A VOZ E A MÚSICA DE GARDA

            Ildegarda de Oliveira, a menina que começou a tocar e a cantar nos anos sessenta, mantém a mesma voz quente e macia. Os sons africanos estremecem no seu corpo, nos seus olhos, no seu imaginário e na liberdade das suas próprias composições que saltam  em busca de uma humanidade mais alegre e mais harmoniosa. Muito atenta às correntes musicais que foram aparecendo para renovar o mundo, deixou-se influenciar pelo baião. Ainda hoje nos encanta com Cintura Fina, a célebre composição de Zé Dantas e Luíz Gonzaga:

«Minha morena, venha pra cá
Pra dançar xote, se deita em meu cangote
E pode cochilar
Tu és mulher pra homem nenhum
Botar defeito, por isso satisfeito
Com você eu vou dançar

Vem cá, cintura fina, cintura de pilão
Cintura de menina, vem cá meu coração».

            Do Brasil, não veio só a paixão pela música do tocador de sanfona, pelo modo como Luiz Gonzaga cantou as alegrias e as tristezas do povo do nordeste brasileiro. Fixou-se também no samba, no samba-canção, na toada, no bolero, no choro-canção, na voz cálida de Angela Maria, na interpretação emocionante de Avé Maria do Morro:

«Barracão de zinco
Sem telhado, sem pintura
Lá no morro
Barracão é bangalô

Lá não existe
Felicidade de arranha-céu
Pois quem mora lá no morro
Já vive pertinho do céu».

 

            A Garda não sabe estar na vida sem a música. Por isso toca e canta num ou noutro bar de Lisboa. E em ocasiões especiais, como no Carnaval, junta os amigos: a gente das violas (como o seu irmão Horácio de Oliveira), das flautas, das trompetes, do fado, da dança, dos poemas e da pintura. E a noite desdobra-se em ritmos e em espectáculos de música, dança, canto e poesia. Muitos amigos viveram com ela à festa deste Carnaval de 2008: os poetas Joaquim Evónio e Roberto Durão, o escritor José Verdasca (Presidente da Ordem Nacional dos Escritores (ONE) do Brasil, a artista plástica Bé Cabrita e muitos outros.

Luís Dantas

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