Memórias serôdias de Mota de Vasconcelos
(1902 - 1976)


 

PARA A HISTÓRIA DA INICIATIVA DOS PADRÕES AO EMIGRANTE INSULAR

Rascunho da carta enviada pelo editor deste livro e ao obsequioso cuidado do sr. Comandante do «Carvalho Araújo», Henrique de Freitas, ao sr. Dr. Armando Cândido de Medeiros, Conselheiro e Deputado à Assembleia Nacional, pelo Círculo Eleitoral de Ponta Delgada (Açores), e que depois do ilustre homem público ter posto o seu assunto na tribuna do órgão máximo da soberania da Nação, merece arquivo para a história da iniciativa dos Padrões ao Emigrante Insular.

(O discurso proferido pelo Senhor Conselheiro, Deputado Dr. Armando Cândido, na Assembleia Nacional, na quinta-feira, 19 de Março de 1959, extraído do «Diário das Sessões», fica arquivado, na íntegra, em lugar de honra no pórtico deste livro).

Exmo Senhor
Dr. Armando Cândido de Medeiros
Ilustre Conselheiro e Deputado da
Nação
Lisboa

Escrevo a V. Ex.a a bordo do «C. Araújo», em viagem para a Madeira onde estacionarei 12 dias, seguindo depois, provavelmente no «Lima», para Lisboa, onde tenho residência fixa, para não dizer forçada, em virtude de ter lá minha família larária — mulher, filho, cadete-finalista da Escola do Exército, e filha, aluna do 2.° ano de Filosofia, na Faculdade de Letras.
Qual o motivo desta fervura em vos escrever no mar? — perguntará V. Ex.a.
É isso que passo sucintamente a expor, reservando os pormenores para uma audiência que espero V. Ex.a, sempre extremamente bondoso e acessível, decerto me concederá quando eu chegar a Lisboa.
Mais do que as minhas palavras, dirá melhor a V. Ex.a a leitura dos jornais, que, inclusos, vos remeto para V. Ex.a poder aquilatar mais objectivamente desta importunidade, que aliás tem a vibração entusiástica que move quem apaixonadamente sente o motivo da causa em que labora com o cérebro e com o coração.
Após a leitura do assunto referido nos mesmos jornais, V. Ex.a verá e sentirá também com a vossa apaixonada alma de ilhéu categorizado, que se trata de um propósito mais patriótico do que bairrista.
A iniciativa em marcha e largamente acolhida com todo o louvor, devoção e simpatia, do levantamento, nas quatro capitais dos dois arquipélagos atlânticos, de Padrões ao Emigrante Insular, tem altura e móbil sentimental e genuinamente português para merecer do coração, da inteligência e do sempre presente devocionismo ilhéu de V. Ex.a, o intento que se solicita.
Como eu frisei na série de oito palestras ditas ao microfone do Emissor Regional dos Açores, é V. Ex.a, indiscutivelmente, actualmente em Portugal o Homem Público que melhor abarca e conhece o problema da Emigração e consequentemente tudo quanto se relaciona com suas facetas de multiforme carácter moral, social e espiritual.
Pretende-se, em suma, que V. Ex,a, pela vossa voz autorizada e representativa de um Círculo Eleitoral que maior contingente tem dado à emigração, diga na Assembleia Nacional, ainda neste período legislativo, para que a nobre iniciativa não perca a mais viva oportunidade, que está em curso tal iniciativa, conferindo-lhe assim a projecção nacional que só o órgão da soberania máxima da Nação lhe pode conferir.
O artigo do jornal «Açores», onde se sugere o enquadramento da inauguração dos Padrões ao Emigrante Insular, no ciclo das comemorações henriquinas, é todo o objectivo do que se impetra a V. Ex.a, e que representa a aspiração de todos os categorizados componentes da Comissão Distrital de Ponta Delgada, dos Padrões de homenagem ao Emigrante Insular, na sua epopeia e odisseia de quase quatro séculos, aspiração e inspiração nascida de trocas de impressões minhas e do Dr. F. Carreiro da Costa, como promotores da mesma iniciativa.
V. Ex.a pode crer que não só a grei micaelense como toda a grei açoriana e insular, ficarão imensamente gratas a V. Ex.a, com a vossa exposição na Assembleia Nacional, sobre o propósito do enquadramento da mesma iniciativa nas jornadas das comemorações henriquinas. Será um belo e inesquecível alento espiritual que V. Ex.a concederá à ideia altamente regionalista e patriótica dos Padrões ao Emigrante Insular, aos quais o vosso distinguido nome e a vossa condição de ilhéu micaelense, ficarão indelevelmente ligados.
A título particular, apresso-me também a dizer a V. Ex.a que vou expor o plano da iniciativa a Suas Excelências os Senhores Presidente da República e do Conselho, impetrando ao primeiro a sua presença na Madeira e nos Açores por ocasião da inauguração dos mesmos Padrões que são da autoria do escultor-medalhista, Numídico Bessone, autor da estátua do Arcanjo S. Miguel, em Ponta Delgada.
Julgo estar a ver no vosso rosto e no vosso coração a vibração premente de ideia, em tudo digna do vosso patrocínio, da vossa tantíssimas vezes comprovada devoção de ilhéu amante e servidor infatigável destes formosos rochedos atlânticos.
Eu já não confio, porque tenho a certeza e o júbilo radiante, de que V. Ex.a será o mais digno arauto da iniciativa.

Embora tivesse pensado em solicitar a quaisquer outros ilustres Deputados insulares a justiça cara de pôr o assunto na Assembleia Nacional, foi o nome e a pessoa de V. Ex.a que emergiram, com vulto, para o fim visado.
Como não desejo prolongar mais divagações, já supérfluas, concernentes a este apelo interpretativo da vontade de todos os ilhéus, termino, profundamente respeitoso e admirador de sempre, esperando, ainda na Madeira, saber que a voz de V. Ex.a abordou o assunto na Assembleia Nacional, dando assim à iniciativa dos Padrões ao Emigrante a altura e a projecção nacional que a mesma merece e carece.

Atentamente,

Joaquim Mota de Vasconcelos

(Director da Revista «Açores-Madeira» e componente da Comissão de Iniciativa dos Padrões ao Emigrante Insular)

Bordo do «Carvalho Araújo» em viagem para o Funchal, 27 de Novembro de 1958.

(in “EPOPEIA DO EMIGRANTE INSULAR”, Mota de Vasconcelos, ed. Do Autor,
Lisboa – MCMLIX)





Retomando as Memórias do meu Pai…

IMPERIALISTAS DA BURLA E DA CHANTAGE...

Como no caso da voragem síria sobre os bordados da Madeira, a BURLA DAS OBRAS DO PORTO DO FUNCHAL, era um autêntico e famélico “cambão”, que campeava e dominava. Se a prevista ruína da indústria dos bordados, tinha em S. Lourenço um governador de vista grossa – o Coronel Álvaro Nobre da Veiga – a Burla retinta das Obras do Porto lá teve um padrinho bem amigo e exímio calculista do valor das oferendas, as que se dão e as que se recebe, o Governador Major de Cavalaria, Francisco Martins Lusignan de Azevedo, que não tardaria a se atolar no enxurro da Burla, quando esta Burla foi condenada e desfeita pelo Governo da Nação.
Luiz Vieira de Castro e o “olímpico” pedestrianista classificado no permanente cá-e-lá entre o Funchal e Londres, Américo Correia da Silva, estavam radiantes com a nossa prisão e com o guilhão salteador que calara “A Batalha”. Mas tinha à perna o lobo da Alsácia de “O IMPARCIAL” que mordia fundo a Burla e os burlões...
No Calaboiço eu gatafunhei um longo Manifesto de defesa, em cuja argumentação eu abordei e rebati a insidiosa notícia de “O JORNAL”, aliás transcrito e ligeiramente comentado, que depois de composto, impresso e pago, não chegou a circular porque o próprio compositor, o tipógrafo Carlos Rodrigues, “O Chouriceiro”, foi vendê-los aos burlões. Era outro Judas no meio dos Apóstolos... O dinheiro do Banco do Largo do Chafariz, valia para certas patifarias que não competiam à sua honesta função, função cujo verdadeiro Director se fosse vivo, de modo algum permitiria. O probo Henrique Vieira de Castro já estava no outro mundo para que pudesse travar as ignobilidades praticadas por quem tinha todo o dever de honrar a memória impoluta de seu Pai...
As investigações a cargo do chefe Macedo, feito com a pandilha corriam como as ordens opinavam... Só eram escritos os depoimentos de acusação. Quando chamado a depor o serviçal da Casa Sindical, João Campos Leça, que esteve depois durante largos anos estabelecido com “Bar” pobre na Travessa do Forno e fora também executante (contra-baixo) das bandas musicais, os “Artistas” e “Guerrilhas”, – o serviçal que retirara para dentro da Casa Sindical, o caixote do lixo, VAZIO, apenas quatro horas antes do assalto, e dissera ao Macedo a verdade que sabia, verdade esmagadora e concludente, foi logo mandado pentear macacos... Aquele depoimento esfrangalhava TUDO. Canalhas!!!
Também, para o Macedo, não havia interesse em ouvir os presos. As velas de dinamite diziam tudo e... o mais que a investigação desejava...
Eu, não sei porquê e para quê, é que fui chamado uma só vez, à presença do “Sherlock-Holmes”, da Ponta do Sol, que me olhou de soslaio, abriu a gaveta da secretária, e de velas na mão, perguntou-me, comprometido: - “Sabes o que é isto?” Eu, que nunca vira dinamite na minha vida, respondi-lhes de modo desabrido: - “Isso? Isso deve ser o dinamite criminosamente colocado, como o senhor sabe, melhor do que eu, pelos salteadores, na Casa Sindical.” – “Está bem, atalhou Macedo, sèriamente embaraçado.” – Podes ir embora...” Irònicamente, eu perguntei: - “Para casa ou para o “chilindró”?... Macedo, embatucado, nada regougou...
Antes de sair do gabinete do Macedo, acompanhado pelo cívico, 55, o meu amigo Casimiro de Abreu, voltei-me e perguntei ao Macedo: - “Oiça” Já não se lembra quando em 1924, em Lisboa, eu o acompanhava, pelo braço, aos banhos sulfurosos do Balneário de S. Paulo, quando o Sr. receava cair na rua, atacado de vertigens de avariose (sífilis)? Muito obrigado pela deferência...”
Que diferença de procedimento e de carácter entre o Macedo e o malogrado Chefe Telo, cuja fronte gélida pelo frio da morte, eu comovidamente beijei, quando ele estendido estava na sua urna fúnebre, na Capela de Santa Isabel, do Hospital da Misericórdia...
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Aqui está o que se escreveu e o jornal, “O IMPARCIAL” publicou em seus números de 8 e 15 de Fevereiro de 1927, – uma exposição dirigida ao Meritíssimo Juiz de Direito, Dr. Joaquim Crisóstomo da Silveira, e que teria favorável despacho imediato, se o nosso CRIME não fosse da competência do 2.º Tribunal Territorial Militar de Santa Clara (Lisboa).
Nessa exposição, o Dr. Luís Vieira de Castro, escriba da notícia retro-transcrita, e a inconsistência do assalto, posta é de caveira ao sol. Trata-se de um documento precioso, merecedor de expansão e de memória.
Ei-lo: - Meditem-no e julguem-no: -
...-“Tem sido ùltimamente muito discutido nos meios operários o assalto à sede da União dos Sindicatos Operários, à Rua do Dr. Vieira.
Há dias os presidentes das Associações de Classe instaladas naquele prédio apresentaram queixa em juízo contra os indivíduos que realizaram o assalto”.
“Porque é um documento interessante e porque nos é pedida a sua publicação, nós inserimo-lo em nossas colunas, não apreciando, porém, a questão por estar já afecta aos tribunais.”
“No dia 20 do corrente (Janeiro de 1927) cerca das treze horas, um grupo de indivíduos entre os quais se encontravam: - João Jerónimo Melim, casado, metalúrgico, operário no Arsenal de S. Tiago; José de Freitas, casado, carpinteiro, morador na Avenida Pedro José de Ornelas; António de Abreu, casado, caiador, morador no Beco da Tintureira, 10, e João Octaviano Soares, casado, pintor, morador na Rua dos Arrependidos, 14, tomou de assalto o prédio da Rua do Dr. Vieira, N.º 5, onde se encontram instaladas as associações de classe que os suplicantes representam, e onde o semanário “A Batalha”, órgão das classes operárias, tem as suas oficinas, dele expulsando os que lá estavam, incluindo os tipógrafos que trabalhavam na composição daquele jornal. Feito isto, arrancaram a fechadura da porta de entrada e substituíram-na por outra.
Presenciaram estes factos: João Rodrigues, tipógrafo, morador à Rua da Alfândega, João de Freitas, casado, tipógrafo, morador na Rua 1.º de Maio, 49, Gabriel Joaquim Teixeira de Freitas, solteiro, estudante, morador na Rua Nova de S. Pedro, 24, e José Avelino Rodrigues, solteiro, aprendiz de tipógrafo, morador ao sítio do Pico, freguesia do Monte.
Substituída a fechadura e fechada a porta, os assaltantes, acompanhados de João Luís de Faria, casado, tanoeiro, operário da Tanoaria de Blandy & Brothers & Co., na calçada de S. Lourenço, dirigiram-se ao Sr. governador civil, a quem se apresentaram como legítimos representantes do operariado funchalense, justificando a seu bel-prazer os actos de violência praticados e solicitando de S. Ex.ª. a solução do caso. E S. Ex.ª resolveu
Julgando-se em face de uma questão que estava dentro da sua competência, das suas atribuições, o Sr. governador interveio como lhe era pedido. Interveio e resolveu. Como? Mandando guardar o edifício por um guarda cívico – o que não é pouco – e proibindo a entrada fosse de quem fosse – o que já é muito.
Salvo o devido respeito, o Sr. governador civil excedeu a sua competência, chamando a si atribuições que pertencem exclusivamente ao Poder Judicial.
Senão, vejamos. Que acto é este a que nos vimos referindo? Uma violência-assalto. Quem o praticou? Operários. Em que qualidade? Na de operários.
É o assalto uma forma legítima de afirmar ou reivindicar direitos, presumíveis que sejam? Com certeza que não. Tanto que quem o pratica está sujeito às cominações da lei penal.
Operários que eram, só tinham um caminho a seguir: comparecer às assembleias gerais das suas associações de classe e aí defenderem os seus pontos de vista ou os seus direitos – se os tivessem. A Assembleia Geral, como entidade soberana que é, resolveria. Mas a verdade é que não havia direitos ofendidos ou desprezados. Mas a verdade é que não havia desprendimento ou traição à causa operária. De contrário os assaltantes de agora teriam procurado – o que sempre fizeram – nas assembleias gerais, ordinárias ou extraordinárias, fazer valer os seus direitos, os tão apregoados direitos ofendidos ou desprezados. Por outro lado, há que notar que entre os assaltantes figuram indivíduos que pertencem a classes que nem têm a sua associação instalada no edifício assaltado. Da parte desses não há, não pode haver, portanto, o argumento da não concordância com a orientação imprimida pelas suas próprias associações de classe, o argumento do desprezo, o desrespeito ou violação dos seus direitos ou regalias pelas suas, próprias, associações de classe, pelo motivo dirimente e irrespondível que eles não assaltaram suas próprias associações de classe mas as dos outros.
Seja como for, fica sempre de pé a ilegalidade de actuar dos elementos assaltantes – escassa meia dúzia de indivíduos que se rotularam de legítimos representantes das classes operárias.
Ainda se pode dizer que o assalto teve como próxima a orientação seguida pela União dos Sindicatos Operários do Funchal. Mas que é a União dos Sindicatos Operários do Funchal? Ela não é nem mais nem menos do que um organismo de cooperação, de unificação, como posto de delegados de associações de classe – federadas.
Ora, as associações que os signatários representam são as que constituem a União. E desde que há associações que, actualmente, não entram na composição da União, natural é que essas vivam à parte, sem comparticipar dos trabalhos da União.
Para que, pois, atribuir à União, viciosa orientação ou desprezo de direitos – se essas associações não têm delegados na União, não mantendo, por consequência, com ela, relações algumas. A União orienta e inspira apenas aquelas associações que nela têm delegados, isto é, aquelas que os signatários representam. As outras, não.
Há mais, porém. Até se foi buscar o contrato de arrendamento do prédio assaltado para se justificar o assalto!
Disse-se que João Luís de Faria podia fazer o que entendesse como se a lei do inquilino não existisse! Como se a lei do inquilino fosse um esfregão para João Luís de Faria!
Mas João Luís de Faria não é o arrendatário.
João Luís de Faria celebrou, como delegado das classes operárias, um contrato de arrendamento.
A esse tempo João Luís de Faria, era delegado da Associação de Classe dos Tanoeiros à União dos Sindicatos Operários.
Ocupava, então, uma situação de destaque na classe operária; por isso ele fez parte de comissão encarregada de procurar casa para a União. Como delegado das classes operárias assinou o contrato de arrendamento.
Pois não é verdade que no título de arrendamento se estipula, que a casa, objecto do contrato, se destina à sede da União dos Sindicatos Operários?
É evidente que ele não toma uma casa para si – mas para a União dos Sindicatos Operários, isto é, diversas associações de classe.
E muito embora os recibos sejam passados em nome de João Luís de Faria, a verdade é que, quem paga a renda é Manuel da Silva, casado, carpinteiro, morador à Levada de S. João, Tesoureiro da União, que cobra, para este efeito, de cada uma das associações de classe, a cota correspondente.
Concluindo e repetindo: João Luís de Faria interveio exclusivamente no contrato de arrendamento como mandatário das diversas associações de classe. Não é, portanto, João Luís de Faria, arrendatário do prédio N.º 5 da Rua do Dr. Vieira. E mesmo que o fosse – o que continuamos a negar – não era com assaltos que se justificava, afirmava ou defendia os direitos de arrendatário.
Estes factos são testemunhados pelos signatários e por muitas mais pessoas que os mesmos indicarão desde que V. Ex.ª se digne mandar ouvi-los.
Nós, Exm.º Senhor Dr. Juiz de Direito, trazendo ao conhecimento de V. Ex.ª. os factos ocorridos na sua verdade incontestável, apenas desejamos que V. Ex.ª ordene as medidas que forem de justiça.”
Este documento elucidativo, transbordante de lógica, de verdade, de legalidade, tem a data de 31 de Janeiro de 1927 e surtiria seu completo efeito: a nossa liberdade e a prisão dos ASSALTANTES, se a infâmia da criminosa colocação da dinamite não estivesse classificada, então, na categoria dos crimes chamados Delito Políticos e Sociais, exclusivamente dependente da justiça.
Luís Vieira de Castro e o Eng.º – Frazão Sardinha, eram dois politiqueiros que parecendo cozinhados de panelas diferentes, estavam bem entendidos e emparceirados no tacho da burla das Obras do Porto do Funchal e noutras forjas paneleiras sopradas pelo mesmo fole... Assim, era muito fácil seu refocilar na mesma gamela e tudo lhes corria às mil maravilhas com o tempero ou condimento “à la lusignan”, ementa à la carte toda cheia de apetitosos acepipes em que entrava a caldeirada à pai Nobel, o inventor da dinamite que eles nos puseram na ratoeira da Casa Sindical e que surtira bem o efeito desejado. Os vinte contos do suborno por Eurico Marques de Oliveira, rejeitado, deu azo a seus desígnios de malandretes de primeira fila... Não nos era fácil, mesmo com a direita boa e lógica vontade do Juiz Crisóstomo da Silveira, nos safarmos da patifaria que nos caíra sobre as cabeças como baldes de breu fervente... Mas como diz o adágio popular, “atrás de Maio, vem S. João”...







 

O Emigrante no Cancioneiro Insular

Emigrante, vou partir,
Levo uma esperança a sorrir
Dentro do meu coração.
Porque havia de chorar?
Porque não hei-de cantar
Se vou em busca do pão?!

As minhas mãos calejadas,
Ao trabalho habituadas
Há-de abençoa-las Deus
Para que eu, enfim, garanta,
Isto que levo em garganta:
O bom futuro dos meus.

Vou à sorte. Breve embarco.
Uma vez dentro do barco
Sinta embora uma saudade,
Não hei-de partir aflito,
Pois me vibra n'alma o grito
Do dever e da vontade.

Adeus mãe, mulher e prole,
Adeus bailados do sol
Nos matizes do meu vale;
Adeus terra abençoada,
A mais formosa e prendada
Das terras de Portugal.

Adeus árvores, adeus fontes,
Adeus giestas dos montes
E campinas verdejantes.
Adeus para sempre? — Não!
Os que partem voltarão
Felizes e triunfantes.

Sino d'aldeia persistes
Em teus repiques tão tristes
Ao ouvido de quem parte...
Hei-de voltar! Nesse dia
Tu serás todo alegria,
Cantarás ao eu saudar-te!

(in “EPOPEIA DO EMIGRANTE INSULAR”, Mota de Vasconcelos, ed. Do Autor,
Lisboa – MCMLIX)



NATAL NA MADEIRA... DEPORTAÇÃO PARA TIMOR...

 
 

Saudades espicaçantes e algo mortificantes, incitavam-me fortemente a ir ou a vir passar ao terrunho onde nasci, viver e reviver a dulcíssima e incomparável tradição da Quadra do Natal, com a ideia já preconcebida de, ao fim e ao cabo, retornar à fenícia “ALIS UBBO”, à “LISSABONA” bem-amada, mas inesperadamente ferido em profundidade, no coração, por uma seta de Cupido, pela Madeira me quedei não a me restabelecer mas a agravar “aquele contentamento descontente”, “aquele fogo que arde e não se sente...”.

O amor, com todas as suas delícias juvenis, aniquilou todos os meus planos da Lisboa “alfacinha” e preso “naquele engano ledo e cego”, o tempo correu ligeiro e fagueiro e eu cada vez mais apertado, mais alienado no sedutor colete-espartilho de Vénus...
Outro Natal chegou – o de 1926. A ciclónica procela do trágico naufrágio do Iate “Phisália”, ocorrida na baía do Funchal ao entardecer do dia 15 de Dezembro de 26.

Foi o prenúncio da tempestade que desabara sobre a minha vida quieta e feliz, ao cabo da vintena do mês de Janeiro de 1927.

A par do jornal “O IMPARCIAL”, onde o Álvaro Favila Vieira, Raposo de Oliveira (Açoriano), Daniel da Costa e outros, com serenidade, verdade e rudeza, fustigavam a denominada “BURLA DAS OBRAS DO PORTO DO FUNCHAL” – a par de “O IMPARCIAL”, digo, no jornal sindicalista “A BATALHA”, local, do qual eu era redactor, não fora manos rude o combate de minha pena contra a mesma “BURLA”, patrocinada por um “gang” inglês, apodado de “FUMASIL & CO”, actuante em Londres sob a instigação principal do ambicioso corriqueiro, Dr. Américo Correia da Silva, que fora Governador Civil do Funchal, ao tempo do malogrado Presidente Major Dr. Sidónio Pais.

No número de outros comparsas, estava um refugo de trafulhas anichado no organismo da “Junta Autónoma dos Portos do Funchal” e por fora contava-se o arguto Francisco Bento de Gouveia e o Dr. Luís Vieira de Castro, director de “O JORNAL”, ambos lugar-tenentes de Américo Correia da Silva.

Certo dia, Francisco Bento de Gouveia, abordou-me, junto à Companhia da Luz, ao Campo Almirante Reis, com os “pezinhos de lã”, do seguinte benemérito suborno...: -“O jornal de vocês – “A BATALHA” – apresenta-se tipograficamente num estado deplorável. Estarão vocês dispostos a aceitar vinte mil escudos para renovação de material?...”
Respondi eu: - “Esse assunto não me diz respeito. Eu sou apenas um redactor do jornal. A sua proposta só poderá ser atendida por Eurico Marques de Oliveira, na sua qualidade de autorizado e reconhecido orientador, credenciado pelas assembleias-gerais das classes operariadas da Madeira, filiadas na “Casa Sindical”. Eu vou comunicar-lhe a sua proposta e amanhã poderei dar-lhe uma resposta.”
Eurico morava ali pertinho, numa das primeiras casas do Almirante Reis, uma casa de varanda ou sacada que hoje tem o N.º 14, para onde eu me dirigia no instante em que fora abordado por Francisco Bento de Gouveia.

Para lá me dirigi. Eurico recebeu-me logo, de pé, frente à sua secretária de trabalho. Disse-lhe o que acabara de ouvir da boca de Francisco Bento. Eurico, ouviu-me atentamente, e depois, de rosto congestionado, olhos esbugalhados a pularem das órbitas, deu um fortíssimo murro na secretária e quase que alucinado, gritou: “AQUI NINGUÉM SE VENDE!!!”

Do honestíssimo Eurico, se bem que demasiadamente impulsivo, eu não esperava outra resposta, mesmo que tal resposta fosse, como foi, o prelúdio, o rastilho da nossa canalhesca deportação.

Ao levar a resposta dura e decisiva a Francisco Bento, este embatucou e em sua face, como um relâmpago, cintilou um sorriso sinistro...
Dias depois, o tempo necessário para o arranjo e montagem da armadilha (5.ª feira, 20 de Janeiro de 1927) cerca de uma hora da tarde, a “Casa Sindical”, à Rua do Dr. Vieira (Carreira) N.º 5, onde se compunha e imprimia “A BATALHA”, era assaltada por um bando de sicários e mastins, que mudou a fechadura da porta da rua, expulsou os tipógrafos e ajudantes, um espanhol desgarrado que ali se albergava por total carência de meios de subsistência, dois rapazitos, filhos de operários, de quantos eu ali, armado em professor particular, ministrava ensino para seus exames de 1.º e 2.º Graus.

Porta fechada, por dentro, para que o trabalhinho decorresse mais à vontadinha, um dos quatro salteadores colocou três velas de dinamite, embrulhadas em um exemplar do jornal “Batalha”, dentro de um caixote tipo-embalagem de antigas latas de petróleo, caixote esse que tinha o seu lugar certo, debaixo de uma lareira, sem uso, do 2.º andar. Diga-se já, porque é IMPORTANTÍSSIMO que se diga, que tal caixote, nada, absolutamente NADA continha dentro, antes do assalto porque servia para botar o lixo da varredura da “Casa Sindical” e esse lixo, na própria manhã do dia do assalto, estava como habitualmente à porta da rua e fora despejado à passagem do carrão lixeiro da Câmara, pelo pessoal camarário da limpeza e levado para cima, para o seu habitual lugar, pelo serviçal da “Casa Sindical”, COMPLETAMENTE VAZIO. Sobre esse serviçal, mais adiante nos referiremos para não alterar o passo deste trânsito e engarrafar a descrição.

Porque se serviram os assaltantes desse caixote? Porque e simplesmente o quarto dos delegados sindicais, no primeiro andar, estava fechado à chave e arrombar-lhe a porta seria uma perigosa imprudência...

Cá fora, na rua, a servir de esculca, estava o célebre camarada, o tanoeiro João Luís de Faria, empregado eventual na oficina de tanoaria da Casa Blandy, sita, como ainda hoje, à Calçada de S. Lourenço.

À saída, os quatro figurões salteadores, ensaiados e encenados pelos contra-regras da “FUMASIL”, foram entregar a chave da porta da rua da “Casa Sindical” ao Governador Civil, governador que segundo constava, por ser confrade dos capangas da “FUMASIL”, nadava nas mesmas águas... Antes da entrega da chave, os salteadores, cansados da tarefa, foram molhar o bico, à tasca do José Gomes (o “Bonito”), sita no rés-do-chão da própria “Casa Sindical”.

Eis aqui os nomes dos quatro salteadores: - António de Abreu (O “Rainha das Balsas), caiador-encartado da Junta-Geral do Distrito, que segundo se dizia era o guarda-costas para todo o serviço, do presidente-empreiteiro daquele Corpo administrativo, Dr. Vasco Gonçalves Marques; José de Freitas (o “Calvinista), carpinteiro de profissão e director do semanário adventista “A VOZ da MADEIRA”; João Octaviano Soares, ainda hoje pintor-chefe do “Hotel REID’S” e João Jerónimo Melim (o “Olho de Vidro”), serralheiro-mecânico no Arsenal de S. Tiago. Este foi quem roubou no depósito de dinamite do referido arsenal, as três velas de dinamite destinadas à criminosa proeza. Tempos depois, a Providência castigou-o: três dedos da mão direita, cortados na serra onde ele trabalhava.

Por debaixo desta máquina de serrar metais, segundo me disse o conhecido Afonso Coelho, ainda hoje existe o referido depósito de dinamite, onde Melim, exposto a ser despedido, por merecida punição, rapinou ao serviço dos burlões da “FUMASIL” e seus labréus, velas que também foram da “Câmara ardente” do infeliz deportado, o pedreiro João Abílio Ferreira, que gravemente doente em Timor, veio morrer em Lisboa, sem assistência familiar, no Hospital de alienados, “Miguel Bombarda”. Desgraçado amigo, pobre companheiro da mais “MISERÁVEL DAS INFÂMIAS IMPUNEMENTE PERPRETADAS NA MADEIRA” – segundo a expressão verbal e escrita de um esclarecido e popularmente respeitado e querido Governador Civil do Funchal, o saudoso e nobre Capitão de Caçadores 5, Artur de Almeida Cabaço!

MAIS CARNAVAL PORCO E IGNÓBIL...

Quatro dias após o banditário assalto à “Casa Sindical” (2.ª feira, 24 de Janeiro de 1927) o habilíssimo chefe de polícia, Francisco Macedo de Faria, que segundo publicamente corria descobriria crimes que os dois mais audaciosos e temíveis gatunos de então – o “Carambola” e o “Caravela”, seus protegidos, lhe sopravam aos ouvidos – chefe Macedo de Faria, acompanhado por dois dos assaltantes, foi fazer uma busca e rebusca de encomenda, e ali foram direitinhos de ventas ao caixote do lixo, onde se encontrava o famoso e manigante corpo de delito...

A piramidal descoberta levou o celebérrimo detective a matutar por conta e serviço dos burlões da “FUMASIL” na composição de uma “quadrilha de malfeitores” e toca a mandar prender operários, uns chefes de família, outros solteiros, porquanto eu e o Eurico Marques de Oliveira, éramos quem se queria e pretendia atingir pelos apelos secretos dos cabecilhas das Obras do Porto. Chefe Macedo, o hábil, o exímio, trazia na mioleira, no fígado, no bofe e em todas as vísceras, aquilo que se dizia à boca cheia, à boca farta, ter aprendido e praticado, na Ponta do Sol, seu coio natalício... Na Comissaria, o primo João Bigodes, um magno espalha brasas, um ideal bigorrilha de se lhe tirar o “palhinhas”, como à frente se verá e concluirá...

O “Jornal”, da direcção de Luís Vieira de Castro, era o órgão raivosamente declarado da “Burla das Obras do Porto”, assim como mais tarde deveria sê-lo da grotesca “Revolva da Madeira”, porque previamente combinado com o amigalhaço Capitão Sardinha, não fora bem ordenadamente requisitado pelos revoltosos mas voluntariamente concedido... Porém, fases daquela Revolta de má figura e de banzantes ineditismos, queremos que sejam da memória de outro capítulo...

O jornal castrino foi badalo de repique constante contra os presos da “Casa Sindical”, não por serviço de informação pública mas por ódio mal disfarçado, contra o atrevido perturbador que o Eurico e eu, o éramos, por meio da pena e comício de Redacção e de esquina contra a descarada falcatrua dos afanosos obreiros do Porto do Funchal. Eu já sabia que estava à cabeça da relação de quantos iam ser postos a ferros pelo mui hábil chefe Macedo, instrumentado pelos burlões de comandita com o corjedo menor de servidão bajulante e traidora, cujo quartel general era na “Cooperativa de Construção Civil”, da Travessa do Forno, a quem fora prometida a parte carpinteiral, por cinquenta anos, da citada obra burlona – o que era uma teta sem fim e um pau por um olho...

Compreenda-se o primor da suma malandrice.

De modo algum eu queria ser catrafilado ou engradado antes do dia 21 de Janeiro. E porquê? Porque, por dever de gratidão eu desejaria estar presente à trasladação dos despojos fúnebres de Henrique Augusto Vieira de Castro, do jazigo municipal onde os mesmos despojos se encontravam, para o jazigo de família – acto esse que se realizaria no dia 20 de Janeiro de 1927, com a presença de familiares do saudoso falecido e de alguns amigos do mesmo e em cujo acto, apesar de certas coisas e loisas... eu também estive ocultamente presente, graças ao amigo Gabriel, guarda do cemitério, que me permitira antecipadamente esconderijo no necrotério do mesmo cemitério, não fosse o Diabo deitar-me os gadanhos se me apanhasse ali visível antes da efectivação do referido acto angustioso e funéreo...

Então e depois eu consenti deixar-me prender porque tinha a minha consciência plenamente tranquila e no meu íntimo silabava pausadamente o rifão de que “Quem não deve não teme...”

Na Terça-feira, 25 de Janeiro, eu já estava a ferros num calaboiço-enxovia do Comissariado de Polícia Cívica do Funchal e comigo os seguintes companheiros de cárcere:

Eurico Lino Gonçalves Marques de Oliveira, 1.º Oficial dos C.T.T. Calisto Gonçalves Pinto da Silva, comerciante; Francisco Fernandes Camacho, carpinteiro e marceneiro; João de Sousa, sapateiro, antigo guarda cívico N.º 7; António Francisco Serra, sapateiro; José Fernandes Lopes, carpinteiro; João Abílio Ferreira, pedreiro; Francisco Fernandes, sapateiro e Francisco Ureña Prieto, de nacionalidade espanhola e sem profissão na Madeira.

Veja-se agora, em conformidade e confirmação do que acima dito ou escrito, o modo passional, sensacionalista, claramente denunciador e AÇULADOR como o jornal da direcção de Luís Vieira de Castro, se portou e comprometeu na notícia com destaque de primeira página, 6.ª coluna, ao alto, em sua edição de 6.ª feira, 21 de Janeiro de 1927.

Devo acentuar que os sublinhados, parênteses, interrogações e reticências, são meus.

Título: - “ORGANIZAÇÃO OPERÁRIA. – CASA SINDICAL
“A SEDE DAS ASSOCIAÇÕES OPERÁRIAS DO Funchal, instalada desde alguns anos numa casa à Rua da Carreira, foi ontem RECONQUISTADA!!! (Até parece Jerusalém...) pelos legítimos representantes (???) da organização sindical desta cidade.” (Espantosa mentira! Inaudito descaramento! Miserável pantomina!).

“A sede das associações tinha sido ocupada (Ocupada, não! Legalmente frequentada, sim!) por um grupo de operário capitaneado (Capitaneado é palavrão desprimoroso que cheira a quadrilha de ladrões!!!) por Eurico Marques de Oliveira e ali era composto e impresso um semanário intitulado a “Batalha” (Verdade absoluta. Verdade total. Sim. “A BATALHA”, o jornal que estava atravessado no gorgomilo dos burlões da “FUMASIL” que os mesmos tentaram subornar!!!). “Ontem, cerca de uma hora da tarde (Hora tacticamente escolhida. Hora de almoço por causa das moscas e dos moscardos nas bochechas...) os legítimos inquilinos (Ele a dar-lhe e a burra a fugir...) decidiram a regressar à casa que lhes fora usurpada (Aqui, como a D. Miguel, chama-se usurpadores, gatunos, aos donos verdadeiros. Triste ignorância. Pobre mentalidade. Grandessíssima malandrice) violentamente (Que maldoso e insidioso estilo o do autor da notícia, o próprio Luís Vieira de Castro, como nos dissera então o Arnaldo Coimbra Figueira, repórter de “O JORNAL” e executaram com relativa facilidade os seus desígnios (pudera, se não estava lá ninguém que esmurrasse os narizes dos salteadores e os fizesse descer os dois lances da escada, a “jacto”... Quanto aos desígnios, as amicíssimas e seráficas velinhas de presépio dinamitório, esses resultaram às mil maravilhas...)

“Dentro da casa encontrava-se um indivíduo espanhol de nome aranã (pois seja aranã. Já se sabe o que significa quando se troca o nome a qualquer pessoa...) que há seis meses se acha ali residindo e que segundo nos consta (O Sr. Consta é irmão uterino do Sr. ETC....) é um elemento perigoso (Pois claro! Porque é que o pobre diabo, sendo espanhol, não havia de ser perigoso???) pelos seus ideais revolucionários (Pandilha! Ideais revolucionários toda a gente os pode ter. mas esse desgraçado espanhol só tinha fome. Pior do que certos ideais revolucionários são as traições aos ideais. Pergunte-se ao Manuel Marcos dos Santos, empregado no “Hotel Golden Gate”, desde 1913, quem na roda amiga do incorrigível revolucionário, Capitão de Engenheiros, Carlos Venceslau de Ornelas Frazão Sardinha, hoje um monge de 85 anos, em Sá da Bandeira – escrevia e ditava no mesmo hotel, manifestos clandestinos, papel comprado na Livraria Popular, do Zé Talassa”, compostos e impressos pelo falecido tipógrafo e amador teatral, Manuel Câmara, no prelo da referida Livraria, sita à Rua do Bispo, manifestos esses favoravelmente afectos ao Movimento Revolucionário da Madeira, que eclodiu na manhã de 4 de Abril de 1931. Saiba-se que eu tenho em meu poder um recibo desse trabalhinho de sapa castrista, no montante de cerca de mil e quinhentos escudos. Mas isto é outra memória, outra história...)

No edifício (continua Luís Vieira de Castro) estavam também dois tipógrafos (que novidade haver tipógrafos numa tipografia... Mas não tantos como na tipografia de “O JORNAL”...) e três pequenos cuja função na casa se desconhece (Esses três pequenos... lede e ouve bem, leitor amigo, eram meus alunos. Um deles é hoje o hábil desenhador e mestre de arquitectura, Alírio Nunes Sequeira, a quem eu continuei a dar lições diárias, nas grades do Calaboiço, durante mais de um mês, até a minha saída para a Cadeia do Limoeiro, a 24 de Fevereiro de 1927. Não se tratava, pois, de negócios invertidos, à Sandrinha)...

Continua a treta da notícia do “JORNAL”, do punho do Luizinho: - “O pessoal empregado na “Batalha”, foi mandado sair do edifício e as portas fechadas com chaves de segurança. (O trabalho de patente secreta, dispensava mirones perigosamente alcoviteiros...)
“Ocupada a casa, os inquilinos legítimos (Luís chamava inquilinos legítimos a verdadeiros salteadores...), afixaram um “placard” com os seguintes dizeres: -

“Um grupo de operários funchalenses, descontentes com a maneira atrabiliária como (Não interrompamos a “mise” para não provocarmos apertos uretrais. Esperemos pelo fim do esguicho...) como vem caminhando a organização operária, acaba de encerrar a Casa Sindical e expulsar o intruso Marques de Oliveira. O mesmo grupo convocará a assembleia-geral afim de executar (ou decapitar?) novos trabalhos.”

Viva o operariado madeirense!

Nestes termos, assim acabou a noticeira boa-nova de Luís Vieira de Castro.

Outro comentário nosso: - “Maneira atrabiliária”? – Nunca foi tão atrabiliária o caminho cheio de curvas trilhado pela Casa Sindical, só houvera ordem sob o mandato daquele intruso a quem os salteadores nunca se cansaram de sabujamente lamber-lhe os pés primeiro do que as mãos...

Quanto ao “VIVA” ladrado no “placard”, eu, que conhecia muito do patifismo operariado, de que tantas vezes fui vítima em sua chantage, na pureza do meu idealismo, só posso responder com este brado: - “Abaixo a malandragem, a escória daninha, criminosa, do operariado madeirense!!!”

Uma estrelinha, um asterisco estampado no papel, a seguir ao esguichado “placard”, fez a notícia tomar ar e dar ao farricoco escriba, ao fariseu dos sete costados, a despejar esta angelical perfídia, este bento conselho instigador, que por nojo me abstenho de comentar, de farpear, de esfrangalhar: - “Consta-nos que os operários foram procurar as autoridades a fim de expor-lhes o ocorrido e de pedirem as necessárias providências para que se não dê qualquer alteração da ordem. “(Ronha, medo, cobardia!!!)

“Seria, de facto, conveniente que a polícia evitasse qualquer incidente capaz de perturbar a tranquilidade pública.”

A notícia tendenciosa, que acima terminou, era bem merecedora das honrarias editoriais de... fundo imundo...

Mota de Vasconcelos (M. de V.)

 

 

"EPOPEIA DO EMIGRANTE INSULAR"
 
                     
-  Obra menos conhecida de Mota de Vasconcelos

 

 

PALAVRAS DO PREFÁCIO

A ideia de erigir padrões escultóricos ao Emigrante Insu­lar, visando o saldo duma dívida de mais de quatro séculos de grande odisseia e epopeia nas sete partidas do Mundo, de tão grande e heróico recoveiro, envolveu logo o sequente e simultâneo propósito da publicação dum documentário bibliográfico que servisse o fito de divulgação da mesma ideia, estimulando o movimento patriótico da sua concretização e que constituísse também subsídio de interesse para a história da emi­gração, ainda por fazer.
Esse trabalho está aqui.
Fizemos o que estava ao nosso alcance para abarcar e atin­gir, o melhor possível, a finalidade desejada.
Ê um trabalho de colaboração, de achegas diversas, somando um punhado de boas vontades e valiosas dedicações almejando o mesmo objectivo alevantadamente regionalista e patriótico.
Por isso, não nos cabe nem nos compete honrarias e lou­vores especiais mas apenas a satisfação espiritual do nosso reduzido contributo para a realização duma ideia altaneira e nobre que perdeu o mero cunho pessoal de iniciadores e promotores, passando a ser de todos, mercê do geral apreço com que foi acolhida e do ambiente de clara compreensão e de larga simpatia que a acarinha e exalta.
Parte deste trabalho é constituído pelo fraco cabedal das oito palestras, ampliadas, que proferimos ao microfone do Emissor Regional dos Açores da Emissora Nacional e duma conferência anteriormente feita na CASA DA MADEIRA, de Lisboa.

Outra parte consta de mensagens solicitadas a superiores entidades civis e eclesiásticas, mencionadas no texto de honra; de artigos jornalísticos, exortativos e elucidativos; de brilhantes escri­tos de adesão e estímulo e de variadas citações e notas relativas ao assunto e outras pelo assunto sugeridas, que vão indistintamente exaradas sem melindre para a sua autoria nem prejuízo de sequên­cia e de conjunto.
Porque é de reconhecer o domínio da imagem e da legenda na época que decorre e também para amenizar a longada árida da letra redonda, procurámos dar um pouco de realce à parte ilus­trada, inserindo mais de duas centenas de gravuras, algumas iné­ditas e sugestivas; outras de intuito decorativo, ligando o meio aos factos reportados, e revivendo na memória e na saudade, figuras, traços e motivos de lugares natais e patrícios tão caros e sempre pre­sentes no cosmorama das recordações de antanho.
Nesta portada merece registo legítimo de gratíssimo vinco e expressão, a maneira profundamente carinhosa e alevantadamente compreensiva como a Imprensa acolheu, divulgou e estimulou a iniciativa dos Padrões ao Emigrante Insular, o que conferiu à ideia não só o foro de colectivo aplauso e louvor como também rumo animoso e seguro para a sua concretização.
Relevo especial se deve à mui douta e destacada Comissão Central de Patrocínio, que já na altura em que este trabalho rodava no prelo veio criar esteio e alento novo ao curso da iniciativa, modi­ficando propósitos iniciais para a sua efectivação, que oxalá se concretizem na magnífica finalidade de seu altíssimo critério e pre­visão.
Menção de cívico e altíssimo apreço é devida ao facto assinalado da iniciativa dos Padrões, no seu espírito patriótico e em acto de plena justiça, ter sido proclamada e exortada na Assembleia Nacional pela voz autorizada do eminente Deputado, Conselheiro Dr. Armando Cândido, assumindo assim, na interpretação: dos sentimentos de todos os portugueses, a projecção verdadeira­mente nacional que a conceitua e define.
A acertada e condigna sugestão de integrar a dos Padrões no vasto ciclo de solenidades do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, numa clara e justificada interpre­tação do espírito de tais solenidades, implica a que patrioticamente se coloque este trabalho sob a égide do ínclito Infante, motivo a sua vera e radiosa efígie se ostenta no pórtico desta obra.
A razão de ser dessa integração está no vínculo perfeito que irmana o Emigrante com os povoadores e colonizadores da imortal gesta henriquina, pois, como outrora, as tarefas gigantescas do povoamento e da colonização, se nivelam, nos tempos modernos e presentes, às da emigração, que, indiscutivelmente, é um dos mais fortes e mais salientes elos que prendem Portugal ao Mundo, ates­tando e confirmando a sua alta missão universal.
Ê ainda o iluminado mandato e a influência messiânica e mística do Infante de Sagres, que inspira e impele o Emigrante das Ilhasque foram suas na eterna cruzada de presença, de pro­jecção e de expansibilidade de Portugal no Orbe.
A par da ideia da publicação deste trabalho e no plano regionalista e patriótico da iniciativa, surgiu o intento de transfundir, por falas e palestras, junto dos principais aglomerados insulanos da América do Norte, Brasil, Venezuela, etc., a essência que espiritualiza a iniciativa e o são fervor ilhéu que a galvaniza, des­pertando à sua volta afeições pátrias que o meio e o tempo vão diluindo; avivando e remoçando saudades dos lugares natais e ao mesmo tempo levar-lhes a notícia regozijaste e o decidido empenho reconfortante de assinalar a imensa gratidão que lhes é devida e o orgulho que todos sentimos pelo seu nobre e gigante labor de epopeia, exemplar e prestigiante do bom nome lusitano, — em Padrões de eterna memória.
Abundosa e fértil de belas e louváveis sugestões de entu­siástico e fremitante alcance patriótico, a ideia-mãe dos Padrões ao Emigrante Insular, poderia despertar na alma e no coração da imensa comunidade insulana dos Estados Unidos da América do Norte, o intuito de nesse acolhedor e grande País possivelmente nas cidades marítimas de Nova Bedford e Oakland, debruçadas sobre os dois grandes oceanos que foram caminhos largos da emigração, serem também erigidos dois Padrões, outrossim seme­lhantes, ao Emigrante Insular. A realização desse intuito eminen­temente nobre e significativo e de projecção internacional, cons­tituiria a forma mais afectiva, mais solene e mais eloquente de todos os ilhéus ali residentes, por si, por seus antepassados e vindoiros, devotada e patrioticamente se associarem à magna consagração universal do ínclito Príncipe lusitano que inspirou e comandou o ciclo glorioso da navegação do Oceano Ocidental, que depois da alvorada da descoberta das ilhas da Madeira e dos Açores, abriu ao Mundo o roteiro da América, da índia e do Brasil.
A própria América do Norte, o seu Povo e o seu Governo, ficariam engrandecidos moral e espiritualmente com o levantamento de Padrões no seu solo pátrio que os bravos e laboriosos atlantes da Madeira e dos Açores  têm ajudado, com o seu suor e o seu amor, a erguer à altura, inultrapassada, da mais prodigiosa e monu­mental epopeia do Trabalho, do Progresso e da Civilização.

A sugestão, qual semente de auspiciosa primícia, daqui a lançamos ao terreno bom e generoso que pulsa no corpo e palpita no sangue do milhão de luso-americanos que são o elo mais forte, mais firme e mais leal da cooperação de verdadeira aliança entre Portugal e a América do Norte.
E dentro desta sugestão caberia outra de sua espiritual afini­dade: o concerto de um convite de toda a comunidade portuguesa e luso-americana com o patrocínio oficial estadunidense, respei­tante à visita do Supremo Magistrado Português, â América do Norte, na data da inauguração dos sugeridos Padrões ou noutra oportunidade. O fervor patriótico com que seria acolhida tal visita e até a sua benéfica projecção no campo da leal amizade que liga Portugal à América do Norte, não podem ser de forma alguma desvirtuados e deixarem de ser compreendidos e entendidos no seu nobilitante significado de são lusitanismo e de franca e grata cor­tesia. Ê uma sugestão para ser reflectida e matutada.
Voltando â iniciativa que agora julgamos lançada no seu alme­jado objectivo final, no seu já longo período de gestação e de acerto, tem ela passado, como é natural, por trâmites de evolução sempre diligentes e dedicados.
No estudo e no projecto escultóricos, também evolutivos, dm iniciativa, contámos no escultor Numídico Bessone, já distinguido por seus notáveis e variados trabalhos e com honrosa citação Enciclopédia, um devotado colaborador. Ê dele a maqueta-estudo que, por carência de projecto definitivo, empresta cor, sugestão e motivo à capa deste trabalho.
A iniciativa, presentemente rodeada e assistida de valiosíssimos apoios e destacados patrocínios morais e espirituais, rumar ao derradeiro exame e planejamento da sua louvada e desejada efectivação. Já não duvidamos da sua realidade e da sua vitória. Da sua justiça. Do seu patriotismo.

O Editor

 

Retomando as Memórias do meu PAI…


“M. de V. visto por Henrique Tigo”

 “ENGRAXADORES ILUSTRES”
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... – O cliente era um Capitão do Exército, em trânsito, após a guerra, de África para Lisboa. Estava acompanhado com um colega da mesma patente. Engraxadela algo prolongada e conversa minha pelos cotovelos... História, Geografia e mais divagações a rodos nas quais eu vazava a minha novel, fresca e espumante sabedoria... O freguês mostrava encanto e interesse pela minha fogosa discorrência. Ao cabo da lida graxosa e palavreira, já de pé, pronto a abalar, o simpático Capitão meteu-me na mão uma moeda de dois tostões e dirigindo-se ao colega, que também fora engraxado, exclamou: - “Eu não sabia que na Madeira houvesse engraxadores ilustres...”

 

--- Antigamente, quando o “Golden”, como no monólogo do “Estudante Alsaciano”, era risonho e franco e a esplanada abarrotava de gentio, a gerência facultava o interior ao serviço da “graxa”. Acontecia, devido ao abundoso e extraordinário fraguezedo, faltar a anilina líquida, tanto a preta como a amarela, e então, no aperto, quase debaixo das mesas, era o cuspo a primeira fase da polidura e tudo, a jeito, passava como passa a moeda falsa, sem que os bancos e as bancas mostrassem brechas de falência... Truques e recursos secretos e imperiosos do ofício...

 

--- Durante anos longos, o edifício “Golden”, como Café que fora primitivamente propriedade de uns tais Correias e “Bichos” de alcunha, armou restaurante de vasta clientela, em toda a nesga do fundo-sul. Na parede do mesmo lado e a par, dois primorosos quadros a óleo, de grande formato e moldura, da exímia e feliz autoria de Carlos Figueira, um datado de 10-3-10, representando em anteplano um avantajado barco de pesca afainado, na baía do Funchal, e à distância, dispersos, também de motivo semelhante, outros cinco mais pequenos na variante da perspectiva, uma canoa e o Ilhéu característico.

O outro óleo, de igual dimensão, ostentando a data de 9-3-10, figurando um amplo trecho da Ponta de S. Lourenço em suas fragas de aliciante realismo, constituía um mimo pictórico de altaneira revelação artística de valioso preço e apreço.

Estas duas maravilhas de típica expressão regional madeirense, estão agora (Abril de 1969) vis-a-vis no átrio do “Hotel Golden Gate” onde, veniamente facultadas, podem ser admiradas por apreciadores e cultores de apurada sensibilidade da pintura de feição e afeição dos tempos idos...

Essas imagens que milhentas vezes seduziram os meus olhos moços nas belas visões de antanho, em vez de fenecerem, cada vez mais se aviventam no meu espírito e na minha saudade terníssima e agridoce...

 

Ponta de S. Lourenço… ao vivo…
(Vénia a www.madeira-web.com)

 

--- Com o Alvarinho que me enfeitiçou e iniciou na liturgia de um rito que floriu no pendor de minha vocação e devoção, de que eu fiz operoso e promissor sacerdócio, o Alvarinho, diga-se, tantíssimas vezes se defrontou comigo em torneios do ofício, cujas regras se programavam na forma seguinte: - Um freguês para os dois – Alvarinho e eu. Aquele que mais espelhante brilho desse à bota ou ao sapato de sua cabidela, é que recebia a massa da engraxadura...

Na mor parte das vezes fora eu o vencedor da competição e nesta sempre soubemos ser verdadeiros, genuínos, sorridentes e leais desportistas, posto que a vitória ou derrota nem sequer era discutida nos seus resultados.

O próprio freguês era o árbitro. A condição única do torneio consistia na pomada que tinha de ser da mesma marca ou qualidade. O calfe, que nesse tempo era da Rússia (quando a Rússia tinha calfe que hoje o Exército Vermelho todo absorve em suas luzidias botifarras e correame) – o calfe devia de ficar como um espelho, onde o freguês, para decidir, como juiz de campo raso e de arbitragem imparcial, era obrigado a baixar a cabeça para ver e rever a fisionomia do rosto...

”Ó tempore! Ó mores!”

--- Comigo havia ainda outra espécie de concursos ou de torneios, esses de carácter cultural. Os competidores, só podiam ser estudantes do 3.º Ano dos Liceus e eu. A matéria ou modalidade do concurso cingia-se à História e à Geografia. Três perguntas e três respostas mútuas. Se os estudantes ganhassem, não pagavam a engraxadela. Porque essas duas matérias ou disciplinas eram o meu forte, pois nelas eu era um cabeça de “urso”, no sentido académico de sabichão, nunca eu provara o travo da derrota. Tais torneios teriam de ser casuais, de chofre e nunca antecipadamente marcados ou preparados. Então eu já estudava, a par da 4.ª classe ou 2.º grau primário, algumas disciplinas do 1.º ciclo liceal, entre elas, bem a fundo, as citadas Geografia e História. Os livros andavam sempre comigo, ou na mão ou na caixa. Estudava com afinco nos momentos vagos da graxa. Eu tinha lições matutinas, das 7 às 9 da manhã, com o meu saudoso e querido Professor e pedagogo, Feliciano Soares. Eu era pupilo da Bolsa de Estudos “Antónia Georgina”, fundada por Feliciano Soares em lembrança de profunda homenagem por sua única filha, que morrera na alvorada infantil.

A sala de estudo, primitivamente, da referida Bolsa de Estudos, era ali mesmo a menos de um minuto do “Golden”, num dos edifícios do banqueiro Rocha Machado, à Rua da Alfândega, N.º 1, 2.º andar, frente ao “Diário de Notícias” onde o Dr. Alfredo Leal tinha escritório de advocacia e João Welsh sua chancelaria de Agente Consular da Rússia dos Czares.

Feliciano Soares, meu carinhosíssimo Amigo e Mestre, era uma sereníssima, meiga, afabilíssima e sorridente Simpatia. Raras vezes acontecia chegar 5 minutos após as 7 horas. Então, ante nós, desculpava-se deste modo de fascinante ironia: - “Vocês que desculpem. Demorei-me um pouco. Estive a estudar a lição para vos dar!”

São do punho de Feliciano Soares, estas duas brevíssimas cartas que ele me dirigiu, quando eu já navegava de bolina no mar da tinta... – “Meu amigo: Antes de tudo, mil felicitações pelo número especial do “NORTE”.

“Sei o que isto representa de esforço e de vontade.”

É muito difícil realizar um trabalho destes. E como o realizou tão completamente, o felicito muito e muito. Depois, tenho de agradecer-lhe, muito sensibilizado, a sua bondosa referência ao meu nome.”

“Mas, valha-me Deus! Olhe que eu não mereço nada disto.”

“Eu gostaria bem que a minha conferência tivesse o aspecto que o meu Amigo lhe achou. Mas não tem, não.”

“Muitíssimo obrigado pelo seu rico trecho do “NORTE”. Está m.º, m.º bem escrito. É bem o seu estilo de sempre, rico!”

 

Director, Editor e Proprietário – Mota de Vasconcelos

 

Eis a outra:

 

“Meu bom amigo;

 

“Muito e muito lhe agradeço o seu valioso “Almanaque do Desportista Madeirense”.

“O seu trabalho é colossal. Como e em quanto tempo reuniu tantos elementos?”

“Admiro-o imenso, creia.”

“Tem fotografias preciosas.”

“O seu artigo sobre o Sr. H. Hinton, acho-o magistral.”

“Não sou desportista mas tenho de confessar que encontrei no seu Trabalho mil coisas que me interessaram muitíssimo.”

“A organização e disposição, esplêndidas.”

“Por tudo, as minhas felicitações muito sinceras e a minha grande admiração como

Seu velho am.º, mt.º afeiçoado e gratíssimo.”

Feliciano Soares era Director do “Diário de Notícias” local, (lugar que exerceu muito altaneiramente durante cerca de três anos, de 1928 a 1931) quando do falecimento prematuro de José da Silva Coelho, longos anos Secretário da Redacção e Redactor Principal do “Notícias”. Feliciano Soares prometeu-me, com toda a sua rectilínea honestidade, que tudo iria fazer para que eu fosse ocupar a vaga. Mas quando ele julgara que me podia dar esse lugar, visto confiar na minha competência, seu desejo foi furado por directos pedidos feitos ao Sr. Blandy, proprietário do “Notícias”, e aquilo que esperava vir a pertencer-me foi dado de mão beijada ao Sr. Alfredo Higino Camacho, que já possuía um belo emprego na Agência do Banco de Portugal, nesta cidade, enquanto que eu, que pretendia contrair matrimónio, não tinha colocação verdadeiramente certa ou de alicerce. Foi com amargor e os olhos marejados de lágrimas que Feliciano Soares me informara da rasteira que lhe passaram. O desgosto de Feliciano Soares fez-me sofrer. Dadivoso e puro como era, Feliciano Soares, desconhecia os alçapões traiçoeiros que a vida tem... Mas o Sol não parou nas alturas e a existência para mim não deixou de ser existência e persistência... Apesar de tudo ultrapassei o “mini” e acabei de me encontrar comigo mesmo a carregar os fardos de jornalista, director de jornal e de Revista, publicista e escritor. Não morri como um galináceo, de ovo atravessado, pelo facto de não ter tido poleiro no “Notícias”... Deus não fecha uma porta sem que abra outra...

Quando do infausto passamento (1952) de Feliciano Soares, luminoso e infatigável obreiro da Cultura e do Pensamento madeirenses, eu estava nos Açores, onde nesse mesmo ano vi partir para sempre, um grande Mestre e outro Amigo, o eminente Professor e Homem de Letras, polígrafo e jornalista, Dr. Lúcio Agnelo Casimiro.

Porque é que no Funchal não há ainda um Busto erguido à memória do admirável obreiro da Cultura madeirense, que foi Feliciano José Soares ou o seu nome na esquina de uma rua ou de uma travessa?

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--- Chamava-se “Patrono” e era Canarense o primeiro engraxador de profissão que actuou no Funchal, no quiosque existente há muitos anos na Rua do Aljube, frente à “Casa Havaneza”. A mui hermosa filha de Patrono era primorosa no mesmo mester de seu pai.

José de Sousa, o “Frangalho” de alcunha, e o já velhote mestre Quirino eram colegas que trabalhavam ao largo. Mestre Aniceto da Conceição trabalhava num cubículo da Rua da Sé, pertença da Sapataria "ORNELAS" (Manue1 Anastácio de Ornelas). Havia outra engraxadoria, na barbearia do Jardim "O Talhada", ao começo, lado esquerdo, próximo á Sé, Avenida Arriaga, antiga Praça da Constituição", que também teve o nome de Avenida Oeste. Ali pontificava o colega engraxador, José Pestana, que ao transferir­se para a Rua do Carmo, curtido em água benta de presunção, num anúncio publicado no "Diário da Madeira" de 3/6/1915, anúncio primeiro no género de que há memória na imprensa madeirense, se intitulara “ENGRAXADOR SEM RIVAL”; titulo, que sem alarde, só a mim pertencia. O certo é que a basófia do colega levou­me a exigir­lhe um repto como nos duelos de honra, a que o Pestana se esquivou... Ah tempos, tempos de saudosa prosápia...

Quando o famoso e heróico Cabo de Guerra, o General Pereira de Eça, passou na Madeira, a caminho de África, em Março de I9I5, acompanhado de mais de uma trintena de oficiais, eu tive a subida honra de engraxar-lhe não só as botas como a paciência com uma saraivada de perguntas, algumas das quais tiveram amável e sorridente resposta. Nesse dia, maré-cheia, no "'Golden", eu não tive mãos para medir tantos pés...

Gonçalves Zarco visto do Golden

(Vénia a www.madeira-web.com)

 

Certo dia do período transitório dos anos : 14-15, um grande pé-de-vento estoirou no local onde se alevanta a Estátua a Gonçalves Zarco, talhe magnifico ou melhor, magnificente, do magistral cinzel do Escultor madeirense, Francisco Franco. Não me refiro ao vendaval que derrubou uma "Figueira-da-índia sobre o "Carro Americano", que ficou quase completamente desmantelado. O pé de vento a que me reporto, diz respeito ao violentíssimo embate corporal travado entre o celebérrimo desordeiro-revolucionário", carbonário" o “Formiga Branca", Manuel Joaquim de Matos, o "PINTOR”, e o bilheteiro de transporte automobilista, João Augusto de Ornelas, vulgo "JOAQUIM DE MATOS". Ambos valentões a truculentos, do terreiro fizeram arena circense e em luta livre a prolongada, à vista de centenas de espectadores postados como em barreira fechada da praça taurina, lutaram como ferinos gladiadores, sanhudos como búfalos a leões. Estendido no solo, o "PINTOR" ficou vencido e convencido que na Madeira tinha encontrado o famoso "Filho da Velha"...

O nosso Joaquim de Matos foi levado em triunfo para o "Standard" e ali de camisa em retalhos, sequioso pela luta gigante, emborcou três cervejas em três tragos seguidos. O “PINTOR" foi levado de padiola ao Banco do Hospital onde o Dr. José Joaquim de Freitas o pensou e reanimou.

Até hoje nunca eu vira uma pega humana, ao natural, como aquela, que bem viva em todos os lances, continua patente na minha recordação!

 

 

“Ainda a Revista Açores-Madeira, de Mota de Vasconcelos…”

Sem qualquer dúvida sobre os importantes serviços que esta Revista prestou conjuntural e futuramente aos Povos Ilhéus que integram o nosso Portugal arquipelágico, tendo-se tornado instrumento de autêntico intercâmbio e fomento, fiquei todavia surpreendido com as múltiplas referências que recebi acerca do soneto camoniano dado a conhecer na última edição da “Varanda”.

Eis-me de novo com as suas páginas nas mãos, essas  mesmas de que a minha irmã e eu próprio éramos cuidadosos “revisores” desde os nove e dez anos de idade.

No segundo lustro desses longínquos anos 40’, um grande poeta é ali lançado aos 17 anos: Emanuel Félix (1936-2004), saudoso terceirence criador do concretismo em Portugal.

Quando o conheci pessoalmente na Casa dos Açores em Lisboa, no lançamento duma das suas obras, recordámos com saudade este episódio.

Ei-lo.

Emanuel Félix
Foto Projecto Vercial

AÇORES-MADEIRA

A fonte da saudade

Feixe de poesíias de Emanuel Félix

 
NÃO podemos esquecer o doce frémito de emoção espiritual que nos causou a gentilíssima timidez dos 17 anos juvenis de Emanuel Félix, quando, de mão própria, nos ofertou, com requintada cortezia de dedicatória, o seu formoso livro de versos, inspiradamente intitulado «A FONTE DA SAUDADE». 

Ele, que nos vinha dar o seu tesouro, tinha o ar de quem nos vinha pedir alguma coisa... 

Tem o suavíssimo e pulcro perfume das rosas virgens, esse ramalhete de versos. E' bem a linfa de cristal da Fonte da Saudade correndo em surdina de ritmo ciciante beijado do enlevo de romântica aragem... 

Sorvemo-!a de um só hausto como se sorve um filtro de feitiço inebriante. 

Promissora estreia literária, «A Fonte da Saudade», modulada ao jeito nobre da musa clássica, imune á epilepsia de histriónicas modernices, tem laivos vivos de beleza poética, abundosa e sensitiva inspiracão, singeleza tocante e mimo enternecedor — atributos reais da Poesia real. 

Vocações de tal pureza não necessitam de estímulo das palavras mas apenas de alma — a alma que sobeja em Emanuel Félix para prosseguir e triunfar. 

Mais do que felicitações são homenagens que o novel e auspiciante Poeta merece. 

A testemunhar a excelência e o primor do seu estro, aqui vão alguns líricos mimos de «A Fonte da Saudade»:

 



Eis os meus versos, perfumada flor.  
Lê-os baixinho... porque neles o amor, 
Num sonho idealista, adormeceu...

Aqui verás, quimeras que sonhei,  
As lágrimas de dor que derramei...  
Eis o meu livro e fi-lo por ser teu.

No teu rosto singular 
Paira urna graça sem par 
Que me traz apaixonado, 

Princesa que a graça doira, 
Minha feiticeira moira, 
Que me tens enfeitiçado.

¿Mas quem sentia assim tamanha dor 
Junto ao leito de morte do Senhor,  
Ao pé da cruz, na hora da agonia? 

Era a Virgem mais pálida e mais linda,  
Tinha no rosto urna tristeza infinda,  
Era a Mãe de Jesus, era Maria.

E' noite de lua cheia. 
E' noite de S. João. 
— Cantai ó moças da aldeia! 

Ide à Fonte, mocidade,  
Nesse rancho folgazão,  
Semear pão de saudade...

 

" Voltando às Memórias do meu Pai...

Episódio interessante no contexto de tantas páginas da Revista Açores-Madeira, que meu Pai dirigiu e que cingiu os dois arquipélagos durante os anos 50' do século passado, é este do grande soneto camoniano vertido em inglês.
Não é sequer o que se pode chamar uma boa tradução, mas o certo é que me tem acompanhado toda a vida.
Aqui está a título de curiosidade.

                                                                                                                                                je"

AÇORES-MADEIRA
Alma minha Gentil que  Partiste
(O mais conhecido soneto de Camões, vertido na Língua inglesa por J.j. Aubertin)

My gentle spirit! thou who hast departed
So early, of  this life in discontent,
Rest thou there ever, in Heavn's firmament
Whíle live here on earth all broken-hearted.

In that Ethereal Seat, where thou didst rise,
If memory of this life so far consent,
Forget not thou my ardent love unspent,
Which thou didst read so perfect in mine eyes.

And if, perchance, aught worthy thee appears
In my great cureless anguish for thy death,
Oh! pray to God who closed so soon thy years,

That He will also close my sorrowing breatlh
And swiftly call me hence thy form to see,
As swiftly He deprived these eyes of thee.

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá, no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E, se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Continuando as Memórias do meu PAI...

Texto de Mota de Vasconcelos

 

 

Meu saudoso irmão mais velho, António Zacarias de Vasconcelos, falecido aos 28 anos, a 9 de Janeiro de 1922, que tagarelava admiravelmente as línguas inglesa, alemã e francesa, e fora empregado da "CASA HAVANEZA" de meu tio Augusto Rodrigues de Carvalho, o "Beiça" e do salão de artefactos frente à Estação do Pombal, com o Vasco Lopes, salão pertencente à firma J. B. Ribeiro & Cia., Lda., "croupier" nos últimos anos de sua vida, esse meu irmão detestava fortemente o meu humílimo ofício de engraxador, e certo dia, no "Golden", aproveitando minhas habilidosas manobras ciclistas no terreiro da Praça da Restauração, as quais maravilhavam inúmeros mirones, ele, a pés pesados reduziu a cavacos a caixa de meu labor profissional, julgando que desse modo poria termo ao apego que eu consagrava à arte da graxa... Eu ainda vira e pude calar aquele desforço, mas três dias depois lá estava eu com outra traquitana mais atraente, mais aprimorada e a cena danosa nunca mais se repetiu... O meu destino estava traçado e a minha vontade de bronze triunfou da arrogante petulância familiarmente e repimpantemente briosa de meu irmão...

Arredio, como já disse, à escola, nos meus primórdios infantis, meu pai, ainda vivo, tomou a resolução de prender-me a um ofício e assim fui aprendiz de sapateiro, na oficina próxima de minha residência, na tenda de mestre Reisinho, ocupação essa que não foi além de seis meses, mas foi nela que ganhei o primeiro salário de minha vida: - trinta reis por semana!... Fui ainda marçano na mercearia apropositadamente "RECORDAÇÃO DA MOCIDADE", na Rua de Santa Maria, esquina sul-oeste da Rua da Boa Viagem. Fui também limpador do automóvel, marca "UNIC", n.º 75, do conhecido motorista Adolfo Fernandes, com garagem no Largo do Pelourinho; aprendiz de carpinteiro de mestre Manuel Gomes Júnior, pai do Poeta Morna Gomes, exímio executor e dinâmico director da Banda Municipal do Funchal, durante o tempo que durou a construção do prédio do pai do dr. Teodórico Rebelo, à Estrado do Conde Carvalhal; aprendiz de pintor de carpintaria de mestre João de Gouveia, à Rua do Bispo, fundador e proprietário da "Casa de Chá", do Ribeiro Frio; empregado na "Casa Havaneza", de meu tio o "Beiça" e empregado, ainda, na "Casa Americana", de bordados à Rua Nova de S. Pedro.

Como desta extensa relação se deduz, julgo que fiz certo marcante recorde numa olimpíada de profissões antes de assentar arraial na profissão de engraxador ambulante, na qual fiz larga postura e ganhei a palma doirada da maratona fragosa da vida...

Tamanha fora minha popularidade no "Golden", que levado fui para a cena da chistosa e magnífica Revista de costumes regionais, original de Adão Nunes (Diabinho) e N.N. - "SEMILHA E ALFACE", música de Dario Flores e cenografia de Fernando Câmara, estreada no "Teatro Funchalense" no Domingo 9 de Dezembro de 1917. No Quadro do "Golden Gate", fui eu o Chefe, imitado a primor, pela esbelta figurinha de Violante Montanha, numa realista interpretação de grande sucesso. Era eu quem emprestava a Violante Montanha a minha "caixa", tanto nos ensaios como nos espectáculos. Tínhamos os dois a mesma idade: 15 anos de juvenilidade, e nos bastidores do Teatro existia entre nós um simpatiquíssimo amorico que certo dia de quente e comum ternura me custara as duas mais quentes bofetadas de seu pai, que era contra-regra e oficial dos Correios, Artur Montanha, bofetadas que foram verdadeiras estampilhas sem cola nem cuspo...

Nessa Revista teatral de 2 actos e 8 Quadros, era "compère" esmerado o Gabriel Eiras, que desempenhava às maravilhas o papel de "ZÉ-ALFACE".

Ilustração de Henrique Tigo

São dignos de memória outros componentes do elenco, tais como o "bijou" Olinda de Sousa, admirável revelação de 9 anos de idade, em can-can e bicho carpinteiro; Raquel Costa, formidável na comère! A SEMILHA, Sopeira, cinturão eléctrico e apaixonada ao telefone; Alice Alves, em Padeira e Desgarrada; Gabriela Fernandes e Carolina Duarte, no "Minueto"; José de Sousa, no Maneta e Estudante Velho; Arnaldo Rebelo, no "Fado"; Alfredo Higino Camacho, em "grog", Caldeireiro e desgarrada; Domingos de Castro em "Dr. Cura Mazelas" e Vegetariano. A. Quental, Director do Palácio da Evolução; João Vieira (Falhita), em"Chinesito" e Cauteleiro e seu irmão Sebastião Vieira, em Timóteo e Primo; Henry Palmer, em "Yankee". Noutros números, Patrocínio de Freitas, Olívia Melim, Laurinda Baptista e Margarida, Maria de Freitas, Maria do Carmo, Julieta Alves, Teresa Fernandes, Ermelinda Vieira, Alexandre de Freitas, Dilce da Conceição, Manuel Correia (Navalha), Mário Alves, Maximiano Barreto, António Capelo, Carlos Monteiro, Tiago de Sousa, Augusto Costa, Manuel Fernandes e Dionísio de Freitas (Caracterizador).

Números salientes: - "Sargo e Garoupa", "Sal e Pimenta", "Os 4 artífices-Caldeireiro, Sapateiro, Fulineiro e Calafate".

Por ter assistido a todos os ensaios, sei ainda quase todos os números de cor.

O bombardeamento do Funchal, em 12 de Dezembro de 1917, prejudicou bastante a sequência dos espectáculos. A estreia foi empolgante, ovacionante, delirante.

Ainda estou a ver e a ouvir o número-coral dos Engraxadores, com a minha figurita Violante Montanha, em solista, no papel de "chasinho", cuja música não olvidei e cuja letra vou reconstruir e que começava assim, em coro:

 
"Alegres, cantando,
A vida para nós é engraxar...
E vamos levando
A nossa existência a brincar.
Pelas ruas, pelas praças,
Em todo o lugar, por aí,
Com as nossas chalaças
Até toda a gente se ri...
"Toda a gente se ri, toda a gente se ri, toda a gente se ri"

 

Este final, trisado num crescendo de alegro, esmorocia ou pianava nos dois seguintes versos declamatórios, que abriam o solo:

 
"Pois então calem-se todos
Que o "chasinho" vai cantar:

"Minha vida é limpar botas
Noite e dia sem cessar...
Dar à escova, dar ao pano,
Puxar lustro sem parar."

"De Canárias importado
Este ofício original,
Ficou logo transformado
Em indústria nacional."

"Há p'ra aí certos janotas
Que usam jóias de latão,
E querem lustro nas botas
Dez vezes por um tostão!..."

Outras três Revistas precederam "A SEMILHA E ALFACE" e esse facto de anterioridade obriga-nos ao seu registo, porquanto garoto as vi e admirei e nelas ganhei o pendor de me imbuir mais tarde, apaixonadamente, no amadorismo teatral e marcar alguns tentos na baliza da Arte de Talma...

 

Teatro Municipal Baltazar Dias
http://www.madeira-web.com/PagesP/funchal-nucleus/se/municipal-theatre.html

 

Todas foram levadas à cena no "FUNCHALENSE", denominado antes "D. Maria Pia", "Arriaga", Baltazar Dias" e "Municipal".

A primeira foi a "MADEIRA POR DENTRO", com letra de Elmano Vieira (Feyo) e Júlio do Amaral, música de Manuel Ribeiro e Cenários de Carlos Figueira. "Compères": Artur Montanha e Henrique Moniz. Amadores destacados: Violante Montanha e o sextanista liceal José de Ornelas Monteiro. Espectáculos de benemerência. Estreia em 30 de Maio de 1915.

A Segunda, "MADEIRA NA BERLINDA", com letra de Francisco Bento de Gouveia e Luís Pinheiro. Música de Manuel Ribeiro. "Compère": Carlos Pedro de Oliveira e Castro. Amadores salientes: Laurinda Baptista, A. Lemos e António Caetano de Sousa Barbeito. Estreia: 29 de Fevereiro de 1916.

A terceira: "OS MIÚDOS". Autor: Carlos Pedro de Oliveira e Castro. Música de Dario Flores. Cenários: Carlos Figueira. "Compère": Jaime Alves, no "Zé Panaças". Elenco distinguido: Violante Montanha, seu pai Artur Montanha, Elisa de Gouveia, Alice e Georgina, Elvira Pestana, Jaime Caldeira, Carlos Figueira, Jacinto Figueira de Sousa e Manuel José dos Reis. Dois actos e oito Quadros. Ampliada com dois Quadros novos alusivos à entrada de Portugal, na guerra de 14-18, intitulados: "Viva a Pátria" e "Regresso ao Lar". Alguns espectáculos a benefício da "Bolsa de Estudos António Georgina". Estreia a 30 de Abril de 1916. Última representação: 6-6-16. O produto líquido do 1.º espectáculo reverteu a favor de "O Vintém das Escolas".

Fez furor, teve larga e retumbante popularidade e estimulou imenso os Revisteiros madeirenses, a Revista "O Zé do Riacho", em I prólogo, I acto e 4 Quadros, da autoria pseudónica de "NORDIMA", música de Raúl Portela e Artur Ângelo. No elenco, Alberto Miranda, "compère", Berta de Miranda, Rahira de Sousa e o grande tenor Júlio Câmara que longo tempo teve Escola de Canto na Madeira e aqui se matrimoniou. "Zé do Riacho" foi levada à cena dezenas de vezes, no desaparecido "Teatro Circo", à Praça da Rainha ou de Marquês de Pombal.

OUTRAS ATRACÇÕES: - George Papuss, jejuador, oito dias encerrado em urna de vidro, num salão da "Praça da Rainha". Janeiro de 1916. Constituiu uma surpreendente atracção. É um facto de merecida memória. A mim, foi-me impossível imitar Papuss, como imitei o colossal micaelense, João de Azevedo, na sua formidanda dental.

A magnífica parelha de Palhaços, Delmas e Pujol, a primeira que eu conheci, também actuantes no "Teatro Circo", são ainda uma inesquecível recordação da minha saudosíssima infância, do "Golden".

No "Golden" engraxei os mundialmente celebrados: explorador polar, antárctico, SHACKLETON (Outubro de 1921) e GEORGE CARPENTIER, campeão internacional de box, que enfrentou SMITH, no "Pavilhão Paris", em três renhidos combates (Março de 1921).

Assisti ao violento incêndio na Torre da Sé, em Outubro de 1917.

Vivi e comentei a audaciosa façanha de Humberto dos Passos Freitas, quando da fuga para as Ilhas Canárias, no seu "Glafiberta", de deportados monárquicos, presos no Lazareto, em Junho de 1919.

Filho de peixe, garoto de fôlego de gato, furei, de bordo a bordo, costados de navios surtos da baía do Funchal. Apanhei moedas jogadas da amuradas de vapores do Cabo e a par do grande desportista, Carlos Gonçalves, atirei-me para não dizer que mergulhei, do cimo do Ilhéu da Pontinha, mas de barril ou de cócoras, de modo a não rebentar o fel...

Outrossim, em 1915, quando já estavam cobertos a lajes os trilhos ou canais do cabo de condução eléctrica, pratiquei a arrojada aventura de percorrê-los, de rastos, desde o local onde estacionava o "Carro Americano", numa extensão de cerca de 250 metros, até ao outro lado norte da Avenida, próximo à porta do Hospital Civil. Quando eu reapareci à superfície, alagado como um cavalo de corridas, uma multidão alarmada, julgando que tinha perecido entupido e asfixiado, aplaudiu e recriminou ao mesmo tempo, o meu infantil arrojo. Só um estica ou uma enguia, conforme então eu era, é que poderia cometer a proeza que eu levianamente, mas seguro e confiante, cometi...

Outra travessura arriscada própria da minha moçoila têmpera atrevida e audaz, constou da minha equilibrada prova de ciclismo sobre o muro da Estrada da Pontinha, a partir da Ponte de S. Lázaro até ao cais do carvão da Casa Blandy, a qual, a muito custo decorreu com meritório sucesso olímpico... É que, então, eu fazia tudo da bicicleta, menos, é claro, colheres de prata... No entanto, a minha magistral habilidade não evitou que certa vez, em apertados volteios, circulares no vetusto Molhe da Pontinha, caísse ao mar com a maquineta pedalante. A fim de poupar os ricos dois mil e quinhentos solicitados, à risca, por um mergulhador de fundo, eu próprio me decidi a encarregar-me da tarefa que só pude realizar no dia seguinte em virtude da escassez da luz diurna, visto o Sol estar quase no limbo do Poente. Assim, ao outro dia, logo de manhã, munido de um gancho propício preso a uns metros de corda fina, suficiente, à terceira tentativa mergulhante consegui engatar a bicha pelos raios da roda trazeira e... pronto: a tarefa estava consumada e ganhas as duas patacas e meia...

M. de V.  (continua)

 

Continuando as Memórias do meu PAI...

Texto de Mota Vasconcelos

 

Meu pai tinha um primo legítimo: o médico e professor primário José Vicente Franco que residia e ensinava na Escola Lancastriana, sita à Rua das Árvores ou 31 de Janeiro, onde desde há muitos anos está instalada e sede da Banda Municipal do Funchal, vulgo "ARTISTAS FUNCHALENSES". Ali morei, ali aprendi alguma coisa, dos oito aos dez anos de idade. Uma velhota era a cozinheira e a governanta. Certo dia, em plena aula, atrevi-me à suma diabrura de fazer... chi-chi em um daqueles tinteiros de cones vidrados que se encaixavam nos redondos orifícios das carteiras. Um colegial, petiz como eu, que ficava à minha beira, viu e façanha e todo lesto pôs-se de pé e de voz farta denunciou-me deste modo: - "Sô pôssô, este menino fez chi-chi no tinteiro..." José Vicente Franco, ergueu-se como uma mola no seu estrado e bradou, colérico: "Vem cá, Joaquim! Não penses que por seres da família, que ficarás sem o devido castigo!"... Eu lá fui a tremer como varas verdes - "Dá cá a mão!", disse ele de pé atrás e palmatória alçada. Dei-lhe a mão, a dextra... Com toda a gana ele apertou-me as pontas dos dedos e quando a bicha dos cinco olhos caiu fulminante, como a espada de Dámocles, eu furtei?me ao golpe, mas no rapidíssimo e estratégico recuo, sofri violentíssima pancada na articulação do cotovelo e sentindo dentro de mim um tremor eléctrico, tombei no chão, vermelho como um lacre e no chão varado de dor, verti o resto do licor que o tinteiro não levara... - "Levanta-te!" - ordenou o primo Franco, cônscio de que me havia seriamente magoado. - "Vá lá para dentro se deitar e já sabe que hoje não terá recreio!"

Já que estamos com a mão no badalo deste episódio, devo dizer que foi o médico José Vicente Franco, quem amputou, rente, o parceiro dedo mínimo da mão direita de meu pai, gravemente mutilado por uma linha de pesca que nele se enroscara quando da puxada de um peixe possante. Esse dedo esteve alguns anos enfrascado em álcool puro, dentro do oratório do quarto de minha mãe. Metido dentro da tumba, lá foi com meu pai, como parte do seu corpo físico, para a sepultura.

 

VOLTANDO AO "GOLDEN"

 


Entrada da Cidade do Funchal, vendo-se o antigo Hotel Golden Gate,
com o seu café-esplanada, à esquerda. 1897-1915. 
Foto: Joaquim Augusto de Sousa. 
Espólio do Museu Vicentes Fotógrafos.

O pendor liceal, seus primeiros entusiasmos e acalentadoras esperanças, levaram-me a interromper a ligação com o "Golden" da minha paixão, do qual e sobre o qual ainda tenho muito que dizer.

Se o "Golden" me conquistou, eu também conquistei o "Golden" e a par e passo estendi a minha acção e a minha simpatia de garoto diferente, até à "Praça da Rainha", anexando-a... A clientela abundava e transbordava chegando e sobrando para a então reduzida colegiada que não era, talvez ou ao certo, a dupla centena que actualmente enxameia os cantos e recantos mais concorridos da cidade.

No número de meus fregueses de elite eu contava o grande e malogrado Visconde da Ribeira Brava. Logo que ele, montado no seu cavalo de raça, chegava todos os dias por volta das dez e tal da manhã à Junta Agrícola, de que era competentíssimo e super-dinâmico Presidente, organismo esse instalado no Palácio de S. Lourenço, nas dependências inferiores às que são desde há muito gabinete e aposentos dos Governadores Civis, um contínuo vinha-me chamar para lhe engraxar as botas de montar, tarefa que levava mais de uma hora, com conversa de permeio, quase sempre de toada política. Com curiosidade e basto interesse, o Visconde gostava de saber o que se mexericava pelo "Golden", o "Golden" que era também o epicentro da língua de prata mais comprida e mais atrevida do velho burgo funchalense. Eu, muito naturalmente, sem espírito de sabujo ou de rafeiro, tudo lhe contava e bastante me honrava e desvanecia de ser ou parecer o seu fiel informador político...

Terminada a faina das botifarras e do inconfidente e essencial palanfrório, eu via luzir na palma da minha mão a habitual moeda de dois tostões em prata e congratulava-me ver o meu dia de trabalho humilde praticamente ganho...

De corpo hercúleo, o "Visconde", que era de nobre e hereditária legitimidade e "Ribeira Brava" também de raiz legítima, de sua vulgar assinatura, foi sempre um gigante paladino da política. Tinha nas veias de puro-sangue armorial, a labareda da impulsividade mas era extremamente bom e generoso e altivamente franco. Possuía, portanto a qualidade genuína que distingue a franqueza e a lealdade dos homens impressivos e insofismáveis. Pela frente todos o respeitavam e temiam e por isso os coveiros da Pátria e da República do 5 de Outubro, só o abateram, o assassinaram pelas costas, cobardemente, carniceiramente. A Madeira perdera aquele que melhor e mais dedicadamente a servira em oito anos de nefasta e tormentosa república. Eu perdi um amigo são, educador e generoso.

Forte de S. Bento - Marginal da Ribeira Brava
http://www.cm-ribeirabrava.pt/culturalocal_patrimonio.htm

Um Vereador da Câmara Municipal de Lisboa, Joaquim Domingos, em sessão desse município, apresentou uma proposta confinante à colocação de uma lápide que constituía ou envolvia uma justa homenagem ao bravo Visconde, que não fora aprovada. Eis os termos dessa lápide: -

"Neste local, foram às 22 horas de 14 de Dezembro de 1918, assassinados a tiro, indefesos republicanos pela polícia cívica que os conduzia numa leva, mais tarde denominada "Leva da Morte" sendo comandante da polícia A. Lobo Pimentel; secretário de Estado do Interior o cap. Tamagníni S. Barbosa; chefe do Poder Executivo, o major Sidónio Pais".

A Rua da "Leva da Morte" voltou a ser a Rua de Serpa Pinto, onde continua instalado o Governo Civil e seu especial Comando da Polícia (Calaboiço Principal), lugar de malfadadas recordações de antanho políticas do que de delito comum.

Eu não só andava na dadivante simpatia dos fregueses como na bandeja dos serviçais empregados do "Golden" justamente merecedores de lembrança e citação, desde o gerente João Marinho de Olim Marote, João Avelino Gomes, o "Joãozinho", Manuel Gomes de Oliveira, "Janin", Alberto Rodrigues, Luís da Silva; os irmãos Augusto e Alfredo Jardim, este do Café-Restaurante e Manuel Marcos dos Santos e Francisco do Rosário Farinha, estes dois últimos, do Hotel que a quando da visita dos Reis de Portugal à Madeira, ainda se chamava "Hotel Central".

A divulgada denominação "Golden Gate", nasceu espontaneamente de alguns oficiais da guarnição de um navio-escola norte-americano, salvo erro, "SARATOGA" que durante alguns dias do mês de Maio do ano de 1877, estivera de visita ao Funchal. Esse baptismo teve a solenizá-lo clamorosos "hip-hip-hurrahs" regados a fartos golos de saborosíssimo "Madeira-Wine". Tal nome constituía uma alusão festiva ao portão marítimo que dá acesso à cidade de S. Francisco da Califórnia, que na opinião daqueles marinheiros se assemelhava ou assemelha ao amplo trecho onde se situa o "GOLDEN".

No "Diário da Madeira" de 1 de Janeiro de 1921, pode ler-se o seguinte: JOÃO CARLOS DE AGUIAR & CA --- "Por escritura pública lavrada nas notas do cartório do Dr. Pedro Góis Pita, em 5 de Novembro último, foi pelo Sr. Manuel Gomes da Silva adquirido aos herdeiros do seu falecido consórcio, Sr. João Carlos de Aguiar, a quota-parte que lhe pertencia na firma João Carlos de Aguiar & Ca., proprietária do "Golden Gate", ficando a cargo do actual e único proprietário todo o activo e passivo da referida firma que continuará girando sob a mesma razão social".

Com a denominação de "Café Central", arquitectura antiga e modesta, pertença de outras duas sociedades desmembradas pelos tempos e sequência dos acasos dos negócios, a sua fundação remonta ao ano de 1841, sendo, portanto, no mesmo ramo de negócio um estabelecimento ultra-centenário de menção histórica nos pergaminhos madeirenses.

Duas vezes remodelado pelo camartelo e a picareta, ele ainda ali está como aliciosa pousada e belvedere de nativos e forasteiros, centro de cavaco ameno e simultaneamente linguareiro, sentinela e plantão citadino, bastidor de política e jogo de finança, mirante de passatempos amorosos; "capela" de culto bacânico, relicário de saudades vivas e fanadas...

Por ali passaram e transitoriamente estagiaram figuras de alta nomeada nacionais e estrangeiras, mendigos que foram milionários e milionários que foram mendigos...

Domingo, 3 de Dezembro de 1916. No relógio da Sé Manuelina, acabavam de ecoar as duas contrapesadas badaladas das oito horas e meia da manhã. Eu estava sentado sobre a minha "caixa" de ofício junto ao tronco gordo do velho plátano que ali existia fronteiro ao portão de arcada e de gaveto do "Golden". Ainda eu não havia estreado... De repente um infernal estrondo ribombou ao fundo junto à ponta do minúsculo cais-marítimo de então.

De "caixa" a tiracolo avancei no roldão dos magotes, do acervo de gentalha que para lá corriam de escantilhão, à desfilada. O espectáculo era horrendo. A dois passos, no mar, onde a canhoneira francesa "La SURPRISE", lentamente se afundava, boiavam cadáveres trucidados. No ar, gritos lancinantes.

"Uma explosão" - dizia-se em clamor. Trovejante, a voz de Afonso Coelho, ao lado do Chefe Macedo, bradou: - "UM SUBMARINO!!! "Afonso Coelho vira, vira eu, viram outros a esteira levemente corredia de um periscópio. Era de facto um submarino. A debandada pelo Cais além e Entrada da Cidade acima, fora quase geral. Ao chegarmos junto ao desaparecido "KIT-CAT", outro fragor temeroso: um torpedo atingira o "Cangurus". Eu tropecei na fuga. A frascalhada, caixa, escovas e pomadas, rolavam no rampado do piso. Um tormento a recolha de minhas alfaias. Já no "Golden", com os olhos nos feridos a caminho do Hospital, outro estampido diabólico. Era o navio inglês "Dácia" que se afogava frente ao Arsenal de S. Tiago, terminando assim o primeiro acto de uma heróica cobardia. O segundo acto foi o bombardeamento ao Funchal, com a enbertura do submarino pela proa da escuna norte-americana, surta na baía, a servir de escudo e de espalda à heroicidade dos "boches".

Balanço da patifaria; Sete madeirenses e 33 franceses mortos, indo 2 destes garrar ao lugar do Penedo, na Ilha de Porto Santo, onde ali mesmo foram sepultados. Um troféu germânico de uma vitória de sangue que glorificou Max Valentiner, comandante do bravo submarino que o imperador Kaiser agraciou com todas as palmas do barbarismo teutónico, barbarismo que em todas as guerras de extermínio se chamam actos heróicos...

Mais tarde, os despojos dos Marinheiros franceses foram solenemente conduzidos para França a bordo do cruzador "Jules Michelet", no dia 20 de Novembro de 1921. Os restos dos madeirenses jazem num monumento arguido no Cemitério das Angústias, por subscrição da iniciativa do benemérito Banqueiro Henrique Vieira de Castro, monumento esse que a letras de bronze esculpe esta bela e realista estrofe da autoria do Poeta Jayme Câmara:

"Fragateiros, na rude, extenuante lida,

Granjeio para os seus,

-- Esplendente fanal - eram a luz da vida

Acesa pela esperança e pela mão de Deus!

O clarim da manhã cantava na baía,

O crisântemo abria à beira do balsedo...

E coriscou o raio e matou a alegria

A violência, (o fragor) inútil de um torpedo."

Fernando Câmara, desenhou o talhe do monumento e este foi modulado na Fundição 5 de Junho. Sua inauguração teve lugar, em 3-12-1917, à entrada, álea central direita, do primitivo Cemitério das Angústias.

Não foi, porém, de qualquer outro beligerante da primeira Grande Guerra, senão de Portugal, a mais verdadeiramente heróica façanha dos mares. Esta foi orgulhosamente NOSSA, bem nossa, toda nossa, a daquela casca de noz, o CAÇA MINAS "Augusto Castilho", que à 5 horas da manhã de 14 de Outubro de 1918, para defender as 205 vidas do vapor S. Miguel, que comboiava, se interpôs sobre este e um submarino-cruzador alemão, evitando o certíssimo afundamento do navio português e uma tragédia marítima que enlutaria milhentos familiares. Um eterno laurel envolve a cabeça altiva do sumo Herói vila-realense, JOSÉ BOTELHO DE CARVALHO ARAUJO, Comandante do Caça Minas "Augusto Castilho", ante cujo monumento erecto em sua terra natal, em 7 de Maio de 1961, num arrebatante improviso, eu fiz ajoelhar, de joelhos em terra, perante o Magno Herói, dezenas de conterrâneos seus e os 65 componentes da "Excursão Açoriana a Fátima e Norte de Portugal", do ano de 1961 acima referido.

Outro Marinheiro - e esse Madeirense - é igual Herói Valente dessa incomparável Batalha Naval. Ele é o Aspirante de Marinha (promoção póstuma a Guarda-Marinha) CARLOS ELÓI DA MOTA FREITAS, a cujo choroso Pai eu muitas vezes minorei as lágrimas de Dor, de Saudade, de Orgulho.

Da janela de minha casa, à Rua do Coronel Cunha, esquina oeste do Beco da Rochinha, de companhia com a "Espanhola", aquela dona gripe malévola e assassina que grassava por toda a parte, eu vira o Caça Minas "Augusto Castilho", por volta das 5 horas da tarde de 13 de Outubro de 1918, largar para a sua última viagem e digo, que não sei porquê, tive um mau pressentimento... O "S. Miguel" zarpara primeiro e já estava fora de minha vista. Visão que nunca mais esqueci. Dois dias depois, os jornais locais inseriram as primeiras notícias incompletas. Mas uma coisa era certa: o afundamento do glorioso Caça-Minas em batalha tremenda e desproporcionada de meios de combate. O pigmeu contra o gigante, com a vitória assombrosa do pigmeu, cujo objectivo de guerra e de missão fora estupendamente realizado: o salvamento de mais de duas centenas de vidas. Heroísmo incomparável, Heroísmo total!

Que é a "A ENEIDA" confrontada com a Odisseia dos Mortos de sede, dos feridos das duas pequenas baleeiras em mar bravio, esburacadas por estilhaços, das "DUZENTAS MILHAS A REMOS", desde a coordenada geográfica do combate até a Ponta do Arnel, do nordeste da Ilha de S. Miguel?

Quem é o almirante Nelson, o decepado de Trafalgar, comparado com Carvalho Araújo, cortado a meio por uma granada de 21 ½ de calibre, na ponte de comando do "Augusto de Castilho"?

No capítulo trágico por mim vivido de acontecimentos desse tempo recuado, durante o meu assento ou base no "Golden", há que citar aquele que pavorosamente enlutou a "Empresa do Caminho-de-ferro do Monte. Foi na 4.ª feira, 11 de Setembro de 1919, cerca das seis horas e meia da tarde. O sangrento acidente verificou-se quando o comboio-elevador subia da Estação do Pombal para a estância veranil do Monte, logo abaixo do Livramento, lugar da "Quinta da Aragem". Uma máquina locomotiva com o atrelamento de duas carruagens explodira terrivelmente.

Foto cedida pelo saudoso JAG

Quatro mortos fora o lúgubre balanço: o maquinista João Vieira Gaspar, o fogueiro Urbano de Abreu, Virgínia Perfeito, natural do Monte e o moço Gastão Gomes da Silva, que tanto gostava de brincalhar comigo. Entre os feridos, o de maior gravidade, fora o irmão do malogrado Gastão, Manuel Gomes da Silva Júnior, que ainda hoje ostenta na face as cicatrizes da tragédia. Ambos eram filhos de Manuel Gomes da Silva, também ligeiramente ferido, proprietário do "Golden Gate". Entre outros passageiros vítimas de ferimentos, há que referir a Dr.ª Henriqueta Gabriela de Sousa, Henrique Herculano Nunes, Dr. Alberto Figueira Jardim, Dr. Manuel Sardinha, Luís da Rocha Machado, Manuel Jorge Pinto Correia, o jornalista José Ezequiel Velosa, Eduardo de Olim Perestrelo, Francisco Pereira, proprietário da fábrica de doces, "A FAVORITA", Afonso Duarte Vítor e o industrial de bordados, sírio, F. M. Saydah.

Foi tal a violência da explosão, que a máquina voou cerca de 400 metros indo cair no interior da "Quinta da Paz".

Leve como um gamo, eu corri desde o "Golden" até ao local do sinistro e pude ver os destroços da medonha catástrofe que os meus olhos pasmados e atónitos fixaram para sempre.

      M. de V. (continua)

Não foi, porém, de qualquer outro beligerante da primeira Grande Guerra, senão de Portugal, a mais verdadeiramente heróica façanha dos mares. Esta foi orgulhosamente NOSSA, bem nossa, toda nossa, a daquela casca de noz, o CAÇA MINAS "Augusto Castilho", que à 5 horas da manhã de 14 de Outubro de 1918, para defender as 205 vidas do vapor S. Miguel, que comboiava, se interpôs sobre este e um submarino-cruzador alemão, evitando o certíssimo afundamento do navio português e uma tragédia marítima que enlutaria milhentos familiares. Um eterno laurel envolve a cabeça altiva do sumo Herói vila-realense, JOSÉ BOTELHO DE CARVALHO ARAUJO, Comandante do Caça Minas "Augusto Castilho", ante cujo monumento erecto em sua terra natal, em 7 de Maio de 1961, num arrebatante improviso, eu fiz ajoelhar, de joelhos em terra, perante o Magno Herói, dezenas de conterrâneos seus e os 65 componentes da "Excursão Açoriana a Fátima e Norte de Portugal", do ano de 1961 acima referido.

 


O Comandante Carvalho Araújo, 
dominando, imponente, o centro da cidade de Vila Real

Outro Marinheiro - e esse Madeirense - é igual Herói Valente dessa incomparável Batalha Naval. Ele é o Aspirante de Marinha (promoção póstuma a Guarda-Marinha) CARLOS ELÓI DA MOTA FREITAS, a cujo choroso Pai eu muitas vezes minorei as lágrimas de Dor, de Saudade, de Orgulho.

 

Retomando o Texto das "MEMÓRIAS DO MEU PAI"

 

OUTRAS VISÕES DA INFÂNCIA

São milhentas e bem vivíssimas, nítidas como fotografias que o tempo não desbotou nem corroeu as recordações ou visões de minha infância e mocidade distantes e bem longas seriam se eu as tivesse de pormenorizar ou capitular. Impossível é portanto dá-las à estampa em minúcia, restando-nos apenas o recurso de mineralizá-las e reportá-las a esmo ou de escantilhão. Elas volitam na memória como as cerejas apetecíveis e gulosas em prato de sobremesa... Em vez de ramilitá-las ou enfaixá-las em episódios, como desejaríamos, forçados somos a sinfonizá-las em lamirés ou em escassíssimos apontamentos agravados pelas naturais omissões que se escondem de permeio como pulgas em barras de saia...

De uma das janelas de minha casa, banda da Rua de Santa Maria, com menos de quatro anos de idade, pude ver e ouvir o assalto, fanaticamente popular e politicamente desordeiro, à residência do abalizado médico, Dr. António Albino Rego, desmando esse verificado no dia 9 de Janeiro de 1906 no regresso da populaça do assalto ao Lazareto, estilhaçar furiosamente as vidraças daquela residência sita à esquina-oeste, Rua Bela de Santiago - Rua Nova da Alegria. No intervalo que mediou entre o assalto ao Lazareto e a depredação da fachada da moradia de Balbino Rego, este com sua família refugiou-se em casa do pai do conhecido empresário de Teatro e Cinema, João Firmino Caldeira, situada bem perto, na Rua de S. Filipe.

Mais tarde, por curiosa coincidência, em 1923, em Lisboa, conheci pessoalmente o Dr. Balbino Rego, no seu consultório à Rua da Misericórdia, ao tempo Rua do Mundo, consultório ainda hoje existente, com a mesma grande tabuleta e mesmo nome, posto que ali exerce clínica médica, um filho de Balbino Rego, de nome completo igual ao de seu pai que eu tive a extremada honra de contar no número de destacados amigos meus da velha-guarda.

Ao Dr. António Balbino Rego (Pai), além de inúmeras deferências que lhe fiquei a dever nos meus saudosos tempos de estudantes, na capital, não posso esquecer o honroso contacto que ele estabeleceu entre mim e o Médico insigne que fora o Doutor Egas Moniz, Prémio Nobel de Medicina. Muitos colóquios tivemos os três no Hospital de Santo António dos Capuchos. E já que citei Egas Moniz, não devo também esquecer o meu velho convívio estudantil com o Prof. Doutor Almeida Lima, que pertenceu à doutíssima equipa médica que permanentemente assistiu ao gravíssimo transe que por longo tempo prostrou o eminentíssimo Presidente Prof. Doutor António de Oliveira Salazar

Assim estudante (Quartanista de Neurologia) eu servi de examinando daquele que é hoje uma eminente sumidade. O caso passou-se no Hospital Escolar de Santa Marta, e desse caso guardo lembrança de uma leve cicatriz que ostento na parte média do meu antebraço esquerdo.

Quanto ao Dr. Balbino Rego, o tempo e a serenidade dos ânimos esquentados por lamentáveis animosidades políticas, reconheceram a devida justiça da gravíssima infância que se pretendeu atribuir ao mesmo grande bacteriologista e criminalista que no pleno exercício das suas responsáveis funções de então cumpriu admiravelmente a sua missão de altíssima higiene ao serviço da saúde pública madeirense.

-- Minha escola primeira e primária foi a "Escola de S. Francisco de Sales", à Calçada do Socorro, cujo magistério atento e dedicado estava a cargo das Professoras D. Lizarda e D. Augusta, aquela mais rigorosa e disciplinante e esta mais comunicativa e acolhedora. Eu tinha assento na bancada fronteira ao estrado professoral. Entre os meus colegas de fila, contavam-se mademoiselle Lygia e seus dois irmãos Júlio e Tomás da Cunha Santos, todos felizmente ainda vivos. Só a formosa e malograda Marieta da Cunha Santos, havia partido pouco antes para a Mansão Eterna deixando toda uma bela e virtuosa Família imersa numa desoladíssima dor que ainda hoje perdura no poema "LÁGRIMAS" que seu amarguradíssimo Pai, o Engenheiro e Professor José Victorino dos Santos, escreveu, alanceado, com sangue quente de seu dolorido e esfacelado coração.

O meu assobio silvante como gorjeio vivo de passarinho, era um encanto para todos na hora do recreio, especialmente para o Júlio que sempre que me vê e me fala, dele se recorda e decerto que revive aquele longínquo tempo de uma infância que baloiça no amoroso berço da saudade.

No mesmo Largo do Socorro, morava ao tempo o simpático e muito competente arrais Felisberto, avô do meu amigo de sempre, o Manuel Luciano de Castro, do "Diário da Madeira". Sua avó deitava pintos, que à solta no dito Largo, pipilavam em bando atrás da galinha-mãe. Em frente ficava e ainda fica a entrada da Barreirinha, que no seu primeiro socalco, de difícil descida, era então uma montureira, pois que por ali

 

Barreirinha. Tão diferente  que era...
 http://www.madeira-web.com/PagesP/beaches/barreirinha.html

 

não passavam os burrinhos do lixo da Pena, a Pena que na gíria do Povo chegou a ser universidade de cabeçudos e orelhudos...

Certa manhã, na minha ida para a escola, deu-me para tentar o ensaio de uma proeza que me percorria o miolo como uma minhoca travessa: gadanhar um pinto da avó do Castro, e na infantil julgança que o penugento animalzinho voaria como a celebrada "Passarola" do Padre Bartolomeu de Gusmão, atirei-o ao ar no beiral da Barreirinha. Ora o pinto da avó do Castro, impelido pela lei da gravidade caiu como uma pedra na base do socalco e... esticou o pernil... Simultaneamente atónito, medroso e pesaroso, corri para a escola pensando que esse acto ficaria oculto. Todavia, a avó do Castro, que ouvira pios de agonia estridulantes, assomara à janela e chegou a ver ainda e a concluir o que se havia passado. Rapidamente fora a minha casa fazer a sua justa queixa a minha mãe e o feito que não fora feito com maldade, custou-me, ao chegar a casa, um bem puxado malhão (sova) de cipó, aquela vergasta de junco que sem Ter dentes mordia na carne como um cão danado...

Ainda hoje quando topo e falo ao Castro amigo, recordo-lhe com confrangimento e digo-lhe com alguma ironia mais espirituosa que humorística: "Ó Castro, perdoa-me o assassínio desnaturado do pinto de tua avó"...

--- Naquele tempo contavam-se pelos dedos de uma mão os ensurdecedores mas aliciantes "Pó-Pós" da nossa infância distante, que agora nos museus das velhas traquitanas se denominam "ELVIRAS" e que bem melhor se poderiam chamar "ELENAS de... Tróia"...

O trecho da minha rua, entre a Rampa do Forte de S. Tiago e o escano que ladeava e ainda hoje ladeia parte dos contrafortes daquele histórico bastião artilheiro, era um trecho quedo, quase solitário.

Com meu irmão - João Hungria de Vasconcelos - que morreu no Instituto de Oncologia, dois anos depois de aposentado, em 1959, no posto de 1.º Sargento-Ajudante, existia uma sociedade sem cotas nem responsabilidade limitada, nem escritura notarial, que explorava um negócio de um bazar infantil, instalado dentro e em cima de um caixote, com sede à porta de nossa casa, negócio que só funcionava aos domingos, dias santos e feriados, visando o aproveitamento do fluxo e refluxo da frequência das missas da igreja próxima.

A mercadoria do bazar era constituída por artiguelhos baratíssimos comprados nos extintos "Armazéns do Chiado", tais como mini-sabonetes, rebuçados, bombons, carteiras de alfinetes, lápis de pau e de pedra e mais brinquedos utilitários, vendidos por sorteio de papelinhos numerados e enrolados a dedo e ao preço de cinco reis por unidade. E isso era uma atracção e uma pechincha... A par do negócio do miniatural bazarito, eu e o referido meu irmão, tínhamos o exclusivo de venda referente à aliciadora manufactura de "joeiras" (papagaios) de colocação certa e desejada, a trinta reis a dúzia, na "venda" (mercadoria) do Joaquim Nunes. Tudo isso, que representava ocupação, trabalho, simbolizava também uma meninil vocação pró-ensinamento da luta pela vida.

À noite, quase toda a catraiada do sítio, que era variada e basta, agrupava-se, de preferência na soleira e degrau de cantaria cinzenta, da porta da casa onde residia, João Higino Ferraz, funcionário técnico ou laboratorial da "Fábrica do Torreão". O Futebol que ao tempo acabava de nascer com a fundação do "MADEIRA" e do "MARÍTIMO", aliciou deveras a garotada da nossa área e logo ali se constituíram dois grupelhos rivais: o do "chasinho", que era o meu e o do "Camarão", o petizote "Camarão", que habilidoso e rijo, havia de ser mais tarde um destacado jogador da 1.ª categoria do leonino "Marítimo". Os "desafios" da pequenada eram renhidos e... feios... A canelada fazia faísca e a rasteira à traição promovia fartas equimoses. A bola era de trapo e mais raramente de bexiga de porco bem vestida de meias de algodão, surripiadas às mães, às titias e manas, que tantas vezes nos custavam dolorosas trepas caseiras... Uma lei se impunha nessas jogatanas: a lei do pé descalço. O calçado da petizada, tinha que ser poupado pelos pais e em casa era guardado a sete chaves...

Na Igreja do Socorro, eu era "Menino do Coro". Esperto, fizeram de mim ajudante de sacristão. Ajudava à Missa, tocava a finados, brandia as Santíssimas Trindades (as "Avé-Marias) e repicava nos baptizados, com a arte e as ganas de Quasimodo, o sineiro de Nossa Senhora de Paris...

Eu sabia de cor e salteado todo o Catecismo.

O sacristão efectivo era o Miranda, também mestre do ensino primário, particular. Miranda era tio do crítico desportivo, "ORION", funcionário público e depois jornalista - o Noé Moreira. Ajudante de facto, de sacristão, era o "SANTINHOS", mas a sua inveterada propensão para a pinga, fazia que eu o substituísse vezes inúmeras. Além de pingoleiro, o "Santinhos" era um "magano" e... peras...

 

Igreja do Socorro
http://www.madeira-web.com/PagesP/churches/santa-maria-santiago.html 

Mais do que hábito era praxe de milhares de mães, e a minha fora uma delas, transformar os cabelos dos filhos masculinos em cabeças de anjos e querubins, que os encanudavam e apapelotavam, crescidos até rasarem e ultrapassarem a fímbria dos ombros. Era uma tarefa de amimado efeminamento que demandava imensa paciência deveras mortificante para os bambinos já então pioneiros dos "beatles", mas aceitáveis e adoráveis do que os actuais ridículos maninelos... Era uma tortura, um verdadeiro garrote esse coquetismo das nossas mamães que subsistiu pelo menos até 1910, em que entrou na cena cabeleiral a foice e a tesoura verde-rubra... Ainda me recordo do lagueiral de ranho e lágrimas que me encharcava a face durante tão longo e massacrante amimalhamento da peruca infantil...

Cabelos de puro ébano, frisados de natureza, sem vaidade o digo, os meus caracóis eram os mais belos, os mais garridos das redondezas e isso enchia minha querida e saudosa mãe de pura e transbordante presunção maternal...

Escolar da 1.ª classe infantil, tentou-me sempre o desejo de fazer "gazetas", de corricar pelos arredores do meu mundo antigo. Era colega meu de igual predilecção um dos filhos, o Domingos, do chefe de Polícia Cívica, Justiniano Martinho de Vasconcelos, o antigo Cabo N.º 57, quando ordenança, no Palácio de S. Lourenço, já antes de ser Governador Civil, o inolvidável e nobre Capitão Artur D'Almeida Cabaço, foi por este meritoriamente promovido à categoria de Chefe, quando a competência de tais promoções pertencia aos Governadores de Distrito e não, como agora, ao Comandante-Geral da Polícia de Segurança Pública.

O Chefe Vasconcelos, natural da Ilha de Porto Santo, morava por volta de 1910, no começo do Caminho do Lazareto, próximo ao lugar da Forca.

Ora uma vez eu e o Domingos lá fomos distribuir a "Gazeta", à deriva, por esse caminho além, para conhecermos a "Quinta do Rochedo", armada em manicómio e matar a nossa curiosidade de miúdos com a visão real dos pobres dementes, não tantos como os que cá fora andavam à solta... Mas cabe aqui um parêntesis: o grande alienista português, Júlio de Matos, quando estivera na Madeira, classificara a antiga "Quinta do Rochedo", que fora propriedade de ingleses, o local mais aprazível e mais saudável do Funchal.

Sobranceira ao mar, dali se suicidou há cerca de trinta e tal anos, o Alexandre, proprietário da mercearia, da esquina do "Paço", esquina norte-oeste Rua de Santa Maria - Rua dos Barreiros.

Na curva da ponte por onde corriam e correm as Águas da Ribeira de Gonçalo Ayres, mesmo à beira do trilho, havia ao alcance dos caminhantes uma farta plantação de tabaibeiras. Ali, nós, os dois gazeteiros, fizemos paragem e grossa razia de figos do Diabo, apodo conferido a tais frutos selvagens mas apetitosos. Eu nunca os tinha visto e muito menos provado. Deles enchi a bolsa dos livros que se usava a tiracolo. Como a colheita fosse além da medida, fiz da bluzeta, sem camisa, alforjes de carregamento. Então, eu desconhecia os efeitos dos picos de tal fruto e assim fiquei gafado a contorcer-me de comichão terrível e ardente. Ante tão desesperante ardume, fui forçado a retroceder e a alijar a carga da bluzeta. Cheguei a casa de pele intumescente e arrepelada. Narrei a minha mãe o sucedido. O alívio ou a cura que eu tinha na pele, teve duas fases distintas: - primeira, um malhão de criar bicho, de vergasta de junco, o já citado cipó. Segunda: uma esfregadura terapêutica de vinagre, azeite e sal... Essa ficou-me de emenda...

O centro citadino do Funchal nesse ido transcurso infantil, era para mim, que o ignorava totalmente, um perturbante aliciamento que eu ardentemente queria devassar e assim lá fui eu noutra imperativa "gazeta", indo desaguar ao "Golden Gate" após palmilhar às cegas Becos, ruelas e travessas. Ali fiquei deslumbrado à vista do "Carro Americano" puxado a três soberbos cavalos de farta crina e guizalhos. Ele abalou sobre os carris de ferro e eu segui-o sem saber para aonde. Fui parar à Estação do Pombal e a fumegar e prestes a trepar, vi outra maravilha desconhecida: o comboio-elevador de cremalheira, do Monte. Essa visão, repito, foi para mim um inolvidável e enlevante encantamento! Tomei a fascinante e firme resolução de voltar ali mais vezes. Antes que anoitecesse fiz o retorno ao "Golden", pelo mesmo carril férreo. Depois, a palpar terreno, sito ao fundo do Largo da Sé, vi-me, a seguir, entupido no Largo dos Varadouros onde ainda existia o vetusto portão da cidade, o principal e de nomeada histórica, e a Capelinha ou ermida alpendrada de Nossa Senhora do mesmo toponímico, cuja Imagem se encontra na Sé Catedral. Alfim, cheguei a penates e... pela primeira vez menti a minha mãe, que de apertado "cipó" alçado porfiava num interrogatório que decerto acabaria em dura punição. Aleguei de modo tão convincente que estivera a estudar ali mesmo, em casa do Chefe Vasconcelos, então 1.º Cabo... A mentirola foi tão verdadeira que me escudara de outra sova de fungar ranho e lágrimas...

 

OUTRAS PERIPÉCIAS E REMINISCÊNCIAS INFANTIS

 

Fortaleza de Santiago  vendo-se ao fundo o Garajau
http://www.madeira-web.com/PagesP/funchal-nucleus/santa-maria/santiago-fortress.html  

 

Aquando da implantação da República em Portugal, veio de roldão ao Forte de S. Tiago, frente a minha casa, saudar o Comandante e a Guarnição, de mistura com a tropa e a Banda Militar do "27", ao tempo o "23", um povoléu aos vivas e aos berros, a quem foi franqueada a Parada da Bateria, um povo atordoado que na véspera se fartara de praticar tristes anomalias e mutilações em símbolos merecedores de respeito e não alvos de condenáveis vandalismos.

O espectáculo sonorizado a fungagá era novo e eu corri de conjunto com toda a família para o pequeno alpendre do quintal e para ver melhor tive que me empoleirar mas com tanta infelicidade que trambulhei de três metros de altura, indo para a cama todo amolgado e escoriado, na cama onde estive cerca de 15 dias varado.

Nunca mais pude olvidar a contundente peripécia o que me obriga a dizer com uma pitada de espirrante ironia que se a Monarquia caiu, eu também caí... se bem que ainda hoje continue a aguentar-me o melhor que posso e mereço, não só nas canetas como na caneta...

Decerto, como é de tom dizer-se, não é fito meu, repito, contar a minha história desde pequenino... mas a espiritualidade da recordação que é um caleidoscópio de fascínio, impele-me a aclarar, a retocar imagens esvanecidas de um tempo saudoso cujo alicerce fundo e fundamental de uma vida de quase sessenta e sete anos, vai na curva do fim...

É mais congratulatório, nesta descrição de memória, narrar a voo de andorinha coisas e loisas de um tempo que não regressa mais. Assim, tenho que evocar algumas pessoas, famílias e tipos de minha vizinhança e redondezas e algumas e alguns vou evocá-las por seus alcunhas, visto a Ilha da Madeira ser, por excelência e primazia, o terrunho dos alcunhas, os alcunhas que, de verdade, personificam e identificam mais caracteristicamente as figuras e tipos.

Há quem me conheça mais por "chasinho" do que por Mota de Vasconcelos, meu nome de escriba, meu nome jornalístico. "Chasinho" é um renome, um aposto ou continuado que não posso nem quero enjeitar porquanto ele não me deprime nem oprime...

Já disse e torno a dizer que meu pai, o arrais "chasinho", era machiqueiro de pura cepa, filho da "Vila Idosa", onde a caduca lenda de Machim já partiu as muletas, já escaqueirou as andilhas de uma patarata invencionice ignota, fossilizada, que a bem cronicada ficção de D. Francisco Manuel de Melo, numa de suas "EPANÁFORAS", por mais repintada que seja não conseguiu conceder-lhe foros de realidade e consequentemente a prioridade inglesa da descoberta da Madeira...     

M. de V.    (continua)

 

Erupção submarina nos Capelinhos

Pelo Ten.  Cor. J. Agostinho 

(in Revista Açores - Madeira, Ano IX, n.º 9, 1958)

 

 

Nas informações que se têm publicado diariamente sobre a evolução da erupção dos Capelinhos tem-se procurado que, a par da descrição dos fenómenos que se vão observando, se dêem também alguns esclarecimentos que permitam ajuizar as causas daquilo que se está passando.

Isto tem sido feito em termos tanto quanto possível compreensíveis para as pessoas que não andam a par do modo como se desenrolam os fenómenos vulcânicos.

O que aparece nos Capelinhos não é propriamente um vulcão, como o Vesúvio ou o Etna. Aquilo são apenas umas das muitas erupções de carácter secundário, erupções acessórias, digamos assim, da actividade do vulcão propriamente dito da ilha do Faial, que é aquele que está centralizado na Caldeira. Este vulcão da Caldeira, que há muitos e muitos séculos esteve em actividade plena, está agora no seu período de decadência. Já não tem forças para se ostentar em plena actividade, como outrora. Mas não está morto. Lá por baixo há ainda a lava ardente, rocha em fusão. O que ela não tem é energia bastante para chegar à superfície. Quando as forças que ainda a animam, embora fracamente, em relação à sua actividade primitiva, quando essas forças ainda são suficientes para determinarem uma erupção, essa erupção já não chega ao ponto mais alto do centro, que é a Caldeira. O que tem de vir cá para fora, fura por pontos mais baixos, a erupção que daí resulta dá-se ao redor da Caldeira, cá mais na parte inferior.

Em 1672 a erupção deu-se no cabeço do Fogo, acima do Capelo, mas desta vez felizmente, ela teve de contentar-se em romper mais abaixo e, graças a Deus, já fora da ilha, em pleno mar, embora tão perto da ilha que ela se ostenta como um espectáculo grandioso em frente dos Capelinhos, numa situação óptima para ser admirada de terra em excelentes condições e, felizmente, sem nenhum perigo para a ilha, além do susto e dos transtornos que este susto causou.

Repare-se que a erupção dos Capelinhos se deu, embora já no mar, numa lomba que corre dos Capelinhos até à Caldeira, por alturas do Alto do Guarda-Sol. Sobre essa linha se encontra o cabeço do Fogo, produzido pela erupção de 1672 e outros cabeços, como o Cabeço Verde, o Cabeço do Canto, o Cabeço do Trinta, e muitos outros, que denotam outras tantas erupções sucedidas há muitos e muitos anos.

 

 

Aquele mesmo promontório colossal que o Faial estende da Caldeira para Oeste e que mergulha no mar dos Capelinhos, mostra que a actividade vulcânica tem sido muito notável para aquele lado, já depois da Caldeira estar formada.

Agora vejamos, à luz dos esclarecimentos que aqui demos há oito dias, o que se tem passado e o mais que se pode esperar. Disse-se então que a erupção teria uma fase inicial explosiva. Nessa fase a característica principal era a explosão violenta de massas enormes de vapor de água e gases, que se condensavam formando aquela nuvem temerosa, carregada de cinzas, que caíam da nuvem para o lado de sotavento, num espectáculo horrendo, que felizmente os faialenses não podiam sequer ver, porque ela era encoberta pela nuvem que subia da cratera. Só do mar se podia ver, do mar e do ar, principalmente. Nunca é de mais encarecer e dar justo relevo à faculdade que a aviação nos dá de podermos observar este fenómeno em todas as direcções e sob todos os ângulos. E a afoiteza dos pilotos da Base Aérea n.º 4, permite tudo observar e apreciar, dentro dos limites duma perfeita segurança.

Nessa fase explosiva as projecções de cinzas e de escórias, isto é de materiais leves e muito divididos, eram permanentes, constantes, embora variando de intensidade.

Mas, ao fim de três dias, a erupção cansou-se. As tremendas quantidades de vapor de água acumuladas na câmara do vulcão abateram, e portanto a nuvem diminuiu de volume e de altura. De altura e de negrume. Desapareceu aquele aspecto aterrador que ela tinha. P vapor sai agora muito mais brandamente.

Ao mesmo tempo as escórias foram diminuindo e a lava, isto é, a rocha em fusão, a rocha ardente que se encontrava por baixo, vem subindo na abertura do pequeno vulcão. No dia 3 já se assinalavam entre os produtos projectados pelo vulcão, fragmentos sólidos incandescentes, pedras ardentes, provenientes já não das escórias leves e esponjosas, mas da lava compacta que está por baixo.

Esta mesma lava, mais pesada, já lhe custa mais a chegar cá acima. E, por isso, em vez de vir saindo permanentemente como acontecia antes às escórias mais leves, sai aos sacões. É projectada com extrema violência, a grande altura, trezentos, quatrocentos metros ou mesmo mais, mas só de tempos a tempos, em paroxismos isolados, como os acessos de febre que os doentes às vezes têm.

 

 

Anteontem, por exemplo, apenas se registaram seis desses paroxismos desde manhã até à noite. Nos intervalos deles aquilo acalma. Acalma o que não quer dizer que cesse por ora. Mas já anteontem acontecia por vezes a emissão de vapor de água abrandar tanto que chegava a interromper a continuidade da nuvem que se formava e deixava a ilhota quase completamente livre por forma a poder-se ver bem a sua configuração do ar.

Entrou-se pois no começo da outra fase da erupção, prenúncio da fase efusiva. Agora a lava vem subindo pela abertura do vulcão, subindo lentamente, chegará cá acima? Pode chegar realmente e depois derramar-se pela cratera e sair por aquela abertura que a ilha apresenta do lado de Leste. Mas pode também dar-se o caso da lava não chegar cá fora e então a erupção acabará por extinguir-se sem que a ilhota fique com esse núcleo de lava que lhe daria mais probabilidade de consolidação. Vamos ver o que acontece nesta semana. Uma coisa parece certa: é que o perigo de a ilha ficar sob uma chuva de cinzas já passou. E isso era realmente aquilo que os faialenses mais teriam a temer.

(Palestra no Rádio Clube de Angra em 6 de Outubro de 1957)

Fotos da época gentilmente cedidas pelo Instituto Açoriano de Cultura-IAC.

 

Na 5.ª ILHA do DISTRITO

Flutuou uma bandeira nacional

Uma pequena odisseia em que participaram faialenses e continentais

(in Revista Açores - Madeira, Ano IX, n.º 9, 1958)

 

"Fui a primeira pessoa a saltar na ilha"  -  disse-nos Urbano Carrasco

por INSULA

"Não tenho dúvida que fui o primeiro a contactar com a nova ilha" afirmou-nos Carlos Peixoto

 

Largo do Infante na Cidade mártir da Horta

 (Rev. Açores- Madeira)

 

Nos bastidores do vulcão (permita-se-nos expressar assim), era já conhecido o firme propósito de alguns jornalistas arvorarem a bandeira nacional na ilha formada pela erupção dos Cape linhos.

Os preparativos constituíam quase um segredo fechado... entre os representantes dos três grandes jornais lisbonenses "Diário Popular", "Diário Ilustrado" e "Diário de Notícias", havia o empenho da primazia.

Colhiam-se informações, estudava-se o transporte, discutiam-se temperaturas e até se vaticinava uma horrorosa tragédia, na tendenciosa finalidade de amedrontar possíveis competidores... cada qual ambicionava só para si a "coroa da glória".

O Urbano Carrasco, repetia amiúde: - "Eu sou descendente de árabes: se uma pedra tiver de me matar, fá-lo-á em qualquer parte".

A ideia germinou e a viagem no patrulha "São Tomé" serviu de reconhecimento para a ofensiva...

E, assim, no último sábado, passante das 10 horas, uma camioneta rodava para o Capelo. A carga tinha o seu ineditismo - um bote de recreio - o "Quo Vadis", pertença do sr. Eduino Labescat.

O Urbano Carrasco manejou cautelosamente, para não deixar pista aos colegas de jornalismo. Só ele e o Tudela, pois era indispensável fixar o épico acontecimento na Televisão!

O bote, puxado por uma junta de bois, seria levado até à Braça (sítio próximo do porto do Comprido) e de lá à ilha... eram duas remadas!

No entanto, não conseguiram descer por ali. Houveram que retroceder para o Varadouro.

 


Reconstituição da erupção e ilha SABRINA, 
formada e desaparecida em Junho de 1811, 
ao largo da costa de S. Miguel

 ( Rev. Açores-Madeira)

Mas, na cidade, a sua ausência já era notada entre a roda dos colegas... Não havia dúvida que o Urbano fora tentar escalar a ilha. E os restantes jornalistas - o Saraiva Mendes, do "Diário Ilustrado", o José Ilharco do "Diário de Notícias", os operadores da Rádio-Televisão não se fizeram esperar... Todos rumo ao Capelo!

Pouco depois, a cidade que não se apercebera nos primeiros momentos, começava a interessar-se. Pediam-se telefonicamente, esclarecimentos para o Capelo; expediam-se os primeiros telegramas para os jornais das Ilhas e Continente a anunciar a audaciosa tentativa.

Entretanto, sem que o Urbano Carrasco pudesse suspeitar, outro facto se havia registado. A certa altura do trajecto, foi a camioneta ultrapassada por um automóvel em vertiginosa velocidade. Doze minutos da cidade ao Capelo:

Era o Carlos Peixoto, de parceria com Milton Vaz e Manuel Duarte, que seriam os inesperados competidores na arriscada incursão.

Cerca das 11 horas, saíam as duas embarcações do porto do Varadouro. Primeiro o bote do Urbano Carrasco, tendo por único companheiro o Tudela; depois o do Carlos Peixoto.

Ambas as embarcações dispunham de motores e remos. No entanto, no bote do Urbano ninguém sabia remar nem percebia de motor - pessoa amiga o havia posto a trabalhar... No bote de Carlos Peixoto (propriedade da Empresa Farias, Lda.), os conhecimentos técnicos corriam parelhas; marinheiro de verdade, somente Manuel Duarte.

Começaram então as dificuldades: um e outro motor avariaram mais uma vez. O "Quo Vadis" tinha a dianteira; depois era batido. Uma porfiada regata.

Esquecia-nos dizer que o bote de Carlos Peixoto tinha mais um passageiro. Era o José Ilharco, do "Diário de Notícias". Surgiu no Varadouro no instante da partida. O Carlos Peixoto comoveu-se... e levou-o.

A este jornalista ainda se deparou uma tábua de salvação. Pior sucedera ao Saraiva Mendes - a alma mártir daquela manhã de aventura. Chegou ao Varadouro já haviam partido; foi ao Comprido e, fustigado pelas cinzas, chamou alto e desenhou no espaço desesperados sinais... Mas, das duas embarcações, pairando perto, ninguém o ouviu (ou não quiseram escutá-lo...).

Com um admirável sentido de oportunidade, o enviado do "Paris Match" instalara-se em lugar sobranceiro à ilha e, logo que terminou o período explosivo, a sua objectiva fixava a arriscada operação de desembarque.


 Aspecto de uma das fases de erupção 
do Vulcão dos Capelinhos 

(Rev. Açores - Madeira)

Mas íamos perdendo o fia da meada...

Quase ao mesmo tempo, os botes aproximavam-se da ilhota. Manobravam só a remos, pois os motores, de novo, tinham amuado.

No entanto, tiveram que aguardar um repouso do vulcão, no momento em plena actividade. Permaneceram assim à espera do momento propício sob uma intensa queda de cinzas e vendo precipitar-se no mar, a pouca distância, pedras incandescentes vomitadas pela cratera. Tudo observaram com a maior naturalidade, como possuidores de um ideal que não admitia pusilanimidades.

E quando o vulcão interrompeu a tremenda explosão, os botes deslizaram logo. Vararam na praia da ilhota quase simultaneamente.

O Urbano Carrasco is saltar e o Manuel Duarte gritou ao Carlos Peixoto - "agora ou nunca!". Eram cerca das 13 horas.

Carlos Peixoto não pensou duas vezes: lançou-se ao mar, mergulhou e emergiu trazendo um punhado de areia da ilha em formação.

Entretanto, o Urbano galgava a extensa praia, seguido por Tudela. O primeiro empunhava a bandeira nacional que ficou a flutuar, fincada na ilhota. A equipa do Carlos Peixoto não dispunha de bandeira, mas lá deixou, uma camisa verde de nylon desfraldada...

A temperatura dir-se-ia amena. Uns 27 graus, calcularam. Primeiramente, umas emanações de enxofre; depois de terem percorrido cerca de cem metros na praia (formada por areia grossa), fez-se logo o regresso. Nunca fiando...

Um gesto de autêntica camaradagem encerrou a estóica incursão. O "Quo Vadis" emperrara mais uma vez e o Carlos Peixoto resolveu a precária situação, dando o providencial reboque. Nesta operação valeram a força e agilidade de Manuel Duarte que desencalhou o "Quo Vadis".

A imperícia do Carrasco sofreu então dura prova. A força que empregava no desencalhe não correspondia à sua alentada figura. E do grupo vociferaram-lhe imediatamente - "Você só tem carne".

Decorreu assim a aventurosa incursão à ilhota, que, no dia 12, viu drapejar a primeira bandeira portuguesa.

Pena é que o relato não tenha o colorido bem digno da arriscada empresa. Que a confissão nos desculpe.

E aos corajosos realizadores desta façanha, que ficará ligada à história do vulcão dos Capelinhos, o nosso sincero parabém.

Ontem, a ilhota voltou a ser visitada.

Desta feita, Carlos Peixoto, Manuel Duarte, Saraiva Mendes e Gerard Gery, respectivamente, redactores do "Diário Ilustrado" e do "Paris Match".

Na nova incursão, não se ficou pela periferia: atingiu-se mesmo a crista da enorme cratera.

 


"Desenho de Ivo Ferreira e
Gravura de Malho"

 

Almanaque do Desportista Madeirense

 

Autoria de Mota de Vasconcelos

Este "Almanaque", que se anunciava o primeiro exemplar duma série, terá sido, que eu saiba, o único número que viu a luz da publicidade, em 1945.

Constitui, mesmo assim, um precioso livro de consulta, com precedência sobre Anais Oficiais, para quem se interesse em profundidade pelo Desporto madeirense daquela época.

Basta folheá-lo para aquilatar do cuidado da investigação e pesquisa que lhe subjaz, como era aliás apanágio deste jornalista investigador.

Aproveito para transcrever o "Prefácio" e um dos seus mais curiosos e porventura desconhecidos capítulos, que exalta o "Club Sport Marítimo" como Campeão Nacional de Futebol.

joaquim evónio

Prefácio

Ei-lo, aos ventos auspiciosos da publicidade, o 1.° número de "Almanaque do Desportista Madeirense".

O seu fim é concatenar e concretizar todos os factos assinaláveis e assinalados, de interesse e de valor intrínseco verificados em toda a extensão das actividades desportivas da Madeira e vertê-los, anualmente, em letra redonda, em notas, resenhas e efemérides.

A par dos acontecimentos cronológicos, biografias e perfis dos principais vultos, mortos e vivos do Desporto regional, o "Almanaque do Desportista Madeirense" consagrará, nos limites das suas possibilidades, o devido espaço à tecnologia de todas as modalidades, à evolução histórica das mesmas e a toda a matéria de carácter desportivo digna de citação no campo moral, cultural e objectivo do Desporto.

São numerosos, curiosíssimos e deveras interessantes os elementos que colhemos em longas e laboriosas investigações dado que, à excepção do Futebol, os elementos das restantes modalidades estavam e estão quase totalmente dispersos e desordenados. Foi-nos preciso para atingir a indispensável ordenação e coligação dos elementos em causa, forçar a paciência, importunar e despertar a memória de algumas dezenas de antigos e modernos desportistas a cuja gentileza nos confessamos imensamente gratos.

Temos em nosso poder elementos preciosos que constituiriam a "História dos Desportos da Madeira" ou o "Elucidário Desportivo da Madeira", se a nossa bem intencionada iniciativa, a tentar, em busca de um esteio financeiro, oficial, for coroada de êxito.

No entanto, aguardando tal oportunidade, vamos caldear parte dos elementos colhidos, e mais elementos a colher, nas publicações sucessivas deste "Almanaque", até que um dia eles possam constituir os subsídios indispensáveis à realização do nosso almejado desiderato - uma obra de maior vulto - a obra a que tem todo o direito a personalidade desportiva da nossa terra, a verdadeira fachada do valioso quinhão madeirense no Desporto nacional.

Para corporizar o pensamento do "Almanaque", para garantir as despesas da sua publicação, sujeitámo-nos à contingência e generosidade do anúncio - facto que desejamos grifar para que fique bem patente a nossa gratidão por essa magnífica generosidade que torna possível a realização de um trabalho desta natureza, onde pusemos setenta e cinco por cento da nossa paixão e desvelado carinho às coisas do Desporto, na mira enganosa de que a parte restante seja a magra compensação material de um árduo e extenuante labor intelectual.

Esperamos, pois, que a iniciativa do "Almanaque do Desportista Madeirense" seja compreendida e acarinhada por todos os membros da numerosa família desportiva da Madeira e ainda, duma maneira geral, por todos os que prezam o bom nome e prestígio desta terra.

Como não é possível neste primeiro número do "-Almanaque" citar todos os nossos obreiros do Desporto e fazer justiça à sua actuação-, no próximo ano e anos seguintes cobriremos, de bom grado, as lacunas que neste particular formos observando, na certeza de que a Justiça  e o Mérito a todos devidamente galardoará.

 

Foi na época 1925-26

Apurado Campeão da Madeira, o valoroso "Club Sport Marítimo", numa jornada apoteótica e triunfal, conquista gloriosamente o Título máximo do Futebol Português!

A Madeira estava em festa e todos os desportistas portugueses tinham os olhos postos em nós!

Ninguém mais do que o Dr. Pelágio sentiu a alegria e o orgulho do grandioso feito, porque o sentiu, duplamente, como madeirense e como Director supremo do organismo dirigente do Futebol regional.

A sua alma sã, o seu aprumo moral, o seu cavalheiresco desportivismo, o seu ponderado espírito de organização, o seu valor marcante, a firmeza e o império da sua acção, foram predicados valiosíssimos de influência decisiva nas étapes desportivas de então, que ficaram constituindo e atestando o período áureo do nosso Futebol.

Foi ainda no ciclo presidencial do Dr. Ernesto Pelágio dos Santos que, pela primeira vez, se seleccionaram jogadores madeirenses para o encontro internacional do l.º Portugal - França.

Ao seu altíssimo mérito de prestigioso dirigente, deve a Madeira desportiva sérios motivos de justa e inolvidável gratidão;

Este íntegro desportista dirigiu os trabalhos da Direcção da A. F. F durante quatro épocas consecutivas, facto honroso que atesta um contínuo e incansável labor pró boa causa do Desporto.

Como prémio dos seus assinalados serviços, o seu nome figura muito honrosamente no "Livro de Oiro" dos Sócios Honorários da A. F. F.

 

O Director desta Revista é citado na 

"Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira"

 

O fascículo 400, na página 295, da "Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira", refere-se, nos seguintes termos, ao Director desta Revista:

"VASCONCELOS (Joaquim Mota de). Jornalista, n. no Funchal, em 17-5-1902, tem colaborado em quase todos os periódicos da Madeira e foi director, editor e proprietário, durante uma período de seis anos, do seminário regionalista Norte, que chegou a publicar-se diariamente num curto espaço de dezassete dias. É (1956-9 director, editor e proprietário da revista ilustrada anual Madeira-Açores de intercâmbio cultural e económico, cuja publicação se iniciou em 1950 e continua, com regularidade, onde tem feito denodada propaganda dos valores dos dois arquipélagos e da sua maior aproximação no plano turístico e dos interesses comuns. Publicou: Almanaque do Desportista Madeirense, obra de consulta muito útil, Álbum Barrinhas, de homenagem ao antigo e consagrado futebolista funchalense José Rodrigues Barrinhas, e Memória da Visita do Cardeal Cerejeira à Madeira.

A estes trabalhos, na base de elementos colhidos até 1955, pode juntar-se: Bodas Ministeriais de Salazar e Memória Histórica da Visita do Presidente General Craveiro Lopes ao Arquipélago da Madeira.

(in "Revista Açores-Madeira", Ano IX, N.º 9, Funchal)

 

Excertos da "Revista Açores-Madeira",
idealizada e publicada por Mota de Vasconcelos

 

PICO RUIVO

Ao ilustre Escritor Prof. Dr. Horácio Bento

Ergue-se a doce luz da madrugada
E, iluminando vasta serrania,
Montes, vales de rara poesia,
Mostra nuvens em linha revoada!

(Tão brancas como a neve acumulada
Nuns alcantis!...) E vibra a melodia 
Que agita asas e o musgo acaricia
Nos troncos níveos como velha ossada!

Vem a manhã mais viva, mais acesa,
O sol a dissolver tintas na flora,
Luz nas almas e luz na Natureza...

E nossa alma, que se enamora,
Vendo tamanho quadro de beleza,
Sobe a Deus, contemplando a luz da aurora!

Funchal, 28-1951
J. Morna Gomes
(in "Revista Açores-Madeira", número segundo, 1951)


A incontornável majestade do Pico Ruivo

 Os primeiros jornalistas foram escravos

Os primeiros jornalistas do mundo, que viveram desta profissão de escrever notícias e vendê-las, foram escravos gregos, que logo se tornaram libertos.

Eram homens inteligentes que as legiões romanas faziam prisioneiros nas suas correrias através da Grécia e que, em Roma, eram ocupados em labores intelectuais.

A organização desses primitivos jornalistas era muito semelhante à dos contemporâneos. Tinham seu ofício nas Actas do Senado Romano que, desde o ano 449 A.C., se depositavam no templo de Ceres, podendo ser consultadas por qualquer, com fins de conhecimento próprio ou de divulgação informativa para terceiros.

Possivelmente com anterioridade aos escravos gregos em Roma, houve outros "jornalistas" em outros lugares do mundo. Homens que escreveram notícias em periódicos murais ou que, meramente, deixaram algum testemunho de sucessos em forma de expressão gráfica.

Mas, segundo as crónicas, os primeiros profissionais que viveram da arte de escrever notícias e vendê-las foram escravos gregos logo tornados livres.

Eles consultavam os protocolos do Senado Romano e, nos primeiros anos da República, há 2.400 anos, escreviam assuntos de notícias em que não só davam conta das gestões oficiais mas, também, dos mais importantes acontecimentos da semana, vendendo tantos exemplares quantos assinantes tinham.

O jornalismo, todavia, devia ter passado por muitas etapas de evolução desde a época dos primeiros escravos, até chegar a produzir o primeiro jornalista moderno, que foi um médico francês, inteligente e simpático, que mais tarde seria acusado de feiticeiro e que morreu na pobreza, em 1653.

Este homem foi Theophasto Renaudot, médico do rei Luís XIII e protegido do cardeal Richelieu, que, de médico, se fez periodista por seu bom humor porque, para distrair os seus doentes, concebeu a feliz ideia de escrever resenhas das novidades mais interessantes que circulavam no seu tempo.

Por bom humor e sorte, Renaudot fez-se jornalista e a sua inteligência levou-o a conceber, também, o primeiro jornal moderno, pois que, protegido por Richelieu, pôs a circular a "Gazette", cuja primeira edição se verificou a 30 de Maio de 1631, em Paris.

A "Gazette", de Renaudot, foi o primeiro periódico que publicou notícias de todo o mundo. Nas suas páginas criaram-se os "anúncios classificados ou de última hora e se ofereceram conselhos médicos".

O primeiro número da "Gazette" inseria notícias de Constantinopla, com quase dois meses de atraso; de Roma, Portugal, Alemanha, Silésia, Viena, Amsterdão e Anvers.

Eis uma notícia escrita por Renaudot, primeiro periodista moderno: "O Rei da Pérsia, com 15.000 cavalos e 50.000 homens a pé, sitia Dille, a duas jornadas da cidade de Babilónia, onde o Grão Turco deu ordem a seus janízaros de dirigir-se. Apesar disto o Grão Turco continua a fazer dura guerra aos tomadores de tabaco, o que o faz afogar com fumo".

Se a França tem no seu haver o berço do primeiro jornalista moderno e do primeiro jornal moderno, tem a contra-partida de ter inventado a censura à imprensa, que nasceu não como reacção política, como hoje se emprega, mas como meio de purificar a propagação de notícias falsas.

Outros detalhes curiosos: a primeira agência informativa surgiu em Veneza, onde havia uma organização que comprava e vendia notícias.

O diário mais velho do mundo é a "Gazeta de Pequim", fundada no ano 618, que ainda se publica e citam-se como primeiros diários do mundo "Acta Pública" e "Acta Diurna", periódicos murais da Roma antiga.

Em 1600, o diário epistolar era muito popular em Itália, França, Alemanha e Inglaterra.

O jornalismo falado foi, também, vulgar em França e, na aldeia suíça de Champery, ainda ganham a vida profissionais que narram ao público as notícias mais importantes, todos os domingos, à saída da igreja, estendendo a seguir o chapéu, na recolha de óbulos.

Depois do britânico TIMES, que é o segundo jornal do mundo, o terceiro é o português AÇOREANO ORIENTAL, que se publica em Ponta Delgada, Ilha de S. Miguel, Açores.

 
Mota de Vasconcelos
(in "Revista Açores-Madeira", 1958)

 

QUADRAS SOLTAS


                      Inédito de Mota de Vasconcelos
                      (in "Revista Açores-Madeira",
                       número segundo, 1951)

 

A minha casa é modesta
Tem janela rente ao chão
E lá dentro, sempre em festa,
Retoiça meu coração.

Ó minha pobre mansarda!
Que saudades tenho eu
Daquela água-furtada 
Que ficava ao pé do céu...

Numa formosa galera
Meu coração emigrou
Para as ilhas da quimera
E nunca mais regressou

Sonho - caravela errante
Perdida no mar sem fim - 
Voga, corre, vai distante
Mas não te alongues de mim...

 

O ALVARINHO - ENGRAXADOR

Deste humílimo vizinho meu, eu quero e devo falar com a mais viva simpatia e saliente destaque, pela suprema influência que ele teve na minha vida. Ele, o Alvarinho, ainda por aí anda, curvado pela acção dos bicos de papagaio, aos tombos, com os seus 73 anos às costas, sempre optimista, sorridente, falastrão, "gagão"e corriqueiro, como paquete cumpridor e muito honesto no cá e lá de voltas e voltinhas ao serviço da firma bordadeira de Patrício & Gouveia, Lda.

Álvaro Viríssimo - o "VIROLA" - alcunha de seu pai, bamboteiro de profissão, foi o meu inspirador, o meu introdutor no labor humilde mas honrado da "Graxa", do qual, mais tarde, eu havia de transitar para o espaventoso mas bem magro e ingrato mester das Letras, mester de fascínio, de sonho, de culturalidade, de idealismo, que fez de mim um grilheta de pena ou um "pirata do mar da tinta", no dizer ou escrever irónico do grande jornalista e escritor Rocha Martins, que eu haveria de conhecer pessoalmente, depois, quando o contactei em Lisboa, apresentado pelo jornalista Herculano Pereira, como pontífice máximo da aliciante, famosa, se bem que desaparecida Revista "A.B.C.".

O Alvarinho, algo tatibitate, mas expedito e inteligente, era parte integrante e constante da já referida tertúlia nocturna de gaiatos vizinhos tagarelantes de assuntos e casos de curta bitola mas tantíssimas vezes intrometidos em altanarias fora de nosso alcance.

Alvarinho andava sempre endinheirado. Tinha espírito dadivoso, presenteador. Comprava e repartia connosco toda a espécie de guloseimas e todos fazíamos enxame e cortiço em seu redor. Ele era como um Pai Natal de todos os dias que nós aguardávamos ansiosamente...

Alvarinho passava os dias inteiros num mundo que então parecia distante. Esse mundo tinha um nome sonoro e feiticeiro. Chamava-se "GOLDEN GATE". Era o coração da cidade.

Alvarinho tinha uma profissão mágica: era engraxador ambulante. Limpava botas e sapatos, mas botas e sapatos calçados... Era dessa profissão que nascia o prodígio de suas amistosas e gulosas oferendas. Eu era quem mais ansiadamente o esperava, porquanto nutria por ele na minha mocíssima idade uma quase mística adoração que tocava as raias da idolatria. Admiração, confesso, que a pouco e pouco se ia transmudando em inveja, inveja de não me poder comparar com ele, de alinhar com ele.


Ilustração de Henrique Tigo

Todo o segredo, toda a magia do retintim de moedas que modelavam sonoridades feiticeiras dentro dos bolsos de suas calças, residiam numa tosca caixa de madeira, que ele, como uma ânfora, apertava, aconchegava à sua ilharga, e na alquimia de drogas enfrascadas de águas anilinadas e adensadas à guisa de fixadores, escovas, pomadas de lustrar, nesgas de pano, trapos, que a mesma caixa comportava.

A meu particular e suplicante rogo, Alvarinho iniciou-me no fabrico ou manipulação secretos de toda uma panaceia que rendia dinheiro, produzia alegria e medrava em guloseimas.

A "caixa" dele serviu de modelo daquela que eu ambicionava. No arranjo das drogas, escovas, etc., lá se foi o meu capital do bazar domingueiro e o fundo líquido no ganho das joeiras (papagaios), que o velho merceeiro Joaquim Nunes, adquiria em regime de monopólio... Ainda assim vi-me forçado a requerer a meu irmão e sócio, um empréstimo, sem juros, de fácil liquidação.

Naquele tempo uma limpeza ou engraxadela de botas ou de sapatos, rendia dois vinténs ou um pataco, como diziam os alfacinhas, e o ofício beneficiava da atenuante da isenção de licença camarária, se o engraxador, como eu desejava ser, fosse ambulante. A limpeza de sapatos brancos orçava por três vinténs. O preto e branco e amarelo, tipos mais raros, ascendiam a quatro vinténs. Outra vantagem da profissão era a gorjeta facultativa.

Uma pechincha!

Mas não nos adiantemos nos pormenores da arte...

A caixa estava pronta e meticulosamente fornecida.

Eu estava radiante se bem que de luto pelo falecimento recente de meu pai.

Antes de abalar para o "GOLDEN", estava indicado um exercício ou um treino profissional. Esse treino durou cerca de 15 dias e fora feito nas cercanias de minha casa. Durante o treino não fui além da Ponte do Cidrão. Engraxei a vintém e até de borla... Urgia aprender no coiro do freguês. Para o freguês o meu caso era menos doloroso do que o caso do barbeiro aprendiz... O calfe e as carneiras eram menos sensitivos do que a cara da face do rosto...

Já iniciado (a prática a valer viria depois), certo dia do princípio de Janeiro de 1914, lá fui eu de parelha com o colega Alvarinho, a caminho do "GOLDEN".

Uma vez ali, senti-me, repentinamente, não só deslocado como deveras acanhado. Fui olhando de soslaio, modo pouco acolhedor pelos outros colegas, que eram quatro, todos sentados em suas caixas-oficinas, ao redor do avantajado plátano que há muitos anos deixou de existir e vivia fronteiro à porta principal do "Golden". Diga-se que todos os plátanos que ornavam a Estrada da Cidade, desde o "Golden" até ao átrio do Cais, foram substituídos por acácias, árvores mais airosas e mais aliciantes. Na Praça da Constituição (antiga Avenida Oeste, Avenida Marreca e hoje Avenida Arriaga, o restaurador presidente da Câmara Municipal do Funchal, Dr. Fernão Gonçalves de Ornelas, mandou plantar jacarandás, e o roxo destes e o amarelo das acácias, tinham e têm a tonalidade das cores da Cidade.

Alvarinho, que percebera a minha perturbação, gaguejou prontamente a minha apresentação e depressa se estabeleceu o desejado convívio. Eles eram o Mário, o Luís, o António, o Inocêncio. O Mário e o Luís, Pereira de apelido, eram irmãos. O António e o Inocêncio eram espanhóis, radicados na Madeira desde muitos anos. Em menos de uma hora já parecíamos amigos de longa data. Alvarinho não só era veterano do grupo como o veterano de ofício, posto que por ali vagueava desde 1905 e por ali oficiou durante 43 esticados anos. É pai de 11 filhos e alguns se iniciaram na arte do pai.

Não tardou muito o meu debute oficial no tablado do "Golden", debute honroso, auspicioso, inolvidável. Chamou-me a dedo um cavalheiro já idoso, sentado numa das cadeiras de vimes do passeio-esplanada. Duas outras pessoas o acompanhavam.


Entrada da Cidade do Funchal, vendo-se o antigo Hotel Golden Gate,
com o seu café-esplanada, à esquerda. 1897-1915. 
Foto: Joaquim Augusto de Sousa. 
Espólio do Museu Vicentes Fotógrafos.

Avancei, pousei a "caixa", saquei apetrechos. Antes do início da faina, ele perguntou me de chofre: - "Quem és tu, meu rapazote? "Algo surpreendido com tão curiosa e afável gentileza, respondi: - Eu sou... eu sou um novo engraxador!..." - Estás de luto? Quem te morreu? - "Meu pai" - "Como te chamas" - "Chamo-me o "Chasinho". O cavalheiro, dirigindo-se aos companheiros de mesa e assento, disse para eles: - "Vocês que reparem nos olhos faiscantes e inteligentes deste gaiato..."

Eu esmerei e acabei o serviço. Ele deu-me um tostão em níquel. Eu mirei e remirei a moeda e disse naturalmente: - "Não tenho troco". "Vou trocar". - Não, disse o freguês. Fica com ele". Eu quedei-me surpreso, mesmo atónito. Sensibilizado e confundido, agradeci. Soube depois que aquele senhor era deputado e que mais tarde fora Ministro da Justiça: - O Dr. João Catanho de Menezes. Esse meu primeiro freguês passou a ser meu freguês de sempre e sempre também pagava a engraxadela com uma moeda de tostão... Com o douto e bom Dr. Castanho de Menezes, troquei os meus primeiros colóquios políticos... Ardia, então, dentro de mim a faulhante e a abrasadora labareda do Saber.

O GOLDEN" foi para mim a minha doirada "Universidade". Ali privava e dialogava com professores, escritores, poetas, jornalistas, oficiais de patente superior do Exército e da Armada, estudantes liceais e universitários, comerciantes e industriais categorizados, figuras de linhagem nobiliárquica, médicos, engenheiros, advogados, juízes, escultores, pintores, artífices de todas as classes e mérito, gente honesta do Povo são, sacerdotes de dignidade e também - lícito é que se diga - com canalhas e poltrões de todas as estrias e calibres...

Ali, naquele meu saudoso, querido e inesquecível "Golden", ganhava eu, alternadamente, diariamente, três, cinco, sete e mais tostões por dia, o que era uma bela maquia para um garoto como eu que nada tinha que dar à família, posto que a nada me obrigavam e nem um ceitil me exigiam...

Quero e devo expressar da forma mais lapidar e verdadeira que se eu não houvesse sido "engraxador", nunca teria sido jornalista nem escritor!

De verdade (não sou eu que o digo nem fui eu que o disse, embora o repita) minha cabeça de gaiato era uma espécie de câmara fotográfica, que tudo retinha, tudo imprimia tanto no negativo como no positivo... Minha massa encefálica era um admirável hipossulfito revelador... Depois, eu sabia assobiar como um canário belga e cantar como um rouxinol, uma cotovia...

Fui malabarista da escova e magíster no pano de lustrar... Às vezes, picado pela vespa da vaidade, comparo-me a tantos homens de talentosa valia que se fizeram por si e que, como eu, vieram do nada.

O "Golden", incomparavelmente localizado e admiravelmente rasgado, foi e continua sendo aquilo que o Tomás alega e clama com ironia e humorística malícia (pronuncie-se castiçamente a palavra em língua de "britão") a melhor e mais aliciante "CORNER" do Mundo...


O Golden no seu interior,
igual ao do passado

Eu, urge dizer a inteira verdade, pouco ou nada tinha estudado até então, e assim passei a frequentar as aulas nocturnas do professor Teodoro Pedro de Freitas, na Rua de Santa Maria. Depois, de vontade redobrada, frequentei a escola primária semi-diurna da exímia e dedicada professora D. Maria Silvestre Câmara Lomelino, à Rua das Mercês, e pude, aos 16 anos (17 de Agosto de 1918) alcançar uma distinção no antigo exame de 2.º Grau, equivalente à 4.ª Classe.

Assim, devassei o mundo das primeiras letras e logo me lancei com todas as ganas ao ensino liceal, abarcando vitoriosamente os três anos do 1.º ciclo, com 13 valores, na 4.ª feira 21 de Julho de 1920! Foram meus companheiros examinandos de Mesa, o João Cisneiros Sales Henriques, actualmente Capitão de Mar-e-Guerra, que passou com 16 valores e o José de Sousa Câmara, com 11, e que após alguns anos, já de 7.º Ano feito e empregado no Banco Blandy, se resolveu estudar o curso superior e licenciar em Medicina.

Lancei-me então a todo o pano na sorte do 2.º Ciclo e ao mesmo tempo na senda do jornalismo, a escrevinhar no "Diário de Notícias" e nos semanários sindicalistas "O Trabalho e União" e em "O Operário". Este desdobramento acumulativo, de estudante e jornalista, acarretou-me a infelicidade de ficar reprovado no exame de 5.º Ano, efectuado em 13 de Julho de 1921.

Por ser curioso, refiro que o douto Cónego António Homem de Gouveia, que aspirava ao professorado liceal, que fora nesse ano meu colega externo, passou o 5.º Ano com 16 valores.

Era necessário vencer as tropelias vingativamente políticas do professor Dr. Domingos Reys Costa, talentoso mas impulsivo e estoira-vergas e a frieza rigorista do professor de Matemática, Dr. João da Encarnação Dâmaso Rego e assim, para o dominar, recorri às explicações claras e magistrais do Capitão Eduardo César de Freitas, irmão do Dr. João Abel. Tornei-me um "ás" das gémeas matemática e geometria e um autêntico "urso" nas restantes disciplinas. Estava apto e mais do que capaz para enfrentar todos os examinadores sem qualquer espécie de temor.

Ao mesmo tempo que estudava, dava explicações do próprio V Ano, na sala da Redacção do jornal "O Trabalho e União", na torre do prédio n.º 18, da Rua Direita, ao José Marcos de Freitas Morna, ao Carlos Gonçalves Eira e ao malogrado Vasco de Almeida Pinheiro, que mais tarde, no posto de 2.º Tenente de Marinha, a bordo do contra-torpedeiro "Dão", sucumbiria de pneumonia, nos Açores.

Como já me não era possível neutralizar o vírus jornalístico, continuei a colaborar nos dois referidos jornais sindicalistas.

Devo citar a seguinte notícia inserta no "Diário de Notícias", 1.ª página, 2.ª coluna, com esta epígrafe: - NO PRELO. - "ALVORADAS DE AMOR", NO N.º DE 25 de Agosto de 1921:

"Entrará muito brevemente, no prelo, a primeira produção literária do incansável e inteligente estudante, Joaquim Espírito Santo Vasconcelos ("Chasinho"), intitulada "ALVORADAS DE AMOR".

É um pequeno volume de 150 páginas, dividido respectivamente, sob o mesmo título, em quatro partes: - "Nebulose", "Devaneio", "Idílio", "Férias".

Não penetra em alta mitologia nem em correcto filosofismo, pois qualquer mortal, ao enveredar-se na árdua tarefa das letras, não escreve logo volumes profundos.

É simplesmente a revelação de um novel espírito que há-de honrar as futuras letras lusitanas".

Este modestíssimo trabalho continua (1969) no seu original manuscrito. Sobre o mesmo trabalho, acrescente-se esta divagação: Foi escrito na Quaresma de 1918. Não rodou no prelo por carência financeira. Não teve, pois crítica de imprensa. No seu pobre manuscrito de cursivo infantil, grafado de muitos erros ortográficos e de sintaxe, correu, todavia, por mãos de amigos de colegas de escola e liceu, alguns a quem eu o facultara, outros que mo solicitaram. O que é que eu poderia escrever com menos de 16 anos de idade, com uma das mãos nos sujos ingredientes líquidos e sólidos da profissão de "engraxador" e a outra nos livrecos da 4.ª classe primária?

Em suas faces interiores de cartolina percalinada a preto luzidio, ainda se pode ler, esmaecidas pela longada dos anos, apreciações ligeiras de leitores dos dois sexos, umas denunciadas, outras anónimas.

"ALVORADAS DE AMOR", título pompeante a querer parecer, sem ser, poemeto de estilo sincopado à guisa de Flaubert, é apenas a expressão adoçada por aquele fremente estado de alma de um sentimentalismo platónico, a dulcíssima espiritualidade de um amor ante-púbere...

Foi por impulso desse amor a florir sonho e fascínio que eu me afundei na imensidão do mar da tinta. Era o timonar insciente do bergantim doirado da quimera alada em laguna serena e remansosa e depois em pleno pélago agitado e tormentoso: o pilotar da nau destroçada pelos vagalhões do Destino...

"ALVORADAS DE AMOR" divide-se em quatro escassos poemetos, cada qual com a sua heroína de nome diferente, mas sempre a mesma, una indivisível, no coração, no peito fraco do romanceador enamorado como lacrimoso e desatinado Romeu...

No seu entrecho de ingenuidades imaculadas, de frases girandolantes de voluptuosos arroubos e afagos, de deslizes gramaticais e estilísticos, há no entanto qualquer coisa de belo, de fogoso, de ardente, de fragrante, que não cabe na auto-crítica delida de meio século depois. Mas há o deleite de reviver o meu retrato antigo, o meu amorismo em botão, o braseiro fagulhante de minha recuada juvenilidade.

O recheio mimoso de "ALVORADAS DE AMOR" tem ternura, tem candura no talhar ingénuo do seu fazimento. Não tem razão de lógica mas tem lume de sentimentalidade fagueira. Tem quentura e fervor. Tem o olor facundo, a nuance maga dos tempos saudosistas, o fito puríssimo da Mocidade que não é calculista, a beleza sã das almas sem astúcia, sem pecado; o sabor deliciante do fruto sazonado na árvore e o mel dulcíssimo dos beijos virginais na face angélica da jovem sonhada, da jovem idolatrada...

      M.V.

Voltando às Memórias do meu Pai...


O Autor, com a nora e o filho - Luanda, 1962)

Papéis Velhos

Na babel do nosso amontoado arquivo daquilo a que chamamos papelada de entulho, sempre que fazemos busca fastidiosa duma coisa topamos com outras que julgávamos sepultadas no esquecimento e perdidas na goela devorante da traça...

Agora é um recorte do "Diário do Notícias", do Funchal, de sábado, 15 de Outubro de 1921, assinalando a nossa estreia literária nesse órgão da Imprensa madeirense, na idade tardia dos 19 anos.

Como de outras vezes, sob o título de Papéis Velhos..., vamos pôr na Feira da Ladra da publicidade esse traste da nossa simplória bagagem de cuja pieguice não tememos o pejo. Tem o mesmo estilo das nossas anteriores ALVORADAS DE AMOR - quatro novelatas dos nossos 17 anos de sonhos e esperanças juvenis.

O citado arremedo tem a encabeçá-lo a pompa palavrosa de Secção Literária e por título: PAIXÃO FATAL. Está firmado por J. Vasconcelos (Chasinho) - o conhecido e honrado sobriquet de meu querido e saudoso Pai, transmitido a todos os filhos, mas que teve em nós maior eco e divulgação, mercê da nossa larga popularidade quase celebrada por uma mocidade de humilde e simpática tradição e por uma juventude agitada e combativa de fio sugestivo digno de romance...

Secção Literária

PAIXÃO FATAL

Tarde outonal. Crepúsculo pardacento e nostálgico.

Languidez angelical pairava-lhe no rosto sedutor-seduzido.

O seu olhar doente perdia-se esquecidamente através da transparência vítrea da janela do seu quarto de jovem apaixonada.

Qual a origem daquela palidez profunda mas simpática?

Amara delirantemente, com ardor de pagã fanática!

Amara como se deve amar, sem a hipocrisia ridícula que contamina presentemente a mor parte dos corações, que se suicidam na corrente torpe e corrupta, cujos afluentes, a ambição e a falsidade, confundem-se coadjuvando-se para o empedernimento dos mesmos.

Amara alguém de afecto nobre e sentimental que, nessa tarde frígida do Outono, a morte traiçoeira e cruel, a ceifeira implacável, havia raptado para a eternidade do Além-túmulo. Que de amargor, que de pungente saudade não se infiltravam naquele juvenil coração ferido supremamente...

         - Ó morte impúdica, fera faminta, para que tinges assim imprevistamente um ninho de felicidade, de amor? Para que apunhalas as ilusões, os sonhos, as esperanças acalentadas de muito em nuvem de amargura infinita?... Envolta no véu da mais esmagante tristeza, ela vira passar o cortejo fúnebre do seu muito-amado noivo, o alvo do seu róseo sonhar, que se desvanecera brusca e traiçoeiramente...

Dia sem sol, noite toda treva, fora a sua existência desde quando desaparecera o vulto onde morava a maior porção da sua alma.

Definhava progressivamente aquele conjunto de graça, outrora mágico e feiticeiro. As mãos, dum marfim doentio, pendiam-lhe exangues como parte morta desse todo mórbido. Minava-lhe o peito o gérmen virulento da tuberculose galopante.

A tosse, sintoma aterrador dum desfecho triste, esfacelara-lhe da vida a última esperança. Ela, a mártir do casto amor, a louca apaixonada, extinguira-se em convulsão dolorosa pelo alvorecer duma manhã fulgurante de primavera.

Esvoaçara para o azul-pálido essa alma adolescente, que ia unir-se em festina de arcanjos à daquele que lhe originara o epílogo de paixão fatal.

J. V  Vasconcelos (Chasinho)


O célebre rochedo ou Pedra de Dighton

Miguel Côrte-Real 

O primeiro açoriano que pisou o solo da América


A inscrição de Miguel Côrte-Real 
na Pedra de Dighton

fotos da Revista Açores Madeira

O Rochedo de DIGHTON

Nenhum monumento da antiguidade americana tem sido mais discutido do que o célebre rochedo ou pedra de Dighton. O rochedo fica situado no Assonet Neck, em Berkley, quase a igual distância de Taunton e Fall-River.

É um arenito que fica na margem do rio Taunton, visível nas marés vazias e inteiramente submerso na preia-mar. Apresenta do lado do rio uma superfície quase plana, de onze pés de comprimento por quatro pés e dez polegadas de altura, quase toda coberta de inscrições.

O primeiro documento que nos fala da existência deste rochedo é de Outubro de 1680. John Danforth, que foi mais tarde pastor em Dorchester, fez um desenho da parte superior dos seus caracteres com uma pequena descrição que afinal só foi impressa um século depois.

Cotton Mather publicou em 1712 dois desenhos do rochedo nas Memórias Filosóficas da Royal Society que despertaram o maior interesse e foram origem de numerosas e eruditas polémicas tanto na Europa como na América.


Pedra de Dighton com as inscrições decaldadas a giz. Bandeira 1 - Escudo em forma de V
Bandeira 2 - Cruz da Ordem de Cristo - Bandeira 3 - Escudo em forma de U
Ao centro o nome do Capitão Miguel Côrte-Real. Data 1511 com o algarismo 5 em forma de S
Imagem cedida pelo IAC-Instituto Açoriano de Cultura 

Mather acreditou que se tratava duma inscrição feita pelos índios, se bem que a maioria das opiniões a considerassem de origem oriental.

Mais tarde, em 1871, o Conde Gébelin de Paris anunciou uma tradução completa das inscrições deste rochedo como sendo uma memória dos antigos navegantes cartagineses, opinião esta que foi adoptada pelo Presidente Ezra Stiles do Yale College.

Em 1837, o professor Rafn, da Dinamarca, julgou poder decifrar nas inscrições do rochedo a afirmação de que elas se referiam à colonização de Vinland por Thorfinn em 1007.

Modernamente, o estudo das fotografias aperfeiçoadas, obtidas por um processo especial, levou o publicista Edmund Burk Delabarre à verídica conclusão de que se trata do nome de Miguel Côrte-Real, que até agora nunca fora notado e que, contudo, se encontra claramente gravado no rochedo, faltando-lhe apenas algumas letras.

Na grande confusão de linhas que se seguem ao nome de Miguel Côrte-Real, um estudo minucioso mostra que é possível ler qualquer coisa de definido. Desenvolvendo as abreviações chegou-se à conclusão da seguinte frase:

Voluntate Dei hic Dux Indorum, seguida do símbolo heráldico de Portugal.

O primeiro explorador conhecido que se sabe ter visitado a Nova Inglaterra foi Verrazano, que esteve duas semanas na baía de Narragansett, em 1524.

Côrte-Real devia-o ter precedido pelo menos uma dúzia de anos e parece muito provável que tivesse ficado com as tribos indianas suas amigas vivendo no Assonet Neck, onde fica situado o rochedo Dighton.

Côrte-Real pertencia a uma nação de exploradores intrépidos e afamados de quem Harisse escreveu: "Nenhuma nação do século XV revelou maior espírito de empreendimentos marítimos do que Portugal."

Em 1501 Gaspar Côrte-Real veio em auxílio do irmão, esperando provavelmente fazer também alguma descoberta. Com este fito partiu de Lisboa em 10 de Maio de 1502. Chegando à Terra Nova, os navios separaram-se a fim de poderem explorar mais livremente, acordando encontrarem-se no dia 20 de Agosto.

Uma versão de Hakluyt, narrando estes acontecimentos e datada de 1563, conta o seguinte: - "Os outros dois navios encontram-se no dia aprazado e, vendo que Miguel Côrte-Real não aparecia nem nesse dia nem nos seguintes, regressaram ao reino de Portugal e nunca mais houve notícias daquele navegador. Mas ainda hoje aquela região é chamada a terra de Cortereal".

Houve duas tradições entre os Indus daquela localidade, relativas à chegada de Côrte-Real a Assonet Neck, relatadas por John Danforth em 1680 e por Edward A. Kendall em 1807.


Único desenho de Delabarre (1919) delineando Miguel Côrte-Real e a data 1511
Imagem cedida pelo IAC-Instituto Açoriano de Cultura 

 

Parece que Côrte-Real, tendo naufragado, teria subido o rio Taunton com alguns dos seus companheiros, vendo-se forçado a combater os naturais. Os portugueses que foram à nascente acabaram mortos pelos Índios.

Côrte-Real escapou com um ou dois companheiros que ficaram com ele no barco. Vendo-se forçado a reconciliar-se com os índios, ter-se-ia fixando possivelmente junto da nascente que, por esta razão, é chamada a nascente Côrte-Real.

O facto de aparecer o seu nome gravado no rochedo explica-se pela necessidade de atrair a atenção de futuros exploradores e a afirmação de que era chefe dos índios servir-lhe-ia para poder ser encontrado com mais facilidade.

Quem examinar atentamente as numerosas fotografias do rochedo de Dighton, das quais publicamos duas, facilmente se convencerá da certeza desta versão, que é mais um motivo de orgulho para a terra açoriana e para o nome glorioso de Portugal navegador.

M. de V.
(in Revista "Açores Madeira", número de 1951)

MENSAGEM proferida pelo seu autor 
- Mota de Vasconcelos - 
ao microfone do Emissor Regional dos Açores da Emissora Nacional, 
às 20:45 horas do dia 27 de Abril de 1951

Nesta revoada jubilosa de corações ilhéus que ora se acolhem no beiral da fidalga e carinhosa hospitalidade micaelense, adejante, em frémito de boa-nova de fraternal primícia, vem a Mensagem do coração madeirense à ilha irmã do Senhor Santo Cristo.

Mensagem viva, palpitante, corporizada na carne e no sangue de dezenas de filhos da Ilha atlântica que rutila no diadema glorioso e esplendorisante na fronte da pátria Lusa, ela trás, no embalo espiritual da mesma Fé, na comunhão sensitiva dos mesmos anseios patrióticos e regionalistas, na lealdade e fidelidade do incorruptível portuguesismo ilhéu, - a expressão cordialíssima de uma amizade mais de cinco vezes secular devida aos filhos Bons e laboriosos da Ilha esmeralda do bendito novenário açoreano - colar de glória refulgente que Portugal orgulhoso da sua imorredoira epopeia marinheira, ostenta ao peito.

E esta Mensagem do Coração madeirense, emoldurada em auréola de eloquentes sentimentos fraternos, em grinalda de votos de ventura e prosperidades sinceras, impregnada do olor das nossas flores em germinativo fausto primaveril, - surge no momento emocional e propício em que a Alma micaelense - qual alcachofra benta e viçosa - crepita na fogueira da Maior e mais empolgante fé cristã, na divinal labareda de fervorosa religiosidade sem par em devoção do Senhor Santo Cristo dos Milagres, ante cuja veneranda e dulcíssima Imagem, corpos e almas madeirenses se curvam em profunda e submissa reverência, suplicando-lhe a mercê de suas graças.

Nesta Mensagem palpita bem vivo o desejo e o voto de que a presente Embaixada madeirense seja um promissor, um auspicioso prenúncio de um novo ciclo no intercâmbio insular, de um mais forte e constante estreitamento dos laços de uma amizade que não morre, mas que, por imperativas necessidades culturais e económicas, de engrandecimento e progresso recíprocos, deve procurar mais acelerado ritmo de harmonia e contacto, vincando bem que se a Madeira está em grande dívida com a gratíssima e inigualável hospitalidade micaelense, é porque S. Miguel não lhe tem proporcionado o ensejo da vista há longos aguardada para a retribuição, ou melhor, para o saldo, parcial apenas, de tantíssimas gentilezas e homenagens recebidas.

Admiradores em plena sinceridade das sãs virtudes da gente micaelense, da pureza ancestral e tradicionalista do seu viver, da bondade magnânima dos seus sentimentos, do seu nobre e heróico poema de Trabalho criador, da formosura e graciosidade da sua paisagem, da soberba e raríssima majestade das suas capitais belezas turísticas, da sua forte mentalidade e do seu Espírito patentes na projecção universal e imortal de Antero, - os madeirenses querem ter cada vez mais acesa no seu coração a chama da confraternização irmã e no paralelismo dos seus destinos ilhéus promover tudo o que possa convergir num conjunto belo e fecundo a bem de S. Miguel, a bem da Madeira - a Bem de Portugal.

Que o Senhor Santo Cristo dos Milagres ouça e atenda na sua infinita e misericordiosa Graça, as aspirações dignas e legítimas dos dois laboriosos povos insulares.

(in Revista "Açores-Madeira, 1951)


"Iluminação feérica - Festas do Senhor Santo Cristo" 

Madeira-Açores

De Sagres a ciência brada alerta
No MAR DAS TREVAS, que infundia horror...
E eis que as TREVAS se abrem, num alvor,
Do Promontório à luz, prà Descoberta.

Zarco e Gonçalo Velho esteira aberta
Logo deparam como seu SENHOR 
Lhes revelara, qual Descobridor
Dum novo mundo, que ao porvir desperta.

Madeira-Açores! Que festões de rosas 
Então despontam, qual jardim romântico!
Que rutilantes pérolas, donosas!

Ilhas irmãs! Fraternizai, num cântico
De altos ideais e aspirações honrosas,
Que vos estreita o lusitano Atlântico!

(Angra do Heroísmo - 1951)
José S. Da Costa 
(in Revista "Açores-Madeira", 1951)


"Madeira Açores - Ilhas irmãs"

Revisitando a homenagem 
a um grande Artista

Pintor Max Römer

 

Este consciencioso e apurado artista-pintor, que nasceu em Hamburgo em 1878, encontra-se na Madeira desde 1922.

Graças ao seu talento inato, depressa identificou a sua Arte com a nossa paisagem, com os nossos costumes e folclore, com o nosso tradicionalismo, em suma, com a característica nuance das "coisas" genuinamente madeirenses.

Max Römer tem produzido inúmeros trabalhos de puro cunho cultural e artístico, em telas, painéis e retábulos dispersos por quase todos os templos da Madeira.

Os motivos regionais que a sua admirável paleta foca vivem e deleitam pelo realismo com que são interpretados e reproduzidos.

O Palácio de S. Lourenço deve-lhe finíssimas decorações e o retrato a óleo do grande governador Conselheiro José Silvestre Ribeiro.


Mural na Madeira Wine
Max Römer

As acreditadas casas exportadoras de vinhos da Madeira, The Madeira Wine Association e H. M. Borges, Sucessores, apresentam nos seus átrios e salões de exposição e propaganda apreciadíssimos painéis e frescos de Max Römer.

Em ilustrações e desenhos destinados a publicidade artística, comercial e turística, é grandiosa a produção de tão habilíssimo e seguro artista.

O nosso património artístico deve, pois, a Max Römer, primores de inolvidável apreço e encantamento.

 

Muito gentil, simpático, escrupulosamente honesto e consciencioso, o enciclopedista da paleta, Max Römer, desfruta no Funchal e em toda a Ilha da Madeira sólido conceito, admiração e prestígio.

O seu talento pictural abrange com mérito e segurança todos os estilos da divina Arte que cultiva. O seu atelier é uma profusa galeria cheia de espiritualidade e formoso labor.

A capa desta Revista, sombolizando a amizade insular, que o nosso espírito idealizou, deve à paleta de Max Römer o realismo da expressão que vinca e traduz o motivo que houve em vista alegorizar.

      M. de V.
      (in Revista "Açores-Madeira")

       

MADEIRA - Presépio do Mundo

 

Palestra proferida pelo jornalista Mota de Vasconcelos, ao microfone do Emissor Regional dos Açores da Emissora Nacional, na noite de 3 de Dezembro de 1954.

Na pira flamante da fama universal onde o nome da Madeira crepita em radioso fulgor de magia e sedução, vai o nosso efusivo afecto bairrista de ilhéu queimar, amorosamente, religiosamente, mais este grão de incenso que é rútila conta de condão da hinária avé-maria do nosso ardente patriotismo lusíada.

Ilha de formosura e d e mil encantos; poema e epopeia de deslumbrador feitiço divino; obra perfeita da iluminada Beleza e grandeza de Deus - a Madeira é, em pleníssima virtude de miraculoso sortilégio, o real e maravilhante presépio do Mundo.

Evoquemo-lo - afrodite virgem - naquela manhã medieva e estival da descoberta, quando ela, na sua lasciva luxúria verde, na tentação da sua juvenil castidade, se deu, pudibunda e donairosa, aos olhos sôfregos e pasmados dos audazes marinheiros do Senhor Infante de Sagres.

Archotes, fachos e fogaréus, foram os primeiros lumes que tremeluziram na treva milenária do assombroso presépio ante o qual a alma marinheira de Portugal ajoelhou e rezou, solene e jubilosa.

Depois - como relata a lenda - foi o incêndio de fogo posto na floresta imensa, no matagal e na selva sem fim, para aniquilar o temor da existência de animais ferozes - incêndio que durou sete anos e que dera ao presépio a visão monstra de infernal braseiro.

Esse presépio de Portugal é hoje presépio do Mundo.

Como no presépio santo de Belém, guiados pela estrela feiticeira do seu aliciamento, a ele acodem romeiros das sete partidas, trazendo-lhe, em adoração e presença, as oferendas das suas homenagens e da sua exclamativa e transbordante admiração.

Não é fácil pintar nem descrever a soberba imensidão do presépio madeirense e ainda menos aquela nesga de sublime majestade. Aquele babilónico mirante de jardim suspenso onde se alcandora e debruça a sempre donzela e ridente cidade do Funchal.

Todas as paletas, todas as penas, por mais engenhosas e inspiradas, não acertam nunca com a alucinante fantasmagoria das imagens, com a grandiosidade prodigiosamente pasmosa do cenário.

Gôndola de sonho florida vogando em mar esmeraldino de eterna e doce barcarola - vista do oceano, de terra e do ar, por todos os ângulos da sua sedutora periferia, na sucessão contínua e esmagadoramente bela dos seus panoramas - a Madeira é bem um sinal da infinita magnificência da Criação, retalho divinal do Paraíso, a genuína, a caríssima - a extraordinariamente famosa e fascinante Pérola do Atlântico.

Quem, pela primeira vez, a mira, contempla e surpreende na apolínea transparência do dia e alpardo veludíneo da noite, nunca mais esquece a sua visão - ora arrogante no delírio orográfico das falésias e escarpas alterosas; no galope das lombas e ribanças de alpino alcandor; ma fundura abissal dos valados, onde, em tumultuoso fragor, serpenteiam ribeiras de impetuoso caudal; ora serena e deleitosa como uma ode virgiliana, como uma pastoral de Bernardim nas suas abas de verdura luxuriosa, nos policrómicos tabuleiros e patamares de suas terras de lavrança; nas suas matas e frondes de amenas e frescuras sombras, onde, por entre os perfumes capitosos das selvas, a passarada doída modula sinfonia de ritmos canoros; nas aguarelas álacres dos seus

Povoados embutidos de casinhas alegres dispostas em enfiamentos pegados semelhando pombas em beirais vizinhos, nos quais as manchas alvacentes das igrejas e campanários são motivo emocional de candura embevecente.

Quem a transcorre a par e passo, então pode ver e sentir telas de maravilhador inebriamento - quadros de fantástica galeria e imaginativo museu geológico: - a fauce escancarada e medonhamente bela da profunda cratera do Curral das Freiras; a clareira imensa e altiva do Paul da Serra; a tarpeia bárbara do Cabo Girão; o molosso colossal e dominador da Penha de Águia; o rojão agressivo mas sublimadamente mágico do Pico Ruivo; o tonel das danaides do Caldeirão Verde; a hipocrene assombrosa das Vinte e Cinco Bicas do Rabaçal; a catadupa prateada do Risco; os Alpes imponentes da Serra de Água; o passo das termópilas (a Garganta de Roncesvalles) da Encumeada; o belvedere avassalador do Terreiro da Luta; o parapeito imensamente encantador dos Balcões do Ribeiro Frio; a grandiosa e convulsa brecha da Ribeira da Janela, correndo em penhascos vertentes de horrenda tormenta ciclópica; a planura cimeira e aprazível do Santo da Serra; o idílico remanso das Queimadas de Santana; a Sintra verde e veranil do Monte; a rasgada varanda do Pico dos Barcelos; a quadra prazenteira da Camacha; o mimo bucólico do Jardim da Serra; o pastoril enlevo da Boca dos Namorados; o pasmo assombrante da portela - e tantíssimos outros trechos de embriagante e indescritível beleza natural, tudo iluminado por um sol de fulgurante e esplendorosa luminosidade sem rival no mundo; tudo ungido por um clima de suavíssima brandura que é o faquir de indizíveis prodígios salutares; tudo orquestrado na partitura maviosa de folclóricos cantares, em arraiais de viva comunicabilidade, de ancestral e fidelíssima tradição.

Por toda a parte, nas chanezas, nas assomadas, no rapinado dos montes, nos bardos e degraus das encostas, o verde calmo dos pinheirais evolando aromas de prazer sadio; a renda tropical dos fetos e das urzes; a alcatifa rica das ferazes primícias que transformam a Madeira em colossal charola, e a farta miscelânia dos escalões dos bananais, dos vinhedos e canaviais de sacarina; as levadas - de brava odisseia - sistema vascular assombroso do corpo vigoroso da Ilha-Jardim, cantando em giro constante seu abençoado e fecundo salmo; flores de todo o ano, flores a esmo em orgia de olores aliciantes - flores que os turistas e forasteiros levam às mãos cheias das mãos das floristas vestidas de garridos trajes regionais.

A par de toda esta arquimilionária e soberba e delirante magia natural, a lidança cotidiana rural e citadina - na agricultura, na indústria e no comércio - em cujo apego heróico e criador ressalta a faina feiticeira do Bordado famoso que corre mundo, que é sonho de fadas urdido por mãos rudes e mimosas.

O presépio serrano e ribeirinho da madeira, tem o seu fulcro Formosamente espectacular na anfiteatral urbe funchalense, num cortinado em aclive rasando os mil metros e altitude na fímbria cavaleira da montanha em permanente amoroso idílio, em beijo colado de céu e terra.

O altaneiro monumento a Nossa Senhora da Paz, é o candelabro vivo, é o lampadário sempre aceso da fé cristã da gente madeirense.

As luzes da cidade, na sua vasta e mirífica teia, desafiam magicamente os luzeiros siderais que se irmanam e confundem no estrelado da abóbada celeste.

E aqui, na quadra benta e festiva do Natal - Natal patriarcal e de emocional tradição, e na noite do fim-do-ano - que o presépio do Mundo - que na Ponta do Garajau tem o Cristo Redentor a abrir os braços aos viajantes - vive seculares momentos de aleluiante apoteose numa visão de sonho e prodígio inconcebível. - Todo o imenso hemiciclo é um Tabor de doida maravilha: cratera jorrando filigrana ígnea de todos os matizes; pompa de joalharia incandescente; ostentoso festim de Luz e Cor; fabuloso pandemónio de Vulcano e Lucifér; pincelada arcoirizante dos cenários irreais mas Mil e Uma Noites!...

Como outrora, em Belém - presépio da Cristandade - ajoelhemos e oremos perante a Madeira - presépio do Mundo!

           M. de  V.

Ainda as MEMÓRIAS...

Curiosidades - ALCUNHAS (Pelo interesse antropológico do levantamento)

Nas próximas redondezas de minha casa e dentro das balizas periféricas da minha freguesia, havia vizinhos, havia gente de todas as castas e categorias sociais e não se esqueça que, de conformidade com a tradição oral e histórica, o Bairro de Santa Maria fora, em tempos primevos, assento e domicílio de gente de algo, de gente de brio e de bom-tom. Mas vamos às alcunhas de mão cheia e a esmo, tanto masculinos como femininos, muitos de reinadio calão, outros de prenhe ironia, outros de sabor a pimenta e alho, todos dignos de uma lápide deveras evocativa que bem merecem figurar nestas páginas de um livro de memórias.

Todas as alcunhas foram organizadas por ordem alfabética em MAI 04, gentileza do Poeta e Amigo Carlos Alberto Silva.

Alcunhas masculinas: 

 

31 de Março
Abelhinha
Achada
Adália
Afasta
Afasta-afasta
Agravado
Airosa
Alferra
Alita
Alma grande
Amigo
Anhim
Antoninho de S. Martinho
Aranha
Aranha Preta
Arenque
Argúim
Arrota bifes
Arroz
Arsénia
Ataca-ataca
Babão
Bacalhau p'ra baixo
Badajoz
Badalão
Badanas
Badoel
Bagatela
Bailão
Baixinho
Baldeia
Baleia
Bandido
Banhas
Barão
Barbas
Barbudo Sovaco
Barraqueiro
Barrinhas
Batoque
Beiça
Beiçana
Beiçola
Beiçolinha
Belamente
Berlim
Berruga
Besoiro
Bezerro de Ouro
Bica
Bichinha
Bicho
Bife
Bigode
Bigode de arame
Bilinha
Bill
Bimbinhas
Bisnaga
Bispo
Bisugo
Bites
Bizarrona
Black
Blandy
Bodião
Boga
Boi das Ilhas
Boneca
Borracho
Bozeirinha
Braço da minha casa
Braço de ferro
Braza no cú
Brinca
Brisa

Buda
Bufa
Cabeça de atum
Cabeça de ferro
Cabeça torta
Cabecinha volante
Caça-Minas
Cacete
Cachaço
Cachimbo
Cachola
Cachorrinho
Caga azeite
Caga de saco
Caga e tosse
Caga libras
Caga milhões
Caga nas baixas
Cagalhão
Cagalhão engomado
Cagalinhas
Caganita
Cagão
Cagarola
Cagarrinha
Cagarro
Caguinha
Caiada
Caixa de óculos
Caixa velha
Calça larga
Calinhos
Calmaria
Câmara Nova
Camarada
Camarão
Cambé
Cambita
Cambrinha
Camelas
Camelo
Camões
Canário
Caneja
Canelas
Cangurú
Canhão
Canoa
Cãozinho
Capitão
Capitãozinho
Caquinho de incenso
Caquinho de vidro
Cara alegre
Cara de vaca
Cara velha
Caraça
Caramba
Carambola
Carapau
Caravela
Careca das Fontes
Carinhas
Carne crua
Carocha
Carrega
Casaca
Cassanga
Castanha
Castanheta
Castanhola
Castoela
Catanas
Catita
Cavalo Branco

Cegueira
Cérebro de melro
Ceroula
Cevada
Chalupa
Chamechuga
Chamusca
Charamba mais pequeno
Charlot
Charnota
Charuto
Chasinho
Chavelha
Chenica
Chibata
Chicago
Chimeca
Chimpanzarra
Chincha
Chinela
Chino
Chita
Chitebaca
Choquelaroche
Chora
Cigano
Cigarrinho
Cinco reis
Cincoenta
Cobra viva
Combatente
Comendador
Comendador Escuna
Coneia
Contrapêso
Coquitú
Cornaça
Corneta
Craveira
Cú de bomba
Cú de leite
Cusa
Da-lhe ca vela
Dá-me a rocha
Demerara à vela
Dente de ouro
Dentinho
Diabinho
Diabo de ferro
Doce
Doutor
Dr. Arrisca
Dr. Escaravelho
Dr. Finezas
Dr. Pomposo
Empena
Emprenha gatos
Escala
Escalafrio
Escândalo da Bemvinda
Escuma
Espada
Espada Preta
Espadinha
Especiaria
Estragado
Estrela
Faiaman
Falcot
Falhita
Fancheca
Fanhungo
Fanica
Fantasma
Farelo
Farruca
Faúlha
Fava
Faz barbas
Faz berbas
Faz-pregos
Fazterra
Febrão
Fecha a roda
Fedigoso
Feduça
Feijão
Feijoco
Feiticeiro
Feiticeiro do Norte
Fialho
Fisga
Five-cents
Focinho roído
Foguete de S. Martinho
Foguete eléctrico
Folha alface
Frade
Frangalho
Frascas
Fressura
Fuínhas
Fuma na rua
Fura-bolsos
Furão
Gaiado
Gaio
Gajão
Galhofa
Galhudo
Galinha
Galo-tonto
Garanito
Garapau
Garoto
Garrafa
Garrafa sem pescoço
Garrafão
Garrafão sem pescoço
Garrilhada
Gato fardão
Gazana
Gazolina
Gazozo
Gerico
Gêsso
Giba
Gigante
Girafa
Gonçalves da Cor Ausente
Gorgulho
Gorilna
Gracias
Grão de bico
Gravatinha
Graveto
Grijinha
Griseta
Grogteil
Guiné
Hipopótamo
Imperial
Impertigado
Inchado
Jacintinho
Janin
Janota
Japonez
Jarôco Morgadinho
Jéque
Jinja
João bebra
João Boião

João Brasileiro
João da burra
João Gordo
João Maluco
João Velhinho
Joaquim de Matos
José da Véstia
José das Gaitas
José das pêras
José do Açougue
José menino
José Nata
Josesinho das Moças
Julinha
Júlio ladrão
Jumento alado
Ladeira
Lagartixa
Lão
Laranja
Leiteiro
Lentilha
Linda
Lisboa
Lobo
Loiro
Lua
Lulú
Má língua
Macaca
Macalhilha
Maçarico
Madruga
Magano
Malancia
Maleiro
Malhadinho
Malva
Mamada
Mamão
Maneca
Maneta
Mangericão
Mano
Manoei
Manuel ceguinho
Marão
Marçalino
Mariasinha
Martelo
Marujo
Mascote
Mata-carneiros
Mata-piolhos
Materada
Mausinho
Meda
Meia noite
Meia roda
Meiana
Meias
Meio dia
Meliça
Melro preto
Mémório
Mendola
Mendonça das Forças
Menino da mãe
Menino de Belém
Menino prodígio
Mestre cakes
Mestre conca
Mestre diabo
Migalha
Mija vinagre
Mijana
Mijeirinha
Milhinho com assucre
Milhões
Milionário
Minha velha
Minhoca
Miúdo
Moleiro
Mona
Mono
Monsenhor Mesuras
Monta
Morto
Muja
Napoleão de Bronze
Nata
Navalha
Négus
NEKS
Nónó
Noventa
Novo rico
Nuvia
Oito tostões
Olho de vidro
Os bichos
Ouriço
Paçalaca
Pachita
Pacolho
Padeiro
Padre Sá
Padre Sacaloiros
Padrinho
Pagagaio real
Pai Costa
Palhaço
Pança
Pança de água
Pança de engôdo
Pança de Gatos
Pancinha
Panela
Pão
Pão e peixe
Papa a beca
Papa iscas
Papinho
Parafuso
Pargo
Parraio
Parruco
Passa as coisas
Pata-anã
Patas
Pátria livre
Pau da poncha
Pau de virar botas
Pavão
Pedra
Pedra e cal
Pedrada
Peida
Peidão
Pélas
Penetra
Pepe
Pericalho
Periquito
Permanganato
Perna
Perneta
Perua
Pesetas
Petita
Picks-farricks
Pílula de Bosta

Pinta
Pinto Calção
Pinto cego
Pirolito
Pitaia
Pitarga
Pôça
Polícia da serra
Polquinha
Polvo
Pomba de ouro
Porco em pé
Português suave
Pota
Presidente
Pretinho
Pretinho japão
Preto
Primeiro de Abril
Primeiro língua de prata
Primo
Príncipe
Prirlau
Puchadeira
Pulão
Pulguedo
Pupa
Rabeca
Rabil
Rabinho de porco
Raínha das Balsas doce
Raiz quadrado
Rajão
Ralhão
Ramelica
Ranfão
Rasina
Rata nocturna
Rato
Rato cego
Rato seco
Rebenta a bexiga
Rei da adufa
Rei da Faca
Rei de espada
Rei Preto
Reisinho
Remexido
Reu do Chalet do bacalhau...
Rigolato
Rochena
Rofe
Rosalina
Rouxinol
Russo
Sabonetinho
Sacabona
Sacaloiros
Sacrista
Sagú
Sai-te giba
Saloeira
Saloio
Salsa
Salta pocinhas
Saludo
Sandália
Sanfona
Sangueiro
Santinhos
Sargento
Sargo
Sarnica
Satorninho
Semi-Camacho
Semilha
Serenata
Serra de água
Sete beiços
Sete Cabeças
Sete rabos
Setenta
Shell
Sicila
Six pence
Soda
Solha
Sopinha de leite
Stout
Tabaca
Talhada
Tanas
Tareco
Tatau
Teixeira malcriado
Telinguete
Tem-tem
Tentilhão
Terramoto
Testa
Texugo
Ti frascas
Ti picas
Ti-báu
Tigela
Tintorôxo
Tiquete
Torradas
Torto
Tosca
Tostão
Tota
Travanca
Treme
Trica rabinhos
Trinca espinhas
Trinta e seis
Trinta reis
Triste
Utruto
Vadio
Vai-lá
Vapor do cabo
Vazola
Veia
Venene
Ventania
Verdigalhas
Vergueira
Vermelho
Verruga
Vigairinho
Vigário
Vigia
Vilão
Vinagre
Vinte e um
Viola
Violeta
Virola
Viroscas
Vista
Whiskey e Soda
Zé bacalhau
Zé branco
Zé bumba
Zé Nabo
Zé Talassa
Zé-Cagão
Zé-Mau
Zupt.... Serinha

Alcunhas do sexo feminino:

Amelinha
Bailarica
Banca
Baratas
Barrinhas
Batata
Beiba
Beiça
Bichinha
Bocarra
Boceta
Bola
Bonapartes
Boneca
Borracha-poias
Botela
Braço de Ferro
Branca
Braza
Briosa
Buzia
Cabritas
Cacoelha
Caga fumo
Cai-cai
Calaça

Candeia da quaresma
Carago
Carlota
Catafunga
Cebolas
Ciganas
Cinquentas (As)
Colchoeira
Corre caminhos
Cuspida
Dama de espadas
Escala
Febra
Formigas (As)
Fragateiras
Garça
Gavioa
Guitarra dos estudantes
Jaca
Jóia
José nosso
Julinha
Lídia dos estudantes
Maçaroca
Macha-Fêmea
Machiqueiras
Madame Stok

Manteiga
Manucha
Marcela
Maria alta
Maria dos ovos
Marias flores
Marinheiras
Mariquinhas dos entalões
Maroa
Mascarras
Meia sola
Menina do Baú
Menina do chocolate
Mijana
Moleiras
Mó-Mó
Morgada
Muito bons dias
Olimpinha
Palhaça
Pangana
Pangueira
Pássaro de longa cauda
Pedro
Pelada
Pés à falhanca
Pimenta
Pinga

Pintaínha
Pirolitas
Põe-Põe
Pombinha
Pretinhas
Puxadeira
Quarentena
Quarta e Quinta
Quarteleira
Quilões de açúcar
Rabo torto
Rainha
Semioa
Sequinha
Tabacoa
Tabaqueira
Ti Benta
Tininhas
Tiqueta
Tripa
Triste feia
Troca as patas
Vai cair
Vares
Vigairinha
Vintém
Vizinha do Cabo
Ximéca

e as que ficam omissas por uma carência de memória que se esforça mas não atina...

                 M. de V.

Continuam as memórias...

O QUE NOS DISSE O ALMIRANTE GAGO COUTINHO NUMA ENTREVISTA QUE NOS FOI NEGADA

Bordo do "Vera Cruz". Viagem de Março de 1957. Nós íamos para a Madeira e o glorioso pioneiro da aeronáutica seguia o seu constante e prazenteiro rumo do Brasil. Uma penhorante cortesia da C.C.N. franqueou-nos a ida na 1.ª classe e calhou ficarmos na mesa redonda onde merendava o consagrado cientista do Ar.

A companhia era honrosa. No tombadilho havíamos trocado já impressões banais na gula de entabulada conversa quando o veterano Almirante, ao erguer-se da sua privativa cadeira de viagem, carregado de livros e revistas em que se afundava e fazia apontamentos, talvez se tivesse desequilibrado por efeito do balanço de vaga morta se o não tivéssemos amparado em auxílio de extremo recurso.

 


M de V, o entrevistador


Gago Coutinho

É que as pernas arqueadas da velha águia dos ares amolecidas pela inércia da posição repousante já não têm a elástica firmeza dos tempos da impávida e garbosa marinhagem.

Foi a uma dessas pernas ainda rijas que, uma vez, em 1922, fincámos as nossas mãos trémulas e galvanizadas de delirante entusiasmo patriótico no vórtice da multidão que o elevara em triunfo à sua passagem no Funchal após a heróica e imortal gesta da primeira travessia do Atlântico Sul em voo baptismal Lisboa-Rio de Janeiro.

Aproveitámos, então, o momento que se dispunha propício para, em disfarce de entrevista, perguntar-lhe se estava lembrado da apoteose com que fora recebido na Madeira.

 


Mudada a expressão dócil em rude carranca, o Almirante fitou-nos como quem fita um intruso e, numa voz rabugem, mesmo brusca e praguejante, bramiu:

- Não dou nem quero entrevistas. Não tenho pretensões literárias... É subir além da minha chinela!...

Como víssemos descoberto e baldado o nosso intuito, deixámos o Almirante dar vazão ao seu mau humor e limitámo-nos a fixar o melhor possível as ironias do seu desabafo com as quais comporemos a entrevista falhada sem nada mais acrescentarmos a este registo:

- A minha grande desgraça foi ter voado para o Brasil...

- Encheram-me o peito com as atribulações das medalhas...

- Há quem me julgue rico e que tenho muitas propriedades no Brasil.  Por isso sou lá bastante assediado com muitos pedidos de dinheiro, que não posso satisfazer, a todos.

- Por que teriam inventado essa história da minha riqueza? Não me pode explicar isso?...

- Tenho, de facto, alguma coisa de meu, mas isso é o produto amealhado de muitos anos de trabalho em África...

- O porto do Funchal não devia ser prolongado a partir do ilhéu, mas com espaço e mais fechado.

- Não desembarco no Funchal desde que, há anos, no "Serpa Pinto", este não pôde acostar.

- Julgo que não passa de palavras o aeroporto da Madeira. É muito dispendioso. No Porto Santo o caso já é outro...

....................................................................................................


Gago Coutinho visto por Teixeira Cabral

Como já dissemos, nada acrescentaremos nem queremos comentar os filosóficos desabafos do Almirante nem as suas asserções sobre o porto do Funchal e o problema do aeroporto do arquipélago da Madeira, que por mais de uma vez abordámos na Imprensa, entrevistando até, nos Açores, o senhor Ministro das Comunicações, e pelo qual sempre tivemos inabalável fé e nutrida esperança.

Passámos a ouvir gostosamente o Almirante a contar factos e a dissertar lucidamente sobre política internacional. Não é fácil discordar ou antepor critérios ao seu discernimento. Temos, apenas, de nos convencer do realismo. De que o Almirante é uma relíquia, um símbolo vivo, uma glória da Pátria Lusa, que temos de respeitar e venerar e aceitar sem discutir a filosofia da sua modéstia total e do seu inteiro desapego da projecção internacional da sua altaneira celebridade.

 

Ainda as Memórias de Mota de Vasconcelos...

(Extractos)

 

TEIXEIRA CABRAL

um grande caricaturista português que ainda vive
na fulguração memorável do seu antigo esplendor,
pagando à boémia o tributo dos Artistas célebres


Autocaricatura do grande caricaturista
Teixeira Cabral

... (...) Paladino valoroso da sua Arte, esgrimindo vigorosamente o lápis à guisa de espadachim sem mácula, como os cavaleiros andantes, Teixeira Cabral, assombroso Talento, surpreendente de personalidade sem confronto, rasgou, por iluminado mérito e vocação genial, o caminho da imortalidade que todos os Artistas alcançam e cruzam como dom sublime e justíssima dádiva de semeadores do Belo e arautos da Espiritualidade. (...)

O pedestal do valimento artístico de Teixeira Cabral ainda reflecte e evola luzes e perfumes, homenagens de uma multidão de admiradores nos tempos em que o seu nome embandeirava em arco e a sua arte tinha apogeu de glória.

Ilhéu madeirense, como nós nascido no donairoso burgo do Funchal, conhecemos e convivemos com Teixeira Cabral menino e moço, já votado à verve pujante do seu lápis irrequieto, vibrátil, audacioso, irreverente que, por toda a parte e paredes vizinhas da casa paterna, deixava a marca viva do seu traço de caricatural estilo inconfundível, seguro e firme. (...)

... (...)  Inspiração cintilante e perdulária, artista consumado, "doublé" de boémio, Teixeira Cabral tem o seu lugar certo no primeiro plano do escol dos caricaturistas portugueses. A sua celebridade está feita. A História da Arte em Portugal não poderá esquecê-lo e um dia terá de fazer-lhe a devida justiça de consagração.

M. de V.  (in "Revista Açores-Madeira, 1958)

Mais um apontamento das

"Memórias do meu Pai"...

 


M. de V. em 1929,
visto por Teixeira Cabral 

O maior assombro da minha infância - tinha eu 8 anos - foi a aparição que no ano de 1910 cruzara, com intermitências, o céu da Madeira. Era um espectáculo de estranha e misteriosa magia. A pequenada da nossa tertúlia nocturna fitava, pasmada, aquela visão sideral, que se dizia vaticinar catástrofes, hecatombes. O certo é que apenas quatro anos depois surgiu uma tremenda carnificina: a pavorosa ruína da guerra de 1914-18.

Então, eu não percebia patavina da fenomenologia celeste e mais tarde é que vim a saber que se tratava de uma estupenda mas natural revelação astral. O aparecimento anterior ao de 1910, verificou-se em 1835, mas reza a memória que os Chineses a conheceram 240 anos antes de Cristo. A História refere que esse cometa foi descoberto pelo astrónomo inglês Edmond Halley (1656-1742). Por isso é cientìficamente conhecido por "COMETA HALLEY".

Quando voltará a aparecer esse monstro da imensidão do Firmamento que eu vi e com o qual muitas vezes sonhei, apavorado? Para finalizar este escorço diga-se apenas que, segundo o astrónomo Charles Nordemann, do Observatório de Paris, a cauda do "Cometa Harlley" pesa somente (!!!) entre 600 ou 700 biliões de quilos!...

M. de V.

O meu Pai ainda escreve... Aqui vai o Primeiro capítulo das suas memórias...

É o dealbar da vida... Todas as vidas nascem, crescem e morrem... A Imortalidade é algo raro e apenas para alguns... Quem, dentre nós, passará à posteridade?

NO DEALBAR DA VIDA

... - Vim à luz do mundo no Sábado 17 de Maio de 1902, cerca do meio-dia, véspera do Domingo do Espírito Santo, ao tempo dia de grandiosa solenidade no calendário litúrgico. Então, os baptismos dos recém-nascidos eram cediços, não fossem os anjinhos de abalada sem o sinal bento da Cristandade.

Assim, apenas com oito dias de nascença, eu provara o sal e o banho lustral do meu Rio Jordão na pia baptismal da Igreja paroquial da freguesia de Santa Maria Maior, praxes essas que me foram ministradas pelo venerando Vigário da dita freguesia, Padre Joaquim Teixeira que, mais tarde, no seu entardecer da vida, fora elevado à dignidade de cónego.

Minha casa ou nossa casa, pois que era propriedade de meus avós paternos, ainda hoje tem o mesmo número de polícia, o 244 da Rua de Santa Maria.

Ali, nessa casa sempre saudosa, nasceram todos os filhos legítimos de meus pais, que foram onze: três do sexo feminino e oito do sexo masculino. Dois morreram infantes e nove sobreviveram. Na longada dos anos a Morte já arrebatou quase todos e actualmente somos apenas três: uma irmã e dois irmãos.

Embora bastante próxima fosse minha casa, da Igreja do Socorro, o cerimonial do baptismo obrigava o trajecto em carros de bois de cortinados brancos, tejadilhos de lustroso oleado e beirolas azuladas.

Todo taful nas vestes menineiras constantemente transformadas que meus irmãos anteriores e posteriores envergaram nesse mesmo acto, eu ia ao colo da "Comadre" Rosa que, com a "Comadre" PINGA, se revezavam como parteiras do casal, segundo as disponibilidades de seu ofício.

Já garoto, conheci-as: Rosa, algo anafada, era desprovida de olho direito, e a "Pinga", uma mulheraça como uma torre.

Meus padrinhos de baptismo foram Leopoldina Camacho e seu marido, ao tempo primeiro-sargento, Carlos Raul Camacho, que mais tarde ascenderia ao posto de capitão e que, depois de várias comissões militares por terras africanas, fora presidente da Câmara Municipal da cidade de Lubango ou de Sá da Bandeira e promotor da construção do actual edifício da dita Câmara.

Meu padrinho jaz no cemitério novo dessa bela e alcandorada cidade que os madeirenses edificaram. Junto de sua campa eu ajoelhei e rezei quando pela segunda vez, em 1965, estive na Província de Angola.

Na Pia, puseram-me o nominativo de JOAQUIM, o nome de meu avô materno - Joaquim da Mota, que tinha a engraçada alcunha de "O Rabinho de Porco" e era casado com minha avó materna, Violante da Mota. Minha mãe, Maria da Mota, nasceu num modesto casinhoto ao Beco dos Frangalhos, o único beco ainda existente à Rua das Torres, no bairro de Santa Maria.

Minha mãe faleceu com 69 anos, em 24 de Maio de 1938. Tinha 20 anos de idade quando se consorciou com meu pai, ao tempo com 26 anos - João de Vasconcelos - natural de Machico, que, com seus pais, meus avós paternos, veio para o Funchal aos 5 anos de idade. Como em pequeno gostava muito de chá, foi familiarmente alcunhado de "CHASINHO".

Já casado, meu pai fora primeiro arrais de fragatas de carvão e água,  na Casa Blandy e depois, até seus derradeiros dias, arrais de barco de pesca - barco de companha de que era proprietário. Era um barco de dois capelos que se empregava na pesca grossa, especialmente o atum e o gaiado (Bonito). Possuía ainda uma canoa avantajada, na qual, a sós, pescava peixe fino.

Morreu novo ainda, com 48 anos de idade, vítima de pneumonia-dupla, no dia 6 de Agosto de 1913. Nasceu, como já dissemos, em Machico, no sítio da Banda de Além, no dia 4 de Julho de 1864.

Meus avós paternos, também Machiqueiros e do mesmo sítio da Banda de Além, António de Vasconcelos, "O GALÉ" e Maria Augusta, Maria Franco ou Maria Augusta da Soledade, matrimoniaram-se, ela em segundas núpcias, em 22 de Agosto de 1855. Meu avô "Galé" morreu no Funchal, na sua casa da Rua de Santa Maria, no dia 1 de Dezembro de 1904, com 84 anos de idade. Minha avó, Maria Augusta, faleceu na mesma casa, com 76 anos, a 14 de Fevereiro de 1913. Estes eram filhos, respectivamente, de meus bisavôs Francisco de Vasconcelos e Luciana Rosa; de Manuel Franco e sua primeira consorte, Francisca da Soledade.

Livre de mim a farófia de estar a bordar genealogia. Cito apenas familiares honestos e modestos e neste número englobo um tio meu que há mais de meio século fora muito conhecido no meio comercial do Funchal: - Augusto Rodrigues de Carvalho, proprietário do destacado estabelecimento central e citadino, "A CASA HAVANEZA", à Rua do Aljube, onde presentemente se situa a "MAISON BLANCHE".

Augusto Rodrigues de Carvalho, mais conhecido pelo "sobriquet" de "O BEIÇA", era meu tio duas vezes, posto que casara com duas irmãs de meu pai: primeiro, com minha tia Úrsula Firmina de Vasconcelos, que com 52 anos de idade sucumbira de operação cirúrgica, na Enfermaria de Santa Catarina, do Hospital de S. José, de Lisboa, em 23 de Dezembro de 1907. A segunda, Zeferina de Vasconcelos, nascida em Machico em 29 de Maio de 1862, falecera no Funchal a 31 de Maio de 1921.

O referido meu tio Augusto Rodrigues de Carvalho morreu na freguesia do Caniço, ao sítio das Figueirinhas, onde estava a veranear, no dia 10 de Maio de 1924, com 76 anos de idade.

"Chasinho", a meninil alcunha de meu pai, estendeu-se a toda a sua longa prole, mas coube-me a mim, com altiva honra e galhardia, ser o continuador e mais conhecido herdeiro. Nos meus primitivos tempos de pendor literário e jornalístico, eu firmava os meus escritos com o designativo de J. Vasconcelos ("Chasinho") e até só com o denominativo de "chasinho", como se pode verificar em minhas crónicas publicadas no "Diário de Notícias", do Funchal, intituladas: - "Paixão Fatal" (15-10-21); "Restauração Gloriosa" (1-12-21); "Saudades Eternas" (11-11-21); "Tradição Vivente" (25-12-21), etc..

Era uma homenagem que eu rendia, que eu tributava à saudosa e perene memória de meu pai. Todos quantos o conheceram sabiam-no bem um honrado e bravo lutador prò sustento de uma numerosíssima prole e um valente, um destemido Lobo do Mar.

Por diversas vezes alguns sacripantas tentaram aviltar-me com essa alcunha como se ele fosse um ferrete ignóbil de um cadastrado, de um galeriano!

Miseráveis!

Sou sexto filho do bravo e honesto arrais "Chasinho"! "Chasinho" eu fui. "Chasinho" eu sou. "Chasinho" eu quero ser!

Ainda hoje, passados 56 anos após sua morte prematura, meu valente e honrado pai tem lembrança inolvidável no seio da brava gente piscatória da Madeira.

Desde os meus seis anos - infância já atinada - conheci o heroísmo admirável da sua faina do Mar, o seu labor ingente para sustentar a filharada e educá-la até à altura que a vida lhe permitira.

Vi-o aflitivo, ofegante, soltar o derradeiro suspiro no estertor da morte. Nesse amaríssimo momento eu fui verter as minhas primeiras lágrimas emocionantes para um recanto escuro da funda loja onde meu pai guardava seus múltiplos apetrechos de pesca. Ocultei-me para não ver nem ouvir o doloroso clamor familiar durante o saimento fúnebre no seu pobre caixão de pinho.

Com a abalada de meu querido pai para um coval do velho cemitério de Nossa Senhora das Angústias, abalou com ele aquela alegria terna e doce que animava o nosso lar e neste entraram depressa as agruras das apoquentativas carências.

Era de bastos herdeiros a casa boa de nossa residência. Minha parte da herança, em dinheiro daquele tempo, foi de dois mil e quinhentos reis, partilha essa que nunca me lembro de haver recebido.

Cabia aqui intercalar algumas palavras sobre o BARCO DE MEU PAI. Como, porém, já as tivéssemos escrito e publicado em um jornal local, no Natal de 1929, melhor é transcrevê-las na íntegra e acrescentar que o saudoso dr. Elmano Vieira, que considerámos o mais cintilante jornalista madeirense da minha geração, nunca se cansara de louvar-me e transmitir-me a sua adoração pelo jeito desse artigo, artigo que não exibia qualquer espécie de ficção, porque todo ele é um facto narrado da vida real, artigo que eu, certa tarde invernosa daquele recuado ano de 1929, escrevera num solitário quarto de estudante, na Rua de Morais Soares, em Lisboa, a emborcar um garrafão de vinho tinto que estava reservado para uma serenata de estudantes que não se realizou devido à invernia que durante a tarde e a noite desse dia desabaram sobre Lisboa.

 

(Continua)
Mota de Vasconcelos

Pode dizer-se que disponho de uma grande ou vasta "oficina". Nunca deito fora o que escrevo, logo, as gavetas e o baú estão cheios...
São documentos escritos ou gravações acumulados durante anos e que nunca foram devidamente tratados.
É costume dizer-se que "A preguiça é a mãe de todos os vícios, mas mãe é sempre mãe!"...
À frente de todos e com prioridade total, está



"As Memórias de Meu Pai"

Mota de Vasconcelos foi um grande profissional da escrita, jornalista, escritor, publicista e polemista.

Não faz qualquer sentido que, tendo passado o centenário do seu nascimento a 17 de Maio de 2002, estando citado na Enciclopédia Luso-Brasileira da Cultura (desactualizado), não tenha uma só referência na NET!

Tenho em meu poder cerca de 200 páginas das suas memórias, já digitalizadas. Falta ainda, todavia, muita pesquisa... As malhas que o Império tece fizeram com que não disponha da sua obra completa.

Apenas a título de exemplo do seu estilo, dou a conhecer um dos seus escritos que considero mais comovente: "O Barco de Meu Pai";

 

"O BARCO DE MEU PAI"

(Reproduzido do jornal madeirense "O FIXE", Número de Natal de 1929)

 

Na estante de minhas páginas belas eu guardo um livro, um livro de valor. Uma relíquia sagrada, íntima, só compreendida por mim.

Chama-se o livro de meus anos verdes, de meus anos tenros, de meus anos de barrete de papel e de espingarda de pau, de meus anos despreocupados e velozes.

Está escrito com o sangue e as lágrimas da minha saudade de menino e moço.

- Quem é que não gosta de desfolhar essas páginas, sorver-lhes o perfume casto e doce?...

- Infância - alimento celeste de recordações meigas, manjar consolador de horas tristes, água benta de nossos pequenitos remorsos, de nossos infantis pecadilhos... Carícia de mãozinha de criança, lágrimas de Deus no marulho das paixões do Inferno... Estrela de alva, galerno de Março, malmequer despetelado no joio de nossos cuidados...

Retalhos da mocidade: - aquela nora velhinha a gemer de cansaço; aquela nespereira carregadinha de frutos sazonados e apetitosos; aqueles bois de grandes olhos cristãos, ruminando à sombra dos carvalhais; o olor álacre e sadio dos pinheiros solitários; o adro da nossa igreja em dias de arraial; o andor florido daquela santa de túnica roxa e um punhal cravado no lado esquerdo do peito; o caseiro forno acesso em véspera de Natal; os pastorinhos e as velinhas multicolores das lapinhas; o galo de pescoço torcido, pendurado pelas patas trancadas na gaveta da cozinha; as broas, as rosquilhas e os pães brindeiros do Menino Jesus; as histórias das tias e avozinhas; a alegria dos cinco reis para guloseimas; o medo dos duendes e dos lobisomens; o fumo azulado daquela chaminé; as fogueiras de Santo António e de S. João e as gaitas de foles dos campónios; a palmatória atrevida, medonha e autoritária dos mestres e das mestras escolares; o irmãozinho mais novo a chupar nos mamilos de nossas mães; as rodas da "viuvinha" e do jogo das prendas, do "lume" e dos "cabritos" e mais e mais - os versos feiticeiros do poema fagueiro que nunca mais se viverá!...

Quem é que não gosta de olhar para trás e ver a "Babadeira", branca e às riscas, da nossa infância perdida na curva da estrada dos anos disseminados, dos anos esboroados como castelos de cartas?...

É deste "contentamento descontente", desta sensualidade espiritual de reminiscências da meninice, que vou extrair aguarelas emolduradas em frisos de verdade ...

Meu pai pertencia àquela dinastia, sem interregnos, de homens simples, corajosos e bons. Sua vida era uma porta escancarada onde a honradez podia ser vista, erguida e limpa, no seu altaneiro altar modesto. A faina dura das ondas e das vagas, as chicotadas de todos os ventos rebeldes e traiçoeiros, nunca conseguiram empedrar-lhe os mimos da docilidade, as carícias de suas mãos calosas. Resignado, da resignação dos santos e dos ascetas, parecia-lhe leve o peso da sua cruz e curta e fácil a ladeira de seu calvário. Era tantas vezes pai e cônscio do encargo sagrado de chefe de família. Para que em nossa casa se acendessem todos os dias os tições da lareira, ele andava lá fora, sobre as cristas encapeladas do imenso lago, arpoando os peixes, lançando as redes, pescando o pão!

E trazia sempre a esmola de Deus, o sorriso da existência. O seu e nosso mais rico tesouro era a sua saúde de ferro e o seu grande barco pesqueiro todo ufano, o bojo pintado de verde e enfaixado de paralelas riscas berrantes. Esse barco era o Banco flutuante, o depósito à ordem e a prazo, de juro valioso, que supria as necessidades caseiras. Era o bravo e firme ganhador, o mealheiro fiel das nossas economias domésticas.

Quer estivesse calma, quer o céu mostrasse carrancas e o vagalhão bramisse fero e endemoninhado, ele nunca faltava ao giro do acaso e da fortuna. Era forçoso ir. Ficar, seria a amargura a bater-nos à porta....

A nossa casa ficava a três passos do calhau. Mesmo debruçada para o mar, por detrás da Fortaleza de S. Tiago. Das janelas altas assistíamos aos preparativos da largada. Havia sempre, nos olhos e na garganta, a emoção de todos os apartamentos. A Companha contava-se a dedo e raramente ia além de dez lobos experimentados na liça do mar, toda era faina rija e, ao sinal da última braçada da poita, postava-se à fadiga áspera dos remos pesados como chumbo. À popa, meu pai, o arrais João, o "chasinho", ao comando do leme, erguia-se e acenava-nos pela última vez, brandindo no ar o seu "sueste" luzidio de tinta alcatroada e negra. Depois, era o silêncio, a ansiedade, a intranquilidade, a esperança tocada de receio, do regresso....

A odisseia ignorada da vida dos pescadores! Como ela se enquadra, audaciosa, heróica, na minha retina de infante...

O BARCO DE MEU PAI! Caravela frágil de torna-viagem, arca angariadora do pão que eu comi até aos 12 anos!

Às vezes - lembra-me bem - o céu turbava-se de repente. O clarão sinistro do relâmpago esfaqueava o ar e o trovão urrava pavorosamente. O mar tornava-se irado e horrendo e vinha, convulso, estoirar no calhau fronteiro em arrebentações espumantes de cólera. O vento punha uivos sibilantes e aterradores em todas as arestas e chanfraduras. Uma chuva diluviana bolçava intermitentemente do niagara pardacento e temeroso das nuvens. O horizonte perto e apertado era uma forja ciclópica e tenebrosa... Então, minha mãe, ajoelhada em frente do oratório, rezava tremendo e chorando. E eu sabia bem a prece que ela balbuciava... É que meu pai andava no meio daquela infernal borrasca...

Mas Deus mandava a bonança e a vinda do barco, são e salvo, alvoroçava a nossa casa de alegria que nunca saberei descrever. Varava, limpava e apetrechava-se para a mesma aventura.

Porém, um certo dia voltou, varou e nunca mais o seu dorso conheceu as carícias e os arrufos da vaga. O homem forte e bom que lhe governava o rumo esteve pouco mais de oito dias e noites amarrado ao leito, tolhido por uma pneumonia-dupla que o havia de prostrar. E por um dia claríssimo de Agosto quando o Sol ia alto, amadurecendo os vinhais e pomares, meu pai deixara de existir. Vi-o abalar para a sua derradeira viagem. As palavras que ele quis articular, erguendo-se no leito, adivinhei-as e compreendi-as mais tarde...

A sorte negra, da cor das vestes que todos nós envergávamos, começou a rondar nos a porta. A casa onde nascera toda a prole do morto que em vida sempre fora valente e honrado, deram-na por uma bagatela actualmente espantosa e ridícula...

O grande arsenal de apetrechos de pesca foi cobiçado e vendido por trinta reis de mel coado...

O Barco, relíquia bendita que eu trago sempre no museu da minha saudade, escalavrou-se e escavacou-se no calhau fronteiriço ao sabor das invernias e ao sol rachador das queimadas de Verão. Depois de ter dado lenha para tantos pobrezinhos das redondezas, tomou a aparência de um não sei que monstro de remotas eras... Acompanhava o dono na transfiguração da lei fria e imutável do Nada...

Em certa manhã de um Janeiro álgido, o mar irou - quem sabe se saudoso - e estendendo as dedadas grossas e cachoeirantes, veio arrebatar-lhe e lamber-lhe os restos num abraço, num beijo final...

Por quanto tempo andou esse destroço ao desbarato daquele amplexo?!

Os restos espatifados desse noivado trágico foram parar a vários pontos do calhau. E eu que não soube guardar uma estilha, sequer, de tão precioso e saudoso lenho para a depositar e venerar no oratório, ainda hoje existente, onde minha querida e amadíssima Mãe ajoelhava e rezava em dias e noites idas de angustiantes e bárbaras procelas!?..."