
Flag. aquarelado Tenini - Será o "sorello"?
UM RECADO PARA SÃO PAULO.
Quando decidi ir à Vicenza, numa segunda-feira em que meus colegas iriam visitar Assisi, pensei que difícilmente voltaria à Itália, portanto, não poderia perder aquele momento para ir à cidade de onde vieram meus antepassados. Ninguém quis deixar de ir à Assisi e visitar a famosa Basílica de São Francisco para ir à Vicenza , então tive que ir só para apreensão dos demais colegas.
Mas tomei o trem em Veneza e deveria voltar no mesmo dia para encontrar o resto da turma para voltarmos à Firenze.
Não contava que durante a viagem haveria uma baldeação, mas mesmo assim não me perdi porque estava atenta a tudo.
No primeiro trajeto da ferrovia perguntava detalhes da viagem aos vizinhos de banco. De repente, um homem de cerca de 60 anos , baixo, modestamente vestido, perguntou de onde eu era. Disse ser do Brasil. “ Mama mia” disse ele, o irmão dele havia imigrado para cá e há tempos não mandava notícias para a família. Ele chegou a me dizer o nome do seu “sorello” mas não lembro mais. Disse que o irmão estava em São Paulo e queria que eu desse a ele um recado: de que todos o amavam e que queriam notícias dele. Falava tão convicto de que eu daria o recado que eu não conseguia convencê-lo que o Brasil era muito grande e que São Paulo era maior que a Itália e que dificilmente poderia encontrar o “sorello”...
Desceu em uma estação bem antes de Vicenza e do lado de fora do trem me abanava, com os olhos cheios de lágrimas pedindo que eu dissesse ao seu “sorello” que tinha muitas saudades dele e que mandava um “bacio”...
Fiquei emocionada e aflita porque sabia que jamais conseguiria dar aquele recado tão importante e desesperado do homem que queria encontrar seu irmão.
Até hoje, a sua imagem ficou gravada na minha memória me abanando, enquanto o trem partia de uma estação do vêneto na Itália.
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AS AULAS NO LORENZO DE MEDICI
A chegada ao Instituto Lorenzo de
Médici, onde faríamos o curso de extensão em Pintura, fomos
recebidas na Secretaria por pessoas que falavam em inglês.
Perguntamos se ali não se falava italiano, ao que nos
responderam que um grupo de americanos (artistas) haviam comprado o
Lorenzo de Medici, portanto não era mais uma escola de arte
italiana.
Isto revolucionou a grupo, a maioria não
sabia inglês.
Outro detalhe, para a matrícula tivemos
de nos submeter a uma prova de Desenho de Modelo- Vivo.
Das 21 artistas , apenas 5 foram incluídas no curso
avançado de Arte. Felizmente fui uma delas.
Dali para
frente tivemos de assistir aulas diárias das 9 às 18 h , com
interrupção ao meio dia de uma hora. Usávamos os restaurantes
da proximidade que eram populares.
A professora era
irlandesa e só falava em inglês, então, eu pedia poucas vezes
auxílio para não me enrolar. Assim mesmo, quando pintava um
músico francês que posava para nós , ela chegou perto de mim e
comentou –“Blue? “ Olhei para ela e lasquei azul em volta dos
olhos do retratado que era negro de pele...
Só muito
depois que me dei conta que ela achara que eu pintara o músico com
um ar de tristeza. O tal “blue” era
triste...
Mesmo assim nosso pequeno grupo das 5
selecionadas para o curso de extensão, conseguimos sair bem das
tarefas e entendíamos a explicação da Mestra, que se chamava Elyse
Schonwood, uma excelente artista irlandesa.
Á noite,
soubemos que a Direção do Istituto ia ver e tirar fotos dos
trabalhos que estavam sendo executados para colocar no nosso
currículo do Lorenzo de Médici.
Em todas as aulas,
começávamos desenhando modelos-vivos e só depois é que passávamos
para a Pintura. Diziam que se tratavam de exercícios de
descontração dos movimentos da mão. Ouvimos dizer que na
Europa, nos cursos de Arte este exercício é diário e leva uma
hora.
Aqui, os alunos de arte passam direto para a
Pintura e uma grande maioria nem sabe desenhar...
Mas
haviam artistas de outros países no nosso grupo, constatamos
americanos, ingleses, alemães, uma turca e uma
mexicana.
Quadro: Músico francês- ret. em óleo
s/tela
Tenini
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VERNISSAGE
Tenini
De repente,
ali estavas,
sedutor e iluminado,
numa aura tão brilhante
que percebi a Vésper no teu olhar.
E, tão próximo estavas
que eu podia, enfim,
alcançá-la ( pensei...)
Mas estática e embevecida fiquei!
Então,
vi a Vésper mergulhar no
meu cálice de vinho
ao partires
pela porta envidraçada ...
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Quadro: ARRIVEDERCI, VICENZA! óleo s/tela Tenini
LA GROTTA AZURRA
(A
GRUTA AZUL).
Não pretendo
exibir-me mas apenas relatar algumas passagens da minha vida , como
artista que sou e que relembro com carinho.
Durante o curso de extensão em Pintura que realizamos
em Firenze, tínhamos folga nos finais de semana e que eram
aproveitados para conhecer as principais cidades italianas e lugares
turísticos famosos. A ida à Ilha de Capri, tinha um objetivo
maior, conhecer a Grotta Azurra, no mar
Tirreno.
Chegamos à Marina Grande e encontramos
centenas de barcos atracados às margens do intenso azul do Golfo di
Napoli.
A minúscula entrada da Grotta depende de
condições especiais de tempo pois nem sempre é possível
adentrá-la.
Tivemos sorte, o dia estava esplendoroso,
num final de abril, mas quem se atreveria a pular da lancha para um
minúsculo barquinho? De 21 artistas apenas 4 se
aventuraram.
Deu-me um frio na barriga mas pensei:
- E se nunca mais voltar ? então pulei
confiante.
Gente, a Grotta Azurra (Gruta Azul) é algo
que nem em sonhos imaginamos seu esplendor. É uma infinidade
de azuis que cintilam luminiscentes que te cercam e
deslumbram.
Os que me conhecem sabem que sou assim,
cantarolo sempre que me vejo feliz.
Então, irrompi a
plenos pulmões o Sole Mio, no interior da gruta para espanto dos
outros turistas. Logo o barqueiro fez coro e as nossas vozes
ecoaram pelo majestoso Salão Azul e muitos turistas aderiram
sorridentes.
Ainda emocionada, na volta à
lancha, só me lembro do belo, jovem e dourado barqueiro
napolitano que, sorrindo me disse – “Tu sei una bella donna!”
E eu respondi -“” Tu sei un bello
ragazzo!”.
Fui ridícula? Sei lá, talvez tenha sido,
mas deixei o eco da minha voz lá.
Afinal, sou uma descendente de italianos...não podia negar minhas
origens.
O gesto, que foi espontâneo da minha parte,
conquistou os turistas americanos que estavam na excursão e recebi convites para participar
da mesa com eles, no resto da viagem, ao que recusei,
envergonhada...
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O ESTILISTA.
Crônica
Tenini
Este flagrante aquarelado
datado de 1999 faz parte da minha coleção de FLAGRANTES DE FINAL DE
SÉCULO XX
O rapaz era jovem e me chamou a atenção por
vários detalhes como a fina camisa de seda com bolas em negro.
O jeans bem cortado, a fisionomia tranqüila, quase feminina que eu
imaginei que pudesse ser algum estilista passando por nossa
cidade.
Os olhos claros e atentos também poderiam
pertencer a alguém ligado á música clássica, um instrumentista,
tanto do piano como do violino. Enfim, era uma figura rara que
pousara ali no bistrô por um momento e que eu não poderia
deixar de reproduzir.
O cartão aquarelado na hora,
guarda uma certa semelhança com as pinturas clássicas ou
acadêmicas. Uma fisionomia que a gente pode encontrar entre os
pintores do século XVII ou XVIII, talvez antes ainda nas
pinturas italianas .
Ao terminar meu trabalho ele
desapareceu sem que eu me apercebesse.
Faz parte da
minha coleção que vai atravessar os tempos e espero que o jovem
retratado tenha alcançado seus objetivos tanto na arte da moda como
na Música clássica porque a minha intuição diz que aquele foi
um momento de mais um artista do século XX...
Des.
aquarelado Tenini da Série Flag. de final de século
XX
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DO ÓDIO NASCE O AMOR?
Crônica
Tenini
Estive meditando sobre o
que leva uma pessoa a determinar-se rejeitar, agredir e afirmar que
ignora uma pessoa, às vezes públicamente, com a visível intenção de
humilhá-la.
Então, procurei revisar meus conhecimentos
nos tratados de Psicologia e Psicanálise, entre os quais Os quatro
Gigantes da alma, do cubano Mira y Lopes, importante
psicanalista e filósofo que deixou muitas obras importantes
relativas ao comportamento do ser humano. Ele considerou os
seguintes aspectos : o medo, a ira, o amor e o dever. Cheguei
às seguintes conclusões:
Quando alguém não constitue
perigo para outrem ou este lhe é indiferente na esfera afetiva, não
existe necessidade de tais afrontamentos.
Senão
vejamos, a afronta sempre pressupõe revide. O
encadeamento afronta X revide tende a continuar.
Os
estudos sobre o Medo, a Ira, o Ódio na catamnese dos ódios
analisaados por vários autores, dão-nos um panorama da estreita
vinculação entre o Ódio x Amor e vice-versa.
A tensão
e o conflito entre duas forças equivalentes, uma excitante e outra
inibidora é um aquecimento progressivo da personalidade odienta, que
sofre cada vez mais as conseqüências do seu ódio. Este fica
condensado e concentra-se na fisionomia do odiento
comunicando-lhe uma rigidez e um aspecto inconfundível quando
se acha no campo de ação ou em presença de seu “objeto”, dando-se
então um curioso paradoxo de quanto mais afirma não desejar ver a
outra pessoa mais procura afrontá-la para sentir o prazer de
“detestá-la”. De modo que o odiento e o odiado ficam
encadeados por uma invisível prisão, como “corpo e sombra” mas sem
nunca terem um enfrentamento racional.
O odiento
agride e foge, sem esperar a reação, quase sempre usando o
anonimato. Assim, os psicólogos e psicanalistas afirmam, sem medo de
errar:” Do ódio nasce o Amor.”
As razões são de que o
odiento nutre secreta admiração pelo odiado, pois do contrário não
seria possível ter-lhe ódio.
Ninguém rejeita aquele
que não consegue perturbá-lo ou que seja inferior
psiquicamente.
Se o odiento identifica alguém como fonte
de suas perturbações é porque sente-se ameaçado e tem medo do afeto
que possa germinar dali.
Às vezes o odiento dá-se ao
trabalho de planejar uma determinada rejeição para que todos
acreditem que ele não tolera determinada pessoa e traça planos de
ataque, minuciosos, regozijando-se com o feito. Entretanto, nas
profundezas de sua alma sente, com o passar dos dias, vergonha de si
mesmo, frustração e infelicidade que o atormenta muito mais
intensamente do que o regozijo momentâneo porque sofre pela
injustiça cometida, pela insegurança de suas razões e por ter feito
sofrer o “objeto” de suas perturbações.
O medo de amar
é um dos componentes mais importantes da rejeição e embasa-se em
problemas de infância mal conduzidos. Pode também estar
vinculado em preconceitos morais, de idade, religiosos e outros
estabelecidos pela sociedade, tais como as razões julgadas
inconvenientes, ciúmes infundados, desconfiança na sinceridade
do afeto da outra pessoa e outros preconceitos, já superados pela
evolução dos tempos.
O medo implícito e a admiração
oculta no complexo afetivo de todo ódio podem modificá-lo de modo
fantástico e inesperado, confirmando o paradoxo de brotar do
seu seio o sentimento oposto.
Esta passagem de atitude
repulsiva para a atrativa, da antipatia para a simpatia é favorecida
quando apenas o odiento procura mascarar seus
sentimentos.
Há ainda, fatores importantes para esta
espetacular mudança de posição , como um interesse interpessoal
recíproco.
É importante assinalar que também no Amor,
o componente da rivalidade existe, ostentando ódio
irracional.
Unamuno disse: “Nada há de tão semelhante
ao abraço como o estrangulamento.”
Então, a humilhação
quando pública da pessoa odiada , mascarando uma rejeição pré
determinada, não passa de uma “estranha declaração de
amor”...
O tema é amplo, profundo, apaixonante, mas as
conclusões são sempre a
mesmas.
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REENCONTRO.
MUSA DA POESIA, óleo s/tela
Tenini
Olhei pela janela e vislumbrei uma densa névoa cobrindo o lago.
Recordei um dia em que visitando a praia do Veludo, descortinava uma
paisagem deslumbrante em que o sol fazia um rastro sobre o lago
azul, então, inspirei-me para compor este poema que dei o nome de
Reencontro.
Reencontrei-te
na praia do Veludo
quando um sol
incandescente
sobre o Guaíba deitou-se
rastro alongado para mim.
Deslumbrada
percebi que podias
diluir-te
em águas azuis
à luz da sobre tarde.
Meu desejo era de
lançar-me no teu rastro
e sair dali,
ofuscante,
como a luz
em que resplandecias...
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O
MP4
Comprei um walk man
mp4 para gravar músicas da minha preferência. O fato de ter
tirado curso de piano até o 8º ano e que fez parte da minha vida
durante toda adolescência, acabei por gostar de todos os
gêneros musicais embora na época, os professores insistissem na
execução apenas de músicas clássicas.
Hoje gosto de
qualquer música desde que ela seja harmoniosa e
bela.
Assim o repertório da minha preferência é
enorme,
Ao acessar sites de músicas clássicas confesso
que senti saudades do meu piano e da minha mãe que sempre insistiu
que eu estudasse este instrumento. Lágrimas rolaram quando eu ouvi a
Serenata de Toselli, a Sonata ao luar e Pour Elise de
Beethoven, o Clair de lune de Debussy , as sonatas de Chopin,
o Adágio de Bach, o Reverie de Schumann e tantas outras que eu
me empenhava em tocar bem e com sensibilidade, aspecto cobrado
pelo meu professor Adolfo Fest quando eu tinha doze
anos.
Depois acessei no programa Limewire todas as
músicas que eu me lembrava e que gostaria de gravar no meu mini walk
man.
No shopping no encontro com amigas, desvendei o
meu novo som portátil e deslumbrei-as com as músicas do nosso
tempo. Desfilaram Frank Sinatra, Liza Minelli, Luciano
Pavarotti e a espetacular soprano de todas as épocas, Maria Callas,
entre outras mais.
Fico feliz com estas novas
descobertas da engenharia eletrônica que me proporcionaram gravar no
minúsculo aparelhinho a minha coleção de quadros, videos
maravilhosos e fotos da minha família.
Uma maravilha
que o avanço dos tempos nos proporciona e que encanta aqueles que a
descobrem!
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UM TEMPLO PARA O SOTURNO II
Tenini.
Não era minha intenção voltar
ao assunto IBERÊ CAMARGO, grande artista brasileiro homenageado com
um Museu em Porto Alegre-RGS.
Entretanto, na crônica
anterior UM TEMPLO PARA O SOTURNO despertou a curiosidade de muita
gente sobre a obra do pintor e sua vida, em que teve um episódio
marcante que influenciou sua obra até seus últimos
dias.
Refiro-me ao episódio em que se viu envolvido no
Rio de Janeiro, onde morava e que resultou na morte de uma pessoa e
que agora desperta o interesse dos mais jovens para saber detalhes
do que ocorreu e que vai contribuir para entenderem
melhor a obra de Iberê, tão soturna quanto bela.
Os jornais da época noticiaram que ele passeava por
Copacabana quando viu um homem surrar uma mulher, em plena
tarde. Revoltado com a atitude do homem, Iberê foi em socorro
da mulher, cujo marido (?) passou a perseguir Iberê, em fúria e que
em legítima defesa o artista sacou de sua arma e atingiu o homem que
veio a falecer em seguida. Uns dizem que o homem perseguiu
Iberê até a garagem do Edifício onde ele morava e que para não ser
agredido defendeu-se com a arma que vitimou o
homem.
Ora, Iberê, era o maior nome nacional da
Pintura brasileira e tinha admiradores no âmbito da Justiça e do
Governo, o dos militares.
Então, tudo foi
encaminhado, de acordo com as provas de que ele agira em
legítima defesa.
Ponto final. Nada mais sei do
episódio porque ele foi silenciado.
Mas o fato fez com
que Iberê voltasse ao Sul para continuar sua
trajetória.
Os fatos lembram o grande pintor holandês
Van Gogh que tentou matar seu amigo, o pintor Gaughin, por
desentendimentos banais.
Aliás, Van Gogh cortou a
própria orelha para enviá-la a uma mulher por quem estava
apaixonado.
Quando Van Gogh entrava em crise , pintava
com fúria e estes trabalhos tiveram expressivo valor no mercado
mundial até hoje, embora, quando vivo, vendeu apenas um quadro.
Iberê, ao contrário, viveu da venda de seus trabalhos.
Mas as semelhanças continuam se verificarmos que ambos
eram dotados de dons literários porque escreviam muito
bem.
Sou daquelas pessoas que acreditam que o Pintor
quando cria e pinta um quadro deixa impressa ali sua alma.
Parece que há uma ligação extra-sensorial entre o artista e o
público. Este capta subliminarmente a mensagem.
Só assim podemos explicar o sucesso de um trabalho
artístico que não apresenta grandes virtudes técnicas ou
originalidade que possam ser apontadas. Exemplo: Os girassóis
de Van Gogh.
Lembro-me que gostava de ler os
textos do Iberê e penso que se ele não tivesse seguido a carreira de
Pintor, poderia tranquilamente fazer sucesso como jornalista ou
escritor.
Assim, concluímos que a genialidade de Iberê
não estava só na arte pictórica mas transcendia, além de sua Arte
com os pincéis.
O importante é que ele ousou
apresentar seus trabalhos em cores primárias e graves, embora
se saiba que usava todas as cores que embaralhadas davam aquele tom
triste e profundo.
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O APITO QUE VIROU PITO.
Crônica de
Tenini
Outro dia,
conversando com algumas avós, entre elas a Aidê Johnson sobre
as frases ou palavras usadas antigamente e que passaram
para ditos populares da época, lembrei que minha mãe
costumava perguntar quando eu arranjava namorado e que
todas as mães faziam o mesmo para suas
filhotas.
- “ Que pito ele toca?” Esta pergunta queria dizer, o que
ele fazia, se tinha futuro, se o namoro valia a pena e se
ele poderia sustentar família. Hoje eu tenho certeza que
a palavra certa era
apito.
-
A família toda fazia coro: Que pito ele toca? Amigos,
vizinhos, idem.
Aí, a gente transferia para o
pobre coitado a pergunta: “Que pito tu
tocas?”
Se ele não fazia nada dávamos o fora no
pretendente na hora, deixando-o fora de
tom.
Demos gostosas risadas com esta
lembrança.
Hoje, as coisas mudaram, as mães
nada perguntam, sob pena de levarem uma saraivada de desaforos das
liberadas filhotas . Não só isso, a liberdade total e
irrestrita das mulheres levou-as a conquistar espaços no mercado de
trabalho, surrupiando-os dos homens. Então, é comum vermos mulheres
bem sucedidas profissionalmente que não buscam apoio
financeiro na figura masculina. São como as leoas que
saem a cata de alimentos para o Leão mas com uma diferença:
hoje, elas querem alguém em quem possam mandar , desde que
resolvam suas fantasiosas e cinematográficas exigências
sexuais. Além disso preferem um homem que tome conta dos
filhos, seja cozinheiro , além de razoável na
vassoura da casa...
A mãe moderna quando
nasce um filho, inicialmente atende a recomendação médica sobre as
vantagens da amamentação materna, mas ela não tem paciência, deixa a
criança dar umas mamadinhas e encerra o assunto : -
”Deu!”
Cedo voltam para as atividades
profissionais. O médico só se dá conta de que a mãe não está
alimentando direito o filho , ao controlar o peso. Aí, o
jeito é recomendar uma creche se o marido não estiver
desempregado. Se estiver, lá vai mais uma
tarefa: cuidar do Junior ou da Filhota , aprontar e dar
as mamadeiras nas horas certas. E haja leite NINHO para o
bebê!
As avós modernosas, a tudo assistem mas
não se atrevem a dizer nada nem tampouco oferecem-se para dar
uma maõzinha
.
.
Quanto a
fidelidade, são unilaterais: só elas podem trair, se eles ousarem
fazer o mesmo, apontam para a porta da rua dizendo:
-“Saia!” Depois de 3 dias de lamentações partem para nova aventura.
Esta é uma das razões pelas quais os homens
estão fugindo das mulheres, preferindo a companhia deles mesmos ou a
mesmice do recinto familiar ou ainda, buscam no amplo
mercado feminino alguém com jeito de
antigamente.
Ledo engano, eles estão sujeitos a
engano, porque a dissimulação feminina atual é
novelesca.
Eles? Todos têm vez, uma vez
que o artigo é raro. Há filas de pretendentes, não importando a
cara, idade ou se são casados. No tapa buraco, vale
tudo.
Por outro lado, num mundo
globalizado eles avaliam o potencial da candidata , em $$$$$$$
Avaliam a inteligência da mulher, quanto ganham ou se possuem
potencial para faturar e que pode valer um centavo ou mais. Ao
conhecê-la o primeiro pensamento é –“ “How much?” Se elas
podem render algum $, oferecem parceria.
O resto? Ora, o resto só serve para as
escapadelas sem compromisso algum...Afinal, você que
me leu até agora
-“ Que “pito” tu toca$?”
Quadro: Desenho em pastel seco: ALO!!!
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MODELOS-VIVOS EM ARTE
(Modelo-vivo Tenini em pastel seco)
Freqüentei durante muito tempo sessões de modelos vivos em cursos de desenho oficiais e particulares.
Todo artista deveria exercitar modelos vivos porque quem consegue desenhar a figura humana, desenha qualquer coisa.
Assim, como gosto do figurativo, exercitava os modelos vivos nos vários cursos de Arte. Na Casa de Cultura Mário Quintana, há sessões gratuitas para artistas e iniciantes em arte, uma vez por semana. Aqueles que posam são modelos profissionais artísticos e são responsáveis pelo aperfeiçoamento de todo artista plástico que se preze.
Em 1998, decidi pegar flagrantes ao vivo em bares e cafés daqui e alhures, cuja série que deve ter mais de 600 cartões aquarelados já me deu classificação como entre as melhores artistas brasileiras, por uma Universidade americana. Esta série, começada naquele ano até 2000 foi vitoriosa em todos sentidos e tem o nome de Flagrantes de Final de Século.
Por hábito continuei a série depois de 2000, mas de forma mais branda.
Não se discute no trabalho a perfeição dos traços mas a rapidez com que é feito e as expressões das pessoas alvos dos flagrantes.
Quanto aos Modelos-vivos, curiosa jamais cheguei a uma conclusão correta do por quê posam. Alguns dizem que se tratam de pessoas narcisistas que amam o próprio corpo, outras de que sentem prazer em serem retratadas por artistas e esperam ficar famosas.
Enfim, é uma profissão em que as modelos conseguem sobreviver sem precisarem da prostituição.
Aqueles que desejam seguir Arte, aconselho freqüentar as sessões de modelos vivos, pois darão embasamento a uma melhor observação de detalhes tanto físicos como expressivos. Dali para a criatividade acontecer é apenas um passo.
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SANTO
ANTONIO DAS CARTAS...
( 12/06/2008)
Conto
Tenini
Nandinha já tinha passado o cabo da boa
esperança há muito, então começou a investir nos “entas” mal casados
para ver se pescava algum.
De repente, surgiu o Chefinho
daquele jornal da cidade que era dado à conquistas amorosas, do tipo
“me leva que eu vou". Glostora era seu apelido porque o
gordinho passava gumex no cabelo para acentuar aquele coração bem no
meio da testa.
Na verdade, ele era meio quixotesco porque era
tímido e dava suas cantadas apenas pelos classificados do
jornal. Ninguém entendia o por quê dos “classificados”, mas
era ali que ele se sentia mais potente e seguro.
Para ele,
namoro era um negócio de secos e molhados...
Nandinha,
chamada assim porque era do tipo pernas curtas , com uma defasagem
entre o tórax e o abdome, dava várias dobras na calça jeans que
usava porque não sabia fazer bainha , pois se achava uma intelectual
no ramo dos dicionários da Internet. Freqüentadora das salas
de Chat de sexo explícito encontrou no “Glostora” o
tipo do "paca"ideal para arranjar um empreguinho nas páginas
daquela empresa.
Resolveu fazer promessa para Santo Antonio e
no dia 12/06 de alguns anos atrás enfiou na manga do
milagreiro uma carta, pedindo dinheiro de alguém “perdido” do
caminho de casa.
Foi aí que a Nandinha e o Glostora cruzaram,
pois Santo Antonio atendeu o pedido da carta. Desde então,
quando ela quer um aumento de salário não pede ao Glostora, (
porque para ele, "cortesia, só com chapéu alheio") acha por bem
pedir a intercessão do Santo de sua devoção.
Aqui vai o Santo
da Nandinha que além de faturar o paca “Glostora”, leva de
contrapeso o dinheirinho da Caixa Registradora da
empresa: Plim,plim,plim!
A bem da verdade, se vocês
repararem bem, o Santinho da Nandinha já anda meio saturado da
intercessão e começa a olhar atravessado quando ela
coloca nas suas mangas, carta pedindo aumento...
Quanto ao Glostora, continua a paquerar nos classificados
para ver se consegue bacalhau maior...
Quadro: Santo Antonio da Carta-
acrílico s/tela Tenini
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A ACÁCIA MIMOSA.
Gosto das acácias mimosas que florescem de junho a julho.
A árvore com folhas em verdes cinzentos apresentam em seus ramos uma infinidade de botõezinhos delicados em amarelo.
Parecem minúsculos pompons que se desfolham rapidamente e nos encantam com sua breve alegria.
Estas ventanias, quase ciclones que estão desabando por Porto Alegre é uma novidade que não lembro ter assistido em outros tempos, com tanta freqüência.
Em apenas 15 dias tivemos várias ventanias de madrugada que castigaram árvores e flores do jardim. Nem falo da minha mini horta que de uma hora para outra tombaram centenas de abacates, bergamotas e laranjas em ponto de maturação.
Há menos de 2 semanas a ventania deitou para um lado a minha esplendorosa acácia mimosa. Ontem, as raízes ficaram à mostra e a árvore tombou de vez.
Fiquei muito triste porque aniversario em julho e estava esperando enfeitar minha casa com as alegres flores da referida acácia. O que mais me causa dó é que ela tinha apenas 2 ou 3 anos e estava no auge de sua beleza.
Penso que a culpa seja do meu terreno que fica na encosta do morro, onde o chão está crivado de pedras, escondidas em tênues camadas de terra.
Não sei se conseguirei salvá-la porque meu jardineiro só vem na sexta-feira, mas tudo farei para que ela volte a viver.
Assim como os humanos, a natureza está sujeita a acidentes e a minha acácia, jovem e bela, está ali deitada esperando a morte...
Hoje, emocionada, olhei seus ramos, estavam quase murchos, ainda que um fio de vida me dê esperanças de que sobreviva.
Meu amor por ela vai fazê-la reviver, tenho certeza!
Quadro: detalhe de AS OUTONAIS- óleo s/tela Tenini
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 Canto de galo, acrílico Tenini
QUANDO OS ASTROS FALAM...
Tenini
Ao abrir o jornal, dei uma olhada nas notícias e me apavorei com um grande desfalque nas contas bancárias, preocupada, esperei a hora de ir até a Agência para saber do meu saldo. Felizmente estava , aparentemente, em dia e voltei para casa. Resolvi ler o que os astros falavam.
Vejam só o que dizia: “Renove suas perspectivas, abandone o quanto antes tudo que não foi possível conquistar, pois seria tolice continuar insistindo em caminhos que só trouxeram frustração, enquanto outros se encontram disponíveis para a exploração.”
Ora, persigo desde a infância os caminhos da Arte não por teimosia mas porque nasci com o dom, queiram ou não queiram os Astros...
Novos caminhos? Sorri... talvez estejam sugerindo que eu me torne cozinheira, aliás, com esta onde de assaltos, , o melhor é comer em casa mesmo. Além do mais é uma arte que exige a criatividade ao mexer com os temperos e quando dá certo o prato especial que estamos preparando, distribuímos felicidade ao nosso redor.
Outro dia fui convidada para cozinhar uma paella num aniversário de pessoa muito querida. Não podia dizer não, mas fiquei temerosa porque o prato era para servir cerca de 30 pessoas adultas...
Comecei devagarinho, com medo de errar, pois haviam colocado nas minhas mãos 4 pacotes de produtos do mar para paella e mais 4 kgs de camarões gigantes. Temperos à vontade...
Então, como era jantar às 21 h 30, fui cozinhando tudo com vagar e atenta ao preparo, contando minutos.
As etapas foram as seguintes: preparo do molho com 2 kg de tomates, 4 cebolas roxas e brancas e dentes de alho.
Pitadas de sal , manjericão e salsa e óleo de oliva extra virgem.
A 2ª etapa foi refogar os produtos do mar dos saquinhos, devidamente descongelados em água fria, no molho de cebolas, alho e tomates, acrescentando borrifadas de mostarda, molho inglês, páprica, pitada de pimentas do reino e pimentas, em conserva verdes picantes, azeitonas gregas, um maço de salsa, um de manjericão, além de algumas folhas de louro e finalmente , generosas doses de açafrão espanhol.
Na terceira etapa, acrescentei o arroz em quantidades certas para o número de pessoas, na base de meia xícara para cada uma. Água na medida certa, testando o sal, quinze minutos depois, acrescentei os 4 kgs de camarões gigantes devidamente descongelados em água fria.
Testei o sal novamente... Mais 10 a 12 minutos de fogo e desliguei o fogão.
O panelão de ferro onde eu fazia a paella , fumegando, foi colocado em cima da mesa, apurando o cozimento do arroz.. Finalmente, foi servido para os vorazes convivas.
De longe, cansada, eu observava que cada um que dava uma garfada no prato, sacudia a cabeça em tom de aprovação, sorrindo.
Fiquei exultante: Acertara no ponto do sal, do arroz e dos camarões, o que não é fácil.
Logo vieram os megas elogios e os homens que gostam de cozinhar vieram saber como eu havia feito aquela gostosura. Elas continuaram sentadas... Expliquei porque não sou egoísta ( trabalho sempre de graça!!!) Mas tremi com a ameaça: Todos querem vir à minha casa para uma parceria na cozinha:- “ Levo tudo!!!” disse um deles...
(Talvez queira levar tudo que tenho, pensei...)
No final do jantar, todos se levantaram e bateram palmas para a “ cozinheira” que se retirava antes do fim da festa...
Os astros têm razão, apesar de me achar uma artista de categoria, nunca ninguém bateu palmas para o meu trabalho.
Então, é possível que eu mude de profissão , vou procurar um lugar de cozinheira numa grande empresa onde trabalhem astrólogos.
Não, não cobrarei milhões, trabalho de graça... Gostaram?
Qual o menu que vocês preferem?
Carneiro à moda das esporas?
Touro à cabresto?
Ou galinhas Gêmeas numa fritada de galo ao “último canto”?
E de quebra, poderei ler cartas ciganas ou o tarot, inclusive para os tais astrólogos (as) , prometendo inovar a linguagem deles...
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Um dos poucos quadros mais alegres
de IBERÊ CAMARGO (detalhe do quadro)
UM TEMPLO PARA O SOTURNO.
A vida pessoal do controverso artista brasileiro, já falecido, IBERÊ CAMARGO, sedimentou uma obra que lhe deu sucessos e reconhecimentos nacional e internacional.
Nascido no interior do Rio Grande do Sul, filho de modesto ferroviário , mostrou pendores para a Arte desde garotinho. Apostou no “soturno” a vida inteira e foi no aprofundamento da alma humana soturna que ele galgou a fama e também a tragédia.
Não convivi com Iberê para dizer como ele era interiormente. Certa vez, encontrei-o no Atelier Livre, rodeado de alunas, mas ele estava apenas visitando a casa. Eu subia a escada e ele descia, sorriu-me e acompanhou-me com os olhos como se estivesse reconhecendo alguém e seguiu para a saída do prédio.
Iberê, entre suas andanças pelo mundo despertava a admiração de artistas famosos pela sua insistência em pintar o trágico, o “soturno”. Seria ele uma pessoa assim? A verdade é que todos nós temos dias de tristeza, solidão, angústia e nos apresentamos soturnos. Existe beleza no trágico? Claro, há beleza em todas as coisas mesmo no feio e no trágico porque trata da alma humana em aflição.
Olhei as telas do Iberê. Representa um olhar doentio, depressivo para as coisas que nos faz pensar.
Houve um momento de tragédia na sua vida quando matou um homem em plena Copacabana, há anos atrás. Houve interferências políticas importantes e de militares que o livraram do julgamento e da prisão. Nunca se soube o que ocorreu com Iberê para fazer aquilo. Foi o destino? Foi sua compulsão para a tragédia e o negro da vida?
Dizem que ele pintava com paixão, usando tubos de tinta, espátulas, pincéis volumosos e as mãos quando realizava um trabalho.
Há tempos exercitei a experiência de pintar dois quadros apenas com as mãos. Num deles as cores saíram escuras como um dia enfarruscado mas as figuras que pintei saíram com ar alegre e fantasmagórico ao mesmo tempo. Dei-lhe o nome de Tango. Gostei da experiência.
No outro quadro, decidi colocar ali a minha alma e joguei tintas com as mãos e, em cada camada de cores variadas ia colocando datas importantes para mim, nomes dos meus amores, das minhas paixões. Depois embaralhava tudo e acabei por desenhar as figuras com os dedos e com as unhas delineei uma personagem com pássaros.
Um poeta se apaixonou pelo resultado do trabalho e eu sei que o quadro vai levar no meio de suas tintas todas minhas vivências e expectativas de vida. O nome deste quadro é Sétimo Céu. Penso que é mais ou menos assim que Iberê pintava e jamais mudou. Mas eu sou uma humilde pintora de cores, a alegria está implícita na minha alma, na obra que realizo. Prefiro ser como a mais simples das mortais e esperar da vida o que ela oferece de melhor.
Ali, na orla do Guaíba, está o amplo Templo branco do Iberê, em espiral como sua ascensão na Arte.
É um ousado desafio à natureza que o cerca porque ali do outro lado, está o mais belo da vida, em cores e alegria.
Bonito presenciarmos o Soturno versus Beleza da natureza em céu, pôr do sol e lago, compreendido pelo arquiteto português Álvaro Siza que concebeu o projeto e a realização da majestosa construção.
Nos dois está um pouco de todos nós!
Tenini
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INAUGURAÇÃO DA FUNDAÇÃO IBERÊ
CAMARGO.
Participei da inauguração da Fundação Iberê
Camargo no dia 30.
Como os demais artistas, não
recebi convite oficial para a solenidade, mas
por insistência de uma empresária minha amiga, Lisse , eu a
acompanhei na referida inauguração.
Havia muita gente,
especialmente a classe empresarial ligada ao Sr. Jorge Gerdau
Joahnnpetter, Presidente da Fundação. O coquetel foi
esplendoroso, de alta categoria, realizado pelo Buffet
Solano.
Os modelitos das mulheres presentes
variaram, embora o convite recomendasse traje social
completo.
Penso que os artistas sejam os operários da
Arte, por esta razão, nunca estão entre os convidados
especiais dos eventos que se realizam , mesmo assim, alguns foram
vistos por lá acompanhando outros convidados.
A
solenidade foi acompanhada mais pela televisão do que no local
porque uma grande massa de pessoas cercaram os oradores oficiais da
inauguração, na presença do arquiteto português Álvaro Siza.
Entretanto, confortáveis sofás espalhados pelo térreo do
prédio abrigaram os convidados que não quiseram espremer-se entre os
curiosos que cercaram os donos da
festa.
Assinalo a presença esfusiante do casal,
escultora Arminda Lopes e seu marido Engenheiro Ruy Lopes, um
dos Diretores da Gerdau que, como sempre, carinhosamente, me
festejaram e voaram, abraçados, como dois pássaros alegres.
Sobre o trabalho do Iberê, poucos quadros foram
apresentados, deixando em branco a maior parte dos quatro
andares em espiral da Fundação.
Espero que
artistas ligados ao expressionismo possam também usar o
magnífico espaço daquela Fundação, tão bem planejada pelo
arquiteto português Álvaro Siza que veio enriquecer a zona sul
da cidade em local paradisíaco, defronte para o lago
Guaiba , onde a natureza e o pôr do sol deslumbram em tons
impressionistas e veleiros, com seus coloridos mastros , navegam
em todas as estações do ano, remetendo-nos aos quadros de
Manet, Sisley, Monet ou Renoir...
Em
homenagem ao grande pintor gaúcho, aqui vai uma ilustração de um
trabalho seu que despertou a admiração de um dos maiores nomes de
empresários do aço no mundo, o nosso Johannpetter, da Gerdau, que
vem patrocinando o artista desde que Iberê retornou ao
Rio Grande do Sul mesmo depois de sua morte.
Na
verdade, a atenção do referido empresário é o sonho de Mecenas
de todo artista brasileiro...
Parabéns à Fundação e
vamos acompanhar de perto o seu trabalho.
Tenini.
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CASA DOS NONNOS.
Minha mãe era muito apegada aos filhos, talvez porque muito jovem quando casou com meu pai, veio de Mato Grosso para o Sul e jamais voltou para ver os familiares pois naquele tempo as distâncias dependiam de muitos dias para irmos de um Estado a outro. Ouvia dizer que as cartas levavam 30 dias para chegarem ao destino. Assim, ela não nos deixava ir à Garibaldi onde morava a Nonna. Todos os primos passavam as férias lá, menos nós.
A única vez que fui, aos 5 anos, passei apenas uma semana e lembro das araucárias que cercavam a cidade, dos morros, dos parreirais da casa, das galinhas que colocavam ovos nos ninhos diáriamente, dos queijos e salames feitos em casa pela Nonna e minha tia Stella. E ficava intrigada com a língua italiana que elas falavam.
Lembro dos pães com batatas, das geléias de uvas e de figos que saboreávamos no café da manhã, além da delícia de um suco de uvas feito em casa.
Então, a lembrança permaneceu na minha memória e que me fez fazer o quadro que ilustra esta crônica, além de um poema que está perdido nos meus guardados.
Lembro da minha avó com carinho, pois herdei dela uma pele rosada e saudável, pena que não tenha herdado sua beleza que atravessou o tempo.
Do meu nonno só sei das histórias porque ele faleceu antes de eu nascer, mas foi um grande homem que lutou e trabalhou para o progresso de Garibaldi e foi homenageado com uma pracinha, por ter sido o Cônsul Honorário da Itália para a região, enquanto viveu.
Hoje, a casa onde viveram virou Museu e eu a visito sempre para reviver as histórias da família Canini. Mas o amor à Arte, herdei do meu Nonno, através do meu pai e é esta que me leva para frente sempre em busca de algo que é a essência do meu viver.
Aqui, na minha casa, plantei uma araucária bem pertinho da sacada que não me deixa esquecer nunca das minhas origens.
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Vendaval- técnica mista Tenini
O VENDAVAL
Tenini.
A noite cobriu-se de azuis ftalos.
Num repente, raios e trovões
Iluminam o céu.
Louca energia,
Luzes e sons,
Beleza e horror
Inigualável nos seus clarões
Atordoante nos seus ribombos.
Espreito o rio na sombras,
Temor e revolta
O seu agito?
Inveja dos mares bravios?
Conluio de traições?
Sei lá...
E segue o vendaval,
Açoitando tudo.
Árvores que se curvam,
Submissas,
Frenéticas,
Enlouquecida e consentida
Roda dos ventos.
Sibila a tormenta
Nas frestas da janela
Invadindo meu Ser
O seu chamado,
Como sinos que badalam na madrugada...
E a fúria dos ventos
Instala-se afinal,
Derrubando tudo.
No negror da noite
Luzes se apagam.
Eu nada vejo,
Nem minha sombra
Na parede do meu quarto.
Refugio-me no meu leito.
Encolho-me assustada.
E uma tristeza infinda
Invade meu coração
( Não tenho minha mão na tua)
A minha verdade se instala.
Nua e crua,
Estou só.
Só com a minha tristeza
Que varre minh’alma
Para o desterro da solidão.
Tenho medo.
Medo horrível, sepulcral,
De Morta viva ficar
Naquela gélida morada
A Morada do teu Desamor!
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A garça branca - Tenini
GARÇAS À BEIRA DO LAGO.
Crônica Tenini.
Meu bairro sempre se caracterizou por ser exuberante na natureza. Aqui, os primeiros imigrantes como portugueses, italianos, espanhóis, alemães, polacos e de outras raças misturaram-se com os originais da terra, os índios guaranis. A proximidade do rio e uma natureza com traços tropicais tornaram o lugar especial. Nos primeiros tempos, os porto-alegrenses vinham veranear ou tomar banhos no lago (então chamado de rio) nos finais de semana durante o verão. A zona estava entregue aos imigrantes europeus. Nas demais estações os alemães e italianos e seus descendentes exercitavam o esporte da vela. Nada mais natural, especialmente para os italianos que vieram da região do vêneto.
Mas o tempo passou e o bairro foi descoberto pelas autoridades e pelos visitantes de outros bairros como local paradisíaco. E é.
Hoje, é intenso o desenvolvimento da zona sul da cidade com o incremento de prédios residenciais, condomínios e edifícios de apartamentos, predominando os construídos para a classe A. Além de um comércio que começa a desenvolver-se.
Pena que alguns não concordem com o surto de construções e têm se organizado para protestar, esquecendo-se que o progresso veio para ficar e que está trazendo e trará, ainda, amplo mercado de trabalho para todos que precisam dele para sobreviver.
Estradas de acesso à zona sul tem aproximado a zona norte destes bairros o que é muito bom.
Depois de morar 10 anos na Av. Atlântica, no Rio de Janeiro, meu marido e eu decidimos que ao retornar, somente a zona sul nos traria a vista que perdemos.
Mandamos construir esta casa, na encosta do Sétimo Céu e agradeço a Deus pelas vistas maravilhosas que diariamente me são brindadas, no encontro de lago e céu.
Assim, ali na Fisioterapia, onde estou em tratamento, encontro antigos e novos moradores todos encantados com esta região que havia ficado esquecida das autoridades durante tanto tempo. Percebo que somos uma família, uma grande família que adora a zona sul da cidade. Afinal, estamos a apenas 15 minutos do centro e no trajeto seguimos por uma orla que margeia o lago em que a natureza esplende em belezas, acrescida com as visitas dos pássaros de todas as espécies. E aqui há um consenso comum de amor e respeito à natureza que nos cerca, inclusive há uma brisa marinha que vem da Lagoa dos Patos, matando as saudades daqueles que vieram de cidades marinhas.
E as garças estão fazendo o espetáculo. Na falta de cisnes como na Europa são as garças que dão graça, leveza e beleza nas margens do lago. Quer coisa mais linda do que aquela garça solitária que deparei um dia à beira da praia em Ipanema?
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PELÍCULAS SALVADORAS.
Crônica Tenini
O Brasil assolado de norte a sul, com assaltos diários, muitos às mãos armadas, ocasionando a morte de muita gente, adotou a película escura nos vidros dos carros.
Outro dia eu ia em direção à zona norte quando passou por mim, na Perimetral, um carro todo preto, de marca conceituada mas não zero, com os vidros totalmente pretos. A visão me deu um susto, seria um carro fúnebre? Não, carro fúnebre não precisa andar com vidros pretos... Então calculei que o carro transportava alguém importante, um industrial bem sucedido ou um milionário, daí a preocupação em passar despercebido... Mas seria? Pra mim, seria um alvo perfeito para ataques dos assaltantes.
Então fiquei a pensar como a população está reagindo aos ataques surpresa de assaltantes.
Aqueles que andam em carros modestos anteriores a 1985, invariavelmente, continuam com os vidros originais, sem película. Devem ser aqueles que nada possuem e vivem do trabalho mal pago com dívidas nos bancos e no SPC...Portanto, nada tem a esconder, ao contrário, eles é que gostariam de passar escondidos dos credores...
Aqueles que usam vidros cinzentos, a grande maioria dos carros, pertencem à classe média e média alta que andam se segurando para não descerem na escala social pois devem aos Bancos , estão sempre no vermelho nos cartões de crédito, recebem salários consumidos por altos impostos mas têm medo dos assaltantes de toda espécie, desde os marginais até os de colarinho branco que inventam impostos de toda ordem, nunca bem explícitos na sua aplicação... Não colocam as películas pretas porque sabem que o DETRAN vai anotar as placas dos carros e lá vai mais uma baita multa que difícilmente poderão pagar...
Se você tem medo dos assaltantes, tenha sempre alguma moedinha à mão para negociar sua vida porque hoje, ela não está valendo nada, nem com as películas escuras nos vidros dos carros!
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 Can-can das coroas - Tenini
CAN CAN DAS COROAS.
Tenini
Há algum tempo, um grupo de freqüentadoras do Bistrô do shopping, entre elas algumas artistas visuais, da música ou de outra arte qualquer, incluindo professoras aposentadas, decidimos realizar jantares domésticos e a minha casa foi a escolhida. Aqui reuníamos além delas, amigos e conhecidos ligados a diversas atividades, aposentados ou não. Eu preparava os lautos jantares, as convidadas traziam as sobremesas e os amigos as bebidas. Depois seguia-se uma tertúlia musical ou poética. Um dia inventei de convidar as “gurias” para nos fantasiarmos de Can-cans. Para isto, contei com lenços coloridos, chapéus, collants e a brincadeira foi um sucesso. Todos riram a valer com o grupo de Cancans da Terceira Idade.
Claro, lembrei-me de Toulouse Lautrec para as brincadeiras e colhi o flagrante acima.
A brincadeira durou umas duas a três semanas pois fomos convidadas para nos apresentarmos em jantares ou aniversários em casa de amigas comuns. Não houve nenhum instante de malícia porque, afinal, quem não é um pouco criança durante toda a vida, einh? Foi um curto período de muitas alegrias.
Mesmo assim, houve quem falasse mal da brincadeira. Certamente aqueles que , como sempre, não foram convidados e chafurdaram onde não havia nada.
Arrependi-me de ter inventado a brincadeira? Nunca , ela foi um dos momentos lúdicos de todas nós e que jamais esqueceremos.
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Flagrante aquarelado no bistrô Variettá, de Porto Alegre- Tenini
AMIGO É PARA SEMPRE.
Tenini
Tenho escutado e lido muitos comentários sobre as atitudes de amigos daqueles que cometeram algum deslize na política. Discordo totalmente do que tenho ouvido ou lido.
Considero, até, um atraso na avaliação daqueles que aconselham as pessoas a se afastarem dos amigos que atravessam fases difíceis na sua vida em processos diversos até judiciais.
Tais processos envolvem os chamados “lobistas” da política. Os lobistas sempre existiram e sempre existirão, neste ou naquele governo, e, normalmente, são aqueles encarregados de carrear dinheiro para os partidos nas campanhas políticas, mas sabe-se, que não há lobista que não tenha “progredido” financeiramente, com esta tarefa...E sempre atuam em grupos com grandes empresas interessadas nos negócios públicos.
Quando pilhados, geralmente pela denúncia da facção política contrária, isto não quer dizer que esta seja exemplo de virtude, muitas vezes são até piores. O caso do dinheiro na cueca de militante de certo partido está aí para confirmar o que digo. E não há lobista que não seja “testa de ferro” de alguém importante do Partidão...
Mas, nem sempre os verdadeiros amigos participaram das jogadas e não deveriam deixar de ser amigos numa hora difícil do “infrator”. O fato de afastarem-se , no meu entender, não significa inocência, pode ser, ao contrário, cúmplice dos delitos cometidos pelo amigo.
Mas falo daquele amigo que o é, independente de qualquer interesse e que nunca foi beneficiado com nenhuma benesse na amizade . Falo daquele que faz de sua vida a simplicidade de viver que é o caminho da não complicação e o da felicidade porque nada almeja.
Esta pessoa não deve recear, numa hora difícil do amigo que errou, de prestar-lhe assistência espiritual e moral da verdadeira amizade. ( Quem atiraria a primeira pedra se estivesse no campo oposto, einh?)
Em matéria de religião, os cristãos deveriam inspirar-se em Jesus que , mesmo na cruz, perdoou os pecadores e chanou-os para o caminho do Bem. Tarefa difícil mas não impossível...
A imprensa costuma crucificar, indiscriminadamente, por necessidade do “ibop de mídia”, toda e qualquer pessoa que chegue perto de um acusado, como se ela fosse invulnerável... Quanta hipocrisia, meu Deus !
Mas nós contestamos, se você é amigo de alguém que está sendo acusado de algo, e nunca se beneficiou com esta amizade, é hora de mostrar que “amigo é para sempre e para todas as horas.” Não receie nada, você é uma pessoa especial e que deveria ser louvada por sua atitude.
Enfim, não sacrifiquemos um amigo porque errou porque todos somos sujeitos a erros. Se você for muito medroso para tomar tal atitude, mande pelo menos aquele CD " Amigos para siempre" e saia de fininho quando a mídia passar por perto...
E, de quebra, peça a algum padre para fazer uma visitinha em seu nome, tá?
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Tenini - Reminiscências
DOCES REMINISCÊNCIAS.
Já nem tinha mais cartões para pegar o flagrante da elegante senhora que, embalada pelo piano do Bistrô em 2000 , sentou-se em banco próximo para escutar a música. Não tive dúvidas, peguei um cartão Fabriani já usado e colhi o instante em rápidos traços, do outro lado.
Preocupada em desenhar não lembro mais a música que o pianista tocava, seria Sabrás que te quiero, Nosotros, Volver, La vie en rose, The man I love, Ouça ou Danúbio Azul de Strauss? Ou seria o Aquarela do Brasil em ritmo frenético? O certo é que a senhora não resistiu e parou por um momento para deliciar-se ouvindo a música que lhe trazia tão belas recordações.
Um amor lindo nos anos dourados que despertou sua sensibilidade, ausentando-se do que acontecia ao seu redor a não ser a música que escutava, só podia ser um amor de juventude, inconseqüente, eterno e que o tempo colocou submerso até aquele momento.
Quem ama sabe que as músicas podem trazer doces recordações, uma para cada momento de vida.
A música nos leva a uma lembrança de infância como aquela valsa que você dançou com seu pai. , o baile de debutantes quando você tinha 15 anos, embalada pelo belo cadete de olhos verdes como encarnação do Príncipe Encantado ou aquele momento que você esteve rodopiando nos braços daquele cara que você curtia, nos bailes da Reitoria. Podia ser aquela música preferida durante o namoro com seu marido, enfim, muitos acontecimentos podem trazer-nos ternas lembranças.
Sempre estive perto da música desde a infância quando estudava piano e confesso que não sei viver sem ela, mesmo hoje, quando trabalho, ela me traz inspirações com muita sensibilidade.
Você pararia para escutar uma música que lhe trouxesse doces recordações? Por mim, eu pararia, sim, não para uma, mas uma dezena de músicas que representaram meu tempo especial de doces vivências.
Mas a senhora do shopping me pareceu recordar um alegre período de sua vida com muito amor porque ela tinha um leve e arteiro sorriso num ar de remota juventude. Quem sabe ela teria sido uma artista do Teatro de Revista do Carlos Machado? Você sabe quem foi Carlos Machado?
Em outra oportunidade eu conto.
Que história você escreveria para a elegante senhora do shopping?
TENINI
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GRISALMA, UMA PALAVRA, UMA TRADUÇÃO.
Crônica Tenini
Em 1998, iniciei uma série de de trabalhos artísticos chamados FLAGRANTES DE FINAL DE SÉCULO, colhidos em cafés ou bistrots de Porto Alegre. Em fevereiro daquele ano, à tarde, percebi uma dama em mesa distante da minha, com expressão de profunda amargura.
Vestia elegantemente em traje de linho e usava um chapéu que lhe escondia os cabelos, apesar do calor que fazia. Sorvia sem vontade um refrigerante que ficou ao meio quando ela sumiu pelos corredores do shopping, exatamente no momento que eu a desenhava. Não posso explicar o que se passa com o artista quando resolve retratar uma pessoa, mesmo que ela não perceba.
Parece haver uma ligação extra-sensorial entre o artista e a pessoa escolhida porque não entra em jogo a beleza física, nem tampouco a idade da pessoa retratada. Pessoalmente, não gosto de retratar flagrante à pedido e sim pela minha escolha por intuição.
Não só desenhei aquela senhora como escrevi um poema baseado na expressão de amargura que percebi nela.
O poema chamou-se GRISALMA, cuja palavra não encontrei no dicionário. Um amigo poeta disse que eu inventara a palavra e tendo gostado dela, escreveu-me um poema usando-a. De lá para cá, como atuo na Internet há 10 anos em grupos de poesias, houve outros poetas que também a usaram e não sei se eles se inspiraram na minha criação ou se também tiveram a mesma idéia porque juntei a palavra GRIS + ALMA ( Alma cinzenta) que na tradução pode ser alma triste. O poema que escrevi é este:
GRISALMA
Desperto às cegas
Ante a ofuscante claridade do sol,
Desafiando inclemente
E enfurecido,
Crestando as flores do jardim
E as tenras folhas da esperança,
Rachando o solo sedento
Buscando as águas.
Anseio por sombras.
Hoje
Quero nuvens em gris.
Hoje
Quero prenúncios de chuvas,
Torrenciais,
Que lavem minh’alma
Das tristezas deste dia,
Absurdamente claro,
Insolente,
Zombando do meu penar.
Hoje
Quero um dia soturno.
Quero esconder-me da luz,
Ficar em silêncio,
Dentro das trevas
Para meu outro Eu,
Enfim, consolar.
Nunca mais vi a senhora em grisalma e tenho uma história que inventei para ela mas me abstenho de divulgar agora, espero que o leitor faça a sua interpretação para aquela dama triste.
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Crônica Tenini

O TRIO.
Eu estava no bistrot desenhando para Flagrantes de Final de Século quando deparei com o trio desenhado acima. A namorada enlaçava o rapaz, mas ele estava mais interessado em paquerar a amiga dela. Então, resolvi delinear a namorada porque percebi que o namoro ia ser interrompido pela "amiga" intrusa.
Quem já não viveu esta história, hein?
O fato se repete com freqüência cada vez maior. Só que agora, o trio emplaca junto ao contrário de outros tempos que tão logo descoberta a traição do namorado e da amiga, esta era afastada ou ficava com o cara.
Os tempos mudaram e o espécime masculino, cada vez mais raro, torna-se "objeto de desejo" das mulheres que não conseguiram fisgar nenhum...
As esposas de antigamente estão sendo trocadas pelas aventureiras que estão de olho nos "maridos" que tem dinheiro, até um bom emprego ou influência, também valem...
Os desempregados são descartados ou conforme a competência doméstica deles podem ser sustentados pelas "poderosas".
Enfim, quem sou eu para criticar? Os tempos estão cada vez mais malucos!
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LUA NOVA- acrílico s/tela Tenini
Poema
Tenini
No tranco do meu cavalo,
vou mirando os cerros,
por trás das verdes matas...
Vejo o céu
em azuis pastéis,
brancas nuvens a passejar...
Teu nome leio,
em brilhos,
no horizonte...
Apuro o trote,
pois sei que
na estância
estás a me esperar.
Apuro meu riso,
ergo meu peito,
ajeito o bum bum,
na sela dourada...
aperto as pernas
nos flancos do meu baio
e meneio o laço,
pois hoje,
teu coração vou laçar ...
e nos teus braços me atar...
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Amor - óleo sobre tela - Tenini
Anjo ou Demônio
De repente
assalta-me o desejo
de estar junto a ti,
mãos entrelaçadas,
ânsia de ouvir
o universo do teu saber
e
também
das coisas inúteis
que povoam teus sonhos...
(Vou fascinar-te
com as minhas loucuras e
os meus carinhos desmedidos.)
Farei de ti escravo dos meus caprichos.
Outras vezes,
penso em sangrar teu coração,
sem dó nem piedade e
direi coisas que não queria ou...
queria dizer!
Virarei um demônio e
transformarei
em pandemônio
teu viver.
Só assim
me vingarei
do quanto me fazes sofrer.
Descubro-me sado-masoquista,
talvez eu deva me vestir,
quando chegares,
como dama da noite ,
braços e pernas
presas em correntes,
com chicote nas maõs,
.olhos delineados em negro e
boca vermelha
num sorriso safado...
Sorrio só em pensar.
Então, tenho ganas de beijar-te,
de morder-te ,
( de beijar-te de cima abaixo...)
Mas amanhã,
bem cedinho
enrolada em sete véus ,
colocarei o perfume predileto ,
prenderei
nos cabelos
as alfazemas e os jamins
para esperar-te à noitinha.
Sei que virás
trazendo o vinho
envolto
em rosas vermelhas.
Jantaremos à luz de velas,
olhos nos olhos,
lábios no mesmo cálice e
brincaremos
de mordiscar
o mesmo morango...
Depois?
Dançarei a dança dos sete véus...
ao som de música alucinante,
logo virá a noite,
estrelas em profusão e
nos teus olhos
acenderei
a chama da paixão...
No leito coberto das pétalas de rosas ,
encontraremos a palavra certa,
os gestos ousados,
as carícias sonhadas,
a revelação
do segredo bem guardado e
descobriremos ,
enfim,
que fomos feitos
um para o outro... |
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© marilyn_Tenini
In Mulieribus
Há uma Madona em cada mulher,
Há uma lágrima e
Um sorriso.
Um quê de Gioconda...
Um quê de anjo,
De demônio...
Um quê de felina,
De menina.
Um quê de força,
De doçura.
Um quê que
só você,
Mulher,
Faz do Homem um menino,
E do Homem Gênio,
Um Ingênuo.
Você, mulher...
é uma
Mulher!!
Tenini
copyright 2002 n@web© todos os direitos reservados
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Crônica Tenini

OS OVNIS.
Não vi os ovnis que apareceram pelos céus de Porto Alegre, há alguns anos atrás. Mas eu poderia tê-los visto porque ando sempre nas nuvens...
Acontece que moro numa encosta de um morro e o céu invade lindamente o meu habitat com panoramas divinos que só a mão de Deus poderia criar.
Os pássaros voam à altura dos meus olhos e as copas das árvores são convites para que eu pouse ali os meus pensares.
Então, não me conformo que, naquela noite, não tivesse aberto as persianas, como faço com frequência , para apreciar o luar.
Naquele dia eu estava tomada por uma sonolência tão grande que dormi profundamente até cerca de meia noite. Lembro-me que, pelos furinhos da persiana, divisava-se uma intensa claridade que me deixava inquieta.
Tinha ímpetos de levantar-me mas logo voltava a adormecer. Sonhava que percorria pelos espaços celestes a procura de um amor de milênios e o encontrava vindo em minha direção, com olhar penetrante e iluminado.
Uma força contrária nos levava para trás e interpunha caminhos desconexos que me faziam perder por atalhos sem comunicação, como num jogo de labirinto.
Não, não vi os ovnis. Talvez o amado de milênios estivesse naquele dia, num deles, porém o descompasso de tempo impediu nossa aproximação.
É possível que eles retornem hoje, amanhã ou depois, neste século ainda.
Estarei esperando no topo de uma gigantesca árvore, uma guapuruvu dourada, entre nuvens. E, quando um ovni estender seu rastro de luz entre planetas, saberei que é o meu amado de milênios que estará, de braços abertos, a minha espera.
Seguirei confiante pela faixa de luzes e nos encontraremos, emocionados e felizes, dentro de uma noite cintilantemente estrelada.
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SANTO ANTONIO-milagre da carta-Tenini
nos regatos e cachoeiras,
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COLOMBINA- des. Tenini
FANTASIA DE CARNAVAL.
Tenini
Queria fantasia,
fantasia de carnaval.
-"Cadê dinheiro, menina,
pra fantasia de carnaval?"
Mãe de
coração inquieto
inventa
fantasia de papel crepom.
Toda empiriquitada,
vai
a Colombina de papel crepom.
Pernas finas, bem pintada,
vai
brincar no carnaval.
Vem o mano e
pela mão,
leva a menina
pro concurso do salão.
Rainhas, princesas,
odaliscas, borboletas
e bailarinas,
em mil
lantejoulas e paetês
brilham no concurso do salão.
Pobre Colombina, ali está
tem de ficar.
Uma a uma,
vão passando as meninas,
entre gritos da multidão.
Sim e Não.
Gelada, vai a Colombina
pra frente da multidão.
-"É essa? pergunta alguém?
-Não, responde em coro e bate-pés ,
o povo do salão."
Foge a Colombina e
nos olhos,
lágrimas
em mil brilhos,
estrelas cadentes...
Vão soltando,
vão voando,
Vão sumindo
pedacinhos coloridos
do papel crepom. |

Vaso de flores- aquarela Tenini
Ventanias de Janeiro.
Decididamente não gosto do verão com seus calores insuportáveis que beiram os 40 ° e um sol causticante, que vem nos surpreendendo a cada ano mais severo.
Sou mulher dos outonos e das primaveras, por isto recebo Janeiro sem muito entusiasmo.
Mas como tenho viajado desde o final do ano passado, tenho encontrado nas cidades onde vou, chuvosas e com ventos fortes que refrescam o ambiente.
Aqui estou num dos meus ateliers que mais parece um escritório, com a janela descortinando o lago com uma amplidão que muitos gostariam de desfrutar e os ventos começam a entrar em lufadas frescas.
O dia ora está cinzento, ora ensolarado, como se o Sol estivesse indeciso, preguiçoso...
O abacateiro que vislumbro da janela está com frutos em andamento, prometendo uma safra pequena para abril ou maio. Digo pequena porque não sei se aguentarão a ventania que de vez em quando sopra por Porto Alegre. No início da primavera, ele floresceu como nunca e tive a intuição de que a safra seria enorme e que eu poderia distribuir abacates pela vizinhança, para amigos e nas vilas pobres que nos cercam. Mas dezembro também ventoso , de uma tacada, derrubou mais de 200 frutos que iniciavam o processo de crescimento. Depois, surgiu uma peste que derrubou muitas folhas e agora ali está para que eu o cuide com olhos maternais.
Ontem, dia de Nossa Senhora dos Navegantes, choveu em pancadas, mas não impediu que o povo religioso homenageasse a Santa, padroeira dos navegantes.
Mas, aqui, do outro lado da cidade, não se vê a procissão de barcos e veleiros que acompanharam a travessia da Santa até a Igreja. Lá, aconteceram os festejos de sempre com muita religiosidade e um toque de orgia pagã...
Recebo um mail de uma amiga que pergunta por alguém que passou por minha vida.
Afastei-me porque a diferença de idades era muito grande, não lamento esta decisão porque não sou doidivanas como alguns pensam que seja.
Esperar que a fruta amadureça é tarefa para o meu abacateiro...
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Modelo vivo - Des. em pastel seco - Tenini
ARTE, ESTA FELIZ COMPULSÃO.
Tomei conhecimento de duas notícias que me deixaram muito feliz e, creio, a todos artistas .
A primeira refere-se ao "boom" da Arte nos Estados Unidos.
Depois de muitas desilusões com a Bolsa e a guerra, os americanos voltam seus olhos para a Arte, mesmo a Contemporânea e estão investindo firme na aquisição de quadros com preços astronômicos para os nossos padrões. Compram , inclusive, obras de artistas emergentes que devem estar alegres com esta "explosão" que vem livrar de preocupações os que vivem da Arte.
O Soho, bairro nova-iorquino onde estão grande parte das lojas de arte, deve estar exultante. Lá, os preços são altos, mas todos podem comprar obras pelos cartões de crédito, em prestações...Acredito estar havendo um fervilhante mercado de compra, revenda e troca de obras, segundo observei, quando de minha estada naquele país.
Acredito que isto refletirá mundialmente, inclusive aqui no Portynho onde os artistas vem amargando falta de compradores para suas obras, há tempos. Alegar-se que os tempos estão difíceis, discordo, há grandes fortunas por ai, consolidadas ou em formação. O que falta mesmo é Cultura pois é sabido que os "nouveau riches" quando vão à Europa compram reproduções de pintores famosos, especialmente impressionistas colocando-as em belas molduras... O europeu que se preze só coloca nas paredes de sua casa, obras originais.
A segunda notícia refere-se à divulgação de uma pesquisa realizada na Itália pelo Instituto de Psicologia Analítica de Roma. A pesquisa revela que "para se ter uma vida mais saudável, um intelecto muito mais ativo e combater a depressão, basta amar a Arte e conviver com ela." Eu nunca duvidei disso, pois sinto-me feliz em dedicar-me à Arte, em suas várias manifestações e gozo de um bem estar físico e espiritual que nenhum remédio teria melhores resultados.
A pesquisa foi realizada entre as idades de 20 a 35 anos resultando num surpreendente resultado de que os amantes da Arte são quase três vezes mais ativos que os demais. Empenham-se mais em questões sociais e estão mais satisfeitos com as tarefas que executam.
São superiores intelectualmente e não têm problemas de auto-estima.
Massimo Cicogna, psicólogo e antropólogo italiano, diz que a Arte faz bem ao amor pois os casais que convivem com a paixão pelo belo têm uma cumplicidade erótica mais elevada que os outros, na proporção de 66% contra 37 %. Em casos de depressão, superam mais facilmente tal situação em 78% dos casos.
O grupo de especialistas que está sendo liderado por Cicogna é o mesmo que identificou a Síndrome de Rubens, descrita como uma série de impulsos sexuais que atingem os visitantes de museus, durante o momento que estão contemplando determinadas obras de Arte.
"É um estado de ânimo que se cria durante uma visita a um museu, sensação de êxtase que somente uma obra de arte pode estimular" explicou Cicogna. Entre os museus pesquisados o mais excitante, segundo o grupo, é o Palácio Doria Pamphili, de Gênova, onde se encontra o famoso quadro de Rubens, conhecido como Sátiro. A Galeria Borghese, que fica em Roma, situada no esplendoroso palácio do mesmo nome, encontramos pinturas e esculturas renascentistas de artistas consagrados e até menos conhecidos. Jamais esquecerei as esculturas em mármore de Bernini de extrema beleza, como O rapto de Proserpina e a de Apolo e Dafne.
A Galeria Borghese foi considerada, pelo grupo de Cicogna, a mais romântica pelo clima dos visitantes que arrulham diante dos quadros como pássaros na primavera...
Ronald Reagan, quando Presidente dos EUA, declarou que Arte era coisa para Primeiro Mundo, como se talento tivesse nacionalidade ou parâmetros econômicos.
Mas há tempos li uma pesquisa de uma psicóloga inglesa que taxou os artistas de "loucos"... excêntricos, egocêntricos... loucos lúcidos, geniais, concluiu ela.
Sabe? Concordo com ela, só louco mesmo ou visionário atreve-se a viver de Arte, mas haverá fortuna maior do que o bem estar que ela transmite e o parafuso frouxo que impulsiona nossa liberdade de criação para pressentir um Bem, além do horizonte azul?
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