À laia de Introdução

H. Mourato começa por ser um grande Homem.

Dotado de forte personalidade, inabaláveis convicções, indefectível verticalidade e notável independência de espírito e livre pensamento, isso já seria suficiente para não concitar unanimidade à sua volta.

H. Mourato é também um grande Artista.

Versátil, multifacetado, original, criativo e enérgico, isso bastaria, no país de capelas e compadrios em que vivemos, para que também não suscitasse o melhor acolhimento no seio da comunidade artística, se é que se pode dizer que ela existe como tal entre nós.

Desta unicidade entre homem e artista decorre, obviamente, que nunca tomaria qualquer atitude de subserviência perante os "donos da comunicação social".  Não admira, pois, que seja ignorado.

Sendo apreciador de arte e estando ligado ao meio literário, já ouvira falar no seu nome, principalmente como autor de centenas de capas para livros.

Só tive prazer de o conhecer pessoalmente, no entanto, há pouco mais de três anos, numa exposição de pintura organizada pela Associação Escadote Cultural.

A partir daí se aprofundou o nosso conhecimento mútuo e nasceu uma amizade franca e sólida, extensiva a ambas as nossas famílias.

Não sendo crítico da especialidade mas pretendendo repor alguma justiça através da sua presença nesta modesta página pessoal, recorro, com a devida vénia, à inserção de textos de pessoas mais abalizadas que se pronunciaram sobre a sua vida e a sua obra.

Vou, pois, intercalar tais depoimentos com imagens de obras de escultura, desenho e pintura de Mestre H. Mourato.

Termino esta introdução com uma pequena homenagem pessoal, um poema elaborado sobre um dos seus quadros, que baptizei de "Sol perdido"

Sol perdido

já perdi o astro
que me guiava na vida

agora estou morto

sou uma alma esquecida
à procura do meu sol

joaquim evónio
08.04.04

 

Curriculum resumido de Mestre H. MOURATO

H. Mourato nasceu em 1947 em Santiago do Cacém, Alentejo, origem assumida por ele com a maior honra.

Praticamente todos conhecem o pintor e o escultor através das numerosas exposições realizadas em Portugal e no estrangeiro.

O desenhador é provavelmente menos conhecido enquanto o artista desde a infância excele neste domínio, deixando as suas marcas nos cadernos de escola, nas toalhas dos restaurantes, esboçando sem hesitação num traço seguro um trecho da cidade, uma figura pública ou uma das pessoas à volta - o estilo é único, aos limites da poesia, do surrealismo e da caricatura.

Durante perto de 30 anos, H. Mourato foi naturalmente um ilustrador procurado para livros, principalmente de poesia. Colaborou com os seus desenhos em revistas e jornais (Diário de Notícias, JL, Diário de Lisboa, Jornal de Almada, etc.).

Neste livro descobrimos o H. Mourato que desenhou desde os anos 70 as figuras da literatura portuguesa, o que afinal representa uma parte ínfima das suas variações temáticas.

Esperamos que qualquer dia haja uma editora desejosa de publicar o "Catalogue Raisonné" dos seus desenhos:

Prometo um grande prazer e, como dizem os franceses: "une grande bouffée d'air pur".

J. P. Blanchon
(in "RETRATOS COM-TRATOS - Álbum de Escritores", Ed. Câmara Municipal de Lisboa, 2000


Eugénio de Andrade


David Mourão-Ferreira

«Ainda hoje me interrogo por que diabo tinha de ser eu a escrever esta meia dúzia de palavras sobre os retratos, ou pseudoretratos, carregados de humanidade (alguns ainda trazem terra agarrada às orelhas) desse camponês do Chiado chamado H. Mourato.

H de homem, bicho instintivo, preso à sua terra alenteia, imprime aos seus "bonecos" um tempo... o olhar de um tempo original, o do menino que cresceu e continuou menino a olhar, da margem, a vida, saltando para dentro dela, pulando - um principezinho a fazer serenatas à lua em sua flauta pastoril.

Ainda hoje me interrogo quanto ao sentido da vida, sentindo-a cada vez mais absurda e bela. É nesse absurdo e nessa beleza que guardo do Artista H. Mourato a grata sensação de alguém que reage ao que vê com a força dos sentimentos; de alguém que não desenha o que vê, mas o que sente.

Em Mourato a Arte não se justifica pela técnica, ela é simplesmente o suporte de uma extraordinária intuição sem mestre.

É escusado procurarmos em Mourato influências de fulano ou de sicrano. Estamos em presença de um artista da autenticidade que guarda dentro de si a verdade limpa dos horizontes da sua terra natal.

Profundamente telúrico, os seus retratos, de uma singular densidade psicológica, ou se mostram vivos, num expressionismo deformante, ora num surrealismo sem patronos. E todos nós nos sentimos, quando retratados, amados por alguém que possui a rara capacidade de intuir o que lhe é exterior.

A sua ironia é fruto de uma contida e exuberante personalidade. Mourato não se leva demasiado a sério. Ele observa-nos, observando-se. Daí a sua tolerância, a sua ironia.

Por entre as influências do impressionismo, do abstraccionismo, do expressionismo e do surrealismo, por todas elas se passeia, sem de nenhuma tirar o modelo. Ele sabe que existem: - Que nos façam muito bom proveito!

Sempre que revejo os desenhos de Mourato, esses que ele vai deixando em folhas de papel do momento e no-los oferece como testemunho da sua ternura, recordo uns versos que Torga dedicou à vida:

"Amo a vida, esta bela prostituta
Esta mulher tão pura e dissoluta
No mesmo instante,
Que não dá tréguas a nenhum amante"

São cinquenta retratos vividos, de escritores amigos e algumas figuras tutelares que o tempo vai coleccionando e perdendo pelo caminho.

Lousã, 19/4/2000
Carlos Carranca
(in "RETRATOS COM-TRATOS")

Carlos Carranca


Almada Negreiros


Zeca Afonso

Felizmente, ainda há homens assim...  

Acreditem que, ao longo dos meus 46 anos de vida, já conheci e convivi com muita pessoas, dos mais variados quadrantes e condições, alguns apenas "simples mortais", outros com elevados níveis de talento para as mais variadas áreas artísticas ou culturais.

É minha convicção que o talento é um dom que não pode estar sozinho num indivíduo. Com ele tem forçosamente de co-habitar um carácter íntegro e humano, que contenha dentro de parâmetros "socialmente aceitáveis" a natural vaidade e até narcisismo que o talento acaba por produzir ao seu detentor.

Em muitos dos "génios" que conheço, o talento impôs-se ao carácter e acabaram por ser pessoas intratáveis e intragáveis, sem amigos ou admiradores sinceros, permanentemente rodeados de bajuladores que apenas os acompanham na esperança de favores ou de absorverem um pouco do brilho social e mediático que irradiam.

Conheço há pouco mais de um ano o Mestre H. Mourato. Estava no Quartel dos Bombeiros da Pontinha quando ele me foi apresentado por outro amigo comum. Tinha, na simplicidade e generosidade dos grandes homens, ido ao quartel para oferecer aos bombeiros uma escultura sua.

Portanto, primeiro conheci o Henrique Mourato. Sou daqueles para quem a primeira impressão conta e sem querer ser comparado a alguém famoso, direi que nestas coisas do carácter "raramente me engano". E gostei logo daquele homem grande, de ar íntegro e sereno. O convívio futuro mostrou que a primeira impressão não era falsa.

Depois conheci o H. Mourato, ou seja, o artista que o homem também é. E os trabalhos que saem daquelas mãos - quer a escultura, quer a pintura - estão de acordo com a ideia que se tem da pessoa.

Desde que o conheço, tenho convivido regularmente com ele e pouco a pouco vou descobrindo as suas obras e as várias vertentes do seu talento.

Quando, em Fevereiro deste ano, me meti na aventura de criar um jornal on-line, H. Mourato estendeu-me a sua grande mão e ofereceu para logótipo o seu quadro do "Velho Mirante", um ex-libris da Pontinha, por ele magistralmente retratado.

E não hesitou em juntar o seu nome a um projecto sem provas dadas, apenas pela amizade que nos ligava, mostrando ser amigo do seu amigo. Todas as semanas o meu jornal apresenta, com a devida autorização do seu autor, uma obra de H. Mourato, que está também sempre disponível para aquele favor que às vezes os amigos precisam que lhes façam.

 

É verdade que H. Mourato não é capa de revista, nem notícia regular de televisão. Mas não é porque não tenha talento e "obra feita" e devidamente reconhecida. É apenas porque H. Mourato não se vende e mantém a sua coerência e convicções.

Tenho a certeza de que um dia H. Mourato vai ter muitas "honras" mediáticas. Na hipocrisia deste país, algumas pessoas incómodas só são boas quando já não podem incomodar, porque partiram. Assim sendo, espero que por muitos e longos anos o brilho mediático esteja afastado deste meu amigo.

Pontinha, 13 de Maio de 2004
Henrique Ribeiro
Director "Coisas da Pontinha"


Homenagem aos Varzeenses


Relicário

 Esculturas do Mestre H. Mourato, por Jean-Pierre Blanchon.

(Sobre trabalhos não disponíveis de momento)

Além de ser um grande Pintor, o H. Mourato consegue também ser um escultor de qualidade

A partir de peças de recuperação cria conjuntos estruturados com materiais frios e rudes (aços, madeiras pintadas a preto, plásticos cinzentos sem alma...) e consegue dar duas vertentes:

Dum lado uma força rara e solitária que simboliza a dureza ao exemplo desta criatura preta com o olho inquietante que nunca fecha e que parece um abutre de guarda da triste época dos campos de concentração nazis.

Do outro lado o seu oposto, ou seja uma harmonia tranquilizadora que representa um mundo gentil, coerente, civilizado e cheio de poesia como esta boca de ferro de engomar com asa que parece pronto a voar para endireitar as nuvens e falar com os anjos.

Em resumo e, em poucas palavras, essas criações simbolizam perfeitamente as contradições e ambiguidades da Terra.


Urbanização


Princípio do Fim

«H. Mourato é um pintor do nosso tempo que sente o grande risco de destruição nuclear do nosso mundo vivo. É um pintor de qualidade, com uma arte original, um artista sensualista e trágico, que se agarra à grande esperança de permanência da vida, e que, intuitivamente, nas cores capta os sons da música pitagórica das esferas».

Joaquim Braga

Imaginário de H. Mourato

«O mundo das cores ainda carece de luz, são só e simplesmente cores, ainda não sublimadas p'lo raio mais feliz das auroras. Mas há cores e há pintores, há os que pintam as cores e os que fazem novas tonalidades com as imagens de uma razão que só eles (ou não) pressentem que existe. Tudo é real na bizarra atmosfera do mais insólito dos pintores. A natureza não corrige a vida, é a arte que tem esse responsável e sublime papel.

Henrique Mourato vai para além daquilo que poderíamos chamar um pintor, ele antevê na sua tela dimensões tão insólitas quanto possíveis, num mundo que se transforma cada vez mais por fora e que acrescenta algo que ninguém estava à espera.

Quando o seu imaginário brota, ficamos sem saber se ele isto já sabe, ou se alguma força outra o escolheu para a representar.

É com amor que falo do seu duro ofício de missionário porque o é, porque transporta o bizarro e o patético com uma leveza e relatividade de quem por saber já não precisa chocar. Casa contrastes, brinca com o sério, é bucólico e futurista, e parece não se importar com esta miscigenação. Esta pintura tem o segredo da Arca de Noé, a embarcação leva tudo, mas só alguns a sabem conduzir.

Poderia ser um grande físico se não fosse artista, assim como o é, as suas leis estão certas, como a mais conseguida equação de matéria-espaço, e põe-na a funcionar, aí, onde não morrem os sonhos das esferas do grande imaginário!»

Amélia Vieira
18/12/92


Poluição espiritual


Tourada


Depois de um dia difícil

«Estamos perante um artista que tem vindo, ao longo dos tempos, embora de uma forma discreta mas segura a criar um estilo plástico particular, de um modo gradual, manifestando-se por uma expressão original, marcada pelo recurso frequente ora de um abstraccionismo evidente, ora de um figurativismo actuante e expressivo. Nota-se na obra deste artista uma certa acentuação do interesse para com a forma nova, o seu crescimento e as suas liberdades criativa, onde a luz e o espaço não deixam de estar representados.

Mestre H. Mourato não é uma pintura de efeitos fáceis, mas uma pintura que evita o decorativo, que é vigorosa e tecnicamente equilibrada.»

Afonso Almeida Brandão

 H. Mourato - Mestre e Homem das Artes


H. Mourato visto por 
Henrique Tigo

H. Mourato é livre de pintar como o universo o é em se oferecer, pintar para ele é dar vida às várias formas da forma.

Pintar é estar vivo.
Pintar é comer. 
Pintar é poder sentir.
Pintar é querer ver.
Pintar é partilhar...

H. Mourato reúne a sabedoria e as virtudes do racional ao Dom da Magia.

Obedece ao seu ritmo interior e prossegue com uma obra notável pelo requinte e ressonâncias musicais, onde as pausas melancólicas do silêncio são sempre rigorosas... percebemos ainda que a causa dos tons da sua pintura, por mais intensos que possam parecer, nunca se fecham no opaco na monotonia.

H. Mourato é grande como a planície Alentejana que o viu nascer. H. Mourato é sinónimo de Amor, Humor, Humanismo e Fraternidade...

As suas obras, quer sejam pinturas, desenhos, esculturas olham-nos; devemos ser recíprocos nesse olhar!

Henrique Tigo

«O H. Mourato também gosta de realizar pequenos objectos insólitos: é um  puro prazer. Encontra-se uma tal irreverência no desvio dos materiais  utilizados: não pode haver melhor reciclagem. O circuito impresso, o brinquedo  desmembrado, o transístor, o dejecto industrial tornam-se arte, gozando deles  próprios nesta utilização deslocada. Um ditado francês diz "... Objectos  inanimados, será que terão alma?" H. Mourato respondeu a esta pergunta.»

Jean-Pierre Blanchon

Para mais informação sobre Mestre H. Mourato, favor consultar os "sites":

H. Mourato - Esculturas

Círculo Artur Bual 


Bailarina-Serigrafia