APRESENTAÇÃO

Em 1991, o engenheiro silvicultor Cecílio Gomes da Silva (1923--2005) publicou no Jornal da Madeira uma série de artigos referentes a costumes e figuras de um quotidiano madeirense que, em boa parte, já nessa altura só sobrevivia na memória dos mais velhos. Anos depois, o mesmo periódico, no seu Magazine, republicou os textos qualificando cada «retrato» como «uma viagem à Madeira de outros tempos» e o conjunto destas lembranças, agora convertido em livro pela Textiverso, como «um importante trabalho, do ponto de vista etnográfico».
Não sendo bom conhecedor da etnografia madeirense, apenas posso corroborar tal juízo a partir da leitura directa dos textos que formam o volume que o leitor tem em mãos. Suponho, com efeito, que não haja outro projecto similar no universo das (creio que não muitas) obras dedicadas a preservar e celebrar «a memória do povo» da Madeira, no sentido especificamente antropológico de, como escrevia ainda aquele jornal, operar uma «valorização da cultura popular» do arquipélago. A originalidade e a importância do livro de Cecílio Gomes da Silva fica, pois, garantida, no plano etnográfico, pela própria singularidade do projecto que, no essencial, cumpre o desejo de resgatar da amnésia pública aquelas figuras do quotidiano ilhéu que de maneira indelével lhe marcaram a infância e a juventude.
O derradeiro parágrafo do terceiro destes textos – «O homem da terra» – deixa clara a natureza memorialística da intenção que preside à composição de cada uma das figuras retratadas: «Longe da terra onde vivi intensamente a minha juventude, [...] recordo com nostalgia essa época recheada de figuras e costumes tão tipicamente madeirenses.»É uma ligação profunda à época e aos lugares da juventude a razão que move um exercício de escrita que devolve, como que em homenagem e agradecimento, a intensidade de vida que a Madeira facultou a quem nela foi iniciado ao mundo. Nesse sentido, não há aqui diferença alguma entre etnografia e literatura. Ou seja, não há qualquer escamoteamento do ponto de vista particular, do ângulo de visão pessoal sob o qual estas figuras são descritas e narradas, nem há, portanto, qualquer pretensão «científica» de converter a etnografia em etnologia. A recriação das figuras é expressamente colocada sob o signo da visão individual e de uma visão que continua activa enquanto visão mesmo depois do desaparecimento das figuras ou da cegueira (social) que as torna invisíveis ao olhar de todos os outros. O final de «O vilão da fruta» é, a tal respeito, emblemático e afirmativo como um programa sem compromisso nem cedências:
Dos homens da fruta ou 'vilões da fruta' já poucos se lembram, uns porque nunca os viram, outros porque nunca repararam neles; eram formigas a que ninguém ligava.
Eu via-os e vejo-os ainda com saudade.
O olhar de Cecílio Gomes da Silva partilha com o do etnógrafo a paixão do exterior que lhe permite, a décadas de distância, reconstruir os traços diferenciadores de personagens que, na vida corrente, se tornam anódinas por força da própria familiaridade com que as tratamos. Dessa paixão decorre o apego ao detalhe sem o qual se diria que, para o autor, não há literatura que valha a pena. Um dos melhores e, a bem dizer, constantes exemplos disso é o retrato do «cavador», que se diria pouco «tipicamente madeirense», não fosse o importante quadro de particularizações que antecede a entrada da «personagem» na cena do texto e que, depois, prossegue no traçado físico da sua «hercúlea figura». Em si mesma, a descrição até é curta, mas de tal modo recortada no cenário que a rodeia e sublinhada no volume dos seus próprios contornos e movimentos, que não custa dar crédito ao narrador quando vai ao ponto de garantir que «o cavador fazia parte da paisagem». Esse ponto, porém, é crítico, pois não se trata aqui de simplesmente celebrar uma paisagem que o tempo entretanto devorou, mas de refazer em poucas palavras uma geografia humana que colocava o cavador «na cauda de uma hierarquia social imposta por uma sociedade desumanizada». Na retórica da descrição imiscui-se, por isso, outro tipo de discurso, a cujas figuras podemos chamar propriamente políticas e que permitem, no mesmo exemplo, representar o cavador (antes ainda de o descrever) como uma força dentro de um tenso jogo de forças social, neste caso como «a máquina poderosa que funcionava com a mais barata energia existente naquela sociedade: a força braçal.»
Quem não der atenção ao efeito crítico dessa segunda retórica perderá a dimensão etnográfica efectiva nas memórias madeirenses de Cecílio Gomes da Silva, confundindo-as com certa espécie de folclore passadista com que nada têm a ver. A atenção à escrita parece--me, de resto, o critério último para distinguir o bom leitor destes textos. Dir-se-á que é assim para qualquer texto, mas, sem contestá-lo, quero vincar bem que é de certeza absoluta assim para a magnífica prosa do memorialismo de Cecílio Gomes da Silva. Trata-se, claro, de uma prosa clássica, caracterizável como representativa, mimética ou realista, consoante a terminologia que se prefira para descrever o poderoso impulso referencial predominante na totalidade dos textos. Mas, à semelhança do que acontece nos contos de Viveiros (o outro livro do autor que a Textiverso arriscou revelar aos leitores portugueses), a realidade que esta prosa aspira a recriar é em grande parte feita de linguagem e a nossa atenção é constantemente chamada para os efeitos da linguagem, quer dizer, para as mutações de mundo implicadas na mais leve variável expressiva que distinga uma comunidade (por pequena que seja) ou até uma simples individualidade humana.
No equilíbrio delicado entre esse cuidado filológico aplicado à língua local e popular, atentamente registada mesmo nas obscuridades que persistem renitentes à decifração, e o uso vigoroso e controlado da palavra escrita para dizer a violência e a aspereza (mas também a beleza) do real na sua materialidade sensível, se instala todo o esforço do escritor Cecílio Gomes da Silva para abrir na literatura espaço para a experiência humana – que é sempre e de cada vez uma experiência humana entre outras, frágil, forçosamente parcelar e, sobretudo, histórica, isto é, mortal.
É dessa mortalidade, mais do que de uma época balizada entre nítidos marcos históríco-académicos, que estas «memórias» querem insistentemente falar. Daí que lhes falte a preocupação com a data precisa, tão característica das convenções do memorialismo enquanto género ou subgénero narrativo. À data do narrado sobrepõe-se mesmo, por vezes, a data de escrita, indício claro de quem sabe, virilmente, que escreve num declive do tempo mas resistindo à inclinação fatal. Um pouco como se aprende aqui, por via indirecta, no texto «A corsa da lenha» (um dos meus preferidos): o condutor da corsa apoiava as costas à carga que transportava e, nos «caminhos velhos»que conduziam às ruas do Funchal, em vez de puxar o veículo, puxava as rédeas às mulas «para obrigar os animais a deter o deslizamento veloz da corsa». Analogia ou simbologia fácil? Talvez, mas contesto, em sua defesa, que nunca houve escrita literária que não trouxesse em si os riscos e os prodígios de uma certa arte da condução.


Gustavo Rubim