PREFÁCIO
«Ridículas umas, dolorosas outras» – assim qualificava, em 1987, Cecílio Gomes da Silva as recordações que dão matéria ao volume de contos que o leitor se prepara agora para ler ou, a esta hora, já leu. Esses dois extremos marcam, de facto, as histórias narradas, embora estejam longe de poder definir, por si sós, o tom em que o autor as narra. Mas mais importante é sublinhar o parágrafo final da introdução – intitulada «A Ilha dos Troncos» – pelo modo como aprofunda o sentido dramático de um projecto literário e memorialístico que só agora, mais de vinte anos depois, vê a luz pública para que foi concebido: «Passado meio século, sinto uma angustiosa e urgente necessidade de alijar este entulho de recordações na esperança de que, passando a outros o testemunho, me sinta menos atormentado.»
Não sabemos se, pela simples recriação escrita deste «entulho», como pesadamente lhe chama, o engenheiro silvicultor Cecílio Gomes da Silva de facto diminuiu o tormento da memória até ao momento do seu falecimento, no final de 2005. O que de certeza sabemos é que deixou este livro escrito e que, independentemente do efeito que tenha surtido no ânimo do autor, o livro vale para lá da intenção estrita com que terá nascido.
Quer dizer, vale efectivamente como duplo projecto – literário e memorialístico – centrado numa experiência pessoal da infância que, já filtrada pela recordação involuntária, surge descrita em bem pouco idílicas palavras como aquela «época a que alguém (não sei quem, nem porquê) chamou "Paraíso Perdido"». No plano do relato de memórias propriamente dito, o leitor notará que é em especial bem sucedido o caminho discreto, mas sensível, que espalha nas narrativas os sinais de formação de uma paixão científica – em particular, botânica – que virá a decidir o futuro adulto da personagem que, nestes contos, funciona como um duplo do autor: Sílvio, «que teria nessa altura oito ou nove anos». Mas esse percurso de aprendizagem individual, que faz de Viveiros um pequeno romance de iniciação, está amplificado pela formação de uma consciência crítica no pequeno Sílvio, isto é, pelo modo como o herói aprende a olhar para fora de si e a discernir o seu próprio mundo num quadro mais amplo de que ele não é o centro. É assim que acontecimentos históricos como a Revolta da Farinha de 1931 – episódio significativo nos primeiros anos da resistência ao salazarismo – entram em cena logo no terceiro texto, «O Caldeirão da Tropa». É assim que num dos últimos contos, «A Espetada de Camelo», vemos evocadas cenas emblemáticas da acção da Mocidade Portuguesa no Funchal, entrando na narrativa como momentos decisivos na experiência do jovem Sílvio. E é também assim que, um pouco por todo o livro, os leitores madeirenses terão a chance (a mais ninguém reservada) de encontrar aqui o rasto de um mundo que também estará nas suas memórias e que hoje já não estará talvez em mais parte nenhuma.
Não só mas também por isto, Viveiros é, na perspectiva literária, uma aposta clara no poder da prosa realista. O título completo que Cecílio Gomes da Silva atribuiu ao volume (Viveiros - Pardieiros, Misérias) deixa inequivocamente vincada essa aposta. Se, como colaborador na preparação desta edição póstuma, aconselhei, porém, a supressão do subtítulo (e a redução, por conseguinte, do título à palavra que constitui, em primeiro lugar, o nome do local da Madeira onde a acção decorre), foi porque julgo prejudicial à própria índole dos contos a ênfase programática num miserabilismo social que não está de acordo com a isenção de mensagem que dá um sabor muito especial à prosa e à arte narrativa de Cecilio Gomes da Silva. Uma
A palavra «viveiros», isolada no título, reúne e sublinha essa tensão entre o prazer e a dor que se entrelaçam no acto de reconstituir o passado pela narrativa. Se o viveiro é, na primeira acepção fornecida pelo Dicionário Houaiss, o «lugar onde se reproduzem e se conservam animais vivos», a vitalidade e a vivacidade das personagens que habitam estes Viveiros madeirenses – desde o clã Mozel à família dos Balsas, passando pela Zaralha, pelo Valdinhos ou pelo «tontinho da Achada» – é tão sensível a quem lhes narra a história como lhe é evidente a condição infra-humana, quase animal, em que se conservam (e reproduzem), por exemplo, os «patas rapadas» com que Sílvio convive nos mesmos «viveiros». Mas, sobretudo, para Sílvio como para o seu narrador, estes «viveiros» são nitidamente uma fonte de conservação e reprodução de vida, quer dizer, um lugar de acesso privilegiado à multiplicidade não harmoniosa da experiência humana, aos conflitos, às diferenças, aos atritos, às insignificâncias, às violências, às injustiças, aos absurdos e às forças cegas de que se tece uma experiência que não encontra síntese nem explicação última em lado nenhum. Nesse sentido, estes «viveiros» são ao mesmo tempo lugar e não-lugar – próximos, aí, daquela outra acepção (botânica) em que o viveiro é um canteiro onde os vegetais se semeiam mas só, diz o Houaiss, «para se obterem as mudas a serem transplantadas».
O último e belo conto deste volume – «A Noite do Fim do Mundo» – abre para a perspectiva desse transplante, dessa linha de fuga ou de saída representada pelo «discernimento e cultura» que já afastam Sílvio, ainda nele inserido, daquele «meio de superstição e obscurantismo». Mas representada, sobretudo, por esse mundo alternativo que é o da «teoria», quer dizer, dos livros, no caso o livro de Astronomia que nada impede, neste universo onde ciência e poesia não são incompatíveis, de ter uma das suas páginas transformada num acontecimento físico que é como um pequeno e libertador apocalipse «no céu dos Viveiros».
Alcochete, Dezembro de 2008
Gustavo Rubim