com glória na sociedade do festivo. Fustiga a paz da pretensa ingenuidade, embuste de qualidade que permeia o tentar ser, continuar.

    Orvalho cinzento jamais visto angustia tal tronco juvenil, metralhando o ardil covardemente na proporção da desvantagem maior, pois é não visto mas sentido, negativo do explícito. De resultado é o vômito asqueroso dos dejetos orgânicos repugnados, malcheirando as belas vestes da donzela. Incongruência, realidade pasma de tal imaginário. Refeerências, reticências...

    Cadáver ambulante movido a ciscos de energia prânica, erros de cálculo da extinsão, provocando balbúrdia no organismo, bem colocado pelo sentido pejorativo do sufixo ismo , naturalismo, extintismo diria eu. Sensação exorbitante da impotência da célula vibrante nos picos e cantos da carne murchante. Degeneração de corrosão sem anestésico, sente a dor, o peso e o tédio da questão que evolui com terror e usufrui do gozo excesso. Qualquer forma é dialética, na pena, na boca ou na lepra. Fica quieta, moleca!

    Pupila Joyce corrompida pela linguagem, lingüística. Real nem sei saber, mas sinto ainda crescer, mantos de algo não sei o quê. Todo ser possui seus ídolos, para crescer, mover, fazer produzir, nem que seja só para si. E assim seja, Senhor, doutor da minha alma, da minha pirraça, da minha graça. Ó quem me vir amadurecer. Grande prêmio irá merecer. Viver, sofrer, morrer. Por que o tal do amor não entra no meio?deve ser algo que interveio. O qual? Ajuda peço afinal.

    Esqueleto de asas transforma os contos em pandemônios, carniça fresca do sabor das jovens mortes anunciando o Juízo Final, que, na verdade, não há Final, quando dele não se consegue separar desde o início. Só o que há, então, é final, é dor, é perda, é carniça, é resto final de um começo que não houve. Brincando com palavras, ser vil que nunca se viu tal qual, mas sempre iludido, como se assim não fosse com todos. Estágio do espelho que se foi e não deixou lembranças ao que ficou, ao final de seu começo que não lembrou.

    Desprezível ser no cume de seu egoísmo particular, subjugando e menosprezando atitudes humanamente modestas e dispostas cooperativas. Grande tempestade egocêntrica e feiosa atacando friamente o humilde copo d’água descartável, cujo material nem dura o mais remoto júbilo.

     


     

     

    Enviados em Abril/2010

     


     

    Mulher, entranhada de luta e beleza
    Aconchego e fortaleza
    Mestra das cores e das flores
    Harmonia entre olhares e paixões por inteira
    Ser do mundo, das faltas, das presenças
    Paz de criança dormindo, brincando, chorando
    Tormenta nas injustiças e tolas amarguras
    Luz a quem lhe fia coragem e ternura
    Ideal de amor incondicional, fé no que der e vier
    Refujio quando a esperança no mundo se esvai
    Invenção de frutos de milagres reais
    Merecedora de respeito, amor e muita paz!


    beijo ♥

    Tania




     



    Detalhes perceptíveis



    Desprezível ser no cume de seu egoísmo particular, subjugando e menosprezando atitudes humanamente modestas e dispostas cooperativas. Grande tempestade egocêntrica e feiosa atacando friamente o humilde copo d’água descartável, cujo material nem dura o mais remoto júbilo.

    Ostentação imperiosa da burrice transtornada que mexe na vista, remexe benquista, surfista na onda. Onda que leve meio veio e meio leve leve para outro meio. Couraça dura, impotente armadura.

    Angústia aguda da solidão maior na experiência em cume do limite máximo de tensão. Anseio à tranqüilidade, menos perturbações no corpo e na mente, como o sono perfeito, sem traços de memória fixos, apenas o passar dos fenômenos, livremente soltos e compilados por ordem natural.

    Terror noturno, pavor diurno, pânico constante, que não deixam meu espírito descansar em paz. Faltam motivos coerentes, consistentes, razoáveis que expliquem tal existência enganadora, sugadora de energia, ameaçadora. Se um dia a razão ao menos explicar a desrazão...

    Silenciosas mágoas pelos erros não cometidos por outrem, que reviram e voltam sob a máscara da culpa de não se ser perfeita, gente lisonjeira. Repercussão do tal instinto competitivo, predador, fulminador, representante narcisista do individualismo capitalista, maratonista, corre corre seja o primeiro, o melhor, o Senhor, dominador, com viço e pudor.

    Escalpelante dor de existir num meio rejeitante. Caí, não pude resistir. Sofro de novo por viver, nem tive o que escolher. Lançaram-me ao mundo, tão cruel, sinistro e infiel. E ainda procuro pontas por segurar, em tão liso, escorregadio e queimante abismo. Vida em fio, que só me causa arrepio. Sinto os demônios em minhas veias, circulando pelos meus membros e exigindo desgraças.

    Espíritos ficaram a rir de mim, fazendo-me uma piada e impediram-me dormir. Somente na madrugada eles cansaram e me ensejaram faíscasde tranqüilidade. Então adormeci. Aleluia!



     



    Drama cotidiano

    Sinto os espectros à minha volta. Querem matar-me. Medo! Mal-estar!tremomm... tudo por dentro fica dolorido. Provocam formigamentos, pânico. Mamãe está em casa, mas noutro país. Não consigo atingi-la. Estou só em meu mundo. Todos a quilômetros de distância. O corpo apodrece. Preciso aprender a desligar-me dele. Porém é esse o desejo dos espíritos malévolos. Difícil suportar a ambigüidade. Estou a perder o eu. Invadem minha consciência e fazem-se passar pelo que antes era o eu. Grande medo!

    Sensação fervorosa e quente do inferno recente. A alma ferve por baixo da terra úmida, por baixo da cidade, por baixo da dignidade. Queimam a face lânguida, os gestos morosos, a carne criminosa. Apodrecem os ossos preguiçosos, os cabelos orgulhosos, as unhas ríspidas. Perece o ser, germinando ardor, torpor, fedor, pavor. E o carniceiro espírito volta-se para ser altaneiro mentor, rei rasteiro da difusão da dor.


    Há pouco sentei-me na janela como de costume, apreciando vagarosamente o pôr-do-sol fantástico – cinza, azul, laranja, amarelo e vermelho, doce e pacificador, saboreando um Chanceller, sentindo o suave gosto do tabaco e açúcares entre meus lábios e me esforçando para fazer círculos de fumaça. Malogro!

    Quão difícil é a vida: apavorante, inexplicável, incalculável. Tanto medo... sofrer... medo de mim  mesma. Às vezes nem me reconheço sob minha pele, tamanha minha falta de controle sobre ela.

    A hora de dormir chega e, junto, o desamparo. O receio de me entregar á inconsciência, a tristeza por constatar que mais um dia se passou e o tempo não espera; a agonia aumenta. Nem consigo rezar. Sinto-me distante da religião que me ensinaram. Ela não mais me propicia alívio reconfortante como o fazia antes. Não tenho a que me ligar. Nada prende meu interesse ou me propicia qualquer júbilo. As coisas não fazem sentido, apenas seguem seu rumo, transitoriamente... e eu, sem prumo, sou leveda pelo vento da desilusão e melancolia, com destino ao incerto.

    Eu quero morrer porque não agüento a dor lancinante que sinto no peito e todas as vezes que alguém fala comigo sinto que explodirei. É ruim! Falta-me habilidade para viver. Por que isso acontece? Como as pessoas podem gostar de viver?


     




    Onipotência Juvenil

     

    Na flor da idade

    Hormônios a mil por hora

    Nada será ou foi – tudo é

    Não há perigo na insensatez

    Não há razão que preceda a impulsão

    Usar droga só uma vez

    E outra e outra à exaustão

     

    A imaginação é fértil e heróica

    Manipula o conhecimento a bel prazer

    Não há horas ou minutos – só infinitos segundos

    Mais de meia hora não dura a onda

    Mas que importa a racionalização?!

    Se face à realidade que o ronda

    Cuidados sociais não é preocupação?

     

    Brincar com a lógica é divertido

    Pular o muro do sentido

    Inundar o cérebro de veneno

    A neurotransmissão parece ‘encantamento’

     

    A morte torna-se vida

    A vida torna-se morte

    Até que o jovem escolhe a saída:

    - Sofrer maduro ou destruir a própria vida?

     

    Velho demais para ignorar o mal da coisa

    Jovem demais para ignorar a tentação de desafiá-lo

    Dilema face ao deus Cronos:

    - É tempo de parar? É tempo de matar?

    É tempo de escutar? É tempo de chorar?

     

    Os gritos surdos atormentam

    Consciência moral, superego social

    Desesperança, culpa, falta

    As bases do destino alimentam-se

    - O que estou a fazer?

    - O que está a me acontecer?

     

    O fato perde o significado

    A cultura cobra o resultado

    O jovem entrega-se, assustado

    Diz adeus ao poderio

    Colhe os frutos que produziu

    E o bode expiatório vai pro mundo

    Nunca mais se o viu...



     

     

     

    Enviados em Mar/2010

     

     


    Pedras


    Queria tanto escrever uma poesia, mas às vezes o mundo parece tão desmotivante... É quando me travo e nem reconheço mais a palavra "eu". Tudo de fora é bacana e possui sua lógica honrosa, em detrimento de minha mesquinha interioridade. Geniais são as poesias de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinícios de Moraes... desenho apenas retalhos d`uma idiossincrasia emocionalmente massacrada, deteriorada, irrealizada.


    Parece que cada dia torna-se mais ameaçador quando meu crônico problema mental piora. Considero o pior sentimento a rejeição psicológica aguda. A dificuldade aumenta nas ocasiòes quando também eu me despejo de mim. Aí é certo: causo uma encrenca atrás da outra.


    Pessoas sabem o que penso e debocham de minhas excentricidades? O que penso, minha diferença sabe pessoas? Sou levada pela correnteza de meu cuspe no asfalto.


    Antigamente, apostava em Deus e ensinamentos religiosos que, não fosse o século atual, levariam-me à fogueira pela Inquisição por ser possuída por demônio. Ironia faz a vida, a vida faz ironia?


    Fontes de esperanças e ilusórias benevolências. Hodierno, nomeiam delírio e psicose. Deus morreu, Bíblia é estória pra boi dormir, milagres nunca existiram, pessoas machucam e estão acabando com a Natureza, imbecis. O mundo é cruel, violento, cresci e já não vejo romaticamente o que tentaram impor-me na infância.



    --
    Tania Montandon


     

     

    Enviados em Jan/2010

     

     

    Naturescendo

    Louvando a dádiva de receber à inconsciência

    Energia, dons pra ser o Sol, a lua, o vento, a luz

    Na ilógica coerência que no alento me seduz

    Por ser única e original sua doce imanência

    Espera o Sol em mim aquecer o abstrato

    Inquieta a lua em mim a esconder seu tato

    Desordena em mim o vento a deixar-me inerte

    Inebriando a luz em mim a orar: desperte!

    Se tão pouco há de formosura

    Se tão pouco há de abastança

    Sobra meu ser em alva ternura

    Sabe o mistério que leva uma dança

    O tempo passa e sempre me diz

    A vida é a graça de aprender, tecer

    A malha dos haveres e ser feliz

    Amando a sempre e mais a tez

    Do ser que um dia se desprende

    Do medo e liberta o coração

    Dá a mão e, então , surpreende

    De tão inefável , ardente paixão

    Tania Montandon

     


     

     

    Ainda confio

    Silêncios conectados onde pensamentos

    sintonizados, parecem darem-se as mãos.

    Eu nunca me senti assim antes.

    Perdi o ponto onde errei, olho o firmamento.

    Embora eu sinta a sua graça em coração, nada é com'antes,

    A dor da saudade imensa, do saber a verdade alienante,

    Ver de perto a audácia do que nos tirou do sério

    E ainda confio na tua fidelidade.

    E ainda confio na tua verdade.

    E ainda confio na tua essência branda.

    Mesmo após a intromissão da realidade nefanda.

    Nebulosas dúvidas hoje fazem sentido,

    não que seja o melhor, apenas mais autêntico

    quando indago por que demoramos tanto e, comigo,

    é o teu coração que eu sinto pulsar.

    Agora não é mais a experiência adolescente a se tratar

    É a descoberta da responsabilidade, toda ela.

    Onde entrego-te minhas poucas energias restantes.

    Acreditando no devir, no teu poder de ser feliz.

    E, assim, desarmada, confesso-me apaixonada

    Esperando, confio a ti, a escolha: serei-te a amada?

     

    Tania Montandon

     


     

     

    Coisas do coração

     

    A noite é escura

    E o caminho é, por vezes, espinhoso

    Mas com um gatinho carinhoso

    de alma pura de companhia

    Não há por que não sentir alegria

    Tenho-te no sonho e no devaneio

    Ah...o que te proponho...

    É muito mais que um mero vaguear...

    A distância é meio estranha

    Priva-me de querências

    Nem expressar tenho a manha

    Do substrato de tua essência

    Essa façanha que alimenta

    Toda minha experiência

     

    Tania Montandon

     

     

     

    Vivência
    "Se não vivêssemos perigosamente(...) tremendo a beira dos precipícios, não estaríamos nunca deprimidos, estou segura disto, mas seríamos cinzentos, fatalistas e velhos."
    (V.Woolf in 'Diário")

    Clara como a rosa é a aurora
    Fresca como a brisa a mente que acorda
    O ar frio entra pelo postigo com seu 'bom dia'
    E alegra aquele que sorria

    Os dias são diferentes. A vida é assim:
    enobrece a alma com sabedoria até que decrete seu fim.
    Ensina com maestria a arte de tudo enfrentar
    Pois tanto dores como amores um dia hão de acabar

    A luz de um instante guarda todo um segredo
    Abrir os olhos ou não é escolha de cada um
    Devaneios aleatórios fazem parte do enredo

    A sensação é percebida com mais ou menos apego
    Conforme a disposição e presença de espírito do um
    A viver seu instante com zelo ou com medo.

     

    Tania Montandon

     

     

     

    Tempos Modernos

    A janela do horror abriu-se
    Escancararam-se os males tribais
    O efeito amedrontador surtiu-se
    Entre os velhos e novos rivais

    Agora se conhece o inaudito
    Perpetuam-se as chagas
    Escuta-se o estampido
    Que dispersa a praga

    Luta-se sempre, luta-se mais
    É do instinto a incoerência
    Que sacrifica os demais
    E até a própria existência

     

    Tania Montandon

     

     

     

    Mágica sintonia

    Naquela ornada cama descansavam, fatigados
    Duas almas, numa sintonia transcendente à fala
    Contemplavam Eros naquele sorriso, inebriados
    Na antiga lida de argumentos vãos, a vida se cala

    De que importaria quem esquecera de fechar a porta?
    Na aura quase insana, abstrata, a sensação do êxtase
    Mãos, peles, sentimentos unidos no coração com força
    Um só corpo, duplo, completo a se esquecer a face

    A ondulação sincronizada na dança, hipnotizada
    Reabrindo os poros à toda energia e benévola magia
    Ósculos, doces, vagarosos no deleite sincronizado
    Aquilo que temiam e desejavam, era o que se abria

    Retornam juntos e suavemente à percepção presente
    Quem saberia dizer o que se passou naquela ínfima eternidade
    Silêncio, não cabiam palavras, tudo o mais se sente
    Então o tempo de paz era o destino do casal sem idade.

     

    Tania Montandon  

     

     

     

    Enviados em Dez/2009

     

     

     

    Vozes dizem

    sim, q sou desprezivel nao mereco viver meu lugar eh junto deles mortos sou um demonio e devo me mutilar ou todos sofrerao por minha culpa e q sou medrosa pq nao pego a faca e acabo logo com tudo

    tauã:

    todos sofrem como as vozes agudas dilacerando os ouvidos, toda mudança é dor, lembra da mulher que abraçou os jacarés? eu sei que era ficcional mas oq não é? a faca: talvez acabe com uma parcela, pra acabar com toda dor pode ser necessário muito mais lâmina e muito mais voz...

    Tαиια:

    pra acabar com toda dor, sim, necessata muito mais voz, muita lamina, muita alma, muita coragem, pouca vida e muita morte, um nirvana inexoravel, sem volta ou direito a revolta, uma ida sem vinda, praquele lugar sem espaço ou tempo, desconhecido por todos, temidos por uns, desejados por outros, porem sempre pungente pelo proprio misterio neste desconhecido inerente... e heis q haverei tanta alma ou morrerei covarde com dor, sem honra e dignidade? no arrastar uma subvida imerecida, sem quaisquer utilidades?

    tauã:

    mas será capaz de ir? tocar um sentir inerte, não mais arrastar ou voar, simplesmente flutuar um ângulo de gravitação desconhecido - talvez anti-gravidade? sem espaço ou tempo, não estamos cá rompendo com isso? talvez possamos na dor ver a diminuta pequeneza do acontecimento do nosso corpo, mas, além da faca (cega, afiada) prateada, além do nosso reflexo persecutório, do lado especular do nosso medo, no avesso do espelho, sem osso fogo sangue sopro, no Verbo Não-Conjugado - não nos conjugaremos jamais. Jamais.

    então teria algum sentido, alguma percepção, se deixar tragar agora pelo Reverso deste Pluriverso? mastigue os cacos dos seus espelhos, deixe vir à boca o sangue da tua saliva, do que coleta teu vaso. cuspa tua dor e, semando sangue cuspe carne que pungente lateja, acelere o pulso do mundo.

    ainda nos resta algumas ferramentas, no tempo acordado

    tauã:

    a palavra não é o que nos torna humanos.

    nós nos tornamos. da existência manca, o vislumbre do Ser - do qual fomos ex-propriados, e que nossa pulsão nos leva sempre a querer devorá-lo.

    os antigos astecas chamavam os cogumelos de "carne-de-Deus".

    Tαиια:

    do nada surgimos existindo sem disso saber, sendo um lampejo de vida impulsionado pela necessidade da sobrevivencia e fustigado pela tentaçao de tudo entender e buscar o mais interminavel do ar infinito que nao sacia a fome, a sede porem nos limita na precariedade da breve estada terrena, pretensa humanidade

    tauã:

    acaso não sentes em teus cabelos o Sopro?

    existindo, sem saber, para não saber. existindo para não Ser.

    Tαиια:

    nada existe, apenas o lapso entre o inspirar e o expirar

    tauã:

    e o Sopro?

    não sei da língua, só dos olhos como fenda, amendoados. não sei de libras ou de relações de equilíbrio, só sinto eriçar os cabelos da nuca de tempos em tempos, quando vejo Eles se fundirem e se confundirem n'Ela. Ela me chama, de um modo doce. não sei responder Teu chamado.

    que inunda as narinas com a força cega de existir.

    Tαиια:

    o sopro da fumaça do cigarro que pigarreia nas entranhas da má sina do pulmao entre o que é, intrometido sopro vital sujo me levando pro inevitavel desconhecido devir e agenciando uma historia interrompida no vai e vem das forças q cegam tal dita existencia

    tauã:

    forças cegas que preenchem essa existência, que insistem neste acontecimento, em instâncias subjetivas

    pode se odiar estar cru e se assombrar com as antigas cicatrizes do espírito

    as florestas sussuram segredos tão antigos

    a montanha e a gravidez de Gaia, temos que parir de nós uma montanha

    Tαиια:

    Gaia rejubila-se ante a propria acontencencia nos modernos tempos de caos e abismos subhumanos, no topo de sua montanha brilhante e luzidia, cicatrizada pelos seculos da posterior insensatez incapaz q tem sido de frutificar um monticulo sequer, beirando o precipicio cavado pela estulticie mor da estrela cozida nas trevas de panico de bem suceder a utilizar o breu pra crescer como sabiam bem fazer os antigos. ficando apenas este apetecer nostalgico do injetado e comodamente desperdiçado quebrar de oportunidades

    tauã:

    tudo é fruto, e mesmo o Negro deve ser o fruto d'Ela. não digo de Gaia. mas do Último Útero, PeristálticA, Aquela que, sem olhos, tudo alcança. que crava as unhas fundo nas nossas omoplatas para que venham as asas. está voando por sombras onde a existência humana toda ainda irá despencar.

    vá, e sintas no teu umbigo o ritmo dos que tocam nas pedras

    batucam cores, um ritmo demoníaco numa efusão de vida, um cheiro acre, um corpo podre. ainda assim deuses porque caixas.

    tauã:

    não nos afogamos na dialética judaico-cristã. não me afogo. inundo minha alma de uma escuridão maciça. tácteis seres em tessituras inorgânicas se esvaem quando a pedra se esfarela. a pedra, que aspira e é dom de coagular grãos. da pedra, a areia. do sopro, o fogo - e o suficiente para encher os vasos do Sopro, do Vento que, tempestivamente, nos traga para dentro dA boca, Phe, A Boca que fala.

    a caixa está aberta. a janela é uma construção para ver. lançar o olho e dele se perder numa amálgama de figuras, agarrar a pata da rã, ouvir no coaxar os espocares bruscos da caixa craniana.

    voar pode ser menos interessante que flutuar...

    não é estoicismo, não é judaísmo cristianismo budismo. não é karma, tampouco dharma.

    não é a palavra não, não é palavra e tampouco humano.

    não é coisa, não é asa, não é vento, não é sopro.

    não é pedra, não é osso, não é grão e nem osso.

    não é falta, não é abundância, não é fome ou saciedade.

    não é fraqueza nem plenitude. nem macho nem fêmea. nem deus nem quimera.

     

    Verbo Não Conjugado, não é palavra, muito menos verbo. não é auxílio para nosso conhecimento encaixotado.

     

    um sapo transbordando entre as frestas, não é mais verde, já é cinza.

    ao cair a noite, ele se indaga se houve dia.

    não duvida do sol, não duvida da luz.

    só ouve o Longe, que lhe canta versos pluriversais.

     

    olha as estrelas, se sente de uma beleza diminuta, incômoda beleza frágil como o único vôo da vida de uma borboleta.

     

    não é feliz, nem triste: é belo seu cantarolar insatisfeito. busca somente.

     

    Longe, Ouvir.

    Longe, o Ver.

    Pernas que se atem ao menstruo, que suguem de volta o sangue coagulado.

    Tαиια:

    ismos que perseguem o ente desfigurado na insana lida do nao saber de si, dolorosa feialdade insignificante comandando a vontade q nao deveria e jorrando restos de carniças putrefatas das partes inanimadas q compoem este jazer sem ser, sem dizer, palavras sem asas, sem falta, sem busca na inercia da podridao da angustia, privada, inexoravel, pungente a incitar a doente a se mutilar, rasgando a pele, derramando o fluxo de sangue repugnante esperando a lenta e em seculos nao vinda morte fim de tudo e dos maus augurios, alivio almejado a quem nao pode ser amada, honrada, dignificada, nada nada nada

     

    assim é

    assim foi

    assim choro

    a solidao sem canto

    no canto, invesivel

    perecivel mas nem tanto

    tanto tanto tanto

     

    vão este que apodera e descarta tal melancolico ocupador de mundo alheio, indesejado, preterido, marcado, sofra verme no corpo q nao lhe pertence e solte o espirito adjacente para a chama, a cama, a lama, ama-a!

    tauã:

    ninguém ceifou da carne o verso secretado. quem veio colher das mãos que não haviam as estrelas suicidas? o sapo que, de morrer, se fez passos, se fez pântano, se fez mato. o verbo já conjugado. que de seus mapas, conhece tanto - as palavras, os sons e seus lugares: ali, no galho, uma cigarra - noutro, um pássaro. cantos.

    gralhas esgoeladas num sem fim de devorar vísceras. urdindo um pano para dentro. regurgitando o secretar, aquilo que se furta à cor das penas.

    porque pálida, a estrela mais distante.

    ninguém ceifou do Sol sua pele mais íntima.

    ninguém trouxe do átomo, do repuxo de seu abismo, do vazio de sua imagem - a Figura;

    Ela jaz o sono de todos, veio colher do meu pomar fruta madura, suco escorrendo pelas minhas costas.

    devorei todos os espelhos, os cacos que se plantaram na minha garganta. babujando sangue e saliva e lágrima, gritei que Ela havia me matado. e então morri. e pálpebras tremulando luz de vela, pude vê-lA. antes de comer meus olhos, pude tocá-la. ao voltar, cego, pedi que me guiasse

    ao voltar, cego, pedi que me guiassem entre obstáculos. colhi das flores, seu podre titubeante. colhi das cicatrizes o filete de pétala nova, recolhi à carne a água que meu vaso despejou Àquela que sem olhos sonha um eu, vaso. plantar nas omoplatas. não porque Dor, mas porque trevas. banhei-me do escuro de Tua pele. agora, nutro dias insones.

    Tania:

    o verso, atrevido, criou-se por si ou por carencia romantica na falta racional por nao saber fazer-se prosa, uma rosa que , imaginada, sonhada, desejada a ser colhida na mais brilhante estrela do sentir, à espera do principe que lhe toque os labios e desperte o adormecido calor ardente de paixao transbordante, desviante da moral ceifada no universo da razao.

    o desfalecer de nao aguentar tao doce afeto, palida, distante do concreto, a queimar no Sol, astro rei imperioso, impondo vida, cantarolando a cantiga do amor, divino magico que da figura sapo se fez espaço no tocar da intimidade dessas subjetividades jovens, pequenas, aprendizes, suicidas descobrindo o veu do partilhar e plantar, urde a seiva do mel, meu, teu, nosso olhar para o céu, sem nada dizer, apenas contemplar a mansidao das maos dadas, deite tua cabeça nos meus ombros e sinta, sinta, sinta, consinta, banhando nos prazeres diletantes, disertantes deste vaso de ternura infinda.



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    Tania Montandon
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    Teoria da personalidade conforme Alfred Adler

    por: Tania Montandon

    Alfred Adler nasceu de uma família de classe média em Viena, em 1870, e morreu na Escócia em 1937. Foi um dos fundadores da Sociedade Psicanalítica de Viena e depois seu presidente. Não demorou muito para que começasse a desenvolver idéias que divergissem das de Freud. Formou, então, seu próprio grupo, denominando-o grupo do sistema holístico da psicologia individual.

    A abordagem criada por Adler compreende as pessoas como sendo totalidades integradas dentro de um sistema social. Sustenta a motivação do homem como sendo fundamentada pelas solicitações sociais. Para Adler, o homem procura contato com os outros, empreende atividades sociais em cooperação, põe o bem-estar social acima do interesse próprio, adquirindo um estilo de vida que é, predominantemente, orientado para o meio externo.

    Adler manifesta uma preocupação biológica, tanto quanto Freud e Jung. Freud enfatiza o sexo, Jung os padrões primitivos de pensamento e  Adler o interesse social.

    Adler cria alguns conceitos muito importantes para a psicologia da personalidade:

    Selfcorresponde a um sistema altamente personalizado e subjetivo que interpreta e tornam significativas as experiências do organismo. É criador, unitário, consistente e soberano na estrutura da personalidade.

    É algo que intervém entre os estímulos que agem sobre a pessoa e as respostas que ela oferece. O homem constrói  sua personalidade com a matéria-prima da hereditariedade e da sua experiência. O self criador dá sentido à vida; cria tanto o ideal como os meios de atingi-lo. É o princípio ativo da vida humana.

    Estilo de vidacorresponde ao princípio do sistema pelo qual a personalidade funciona; é o todo que comanda as partes. É o princípio que explica a singularidade da pessoa. Cada pessoa tem um estilo de vida e não há dois iguais.

    Todos têm o mesmo objetivo, a superioridade, mas há inúmeras maneiras de atingi-lo. Toda conduta de uma pessoa tem origem em seu estilo de vida. Este forma-se na infância, por volta dos quatro anos de idade e, daí por diante, as experiências são assinaladas e utilizadas de acordo com ele. É uma compensação para determinada inferioridade.

    Luta pela superioridade corresponde ao objetivo superior do homem na sua luta contra os obstáculos: ser agressivo, poderoso superior.

    “Superioridade é algo análogo ao conceito de self em Jung, ou ao princípio de auto-realização de Goldstein. É um esforço da personalidade no sentido de completar-se. É ‘a força que arrasta para cima.’” (Hall & Lindzey)

    Todas as funções do homem seguem a direção da luta pela superioridade, que é inata, é um princípio dinâmico preponderante – uma luta pela plena realização de si mesmo.

    Inferioridade e compensaçãohá a inferioridade orgânica, pois, para Adler, cada região do corpo apresenta uma inferioridade básica, inferioridade essa que existe em virtude de herança ou de alguma anomalia do desenvolvimento.

    Depois Adler ampliou o conceito, incluindo quaisquer sentimentos de inferioridade, tanto os que decorrem de incapacidades psicológicas ou sociais sentidas subjetivamente, como os que se originam de fraqueza ou deficiência física.

    No princípio, Adler correlacionava a inferioridade com feminilidade, cuja compensação ele chamou de “protesto masculino”. Os sentimentos de inferioridade decorrem de um senso de imperfeição em alguma esfera da vida. Adler afirmava que os sentimentos de inferioridade não são indícios de anormalidade; são a causa de todo melhoramento na vida humana.

    Sob condições normais o sentimento de inferioridade ou um senso de imperfeição é a grande mola propulsora da humanidade. O homem é impulsionado pela necessidade de superar sua inferioridade e arrastado pelo desejo de ser superior.

    Interesse socialcorresponde à verdadeira e inevitável compensação pela natural fraqueza dos seres humanos. É quando a luta pela superioridade torna-se socializada.

    Adler acreditava que o interesse social é inato; que o homem é uma criatura social por natureza e não por hábito. Contudo, à semelhança de qualquer outra aptidão natural, esta predisposição inata não surge espontaneamente. Ela torna-se atuante quando orientada e treinada.

    É esse interesse social inato que motiva o homem a subordinar o interesse pessoal ao bem-estar comum.

    Finalismo de ficção Adler descobriu a idéia de que o homem é motivado mais pelas expectativas do futuro do que por suas experiências do passado. Esses objetivos de ficção eram, para Adler, a causa subjetiva dos acontecimentos psicológicos.

    Adler identificou a teoria de Freud com o princípio da causalidade e sua própria teoria com o princípio do finalismo.

    “Só o objetivo final pode explicar   a   conduta humana.” (Adler, 1930)

    Esse objetivo final pode ser uma ficção, isto é, um ideal impossível de realizar-se mas que é, não obstante, um estímulo real para o esforço humano e para a explanação última de sua conduta. Adler acreditava, contudo, que a pessoa podia libertar-se da influência dessas ficções e enfrentar a realidade quando necessário, o que o neurótico é incapaz de fazer.

    Conclusão

    Adler interessou-se, especialmente, pelas espécies de influências que predispõem a criança para um defeituoso estilo de vida. Descobriu alguns fatores importantes, como as crianças com inferioridades, as crianças mimadas, as crianças rejeitadas.

    As crianças com enfermidades físicas e mentais sofrem muito e têm tendência a se sentir deficientes face às solicitações da vida. Em geral, consideram-se fracassadas. Se, porém, tiverem pais compreensivos e encorajadores, poderiam compensar suas inferioridades e transformar sua fraqueza em força.

    Muitos homens famosos começaram a vida com deficiências orgânicas, que depois superaram. Constantemente, e com veemência, Adler levantou sua voz contra os males da superproteção; pois, para ele, esse é o maior castigo que se pode impor à uma criança.

    As crianças superprotegidas não conseguem desenvolver sentimentos sociais; tornam-se déspotas, à espera de que a sociedade se conforme com seus desejos egoístas. Adler considerava  isso danoso à sociedade.

    A rejeição também produz conseqüências desastrosas nas crianças. Maltratadas na infância, tornam-se adultas inimigas da sociedade. Seu estilo de vida é dominado pela necessidade de vingança.

    Essas condições – enfermidade orgânica, superproteção e rejeição  – produzem concepções errôneas sobre o mundo, resultando num estilo patológico de vida.

    Bibliografia

    -          REIS, MAGALHÂES, GONÇALVES – Alfred Adler e a  psicologia individual, cap.3 In: Teorias da Personalidade, ed. Pedagógica e universitária ltda., São Paulo, 1984.

    -          HALL, LINDZEY – Teorias culturalistas: Adler, Fromm, Horney e Sullivan, cap.4 In: Teorias da personalidade, ed. Pedagógica e universitária ltda., São Paulo, 1973.


     

     

    Desabafo


    Sinto-me enojadamente imprestável. Exalo preguiça, meu humor está breu. Preciso atividade, só que é hora de dormir. Sinto-me chata, feia, lerda, cadê minha identidade? E ainda há panacas dizendo que anti-depressivos são pílulas da felicidade... de quem?! Deve ser de quem não toma! A única certeza que tenho é que se eu tivesse alguma droga pesada comigo agora não contaria até três para usá-la... Sou tão instável enquanto no mundo as coisas parecem ser as mesmas. Tudo acontece, porém o sentido é sempre o mesmo, continuar funcionando. Preocupação é besteira transitória engolida e triturada pelo tempo. O objetivo mor é o desapego... material, social, carnal, corporal, emocional, total... utopia!

    Penso que as coisas estão todas sempre do mesmo jeito. Não há o que temer. Paradoxalmente, sinto tanto medo... de viver, de morrer, de sofrer... Embalde tento descrever meus sentimentos, a maneira como me percebo viva. Inútil escrita, inútil fala, tão distantes de minha pretensão, faltam códigos linguísticos pro meu relato. Sejam quais palavras eu utilize, parecem pequenas e poucas, imprecisas e mortas, ineptas pro discurso do meu desejo. Que eu caia, por isso, na implosão perfeita do silêncio, que exploda de mim o imperfeito dito, a palavra que me denuncie onde não quero ou nem suporto, contudo que seja expressão deste ente sem outro recurso que o torne humano, seja como for.

     

     

    Enviados em Nov/2009


     

    A felicidade é simples

    por Tania Montandon

     

    Pela primeira vez resolvi escolher o título do que estou a escrever antes de o fazer. Por quê? Vários fatores me vêm à mente, entre eles o velho clichê que escrever pra ajudar com dicas e conselhos é coisa de quem quer chamar a atenção, ensinar a tal  "auto-ajuda", a classificação do único tipo de livro que nunca me foi de auto-ajuda de fato, ao contrário de tantos outros considerados pessimistas, depressivos, desaconselhados aos temperamentos mais sensíveis, os polêmicos, os censurados, os marginalizados, os imorais, os ousados, inovadores, "perigosos"… Outro fator seria o dos conceitos e valores para temas e palavras abstratas que, por mais que se destrinche, nunca se chega a consenso pela inerente condiçã o humana de ser impossível que todos valorizem por igual tudo, pensem o mesmo, vivam uma mesma história e conheçam as mesmas culturas.


    Felicidade, você saberia definí-la? Provavelmente poderia pensar uma concepção desta palavra que satisfizesse a sua subjetividade e talvez outras ou muitas, dependendo de suas habilidades linguísticas, familiaridade com a inter-comunicação, empatia, capacidade de percepção e expressão, etc. Mas certamente não conseguiria cria um conceito aceitável para todos. Isso é complicado? Alguém com quem conversava a respeito me disse que sim. Para mim é tão simples! Assim como o que é complicado para um é simples para outro, o que é felicidade para um não pode ser infelicidade para outro?


    Ser presidente de uma grande naçao do Primeiro Mundo(se é que alguém ainda entende essa obsoleta expressão), ter poder de decisão sobre a vida e a morte de milhões de pessoas, ter o poder de manter o conforto de "seu" país à custa da destruição veloz , assustadora e global do meio ambiente, clima e natureza, suponho que isso seja a "felicidade"de uma pessoa. Sim, precisa ser uma pessoa aquém dos valores humanos mais nobres, talvez alguém que precisasse de mais vidas para conseguir aprender mais sobre as coisas triviais e ordinárias do cotidiano em detrimento de uma paixão descontrolada pelo extraordinário, pela tentativa de descobertas sublimes que lhe dessem aprovaçao social, sem saber que esse instinto de um pouco de insatisfação e busca constante por algo faz parte de todos os seres humanos e a aprovação alheia de muitos não garante a auto-satisfaçao e realização, provavelmente mais a afasta e esconde onde menos se procura: dentro de si.

     

    Sabe? Na verdade, alguém realmente me provou que a felicidade pode sim ser simples e atingida com muito poucos recursos. Um grande amigo ensinou-me que viver feliz é viver por inteiro no presente, sentir tudo que sem esquiva, aceitar a dor com humildade e resignação de quem sabe que não controla muita coisa mesmo. Viver feliz é alegrar-se como as crianças pequenos quando a sensação aparece e acolhê-la no momento, sem preocupações, ressentimentos, sem apego a passado e futuro. Um grande amigo ensinou-me que ser feliz é precisar de pouco, vibrar com cada oportunidade de contato com a natureza, os sorrisos, a ternura, o conforto, tolerar os momentos em que nada disso está disponível e , mais forte que tudo isso, ser feliz este grande amigo ensinou-me que está mesmo na difícil e simples habilidade de conseguir amar, compartilhar, estar presente em momentos significativos, sejam de prazer ou dor, entregar-se com ingênua confiança à devoçao de um outro ser desejando-lhe o melhor, aproveitando e valorizando sua companhia, completamente sem outro interesse que não o simples desejo do compartilhar e buscar momentos de alegria.

     

    Também sei que, assim como o que este meu grande amigo tanto me ensinou e provou tocou-me de uma maneira que não há como ter sido igual com a mais ninguém que o conheceu, o que escrevo aqui também não tocará as pessoas por igual. E, com certeza, se eu começasse dizendo que este meu grande e melhor amigo é meu cãozinho Billy, com quem convivi em média quinze horas por dia por mais de sete anos e que morreu atropelado na última quinta-feira, a leitura teria sido diferente, com "velhas opiniões formadas sobre tudo", ou que todos que perdem um cachorro passa pelo mesmo e demais clichês.

     

    No entanto, não escrevi pra ser aprovada por muitos, escrevi pra aliviar meu coraçao e mente, pra colocar pra for a pra quem quiser ler, comentar ou criticar. Escrevi por mim, para vocë, numa confissão que gostaria de alguma compreensão e na esperança de que, alguém que leia, possa dizer algo do que pensa pra compartilhar comigo, assim como, vulneravelmente, compartilho aqui minha mais profunda intimidade, na imprudência das almas sensíveis de fazer isso nos momentos de maior fragilidade, quando menos o deveriam.

     

    Mas digo que sim. A felicidade é simples, pros poucos que a sabem distinguir e captá-la, e transbordo em gratidão por tão sublime ensinamento vindo de um ser com tão poucos recursos e , misteriosamente, tanta humanidade que parece faltar em "humanos" de espécie! Obrigada, Billy!

     


     

    Devaneiando-se às quimeras mais reais, tomando distância das sensações materiais e regozijando-se então da tersa posição de derrisão, escarninho das tragédias fatais. Com o espírito desvinculado do corpo carnal, assiste aos próprios desesperos e se espanta com o alvoroço por tão mundanas perecíveis futilezas.

    Enleiando-se no processo com intrepidez e certa dose daquele gozo sofredor inato do qual ainda não conseguiu desemarnhar-se, engolindo raivas, mágoas, hostilidades, digerindo-as e, ao final dejetando-os; sente o peso e a aspereza daquelas ripas perpendiculares que lhe marcarão o corpo, a morte, a existência, a imortalidade da meta última.

    Desgosto inquietante estiolando o mínimo orgulho que motiva tal criatura a inspirar cada molécula de ar. Irrevogável energia despendida no auto trucidamento desanimador, auto-compaixão comparável à estupidez maior.

    Inapreensível certeza mórbida de energia desenlaçada, entrecortada por jatos populares proporcionando fincadas dolentes de pressão desmedida em pontos hipersensíveis.

    Desesperança pesando desproporcionalmente sobre as costas de uma vida que se viu enjeitada, sufocada, desambientalizada no espaço menor, viés do acaso malquisto, tempo doído do curso vivido.

    Descaso cabal do mínimo esteio que ainda enxergava. Fantasia explode do quero a morte, minha sorte! Células imperfeitas, espírito excêntrico repugnante afugenta belas expectativas divinas. Deus errou, humano existe que não concorda, dispensa tudo pois não tem mais como dar corda. Conta pesada a do lutar, cada vez mais está menos a compensar. Projetos de auto-extermínio entram em ação – falta de opção.


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    Tania Montandon

     


     

    Meu pai, meu Orgulho

    por Tania Montandon

    Como poderia homenagear a referência exemplar de minha vida se esta é a própria homenagem à minha vida?


    Pai, tu te lembras quando me apertou com força contra seu peito quando saí morrendo de frio da piscininha e disseste que eu poderia contar contigo até debaixo d’`água? Naquela época em que eu parecia um ratinho e ficava tão quentinho no teu colo enquanto meu queixo batia e a boca roxeava? Eu lembro. Hoje não diria que posso contar contigo debaixo da água, mas fora dela, tenho provas incontáveis de que sim, eu posso. Já debaixo da água, aproveito pra dizer que tu podes contar comigo, fica mais coerente, né ?


    hehe, brincadeiras à parte, o que é um pai, qual sua função, o que significa um pai para uma filha? A escola tentou me dar essas respostas, a religião tentou, a vida tentou... Mas as respostas que encontrei e que adotei somente as pude perceber dentro de mim, do meu coração, das minhas memórias, de todas as vezes que perdi o fôlego de emoção compartilhada contigo, todas elas, das melhores às piores. Importante mesmo foram todos nossos momentos juntos, rindo, chorando, jogando, trocando idéias, aprendendo e, por vezes, até ensinando.


    Pai, tu sabes que foste meu primeiro professor? Sabes que continuas a ser meu herói, meu ídolo, cuja vida e história tanto me orgulham e fazem-me sentir que sou privilegiada? Quem tem um pai baiano que é sempre pontual, que cresceu na miséria descalço, estudou, trabalhou responsavelmente e administrou tão perfeitamente o ambiente em que viveu que conseguiu dar aos filhos o que nunca teve chance de ter, vivenciar, experimentar, deu todas as oportunidades a seu alcance para que os filhos tivessem educação digna, aprendessem o que quisessem, brincassem até não poder mais na verdadeira infância feliz e inesquecível? Quem tem um pai que se dispôs a levar seus filhos pequenos todos os anos em aventuras longínquas e de cultura diferente para que sua prole pudesse conhecer, conviver e visitar, muitas vezes, os avós, tios, primos, ainda que economizasse todo o ano pra proporcionar esses encontros e outros divertimentos que, para si, não era tão agradável, mas o que não fez este homem pra ver os filhos pularem de alegria, viajarem, conhecerem praias e tantos lugares? Bom, é verdade que nem todas as noites atendeu aos pedidos de contar histórias, estas tão melhores que quaisquer outras, pois eram improvisadas na hora e mostravam o mundo em que foi criado, com fazendas, onças, macacos, passarinhos...


    Pai, tu te lembras quando esteve presente nas festas da escolinha do primário, nos meus aniversários, nas ocasiões mais importantes de minha vida, no dia em que ganhei meu primeiro troféu de tênis, no exame de faixa do tae kwon do, no lançamento do livro que muito sonhei e você o fez tornar-se de sonho à realidade e também quando mais precisei, lá debaixo do oceano, do outro lado do globo? Eu lembro! Por tudo isso e muito mais, agradeço com todo o amor que transborda de meu coração querendo tanto mais agradecer sem saber como.


    Pai, nunca poderei retribuir como mereces tudo que fizeste por mim, porém ao menos preciso que saiba que reconheço tua dedicação, as superações de tuas limitações e tanta ternura , segurança, conforto, cultura me propiciaste.


    Obrigada , papai, por ser o melhor do mundo! Desculpe por não ser tão boa filha como mereces!


    “Quase todas as histórias de sucesso e de fracasso já foram vividas por alguém. O que muda são os nomes das pessoas, o lugar e a época.”

    (Carlos Prates, colaborador do Jornal O Rebate)


    Meu pai, numa única vida, viveu inúmeras vitórias, fracassos, experiências indescritíveis em várias, épocas, lugares e com todas as emoções possíveis.


    Por isso digo com convicção: - pai, sinto muito, não posso te homenagear, tu és a própria encarnação do que conheço como homenagem à minha vida.

    Com amor,

    Tania

     


     

    Gestalt – Terapia

    Por Tania Montandon

    O Modelo Gestáltico surgiu a partir do trabalho do casal Perls, de início  com uma finalidade terapêutica prática focada na cultura dos EUA. Depois perceberam que precisavam apoiar essa prática sobre uma base filosófica e observaram que as reflexões e modo de pensar que moviam tal prática sintonizavam bem com o modelo fenomenológico. O termo Gestalt é de origem alemã e relaciona-se com forma, configuração do todo. Refere-se à idéia de que nada é fixo em absoluto e nada é movimento em absoluto. A idéia preconiza que o todo é sempre maior que a soma das partes, pois possui o espírito do todo. O ser humano, para não cair na tentação de se iludir, precisa estar sempre atento para considerar os dois lados de sua percepção e não a idealizar ou desqualificar demais. É preciso articular e organizar as partes sem perder a referência do todo.

    O paradoxo existencial corresponde à angústia inerente ao ser humano provocada por seu alvedrio. O homem possui a atraente capacidade de escolher o que fazer ou não, mas para toda escolha que faz necessita responsabilizar-se pela repercussão de suas conseqüências, pois toda liberdade carrega uma carga de responsabilidade e, por isso, angústia. Por exemplo, quando um bebê nasce ele é completamente dependente dos cuidados maternos. À medida em que se desenvolve, conquista autonomia e liberdades, mas também adquire cada vez mais responsabilidades. Um jovem, quando arruma o primeiro emprego, fica extasiado por sua independência financeira e pela importância de uma ocupação útil à sociedade; no entanto, também fica assustado com o peso dessa responsabilidade e pressão para administrar bem seu salário e sua vida. Uma pessoa doente perde um pouco de liberdade devido à limitação imposta pelo distúrbio, porém pode sentir-se aliviada de certa forma por não precisar preocupar-se com tantos problemas e pressões sociais.

    A função social do excesso é a de iludir a pessoa com a sedução da facilidade de se sentir protegida e garantida, confortada e acomodada com alguma certeza que não ameaça qualquer risco de perda justamente por ser excesso, não acaba. Também pode ser visto pela ponta da falta, excesso de falta. O excesso gera ilusão e vice-versa. A pessoa está iludida quando toma a parte do conjunto como todo e considera apenas um lado da relação. Onde há excesso há falta. Se numa relação há excesso de opressão de um lado, por outro lado há falta de respeito e consideração. Onde há muita dominação e coação, falta cooperação, co-construção e colaboração. Na relação em que predomina disputa de poder, há excesso de competição e busca de auto-afirmação; provavelmente também falta auto-referência e auto-estima, pois o primeiro Outro da pessoa é ela mesma. Se não se consegue se estimar, como vai querer estimar outra pessoa? A ‘política da certeza’ e do excesso na sociedade é favorável a um pequeno grupo de pessoas, detentora dos meios de comunicação, da maior parte da riqueza e poder produzidos pela população.  Assim, essa minoria consegue manter a maioria alienada da realidade social e iludida pelas receitas prontas e fáceis oferecidas na esquina para resolver os seus problemas.

    *Escrito em Março de 2001



     

    ARQUÉTIPOS – TEORIA ANALÍTICA- JUNG

     

    Algumas palavras de origem científica ou filosófica, talvez pela importância ou apelo popular que carregam, acabam ganhando grande popularidade e, como consequência, muitas vezes seu significado torna-se confuso ou diferente daquele que lhe foi inicialmente conferido. A palavra arquétipo (de origem grega - archétupon , "original, modelo, tipo primitivo") é uma delas. Todavia, dada a extensa história dessa palavra no campo da filosofia, nosso intuito é precisar o significado central que o pai da Psicologia Analítica , o suiço Carl Gustav Jung (1875-1961), lhe dedica. Segundo Jung, os arquétipos "são as partes herdadas da psiquê, são padrões de estruturação" e organização do imaginário psíquico, "são entidades hipotéticas irrepresentáveis em si mesmas e evidentes somente através de suas manifestações". Jung compara o arquétipo ao sistema axial dos cristais que determina a estrutura cristalina na solução saturada sem possuir, contudo, existência própria. No entanto, embora arquétipos sejam confundidos com imagens ou temas mitológicos definidos, é através de uma ou mais imagens que ele é reconhecido e revelado. Ou seja, imagens ou motivos mitológicos são apenas representações conscientes de um arquétipo.

     

    Qual seria a origem dos arquétipos ? De um lado, argumenta-se que resultariam do depósito das impressões superpostas deixadas por certas vivências fundamentais, comuns a todos os humanos, repetidas incontavelmente através de milênios. Vivências típicas como as emoções e fantasias suscitadas por fenômenos da natureza, pelas experiências com a mãe, pelos encontros do homem com a mulher e da mulher com o homem, vivências de situações difíceis como a travessia de mares e de grandes rios, a transposição de montanhas, etc. Por outro lado, eles seriam disposições inerentes à estrutura do sistema nervoso que conduziriam à produção de representações sempre análogas ou similares. Do mesmo modo que existem pulsões herdadas a agir de modo sempre idêntico (instintos), existiriam tendências herdadas a construir representações análogas ou semelhantes. Esta segunda hipótese ganha terreno nas obras mais recentes de Jung. Seja qual for sua origem, o arquétipo funciona como um nódulo de concentração de energia psíquica. Quando esta energia, em estado potencial, atualiza-se e toma forma, então temos a imagem arquetípica. Entretanto, não se pode denominar esta imagem de arquétipo, pois o arquétipo é unicamente uma virtualidade.

     

    A noção de arquétipo, postulando a existência de uma base psíquica comum a todos os humanos, permite compreender por que em lugares e épocas distantes e distintas aparecem temas idênticos nos contos de fadas, nos mitos e ritos religiosos, nas artes, na filosofia, nas produções do inconsciente de um modo geral - seja nos sonhos de pessoas normais, seja em delírios de loucos.

     

    Uma extensa variedade de símbolos pode ser associada a um arquétipo. Por exemplo, o arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como Afrodite , Virgem Maria ou Yemanjá ) e símbolos de apoio e nutrição, tais como Gaia , a Igreja e o Paraíso. O arquétipo materno inclui aspectos positivos e negativos, como a mãe boa, a fada madrinha ou a mãe má, ameaçadora e dominadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto negativo do arquétipo estava cristalizado na imagem da velha bruxa. A figura da madrasta ou da sogra também são representações mais recentes desse arquétipo.

     

    Os arquétipos são as estruturas do que Jung denominou de inconsciente coletivo . Assim como temos uma herança biológica, Jung propõe que nascemos com uma herança psíquica. Ambas são determinantes essenciais do comportamento e da experiência do ser humano. Ele diz que "…exatamente como o corpo humano representa um verdadeiro museu de órgãos, cada qual com sua longa evolução histórica, da mesma forma deveríamos esperar encontrar também, na mente, uma organização análoga. Nossa mente jamais poderia ser um produto sem história, em situação oposta ao corpo, no qual a história existe. Jung postula que a mente da criança já possui uma estrutura que molda e canaliza todo posterior desenvolvimento e interação com o ambiente. Ele é constituído não por aquisições individuais - e nisso se difere radicalmente do inconsciente pessoal - mas por um patrimônio coletivo da espécie humana. Assim como o ar, o inconsciente coletivo é o mesmo em todo lugar, respirado por todos e não pertencendo a ninguém em particular.

    abraços,

     

     

    Tania Montandon

     



     

    Da loucura, uma parte


    Nossa cultura é paranoizante. Ensina que se deve desconfiar até da própria sombra.

    "Todo conhecimento é paranóico." (Lacan)

    Se, quando chegamos a uma conclusão por nosso raciocínio, não teimássemos que temos razão ainda que pareça estranho e diferente para as outras pessoas nenhuma ciência se desenvolveria. Se Freud não fosse teimoso e um pouco paranóico a Psicanálise não teria sido criada ou descoberta por ele. É apenas o excesso que caracteriza a insanidade, algo mais pra quantitativo que qualitativo. No entanto, um mínimo de desconfiança, paranóia serve como proteção no mundo atual, pois não se pode confiar em tudo e em todos. A diferença está na intensidade da convicção, não na qualidade do pensamento. Ou seja: não me é possível concordar com a teoria das estruturas imutáveis de perverso, psicótico e neurótico. Contudo percebe-se nitidamente funcionamentos de modos diversos entre os classificados como neuróticos, psicóticos etc. São nuances subjetivas e peculiares do psiquismo funcionar, até hoje extremamente misterioso e desconhecido amplamente. Eu, como ser, o que sou? Um monte de matéria agregada lutando contra certa entropia através de minha "escrevidão"? Vivo por um ideal de sociedade transcendente a minha existência, o que também poderia ser nominado lunatismo, e este projeto ideal rejeita a desigualdade, a discriminação, a injustiça desavergonhada, a imbecilidade dos corruptos governantes e poderosos. Mas eis que sonhos e ideiais são incompatíveis com a concretude da realidade, que absurdo!

    "É preciso ser Werther ou nada" (Camus)

    Bleuler pensava que o delírio era secundário a perdas de significações e símbolos em termos mentais. Penso: como essas perdas começam a se manifestar antes do delírio? O pensamento desorganiza, foge toda hora, os fatos perdem a ligação entre si, a associação entre signos e significados torna-se fraca..., ocorre um ensimesmamento progressivo, isolamento social até que se desliga da realidade social.

    "Gosto daquele que sonha o impossível" (Goethe)




    A história de Clarissa Dalloway, personagem de Virgínia Woolf, parece uma novela. Pura descrição de pensamentos e algumas falas. Especulações de pontos de vista diferentes. V.Woolf encarna com seriedade seus personagens e é muito boa nisso. Dá a impressão de que viveu mais na ficção literária que na realidade. Ela se suicidou com quase sessenta anos de idade, mas tinha cabeça de jovem imatura no cotidiano concreto, embora conseguisse criar sábios e uma deversidade de personalidades em suas histórias. Possuía muito conhecimento, embora sentisse estranheza e perplexidade com sua vida.



    "Tel est la vie des hommes: quelques joies très vite effacées par inoubliables chagrins... Il n'est pas nécessaire de le dire aux enfants." (Marcel Pagnol in "Château de Ma Mère)






    Sou um tempo desregrado
    A prescrutar os vãos do dia
    Costurando sons e lembranças
    Sonhos estranhos, elaborados
    Fazendo brilhar a tênue magia
    Das miúdas esperanças
    Resto do universo acabado
    Matéria reduzida a energia
    Voltando a ser criança
    Brincando de fantasia


    "É monstruoso dizer-se que o artista não serve pra humanidade. Ele sempre é o transcendentalista que passa a raio X os nossos verdadeiros estados de alma." (Anais Nin)

    De fato,da chuva de ilusões desta máquina capitalista a nos moer não há como esvair-se com integridade autêntica, sejam comunistas, professores, benfeitores, falsários, publicitários, artistas. A redenção mostra-se inatingível, mas a batalha é necessária, dura e ingrata. Não há realidade paralela a não ser a da solidão desesperada e exaustiva do surto psicótico, e assim o é na vida, na arte, na morte.

    por: Tania Montandon

     



     

    Psicanálise e Fracasso Escolar

    A criança, antes de possuir uma mínima aptidão para a leitura e escrita, já possui uma escritura em seu inconsciente. Esta referindo-se à inscrição de uma marca do impossível de se saber, quando ocorre o recalque primário e é formado o Aparelho Psíquico. Essa perda primordial, da possibilidade de se saber sobre tudo mostrará à criança o real da falta, a castração, o Outro é castrado. O que importa na formação de sua personalidade é o modo como ela vai encarar esse saber a menos, que, segundo Freud, gira em torno do mistério da morte e do sexo.

    O caráter da criança constitui-se como o efeito de como esse sujeito experimenta a curiosidade sexual. Quanto mais indagações, melhor o prognóstico. Mesmo que nunca se vá obter respostas completas, é interessante e saudável o perguntar. Freud descobriu que a curiosidade sexual antecede a intelectual. Mas não pode ser satisfeita toda, gerando o fracasso das investigações infantis. A maneira da criança lidar com esse fracasso, aceitando-o ou recusando-o, influenciará em seu desejo subsequente de saber mais, de conhecer. Há, portanto, estreita relação entre saber, desejo e conhecimento. “As perguntas intermináveis das crianças são verdadeiros circunlóquios que vêm em substituição a uma pergunta que a criança nunca faz.”(Freud)

    Inibição, sintoma e sublimação correspondem às vicissitudes que a pulsão toma frente ao fracasso nas investigações sexuais infantis.

    Na inibição, o sujeito evita a angústia conscientemente não exercendo a função(no caso, a função intelectual). Há uma restrição da função. Evita-se novas formas de recalcamento. A criança mostra-se indiferente ao aprender, parece que não há desejo, não aprender não é problema para ela. O acesso ao desejo não ocorre sem angústia. Na inibição o sujeito evita angústia a todo custo, então parece não haver desejo. É uma defesa psíquica.

    Já no sintoma, a função é exercida. A atividade intelectual existe, embora seja distorcida e não livre. Há o retorno do recalcado, que é incosciente. A função é erogeneizada inconscientemente. A representação emerge de forma distorcida através dos mecanismos de deslocamento e condensação pelo processo primário. O sintoma corresponde a um enigma, uma referência clara ao inconsciente. O conteúdo recalcado é associado à atividade intelectual emergindo como um sintoma - por exemplo a compulsão por pesquisa. Profissionais percebem, na clínica, que um sujeito com inibição quando começa a suportar certa angústia produz sintoma. Este é o mais fácil de ser trabalhado, pois já há certa aceitação de angústia, a qual é inevitável em qualquer aprendizagem.

    A sublimação é a vicissitude mais saudável por não possuir qualidade neurótica. O sujeito apenas desvia a curiosidade sexual para outra curiosidade (intelectual, artística, atlética…). É a melhor saída para a pulsão.

    Grande abraço,

    Tania

     



     

    canção paradisíaca

    aspiro com delicadeza
    a suave brisa que passa
    e instiga agudeza
    do espírito que relaxa

    sentindo intensamente
    a morna temperatura
    dádiva do ambiente
    onde tudo se cura

    correnteza de esperança
    atravessando a pele
    como pureza de criança
    que esta a zele!

     



     

    só não posso evitar…

    vivo e morro todo dia
    pouco a pouco, é garantia
    na vigília, no sono e na fantasia
    às vezes penso nessa parceria

    arte, sonhos, produções
    enigmas, calafrios, emoções
    como me atrai a abstração
    e sinto pertinho o coração

    que levada sou
    brincando de pensar
    no que ninguém ensinou

    essa ousadia é diversão
    sei que só posso ignorar
    e perigar no caos da desrazão

                ….só não consigo evitar…

     



     

    QURESSENNTE!…

    quero gente!
    quero Natureza!
    um "eu" contente!
    e todo franqueza!

    gente boa, crescente!
    Natureza pura, in natura!
    sem mágoa, decente!
    madureza nua, "eu" na dura!

    eu madura, c’a gente boa
    c’a dureza que sua
    e frutifica de pura

    eu, gente, nós, que doa
    não há nósque a gente
    não desate, contente!

     



     

    sensação

    lampejos de volúpia
    incendeiam a alma
    como um átomo escandido
    como um mundo na palma
    como um célebre ruído
    prenunciando um cataclismo

    frocos de energia esparsa
    colorindo o meio vital
    movimentando o canal
    produzindo estradas
    imaginando potenciais
    para um paraíso caudal
    hipóstase experiencial

     



     

    Reflexão sobre o filme BARAKA

    trailer do filme (2 minutos)

    O filme transmite idéias sobre o que acontece em todo o mundo, a diversidade de raças, crenças, comportamentos, culturas em geral. Mostra aspectos existentess no islamismo, no budismo, no cristianismo e no judaísmo. Há a presença dos quatro elementos básicos da Terra: fogo, ar, terra e água.

    Percebe-se a evolução do ser humano, a criação da cidade grande, acarretando uma sociedade cada vez mais competitiva. Há várias contradições relativas ao desenvolvimento da inteligência humana, vista que o homem torna-se capaz de produzir obras fantásticas, contudo ignora graves problemas ecológicos, a fome, a luta pela sobrevivência...

    Como exemplo, uma árvore que leva cerca de cem anos para se desenvolver é destruída em um minuto pela serra elétrica. O ser humano abusa de seu poder natural destruindo inconsequentemente a Natureza.

    É no mínimo curioso como uma espécie tão dotada de inteligência divide restos de alimentos de um lixão com vira-latas e ratos.

    No Japão, a mentalidade obsessiva por trabalho e progressos tecnológicos mecanizam as pessoas e reprimem suas emoções, justificando talvez seu maior índice mundial de suicídios.

    O progresso é importante e fundamental para o desenvolvimento e satisfação dos indivíduos, pois estes estão sempre em busca de algo mais para melhorar sua qualidade de vida, para ter um sentido pra prosseguir, criar, procriar. No entanto, além de criar é mister preservar as riquezas naturais e ficar alerta para que não acabem ou o processo de evolução sucumbirá.

    Tania Montandon



     

    A linguagem inserida na cultura humana


    No decorrer da história da humanidade, o homem desenvolveu suas faculdades psíquicas. Esses progressos no desenvolvimento psíquico se fixaram e são passados de geração para geração sob uma forma material exterior e não de forma morfológica ou biológica. Essa forma de acumulação e de transmissão de experiências deve o seu aparecimento à atividade humana fundamental: o trabalho.

    Quando nasce, o indivíduo já encontra pronto vários trabalhos, realidades transformadas pela atividade de gerações. Porém, o processo de desenvolvimento da prática sócio-histórica não é imediatamente percebido pelo sujeito. Para que o aspecto humano dos objetos seja percebido pelo indivíduo, ele tem que exercer uma atividade efetiva, adequada em relação a eles.
     
    Isso aplica-se igualmente aos fenômenos objetivos ideais criados pelo homem, tais como a língua, aos conceitos e às idéias, às criações da música e das artes plásticas.
     
    A criança não é apenas colocada diante do mundo dos objetos humanos. Para viver deve agir adequadamente neste mundo; condição deste processo de assimilação, de apropriação ou de aquisição. A comunicação constitui a segunda condição inevitável
    do processo de assimilação pelos indivíduos dos progressos do desenvolvimento sócio-histórico da humanidade.

    O que nos animais resulta da herança biológica, no homem resulta de uma assimilação, isto é, um processo de hominização do psiquismo da criança.
     
    Os animais não tem linguagem sonora articulada e não conhecem a música, criação da humanidade. Apenas o ouvido humano discerne os sons verbais e musicais.
     
    O desenvolvimento mental da criança é bem diferente do desenvolvimento ontogênico do comportamento nos animais. Desde o nascimento, ela é rodeada por um mundo objetivo criado pelos homens, até mesmo os próprios fenômenos naturais são encontrados pela criança nas condições criadas pelos homens. Ela não se adapta ao mundo dos objetos e fenômenos humanos que a rodeam, apropria-se dele.
     
    A diferença no processo de adaptação, no sentido em que esse é empregado para os animais, e o processo de apropriação é que a adaptação biológica é um processo de modificação das faculdades e caracteres específicos do sujeito e do seu comportamento inato, modificados pelo meio; e a apropriação é um processo que tem por resultado a reprodução pelo indivíduo de caracteres, faculdades e modos de comportamentos humanos formados historicamente.
     
    O processo de apropriação é feito através da comunicação prática e verbal com as pessoas que rodeiam a criança. Esta aprende o que o adulto ensina.
     
    Os animais não dispõem de um modo de expressão com as características e funções da linguagem humana. As abelhas apresentam um modo de se comunicar, transmitindo mensagens para as companheiras, através de danças e rituais gesticulados. Apesar de haver uma comunicação de mensagens, a transmissão é um código de sinais que não chega a ser considerado linguagem. Esta é fundamentada por um sistema simbólico, sendo o símbolo um signo arbitrário, que só se justifica por convenção. Não tem ligação direta com a coisa a que representa. O que age nos sistema simbólico, na linguagem, é a compreensão, e não a ação efetiva.

    Já na utilização de sinais ou índices, que ocorre entre os animais, não há uma compreensão ou transcendência da experiência, apenas a ação efetiva. O animal é condicionado a agir de determinada forma todas as vezes que receber um determinado sinal.

    Até mesmo as abelhas, que possuem uma forma avançada de transmissão dos sinais, não conseguem simbolizar, devido à imutabilidade do conteúdo de suas mensagens, à incapacidade de retransmitir uma mensagem já efetuada, além de suas mensagens não poderem ser decompostas em partes que possam ser estudadas e reorganizadas de diferentes maneiras, como acontece com os fonemas e morfemas da linguagem humana.

    A psicolinguística é uma ciência criada para estudar a língua como um objeto de estudo próprio, integral e concreto, pois não se pode repartir o objeto de estudo. De outra forma, poderia-se ter física da linguagem, química da linguagem, etc.

    A linguagem é essencial à sociedade humana. Ela é individual e social. Individual porque cada um constrói a sua fala. Social porque a fala é contruída segundo um conjunto de convenções da sociedade. O que há de social na linguagem é a língua, que representa a transmissão de experiências subjetivas a outros sujeitos através da fala.

    A linguagem intermedia a realidade do homem com a realidade do mundo. Através dela, podemos sair do plano individual e nos inserir no plano social. Isso ocorre da seguinte maneira: como a experiência em si não é comunicável, precisamos transcendê-la e abstrair o necessário para a representar e a transmitir utilizando o sistema simbólico. Essa capacidade é específica do ser humano. Assim, torna-se possível falar de situações da ordem do não ser, como o passado e o futuro. O passado que são experiências que não existem mais na realidade, e o futuro é aquilo para o que ainda não existe realidade.

    Assim como a linguagem, o tabu do incesto é exclusivo do ser humano. Muitas são as explicações dadas ao problema do incesto, no entanto, elas são insatisfatórias, pois não conseguem explicar a ambigüidade da proibição.

    Uma dessas explicações é a biológica, cuja finalidade é evitar que os filhos nasçam ou se tornem degenerados. As prescrições mais positivas que mais freqüentemente encontramos nas sociedades primitivas ligadas à proibição do incesto são as que tendem a multiplicar as uniões entre primos cruzados e, por conseguinte, a união entre primos paralelos.

    A humanidade não conhece os perigos ,desde sempre, das uniões consangüíneas. A biologia é de desenvolvimento recente, de forma que o conhecimento científico não pode ser projetado no passado da humanidade para se explicar a proibição do incesto, cuja a obediência é universal no tempo e no espaço.

    Uma outra explicação é a psicológica. Essa baseia-se na repulsa instintiva do incesto. Aliás a psicanálise chama a atenção para o contrário do que afirmam os defensores dessa explicação, já que ela mostra a universalidade não na repulsa frente às relações incestuosas, porém em sua procura. Na realidade, toda a explicação psicológica acaba por conduzir-nos à fenômenos de psicologia individual.

    Uma outra explicação para a proibição do incesto é  a sociológica. Tal explicação tem algo em comum com a psicológica, ou seja: ambas procuram reduzir um dos termos da antinomia.

    Uma explicação social da interdição baseia-se na civilização totêmica Australiana. Nesta última o grupo se considera descendente do animal totêmico, havendo em conseqüência uma obrigação de respeitar o sangue de tal animal, que não pode ser caçado, pois em caso contrário o sangue do grupo seria derramado.

    Lévi-Strauss mostrou a fraqueza e as contradições das três maneiras segundo as quais a proibição do incesto foi considerado. Para sua explicação satisfatória, consiste em deixar a análise estática para empreender uma síntese dinâmica, uma vez que sua origem não se encontra nem na cultura sozinha nem unicamente com a natureza, e muito menos numa soma confusa de ambas.

    Com efeito, a proibição do incesto acaba por constituir-se em condição da cultura, mas conservando da primeira sua universalidade, ao mesmo tempo em que tem da segunda, seu caráter de regra.

    A interdição forma então aquele ponto crucial do limite entre natureza e cultura, não sendo portanto uma união estática.

    Os pontos de vista de Lévi-Strauss, Monod e Marx, que falam sobre a origem da cultura complementam-se de alguma maneira. Lévi-Strauss exigiu um estudo das transformações do cérebro para se entender a gênese da cultura (a sociedade constituindo-se através das relações de parentesco); ele estava traçando um programa que foi cumprido pelo estudo de Monod, que deduziu a qualidade humana e a linguagem dos Australantropos do fato de que usavam instrumentos (a linguagem, estabelecendo a comunicação das consciências e a acumulação dos saberes); deixando assim uma abertura para as teses de Marx (a produção, possibilitando a satisfação das necessidades e a circulação e a apropriação dos bens).

    Sendo assim, pode-se dizer que a cultura é simultaneamente criatividade e comunicação: criação coletiva e socialmente realizada; criação de elementos materiais e espirituais para serem comunicados, de forma que pela comunicação uma maior criatividade possa surgir. Os circuitos se ampliam e as mensagens se enriquecem através da história. A cultura não podia ter começado sem ter uma natureza humana, com a comunicação de consciências, de bem e de vidas que a caracteriza.

    por: Tania Montandon

     



     

    Contraste


    Membro fantasma percebido realmente
    Pois tua mete disfarça no presente
    Tal inexorável perda passada
    Supondo tua existência fantasmada

    Aberração outra é aquela do fulano
    Possui o membro e o carrega adjacente
    Porém constrói para si um engano
    Só percebe como braço uma fria longa serpente


    Esquema corporal, uma realidade subjetiva
    Abstração representante que se tenta compatível
    Ao acesso objetivo ao concreto adquirido

    Percepções difusas de um mundo falado
    Intercessão da linguagem no funcionamento
    Oportunando falhas no entendimento

     



     

    Teoria do caos- não é só um elemento, é a estrutura cultural.
    Por: Tania Montandon

    O caos do trabalho na sociedade do espetáculo

     

    No inicio, o individuo preocupa-se com o salário (necessidade física), depois passa a ficar focado para os cargos, status. Em qualquer organização há jogo de poder, o que determina quem ganha o quê. É muito desagradável a situação de um empregado que sabe que ganha mais e o outro que sabe que ganha menos. Afinal, como funciona a questão do salário na instituição, como ele é inserido na empresa? Por que um indivíduo ganha X ou Y?

    O que se diz ser atualmente a pós-modernidade, expressão até engraçada, como se a velocidade tivesse chegado ao ponto de nos colocarmos numa sociedade do futuro (pós), pois a modernidade se modernizou tanto que pediu um apelido pra se diferenciar. Pois é, vivemos no futuro, sempre atrasados, milhões de informações a adquirir, “updates” de “gadjets”, mulheres, carros, linguagem, bares, viagens e por aí continua…

    O que significa modernidade? Bom, estar atrasado por se viver o presente em detrimento da moda de se viver no “futuro” e estar sempre “updatado”? Talvez o apelido alta modernidade seja um pouco mais coerente, não?!

    Toda mercadoria sustenta-se por dois valores: o de uso e o de troca. O capital sustenta-se pelo valor de troca, status, fetiche da sociedade. Por isso gera tanto mal-estar, insegurança. O valor de uso é praticamente inexistente no mundo do capital.

    A força de trabalho é vendida por um salário, que deve ser sustentado por um valor de mercado. O cálculo ocorre pelo valor de troca, o dominante. Como isso tudo funciona?

    Primeiro não se deve descartar todas essas mudanças profundas que vêm ocorrendo ou correndo no trabalho, nas relações, sexualidade, família, subjetividade e demais instituições vigentes.

    Lembremos os principais processos de mudanças, tendências, realidades…

    - Globalização da economia; a Era da Biologia; o triunfo do Indivíduo (este passa a ser o valor supremo, acima de qualquer coisa); o Renascimento das Artes; a Liderança das Mulheres; a Nova Sociedade de Serviços; a Nova Era do Lazer; o Envelhecimento da População Ativa; a Década do Cérebro; o Nacionalismo…

    Subversão de valores:

     

    . 1 - Auto-realização, imediatismo

    ↑2 - Status, aparências, fetiches

    ↑3 - Função, resposta à Demanda Social

    ↑4 - Segurança- financeira, espacial

    ↑5 - Necessidades fisiológicas

    - O novo comportamento no ambiente; o fim da profissão; novas qualificações; exigência de ampliação do conhecimento e informação; a necessidade de atualização permanente; baixa da qualidade de vida com vistas à quantidade; busca incessante e exageradamente ansiosa de aperfeiçoamento pessoal e conseqüente aumento do julgamento crítico e cobranças por vezes de fazer tombar de tanto rir ou chorar…

    Resultado? A produção do ser humano revolucionário, perdido no meio de tantas instituições reacionárias. Isso tudo mexeu com o fundamento da economia, implicando uma mudança radical na vida. Tudo se encontra pronto, porém caro, o consumo cresce assim como a demanda social de novas qualificações, ampliação do conhecimento e informação. O padrão de vida esperado é muito elevado, o povo não consegue pagar por essa qualidade de vida. Assim, a economia torna-se volátil, movimenta demais, criando toda a insegurança da perda da profissão, o imperativo de nunca poder cessar a aprendizagem. Surge, consequentemente, o “famoso” stress, depressão, transtornos de ansiedade, crises existenciais sobre qual o sentido da vida. As pessoas perdem qualidade de vida e passa a buscar apoio na espiritualidade, no aperfeiçoamento pessoal ou se refugiam no álcool, drogas, antigos hábitos nada construtivos…

    A violência aumenta, assim também a população carcerária, a insegurança, a fragilidade e desconfiança dos indivíduos em todas as relações humanas. Se o capital não tiver ética, o resultado provável beira o fim do mundo. O que fazer com isso agora?

    Muitas vezes o sujeito disciplina suas pulsões, energia, através da arte para se contemplar o mundo naquilo que não há valor de capital, não se troca, porém o deixa próxima à Natureza, a sua natureza humana de não ser perfeito, robô, da percepção de que por mais que conquiste nunca atingirá o ideal imposto e introjetado pelas informações em torrentes e falta de tempo pra parar, pensar, refletir, curtir a própria companhia, conhecê-la… Pimp! Uau! Eu também sou gente, não trocaria este momento de paz e completude por dinheiro ou emprego algum. O que fiz com minha vida? Deixei que pensassem por mim, decidissem o que é o melhor porque a maioria o faz? Logo eu, que tanto critico a sociedade, estou subsumido por ela e ensinando, cobrando assim dos meus filhos. Não, não preciso de tanto, meus filhos nunca pediram brinquedos nas datas de festa e nem assim… -Pai, o presente que eu escolhi foi ter você torcendo por mim no campeonato de futebol da escolinha quinta depois da aula. Pode? Puxa, eu achava um pouco estranho porque ele poderia pedir video-games ou o que quisesse, apenas disse claro, é “só” isso? …

    Hoje não se tem tempo para sentir de verdade a vida, a família, colocar de fato os sentidos pra funcionar. Tudo gera em torno da mercadoria, insegurança, mal-estar. A mídia põe medo nas pessoas o tempo todo. Não é mais sociedade industrial, agora é a sociedade de serviços. Necessita-se trabalhar muito e ter boas férias. À medida em que parte da sociedade enriquece, perde-se a habilidade social. A solidão domina. As faces estão mais frágeis, desconfiadas até da própria sombra.

    A criatividade, a imaginação, a vontade de mudar, inovar requer coragem, mas compensa com a grande abertura que ficou para os poucos que aproveitam a pouca concorrência nesse setor. “O perigo que o homem moderno sofre é pensar sobre a modernidade.” (Giddens)

    Entendendo um pouco sobre o funcionamento da economia social que não se explica na TV, porém se impõe sutilmente, podemos notar a importância e objetivo do que se chama, atualmente, Desenvolvimento Organizacional(D.O.). No próximo!

    → sugestão de leitura: http://www.touteleurope.fr/fr/observatoire-europe/europe-en-idees/ouvrages/le-nouveau-modele-europeen.html?xtor=EPR-10 (artigo)

    • livro: Le nouveau modèle européen (Anthony Giddens)

    -outros: http://www.amazon.fr/exec/obidos/search-handle-url/403-9374811-7326815?%5Fencoding=UTF8&search-type=ss&index=books-fr&field-author=Anthony%20Giddens

     



     

    Profissionalização do escritor brasileiro
     
     
    Um bom tema para um livro: o que é ser escritor num país cujo desempenho contra o analfabetismo é pior que 72% na América Latina e pior que 55% no mundo? Vista que a posição relativa do Brasil em termos da taxa de analfabetismo é bem pior do que a sua posição relativa em termos de renda per capita. De fato, as mesmas estatísticas das Nações Unidas revelam que apenas 34% dos países do mundo têm uma renda per capita maior que a brasileira. O mesmo fenômeno ocorre na América Latina, onde apenas 28% dos países têm renda per capita maior que a brasileira. O Brasil é um caso diferente, cujas causas remetem à colonização e acomodação à subserviência. Até alguns anos atrás ainda se manifestava a indignação de forma argumentativa, muitos eram presos, injustiçados porém lutavam pelo seu direito de dignidade e educação adequada.

    O império da mídia e a facilitação da sensação de prazer imediato oferecida pelo avanço geométrico da tecnologia contribuíram para a conveniente alienação e banalização do que precisa de esforço homérico sem qualquer reconhecimento ou retorno proporcional. O século XXI é de um povo perdido de si, vazio, sem conteúdo, sem base, que evita qualquer aprofundamento e reflexão pra não sofrer a angústia de tomar consciência do enorme caos atual. A futilidade reina como nunca! Ainda fica a imposição: goze, seja feliz, está reclamando do quê, você passa fome?

    Eu canso de falar pra minha família parar de rezar pra dar pão a quem tem fome e sede de justiça a quem tem pão, pois estou ''desidratando''...

    "O importante do ponto de vista de uma
    educação libertadora, e não "bancária",
    é que, em qualquer dos casos, os homens
    se sintam sujeitos de seu pensar, discutindo
    o seu pensar, sua própria visão do
    mundo, manifestada, implícita ou explicitamente,
    nas suas sugestões e nas de
    seus companheiros" (Freire, 1987).

     


     

    Rondel:
    Papai Noel,

    Esperei por todo um ano
    Pra ter direito a meu pedido
    Não quero muito não
    Apenas um beijo cândido

    Que inspire dois corações
    Ao ar livre saltitando
    Esperei por todo um ano
    Pra ter direito a meu pedido

    Duas almas em sintonia
    Cantando, sorrindo, vibrando
    Uma nova chama de alegria
     Esperei por todo um ano

     


     

    Milagre – Só Pra Quem Crê
     
    Como não crer na recuperação de alcoólatras?
    Pois se tão facilmente
    E por motivos tão mais brandos
    Jesus não transformou água em vinho?!
     
    Então é só convidá-lo à reunião
    De pessoas crentes na recuperação
    E pedir-lhe, humildemente, no cerne da fé
    Que transforme, por favor,
     
    O vinho deturpado
    Abusado por nós, insensatos
    Em água simples, sem sabor
    Como há de negar o Salvador?
     
    Mil'águas só pra quem quer!
    Salve a Grande dor
    Oh Grande Salvador!
    Esteja conosco em nossos atos

     


     

    Opinião, Não Abro Mão
     
    As dores da alma são ferozes
    Grandes energias tornam-se algozes
    Se a corrente humana não for forte
    E, de mãos dadas, gentes construírem fortes
     
    Há quem diz intangível o Bem universal
    Creio-os enganados
    O Bem é tangível, tocável, muito afável
    Pois ele está nos humanizados
     
    Todos eles, diferentes, semelhantes
    Concorrentes, compartilhantes
    José, Maria, Joaquim, Bonfim
    Seres tangíveis, sentimentais, lidando com seus fins
     
    Assim creio meu Deus
    Tão concreto em carnes e ossos
    Deus é dos "eus"

    Abstrato no amor e nos esforços
     


     

    Dores...
     
    Há tempos fui ferida no cerne de meu ser
    Os anos passam, mas não apagam
    As marcas de estragos
    As dores em trapos
     
    Quero morrer agora
    Chega de sofrer
    Não suporto a demora
    Dum infinito envelhecer
     
    Pior que viver
    É ser desprezada, ignorada

    Pior que odiar
    É não poder amar

    Pior que se ferir
    É sentir culpa por existir

     


     

    O Gigante Dos Meus Temores

    O Sol zombeteiro entra pela grade da janela
    Esquentando as mágoas impertinentes
    Ah! Se eu tivesse a Palavra, só Ela
    Curaria meus anseios intransigentes

    Diacho! Estou aqui e respiro
    Este ar poluído e macabro
    Só dissabores inspiro
    O coração nunca mais, nunca mais abro

    Plangente aura nociva de desafeto
    Invade um mundo num troar indiscreto
    Deixa o espírito sem defesa à obsessão
    Dos mais nefastos demônios em junção

     


     

    A goiaba de papai

    Estávamos papai e eu ao léu, no quintal de casa, quando aquela perfeita vistosa madura grande goiaba do pé do vizinho invadiu atrevidamente o desejo alimentício frugal de papai. Seus olhos vibravam... produzindo faíscas de brilho, sombrancelhas arqueadas, a saliva transbordando.

    A lembrança de sua meninice campesina, as inúmeras vezes em que se esbaldou e empanturrou-se, trepado em frutuosos galhos de variados vizinhos, resgatou-lhe a nostalgia, a sensação da perda de tais joviais prazeres abandonados pelo destino.

    Fitou-me, viajante e desejoso. Eu, então garotinha urbana e ingênua, extasiada em ver no rosto de papai tamanha alegria infantil causada pela preciosa frutinha, não pude evitar oferecer-lhe uma compreensiva emulação:

     - Realmente, papai! É uma goiaba linda e apetitosa!

    Não precisou de mais. Papai, afobado:

     - Está no ponto para se arrancar. Se esperar mais apodrecerá.

    Olhou para a churrasqueira encostada ao muro que dá para o vizinho e a goiabeira, olhou para mim, olhou para a amadurecida goiabinha e soltou uma doce proposta:

     - Quem sabe se a gente puser a cadeira sobre a churrasqueira e você, filhinha esperta do papai, sobe e apanha a danada. Que tal?

    Na inocência de minha primeira década de vida e na confiança de que papai sabia de tudo, coloquei a bamba cadeira sobre a churrasqueira de tijolos e a galguei em busca da bichinha.

     Tchibum!!!

    A cadeira escorregou da churrasqueira, eu escorreguei da cadeira e caí dentro da impiedosa assadora de carne. Um de seus ferros pontudos rasgou-me a carne da perna num só golpe surpreendente.Uma só questão saiu-me boca a fora:

    - Papai, vai ficar marca? Vai ficar marca?

    Quando vi o sangue saindo pela nova fresta, produzi aquele berreiro! Está doendo! Ai! Papai doía-se em nervosismo, desespero e condolência. Correu carregando-me para o hospital, aquele vento era tão doloroso...; e após uma hora de escândalos e suores, o curativo estava feito.

    Enfaixou-me quase toda a perna. Foram uns quatorze pontos. Quando mamãe chegou do trabalho, eu estava com uma perna toda enfaixada brincando de bambolê.

    O mais interessante foi que, na semana seguinte, fui ao quintal e vi a goiaba toda podre caída da árvore.

     -Mesquinha ela, não?

     

    Tania Montandon

     


     

    Canção Paradisíaca

    aspiro com delicadeza
    a suave brisa que passa
    e instiga agudeza
    do espírito que relaxa

    sentindo intensamente
    a morna temperatura
    dádiva do ambiente
    onde tudo se cura

    correnteza de esperança
    atravessando a pele
    como pureza de criança
    que esta a zele!

     



    Do sentido

    Do sentido da conduta
    De viva astúcia e brilho
    Que a ciência não escuta
    Não se põe lúcida no trilho

    Do sentido da história
    Que perfaz cada trajetória
    Da arte finita do mover-se
    O que liga os interesses?

    Do sentido da mente
    Ínclito poço de habilidades
    Poder saber que se sente
    Que se liga potencialidades

    Do sentido da vida
    Do mistério e da energia
    Que fascina e arrepia
    Que se conhece só a ida

    Do sentido da alma
    Da coerente comunhão
    Intuição que acalma
    O desvario da razão

    tania

     



     

    O poeta

    É sina de poeta,
    costume de época
    ou mal de quem sente o mundo
    no fundo e profundo âmago
    de ser do meio um frágil asceta?

    Aquele que observa
    nas selvas de pedra
    mil faces encobertas

    De dores e amores
    que de fato os introjeta
    e os expõem na frase singela

    Na qual o homem vê aberta
    Sua caixa preta e secreta
    E tenta fingir não a conhecer
    E tenta rir por perceber
    Quantos vãos há em seu ser
    E seu intelecto nem pôde esconder

    Aquele que não vê sentido no capital
    Não vê juízo no cabedal
    E lhe custa tanto comer um animal

    Aquele que se doa às letras
    Desapega-se do íntimo anseio
    Tentando inventar estrelas
    Que brilhem de humanidade no seio

    É todo aberto e vulnerável
    Às dores e às feridas
    Que o Real tem de implacável
    Ao fechar as saídas
    Para o delicado corpo irrecuperável

    Que doença é essa
    Que afeta tantos poetas?!
    que lhes deixa sem esperas
    De todas aquelas promessas
    Que só muitos anos podem dar festas?

    by: Tania Montandon

     



    Imagens e Arte desta página por Lenya Terra

     

     

    Crianças...
    por: Tania Montandon

    Sentada na calçada, descalça e esfregando os olhos com as mãos sujas de terra, chorava, chorava, chorava por horas a fio a garotinha que parecia ter por volta de cinco anos de idade. Não, não era uma criança abandonada, espancada ou perdida. Estava bem em frente a sua casa e deixando os irmãos, pai, mãe, tios, primos, desorientados sem saber o que tinha acontecido e já tinha passado um bom tempo e nada da menina se cansar do choro sentido. É verdade também que a pequena já era famosa nessa área de manhas e choros. Então uma tia, a mais impaciente, andando de um lado para o outro da casa, decidiu que resolveria a situação. Sua testa não parava de suar de tanto caminhar pra lá e pra cá. Nessa época os refrigerantes e chocolates eram um luxo muito raro e somente oferecido em ocasiões especiais. Porém, essa tia impaciente trabalhava na fábrica de guaranás e sempre tinha prestígio com a garotada porque ela que distribuía os doces e refrigerantes nos aniversários e demais festas. Nesse dia, por impulso e contrariando as regras, pegou um guaraná pequeno, furou a tampa lavada, enfiou um canudinho e levou pra menininha chorando. A garota na mesma hora parou de chorar, soluçou, pegou a geladinha guaraná agradeceu e começou a beber. Ufa!!! Todos, antes contrariados, deram os parabéns para a sabida tia e até as outras crianças nem ficaram com ciúmes pedindo pra elas também, tamanho era o estresse geral na casa. Todos voltaram a rir, conversar e esperavam que ao terminar o refrigerante ela estaria de volta dentro de casa. Para a surpresa geral, a molequinha terminou calmamente seu guaraná, colocou-o ao lado com cuidado para deixar a garrafa em pé, lambeu os beiços e disparou a chorar mais alto que antes. Pronto! A confusão dentro da casa recomeçou, uns queriam ir lá gritar e mandar calar a boca, mas a maioria não deixou, afinal era uma criancinha pequena e claro que tinha suas razões pra tanta choradeira. Como o tempo não passava, os ponteiros do relógio pareciam congelados e os berros não diminuíram, o jeito foi usar a arma infalível, a carta que sempre se tem por baixo das mangas para emergências como essa. Foi a vez da tia mais adorada da criançada, porque ela era muito compreensiva, paciente e tinha muito carisma. Sentou-se ao lado da menina, tentou um cafuné e quase caiu pra trás com a altura que o berro chegou. Tudo bem, resolveu conversar. Puxa, você deve estar sentindo muita dor, coitadinha da sobrinha mais linda da titia. Quem ou o que foi que fez essa barbaridade com a minha princesa? Por que você está chorando? A menininha fez uma cara meio assustada, engoliu o choro, soluçando e com a face lambuzada de lágrimas, suor, terra e guaraná e foi se acalmando. Então, ainda soluçando alto, olhou para a tia e disse: nã...glup...o...n~.glupão..glup...não...glup..s..glup...seglup...sei..glup

     



     

    Queixume

    Sofro da voz que não me dita:
    - Deves fazer isto e não aquilo...
    Sofro da liberdade bendita
    Que não deixa meu erro tranquilo

    Sofro da dor que não escolhi
    Aquela que me impuseram com força
    Sofro dessa dor pela qual agradeci
    E agradeço ainda pela moça dor

    Sofro do desalento de usufruir
    Desse presente doído
    O qual agarro pra não escapulir

    Sofro desse esforço de viver comigo e contigo
    Sofro pelo malogro soberbo de querer retribuir
    O dom de ter consciência e ter nascido

    Tania Montandon

     



     

    FIM

    Para tudo há sempre um fim
    O que começa há de acabar
    Como o toco d’um cigarro
    Ou a tinta da caneta

    Mas que fim há para tudo
    Quando tudo é tanta coisa
    Tanta coisa numa só
    Numa só frágil consciência?

    Abriram a janela d’uma vida
    Muitos ares entraram, poucos saíram
    Viveu-se folguedos subvertidos
    Até o varar da última brisa

    Dispersas luzes fizeram a festa
    Dançaram e zombaram como bonecas
    De todos mistérios da janela
    Que findaram na morte dela

     

    Tania Montandon
    Publicado no Recanto das Letras em 06/10/2008
    Código do texto: T1214599

     



     

    Pesada Barra

    Que desespero é viver!
    Sem controle do dia, da noite
    Da fome, da raiva
    Da euforia, do sofrer

    Nasci errada
    Errada, erro por aí
    Cresci surrada
    Pela agonia de existir

    Pudera sentir paz um dia
    Uma pacífica segurança benévola
    Não sei o que é isso, todavia
    Nem aposto na possibilidade – incrédula

    Não quero mais ser eu
    Já não tenho vida que valha
    Nada que usufruto é meu
    Nem gosto deste cabelo de palha

     

    Tania Montandon
    Publicado no Recanto das Letras em 09/08/2007
    Código do texto: T599726

     



     

    Sentimento sublime


    Verde esperança do teu sorriso
    Abrindo as portas do meu espírito
    Singelo olhar da tua meiguice
    Abrandando o que é difícil

    Marcas geladas de depressão
    Provocam gélido encolhimento
    Mas o fogo do teu ser ao vento
    Já aquece meu coração

    A vida desaponta
    Mas dá muitas voltas
    Quando penso não dar conta
    Lembro-me de tuas respostas

    Se hoje fosse pedir um presente
    De imediato já diria:
    - Ter-te ainda presente
    já é maior que a alegria