NO RESTAURANTE
Uma imagem, uma presença,
um cigarro e um copo.
O barulho dos presentes,
nos azulejos o azul
nas cadeiras os pregos.
No corpo o dolorido
que se esquece de repente.
Teresa David/2009
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BAFO
Gostava de ser feita de ar
Envolver os corpos que amo.
Soprar ao ouvido palavras sábias.
Nos telhados pousar,
refrescar os encalorados,
aquecer de bafo quente
os que gelam ao luar.
Teresa David/2009
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CORPO
Olhos vítreos manchados de rosa,
Na veste preta sobressai a pele
No sobe e desce dos braços
que se trocam por um beijo ao acaso.
Teresa David/2009
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PLANETAS
Na bacia a água verde
que me tinge a cútis
torna-me uma extraterrestre
nos Planetas do Além
onde vou encontrar
finalmente, o meu par.
Teresa David/2009
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GARRAFA
No fundo da garrafa
resta o vazio
No corpo o ânimo tinto
Ah quem dera segurar as esferas
que me fazem girar até ao âmago.
Nele permanecer cheia de esperança
de que a eternidade existe.
Teresa David/2009
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TOQUE
Na pele a etnia
Nos pés o sopro
cabelos que voam
sem vento
mãos que se entrelaçam
roçar de calos viscosos
do trabalho que se inventou
Teresa David/2009
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MOVIMENTOS
Um corpo, um gesto,
uma anca que rebola,
esquecimento do momento,
reviver sem instante.
Renovar continuando.
Estar viva é estar presente
arriscando as agruras.
Teresa David/2009
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DESABAFOS
Escrever é esquecer
que existo.
Inventar Mundos melhores, ou não,
conforme a disposição!
Ficar em êxtase por nada,
não chorar nunca.
Guardar as lágrimas engasgadas.
Deixar o corpo sofrer
pelo que não aconteceu.
Babar-me de espanto
pelo que não quis.
Esperar longamente pelo amanhã.
Teresa David/2009
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A QUINTA
Do vulcão saiu a espuma
que me lavou o peito.
Galinhas cacarejam
em torno de mim,
entre o esterco e o céu.
Ali, junto à cerca
os gigantes chamam-me.
Surda, ouço apenas
o movimento das folhas.
Teresa David/2009
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MOMENTOS
Cheguei do nada
Cresci no fumo.
Em camas efémeras
me deitei.
Perdi-me na bruma
entre rostos desfocados.
No cárcere me fecharam
esperneando e a gritar.
Da janela voei
até ao encanto
do desconhecido.
Teresa David/2009
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LÁBIOS DO INFERNO
São carnudos, vermelhos de guerra
Neles pousam os pássaros
arvorados em gente
que se sente
Húmidos são de desejo
Quando se deixam penetrar
por um corno
Os lábios são carnudos
Mas fechados
para quem não amam
Teresa David/2009
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A SENHORA DOS ANÉIS
Entre os diamantes e safiras
os zircões e o âmbar
as pérolas e os rubis
as esmeraldas e o ar
nos dedos resplandecentes
vivem os caprichos reluzentes
da futilidade do ser
que se gosta de enfeitar
na alegria de viver
Teresa David / 2009
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foto retirada da net
LE ROUGE
Entre a desistência não desejada
o tinto ressurge,
com o branco a desfazer-se em cinza.
O vidro tinto pelo néctar
a palavra que se diz
ou balbucia
A vida paralela
de quem deseja devorá-la.
Teresa David
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LIQUIDO E ROSAS
Nos copos despejados
a cumplicidade cresce.
Enfeito-me de ar e gelo
praticando o frio
no morder do sorvete.
A cumplicidade continua
nas 21 rosas
que me tombam no regaço.
Teresa David
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O Funeral
Ângelo olhou para o espelho e viu as longas melenas niveas a aflorarem os ombros.
Pensou:- Tenho de ir ao barbeiro!
E se bem pensou logo o fez.
Sentado na cadeira ao som da tesoura e do ligeiro ruído provocado pela queda dos flocos de neve, começou a pensar que a idade já avançava, a vida excessiva era de risco e que detestaria dar trabalho aos outros com a sua morte.
Com a cabeça mais leve, mas determinado, dirigiu-se de imediato a uma Agência Funerária que viu na mesma rua.
Bom dia, pode mostrar-me o catálogo dos vossos serviços fúnebres? - perguntou.
O empregado vestido de preto e com o cabelo repuxado para trás por gel extraforte disse: - É para senhora ou senhor, algum seu familiar?
Não, é para mim! - respondeu o Ângelo.
Embora com um ligeiro esgar de espanto, apresentou-lhe um enorme catálogo onde constavam caixões para todas as bolsas, desde os mais simples de pinho, até aos de madeiras nobres ornamentados com ferros brilhantes.
Após algum tempo de consulta o funcionário abordou-o para lhe dizer que teria de responder a um pequeno questionário:
Qual a sua idade?
Que ocupação tem?
Nesse preciso momento fez-se luz nos seus pensamentos e afirmou, olhando o homem directamente nos olhos: Poeta, e se como penso os poetas são imortais é descabido dar-lhe dinheiro a ganhar pois o mais provável é viver eternamente!
Boa tarde e passe muito bem!
Atônito, sem palavras ficou o vendedor com um braço no ar que paralizou e, o outro, agarrando o enorme cardápio da Morte.
Teresa David
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foto retirada na net
O ARMÁRIO DAS PERDAS
Como um armário o corpo deveria ter gavetas.
Nelas guardaria as mágoas fechadas á chave,
no compartimento dos sentimentos
não partilháveis.
Os ferrolhos enferrujariam
na voragem do tempo.
Restaria sempre no corpo
a pequena alfinetada
que ainda se espetaria no peito,
quando alguns rostos aflorassem a memória.
Outubro 2007
Teresa David
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NÃO AO FUNDO DO TÚNEL
As nalgas gelam
no mofo da pedra
As bombas atómicas
tornam-me o sangue verde
No delírio dos olhos
fechadamente abertos
A claridade intensa inunda-me
Não do fundo do túnel
mas de dentro de mim

Janeiro 2009
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O ROMEU
O Romeu Correia até tinha Julieta e tudo, não como amor de perdição, mas sim, como filha.
O seu afecto conjugal ia para a Almerinda Correia, que tinha sido campeã de atletismo nos seus tempos áureos de jovem de longas pernas e cabelos revoltos.

Almerinda Correia exibindo as suas medalhas
Quando se juntaram – segundo me contou o Romeu – o dinheiro era exíguo, daí quando ele recebeu o primeiro ordenado como cobrador do BNU, cobriu o corpo desnudo da mulher com as notas do ordenado. É verdade que nesses tempos se recebia em dinheiro num envelope, também assim recebi o meu primeiro salário de bancária.
Conheci-a, já no papel de companheira apagada, do seu fogoso marido que era um exímio contador de histórias carnais.
Ironicamente, já que vivo há 30 anos em Almada, foi no Café Império, junto ao elevador de Santa Justa, já destruído, para se tornar mais uma casa de hambúrgueres, que me cruzei com ele, sentado sempre numa mesa ao fundo junto á janela, onde escrevia e falava só com as suas letras.
Nem sei bem como, um dia cumprimentou-me, talvez por já me conhecer de vista, pois era assídua do local e, acabei por diversas vezes me sentar na sua mesa, para ouvir as suas histórias dos tempos que fora lutador de boxe, estas ilustradas por fotos em pose de lutador com as luvas calçadas e tudo!

Equipado para um combate a lutar em brincadeira com a Almerinda
Eu tinha na altura 18 anos e, as reviravoltas da minha vida fizeram com que só o voltasse a ver, quando, já vivia em Almada, volvidos 10 anos.
Facilmente o reencontrei em eventos ligados á cultura e percebi o respeito que a cidade lhe tinha, tanto que tem uma rua, uma escola secundária e um fórum em Almada com o seu nome.
Gostava de tomar café comigo e o meu companheiro e contar-nos aquelas histórias escaldantes que certamente não haveria muita gente a quem poderia relatar, inventadas ou não, dentre as quais destaco a da cigana que tocava castanholas quando atingia o orgasmo!
Anos atrás, mais concretamente em 1996, encontrei-o no centro da cidade de Almada, branco como a cal. Um arrepio percorreu-me o corpo porque lhe vi a morte na cara. Faleceu dois dias depois de ataque cardíaco.
A cidade ficou menos colorida.
Teresa David-fotos retiradas da Net
Bjs
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Teresa David
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URSULA
De pequenina depressa o seu corpo franzino percebeu que a vida não seria fácil.
Seus Pais, fortemente envolvidos na luta contra o regime de Salazar, enviaram-na, por portas travessas, para a União Soviética, onde ficou a estudar e fez o Curso Superior de Canto.
É um rouxinol que o seu padrinho, Álvaro Cunhal, adorava ouvir.
Eu também.
Conheci-a, após o seu regresso em Maio de 74 a Portugal, após muitos anos de União Soviética e algum tempo em Paris, num Restaurante que explorava com o seu companheiro, sito no Pragal de nome “O Forno de Cima”. Aí falava com ela sobre as agruras da maternidade e vida doméstica, porque a Úrsula, conhecida como Luísa Basto, pseudónimo que adoptou, desdobrava-se na limpeza do restaurante, da sua casa, acudir aos 5 filhos, uns dela em comum com o companheiro e um só dele, outro só dela e do José Jorge Letria, aos cozinhados, que praticamente fazia só.
Por volta da meia-noite desaparecia, tirava o avental de cozinha, pintava-se, penteava os fartos cabelos e, reaparecia, geralmente vestida de negro, como borboleta saída dum casulo.
Mal a sua voz se lançava no ar um arrepio na espinha me percorria, bem como a todos que a escutavam. Nunca na vida até hoje, ouvi, uma voz tão límpida e potente como a dela.
Contudo, parece que nunca levou muito a sério o seu talento, porque, salvo os convites muito esporádicos para programas alusivos ao 25 de Abril, ferrete que se lhe colou á pele pelo facto de ter dado voz ao Hino do “Avante”, onde a sua sonoridade é bem notória, alguns CD gravados sem grande divulgação e o LaFéria se ter lembrado dela para fazer de Amália no Musical depois da saída da Alexandra, resume-se á sua vida doméstica.
Tentei amiúde, infrutiferamente, ver mais além da concha onde se fechava, numa cara de tragédia não contada.
Uma das últimas vezes que a vi e trocámos um mero aceno, foi no dia do velório do Álvaro Cunhal, onde estava numa fila gigantesca, incógnita como sempre, apesar de ser quase como uma filha para o falecido, que vinha ao barbeiro ao Pragal e lhe pedia para lhe comprar a roupa, porque além de não ligar nenhuma ao que vestia, não tinha o mínimo jeito para o fazer.
Tenho o seu número de telefone e ela várias vezes me disse para aparecer, no entanto, a sua forma de ser tão fechada fez com que nunca tenha telefonado, malgrado a admiração que por ela tenho.
Por vezes tento saber por onde anda a cantar, mas ninguém sabe, pelo que apenas a apanhei, por mero acaso, há dois anos, após uma ida ao teatro, onde o Mestre Relojoeiro, sobre o qual escrevi algum tempo atrás me disse, que ela estaria a cantar fado numa cooperativa na Cova da Piedade, gratuitamente, naquela noite, na sua militância constante.
Se quiserem ler uma biografia que acho bem feita acerca da sua pessoa, podem ler aqui:
http://www.macua.org/biografias/luisabasto.html
Teresa David

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O MARAJÁ
Na cabeça, o cabelo como cabeleira empoada da corte de Luís XIV. Os olhos, bichos de conta, a olharem-nos sempre com simpatia, mas também, com um brilho arguto. A tez escurecida pela origem goesa.
Falo do Orlando Costa escritor que conheci uns vinte e tal anos atrás na sua meia-idade teria cinquenta anos. Apesar de não ser muito conhecida a sua obra já lera um livro dele chamado Podem chamar-me Eurídice que me lembro ter gostado bastante.
Era devotado á sua cor política, o PCP, apesar de ser originário de família nobre e abastada, daí os amigos com amizade, mas convenhamos, também com algum sarcasmo lhe chamarem O Marajá, indo todas as 4as feiras religiosamente ás reuniões do núcleo de intelectuais a que pertencia. Chegava sempre com aquele sorriso afável que o caracterizava porque aproveitava esse dia para poder escapar ao jugo matrimonial e, ir até ao Ribadouro com os seus correligionários comer e beber. Manter-se-ia fiel ao Partido até á sua morte, poucos anos atrás.
Nos anos 50 esteve 3 vezes preso por apoiar a candidatura de Norton de Matos, mas também por militar a favor da paz.
Nunca fui a uma manifestação do 1º de Maio ou 25 de Abril que não me cruzasse com ele cumprindo o seu ritual partidário.
Não falava muito, porque a sua boca se encontrava ocupada a maior parte do tempo por um cachimbo de boa madeira que mordiscava e aspirava o fumo de quando em volta, mas quando o fazia era sempre para dizer algo que nos calava para o ouvir, ou para apaziguar algum animo mais exaltado.
A sua personalidade transbordava na escrita sempre social mas também onírica, onde o respeito e a admiração pelo feminino eram sempre visíveis.
Gostava de ouvi-lo, do seu sorriso rasgado, da sua afabilidade, nunca o vi em estado de embriaguez nem a fazer desacatos.
Recordá-lo-ei sempre em particular, quando veio ao funeral do meu companheiro e, como era sempre costume de cada vez que nos juntávamos para ir assistir ao enterro de algum amigo nosso, organizou o almoço de despedida em homenagem ao falecido.
Depois disso apenas o vi 2 ou 3 vezes no Rossio em concentrações em defesa do final da Guerra do Iraque.
Ah! E já agora, para quem não saiba, era o pai do ex-ministro e actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa e do jornalista Ricardo Costa da SIC.
Teresa David
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O POETA E A ACTRIZ
Ao ver no Biography Channel uma entrevista com a Eunice Munoz não pude deixar de me lembrar das vezes que com ela estive, ou nos bastidores do Teatro Nacional D. Maria II ou em Almada quando visitava o Teatro.
O meu companheiro foi muito mais próximo dela do que eu que me limitei a fortuitas conversas de banalidades e particularmente de filhos, assunto recorrente na sua conversa.
Mas sempre senti a sensação que era uma actriz 24 horas por dia, compondo uma personagem a cada momento.
No entanto, falo aqui dela mais por me ter lembrado do seu marido António Barahona, poeta do grupo do café Gelo, a par do Cesariny, António Maria Lisboa, Raul Leal, Herberto Hélder, e tantos outros entre os quais o pai do meu filho. Conheci-o pessoalmente mas nunca troquei uma palavra com ele, talvez por me sentir intimidada com o seu aspecto reservado ou porque não saberia do que haveria de falar. Daí ter estado sentada a seu lado algumas vezes na tertúlia do Largo da Misericórdia, ouvindo os outros sem nada dizer.
Conheço a obra dele e gosto particularmente do poema que fez dedicado á sua mulher da altura, a Eunice, que transcrevo para ajuizarem do seu talento e qualidade.
Curiosamente o grupo do "Café Gelo" tornou-se pouco conhecido, salvo de uma elite de gente ligada á cultura e jovens universitários que estudam o surrealismo como forma de rebeldia social.
Mas, ao fim ao cabo, o que me levou a pensar escrever este texto foi mais exactamente descrever uma situação curiosa passada após a ida á Índia da Eunice com o Barahona. Ela tinha-se convertido por paixão ao seu amado também ao islamismo, como ele tinha feito em 1975 e vestia-se com trajes indianos, lembro-me de a ver a descer o Chiado dessa forma vestida de mão Ao dada com o companheiro.
Segundo me contava o Virgílio a Eunice quando recebia visitas, pelo menos nessa altura, fazia sempre fondue. Entre um garfo na caçarola e outro, o Virgílio perguntou á Eunice se tinha gostado de estar na Índia. Antes disso, o Barahona tinha acaloradamente falado de tudo o que tinham vivido e conhecido nesse País que era a sua paixão do momento.
A Eunice com aquela expressão contida com que sempre fala numa pequena frase foi eloquente, quando afirmou: bem, as crianças tinham tantas moscas nos olhos e na boca!

Em cima, da esquerda para a direita: Lima de Freitas, Mário Henrique Leiria, Eunice Muñoz, Fernando Alves dos Santos e Mário Cesariny de Vasconcelos. No plano inferior, da esquerda para a direita: Arthur do Cruzeiro Seixas, António Barahona e Diogo Caldeira . Foto de 1978.

PÁSSARO-LYRA DE ANTÓNIO BARAHONA
Contemplo Eunice voltada para a luz olhos nos olhos do Solcomo nenhuma águia até hoje se atreveu
E orquídea de altitude demiurgaigual a Beatriz no diadema aos lábios de perguntas a resposta silencia amorosa e lucilante:
Já não pisas a Terra, filho d'Alighieri
Vastas orbes de Anjos sexuados em amor sob os plátanos de lenda adormecem aos pares no leve vácuo
Ó mulher que eu exorto e me confunde sem teu múrmuro, doce consentimento na paixão reesculpida tantas vezes!
A pedra renasceu do Invisível e o inédito escopro a atacá-la: islâmico destino sem mudança,infalível, dirigido, matemático
O Paraíso na Terra é este quarto:céu de fogo, Rosa branca, Rosa mística,hierarquia de pétalas e espírito,objectos femininos sobre as nuvens
Uma aurora boreal, águas de riso,cotovias nas vergônteas, extenso prado e um luar de serena palidez nas antigas pupilas do piano
Paraíso particular ou ilha estanque furtada d'além mar, onde se abrir alcova de nítido crepúsculo em gravura de tons ácidos em áscua
É meio-dia. São dez cantos. Eis a hora florentina da virtude e o número pitagórico da origem. Recomeço a ascensão, o êxtase inúmero
Ó dilema dos Infernos e Empíreo,duas forças na balança em equilíbrio,o desígnio da Musa é que me vence:completo subirei com gravidade
É meio-dia. São dez cantos. Eis a horada sagrada, maviosa morte álacre e Eunice vindoura tem assentoria Rosa eternamente reflorida
O amor é o rei destes lugares,o Profeta conduz a caravana,os guerreiros de Deus bebem frescura e Buda na corola da Rosa branca
com Cristo, a Mãe Geral e Gabriel,coroam a Eunice e a Beatriz De címbalos adornam as hetairas e os poetas da danação meticulosa
Paraíso Prometido, minha casa sobre a rocha edificada, com raizes,a mesa onde me estudo, leio tudo,canavial de livros e poema
É meio-dia. São dez cantos. Eis a hora
Je mange Eunice em atitudes altas,na furiosa água materna, aliterado,entoando o zejel mouro espanhol Ad vitam aeternamos lábios, os gritos, o musgo da voz florido!
Oh beijos medonhos, oh ciclone-júbilo,risos potáveis na aurora fatigada,corpos conversados lado a lado exaustos,cicatrizes, pancadaria de sangue!
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Gosto desta poesia poderosa com a força das convicções e sentidos! Mas gostos não se discutem e nem todos têm esta forma de apreciar as palavras!
TERESA DAVID
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Depois do interregno obrigada pela doença que me reteve no hospital, volto á escrita e a colaborar neste espaço que tanto me apraz e considero também uma parcela meu.

RODIN E CLAUDEL
A viagem mais fatigante que fiz até hoje foi a ida a Paris. Passo a explicar porquê: A ânsia de visitar todas as ruas que pertenciam ao meu imaginário de devota da cultura francesa, nomeadamente dos existencialistas, em particular da Simone de Beauvoir, mais do que o Sartre, que mesmo assim li grande parte da obra, dos surrealistas, com destaque para o Antonin Artaud, a pintura, os museus. Enfim, tentei em 5 dias ver tudo o que um mês não daria para fazer.
Depois de me matar um dia inteiro pelo Louvre, Museu Picasso, Orsay, dirigi-me ao Museu Rodin, levando dentro de mim um certo sofismo em relação a ele, por achar que destruiu completamente em termos humanos a companheira, Camille Claudel, que me parecia ter tido muito mais talento e sensibilidade pelo que já tinha visto em imagens da sua obra.
A obra dele começa logo a evidenciar-se nos jardins bem tratados e com o gigantismo e a força necessárias para não se ficar indiferente.  
Dentro do edifício vi a famosa escultura do "beijo", "as mãos" em posição que mais pareciam um pássaro a levantar voo e o incontornável "pensador". 
Contudo, ao penetrar na sala onde se encontra a obra da Claudel, quase tudo o que tinha visto antes se ofuscou com a dureza de uma verdade nua e crua de algumas das pequenas esculturas que vi, a par com a beleza das formas de outras. 
Perante a constatação de tanto talento e sensibilidade confirmei dentro de mim, que, muito possivelmente, se tivesse sentido diminuído perante a obra da companheira e isso o tenha levado a interná-la num hospício até á morte. Mas também pode ser tudo uma enorme aleivosia e ela ter sido alguém realmente com problemas.
Resta a obra e tentar através dela traduzir o que aqueles seres terão sentido na sua passagem neste Mundo.
Falar deste casal fez-me recordar um caso que julgo, em termos de competitividade entre os dois ser idêntico, que será o Almada Negreiros e sua mulher Sarah Afonso, cuja obra me pareceu sempre de enorme qualidade mas ofuscada pelo marido. Mas isso é outra história, pelo que por aqui me quedo.
Teresa David
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O GRANDE SALTO
Com as vertigens por companhia
Da montanha saltei
Do fundo do Mar emergi
Respirei
Na terra rastejei
Procurei as peças
Do puzzle que me compunha
Restaurei-me completamente
Todas as agruras ficaram para trás
Afundadas na água
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LÁ LONGE
Muito ao longe,
Além do que a vista alcança,
Estás tu á minha espera.
Não reconheço feições nem porte.
Talvez humano, quiçá miragem
Mas a certeza que ficarás aí,
Estático, sem pressa, nem ansiedade,
Faz-me sentir segura do reencontro
Teresa David
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VAZIOS (1)
Os longos cabelos
Tapam o buraco vazio
Miolos sugados
Pelos vampiros
Um torpor qualquer
Alojado no corpo
Imobiliza-a
Resta o olhar vago
Que não alcança o infinito
Teresa David
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VAZIOS (2)
Fortes braçadas no tinto
Longa dentada no queijo
Da boca saem palavras
Não ouvidas
Nas pernas a tremura
Nos olhos o vitral
A escuridão que desceu
Apagou a luz dos sentidos
Teresa David
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quadro a pastel pintado pelo meu filho Francisco Martinho
EU, BRUXA
Na vassoura montei
com o gato ao pescoço
Mergulhámos até ao dia
onde o gato preto
me levou pela mão
Teresa David
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Foto tirada na Internet
URBANIDADE 1
Quadrados cerrados
por persianas estanques
O adivinhar de guerra
ou de corpos entrelaçados
A criança dormindo
O velho ressonando
Alguém que exala
o último suspiro
sem ninguém por isso dar
ou simplesmente
uma divisão vazia
Teresa David
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Foto dos meus gatos
OS MEUS FELINOS
Príncipes na altivez do porte
No olhar de comando
Próximos nas lambidelas reciprocas
Guerreiros na contenda
da soberania do território
Companheiros sempre
Expando neles o olhar
até que o sono me assalte
e me encontre aconchegada
Teresa David
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Pintura de Carole Estrup
AS NINFAS
Fizera há pouco tempo 15 anos e meus Pais nunca me tinham autorizado saídas á noite.
Mas tinha um primo em quem os meus pais confiavam incondicionalmente.
Com muitas explicações acabou por conseguir autorização para o acompanhar a um jantar de intelectuais.
Este primo era de uma precocidade enorme, tendo aos 10 anos publicado um livro, o único, e, cedo se tornou alguém bem conhecido quando fundou a Assírio & Alvim, que ainda hoje edita obras com enorme critério de qualidade. Era, e é, o Alvim. Acabou por se ligar ao mundo editorial e percorrer em postos de chefia quase todas as grandes Editoras Nacionais.
Ainda continua no ramo.
Aquele jantar pareceu-me bastante estranho na medida em que não entendia quase nada do conteúdo das conversas que se atropelavam sobre a mesa, logo, após alguns copos de vinho que nunca bebera, quando um falecido crítico de Arte, em particular de Dança, de nome Tomáz Ribas, que era gay e tinha um fraquinho pelo meu primo, propôs irmos todos para um bar nas Avenidas Novas propriedade de um actor, que por coincidência era casado com uma professora de bailado com a qual eu tivera aulas de dança, casamento que acabou em divórcio apesar de ter restado uma enorme amizade, mas ele era inequivocamente homossexual, saltou-me logo o pezinho e com uma euforia quase infantil gritei ao ouvido do meu primo: Vamos, vamos!
Como já foi dito atrás, eu nunca bebera álcool antes. Aqueles dois copos de vinho já me tinham deixado uma ligeira névoa em volta da realidade, contudo, não a suficiente para que não recorde até hoje, o que a seguir presenciei.
Um toque na porta fez acender uma luz azul, o que me despertou a curiosidade e fez voltar para ver quem iria entrar.
Quase caí do banco onde estava sentada quando vejo entrar o Rudolf Nureyev seguido por meia dúzia de jovens rapazes, todos, incluíndo ele, vestidos com túnicas transparentes, collants, e coroas de louros.
Pensei de imediato: - Quem me mandou a mim beber vinho! Será mesmo ele?
Cochichei para o meu primo: - É quem estou a pensar?
Ele confirmou com um discreto aceno assertivo de cabeça, fez-me sinal com o dedo nos lábios para nada dizer.
Calei-me sim, mas olhei-o directamente nos olhos com um olhar que deveria ser no mínimo esbugalhado de espanto e admiração! Tinha-o visto nas vésperas a dançar no S. Luís com a Margot Fontaine.
No palco parecera-me completamente inatingível, qual deus voando sobre montes e riachos. Agora estava diante de mim, a uma distância que se esticasse o braço poder-lhe-ia tocar, sorrindo-me e a enviar-me um leve beijo com a ponta dos dedos.
Quedei-me sem ouvir nada do que se falava na nossa mesa. Apenas devorava com o olhar tudo o que se passava em meu redor.
No entanto o que se seguiu foi bem terreno e carnal. Todos se tocavam cada vez mais, na devida proporção dos copos que iam deslizando pelas gargantas.
Mesmo a parecer algo a aproximar-se dum bacanal, aquelas ninfas brancas de braços esquálidos, mãos delicadas, nunca me pareceram raiar a obscenidade, mas sim a exibição do prazer dos sentidos.
São quase 5 da manhã! - Sussurrou-me o meu primo ao ouvido.
Foi como se um estalar de dedos junto ao meu tímpano acontecesse. Senti-me como uma Cinderela tardia.
Ai que os meus Pais nos vão matar! - Comentei alto demais, num pânico que me fazia tremer as pernas.
Saímos discretamente, sem que nenhuma daquelas etéreas e altamente embriagadas personagens desse pela nossa ausência.
Claro que a chegada a casa não foi nada bonita, mas abstenho-me de a relatar para não provocar um aviltamento àquelas horas mágicas que vivi nessa noite iniciática e longínqua.
Teresa David
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OS MEUS FANTASMAS
Espreito às portas dos cafés
Transparentes, com feições etéreas.
Ninfas assexuadas e machos castrados,
Enormes olhos azuis, verdes, castanhos.
Bocas carmins pintadas a sangue
nas mãos as folhas brancas esvoaçantes.
Aproximo-me e o meu corpo trespassa-os
deixando-me perfumada de jasmim
e fica-me no corpo o frémito
de ter penetrado a eternidade.
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Foto de Teresa David
A CAMA DESFEITA
É com o corpo que me entendo
Que exploro os meus anseios
Quando as pernas se enroscam
E os braços se enleiam
Das bocas entreabertas
Com o peito a arfar
Soltam-se gemidos, palavras
Enquanto me olhas nos olhos
Sem deixar de respirar
É na expressão de um rosto
Que a exaltação mais se sente
Nesse quase desfalecer
Nesse desejo fremente
No final da jornada
Com a cama toda desfeita
Fica a ternura, o enlevo
De uma mulher satisfeita
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O CANHÃO
Amor, amor em anos-luz de fogo,
de fogo arquitectura da terra ao voo,
e voo, vou á lava dada ou retirada.
Oh! Asa
Quando no ventre o canhão desperta,
se incendeia e dispara,
o meu corpo em chamas se consome!
Amor, amar, Amor
é tristeza,
é banho de espuma
onde quero mergulhar,
és tu, Natureza!
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O TRIBUNO DE ROMA
Aqui, o cenário muda, e ao invés da Baixa, rumemos ás Avenidas Novas, mais exactamente, á Av. Fontes Pereira de Melo, outro local onde se juntavam pessoas para são convívio, comida e bebida.
Hoje em dia, ironicamente, acabei por trabalhar dez anos nessa zona, na década de 90, todas as minhas referências dos sítios que me encantaram, pelas pessoas, e por eles próprios, desapareceram.
Cito o Café Monumental e o Convés, onde os actores, e noctívagos espectadores de Teatro, iam cear todos juntos, e onde permaneciam até alta noite.
O primeiro, foi engolido pelo Centro Comercial Monumental, e o segundo transformado em mais um desses restaurantes que proliferam pela cidade, incaracterísticos, que sempre me parecem casas de banho, devido aos azulejos que guarnecem as paredes de tais "comedouros" de pizzas e hamburguesas.
Mas o local desta narrativa não é nenhum dos que acabei de citar, mas sim o Monte Carlo, agora Zara, com bilhares ao fundo, zona de restaurante, zona de café, e até quiosque á entrada, para comprarmos os jornais, ou revistas, que iríamos ler enquanto bebêssemos a bica.
Por lá paravam cineastas, o Mário Castrim, cliente diário, alguns escritores, poetas, gente assídua, mas anónima, e o Sr. Machado, Tribuno das Legiões Romanas.
Neste passo, certamente todos que lerem esta história ficarão curiosos, logo, passo a explicar, para não deixar ninguém ansioso!
Eu estava habitualmente no grupo dos escritores e poetas, pois cedo comecei com eles a conviver, mas um dia, alguém me disse: Vou apresentar-te ao Sr. Machado.
E assim foi.
Mal o conheci, fiquei fascinada pela sua figura de homem alto, muito magro, com uma expressividade enorme no rosto já sulcado por algumas rugas, fruto dos seus sessenta anos, ar de pessoa socialmente bem nascida, e um adesivo grande na orelha esquerda.
Sempre fui desbocada, defeito que me trouxe muitos amargos de boca ao longo da vida, e que ainda hoje tenho dificuldade em controlar, pois as palavras fogem-me mesmo que o não queira, logo, mal mo apresentaram, desferi:
Teve um acidente?
E aqui começa verdadeiramente a história, pois esta frase despoletou o que me queriam mostrar dele.
Respondeu com um ar indignado: Não sabe?
Perplexa, e um pouco intimidada, limitei-me a abanar negativamente a cabeça.
Não lhe disseram quem eu sou? Não sabe que venho aqui todos os dias recolher gente para as minhas Legiões? Como Tribuno tenho direito a ter a minha Legião, preciso de equipar as minhas tropas! - E virando-se bem para mim, de cabeça ao lado, a olhar-me nos olhos, continuou – A Menina tem um pilo ou um gládio? Se tiver, pode também integrar as minhas fileiras. Está a ser muito difícil arranjar gente capaz para combater. Ando a estudar uma nova formação, mas só encontro gente incompetente.
De espanto em espanto com esta conversa, que me soava completamente desconexa, calei-me que nem um rato, pois o Sr. Machado, quanto mais avançava no seu discurso, mais excitado parecia.
E continuou:
O César não pára de insistir que tenho de me despachar, e agora estou num impasse pois falta-me um Centurião. Tinha o Longino, mas partiu para Jerusalém, fiquei sem o meu melhor Oficial, e tenho de mandar os meus homens para uma campanha na Gália.
Olhou novamente para mim com fixidez, e acrescentou: Não quer substituí-lo? Cortava o cabelo, e com a armadura disfarçava as suas formas de Menina. Tem um ar bravo de quem daria um bom centurião!
Quem será o Longino? - Pensava eu para os meus botões – em que filme é que me meteram?
Vou dar-lhe os primeiros ensinamentos para percebeu o seu papel na minha Legião – disse.
Retirou uma caixa de fósforos de cozinha do bolso do casaco, afastou as chávenas de café para um canto, e começou a explicar-me, exaustivamente, com os fósforos, as formações, dizendo que para a Gália iria utilizar a formação Tartaruga.
E a Menina ficará responsável por uma Centúria! Percebeu bem a técnica de combate que tem de impor aos seus subordinados?
Acabei por achar que a única maneira de ouvir mais o Sr. Machado seria alinhar na sua loucura, muito única, em particular, por dominar, completamente, todo o funcionamento das centúrias, legiões, em suma, todo o Exercito Romano, e estar tão convencido que o seu papel histórico teria de ser cumprido.
Como aqueles delírios eram bastante educativos, e não faziam mal a ninguém, assumi o papel desejado, aprendi todas as técnicas de combate, através das formações aprendidas com os fósforos, colocados nas posições devidas, fossem elas, a formação tartaruga, diamante ou uma falange.
Estas aulas duraram dois anos, tempo que frequentei assiduamente o Monte Carlo, tendo rumado depois para outras paragens, perdido para sempre o rasto ao único Tribuno de Roma que conheci até hoje, e que desconheço como acabou os seus dias.
Resta o pormenor do adesivo na orelha, que quem tiver tido a paciência de chegar até aqui, se questionará. Era fruto de uma batalha, onde quis estar pessoalmente presente ao lado dos seus bravos guerreiros, e que lhe tinha custado a orelha, que, claro, tinha-a na realidade, mas escondida sob o adesivo que renovava todos os dias para dar veracidade aos seus argumentos.
Teresa David |
A MISSÃO
Nas minhas deambulações de ave nocturna, que se esticaram por quase toda a minha vida, cruzei-me alguns anos atrás com um rapaz bem educado, que se encostava ao balcão de um bar que era a minha segunda casa, habitado por aves raras como eu, talvez um pouco mais raras por ser um Bar Gay! Adiante!
Conversa puxa conversa, acabámos a trocar números de telefone, embora, no dia seguinte, já tivesse a forte convicção de que nunca telefonaríamos um ao outro, como é habitual, salvo honrosas excepções nesta vida do escuro.
Com grande espanto, passado mais de um mês, estava-se em finais de Maio, recebi um telefonema do dito cujo. Convidava-me para ir visitá-lo à quinta dum amigo onde estava a passar férias, para as bandas da Ericeira, onde, após terem conversado os dois tinham concluído que eu seria a pessoa indicada para lhes fazer um grande favor a outro amigo, que eles achavam ser uma "missão".
Como a curiosidade matou o gato e sempre me disseram que, além de ser uma ave, eu tinha uns olhos felinos, de imediato pus pés a caminho!
A quinta era bastante selvagem na sua vegetação, a casa ameaçava ruir, e a piscina de que me haviam falado mais não era do que um enorme tanque onde se viam limos presos ao fundo e em redor do empedrado.
Contudo, sentia-se uma tranquilidade, acompanhada pelo som dos pássaros, o relinchar dos cavalos, o grunhir dos porcos, que me fez sentir bem naquele espaço.
Claro que, após as apresentações, (o amigo, o dono da quinta, era um rapaz de 29 anos com ar rústico e bastante perverso, a quem correspondi com um lampejar de igual intensidade), perguntei logo o fim da minha ida para a quinta.
Entre hesitações e gaguejares explicaram-me que tinham um amigo de 20 anos que namorava com uma virgem de 17 com quem iria em breve casar, mas, como também era virgem, achavam que seria um desastre a primeira noite dele. Foi por isso que a minha pessoa lhes veio à lembrança, por ser mais velha e habituada a tratar por "tu" as coisas do sexo.
Algum constrangimento me possuíu porque nunca estivera numa situação dessas e temia seriamente não conseguir iniciar o rapaz de forma satisfatória, sim, porque sempre achei que a primeira vez é inesquecível, tanto para os homens como para as mulheres. A minha fora muito competente e educativa!
Um pouco perplexa e atemorizada, mas também, como sempre, a não me conseguir furtar a um desafio, aceitei, sem mais delongas, a incumbência que iria ter lugar no dia seguinte.
Como tenho dois filhos que, na altura, tinham 23 e 17anos, ao ver aparecer aquele rapagão encorpado mas com cara de menino púbere, fiquei um bocado encolhida. Nada que não se tivesse resolvido com umas garrafas de tintol de qualidade e graduação altas que o deixaram desinibido e a mim também.
Convém salientar que estes amigos tinham uma ligação ao esoterismo muito profunda e acreditavam piamente serem dotados de poderes extra-sensoriais. Como pouco crédula nessas matérias, nunca levantei questões, mas também não pactuei em nada que concernisse com esses particulares.
Um pouco aos tombos nos despimos e deixámos derrubar os corpos sobre a cama. Olhei aquelas carnes fortes de mocetão do campo. As minhas mãos apertaram a musculatura das coxas, a saliência dos mamilos, os braços, até o meu corpo começar a serpentear, qual cobra não venenosa, mas gigante, até os lábios se encontrarem para o começar do despertar dos sentidos.
Ao nível da minha barriga uma protuberância começou a agitar-se, enquanto umas tenazes me faziam descer o corpo ao nível do seu âmago.
Sentir a verga jovem, com a rigidez só possível nos primórdios da vida sexual, erotizou-me e fez-me apagar qualquer resquício de pudor.
Do sexo oral recíproco ao cavalgar na falésia decorreram tempos infinitos de movimento ímpar, enquanto, na semi-obscuridade, umas ténues luzes se movimentavam.
Julgava que a primeira vez de qualquer jovem seria um disparar momentâneo de humores contidos. Neste caso o tempo alongava-se e todas as partes do corpo foram sendo descobertas. Da humidade da gruta á rugosa toca, dos lábios às nádegas, das costas ao peito, toda a pele foi beijada e sugada.
Já o cansaço começava a invadir-me quando me apercebi de que o jovem não fazia tenções de parar, pelo que perguntei: Estás a gostar? Estou a adorar! – respondeu – Que bom que é estar contigo!
Aí assustei-me e rapidamente tentei repor a ordem das coisas: Mas olha que estou só a iniciar-te. Tens namorada e é com ela que quero que continues o que comigo começaste. Entendido?
Nunca mais admito que me procures, está bem?
Os olhos dilatados de tesão ficaram alagados, respirou fundo e fez que sim com a cabeça.
Com esta conversa, houve uma vertiginosa descida no seu corpo, enquanto do escuro as pequenas luzes apareceram, mostrando tratar-se de velas empunhadas pelos dois amigos que, nus, tinham estado a assistir a tudo no quarto contíguo, embora com as partes pudibundas em descanso.
Indignada, perguntei: Que é que estiveram a fazer, a masturbar-se ou quê?
Não – responderam em uníssono – apenas estivemos a transmitir-vos energias positivas para que tudo corresse bem!
Claro que duvido, como céptica que sou, que eles tenham tido alguma interferência no assunto, tendo-se antes portado como voyeurs; no entanto, naquele momento, apercebi-me de que tínhamos estado três horas seguidas sem parar a fazer amor; sim, foi bonito o suficiente para não se poder rotular como uma simples f…!
Uns meses depois voltei à quinta. Encontrei o menino que, todo contente, me contou que já tinha estado com a namorada, acrescentando, à boca baixa e cheio de cumplicidade: Mas contigo foi melhor, podemos… só mais uma vez?
Quem não sucumbiria, tendo já na altura quarenta e muitos anos, a tornar a sentir aquelas carnes rijas, aquela potência juvenil, aquele sabor limpo na boca?
Mas foi mesmo a última vez e, até hoje, nunca mais o voltei a ver.
A CORUJA (TERESA DAVID)
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