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Este livro de Euclides Cavaco – “Horizontes da Poesia” – suscita reflexões ou abordagens heurísticas que, ao longo dos últimos anos, tive oportunidade de exprimir no contexto da Lusofonia, sua expansão e divulgação.
Começa por ser sintomático o simbolismo da capa. É Portugal que passa, epopeia de navegar. DESEJO MAIOR O meu desejo maior Que entre os seres haja harmonia Unidos na terra inteira Ver um mundo renascer (in “Horizontes da Poesia”, Euclides Cavaco, Tipografia Rápida de Setúbal, 2008) Um dia, um conhecido prémio Nobel da Literatura – Ivo Andric – disse que a melhor maneira de construir uma ponte era mostrar aos habitantes das duas margens que tinham vantagem em encontrar-se. E a ponte apareceria feita. Na alma dos poetas reside a “última flor do Lácio”, de Olavo Bilac, sedenta de lançar esporos férteis, tal símbolo da paz, para todas as pontes da cada vez mais pequena aldeia global em que vivemos. O Quinto Império de Vieira e Pessoa está porventura consubstanciado na riqueza da diáspora que oferecemos ao mundo e vai frutificando através da grande persistência dimanada de caracteres que tanto dignificam a Pátria de origem pela prolongada alternância entre a errância e a ficância – conceitos tão caros ao saudoso José Augusto Seabra. As línguas comportam-se como organismos vivos, através dum longo processo de construção, desconstrução e releitura espacial e temporal. O seu múnus, no entanto, parece projectar-se sempre na quase intemporalidade do futuro longínquo, expandindo as marcas indeléveis da sua origem. O Posfácio do livro, também de Euclides Cavaco, abre de forma original: POSFÁCIO Este posfácio dif’rente Feito de dedicatórias Citações muito bonitas Amigos o meu apreço Euclides Cavaco Neste capítulo tive oportunidade de dizer: Já se vislumbra a proa airosa do seu nascituro "Horizontes da Poesia", na esteira de obras anteriores, a rasgar as ondas tranquilas ou revoltas dos mares, como portador de mensagem a todos quantos vivem o encanto de falar a língua de Camões e Vieira. Parabéns, Amigo Euclides, e grande sucesso para a nova obra.
Nas suas próprias palavras, a distância do berço reforça o sentimento de Portugalidade Considera-se pessoa simples, mas orgulhosa de ser português. Dedicou-se desde muito cedo à divulgação do Fado e da Poesia que escrevia há muito tempo, para levar tão longe quanto possível aquilo que é tão nosso e que é a Língua Portuguesa. Quando estamos longe da Pátria, diz ele, renasce em nós a Portugalidade, somos portugueses duas vezes, sentimos a Pátria de modo diferente e mais intenso. A Mulher portuguesa sempre desempenhou um grande papel histórico, por isso é destinatária fiel de tantas homenagens (pp. 88): SER MULHER Ser mulher Ser mulher não é somente Ser mulher é ter coragem Ser mulher é dizer não Ser mulher é procurar Ser mulher é esse alguém Ser mulher é sim lutar Já publicou muitos CD’s e 5 livros, mas o 6.º é verdadeiramente o Livro de Visitas do Portal “Ecos da Poesia”, com mais de 180 000 visitas desde o seu início. (www.ecosdapoesia.com) Se tivesse de escolher um dos seus poemas seria “Alma Lusíada”. Também colaborou em “10 rostos de Poesia Lusófona”, no qual se considera, talvez, o mais modesto colaborador. O Presidente da Ordem dos Escritores (ONE), do Brasil, impôs-lhe, a 3 de Maio Passado, o colar de sócio honorário: “Mais um orgulho de me sentir português e escrever na nossa língua. São momentos que tocam profundamente e que nos motivam para continuar a escrever e a prosseguir a obra começada.” Diz ainda que: Os sonhos nunca terminam, os sonhos continuam, podem acontecer mas são sempre intermináveis. Preciso é estar todos os dias dedicado a esta causa. Por tudo quanto até agora tive oportunidade e o gosto de dizer se infere da generosidade e empenho de Euclides Cavaco numa missão que bem parece dever ser assumida a nível superior pelo Estado. Estado que só entendo como plural e arquipelágico, em que a Diáspora assuma o peso correspondente à sua Portugalidade e capacidade de realização. Abram alas, pois, por esse mundo fora. Com Horizontes da Poesia é Portugal que vai passar. Muito Obrigado.
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Em Novembro de 1999 fui novamente honrado com um convite para apresentar mais um livro, neste caso uma peça de teatro, sendo co-autores Miguel Barbosa e Luís Machado. Claro que aceitei com muito gosto. Eis algumas das palavras que proferi na circunstância: "Não sou teatrista. Apenas uma espécie de condutor de Domingo. Pertenço à grande maioria dos que, ainda que se reclamem de estetas, por razões diversas não usufruem com regularidade dos prazeres da Arte de Talma. Também não possuo requisitos específicos para estar aqui. Razões de sobra para me sentir lisonjeado pelo facto de os Autores se terem lembrado de ir buscar-me ao banco dos suplentes. Talvez a explicação mais plausível resida na velha ameaça de que um dia havia de matar o Rusty Brown. Como é visível e óbvio, nesta posição estou sob perfeito controlo. Depois desta breve desculpa, a primeira palavra é de felicitações e vai para a Hugin Editores, Lda. e para os teatrólogos Miguel Barbosa e Luís Machado, pela coragem e iniciativa de lançar mais uma obra literária no panorama nacional.
Pessoa conhecedora dizia-me recentemente que a qualidade dos nossos actores nada fica a dever à dos seus homólogos estrangeiros, que os existem entre nós de primeiríssima água, que se renovam e multiplicam sem deixar cair o testemunho do seu talento mas, face à questão cultural que o Teatro em si prefigura, escasseiam, isso sim, os autores portugueses, aqueles que poderiam tirar directamente o melhor partido émico da nossa língua, abordar com autenticidade o que de mais pertinente nos diz respeito, sem recurso à figura da tradução que, se resulta nos temas universais ou intemporais, pecará certamente nos que respeitam ao quotidiano. Trazer as pessoas ao Teatro é um acto de cultura - e de solidariedade - bem hajam pois os que, aplainando dificuldades, contribuem generosamente para o efeito. A segunda palavra dirige-se aos responsáveis pela FNAC - espaço que hoje nos acolhe - e às pessoas que, com a sua presença e amizade, quiseram honrar esta despretensiosa sessão, assim apoiando os Autores e amparando os primeiros passos do nascituro."
Assim me despeço deixando a todos quantos me lêem uma séria advertência: - Cuidado com os Brown! Com eles nunca se sabe o que pode acontecer... joaquim evónio
NA CAMA TODA A GENTE ME CONHECE
(Texto integral lido na "Apresentação" constante do fim do Capítulo "Prosa". Os Brown podem ter sabotado o computador, mas acabo de descobrir uma disquete!)
- Peça em 2 Actos de Miguel Barbosa e Luís Machado Não sou teatrista. Apenas uma espécie de condutor de Domingo. Pertenço à grande maioria dos que por razões diversas não usufruem com regularidade os prazeres da Arte de Talma. Também não possuo requisitos específicos para estar aqui. Razões de sobra para sentir-me lisonjeado pelo facto de os Autores se terem lembrado de ir buscar me ao banco dos suplentes. Talvez a explicação mais plausível resida na velha ameaça de que um dia havia de matar o Rusty Brown. Literariamente, claro. Como é visível e óbvio, nesta posição estou sob perfeito controlo. Depois desta breve nota, a primeira palavra é de felicitações e vai para a Hugin Editores, Lda. e para os teatrólogos Miguel Barbosa e Luís Machado, pela coragem e iniciativa de lançar mais uma obra literária no panorama nacional. Pessoa conhecedora dizia-me recentemente que a qualidade dos nossos actores nada fica a dever à dos seus homólogos estrangeiros, que os existem entre nós de primeiríssima água, que se renovam e multiplicam sem deixar cair o testemunho do seu talento. Mas, face à questão cultural que o Teatro em si próprio configura, escasseiam os autores portugueses, aqueles que poderiam tirar o melhor partido émico da nossa língua, abordar com autenticidade o que de mais pertinente nos diz respeito, sem recurso à figura da tradução que, se resulta em temas universais ou intemporais, pecará certamente nos que respeitam ao quotidiano. Trazer as pessoas ao Teatro é um acto de cultura - e de solidariedade. Bem hajam pois os que, aplainando dificuldades, contribuem generosamente para o efeito. A segunda palavra dirige-se aos responsáveis pela FNAC - espaço que hoje nos acolhe - e às pessoas que, com a sua presença e amizade, quiseram honrar esta sessão, apoiando os Autores e amparando os primeiros passos do nascituro. E a terceira, finalmente, é para a família Brown, em especial para o Luís Miguel, dado às luzes da ribalta por esta dupla de escritores irónicos e bem dispostos que são Luís Machado e Miguel Barbosa. Acerca destes nada vou acrescentar, são nomes e personalidades sobejamente conhecidos, e o próprio livro contém alguns dados biográficos - embora notoriamente escassos face à dimensão e polivalência das suas capacidades e à obra multifacetada com que nos vêm brindando, de forma pertinaz e sistemática, ao longo de tantos anos. Rusty Brown foi, ainda é, um herói do policiário português, detective particular afogado em dificuldades financeiras, permanentemente acossado pelos tribunais para pagar pensões alimentares a um ror de ex-esposas - harpias pairando sobre os seus limitados carcanhóis. Os salários da secretária estão sempre em atraso, o que nada influencia a sua completa dedicação... Ele próprio se confessa mulherengo inveterado, mas não se pode atribuir culpa a quem por natureza emana elixires afrodisíacos de longo alcance, a quem, se não se defendesse de vez em quando, viveria um permanente tiro e queda. O escritório tem a sobriedade de quem coloca a profissão à frente do luxo, quer dizer, é sórdido e decadente quanto baste. Quanto à fama, ultrapassou as fronteiras e não há crime organizado que não tema a sua intervenção ou simples presença. Nem o Espaço escapou às suas incursões. E mais, e não menos importante: tem uma mãe que é um amor de pessoa, assalta o que lhe vier à tola quando não está na prisão, super possessiva, ao melhor estilo da mãe-galinha, a telefonar lhe nas ocasiões menos propícias, sempre preocupada com a saúde e o comportamento do seu menino. Bem, quanto à linguagem, é capaz de fazer corar um carroceiro. As suas relações com a polícia regular são as normais: odeiam se com a maior cordialidade por entre os mais virtuosos piropos. Ás vezes, quando cotejo este perfil sofrido com a eficiência e eficácia que o caracterizam, pergunto a mim próprio por que o ameacei de morte matada. Julgo que devido à inveja que nutro por ele: tanto sucesso em tantas áreas obscurece o mais comum dos mortais. E não estou disposto a reconsiderar, mau grado ter de contar também com a proficiência daquele filho do pai que se chama Luís Miguel. Promessas são promessas. "Na Cama Toda a Gente me Conhece". Peça em dois Actos. Velocidade vertiginosa. O encenador intervém na acção. A Cena I principia com Luís Miguel Brown no proscénio, em ambiente decorado por música de jazz "muito lenta e sensual". Se não fosse sensual é que era para admirar. E se não viesse armar-se em protagonista também era um espanto. A acção decorre à volta da choruda herança dum tio que considera os sobrinhos uns autênticos parasitas e resolve pô-los à prova de forma muito peculiar. Os mortos caem como tordos, não propriamente um por página, mas aos molhos. O Inspector da polícia tem para com o detective a simpatia habitual. Nem falta o investigador americano. O médico legista é um apreciador das belas-artes: para ele há cadáveres lindíssimos, com pormenores da beleza mais celestial. A trama está bem urdida, o ritmo prende o espectador, cada cena é uma autêntica pintura. O humor e o burlesco estão presentes a cada passo. O desfecho é inesperado, nem poderia deixar de ser. Depois de ler, as cenas permanecem no espírito como se fossem telas. Mas lá porque os Autores conseguiram fazer passar a sua mensagem - não é assim que é moda dizer se? - não pensem que vou contar a história. Os livros fizeram-se para serem lidos. E as peças de teatro para serem vistas. É ou não é? Quem está a deleitar-se com a leitura interroga-se de vem em quando: - "Onde é que eu já vi isto? Onde é que já ouvi aquilo?" A explicação é simples. Luís Miguel é bem o filho de Rusty Brown. Herdou quase tudo, até o estilo. O que há pouco referi sobre o pai aplica-se quase na íntegra ao filho. Está completamente dispensado de qualquer análise para definir a paternidade. O ADN não é para aqui chamado. Também tem uma autêntica mãe-galinha. Está na prisão. Assalta que se farta. Preocupa-se imenso com o seu rebento que, aos 45 anos continua a ser para ela uma criança mimada. Até parece filha da avó do detective, o que obviamente não poderia ser, pois toda a gente sabe que Rusty Brown nunca se deixaria cair pelos encantos duma irmã, por mais que a cama tenha sido um dos seus mais fecundos teatros de operações. Circunstância inovadora: Luís Miguel Brown conhece uma virgem de trinta anos por quem se apaixona no meio do assédio de todas as outras que o acham irresistível. Tem o hímen complacente - imagine-se (!). - mas não é nada que os vastos recursos do detective não venham a resolver, com ou sem berbequim. Do desfecho, inesperado como já foi dito, faz parte um súbito afluxo de riqueza aos bolsos e à conta bancária do detective. Será que o escritório vai mudar de visual? Irá ganhar o aspecto e a funcionalidade duma consola verde espacial, com todas as tecnologias da última geração? Irá Luís Miguel Brown dedicar se à solução dos intrincados problemas colocados pelo terrorismo informático? E Silvana Beijoca, sua incondicional secretária, verá os salários finalmente em dia? E com quem vai o paradigmático herói festejar a despedida de solteiro? E a querida mãezinha? Concordará com mais este terrível passo? Toca o telemóvel. No melhor da festa e na posição mais sui generis que imaginar se possa, Luís Miguel estende a mão e atende. A música suave e sensual não impede em nada as condições acústicas. Quem se lembraria de interromper num momento destes? -"Não, mãezinha, desta vez que se lixe o colesterol. O quê? Já saiu da prisão? Óptimo! Vai viajar? Não posso crer!" Vai assaltar o Markus & Spencius de Roma? Sim, tenha cuidado! Lembre-se da última vez! Sim, mãezinha, sei que corro riscos e ando sempre disfarçado... Pois, pois é, mas por que me fez tão irresistível? Sabe como isto costuma acabar, não sabe? Pois, na cama. E "NA CAMA TODA A GENTE ME CONHECE"! Os Autores avançam para a boca de cena. Vêm abraçados, gabardine comprida e chapéu tipo Bogart. São longamente ovacionados pelo público entusiasta e frenético. O pano já tinha caído.
Lisboa, FNAC, 10 Dez 99 |
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Foi com grande surpresa que recebi o convite de Mestre Miguel Barbosa para proceder à apresentação de um dos seus livros, na circunstância "A Romãzeira e a Sombra", da colecção "o lugar da pirâmide", Editora Átrio. O evento teria lugar uns dias depois, a 06.02.92, com pompa e circunstância, no Salão da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). As minhas actividades tertuliares tinham começado havia pouco tempo, só mesmo os amigos me conheciam, daí que tenha, sem falsa modéstia, declinar convite tão honroso. Foi-me explicado que tanto o Autor como o Editor - José Manuel Capêlo - tinham concertado suas opiniões e que esperavam mesmo que eu aceitasse. Miguel Barbosa era já meu vizinho, muito bom vizinho, desde 1968 e conhecia-o, embora não muito profundamente, como grande Mestre de muitas artes. O nosso relacionamento cultural, no entanto, iniciara-se pouco tempo antes. Bem, comecei a ler o Livro. Afinal não se tratava de um Conto, mas sim de dois, cada um com o seu título autónomo. A capa começava por ser enganadora, ao suscitar a ideia de que algo, eventualmente romântico, iria passar-se à sombra da árvore. Mas não, nada disso. Fiz uma leitura cuidada, com inúmeros recursos ao Dicionário - sabia lá o que queria dizer "onfalópaga", por exemplo - e alinhavei uns apontamentos para servirem de base a uma intervenção de improviso. É exactamente esse manuscrito que não encontro, mas ainda não desisti, pois há escaninhos a perscrutar em vários sítios depois duma mudança de casa que já ocorreu há cerca de um ano. Fazendo apelo à memória, no entanto, posso dizer que a sala estava cheia e ali revi alguns amigos com que não me encontrava havia anos. Quanto à apresentação em si, nessa como noutras alturas em que tive o prazer de debruçar-me sobra a obra do Mestre, a palavra fugiu-me sempre para a personalidade multifacetada deste artista incómodo e tão profícuo. Recordo-me de ter sublinhado quanto a sua obra me fazia colocá-lo numa escola neogótica, dada a persistência e acutilância com que buscava a perfeição das alturas, quer na escrita, quer na pintura. O livro não tem Prefácio e começa, logo a pgs. 5, com um belo poema do Autor:
E pouco mais vou acrescentar de cor, a não ser que a linguagem forte e metafórica nos leva para caminhos de meditação que ultrapassam em muito a vintena de páginas com que nos brindou. Para terminar aquela apresentação, já que a considerei um desafio, decidi também desafiar o Autor, entrando nos seus terrenos através dum poema-retrato que então lhe dediquei. É o que se segue e foi tão espontâneo que o apresento sem que lhe tenha introduzido desde então qualquer alteração significativa.
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À Câmara Municipal de Lisboa, particularmente ao seu Pelouro da Cultura, também agradeço a dignidade do Espaço que proporciona para esta apresentação. A todos os presentes, aqui reunidos pela amizade ou apreço pela Autora, obrigado por terem vindo. Um escritor sente, pensa e escreve, mas, no entanto, o narrador é que fala por ele. Ao leitor compete interpretar e sentir a obra que se lhe depara como carta de marear para a viagem da sua fantasia. Por isso, de acordo com a sua índole, cada um lê de forma diferente aquilo que lhe é oferecido sob a forma literária de prosa ou poesia. Daí a riqueza da obra com que vamos preencher os nossos espaços ao apropriar-nos da criatividade que dialoga connosco. Daí que cada leitura seja diferente, na justa medida em que vem ao encontro de necessidades que sentimos, seja um sorriso - lago onde nadam e flutuam os sonhos... - seja uma lágrima - elixir alquímico da libertação.
Não deixa de ser
sintomático que este novo livro de Ana Briz - "Na Espera
das Marés" - comece por citar Platão, sublinhando
dessa forma a sombra que aspira a ser real, o sonho que se reconhece
por interposição da metáfora.
Cito: Volto a citar: "Náufraga de uma tormenta/vagueio pela praia as minhas ilusões." - Aqui se cria uma dúvida que persiste ao longo da obra: - Será a tempestade melhor que a bonança?
E logo a seguir, invocando o
espírito da controversa obra de D.H. Lawrence, "O Amante
de Lady Chatterley": Na verdade, haveria tempo ou vocação para escrever se se vivesse uma vida plena, realizada? Um pouco mais adiante, veremos, em "Tarde de mais":
"Inventarás
metáforas de loucura/cumplicidade de ventos e
fogo/entrincheirado em formas de amargura/incendiarás em
raivas teu malogro/Acabarás descobrindo em
memórias/noites de paixão, no ardor de beijos". "Sou amante do deserto/oásis, uma ilusão/a brisa sopra por perto/greta meu corpo vulcão" Ou ainda: "Acorda então a madrugada/despenteando raios de sol" Na impossibilidade de, neste espaço, produzir um exame exaustivo do que a poeta nos diz, tentemos abordar, ainda que abreviadamente, o contraponto para que as suas palavras nos convidam. O escritor escreve, o leitor sente. É fácil descobrir anseios irrealizados, aspirando a um desiderato que foge e a poeta tenta compensar com a suavidade que dela dimana. A felicidade é um bem-estar positivo e perene, espiritual e carnal, irrealizável para quase todos os seres humanos. Daí a sublimação que se encontra no concatenar das suas palavras, na busca dum éden jamais encontrado, na amargura transfigurada que essa busca consigo traz... "Na Espera das Marés", pelo seu próprio título, já evidencia a incerteza e a ansiedade de encontrar algo, múnus para preencher alma e corpo, mesmo quando, pelas palavras, até parece saciado e feliz... mas o sentimento está mais longe, racionalizado, acima e distante, ditando o que não é para que os outros pensem que é... Ana Briz, ou a narradora a quem emprestou a sua palavra, é praia e areia, búzio e concha, fímbria que separa duas realidades complementares, nela tudo depende do grande mar a que muitos chamaram oceano e outros, talvez menos lúcidos como eu próprio, apelidam apenas de vida. Os ventos alíseos casam-se com o marulhar das ondas e ambos pretendem bolinar para bombordo mas as energias em presença conflituam entre si e com a própria natureza para pintar o quadro sui generis da sua poesia - dialéctica de amor e esperança, de conflito e desespero. E tudo isso num tom que a rima enriquece com a naturalidade de quem não a procurou e acabou por encontrar. A Poeta não faz a apologia da felicidade. Jogando com as palavras, as metáforas, não nos serve de guia para um passeio por edénicos jardins. Convida-nos, sobretudo, à grande aventura de lutar contra a insatisfação e as pequenas conquistas efémeras: - Insta-nos, incomoda-nos, obriga-nos a assumir, tal peregrinos, um caminho tortuoso e de sacrifício em busca do que nos falta e não está ao alcance da mão - a procura do paraíso perdido. Ora parece feliz, realizada, ora se nos apresenta sem laivos de esperança. Deste contraste brota uma das mais significativas marcas da poesia de Ana Briz.
Não pode deixar de
sentir-se, nas entrelinhas do sonho, quanto de incompleto e
inconstante alterna com a aparente serenidade da escrita.
Palácio das Galveias,
07 Mar 2001 |
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A pedagogia é sempre um acto de amor. Às vezes, pouco importa ao autor, enquanto narrador, que a obra seja bem ou mal recebida. Outras, só o reconhecimento público, raramente reflectido na quantidade de vendas, satisfaz quem tão profusamente trabalhou para gerar o nascituro. Ocorre-me falar, por momentos, do apresentador que hoje sou. Pela negativa. Nunca escrevi um romance que não fosse na imaginação. Disperso tem sido o que a minha pena ou o computador que exerce por mim produziram até ao momento. Aqui estou como leitor, por amizade, solidariedade para com o escritor consagrado que aprecio e visualizo a um nível que não me foi dado alcançar. João Marcos é, acima de tudo, um ser humano de excepção, pela postura, pela humildade natural, pelo silêncio prudente e eremita a que se remete. A alguém competirá fazer eco das suas qualidades e obras. Já nos brindou com algumas de elevado nível literário e, dentre elas, seja me permitido salientar "Uma terra que se chamou Geridel" (1992), obra-prima da literatura contemporânea que bem melhor merecia ser conhecida. Neste livro que hoje constitui o múnus da questão, há que reparar especialmente na gestão do tempo, não cronológico, como aconteceu de forma inovadora no cinema moderno. Como acontece ainda neste "Estrasburgo 64", que hoje aqui nos reúne para assistir ao seu bom sucesso e também nos faz viajar entre o presente, o passado e o futuro. O presente de cada momento, o passado inserido depois do presente, o futuro que se adivinha e se vai construindo nas linhas carinhosas com que o narrador nos encanta pois, como se sabe e tantas vezes se esquece, não há presente sem passado nem futuro sem presente. Para confirmar esta asserção, vejamos que o romance tem o seu início em Paris, na Páscoa de 1970. Passa depois para Estrasburgo, Setembro de 1964. Recorda com autenticidade o comportamento da juventude dos anos 60 e o 20.º aniversário da libertação de França face ao jugo nazi. Continua em Lisboa, depois da Páscoa de 1970, prosseguindo até 1984, altura em que o protagonista repete a viagem a França, em circunstâncias algo diferentes das anteriores. É nesta concatenação, viajando no tempo também dentro de cada capítulo, que nasce o romance cuja trama obviamente não vou desvendar. Se a tal me propusesse, ainda que com algum êxito, apenas iria cercear a leitura atenta duma obra que merece ser lida não apenas pelo enredo mas principalmente pela forma literária como nos é proposta. A problemática é essencialmente humana, como se lê no Prefácio. Direi apenas que o fim é inesperado e que a personagem central, de contornos intencionalmente nebulosos, contém em si própria o mistério e as inconsequências que lhe criam os atractivos para que seja desejado e querido, pois é delineado como uma pessoa calma, aparentemente estável, indiferença quanto baste perante os fenómenos que o cercam, com o atractivo superior da discrição e da humildade, muito ao contrário dos sedutores tradicionais. Será Pedro um galanteador barato? Ele, que não conheceu o pai e perdeu a mãe aos vinte anos? Vive esta história entre os 26 e os 46 anos, de vez em quando encontra se naquela situação típica em que "o coração os atraía, a razão os afastava". Pedro guardava no coração das mulheres, mesmo comprometidas, apenas um cantinho: "Um cantinho que é um Universo". Poderíamos deambular entre o sagrado e o profano e concluir que este, à semelhança do primeiro, também é descontínuo, como aquele Café de reencontro entre Pedro e Teresa, que ambos escolheram porque lhes suscitava recordações especiais. Sublinhem-se ainda, porque importantes, os apartes filosóficos, os monólogos existenciais sobre a vida e a morte, a intervenção do narrador nos pensamentos íntimos das personagens, especialmente da central, inserindo importantes registos, trazendo à baila lembranças doutros grandes escritores. Não seria agora oportuno transcrever esses bons momentos de meditação ou êxtase, como por exemplo, lembrando-se de Miguel Torga: afinal o estrangeiro é " onde se diz D. Filipe, quando eu digo D. Sebastião". Não ignoremos, entretanto, oposta à personalidade de Pedro, a figura dum militante político, seu amigo desde os 16 anos, Armando Lacerda, naturalmente vitimado pela contingência do seu próprio "Auto da Índia"... E, para terminar, que não falte nestas palavras o enquadramento histórico e sociopolítico a que se reporta a época de 64-84, já parcialmente descrito no Prefácio do Prof. Dr. J. Fernando Tavares, período pleno de dinâmica e de mudança, mudança contra o conservadorismo, implicando uma readequação global face ao desejável e ao possível. Não se trata de um romance histórico, mas essa moldura revela-se um dado fundamental para situar os factos narrados, usando um peculiar humor algo esbatido pelo tempo e que, na época dos acontecimentos, teria constituído emoção bem mais forte. Estamos perante um romance que é, ao mesmo tempo, um exercício de pedagogia democrática. Ou da libertação. Citando de cor um amigo meu, a ficção não é uma fuga da realidade mas sim, pura e simplesmente, uma fuga para a realidade. Este calmo mas impetuoso narrador não ignorou, mas também não abusou desse húmus quente e rigoroso em que se insere a sua narrativa. Fiquemos pois a pensar. Como continuaria a história? O talento do escritor fê-la parar na altura certa. Quem quiser extrapolar está no seu legítimo direito. As personagens, umas mais esfumadas que outras, continuam a fazer-nos companhia. Que será feito delas agora, quinze anos depois? Se ainda for vivo, Pedro já tem 61 anos. Que se terá entretanto passado? Eis todos os ingredientes que me pareceram relevantes. Que cada um tome o seu exemplar com a liberdade de contradizer a leitura que me propus fazer. Mais uma história que vale a pena ler.
Universitária Editora,
10 de Março de 1999 |
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Um dos mais proeminentes românticos da nossa literatura disse um dia que é uma pena quando os nossos amigos não são amigos uns dos outros. Aqui, no espaço paradigmático e insubstituível da Casa Fernando Pessoa, estamos a colocar em evidência, de forma simples e de coração aberto, que, mesmo no mundo cada vez mais materializado em que vivemos, ainda há espaços de convergência para o exercício da evocação e da solidariedade. Neste mesmo dia, no último ano da sua vida, o Poeta escrevia o poema "Liberdade" (Grande é a poesia, (...) / Mas o melhor do mundo são as crianças ). Talvez também por isso, esta evocação de linhas negras, de contornos. Depois, as legendas ( dizeres que acompanham um desenho para facilitar a sua compreensão ). Momentos autonomizáveis da vida do Poeta, tudo estava contido de forma indelével no grafismo das suas atitudes: os "Extractos de solidão" que o acompanharam durante toda a vida; a "Expectância" quase permanente; a "Sintetização", "pela inteligência"; a "Omnipresença" de Mário de Sá-Carneiro ( silhueta que acompanha o seu pensamento ); a "Heteromorfia", expressão criadora de personalidades independentes adentro da sua identidade multifacetada; a "Ofélia", amada à sua maneira; os "Lepidópteros", um dos termos mais depreciativos utilizados pelo grupo de Orpheu e criação de Sá-Carneiro, conforme nos diz Almada Negreiros; a "Carta para Paris", simbolizando a correspondência trocada nas vésperas do suicídio de Sá-Carneiro; o "Orpheu", grande movimento de aventura tertuliar, corte epistemológico com as "literaturas" da habilidade, e, finalmente, a "Imortalidade", que pareceu andar sempre arredada da vida do poeta mas da qual, segundo António Quadros, poderia ter tido uma premonição quando, em 23 de Maio de 1932, escreveu "A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto." As mesmas evocações na voz de Margarida Sanches, do "Grupo Dizer" da Associação Cultural Sol XXI. Mas antes, não queríamos deixar de agradecer a vossa presença e as diversas solidariedades que se cruzaram para tornar possível este momento. Uma palavra especial para o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa que, com grande disponibilidade, nos franqueou este espaço . Uma palavra, ou antes duas, um esboço pessoano que José Jorge Soares deixa depositado nesta Casa e um poema ( talvez), a evocar a universalidade da capital europeia da cultura: LISBOA 94
O preto e o branco
joaquim evónio
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A alquimia, diz-se, foi a precursora da química. No entanto, por mais séculos que tenham decorrido desde as primeiras experiências alquimistas, nem a química nem o conjunto de todas as ciências conseguiram atingir os desideratos a que a primeira se propunha. Vem isto a propósito de Armando Taborda e do seu livro "Manual do Desperdício". Nos dias de hoje, se alguém tentou ser alquimista foi sem dúvida ele, o Autor, e se em algum sítio foram vertidos os resultados do seu trabalho, temo-los diante de nós, na reciclagem de toda a ganga segregada do minério da sua vida, emprestando nexo àquilo que nenhum sentido teria se o dom da palavra não tivesse contribuído para lhe emprestar coerência. Embora o Autor confesse uma capacidade cada vez mais diminuta de emocionar-se, o facto é que este livro nada tem de frio ou árido. Terá, pelo contrário, o calor que cada um de nós for capaz de sentir através do exercício da sua leitura, da interpretação do pensador-filósofo que lhe está por detrás. A obra refere algumas das épocas que Armando Taborda viveu, em diversos continentes e em contacto com também distintas realidades culturais: Portugal, Angola, Moçambique, Guiné, Estados Unidos da América. Os capítulos em que se divide são disso testemunho: "Da generosidade Imposta", "Da revolução atrasada", "Da Ilha desencantada", "Do amor eterno enquanto dura" e "Da sobrevivência possível". Não é, todavia, a vida vivida pelo Autor que poderemos ler nas suas páginas. Os seus textos são uma espécie de gráfico de intervalos, o resultado intelectual e racionalizado de experiências e emoções, numa perspectiva estruturalista e intemporal. Trata-se, afinal, da palavra burilada, finamente trabalhada como os bordados e as filigranas da sua terra natal, purificada pelas retortas, serpentinas e tubos de ensaio do seu alquímico laboratório. Se os antigos, na busca do metal nobre, conseguiram fazer descobertas tão sensacionais como a da pólvora ou do fósforo, o contemporâneo Armando Taborda terá ido porventura um pouco mais longe e encontrado a "pedra filosofal", o segredo capaz de tudo transformar em ouro. E por uma razão muito simples: percebeu que o ouro está na palavra, na concatenação de palavras, na nobreza e na filosofia da ideia que as palavras exprimem. Para isso lançou mão de todos os desperdícios em que foi tropeçando, sublimou o lixo das suas experiências, viveu intensamente e, no fim de tudo, como diria Rilke, ficou em condições de escrever um verso. Verso ou versos todavia unilaterais, já que o Autor é suficientemente reflexivo para que deixe entrever um diálogo com o leitor. Lega-nos, com singular exigência autocrítica, os seus textos pensados, ou pensamentos textuais, correspondentes a factos nem sempre fáceis de escrutinar, mas que terão decerto desempenhado um papel casuístico a montante da limpidez estrutural em que se projectaram as suas reflexões. Os factos do Autor, afinal, não passam da carne conjuntural da ossatura estética com que ora nos presenteia. As "Considerações à laia de prefácio" são da autoria do consagrado Ulisses Duarte e a capa é uma feliz composição artística de Luís Dantas. Trata-se de mais uma obra publicada na colecção Calíope da Ceres Editora. Termino apenas com um grande abraço de felicitações para o Autor, o Prefaciador e o Editor. E convido todos a ler o "Manual do Desperdício"; irão decerto aferir da autenticidade das palavras amigas mas sinceras que acabei de proferir. Lisboa, 18 de Janeiro de 1995 joaquim evónio |