Lançamento no Funchal do livro “TRAGO ROSAS”, de CARLOS MARTINS

 

 

Tudo se passou no Pavilhão situado na Feira do livro. Deveria ter começado ás 20.30h, mas a essa hora a sala ainda apresentava uma nudez desavergonhada.

Nada de demasiado inquietante num País onde tanto no Continente e, pelos vistos, também nas ilhas, o atraso é uma constante de vida.

Após dar uma volta pelas barracas, olhar o gigantone saltitante nas suas pernas com molas, entrei no local do evento, agora já guarnecido de gente.

A mesa compunha-se da Esq. Para a Direita das seguintes pessoas:

Marco Gonçalves, filho do poeta JAG e ilustrador do livro.

Paulo Barbosa, Vice-Presidente da AMIMAR, que apresentou o Autor.

Humberto Fournier, Presidente da AMIMAR, que presidiu à mesa.

O Autor, Carlos Martins.

Dr. Horácio Bento de Gouveia, que apresentou a obra e leu alguns poemas do mesmo.

Ligeiramente atrás da mesa, junto ao Autor, encontrava-se Joaquim Evónio de Vasconcelos que haveria de dizer na sua voz bem sonante e legível poesia de Carlos Martins, como a que seguir se pode ler, que dá título ao livro:

TRAGO ROSAS

 No regaço da minha história

Trago rosas que não colhi...

São dos espinhos em que me feri

Quando me eras na trajectória

Do caminho onde me perdi...

 

No cansaço desta memória

Trago livros que nunca li...

São da vida onde então me vi

Mero efeito de venatória

Fantasia que não escrevi...

 

Cada passo, eliminatória

Que num trago amargo venci...

Trago rosas que não previ!...

Fiz de espinhos cada vitória

No caminho que percorri!...

 

E no espaço sem divisória

Em que trago o meu estar aqui,

Olhas o corpo onde vivi

Cada rosa revogatória

Do caminho que leva a ti!...

 

A sessão não se alongou em discursos, o que não desmotivou a audiência que foi convidada por Carlos Martins para passarem ao exterior do edifício e, ao ar livre, participar numa  sessão musical.

No palco já se encontravam os músicos: Humberto Fournier à guitarra, Paulo Aveiro, viola-baixo, Jorge Maggiore na bateria e Jorge Borges ao piano, que musicara um dos poemas do Carlos Martins, que o cantou, bem como algumas lindas melodias do Chico Buarque da Holanda, Tom Jobim, Vinicius de Morais e ainda algumas canções do Nordeste do Brasil, o que fez com uma voz límpida e bonita para delícia dos que tinham estado no lançamento e dos transeuntes que entretanto tinham parado junto ao recinto para ouvirem o pequeno concerto.

As 22 horas chegaram e, com elas, o fecho da Feira, o que obrigou, com pena de todos, a dar como encerrado o momento musical.

Alguns intervenientes e público em geral ainda ficaram à conversa, enquanto os restantes iam vagarosamente para as suas vidas.  

 

Teresa David – Funchal, 22.05.09

 

 

 

Alocução do Dr. Horácio Bento de Gouveia:

 

Começo por agradecer a oportunidade que me é dada para apresentar esta antologia de poemas da autoria de António Carlos Martins. Constituída por cento e um textos, entre os quais avultam diversos sonetos, "Trago Rosas", transporta nas suas páginas as emoções, os sentimentos, as vivências dos muitos momentos que foram preenchendo a vida e o viver de António Carlos Martins.

 

E foram estes que deram lugar ao querer escrever, ao querer expressar com a palavra escrita, mensagens reflectindo o inato instinto que acompanha o homem, este ser social e reactivo, que se traduz no partilhar, com a monotonia que sempre classifica os quotidianos, o que o espírito cultiva nos enredos que o misantropo não domina.

 

Assim terão irrompido no papel as poesias de António Carlos Martins!

 

Os dois primeiros poemas remontam ao ano de 1979, sendo que os restantes se repartem por um período bem mais recente, entre o ano de 2005 e o de 2008.

 

Esta 2.a Edição de "Trago Rosas", pese embora o autor ter também outros trabalhos, é o seu primeiro livro a ser publicamente apresentado e posto à venda. Assim, todos os poemas acabam, por força deste particular, independentemente de alguns terem pertencido a outros trabalhos, por ser, na totalidade, inéditos! Não poderão deixar de o ser, porquanto textos nunca anteriormente publicamente apresentados e disponibilizados ao público em geral.

 

Dizem os léxicos: A poesia é a arte de fazer versos!

 

A poesia de António Carlos Martins será o resultado do exercício da sua arte em fazer versos. Mas não só. Muito mais que isso! E não se circunscreverá à definição de António Austregésilo, médico, professor e ensaísta brasileiro, da primeira metade do século passado quando, em "Pequenos Males", afirma que "a poesia é quase sempre o desabafo do coração, descarga fatal das vibrações sopitadas da alma do poeta".

A poesia é para António Carlos Martins um suceder de confissões da alma que uma outra alma, a cada momento, se encarrega de ornamentar com a simplicidade da palavra certa para o transporte da imagem a despertar na riqueza imaginativa eivada pela insuspeita interpretação de cada leitor.

 

Não procura, com os seus poemas, mais do que dar a conhecer, com a programação de quanto na vida não é previsível, um pouco de si mesmo, no metamorfosear que acompanha os anos que vão passando: Sempre o mesmo eu absorvido e agarrado a outros tantos eus que vêm e partem, que chegam e saem, identificando os degraus da idade a que assiste o irreversível progredir da vida. Por isso dá a conhecer eus de um mesmo eu, o seu, o poeta, permita que assim o diga, António Carlos Martins.

 

Não escreve,...doze poesias de desalento, estilo lamuriento, pieguice brava, um momento de fazer chorar as mulheres dos nossos alfaiates" como ironiza Camilo Castelo Branco, em "Onde Está a Felicidade?". Escreve com a seriedade e a vontade que resultam de uma incessante procura em ser transparente, puro, expressivo. De ser completo!

 

Num dos poemas que dedica ao nosso comum e saudoso amigo José António de Freitas Gonçalves, que titula de "O Voo do Poeta", António Carlos Martins é sublime na evocação a este vulto da cultura madeirense, prematuramente desaparecido das tertúlias a que a sua presença atribuía particular cunho de alegria, pois o José António era um incansável conversador, de onde as palavras fluíam sem fim. (ler poema pág. 24 e último verso da pág. 81).

 

 

“O Voo do Poeta

(ao Zé António)

 

Em cada teu poema, em cada verso,

Cada razão indago, e não consigo

Nenhuma que me baste, meu amigo,

P'ra me deixares em dor tão forte imerso.

 

Em que jardim ou livro ou universo

Escondido, sorrirás ao que te digo,

Dizendo vires, mais tarde, ter comigo,

Fingindo que da morte há um reverso?

 

Febril, procuro a sorte dum abrigo,

Que me consumo em pranto submerso.

Talvez nalgum conceito de Pessoa,

 

Fingindo que te finges o inverso

Do poeta que finge que o jazigo

É máscara que usa enquanto voa.”

 

“Dum Sol que apenas arde!...”

 

 

A atraente capa de "Trago Rosas" tem como autor o filho do José António, o Marco António Gonçalves. Parabéns pelo trabalho apresentado, que identifica o livro transmitindo uma agradável primeira impressão a quem o segura para manusear.

 

Ao iniciar a leitura dos poemas de António Carlos Martins, desde logo a impressão que me causaram foi positiva, agradável, estimulando a dar continuidade à leitura, enveredando pelo mundo simultaneamente real e imaginário, subtil e frontal, o mundo poético do autor. Neste não tem lugar a poesia anacreôntica que canta decente e graciosamente o amor, os prazeres e o vinho, ou o apólogo, esse género de poesia que Latino Coelho classifica como exigindo mais espírito que inspiração.

 

Os poemas de "Trago Rosas" são hinos musicados no tempo com a cadência das palavras a que o engenho do autor deu forma, silabando, frase a frase, ideia a ideia, sentimentos de intensidades que o revezar de cada momento se encarregou de moldar (ler poema da pág. 43).

 

“Desalento

 

Verde escura, sombria,

A mente obscurece

A garrafa vazia,

Que o desatino tece

E a alma fenece

Com potente mestria.

 

Noite escura, arrepia,

O que a mente padece

E, sobre a pedra fria,

O destino anoitece

A esperança da prece

A que o corpo tremia.

 

Vida escura que ardia,

De que a mente se esquece,

Que a garrafa inebria

E ao corpo enfraquece,

E o que permanece

É a dor doutro dia.”

 

 

 

Todos os poemas obedecem a rima. Há a preocupação de António Carlos Martins, ao poetar ou poetizar – porque fazer poesia ou escrever versos, na língua portuguesa, tanto será poetar como poetizar – em criar concordância sonora nos seus versos, em rimar.

 

Com a publicação de "Trago Rosas", uma mais-valia é acrescentada à poesia portuguesa. E esta língua de Camões, o indelével marco deixado por Portugal ao mundo, superando séculos e gerações da História da Humanidade, encontra na poesia de António Carlos Martins um instrumento cultor da sua riqueza e dimensão.

 

Horácio Bento de Gouveia

 

 

 

 

Improviso reconstituído e poemas ditos:

 

É sempre com renovado gosto que volto à nossa terra e hoje, por maioria de razões, para esta festa sinérgica que nos proporciona o amigo Carlos Martins com o lançamento de “Trago Rosas” e o espaço musical que se lhe segue.

Foi-me apresentado em Lisboa, pelo grande poeta e amigo José António Gonçalves, no mesmo dia em que o conheci pessoalmente, a 25 de Novembro de 2004. Também foi ele que me deu, por telefone e a partir de Londres, a fatídica notícia do passamento do grande Porta e Escritor madeirense e universal.

O saudoso JAG, Jaguinho para muitos, ainda hoje é recordado por essa lusofonia fora e foi ele o grande apoio e incentivo que tive para lançar, em Fevereiro de 2004, a “Varanda das Estrelícias”, de que foi o primeiro colaborador.

Felicito o jovem Marco Gonçalves, seu filho aqui presente, autor da capa que serve de rosto a este livro de Poemas.

Seleccionei alguns poemas para dizer, não sou declamador, e começo pelo que tanto me faz lembrar um dos últimos do Zé António, “O pássaro morreu”, seguindo-se apenas mais alguns que me pareceram adequados à minha voz, uma “bela voz para escrever à máquina”…:

 

joaquim evónio

 

ARDE

 

O pássaro morreu!...

Arde imensa a saudade

Como antes ardeu

Mudo sobre a verdade

 

O Sol desinteressado!...

O silêncio foi triste

Ao cair sobre o prado,

Como o azul que desiste

 

Da vastidão do céu!...

Viu num rasgo uma Lua,

Qual breve fogaréu,

E confundiu-se à rua...

 

Nunca ninguém o soube

Mas nesse céu sem cor

De repente não coube

O pássaro em estertor...

 

Arde a saudade imensa

Em mais um fim de tarde

Por sob a indiferença

Dum Sol que apenas arde!...

 

 

NOS MISTÉRIOS DO MAR

 

Entro nos mistérios do mar

Pela magia do teu olhar,

 

Enquanto a luz do teu sorriso

Me dá do Sol o que preciso;

 

No mais sensual de teus lábios

Leio a ignorância desses sábios

 

Que não beberam o luar

Nem se deixaram naufragar...

 

 

TRAGO ROSAS

 

No regaço da minha história

Trago rosas que não colhi...

São dos espinhos em que me feri

Quando me eras na trajectória

Do caminho onde me perdi...

 

No cansaço desta memória

Trago livros que nunca li...

São da vida onde então me vi

Mero efeito de venatória

Fantasia que não escrevi...

 

Cada passo, eliminatória

Que num trago amargo venci...

Trago rosas que não previ!...

Fiz de espinhos cada vitória

No caminho que percorri!...

 

E no espaço sem divisória

Em que trago o meu estar aqui,

Olhas o corpo onde vivi

Cada rosa revogatória

Do caminho que leva a ti!...

 

 

TRISTEZA

 

No branco estilhaço

Da tarde vazia

Renasce sombria

Num brilho de aço,

 

Na rua onde passo,

Uma Lua fria

Como garantia

De dor e cansaço...

 

Copo quase meio,

Lua quase cheia

E a noite, dei-a

A quem nunca veio...

 

O corpo, cansei-o,

Que vida vai meia

E a tristeza, sei-a

Minha por sorteio…

 

 

PAISAGEM INÚTIL

 

Debruçado na janela dos meus olhos,

Tento ver as cores da minha rua.

Nela ondula o Tejo, sensual,

Numa dança sedutora, irreal:

Corteja a Lua!...

 

Alongo o meu olhar à sua margem,

Que me apraz seguir-lhe o rumo,

A tal viagem!...

 

Desfile eterno de incontáveis vidas,

Transporta no caudal das suas águas

Tantas memórias,

Tantas histórias,

E a dor de tantas mágoas!...

 

É sem cor, a minha rua...

Nada vejo,

Que tão perto estou do Tejo,

Que o confundo,

Que o faço errar o mundo!...

 

Corre da janela dos meus olhos,

Perdido do seu mar,

Esquecido do luar

Por me sentir,

Tentando, desesperado, colorir,

À luz da Lua,

Todos os recantos sem cor da minha rua!...

 

Memória

 

Feitiços que me embebem de Lisboa...

Já nada espero haver que nos redima!...

Pelo tempo segue a vida veloz, voa...

Busca p’ra cada passo a melhor rima!...

 

Tristeza que há na alma e que se entoa,

Evocação dos tempos da Muxima!...

Saudade que nos dói mas que é tão boa...

E nela prosseguir memória acima!...

 

Imerge e deixa o Sol no oceano

Réstia de qualquer coisa que não sei

Dizer, belo o seu tom, quase profano...

 

Pulsar feroz, antigo, vão, sem lei,

Sofrer que fortalece a cada ano

Que afasta esse futuro que sonhei!...

 

Currículo do Autor

 

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