Apresentações

     

Biblioteca-museu da República e Resistência – 19 de Setembro de 2008

É com enorme prazer que aqui me encontro, no desfrute de tão boa companhia, para colaborar na apresentação deste livro –“ Um pequeno retrato de Colmeias", de Henrique Tigo, considerando estar a participar numa verdadeira acção comunitária de paz social.


Mesa: Da esq. para a dir.: Joaquim Santos, Henrique Tigo. Eduardo Perestrelo e Joaquim Evónio
- Foto Sónia Mourato

Começo por reportar-me ao Autor e à sua Tese para a Licenciatura de Geografia do Desenvolvimento Regional - O Papel das ONGD na Educação para o Desenvolvimento, a que tive o prazer de assistir na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

“Introdução
No senso comum, a Geografia é uma ciência que se ocupa apenas de mapas, nomes de países, rios e seus afluentes, lagos, oceanos e montanhas.
Contudo, e após quatro anos de licenciatura, verifiquei uma realidade bem diferente, visto que a Geografia é bem mais importante, pois ainda investiga os mais diversos aspectos físicos do planeta e cada vez mais se vem debruçando sobre questões ambientais e sociais, preocupando-se com a acção do homem no espaço que o rodeia.”…

Acrescentaria: Neguentropicamente. O Homem é o único ser vivo com capacidade para vencer volitivamente o 3.º Princípio da Termodinâmica. Situado num ecossistema de que também faz parte, tem capacidade para o alterar e instabilizar, tanto para o bem como para o mal.

(A propósito do Tsunami asiático):

prenúncio

o ser humano esse louco
nem merece a natureza

malbarata a prenda dada
sempre a tratou com desdém

já fez tanto ou tão pouco
que a onda alienada

com legítima crueza
virá salvar sua mãe

21 JUN 04

Se fosse verdade, como dizia um velho filósofo grego, que “quem conhece o bem não pratica o mal”, teríamos apenas de nos preocupar com a educação, com a formação, tantas vezes confundida, e mal, com a instrução.
Um pedagogo vale mais pelo que é do que por aquilo que faz. O seu principal objectivo é criar uma situação pedagógica, aquela em que a assembleia é percorrida por uma energia relacional interna propícia à troca de ideias. Já Einstein dizia que o cérebro que teve ou aceitou uma ideia nova nunca mais será o mesmo.
Sempre acreditei que o múnus da pedagogia reside no fortalecimento da capacidade de opção de cada um, incorporando no seu ser as propostas que aceita por fazerem parte do conjunto que é.
É necessário esclarecer e fortalecer a identidade pessoal, bem como a identidade cultural das comunidades, pois só assim é possível compreender e respeitar o outro e as outras comunidades.

Enquanto ciência humana, a Geografia encontra-se perto da Antropologia Cultural.
A Psicologia estuda o indivíduo, prefiro dizer: a pessoa humana.
A antropologia Cultural estuda a cultura no seu sentido civilizacional.
A Sociologia estuda a Sociedade.

Aqui chamaria a atenção para dois conceitos distintos: o de Comunidade e o de Sociedade. Gemeinshaft e Gesselshaft, como lhe chamou o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies.
Na Comunidade prevalecem as relações de vizinhança, na Sociedade as relações por divisão de trabalho.
Reflictamos sobre a Aldeia Global em que vivemos para passar o testemunho.
GLOLOC significa a preocupação com os grandes espaços e, simultaneamente, com as mais pequenas Comunidades. O Global e o Local terão de constituir um conjunto sinérgico.
Cada comunidade, por mais pequena que seja, pode constituir-se como pólo de desenvolvimento cultural. O desenvolvimento não é um crescimento maior, mas uma mudança de sinal, baseada em alterações ou ajustamentos estruturais.
Quando gerimos comunidades e queremos salvaguardar um futuro próspero ou feliz, temos de tomar, hoje e antes que seja tarde, as devidas medidas estruturantes.

*****
Um dia, um conhecido prémio Nobel da Literatura disse que a melhor maneira de construir uma ponte era mostrar aos habitantes das duas margens que tinham vantagem em encontrar-se. E a ponte apareceria feita.
Nós, poetas e prosadores, pensadores e filósofos de mar aos pés, seres de diálogo emocionados com a comunicação, elixir do amor, somos verdadeiros construtores de pontes… De cá para lá… De lá para cá… E somos tantos… E elas serão tantas que todos esses tramos representarão nervuras virtuais percorrendo os céus, românicas ou góticas, desenhando uma abóbada virtual digna dum Nimeyer cósmico, apenas visível pelos iniciados que ali colocaram com acrisolado amor o tecido fino da palavra solidária!
Poderemos então dizer, com toda a propriedade, que construímos uma autêntica Catedral sobre os Oceanos, cada vez mais real, porto-de-abrigo e de encontro depois de tanto navegar…”

Haveremos de continuar a viver num contexto em que os factores geográficos são os mais estáveis, dando origem a diversas correntes geopolíticas.
Pena que, como já alguém disse, o Homem tenha alcançado o domínio da técnica antes de atingir a dignidade humana.
Na tese que inicialmente referi foi mencionado um conceito da maior importância para o futuro pacífico da Humanidade. E se não for pacífico também não será futuro. Esse era o Conceito de “Comércio Justo”. Será necessário esforço para o compreender? Claro, o economicismo e as ciências físicas ter-se-ão sobreposto às humanas. Há que inverter o processo enquanto for tempo, o que quer dizer desde já.
Ainda há dias li que para salvar o Homem o Mundo terá de deixar de ser antropocêntrico.

(A convivência e a enculturação nem sempre se fizeram da melhor maneira):

DEPREDAÇÃO

Ó linda negrinha linda
com sorriso que não finda
e olhos da cor da manga!
( …linda a cor da tua tanga! )

Pedi-te um beijo, alma pura,
e dei-te a mão com ternura!
Disseste logo que sim….
Mas na boca não, noç’ capitão!

Tens nove anos, ai de ti…
Merecias ser criança!
O que fizeram aqui
Abutres, chacais profanos,
Jagudis sem temperança?!...
(Não é de admirar que comecem a ouvir-se sons tonitruantes…):

BATUQUE

Quem alguma vez
já ouviu
e sentiu
o feitiço que tu tens,
o poder que tu emanas,
como pode duvidar
que és capaz de lutar,
p'ra ser livre a vida inteira
toda a vida em hossanas!

joaquim evónio
Mar 75

Isto se quisermos que os vindouros, muitos deles já cá estão, propugnem a felicidade digna em vez da excelência enganadora.
A comunicação será sempre um “equivalente funcional do espaço e do tempo”, como me ensinou uma vez o sociólogo Wolf Dombrowski, da Universidade Católica de Kiel. Muito mais em situação de emergência, em que a informação se torna absolutamente essencial.
Ainda vale a pena sonhar e, como “o trabalho não é uma alienação”, esperemos o dia em que capital e trabalho, irmanados nas suas responsabilidades e objectivos, se sentem amigavelmente num banco de jardim, admirem as flores e escrevam o Poema do Futuro:

RENOVANDO O MUNDO...

Braços de luz, lábios de fogo
e mãos de acarinhar!
Vem, vem de mansinho,
asas abertas de Sol e Lua,
é tão suave o teu voar!

Aqui encontras o ninho
do Paraíso perdido,
não tens mais que procurar...
Chegou o fim da viagem,
agora, sim, vamos viajar
para o encontro das almas
perdidas no espaço e no tempo!

Este é um cais de passagem
para inflar as nossas velas
do vento mais promissor
que nos leva ao Shangri-la...
Está à nossa espera,
das sementes que vamos semear
e germinarão esperanças
dum universo melhor
onde o caos é nosso aliado
pra começar tudo de novo
e construir a cidade nova e sem medo!
E ao olhar para baixo,
do alto de nossas asas astrais,
sentiremos redobrado amor
por nós e pelo mundo
que ajudámos a voar!

03 Fev 06

Repetindo:
Quando se tem a noção da nossa identidade pessoal e comunitária, para o que este livro contribui, estamos em muito melhores condições para compreender a equação do outro, dos outros e de toda a Humanidade.

Parabéns, Henrique Tigo, por mais este contributo, singelo mas significativo, a caminho da Paz social.

Lisboa, 19 de Setembro de 2008

Joaquim Evónio

HORIZONTES DA POESIA, DE EUCLIDES CAVACO

Este livro de Euclides Cavaco – “Horizontes da Poesia” – suscita reflexões ou abordagens heurísticas que, ao longo dos últimos anos, tive oportunidade de exprimir no contexto da Lusofonia, sua expansão e divulgação.

Começa por ser sintomático o simbolismo da capa. É Portugal que passa, epopeia de navegar.
Respira a expansão da cultura portuguesa pelo mundo. Cultura em sentido antropológico, civilizacional. Faz lembrar que, no séc. XVI, o português era uma língua franca no Oriente… Era o latim da Antiguidade transposto para a modernidade pós‑gâmica.
Tece hinos à Paz e ao amor pela Humanidade, à mulher, ao mar, ao Fado e à Saudade, ao Portugal enorme no coração e na alma do poeta.
Pelo seu íntimo perpassam os valores esquecidos dum Portugal que, apesar de tudo, quer continuar a ser.
Usa a simplicidade dos grandes, terminologia acessível a todos, tornando ainda mais claros e acessíveis os objectivos que se propôs de levar a Lusofonia a navegar por todo o mundo.
Além de componente significativa, assume também, militantemente, a forma de vector de expressão da nossa Língua.

DESEJO MAIOR

O meu desejo maior
Que minha alma domina
Era fazer do amor
No mundo uma só doutrina.

Que entre os seres haja harmonia
Paz concórdia e entendimento
P’ra alimentar cada dia
Este nobre sentimento.

Unidos na terra inteira
Dando uns aos outros as mãos
Numa vivência fagueira
Como fôssemos irmãos.

Ver um mundo renascer
Todo ele feito de amor!...
Que bom seria viver
O meu desejo maior!...

(in “Horizontes da Poesia”, Euclides Cavaco, Tipografia Rápida de Setúbal, 2008)

Um dia, um conhecido prémio Nobel da Literatura – Ivo Andric – disse que a melhor maneira de construir uma ponte era mostrar aos habitantes das duas margens que tinham vantagem em encontrar-se. E a ponte apareceria feita.
Os poetas e prosadores, pensadores e filósofos de mar aos pés, seres de diálogo emocionados com a comunicação, elixir do amor, são verdadeiros construtores de pontes... De cá para lá... De lá para cá... E são tantos... E elas serão tantas que todos esses tramos representarão nervuras virtuais percorrendo os céus, românicas ou góticas, desenhando uma abóbada virtual digna dum Nimeyer cósmico, apenas visível pelos iniciados que ali colocaram com acrisolado amor o tecido fino da palavra solidária!
Poderemos então dizer, com toda a propriedade, que construíram uma autêntica Catedral sobre os Oceanos, cada vez mais real, porto-de-abrigo e de encontro depois de tanto navegar...

Na alma dos poetas reside a “última flor do Lácio”, de Olavo Bilac, sedenta de lançar esporos férteis, tal símbolo da paz, para todas as pontes da cada vez mais pequena aldeia global em que vivemos.
Nesse mundo globalizante que se abre diante de nós, os traços fundamentais da soberania vão-se transmutando com o tempo. Mas a identidade não. A língua acabará por ser a sua marca mais perene, correspondendo à herança cultural profunda, depois do maior ou menor esbatimento de fronteiras ou união de economias que aparentem diluir a histórica geografia política.

O Quinto Império de Vieira e Pessoa está porventura consubstanciado na riqueza da diáspora que oferecemos ao mundo e vai frutificando através da grande persistência dimanada de caracteres que tanto dignificam a Pátria de origem pela prolongada alternância entre a errância e a ficância – conceitos tão caros ao saudoso José Augusto Seabra.
O sincretismo tão patente em Terras de Vera Cruz parece demonstração evidente do ecumenismo para que apontam os caminhos da diáspora, criando núcleos e espaços de coexistência pacífica e produtiva.

As línguas comportam-se como organismos vivos, através dum longo processo de construção, desconstrução e releitura espacial e temporal. O seu múnus, no entanto, parece projectar-se sempre na quase intemporalidade do futuro longínquo, expandindo as marcas indeléveis da sua origem.
Não sendo crítico por vocação, prefiro manter esta apresentação dentro dos limites do que gosto ou não gosto…Sei, no entanto, que só aprecio literatura escorreita e bem pontuada, metafórica, com mensagem clara ou subliminar sobre a grandeza do país que fomos e ainda podemos voltar a ser…

O Posfácio do livro, também de Euclides Cavaco, abre de forma original:

POSFÁCIO

Este posfácio dif’rente
Em jeito de apologia
Ilustra distintamente
O meu livro de poesia.

Feito de dedicatórias
O posfácio editado
Contém sínteses notórias
Que me deixam muito honrado.

Citações muito bonitas
Com que me presentearam
Por amigos meus escritas
Que na alma me tocaram.

Amigos o meu apreço
Por emprestarem mais brilho
Ao posfácio aqui expresso
Que com todos compartilho!...

       Euclides Cavaco

Neste capítulo tive oportunidade de dizer:
“Reclamando para si próprio a qualidade de um dos mais verdadeiros guardiães do Templo da Lusofonia, já vem de longe, de vários decénios, a cruzada de Euclides Cavaco.
Autor dinâmico e multifacetado, merece especial relevo a sua capacidade sinérgica de casar belos poemas com a música-raiz que tanto fala ao coração e à saudade dos portugueses, especialmente dos que se encontram em diáspora.

Já se vislumbra a proa airosa do seu nascituro "Horizontes da Poesia", na esteira de obras anteriores, a rasgar as ondas tranquilas ou revoltas dos mares, como portador de mensagem a todos quantos vivem o encanto de falar a língua de Camões e Vieira.

Parabéns, Amigo Euclides, e grande sucesso para a nova obra.

www.joaquimevonio.com

 

Nas suas próprias palavras, a distância do berço reforça o sentimento de Portugalidade

Considera-se pessoa simples, mas orgulhosa de ser português.

Dedicou-se desde muito cedo à divulgação do Fado e da Poesia que escrevia há muito tempo, para levar tão longe quanto possível aquilo que é tão nosso e que é a Língua Portuguesa.

Quando estamos longe da Pátria, diz ele, renasce em nós a Portugalidade, somos portugueses duas vezes, sentimos a Pátria de modo diferente e mais intenso.

A Mulher portuguesa sempre desempenhou um grande papel histórico, por isso é destinatária fiel de tantas homenagens (pp. 88):

SER MULHER

Ser mulher
É ser esposa e companheira
Amante terna e fagueira
Que o amor sabe entender
Ser mulher
É ser mãe e conselheira
Dedicada de alma inteira
A que devota o seu ser.
Ser mulher
É ser do lar timoneira
Na doença a enfermeira
É dar mais que receber
Ser mulher
É ser fonte d'existência
Que cala a voz da ciência
A força de ser mulher...

Ser mulher não é somente
A figura e a fulgência
É muito mais transcendente
Do que essa mera aparência.

Ser mulher é ter coragem
De pôr fim à injustiça
Dessa humilhante imagem
Que outrora a fez submissa.

Ser mulher é dizer não
Ao abuso e violência
À vil discriminação
E à austera prepotência.

Ser mulher é procurar
O direito à igualdade
E sem tabus comungar
Tudo com justa equidade

Ser mulher é esse alguém
Avó, neta, irmã ou filha
Devotada esposa e mãe
Que o seu amor compartilha.

Ser mulher é sim lutar
Para ser compreendida
E sem medo conquistar
Os seus direitos na vida!...

Já publicou muitos CD’s e 5 livros, mas o 6.º é verdadeiramente o Livro de Visitas do Portal “Ecos da Poesia”, com mais de 180 000 visitas desde o seu início. (www.ecosdapoesia.com)

Se tivesse de escolher um dos seus poemas seria “Alma Lusíada”.

Também colaborou em “10 rostos de Poesia Lusófona”, no qual se considera, talvez, o mais modesto colaborador.

O Presidente da Ordem dos Escritores (ONE), do Brasil, impôs-lhe, a 3 de Maio Passado, o colar de sócio honorário:

“Mais um orgulho de me sentir português e escrever na nossa língua. São momentos que tocam profundamente e que nos motivam para continuar a escrever e a prosseguir a obra começada.”

Diz ainda que:

Os sonhos nunca terminam, os sonhos continuam, podem acontecer mas são sempre intermináveis.

Preciso é estar todos os dias dedicado a esta causa.

Por tudo quanto até agora tive oportunidade e o gosto de dizer se infere da generosidade e empenho de Euclides Cavaco numa missão que bem parece dever ser assumida a nível superior pelo Estado.

Estado que só entendo como plural e arquipelágico, em que a Diáspora assuma o peso correspondente à sua Portugalidade e capacidade de realização.

Abram alas, pois, por esse mundo fora.

Com Horizontes da Poesia é Portugal que vai passar.

Muito Obrigado.


Paulo Pestana, Zita Cardoso, Euclides Cavaco, Octaviano Correia e Joaquim Evónio (Foto M.C.)


Funchal, 24 de Maio de 2008

joaquim evónio

NA CAMA TODA A GENTE ME CONHECE

Em Novembro de 1999 fui novamente honrado com um convite para apresentar mais  um livro, neste caso uma peça de teatro, sendo co-autores Miguel Barbosa e Luís Machado. Claro que aceitei com muito gosto.

Eis algumas das palavras que proferi na circunstância:

"Não sou teatrista. Apenas uma espécie de condutor de Domingo. Pertenço à grande maioria dos que, ainda que se reclamem de estetas, por razões diversas não usufruem com regularidade dos prazeres da Arte de Talma. Também não possuo requisitos específicos para estar aqui. Razões de sobra para me sentir lisonjeado pelo facto de os Autores se terem lembrado de ir buscar-me ao banco dos suplentes. Talvez a explicação mais plausível resida na velha ameaça de que um dia havia de matar o Rusty Brown. Como é visível e óbvio, nesta posição estou sob perfeito controlo.

Depois desta breve desculpa, a primeira palavra é de felicitações e vai para a Hugin Editores, Lda. e para os teatrólogos Miguel Barbosa e Luís Machado, pela coragem e iniciativa de lançar mais uma obra literária no panorama nacional.


Miguel Barbosa


Luís Machado

Pessoa conhecedora dizia-me recentemente que a qualidade dos nossos actores nada fica a dever à dos seus homólogos estrangeiros, que os existem entre nós de primeiríssima água, que se renovam e multiplicam sem deixar cair o testemunho do seu talento mas, face à questão cultural que o Teatro em si prefigura, escasseiam, isso sim, os autores portugueses, aqueles que poderiam tirar directamente o melhor partido émico da nossa língua, abordar com autenticidade o que de mais pertinente nos diz respeito, sem recurso à figura da tradução que, se resulta nos temas universais ou intemporais, pecará certamente nos que respeitam ao quotidiano.

Trazer as pessoas ao Teatro é um acto de cultura - e de solidariedade - bem hajam pois os que, aplainando dificuldades, contribuem generosamente para o efeito.

A segunda palavra dirige-se aos responsáveis pela FNAC - espaço que hoje nos acolhe - e às pessoas que, com a sua presença e amizade, quiseram honrar esta despretensiosa sessão, assim apoiando os Autores e amparando os primeiros passos do nascituro."

Bem. Havia, de facto, mais texto, mas algum sabotador e indecente vírus tê-lo-á certamente arrancado do computador. Ou então terá sido o próprio Rusty Brown, primo do Luís Miguel, depois de ter tomado conhecimento por portas travessas que, entre outras coisas, eu iria matá-lo a curto prazo, em conto prometido e premeditado, depois de o mimosear com algumas amabilidades tais como "grandíssimo filho duma cabeça de espermatozóide malparido" e, entre outras mais suaves, "uma mãe hipocondríaca e esquizofrénica como a tua nunca poderia ter dado à luz (ou a Alvalade ¿!) senão o aborto rupestre que tu saíste".

Entretanto, outras ocupações não me permitiram, ainda, acabar com esse pedaço de poluição ambulante, mas não perde pela demora. Diga-se que, ultimamente, tem andado bastante calado, o que tanto pode significar desmoralização temporária como um esforço para reunir a sua meia dúzia de neurónios e preparar mais alguma das suas inconcebíveis aventuras. Sim, ainda por cima se tem em muito bom conceito!

Mas não nos desviemos do assunto do livro e avancemos mais um pouco com a transcrição de parte da sua contracapa:

"Uma viagem ao mundo do crime com polícias e um detective à moda antiga, num universo romanesco onde a intriga, a aventura e o burlesco se entrecruzam numa cidade chamada Lisboa.

Esta história inicia-se com a leitura de um estranho testamento em que um velho comendador deixa uma choruda herança ao familiar que confesse o seu assassinato e que tenha a coragem de assumir as consequências desse crime. Para se habilitarem aos inúmeros bens, alguns dos sobrinhos, que odeiam o tio milionário, recorrem aos serviços do detective particular Luís Miguel Brown, uma figura com algo de herói, tipo Humphrey Bogart, de modo a poderem provar essa morte já anunciada.

...........................................................................

Com um imprevisto final romântico, onde Brown finalmente encontra o amor, "Na Cama Toda a Gente me Conhece" é uma homenagem aos filmes da série negra e aos policiais americanos dos anos cinquenta."

Assim me despeço deixando a todos quantos me lêem uma séria advertência:

 - Cuidado com os Brown! Com eles nunca se sabe o que pode acontecer...

    joaquim evónio

 

NA CAMA TODA A GENTE ME CONHECE

 

(Texto integral lido na "Apresentação" constante do fim do Capítulo "Prosa".

            Os Brown podem ter sabotado o computador, mas acabo de descobrir uma disquete!)

 

 

- Peça em 2 Actos de Miguel Barbosa e Luís Machado

Não sou teatrista. Apenas uma espécie de condutor de Domingo. Pertenço à grande maioria dos que por razões diversas não usufruem com regularidade os prazeres da Arte de Talma. Também não possuo requisitos específicos para estar aqui. Razões de sobra para sentir-me lisonjeado pelo facto de os Autores se terem lembrado de ir buscar me ao banco dos suplentes. Talvez a explicação mais plausível resida na velha ameaça de que um dia havia de matar o Rusty Brown. Literariamente, claro. Como é visível e óbvio, nesta posição estou sob perfeito controlo.

Depois desta breve nota, a primeira palavra é de felicitações e vai para a Hugin Editores, Lda. e para os teatrólogos Miguel Barbosa e Luís Machado, pela coragem e iniciativa de lançar mais uma obra literária no panorama nacional.

Pessoa conhecedora dizia-me recentemente que a qualidade dos nossos actores nada fica a dever à dos seus homólogos estrangeiros, que os existem entre nós de primeiríssima água, que se renovam e multiplicam sem deixar cair o testemunho do seu talento. Mas, face à questão cultural que o Teatro em si próprio configura, escasseiam os autores portugueses, aqueles que poderiam tirar o melhor partido émico da nossa língua, abordar com autenticidade o que de mais pertinente nos diz respeito, sem recurso à figura da tradução que, se resulta em temas universais ou intemporais, pecará certamente nos que respeitam ao quotidiano.

Trazer as pessoas ao Teatro é um acto de cultura -  e de solidariedade. Bem hajam pois os que, aplainando dificuldades, contribuem generosamente para o efeito.

A segunda palavra dirige-se aos responsáveis pela FNAC - espaço que hoje nos acolhe - e às pessoas que, com a sua presença e amizade, quiseram honrar esta sessão, apoiando os Autores e amparando os primeiros passos do nascituro.

E a terceira, finalmente, é para a família Brown, em especial para o Luís Miguel, dado às luzes da ribalta por esta dupla de escritores irónicos e bem dispostos que são Luís Machado e Miguel Barbosa.

Acerca destes nada vou acrescentar, são nomes e personalidades sobejamente conhecidos, e o próprio livro contém alguns dados biográficos - embora notoriamente escassos face à dimensão e polivalência das suas capacidades e à obra multifacetada com que nos vêm brindando, de forma pertinaz e sistemática, ao longo de tantos anos.

Rusty Brown foi, ainda é, um herói do policiário português, detective particular afogado em dificuldades financeiras, permanentemente acossado pelos tribunais para pagar pensões alimentares a um ror de ex-esposas - harpias pairando sobre os seus limitados carcanhóis. Os salários da secretária estão sempre em atraso, o que nada influencia a sua completa dedicação... Ele próprio se confessa mulherengo inveterado, mas não se pode atribuir culpa a quem por natureza emana elixires afrodisíacos de longo alcance, a quem, se não se defendesse de vez em quando, viveria um permanente tiro e queda. O escritório tem a sobriedade de quem coloca a profissão à frente do luxo, quer dizer, é sórdido e decadente quanto baste. Quanto à fama, ultrapassou as fronteiras e não há crime organizado que não tema a sua intervenção ou simples presença. Nem o Espaço escapou às suas incursões. E mais, e não menos importante: tem uma mãe que é um amor de pessoa, assalta o que lhe vier à tola quando não está na prisão, super possessiva,  ao melhor estilo da mãe-galinha, a telefonar lhe nas ocasiões menos propícias, sempre preocupada com a saúde e o comportamento do seu menino. Bem, quanto à linguagem, é capaz de fazer corar um carroceiro. As suas relações com a polícia regular são as normais: odeiam se com a maior cordialidade por entre os mais virtuosos piropos.

Ás vezes, quando cotejo este perfil sofrido com a eficiência e eficácia que o caracterizam, pergunto a mim próprio por que o ameacei de morte matada. Julgo que devido à inveja que nutro por ele: tanto sucesso em tantas áreas obscurece o mais comum dos mortais. E não estou disposto a reconsiderar, mau grado ter de contar também com a proficiência daquele filho do pai que se chama Luís Miguel. Promessas são promessas.

"Na Cama Toda a Gente me Conhece". Peça em dois Actos. Velocidade vertiginosa. O encenador intervém na acção. A Cena I principia com Luís Miguel Brown no proscénio, em ambiente decorado por música de jazz "muito lenta e sensual". Se não fosse sensual é que era para admirar. E se não viesse armar-se em protagonista também era um espanto. A acção decorre à volta da choruda herança dum tio que considera os sobrinhos uns autênticos parasitas e resolve pô-los à prova de forma muito peculiar. Os mortos caem como tordos, não propriamente um por página, mas aos molhos. O Inspector da polícia tem para com o detective a simpatia habitual. Nem falta o investigador americano. O médico legista é um apreciador das belas-artes: para ele há cadáveres lindíssimos, com pormenores da beleza mais celestial. A trama está bem urdida, o ritmo prende o espectador, cada cena é uma autêntica pintura. O humor e o burlesco estão presentes a cada passo. O desfecho é inesperado, nem poderia deixar de ser. Depois de ler, as cenas permanecem no espírito como se fossem telas.

Mas lá porque os Autores conseguiram fazer passar a sua mensagem - não é assim que é moda dizer se? - não pensem que vou contar a história. Os livros fizeram-se para serem lidos. E as peças de teatro para serem vistas. É ou não é?

Quem está a deleitar-se com a leitura interroga-se de vem em quando: - "Onde é que eu já vi isto? Onde é que já ouvi aquilo?" A explicação é simples. Luís Miguel é bem o filho de Rusty Brown. Herdou quase tudo, até o estilo. O que há pouco referi sobre o pai aplica-se quase na íntegra ao filho. Está completamente dispensado de qualquer análise para definir a paternidade. O ADN não é para aqui chamado. Também tem uma autêntica mãe-galinha. Está na prisão. Assalta que se farta. Preocupa-se imenso com o seu rebento que, aos 45 anos continua a ser para ela uma criança mimada. Até parece filha da avó do detective, o que obviamente não poderia ser, pois toda a gente sabe que Rusty Brown nunca se deixaria cair pelos encantos duma irmã, por mais que a cama tenha sido um dos seus mais fecundos teatros de operações.

Circunstância inovadora: Luís Miguel Brown conhece uma virgem de trinta anos por quem se apaixona no meio do assédio de todas as outras que o acham irresistível. Tem o hímen complacente - imagine-se (!). - mas não é nada que os vastos recursos do detective não venham a resolver, com ou sem berbequim.

Do desfecho, inesperado como já foi dito, faz parte um súbito afluxo de riqueza aos bolsos e à conta bancária do detective. Será que o escritório vai mudar de visual? Irá ganhar o aspecto e a funcionalidade duma consola verde espacial, com todas as tecnologias da última geração? Irá Luís Miguel Brown dedicar se à solução dos intrincados problemas colocados pelo terrorismo informático? E Silvana Beijoca, sua incondicional secretária, verá os salários finalmente em dia? E com quem vai o paradigmático herói festejar a despedida de solteiro?

E a querida mãezinha? Concordará com mais este terrível passo?

        Toca o telemóvel. No melhor da festa e na posição mais sui generis que imaginar se possa, Luís Miguel estende a mão e atende. A música suave e sensual não impede em nada as condições acústicas. Quem se lembraria de interromper num momento destes?

    -"Não, mãezinha, desta vez que se lixe o colesterol. O quê? Já saiu da prisão? Óptimo! Vai viajar? Não posso crer!"

    Vai assaltar o Markus & Spencius de Roma? Sim, tenha cuidado! Lembre-se da última vez! 

    Sim, mãezinha, sei que corro riscos e ando sempre disfarçado... Pois, pois é, mas por que me fez tão irresistível?

    Sabe como isto costuma acabar, não sabe? Pois, na cama.

    E "NA CAMA TODA A GENTE ME CONHECE"!

                Os Autores avançam para a boca de cena. Vêm abraçados, gabardine comprida e chapéu tipo Bogart. São longamente ovacionados pelo público entusiasta e  frenético. O pano já tinha caído.

Lisboa, FNAC, 10 Dez 99
joaquim evónio

A Romãzeira

e a Sombra

 


Ao centro, o Autor. À sua direita, o Editor, J. Manuel Capêlo

Foi com grande surpresa que recebi o convite de Mestre Miguel Barbosa para proceder à apresentação de um dos seus livros, na circunstância "A Romãzeira e a Sombra", da colecção "o lugar da pirâmide", Editora Átrio.

O evento teria lugar uns dias depois, a 06.02.92, com pompa e circunstância, no Salão da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

As minhas actividades tertuliares tinham começado havia pouco tempo, só mesmo os amigos me conheciam, daí que tenha, sem falsa modéstia, declinar convite tão honroso.

Foi-me explicado que tanto o Autor como o Editor - José Manuel Capêlo - tinham concertado suas opiniões e que esperavam mesmo que eu aceitasse.

Miguel Barbosa era já meu vizinho, muito bom vizinho, desde 1968 e conhecia-o, embora não muito profundamente, como grande Mestre de muitas artes. O nosso relacionamento cultural, no entanto, iniciara-se pouco tempo antes.

Bem, comecei a ler o Livro. Afinal não se tratava de um Conto, mas sim de dois, cada um com o seu título autónomo. A capa começava por ser enganadora, ao suscitar a ideia de que algo, eventualmente romântico, iria passar-se à sombra da árvore. Mas não, nada disso.

Fiz uma leitura cuidada, com inúmeros recursos ao Dicionário - sabia lá o que queria dizer "onfalópaga", por exemplo - e alinhavei uns apontamentos para servirem de base a uma intervenção de improviso.

É exactamente esse manuscrito que não encontro, mas ainda não desisti, pois há escaninhos a perscrutar em vários sítios depois duma mudança de casa que já ocorreu há cerca de um ano.

Fazendo apelo à memória, no entanto, posso dizer que a sala estava cheia e ali revi alguns amigos com que não me encontrava havia anos.

Quanto à apresentação em si, nessa como noutras alturas em que tive o prazer de debruçar-me sobra a obra do Mestre, a palavra fugiu-me sempre para a personalidade multifacetada deste artista incómodo e tão profícuo.

Recordo-me de ter sublinhado quanto a sua obra me fazia colocá-lo numa escola neogótica, dada a persistência e acutilância com que buscava a perfeição das alturas, quer na escrita, quer na pintura.

O livro não tem Prefácio e começa, logo a pgs. 5, com um belo poema do Autor:

 
"A ti
morto nado,
mil vezes em mil e um lugares
e que
andaste sempre no mesmo sítio
à volta da mesma árvore..."

E pouco mais vou acrescentar de cor, a não ser que a linguagem forte e metafórica nos leva para caminhos de meditação que ultrapassam em muito a vintena de páginas com que nos brindou.

Para terminar aquela apresentação, já que a considerei um desafio, decidi também desafiar o Autor, entrando nos seus terrenos através dum poema-retrato que então lhe dediquei.

É o que se segue e foi tão espontâneo que o apresento sem que lhe tenha introduzido desde então qualquer alteração significativa.

A SINERGIA DO MIGUEL

Para que sejas o Homem que és,
... Miguel,
doce, sereno e bom,
dragões de rompante
explodem dentro do peito,
vomitam línguas de negro e sangue,
queimando e ferindo como o fogo
e o diamante.


Cristos - Miguel Barbosa

Assumiste o mal do mundo,
misturas Quixote e Cristo
em simbiose ideal
e perfeita,
em busca duma vitória
distante mas merecida
sobre a dor, o medo e a escória.


Tu tudo vomitas:
Escarros sanguinolentos
arrancados
à respiração obscena,
tal e qual o fel cirrótico
de quem se embebeda
no álcool venenoso
dum sistema
mau, nepótico, ruim.

Teus fluidos reagem,
és puro, suave e forte,
mas nada é linear,
ou fácil, ou líquido.


Quixote ataca-
-Miguel Barbosa

Até o espírito,
de transparente que era,
ganhou a consistência e  roupagem
do fel, escarro ou esperma
sem excipiente de sangue ou lágrimas!

Os cúmplices somos nós,
Panças, Rocinantes,
iconoclastas e blasfemos praticantes,
insensíveis ao apelo 
com que nos queres guiar.


Cristos - Miguel Barbosa

Sim,
todos os produtos secundários
do minério da tua desventura
são purificados 
por esses dedos nefríticos
de mágica sinergia
donde brotam,
em cascatas de amor e alegria,
pautas de angústia, solos de agonia...
A que se convencionou chamar
Drama... Romance... Pintura!...
Nós,
insectos rastejantes,
seres abúlicos que tanto amas,
guardamos, avaros,
essas dejecções
que ofereces ao Cosmos
buriladas
em forma de muitas formas,
conteúdos semióticos
de milagres convergentes
sobrepostos,
tal rochedo paramétrico,
referencial,
lutador e redentor...
Quebrando lanças contra moinhos de vento
ou crucificando-se por amor...

 
Continua a defecar sobre o mundo,
... Miguel,
com a pedagogia agressiva
e cortante
que ensina a construir,
com as mãos, e os dedos e a alma,
um espaço fraternal,
uma ponte ou catedral,
nesta Babel injusta e fratricida
sem jardins suspensos
e que apenas alberga opressão
e cobiça,
só mal, todo o mal!


Quixote que vai... - Miguel Barbosa

Mandaste a  mensagem,
oxalá a tenhamos recebido.
Traduziste a violência
e  má-sorte,
foi a tua parte.
Expeliste-as, filtradas por ti,
violadas,
com todas a dores representadas...
Em soberbas obras de arte.


P'ra que sempre sejas,
... Miguel,
o Homem plural
e tão singular que és:
Sereno, puro e forte...
Doce. Suave.
... E bom.

           joaquim evónio

(Lido no final da apresentação de "A Romãzeira e a Sombra", de Miguel Barbosa, 
na S. P. de Autores, em 06.02.92  )

NA ESPERA DAS MARÉS

 

A Universitária Editora continua a propugnar, de forma persistente e continuada, pela divulgação da produção literária portuguesa, arriscando-se mesmo pelos campos menos procurados da Poesia. Depois de "Na Esquina do Vento", eis que nos brinda agora com um segundo livro de Ana Briz": "NA ESPERA DAS MARÉS".

 


A autora - Ana Briz

À Câmara Municipal de Lisboa, particularmente ao seu Pelouro da Cultura, também agradeço a dignidade do Espaço que proporciona para esta apresentação.

A todos os presentes, aqui reunidos pela amizade ou apreço pela Autora, obrigado por terem vindo.

Um escritor sente, pensa e escreve, mas, no entanto, o narrador é que fala por ele.

Ao leitor compete interpretar e sentir a obra que se lhe depara como carta de marear para a viagem da sua fantasia. Por isso, de acordo com a sua índole, cada um lê de forma diferente aquilo que lhe é oferecido sob a forma literária de prosa ou poesia.

Daí a riqueza da obra com que vamos preencher os nossos espaços ao apropriar-nos da criatividade que dialoga connosco. Daí que cada leitura seja diferente, na justa medida em que vem ao encontro de necessidades que sentimos, seja um sorriso - lago onde nadam e flutuam os sonhos... - seja uma lágrima - elixir alquímico da libertação.

Não deixa de ser sintomático que este novo livro de Ana Briz - "Na Espera das Marés" - comece por citar Platão, sublinhando dessa forma a sombra que aspira a ser real, o sonho que se reconhece por interposição da metáfora.
Gaiola dourada, no entanto, de que é necessário partir as grades.

Cito:
"Uma nesga de mar/sou oceano. /Um pedaço de azul/sou horizonte. /O meu pássaro de fogo voa mais além."
O que está para além do horizonte? Vale a pena desvendar o mistério dos seus caminhos, o contínuo voo das suas asas.

Volto a citar: 

"Náufraga de uma tormenta/vagueio pela praia as minhas ilusões." - Aqui se cria uma dúvida que persiste ao longo da obra: - Será a tempestade melhor que a bonança?

E logo a seguir, invocando o espírito da controversa obra de D.H. Lawrence, "O Amante de Lady Chatterley": 
"Se pudesse abraçar-te, estar completa/'A tinta ficaria no tinteiro'/Será a solidão que faz do poeta/ alma silenciosa em corpo inteiro?"

Na verdade, haveria tempo ou vocação para escrever se se vivesse uma vida plena, realizada? Um pouco mais adiante, veremos, em "Tarde de mais":

"Inventarás metáforas de loucura/cumplicidade de ventos e fogo/entrincheirado em formas de amargura/incendiarás em raivas teu malogro/Acabarás descobrindo em memórias/noites de paixão, no ardor de beijos".
No anseio de adaptar-se às novas formas ou metamorfoses que o ser e o não ser assumem, a sua sensibilidade vem ao de cima, especialmente no modo como se liga ao ambiente e reage com o ecossistema em que vive. Se a vida não lhe sorri, luta com denodo, deixando todavia ao leitor, nos intervalos das batalhas, uma sensação de alívio e ternura, premonitória duma busca do fulgor de que não desiste e lembrança da navegação arriscada em que, como sirene amazona, cavalgou e se predispõe a cavalgar as mais encapeladas ondas de mares tenebrosos.
E lá volta a sua identificação com as forças da natureza:

 "Sou amante do deserto/oásis, uma ilusão/a brisa sopra por perto/greta meu corpo vulcão" 

Ou ainda:

"Acorda então a madrugada/despenteando raios de sol"

Na impossibilidade de, neste espaço, produzir um exame exaustivo do que a poeta nos diz, tentemos abordar, ainda que abreviadamente, o contraponto para que as suas palavras nos convidam.

O escritor escreve, o leitor sente.

É fácil descobrir anseios irrealizados, aspirando a um desiderato que foge e a poeta tenta compensar com a suavidade que dela dimana.

A felicidade é um bem-estar positivo e perene, espiritual e carnal, irrealizável para quase todos os seres humanos.

Daí a sublimação que se encontra no concatenar das suas palavras, na busca dum éden jamais encontrado, na amargura transfigurada que essa busca consigo traz...

"Na Espera das Marés", pelo seu próprio título, já evidencia a incerteza e a ansiedade de encontrar algo, múnus para preencher alma e corpo, mesmo quando, pelas palavras, até parece saciado e feliz... mas o sentimento está mais longe, racionalizado, acima e distante, ditando o que não é para que os outros pensem que é...

Ana Briz, ou a narradora a quem emprestou a sua palavra, é praia e areia, búzio e concha, fímbria que separa duas realidades complementares, nela tudo depende do grande mar a que muitos chamaram oceano e outros, talvez menos lúcidos como eu próprio, apelidam apenas de vida.

Os ventos alíseos casam-se com o marulhar das ondas e ambos pretendem bolinar para bombordo mas as energias em presença conflituam entre si e com a própria natureza para pintar o quadro sui generis da sua poesia - dialéctica de amor e esperança, de conflito e desespero.

E tudo isso num tom que a rima enriquece com a naturalidade de quem não a procurou e acabou por encontrar.

A Poeta não faz a apologia da felicidade. Jogando com as palavras, as metáforas, não nos serve de guia para um passeio por edénicos jardins.

Convida-nos, sobretudo, à grande aventura de lutar contra a insatisfação e as pequenas conquistas efémeras: - Insta-nos, incomoda-nos, obriga-nos a assumir, tal peregrinos, um caminho tortuoso e de sacrifício em busca do que nos falta e não está ao alcance da mão - a procura do paraíso perdido.

Ora parece feliz, realizada, ora se nos apresenta sem laivos de esperança. 

Deste contraste brota uma das mais significativas marcas da poesia de Ana Briz. 

Não pode deixar de sentir-se, nas entrelinhas do sonho, quanto de incompleto e inconstante alterna com a aparente serenidade da escrita.

E para terminar, nada melhor do que as suas próprias palavras:

"No meu livro branco
nem uma palavra escrevi.

Espaço nu,
filtro de luz abandonado.

Mas em cada página
existe um corpo,
à espera
de ser desenhado." 

Palácio das Galveias, 07 Mar 2001
joaquim evónio

ESTRASBURGO 64

A Universitária Editora tem propugnado, de forma substantiva e profunda, pela divulgação da produção literária portuguesa, em prosa ou em verso, o que obriga a um meritório esforço, algumas vezes de mecenato. O futuro, como acontece nestes casos, há-de reconhecê-lo, apreciá-lo e agradecê-lo.

 A publicação dum novo livro é sempre um nascimento, uma aventura, e lança no desconhecido o produto dum acto de amor.

 

A pedagogia é sempre um acto de amor.

Às vezes, pouco importa ao autor, enquanto narrador, que a obra seja bem ou mal recebida.

Outras, só o reconhecimento público, raramente reflectido na quantidade de vendas, satisfaz quem tão profusamente trabalhou para gerar o nascituro.

Ocorre-me falar, por momentos, do apresentador que hoje sou. Pela negativa.

Nunca escrevi um romance que não fosse na imaginação. Disperso tem sido o que a minha pena ou o computador que exerce por mim produziram até ao momento.

Aqui estou como leitor, por amizade, solidariedade para com o escritor consagrado que aprecio e visualizo a um nível que não me foi dado alcançar.

João Marcos é, acima de tudo, um ser humano de excepção, pela postura, pela humildade natural, pelo silêncio prudente e eremita a que se remete. A alguém competirá fazer eco das suas qualidades e obras.

Já nos brindou com algumas de elevado nível literário e, dentre elas, seja me permitido salientar "Uma terra que se chamou Geridel" (1992), obra-prima da literatura contemporânea que bem melhor merecia ser conhecida.

Neste livro que hoje constitui o múnus da questão, há que reparar especialmente na gestão do tempo, não cronológico, como aconteceu de forma inovadora no cinema moderno.

Como acontece ainda neste "Estrasburgo 64", que hoje aqui nos reúne para assistir ao seu bom sucesso e também nos faz viajar entre o presente, o passado e o futuro.

O presente de cada momento, o passado inserido depois do presente, o futuro que se adivinha e se vai construindo nas linhas carinhosas com que o narrador nos encanta pois, como se sabe e tantas vezes se esquece, não há presente sem passado nem futuro sem presente.

Para confirmar esta asserção, vejamos que o romance tem o seu início em Paris, na Páscoa de 1970.

Passa depois para Estrasburgo, Setembro de 1964. Recorda com autenticidade o comportamento da juventude dos anos 60 e o 20.º aniversário da libertação de França face ao jugo nazi.

Continua em Lisboa, depois da Páscoa de 1970, prosseguindo até 1984, altura em que o protagonista repete a viagem a França, em circunstâncias algo diferentes das anteriores.

É nesta concatenação, viajando no tempo também dentro de cada capítulo, que nasce o romance cuja trama obviamente não vou desvendar. Se a tal me propusesse, ainda que com algum êxito, apenas iria cercear a leitura atenta duma obra que merece ser lida não apenas pelo enredo mas principalmente pela forma literária como nos é proposta.

A problemática é essencialmente humana, como se lê no Prefácio.

Direi apenas que o fim é inesperado e que a personagem central, de contornos intencionalmente nebulosos, contém em si própria o mistério e as inconsequências que lhe criam os atractivos para que seja desejado e querido, pois é delineado como uma pessoa calma, aparentemente estável, indiferença quanto baste perante os fenómenos que o cercam, com o atractivo superior da discrição e da humildade, muito ao contrário dos sedutores tradicionais.

Será Pedro um galanteador barato? Ele, que não conheceu o pai e perdeu a mãe aos vinte anos? Vive esta história entre os 26 e os 46 anos, de vez em quando encontra se naquela situação típica em que "o coração os atraía, a razão os afastava".

Pedro guardava no coração das mulheres, mesmo comprometidas, apenas um cantinho: "Um cantinho que é um Universo".

Poderíamos deambular entre o sagrado e o profano e concluir que este, à semelhança do primeiro, também é descontínuo, como aquele Café de reencontro entre Pedro e Teresa, que ambos escolheram porque lhes suscitava recordações especiais. 

Sublinhem-se ainda, porque importantes, os apartes filosóficos, os monólogos existenciais sobre a vida e a morte, a intervenção do narrador nos pensamentos íntimos das personagens, especialmente da central, inserindo importantes registos, trazendo à baila lembranças doutros grandes escritores.

Não seria agora oportuno transcrever esses bons momentos de meditação ou êxtase, como por exemplo, lembrando-se de Miguel Torga: afinal o estrangeiro é " onde se diz D. Filipe, quando eu digo D. Sebastião".

Não ignoremos, entretanto, oposta à personalidade de Pedro, a figura dum militante político, seu amigo desde os 16 anos, Armando Lacerda, naturalmente vitimado pela contingência do seu próprio "Auto da Índia"...

E, para terminar, que não falte nestas palavras o  enquadramento histórico e sociopolítico a que se reporta a época de 64-84, já parcialmente descrito no Prefácio do Prof. Dr. J. Fernando Tavares, período pleno de dinâmica e de mudança, mudança contra o conservadorismo, implicando uma readequação global face ao desejável e ao possível.

 Não se trata de um romance histórico, mas essa moldura revela-se um dado fundamental para situar os factos narrados, usando um peculiar humor algo esbatido pelo tempo e que, na época dos acontecimentos, teria constituído emoção bem mais forte.

Estamos perante um romance que é, ao mesmo tempo, um exercício de pedagogia democrática. Ou da libertação.

Citando de cor um amigo meu, a ficção não é uma fuga da realidade mas sim, pura e simplesmente, uma fuga para a realidade.

Este calmo mas impetuoso narrador não ignorou, mas também não abusou desse húmus quente e rigoroso em que se insere a sua narrativa.

Fiquemos pois a pensar. Como continuaria a história? 

O talento do escritor fê-la parar na altura certa. Quem quiser extrapolar está no seu legítimo direito.

As personagens, umas mais esfumadas que outras, continuam a fazer-nos companhia. Que será feito delas agora, quinze anos depois? Se ainda for vivo, Pedro já tem 61 anos. Que se terá entretanto passado?

Eis todos os ingredientes que me pareceram relevantes. Que cada um tome o seu exemplar com a liberdade de contradizer a leitura que me propus fazer.

Mais uma história que vale a pena ler.

 

Universitária Editora, 10 de Março de 1999
joaquim evónio

Esboços Pessoanos
Apresentação da 1ª edição

Minhas senhoras e meus senhores, Amigos:

Oxalá a nossa casa fosse sempre tão pequena para receber os amigos.

Amigos de Pessoa, entenda-se, sem deixar de sublinhar, no entanto, o que significa para nós a presença de todos os que nos distinguem com o calor da sua amizade e que, por isso, quiseram  estar aqui connosco, neste momento  em que o Poeta, que "ardeu em versos num dos quartos desta casa", recebe uma das mais modestas homenagens de entre todas as que já lhe foram prestadas.

Um dos mais proeminentes  românticos da nossa literatura disse um dia que é uma pena quando os nossos amigos não são amigos uns dos outros. Aqui, no espaço paradigmático e insubstituível da Casa Fernando Pessoa, estamos a colocar em evidência, de forma simples e de coração aberto, que, mesmo no mundo cada vez mais materializado em que vivemos, ainda há espaços de convergência para o exercício da evocação e da solidariedade.

Neste mesmo dia, no último ano da sua vida, o Poeta escrevia o poema "Liberdade" (Grande é a poesia, (...) / Mas o melhor do mundo são as crianças ).

Talvez também por isso, esta evocação de linhas negras, de contornos.

 Depois, as legendas ( dizeres que acompanham um desenho para facilitar a sua compreensão ).

Momentos autonomizáveis da vida do Poeta, tudo estava contido de forma indelével no grafismo das suas atitudes: os "Extractos de solidão" que o acompanharam durante toda a vida; a "Expectância" quase permanente; a "Sintetização", "pela inteligência"; a "Omnipresença" de Mário de Sá-Carneiro ( silhueta que acompanha o seu pensamento ); a "Heteromorfia", expressão criadora de personalidades independentes adentro da sua identidade multifacetada; a "Ofélia", amada à sua maneira; os "Lepidópteros", um dos termos mais depreciativos utilizados pelo grupo de Orpheu e criação de Sá-Carneiro, conforme nos diz Almada Negreiros; a "Carta para Paris", simbolizando a correspondência trocada nas vésperas do suicídio de Sá-Carneiro; o "Orpheu", grande movimento de aventura tertuliar, corte epistemológico com as "literaturas" da habilidade, e, finalmente, a "Imortalidade", que pareceu andar sempre arredada da vida do poeta mas da qual, segundo António Quadros, poderia ter tido uma premonição quando, em 23 de Maio de 1932, escreveu  "A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto."

As mesmas evocações na voz de Margarida Sanches, do "Grupo Dizer" da Associação Cultural Sol XXI.

Mas antes, não queríamos deixar de agradecer a vossa presença e as diversas solidariedades que se cruzaram para tornar possível este momento.

Uma palavra especial para o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa que, com grande disponibilidade, nos franqueou este espaço .

Uma palavra, ou antes duas, um esboço pessoano que José Jorge Soares deixa depositado nesta Casa e um poema ( talvez), a evocar a universalidade da capital europeia da cultura:

LISBOA 94

O preto e o branco
desfraldados,
são um poema as cores de Lisboa...
O branco europeu
mais o negro africano
deram-se as ondas, mãos,
braços do Oceano,
e foram tão longe!

                    joaquim evónio
Casa Fernando Pessoa,
16 de Março de 1994

 

HISTÓRIAS DE GUERRA
Índia, Angola, Guiné - Anos 60
José Pais - Prefácio Edição de Livros e Revistas, Lda - Lisboa 2002

Autenticidade, coragem e acção.

...Onde os senhores das fazendas julgavam que a tropa lhes ia garantir continuidade do estatuto injusto de contratados, a que estavam habituados, enganaram-se. José Pais, e felizmente muitos outros, fizeram prevalecer na sua zona de acção, em Angola, de forma inequívoca e irreversível, a salutar expressão dos direitos do Homem!...

«O Autor honrou-me com o convite para a apresentação deste livro.

Aqui estou. Em óptima companhia.

Uma palavra de parabéns à Editora Prefácio por ter proporcionado o advento de mais um nascituro.

Obrigado à Sociedade Histórica da Independência de Portugal (S.H.I.P). por nos ter acolhido entre a dignidade honrosa das suas paredes ancestrais.

A todos os presentes, um agradecimento pela sua presença solidária à volta do José Pais, protagonista deste evento. Ele merece.

Vou tentar responder a duas perguntas: 

Quem é o Autor? 

O que é este livro que agora deu à estampa?

Ambas poderiam ser resumidas sob a mesma epígrafe: Autenticidade, coragem e acção.

É como se um espelho reflectisse no livro a personalidade do Autor, desvendando todavia alguns pormenores de sentimentalismo que teima em esconder na vida real.

O Prefácio de Manuel Bernardo já esclarece as linhas fundamentais da sua vida, um bom retrato. Nesse campo, pouco mais há a fazer do que colocar-lhe a moldura adequada.

Conheço o José Pais há quarenta e cinco anos, desde os bancos da Escola do Exército.

Depois, os nossos caminhos divergiram fisicamente, numa diáspora tão característica desse tempo, até que nos reencontrámos, por convite dele, a trabalhar em conjunto há vinte e cinco anos, numa instituição oficial devotada à protecção dos nossos concidadãos, de que ele foi um dos maiores impulsionadores.

É um raro combatente militante e inato, não convencional, logo, politicamente incorrecto.

É capaz de comover-se mas também não hesita em manifestar o seu direito à indignação.

Sagaz e profundo nas suas leituras de situação, possui uma notável capacidade de organização e trabalho, fundada na escola do exemplo que sempre cultivou.

Ele próprio o diz, algures, no livro que temos perante nós:

"Um comandante, seja do que for, de uma unidade militar, de uma empresa, de uma família, de um governo, é sempre, como na Marinha, o último a abandonar o barco ".

A tudo isto costuma chamar-se grandes qualidades de chefia.

Defensor intransigente dos interesses dos homens sob o seu comando, o que não granjeia normalmente os maiores encómios da hierarquia tradicional, foi também intolerante e severo quando estiveram em jogo os direitos da população à sua guarda.

Onde os senhores das fazendas julgavam que a tropa lhes ia garantir continuidade do estatuto injusto de contratados, a que estavam habituados, enganaram-se. José Pais, e felizmente muitos outros, fizeram prevalecer na sua zona de acção, em Angola, de forma inequívoca e irreversível, a salutar expressão dos direitos do Homem!

Pertence a uma geração que aprendeu a conviver com a morte para que haja vida; que soube viver a guerra para que haja paz.

Sempre respeitou o Inimigo, seu adversário. Mas ganhou uma alergia que, porventura, ainda remanesce, ao ar condicionado.

Também é uma história tão antiga quanto a guerra. Nenhum combatente pode admitir que se fale em meras acções de polícia quando os militares morrem em combate debaixo de fogo cerrado ou atingidos por minas traiçoeiras.

Pela reverência que sempre manifestou pela cultura da comunidade em que se encontrava, pela forma como dirimia pleitos, ganhou o honroso epíteto de "Capitão Mandinga".

Adepto da resposta progressiva e adequada à situação, confessa:

"A guerra era horrorosa. Tinha fantasmas e alguns deles ainda perduram".

Todos nós conhecemos a proliferação, mais ou menos significativa, do stress de guerra. Não é um mito e necessita do acompanhamento adequado

Sofre a angústia de sonhar com o desfile dos mortos, através das sombras fantasmagóricas do amanhecer na bolanha ou da humidade do cacimbo.

Voltemos ao princípio.

Filho abençoado por uma inesquecível e boa Mãe, que lhe ofereceu um missal e uma imagem da Virgem antes da sua primeira partida, dedica o livro, em primeira instância, "À Senhora da Veiga, que me salvou a vida e a quem devo tudo":

Depois duma comovente Nota do Autor, plena da autenticidade e do sentimentalismo que se lhe reconhece, o livro começa com a abordagem dos convívios entre ex. combatentes, onde as pessoas e famílias se encontram, saudosas da juventude e daquilo que, apesar de tudo, sentem como os melhores anos das suas vidas. Vindos de todos os lados, credos e convicções, ali nada os separa. O traço de união é exaltado, nasce da partilha dos riscos que viveram juntos, das glórias e perdas comuns, duma percepção de solidariedade activa que perdurará tanto como as suas vidas.

Afinal, cumpriram com zelo e exaltação a missão social para que a Pátria os mandatou. Não esperaram benesses. Também não as tiveram. Mas guardam para sempre, com toda a legitimidade, a reserva íntima de que os enaltecidos foram os lavradores absentistas que vieram colher os frutos duma terra que não chegaram a lavrar.

Respigando:

Face aos restos mortais de um elemento inimigo caído em combate, o então capitão José Pais ordenou que se preparasse um funeral a esse homem como se fosse dos nossos. E rezaram por ele, deixando uma lápide:

"Ao inimigo desconhecido. Paz à sua alma. C. Caç. 724 SET 66."

Respigando de novo:

Uma criança, encontrada abandonada no mato depois dum duro episódio de combate, foi adoptada pela Companhia que só mais tarde, forçada pelas circunstâncias de deslocação para outra zona, a entregou à Missão que dela tomou conta:

 "Nós todos amávamos aquele menino como se fosse filho de cento e setenta pais. Será vivo?"

E agora, mudando um pouco de tom:

Os primeiros socorros também eram aplicados às viaturas: com imaginação e criatividade, todos os expedientes serviam para repô-las em andamento. E andavam mesmo! Colocava-se à prova uma polivalência do nosso soldado que faz dele um dos mais resistentes do mundo. Era o sentido de improvisação. A inteligência pragmática, a abordagem concreta dos problemas.

Em resumo:

Este livro é uma história de muitas vidas, todas tão iguais, todas tão diferentes.

Merece ser lido e meditado.

Apesar da dureza imanente que dele transpira, das verdades grandes como punhos, do odor a pólvora ao bafio burocrático, ninguém tem de sentir vergonha. É uma honra ser militar num País construído por soldados e marinheiros.

E a guerra e o pós-guerra passaram-se no contexto duma problemática da conquista do poder no seu sentido mais lato, a que não faltaram as inevitáveis e condicionantes tramas internacionais.

Para terminar, tal como o Autor, refira-se uma cerimónia junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, durante a qual José Pais partilhou uma flor com a viúva do Ten. Comando Tomás Camará.

Felizmente, ainda sobrou um malmequer para a ternura solidária duma homenagem póstuma.

Por que não estender as suas pétalas simbólicas a todos os irmãos separados, a todos os filhos pródigos que só por razões conjunturais se afastaram da casa-mãe?

O ressentimento e a mágoa não podem ser para sempre.

A principal missão dos veteranos é, para além do exemplo, deixar o seu testemunho. Não há futuro sem passado. José Pais está a fazê-lo.

Mas é também, pela sabedoria acumulada, procurar caminhos de concórdia e buscar a paz, tanto interna como externa. Nesta era de alta tecnologia e de todas as incertezas, o mundo é cada vez mais pequeno e efémero.

A Pátria, sim, é eterna.»

Lisboa, 2 de Outubro de 2002

Joaquim Evónio de Vasconcelos

MANUAL DO DESPERDÍCIO

 

 

..."Trata-se, afinal, da palavra burilada, finamente trabalhada como os bordados e as filigranas da sua terra natal, purificada pelas retortas, serpentinas e tubos de ensaio do seu alquímico laboratório. ...)

 

A alquimia, diz-se, foi a precursora da química.

No entanto, por mais séculos que tenham decorrido desde as primeiras experiências alquimistas, nem a química nem o conjunto de todas as ciências conseguiram atingir os desideratos a que a primeira se propunha.

Vem isto a propósito de Armando Taborda e do seu livro "Manual do Desperdício".

Nos dias de hoje, se alguém tentou ser alquimista foi sem dúvida ele, o Autor, e se em algum sítio foram vertidos os resultados do seu trabalho, temo-los diante de nós, na reciclagem de toda a ganga segregada do minério da sua vida, emprestando nexo àquilo que nenhum sentido teria se o dom da palavra não tivesse contribuído para lhe emprestar coerência.

Embora o Autor confesse uma capacidade cada vez mais diminuta de emocionar-se, o facto é que este livro nada tem de frio ou árido. Terá, pelo contrário, o calor que cada um de nós for capaz de sentir através do exercício da sua leitura, da interpretação do pensador-filósofo que lhe está por detrás.

A obra refere algumas das épocas que Armando Taborda viveu, em diversos continentes e em contacto com também distintas realidades culturais: Portugal, Angola, Moçambique, Guiné, Estados Unidos da América. Os capítulos em que se divide são disso testemunho: "Da generosidade Imposta", "Da revolução atrasada", "Da Ilha desencantada", "Do amor eterno enquanto dura" e "Da sobrevivência possível".

Não é, todavia, a vida vivida pelo Autor que poderemos ler nas suas páginas. Os seus textos são uma espécie de gráfico de intervalos, o resultado intelectual e racionalizado de experiências e emoções, numa perspectiva estruturalista e intemporal.

Trata-se, afinal, da palavra burilada, finamente trabalhada como os bordados e as filigranas da sua terra natal, purificada pelas retortas, serpentinas e tubos de ensaio do seu alquímico laboratório.

Se os antigos, na busca do metal nobre, conseguiram fazer descobertas tão sensacionais como a da pólvora ou do fósforo, o contemporâneo Armando Taborda terá ido porventura um pouco mais longe e encontrado a "pedra filosofal", o segredo capaz de tudo transformar em ouro.

E por uma razão muito simples: percebeu que o ouro está na palavra, na concatenação de palavras, na nobreza e na filosofia da ideia que as palavras exprimem.

Para isso lançou mão de todos os desperdícios em que foi tropeçando, sublimou  o lixo das suas experiências, viveu intensamente e, no fim de tudo, como diria Rilke, ficou em condições de escrever um verso. Verso ou versos todavia unilaterais, já que o Autor é suficientemente reflexivo para que deixe entrever um diálogo com o leitor. Lega-nos, com singular exigência autocrítica, os seus textos pensados, ou pensamentos textuais, correspondentes a factos nem sempre fáceis de escrutinar, mas que terão decerto desempenhado um papel casuístico a montante da limpidez estrutural em que se projectaram as suas reflexões.

Os factos do Autor, afinal, não passam da carne conjuntural da ossatura estética com que ora nos presenteia.

As "Considerações à laia de prefácio" são da autoria do consagrado Ulisses Duarte e a capa é uma feliz composição artística de Luís Dantas.

Trata-se de mais uma obra publicada na  colecção Calíope  da Ceres Editora. 

Termino apenas com um grande abraço de felicitações para o Autor, o Prefaciador e o Editor.

E convido todos a ler o "Manual do Desperdício"; irão decerto aferir da autenticidade das palavras amigas mas sinceras que acabei de proferir.

Lisboa, 18 de Janeiro de 1995

joaquim evónio